Malária grave e o rim: LRA, hemólise e o que vem depois

Sumário
- Por que o rim importa na malária grave
- O que os critérios KDIGO revelaram em crianças
- Como o parasita lesa o rim
- Tratamento pela diretriz da OMS
- Paracetamol como protetor renal: o que se sabe
- Depois da alta: o rim e a vida da criança
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Num caso fictício, uma menina de 3 anos chega a um hospital distrital com febre há quatro dias, prostração e urina cor de chá. O teste rápido para malária é positivo e o esfregaço mostra muitas formas em anel de Plasmodium falciparum. A creatinina da admissão é 1,1 mg/dL, longe do limite de 3 mg/dL que a Organização Mundial da Saúde (OMS) usa para chamar a função renal de comprometida. Para a idade dela, porém, esse valor pode significar que a filtração caiu pela metade.
A malária continua sendo uma das infecções que mais matam no mundo. Em 2024, a OMS estimou os casos de malária em cerca de 282 milhões, com 610 mil mortes em 80 países (OMS, nota descritiva). A Região Africana da OMS concentrou 95 por cento das mortes, e as crianças com menos de 5 anos responderam por cerca de 75 por cento das mortes na Região (OMS, nota descritiva).
Este texto usa as diretrizes da OMS como eixo e mostra o que estudos mais recentes acrescentaram sobre o rim: a lesão renal aguda (LRA) é frequente, marca maior risco de morte e deixa rastros depois da alta.
Principais pontos
- A OMS inclui o comprometimento renal entre os critérios de malária grave quando a creatinina passa de 265 µmol/L (3 mg/dL) ou a ureia passa de 20 mmol/L (OMS, 2025).
- Numa metanálise com 13.528 crianças africanas, 47 por cento tinham LRA pelos critérios KDIGO, e a LRA aumentou em 2,87 vezes a chance de morrer no hospital (Bond et al., 2026).
- O limite da OMS identificou só 3,4 por cento das crianças e deixou passar 93 por cento das LRA adicionais detectadas pelo KDIGO (Bond et al., 2026).
- A hemólise intravascular libera hemoglobina livre, que provoca estresse oxidativo no túbulo renal e se associa à LRA e à necessidade de diálise em adultos (Plewes et al., 2017).
- A OMS pede avaliação individual dos fluidos, contraindica bolus rápido e indica hemofiltração ou hemodiálise na insuficiência renal estabelecida (OMS, 2025).
- Em crianças de Uganda acompanhadas por mediana de 6,5 anos, a LRA se associou a risco de morte 3,36 vezes maior, que continuava alto depois de dois anos (Mellencamp et al., 2026).
- O paracetamol como protetor renal mostrou sinal favorável em adultos, mas ainda é uma terapia em investigação (Plewes et al., 2018; Paasi et al., 2026).
Sumário
- Por que o rim importa na malária grave
- O que os critérios KDIGO revelaram em crianças
- Como o parasita lesa o rim
- Tratamento pela diretriz da OMS
- Paracetamol como protetor renal: o que se sabe
- Depois da alta: o rim e a vida da criança
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
Por que o rim importa na malária grave
Uma doença que mata, e mata mais com o rim comprometido
A diretriz da OMS lembra que a mortalidade da malária grave sem tratamento, sobretudo da malária cerebral, se aproxima de 100 por cento, e cai para 10 a 20 por cento com tratamento antimalárico eficaz e cuidado de suporte (OMS, 2025). O mesmo texto afirma que o risco de morte cresce quando há várias complicações ao mesmo tempo, e o rim é uma delas.
Em adultos com malária falciparum grave, a acidose metabólica e a LRA são preditores independentes de morte em todas as faixas etárias (Sriboonvorakul et al., 2018). Em crianças africanas, a LRA definida pelos critérios KDIGO foi um fator de risco robusto para morte em diferentes épocas, regiões e subgrupos (Bond et al., 2026).
A leitura da gasometria nesses pacientes segue o roteiro do texto sobre acidose metabólica e ânion gap.
Quem é atendido e onde
A maior parte das mortes acontece em lugares onde a creatinina nem sempre está disponível e a diálise é rara. Por isso, a forma de reconhecer a LRA na beira do leito pesa tanto quanto o tratamento. Quem atende viajantes que voltam de áreas endêmicas também precisa conhecer o tema: o raciocínio diagnóstico da febre no viajante termina, em parte dos pacientes, numa malária grave com rim comprometido.
Cinco espécies de Plasmodium infectam seres humanos com regularidade, e a hemólise mais extensa ocorre na infecção por P. falciparum (Katsoulis et al., 2021). A LRA também aparece na malária por P. knowlesi, estudada no ensaio PACKNOW (Cooper et al., 2022). Este texto se concentra no P. falciparum, que responde pela maior parte das mortes e da evidência.
O critério da diretriz
Para fins epidemiológicos, a OMS define malária falciparum grave pela presença de parasitemia assexuada mais um ou mais critérios, sem outra causa identificada (OMS, 2025). Entre os critérios estão rebaixamento da consciência, prostração, acidose, anemia grave, icterícia, choque e o comprometimento renal, com creatinina acima de 265 µmol/L (3 mg/dL) ou ureia acima de 20 mmol/L.
A diretriz recomenda medir a função renal imediatamente em adultos com suspeita de malária grave (OMS, 2025). Ela também lembra que o médico não deve se preocupar demais com definições: quem parece gravemente doente precisa de tratamento parenteral imediato (OMS, 2025).
O que dizia o manual de 2012
O manual de manejo da malária grave da OMS descreve a insuficiência renal como comum em adultos e rara em crianças (OMS, 2012). No texto sobre desidratação infantil, o manual diz que a oligúria em crianças pequenas costuma indicar desidratação e não lesão renal, que seria rara nessa idade (OMS, 2012).
O mesmo manual afirma que a lesão renal da malária decorre de necrose tubular aguda e é sempre reversível nos sobreviventes (OMS, 2012). As duas ideias, rara em crianças e sempre reversível, foram as que mais mudaram com os estudos da última década.
O que os critérios KDIGO revelaram em crianças
Uma LRA muito mais frequente do que se pensava
Antes do uso dos critérios KDIGO, a frequência de LRA na malária era muito subestimada em adultos e crianças (Katsoulis et al., 2021). Os critérios KDIGO definem LRA por aumento relativo da creatinina em relação ao valor de base, e não por um limite fixo, o que muda tudo numa criança pequena com creatinina basal baixa. As mudanças propostas na definição e nos estágios estão no texto sobre o que a KDIGO 2026 mudou na LRA.
Numa coorte de Uganda com crianças com malária cerebral ou anemia grave por malária, a LRA esteve presente em 35,1 por cento (Conroy et al., 2019). Em outra coorte ugandense, de 598 crianças com malária grave, a prevalência foi de 45,3 por cento (Namazzi et al., 2022). Num ensaio em Uganda, metade das crianças com LRA desenvolveu a lesão depois da admissão, e não na chegada (Conroy et al., 2016).
A metanálise de 2026
A metanálise de dados individuais reuniu 18 estudos de 8 países, com 13.528 crianças de 3 meses a 16 anos e 7 por cento de mortes (Bond et al., 2026). A LRA pelos critérios KDIGO apareceu em 47 por cento, com 47 por cento das crianças com LRA no estágio 1, 30 por cento no estágio 2 e 23 por cento no estágio 3 (Bond et al., 2026).
A chance de morte foi 2,87 vezes maior com LRA (IC 95 por cento de 2,28 a 3,61), e a mortalidade subiu de forma contínua a cada estágio (Bond et al., 2026). O critério da OMS, creatinina acima de 3 mg/dL, apareceu em 3,4 por cento das crianças; todas também tinham LRA pelo KDIGO, mas o limite da OMS deixou passar 93 por cento das LRA adicionais (Bond et al., 2026).
O problema da creatinina de base
Para usar o KDIGO é preciso saber qual seria a creatinina normal daquela criança, e quase nunca há um exame anterior. Um estudo em Uganda comparou seis métodos de estimar a creatinina de base em crianças com malária grave e em crianças saudáveis da comunidade (Batte et al., 2020). A equação de Pottel baseada na idade foi o método mais preciso, com menor viés que a equação de Schwartz baseada na altura (Batte et al., 2020).
Conforme o método, a prevalência de LRA variou de 15,6 a 43,4 por cento, mas em todos eles a mortalidade cresceu a cada estágio (Batte et al., 2020). A metanálise de 2026 mostrou que limites simples de creatinina por idade, fáceis de usar na beira do leito, tiveram desempenho parecido com o KDIGO completo para prever morte (Bond et al., 2026). Em hospitais com prontuário eletrônico, alertas automáticos e modelos de previsão de LRA são outra via de reconhecimento precoce, com os limites discutidos no texto sobre IA na nefrologia.
Essa questão lembra a lógica da probabilidade pré-teste: o mesmo número de creatinina tem significados diferentes conforme a idade e o tamanho do paciente.

Como o parasita lesa o rim
Sequestro, obstrução e inflamação
A revisão de Katsoulis e colegas resume os mecanismos da LRA na malária grave: sequestro de hemácias parasitadas na microcirculação, obstrução microvascular, hemólise e inflamação (Katsoulis et al., 2021). Marcadores de ativação endotelial e de obstrução microvascular se associaram à LRA tanto em crianças quanto em adultos com malária grave (Katsoulis et al., 2021).
Na coorte ugandense de 2019, a apresentação da LRA era compatível com azotemia pré-renal, e a desidrogenase láctica, marcador de hemólise intravascular, foi fator de risco independente para LRA (Conroy et al., 2019). Isso sugere que a lesão começa muitas vezes com hipoperfusão e hemólise, antes de se tornar estrutural.
Hemoglobina livre e estresse oxidativo
Em Bangladesh, 58 por cento dos adultos com malária grave já tinham LRA na admissão (Plewes et al., 2017). Os pacientes com LRA tinham mais hemoglobina livre no plasma e mais marcadores de peroxidação lipídica, e esses marcadores se associaram à necessidade posterior de hemodiálise (Plewes et al., 2017).
O mecanismo proposto é conhecido em outras hemólises. Depois que a haptoglobina se esgota, a hemoglobina livre causa dano oxidativo ao túbulo renal e gera isoprostanos, que são vasoconstritores renais potentes (Plewes et al., 2018). A mesma lógica aparece no texto sobre reação transfusional hemolítica, em que a hemoglobina livre também ameaça o rim.
Febre hemoglobinúrica: a urina escura
A OMS lista a urina escura ou com sangue entre os sintomas graves de malária que exigem atendimento de emergência (OMS, nota descritiva). O manual de 2012 descreve a hemoglobinúria como incomum na malária e, em adultos, associada à anemia e ao comprometimento renal (OMS, 2012).
Numa coorte de 999 crianças ugandenses com doença febril aguda, 8,2 por cento tinham história de urina cor de chá, e essa história se associou a chance 2,18 vezes maior de LRA (Conroy et al., 2022). A LRA grave, e não a urina escura em si, se associou a maior risco de morte no hospital (Conroy et al., 2022).

A cor da urina é uma pista barata, que a família consegue relatar, assim como a hora da última micção e o uso recente de remédios oxidantes. O manual da OMS lembra que pessoas com deficiência de G6PD podem ter hemólise e hemoglobinúria desencadeadas por primaquina ou outros remédios oxidantes, mesmo sem malária (OMS, 2012). Em crianças, outra causa de urina escura com LRA é a síndrome hemolítico-urêmica, que entra no diagnóstico diferencial quando o teste para malária é negativo.
Tratamento pela diretriz da OMS
O antimalárico primeiro
A diretriz da OMS recomenda artesunato intravenoso ou intramuscular por pelo menos 24 horas, seguido de três dias de um tratamento combinado com artemisinina por via oral (OMS, 2025). Crianças com menos de 20 kg devem receber uma quantidade de artesunato por quilo maior que a de crianças maiores e adultos (OMS, 2025).
No ensaio AQUAMAT, com 5425 crianças africanas, a mortalidade foi de 8,5 por cento com artesunato e de 10,9 por cento com quinina, uma redução relativa de 22,5 por cento (Dondorp et al., 2010).
Ajuste na disfunção renal
A diretriz afirma que os derivados da artemisinina dispensam ajuste na disfunção de órgãos (OMS, 2025). A quinina, ao contrário, se acumula na disfunção grave: se a LRA persistir ou não houver melhora em 48 horas, a quantidade deve ser reduzida em um terço (OMS, 2025). O ajuste é desnecessário em quem já está em hemodiálise ou hemofiltração, segundo a mesma diretriz.
Os princípios gerais de ajuste de remédios na LRA, como evitar nefrotóxicos, estão no texto sobre lesão renal por remédios.
Fluidos: a linha fina
A OMS pede que a necessidade de fluidos seja avaliada caso a caso, porque adultos com malária grave são muito vulneráveis à sobrecarga de volume, enquanto crianças tendem a chegar desidratadas (OMS, 2025). A infusão rápida em bolus de coloides ou cristaloides é contraindicada (OMS, 2025).
Em adultos, a diretriz descreve uma linha muito fina entre a hiper-hidratação, que leva ao edema pulmonar, e a hipo-hidratação, que agrava o choque, a acidose e o comprometimento renal (OMS, 2025). A recomendação é reavaliar com frequência a pressão venosa jugular, a perfusão periférica, o turgor da pele e o débito urinário. O reconhecimento da criança que piora, discutido no texto sobre escores de alerta pediátricos, ajuda a decidir quando reavaliar.
Em crianças, o manual de 2012 orienta suspeitar de LRA quando o débito urinário continua abaixo de 1 ml/kg por hora depois de uma reidratação cuidadosa (OMS, 2012).
A conduta na LRA
A tabela da OMS para complicações da malária grave manda excluir causas pré-renais, checar o balanço hídrico e o sódio urinário e, na insuficiência renal estabelecida, iniciar hemofiltração ou hemodiálise, ou diálise peritoneal se nenhuma das duas estiver disponível (OMS, 2025).
A diretriz acrescenta que, se houver disponibilidade, a hemofiltração deve começar cedo na LRA ou na acidose metabólica grave que não respondem à reidratação (OMS, 2025).
Diálise: o que escolher quando há opção
O manual da OMS de 2012 afirma que a hemofiltração é mais eficiente e se associa a mortalidade significativamente menor que a diálise peritoneal (OMS, 2012). O manual recomenda que a terapia renal substitutiva seja feita em centro com experiência e que o paciente seja transferido para uma unidade de diálise sempre que possível (OMS, 2012).
A diálise peritoneal continua útil em lugares onde é a única opção. A terapia deve começar mais cedo do que tarde, sobretudo na doença fulminante, segundo o mesmo manual (OMS, 2012).

Quando a diálise falta
Na LRA grave da malária, a mortalidade é de cerca de 75 por cento sem terapia renal substitutiva e de 26 por cento com ela, segundo dados citados por Plewes e colegas (Plewes et al., 2018). Os mesmos autores lembram que essa terapia muitas vezes falta nas áreas endêmicas. O acesso à diálise depende da rede de transferência, como no texto sobre doenças crônicas em desastres.
| Ponto | Diretriz da OMS (2025) e manual (2012) | Evidência com critérios KDIGO |
|---|---|---|
| Definição de comprometimento renal | Creatinina acima de 3 mg/dL ou ureia acima de 20 mmol/L | Aumento relativo da creatinina sobre a de base; limites por idade funcionam na beira do leito |
| Frequência em crianças | Rara, segundo o manual de 2012 | Entre 35 e 47 por cento nas coortes africanas |
| Prognóstico | Comprometimento renal é critério de gravidade | Chance de morte 2,87 vezes maior, crescente por estágio |
| Reversibilidade | Sempre reversível nos sobreviventes, segundo o manual de 2012 | Doença renal persistente em 15,6 por cento em um mês e mortalidade alta após a alta |
| Manejo | Fluidos individualizados, sem bolus rápido; hemofiltração ou hemodiálise | Protetores renais como o paracetamol em investigação |
As fontes da tabela são a diretriz da OMS (OMS, 2025), o manual de 2012 (OMS, 2012) e os estudos com critérios KDIGO (Bond et al., 2026; Conroy et al., 2019; Namazzi et al., 2022).
Paracetamol como protetor renal: o que se sabe
O ensaio em adultos
Em Bangladesh, um ensaio aberto randomizou 62 pacientes com mais de 12 anos com malária falciparum grave ou moderadamente grave para receber paracetamol a cada 6 horas por 72 horas ou nenhum paracetamol, além do artesunato (Plewes et al., 2018). A creatinina caiu 23 por cento no grupo paracetamol e 14 por cento no grupo controle (Plewes et al., 2018).
Nos pacientes com mais hemoglobina livre no plasma, a queda foi de 37 por cento com paracetamol e de 14 por cento sem ele (Plewes et al., 2018). Os autores chamaram o estudo de prova de princípio e pediram um ensaio maior em crianças africanas.
Malária por knowlesi e crianças
No ensaio PACKNOW, com 396 pacientes com malária por P. knowlesi na Malásia, o paracetamol não melhorou a creatinina no grupo inteiro (Cooper et al., 2022). Nos pacientes com LRA e hemólise, a creatinina caiu 34,5 por cento com paracetamol e 25,9 por cento sem ele (Cooper et al., 2022).
Em Uganda, um ensaio de fase I/II com 40 crianças com LRA por malária comparou paracetamol com banho morno e achou o remédio seguro, mas sem melhora significativa da recuperação renal em 48 horas (Paasi et al., 2026). Na coorte de Namazzi, o uso de paracetamol na internação se associou a menos doença renal persistente, um dado observacional que não prova causa (Namazzi et al., 2022).
Como ler esse conjunto
O sinal é biologicamente plausível e mais forte quando há hemólise intensa. Os ensaios ainda são pequenos, abertos ou de fase inicial, e a diretriz da OMS não inclui o paracetamol como protetor renal. Por enquanto, o paracetamol na malária grave segue indicado para febre e dor, e o uso para proteger o rim pertence aos ensaios clínicos.
Depois da alta: o rim e a vida da criança
Doença renal persistente e mortalidade
Na coorte de Namazzi, 21,5 por cento das crianças ainda tinham LRA sem resolução em 24 horas, e a mortalidade hospitalar subiu de 1,8 por cento sem LRA para 26,5 por cento no estágio 3 (Namazzi et al., 2022). Um mês depois, 15,6 por cento tinham doença renal aguda persistente, e entre os fatores de risco estavam LRA grave ou sem resolução e febre hemoglobinúrica (Namazzi et al., 2022).
As crianças com doença renal persistente depois da LRA tiveram mortalidade após a alta de 17,5 por cento, contra 3,7 por cento nas demais (Namazzi et al., 2022). Esse dado contradiz a ideia de que a lesão renal da malária é sempre benigna nos sobreviventes.
Cognição e doença renal crônica
Na coorte de Conroy, a mortalidade hospitalar foi de 11,9 por cento com LRA e de 4,2 por cento sem LRA, e a mortalidade após a alta foi de 4,7 e 1,3 por cento (Conroy et al., 2019). Uma semana depois da alta, 37,3 por cento das crianças com LRA tinham comprometimento neurocognitivo, contra 13,5 por cento das demais (Conroy et al., 2019). Em um ano, 7,6 por cento das crianças com LRA tinham doença renal crônica, contra 2,8 por cento das que não tiveram LRA (Conroy et al., 2019).
Seis anos e meio depois
O estudo de seguimento mais longo reuniu 1077 crianças ugandenses, das quais 40,0 por cento tiveram LRA pelos critérios KDIGO (Mellencamp et al., 2026). Em mediana de 6,5 anos, 13,6 por cento das crianças morreram, e quase metade das mortes ocorreu depois da alta (Mellencamp et al., 2026).
A LRA se associou a risco de morte 3,36 vezes maior, e o risco continuava elevado mais de dois anos depois do episódio, com razão de risco de 4,53 (Mellencamp et al., 2026). A chance de doença renal crônica foi maior nos sobreviventes de LRA, mas a diferença perdeu significância depois do ajuste (Mellencamp et al., 2026). Os autores descrevem a LRA como um evento sentinela, que marca uma vulnerabilidade duradoura.
O que fazer no seguimento
As diretrizes ainda não definem um roteiro de seguimento renal depois da malária grave. Com base nos estudos acima, uma conduta razoável inclui:
- registrar a LRA e o estágio no resumo de alta;
- repetir a creatinina e o exame de urina nas semanas seguintes quando houve LRA;
- medir a pressão arterial e a albuminúria no seguimento, como no estadiamento da DRC pela KDIGO 2024;
- avaliar o desenvolvimento e o desempenho escolar da criança;
- garantir que a informação chegue à atenção primária, o elo frágil descrito no texto sobre falhas na transição da alta.
Quando a função renal não volta ao normal, os cuidados seguem as orientações para DRC na criança.
Voltando ao caso
A menina do início tem malária grave por prostração e, muito provavelmente, LRA pelos critérios KDIGO, mesmo com creatinina abaixo do limite da OMS. A urina cor de chá sugere hemólise intravascular, um fator de risco para LRA e para doença renal persistente (Conroy et al., 2022; Namazzi et al., 2022).
O tratamento segue a diretriz: artesunato parenteral na quantidade por quilo indicada para menos de 20 kg, fluidos avaliados caso a caso, sem bolus rápido, e controle do débito urinário (OMS, 2025). Se a criança continuar oligúrica depois da reidratação e a creatinina subir, a transferência para um centro com diálise deve ser discutida cedo. Depois da alta, a creatinina deve ser repetida e o caso, comunicado à equipe que fará o seguimento.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Reconhecer uma LRA escondida atrás de uma creatinina "normal" exige o mesmo exercício: pesar cada pista nova e revisar a hipótese, como no treino do diagnóstico diferencial com pistas.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Buscar o código certo na CID-10 completa esse treino.
Perguntas frequentes
Qual creatinina define comprometimento renal na malária grave segundo a OMS?
A diretriz da OMS usa creatinina acima de 265 µmol/L (3 mg/dL) ou ureia acima de 20 mmol/L (OMS, 2025). Em crianças, esse limite identifica só uma pequena parte das LRA definidas pelo KDIGO (Bond et al., 2026).
A LRA é rara em crianças com malária?
O manual da OMS de 2012 a descrevia como rara (OMS, 2012). Com os critérios KDIGO, ela aparece em quase metade das crianças africanas internadas com malária (Bond et al., 2026).
O artesunato precisa de ajuste na insuficiência renal?
Os derivados da artemisinina dispensam ajuste na disfunção de órgãos, segundo a OMS (OMS, 2025). A quinina é reduzida em um terço se a LRA persistir ou não houver melhora em 48 horas.
Posso dar fluidos em bolus na malária grave?
A diretriz da OMS contraindica a infusão rápida em bolus de coloides ou cristaloides e pede avaliação individual (OMS, 2025). Adultos são muito vulneráveis à sobrecarga de volume.
O rim volta ao normal depois da malária grave?
Muitas vezes volta, mas parte das crianças mantém doença renal um mês depois e tem maior mortalidade após a alta (Namazzi et al., 2022). O risco de morte continua elevado por anos depois de uma LRA (Mellencamp et al., 2026).
Take-home messages
- Meça a função renal na admissão de todo paciente com malária grave, como a OMS pede para adultos (OMS, 2025).
- Em crianças, interprete a creatinina pela idade, porque o limite de 3 mg/dL deixa passar a maioria das LRA (Bond et al., 2026).
- Pergunte sobre urina escura, uma pista de hemólise associada à LRA (Conroy et al., 2022).
- Comece o artesunato parenteral sem esperar a creatinina, já que ele dispensa ajuste renal (OMS, 2025).
- Avalie os fluidos caso a caso e evite bolus rápido (OMS, 2025).
- Discuta hemofiltração ou hemodiálise cedo quando a LRA não responde à reidratação (OMS, 2025).
- Siga o rim e o desenvolvimento da criança depois da alta (Mellencamp et al., 2026; Conroy et al., 2019).
Milestone inventory
- 2010: o ensaio AQUAMAT mostra menor mortalidade com artesunato que com quinina em crianças africanas (Dondorp et al., 2010).
- 2012: a OMS publica a 3ª edição do manual de manejo da malária grave (OMS, 2012).
- 2017: a hemoglobina livre e a peroxidação lipídica são associadas à LRA e à diálise em adultos (Plewes et al., 2017).
- 2018: um ensaio em Bangladesh mostra proteção renal com paracetamol em adultos (Plewes et al., 2018).
- 2019: a LRA infantil é associada a doença renal crônica e a comprometimento cognitivo (Conroy et al., 2019).
- 2022: o ensaio PACKNOW testa o paracetamol na malária por knowlesi (Cooper et al., 2022).
- 2025: a OMS atualiza suas diretrizes para malária (OMS, 2025).
- 2026: uma metanálise com 13.528 crianças e um seguimento de 6,5 anos mudam a leitura da LRA na malária (Bond et al., 2026; Mellencamp et al., 2026).
Referências
- World Health Organization. WHO guidelines for malaria. Genebra: OMS; 13 ago. 2025. Texto integral.
- World Health Organization. Management of severe malaria: a practical handbook. 3ª ed. Genebra: OMS; 2012. Texto integral.
- World Health Organization. Malaria. Nota descritiva. Texto integral.
- Bond C, Batte A, Afolayan F, et al. Identification of acute kidney injury in African children hospitalized with malaria: a multinational individual participant data meta-analysis. BMC Med. 2026;24(1):572. PMID 42482088. DOI 10.1186/s12916-026-05072-8.
- Mellencamp KA, Namazzi R, Batte A, et al. Long-term mortality and risk of chronic kidney disease in children following severe malaria complicated by acute kidney injury: a prospective observational study. Lancet Glob Health. 2026;14(10):103984. PMID 42575118. DOI 10.1016/j.langlo.2026.103984.
- Conroy AL, Opoka RO, Bangirana P, et al. Acute kidney injury is associated with impaired cognition and chronic kidney disease in a prospective cohort of children with severe malaria. BMC Med. 2019;17(1):98. PMID 31109328. DOI 10.1186/s12916-019-1332-7.
- Conroy AL, Hawkes M, Elphinstone RE, et al. Acute Kidney Injury Is Common in Pediatric Severe Malaria and Is Associated With Increased Mortality. Open Forum Infect Dis. 2016;3(2):ofw046. PMID 27186577. DOI 10.1093/ofid/ofw046.
- Conroy AL, Hawkes MT, Leligdowicz A, et al. Blackwater fever and acute kidney injury in children hospitalized with an acute febrile illness: pathophysiology and prognostic significance. BMC Med. 2022;20(1):221. PMID 35773743. DOI 10.1186/s12916-022-02410-4.
- Namazzi R, Batte A, Opoka RO, et al. Acute kidney injury, persistent kidney disease, and post-discharge morbidity and mortality in severe malaria in children: A prospective cohort study. EClinicalMedicine. 2022;44:101292. PMID 35198918. DOI 10.1016/j.eclinm.2022.101292.
- Batte A, Starr MC, Schwaderer AL, et al. Methods to estimate baseline creatinine and define acute kidney injury in lean Ugandan children with severe malaria: a prospective cohort study. BMC Nephrol. 2020;21(1):417. PMID 32993548. DOI 10.1186/s12882-020-02076-1.
- Sriboonvorakul N, Ghose A, Hassan MMU, et al. Acidosis and acute kidney injury in severe malaria. Malar J. 2018;17(1):128. PMID 29566677. DOI 10.1186/s12936-018-2274-9.
- Plewes K, Kingston HWF, Ghose A, et al. Cell-free hemoglobin mediated oxidative stress is associated with acute kidney injury and renal replacement therapy in severe falciparum malaria: an observational study. BMC Infect Dis. 2017;17(1):313. PMID 28449641. DOI 10.1186/s12879-017-2373-1.
- Plewes K, Kingston HWF, Ghose A, et al. Acetaminophen as a Renoprotective Adjunctive Treatment in Patients With Severe and Moderately Severe Falciparum Malaria: A Randomized, Controlled, Open-Label Trial. Clin Infect Dis. 2018;67(7):991-999. PMID 29538635. DOI 10.1093/cid/ciy213.
- Cooper DJ, Grigg MJ, Plewes K, et al. The Effect of Regularly Dosed Acetaminophen vs No Acetaminophen on Renal Function in Plasmodium knowlesi Malaria (PACKNOW): A Randomized, Controlled Trial. Clin Infect Dis. 2022;75(8):1379-1388. PMID 35180298. DOI 10.1093/cid/ciac152.
- Paasi G, Namayanja C, Ongodia P, et al. A phase I/II randomized controlled clinical trial to assess the feasibility, safety, and preliminary effectiveness of paracetamol in resolving acute kidney injury in children with severe malaria. Trials. 2026;27(1):112. PMID 41507938. DOI 10.1186/s13063-026-09432-w.
- Katsoulis O, Georgiadou A, Cunnington AJ. Immunopathology of Acute Kidney Injury in Severe Malaria. Front Immunol. 2021;12:651739. PMID 33968051. DOI 10.3389/fimmu.2021.651739.
- Dondorp AM, Fanello CI, Hendriksen IC, et al. Artesunate versus quinine in the treatment of severe falciparum malaria in African children (AQUAMAT): an open-label, randomised trial. Lancet. 2010;376(9753):1647-1657. PMID 21062666. DOI 10.1016/S0140-6736(10)61924-1.


