
Lesão renal aguda: o que a KDIGO 2026 mudou

Sumário
- De RIFLE a KDIGO: por que mexer na definição
- A nova definição: função e estrutura
- Creatinina de base: de onde partir
- Estadiamento em três eixos: C, U e B
- Doença renal aguda: o intervalo entre a lesão e a DRC
- Como investigar a causa e o risco
- Depois da alta: o seguimento que falta
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Num caso fictício, um homem de meia-idade chega ao pronto-socorro depois de três dias de diarreia e pouca água. Ele toma um anti-hipertensivo e um anti-inflamatório para dor nas costas. A creatinina vem acima do valor de um exame de rotina feito meses antes, a sonda vesical mostra pouca urina nas primeiras horas e o residente se pergunta três coisas: isso já é lesão renal aguda, qual é o estágio e o que muda daqui a três meses. As respostas dependem de qual régua ele usa.
Aviso importante: este texto se baseia no rascunho de revisão pública da diretriz KDIGO 2026 para lesão renal aguda e doença renal aguda, divulgado em março de 2026. O próprio documento informa que é um rascunho compartilhado só para revisão e que o conteúdo vai mudar com os comentários recebidos (KDIGO, rascunho de março de 2026). Use o que vem a seguir para entender a direção da mudança e confira a versão final quando ela sair.
A lesão renal aguda (LRA) é comum no hospital, piora o prognóstico e muitas vezes passa sem registro. Desde 2012, a definição da KDIGO organiza o diagnóstico pela creatinina e pela diurese. O rascunho de 2026 mantém essa base, mas acrescenta a cistatina C, os biomarcadores de dano, um estadiamento em três eixos e um lugar formal para a doença renal aguda (DRA), o período entre a lesão e a doença renal crônica (DRC). Este texto percorre essas mudanças com os olhos de quem está no internato ou na residência.
Principais pontos
- O rascunho define LRA por alteração de função ou de estrutura do rim em até 7 dias (KDIGO, rascunho de março de 2026).
- A cistatina C entra como critério, com o mesmo aumento de 1,5 vez em relação à base usado para a creatinina (KDIGO, rascunho de março de 2026).
- A diurese passa a ser calculada pelo peso corporal ideal, e o estágio ganha letras: C para creatinina, U para urina e B para biomarcador (KDIGO, rascunho de março de 2026).
- A DRA cobre até 3 meses e inclui pacientes que nunca preencheram critério de LRA (KDIGO, rascunho de março de 2026).
- Na metanálise de Su e colegas, a DRA se associou a mais mortes, mais DRC e mais falência renal (Su et al., 2023).
- O rascunho pede seguimento coordenado depois da alta e reavaliação da função e do dano renal em 3 meses (KDIGO, rascunho de março de 2026).
Sumário
- De RIFLE a KDIGO: por que mexer na definição
- A nova definição: função e estrutura
- Creatinina de base: de onde partir
- Estadiamento em três eixos: C, U e B
- Doença renal aguda: o intervalo entre a lesão e a DRC
- Como investigar a causa e o risco
- Depois da alta: o seguimento que falta
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
De RIFLE a KDIGO: por que mexer na definição
Uma história de consensos
Antes de 2004, a literatura usava mais de 30 definições diferentes de insuficiência renal aguda, o que tornava impossível comparar estudos (Bellomo et al., 2004). O grupo ADQI propôs então os critérios RIFLE, com classes de risco, lesão e falência baseadas na creatinina e na diurese. Em 2007, a Acute Kidney Injury Network (AKIN) trocou o nome para lesão renal aguda, criou a janela de 48 horas e aceitou um aumento absoluto de 0,3 mg/dl de creatinina como critério (Mehta et al., 2007). A KDIGO de 2012 juntou as duas propostas e virou a régua de quase todos os hospitais.
O mesmo grupo da AKIN já recomendava aplicar os critérios só depois de corrigir a volemia e excluir obstrução, para não confundir um rim que reage bem a líquidos com um rim lesado (Mehta et al., 2007). Essa ressalva continua útil hoje, porque a creatinina mede uma consequência, e a consequência demora.
O problema da creatinina
A creatinina sobe tarde e pouco. O rascunho lembra que o rim pode perder cerca de metade da função antes de a creatinina subir, e que o aumento leva de 24 a 48 horas para aparecer (KDIGO, rascunho de março de 2026). Ela também depende de massa muscular, idade, dieta e diluição. No idoso frágil, no amputado ou no paciente com cirrose, um valor normal pode esconder uma filtração muito baixa.
Os autores do rascunho reconhecem que, em 2012, a diretriz não tinha pontos de prática e que as definições de LRA transitória variaram muito desde então (KDIGO, rascunho de março de 2026). A revisão tenta responder a essas lacunas sem jogar fora o que funcionou.
A nova definição: função e estrutura
Critérios de função
O ponto de prática 1.1.1 define LRA como alteração de função ou de estrutura do rim que se instala em até 7 dias (KDIGO, rascunho de março de 2026). Os critérios de função listados na tabela 1 do rascunho são estes (KDIGO, rascunho de março de 2026):
- aumento da creatinina de 0,3 mg/dl ou mais em 48 horas (KDIGO, rascunho de março de 2026);
- aumento da creatinina para 1,5 vez a base ou mais, dentro de 7 dias (KDIGO, rascunho de março de 2026);
- aumento da cistatina C para 1,5 vez a base ou mais, dentro de 7 dias, que é a novidade (KDIGO, rascunho de março de 2026);
- diurese abaixo de 0,5 ml/kg/h por 6 horas ou mais, calculada pelo peso corporal ideal (KDIGO, rascunho de março de 2026);
- qualquer um deles basta para o diagnóstico.
A troca do peso real pelo peso ideal na conta da diurese parece detalhe, mas muda o diagnóstico no paciente obeso. Pelo peso real, um homem de 130 kg precisaria urinar mais de 65 ml por hora para escapar do critério, um alvo que pessoas com rins normais deixam de atingir (KDIGO, rascunho de março de 2026).
A entrada da cistatina C
A recomendação 1.1.1 sugere medir a cistatina C quando a creatinina for menos confiável, com força 2B (KDIGO, rascunho de março de 2026). Exemplos são a sarcopenia, a amputação, a desnutrição, a cirrose e a internação longa em terapia intensiva. Segundo a justificativa do texto, a cistatina C detecta a lesão de 12 a 24 horas depois do insulto, contra 12 a 72 horas da creatinina (KDIGO, rascunho de março de 2026).
Numa metanálise de 30 estudos com 4.247 adultos, a cistatina C sérica teve área sob a curva de 0,89 para prever LRA, com sensibilidade e especificidade de 0,82 (Yong et al., 2017). A razão de verossimilhança positiva foi de 4,6 e a negativa de 0,22, números que ajudam a pensar o exame pela probabilidade pré-teste (Yong et al., 2017). O uso da cistatina para estimar a filtração na DRC é outro assunto, tratado no texto sobre o estadiamento da DRC pela KDIGO 2024.
O critério estrutural
O rascunho aceita também um critério de estrutura: um biomarcador de dano positivo, usado dentro da indicação para a qual foi validado (KDIGO, rascunho de março de 2026). A ideia é reconhecer o rim que já sofreu dano tubular antes que a filtração caia. Os principais citados são o produto [TIMP-2]×[IGFBP7] e a lipocalina associada à gelatinase de neutrófilos (NGAL), e o texto admite que esses testes são mais caros e menos disponíveis (KDIGO, rascunho de março de 2026).
Creatinina de base: de onde partir
Por que a base importa
Todo critério relativo depende de um ponto de partida. O ponto de prática 1.1.2 pede que se busque uma creatinina de base, e o 1.1.3 propõe uma hierarquia para escolhê-la (KDIGO, rascunho de março de 2026). O valor preferido é ambulatorial e colhido entre 8 e 365 dias antes da internação, como mostra a figura 1 do rascunho (KDIGO, rascunho de março de 2026).
Quando esse exame falta, o texto aceita valores de internações anteriores, a menor creatinina da internação atual ou uma estimativa, sempre registrando de onde veio o número. Essa escolha muda o diagnóstico e o estágio. No caso da abertura, o exame de rotina de meses antes vale mais do que a creatinina de entrada, que já pode estar alterada.
Armadilhas comuns
A pressa do plantão leva a usar a primeira creatinina do hospital como base. Se o paciente chegou com a lesão em curso, esse valor esconde o tamanho do problema. Outro erro é comparar laboratórios com métodos diferentes sem considerar a variação entre eles. Na dúvida, a creatinina seriada e a diurese, medida com sonda quando houver indicação, ajudam a ver a tendência.
Estadiamento em três eixos: C, U e B
O que muda no estágio
O ponto de prática 1.2.1 separa o estágio por fonte de informação, na tabela 6 do rascunho (KDIGO, rascunho de março de 2026). O eixo C usa a creatinina: C1 vai de aumento de 0,3 mg/dl ou de 1,5 a 1,9 vez a base, C2 de 2 a 2,9 vezes e C3 a partir de 3 vezes, creatinina de 4,0 mg/dl ou mais, ou início de terapia renal substitutiva (KDIGO, rascunho de março de 2026).
O eixo U usa a diurese: U1 é menos de 0,5 ml/kg/h por 6 a 12 horas, U2 por mais de 12 horas e U3 é menos de 0,3 ml/kg/h por mais de 24 horas ou anúria por mais de 12 horas (KDIGO, rascunho de março de 2026). O eixo B marca a ausência (B0) ou a presença (B1) de biomarcador de dano positivo (KDIGO, rascunho de março de 2026). Assim, um paciente pode ser C1U2B1, e a sigla diz ao colega de onde veio cada informação.
Por que a urina ganhou peso
A justificativa cita a análise de Bianchi e colegas, na qual a diurese identificou ou elevou o estágio de LRA em 51,7 de cada 100 pacientes e aumentou o estágio em 30,2 de cada 100 (KDIGO, rascunho de março de 2026). Entre pacientes em estágio 1 pela creatinina, a mortalidade em 90 dias foi de 37, 17, 16 e 11 de cada 100 para estágio 3, 2, 1 e nenhum pela diurese (KDIGO, rascunho de março de 2026). Em outras palavras, olhar só a creatinina subestima o risco.
Transitória ou persistente
O ponto de prática 1.2.2 chama de transitória a LRA que dura até 48 horas e de persistente a que passa de 48 horas e vai até 7 dias (KDIGO, rascunho de março de 2026). Essa separação ajuda a pensar a causa: a lesão que regride em horas com líquidos sugere hipoperfusão, e a que persiste sugere dano tubular, obstrução ou doença do parênquima. O ponto de prática 1.2.3 lembra que o estágio sem causa não basta e que a etiologia deve ser buscada em todos os casos (KDIGO, rascunho de março de 2026).
Tabela: KDIGO 2012 e rascunho de 2026
| Tema | KDIGO 2012 | Rascunho KDIGO 2026 |
|---|---|---|
| Definição | Creatinina e diurese | Função ou estrutura em até 7 dias |
| Cistatina C | Fora dos critérios | Critério de função, como a creatinina |
| Diurese | Peso real | Peso corporal ideal |
| Estágio | 1, 2 e 3 | Eixos C, U e B |
| Duração | Ausente como critério | Transitória até 48 h; persistente até 7 dias |
| DRA | Citada, sem critério operacional | Até 3 meses, com ou sem LRA prévia |
| Recuperação | Variava entre estudos | Completa, parcial e recorrente definidas |
Fonte da coluna de 2026: tabelas 1, 6, 9 e 10 do rascunho (KDIGO, rascunho de março de 2026).
Doença renal aguda: o intervalo entre a lesão e a DRC
O que é a DRA
O ponto de prática 1.3.1 define DRA como alteração renal que dura até 3 meses (KDIGO, rascunho de março de 2026). Os critérios da tabela 9 incluem LRA; taxa de filtração abaixo de 60 ml/min/1,73 m², que não vale para crianças com menos de 2 anos; queda da filtração de 35 de cada 100 partes ou mais; aumento da creatinina acima de 50 de cada 100 partes; ou marcadores de dano, como albuminúria, hematúria e leucocitúria (KDIGO, rascunho de março de 2026).
O ponto de prática 1.3.2 pede que se separe a DRA que vem depois de uma LRA da DRA sem LRA prévia (KDIGO, rascunho de março de 2026). Este segundo grupo é o paciente que piora devagar, ao longo de semanas, sem nunca cruzar o limiar de 48 horas ou de 7 dias.
Quanto pesa no prognóstico
A metanálise de Su e colegas reuniu 21 estudos e 1.114.012 pacientes (Su et al., 2023). A DRA se associou a mortalidade de 26,54 contra 7,78 de cada 100, com razão de chances de 3,62, e a DRC de 37,2 contra 7,45 de cada 100 (Su et al., 2023). A razão de chances de falência renal foi de 6,58 (Su et al., 2023).
Num hospital chinês, Xu e colegas avaliaram 71.041 internados e encontraram 16.098 com LRA ou DRA (Xu et al., 2023). Entre eles, 5.895 se recuperaram em 7 dias, 5.623 evoluíram de LRA para DRA e 4.580 tiveram DRA sem LRA (Xu et al., 2023). As razões de risco de morte foram de 4,51 para LRA seguida de DRA, 2,25 para DRA sem LRA e 1,18 para LRA com recuperação rápida, o que mostra que a duração pesa mais do que o pico (Xu et al., 2023).
Como medir a recuperação
A tabela 10 do rascunho chama de recuperação completa a creatinina abaixo de 1,2 vez a base em até 7 dias, na LRA, e a creatinina abaixo de 1,2 vez a base ou filtração acima de 80 de cada 100 partes da base em até 3 meses, na DRA (KDIGO, rascunho de março de 2026). A recuperação parcial fica entre 1,2 e 1,5 vez a base, e o ponto de prática 1.5.1 define LRA recorrente (KDIGO, rascunho de março de 2026). Com critérios iguais, hospitais e estudos podem finalmente comparar desfechos.
Como investigar a causa e o risco
O raciocínio continua clínico
O rascunho insiste que o estágio sem causa é meia resposta. A investigação segue a velha divisão entre causas pré-renais, renais e pós-renais, mas usa ferramentas novas para separar cada grupo. Montar essa lista com ordem e prioridade é o mesmo exercício descrito no texto sobre diagnóstico diferencial com pistas. Alguns cenários já têm textos próprios no blog, como a síndrome de esmagamento, o mieloma múltiplo e a sepse.
Antes de pedir qualquer exame, alguns achados mudam a conduta na hora. Potássio alto com alteração no eletrocardiograma, acidose grave e sobrecarga de volume pedem ação imediata. Bexiga distendida ou rim dilatado sugerem obstrução, urina escura com músculo dolorido sugere rabdomiólise, e hematúria com proteinúria e hipertensão sugere glomerulonefrite.
Microscopia da urina
A recomendação 2.5.1 sugere a microscopia do sedimento urinário na investigação da LRA, com força 2D (KDIGO, rascunho de março de 2026). Cilindros granulosos marrons, os chamados cilindros "barrentos", apontam para necrose tubular aguda, e a busca de eosinófilos na urina tem baixa sensibilidade para nefrite intersticial (KDIGO, rascunho de março de 2026). Cavanaugh e Perazella lembram que o exame é usado desde o século XIX e continua dando informação diagnóstica e prognóstica a quase nenhum gasto (Cavanaugh e Perazella, 2025).

Frações de excreção e cirrose
O rascunho restringe a fração de excreção de sódio e a de ureia a casos selecionados, no ponto de prática 2.5.4 (KDIGO, rascunho de março de 2026). Num estudo multicêntrico com 203 pacientes graves, a fração de excreção de ureia teve área sob a curva de 0,59 para separar LRA transitória de persistente (Darmon et al., 2011). Com o corte de 35, a sensibilidade foi de 63 e a especificidade de 54 de cada 100 (Darmon et al., 2011).
Na cirrose, o consenso do ADQI com o International Club of Ascites lembra que a fração de excreção de sódio abaixo de 1 é comum mesmo sem hipovolemia, e que limiares mais baixos, de 0,1 a 0,2, ajudam mais (Nadim et al., 2024). O mesmo documento propõe avaliar a resposta a líquidos em 24 horas, com 250 a 500 ml de cristaloide ou albumina na faixa de 1 a 1,5 g/kg, e cita a NGAL urinária como promissora para separar necrose tubular de síndrome hepatorrenal (Nadim et al., 2024).
Teste de estresse com furosemida
A recomendação 2.3.1 sugere o teste de estresse com furosemida para prever progressão em adultos, com força 2C (KDIGO, rascunho de março de 2026). No estudo de padronização, 77 pacientes receberam 1,0 ou 1,5 mg/kg de furosemida, e diurese abaixo de 200 ml em 2 horas previu estágio 3 com sensibilidade de 87,1 e especificidade de 84,1 de cada 100 (Chawla et al., 2013). Na metanálise de Chen e colegas, a sensibilidade agrupada foi de 0,81 e a especificidade de 0,88 para progressão, com área sob a curva de 0,88 (Chen et al., 2020).
Imagem e biópsia
O rascunho cita a ultrassonografia à beira do leito para excluir obstrução e avaliar volemia, o índice de resistência pelo Doppler como ferramenta ainda limitada e a biópsia quando a causa segue obscura e o resultado mudaria a conduta (KDIGO, rascunho de março de 2026). Em crianças, a recomendação 2.6.1 sugere o índice de angina renal para estimar o risco de LRA grave (KDIGO, rascunho de março de 2026).

Quem está em risco
As recomendações 2.1.1 e 2.1.2 tratam de modelos de risco para identificar quem pode desenvolver LRA, com forças 2C e 1C (KDIGO, rascunho de março de 2026). Idade avançada, DRC, diabetes, insuficiência cardíaca, sepse, cirurgia de grande porte e contraste intravenoso aparecem com frequência nesses modelos. Em crianças graves, a LRA é muito comum, e o ADQI pediátrico lembra que os cenários de comunidade e de baixa renda ainda são pouco estudados (Sutherland et al., 2024).
Alertas eletrônicos com cautela
A recomendação 2.2.1 é contra alertas interruptivos baseados só na creatinina, com força 1B (KDIGO, rascunho de março de 2026). O alerta isolado gera fadiga e pode levar a condutas automáticas. O texto prefere alertas integrados a uma resposta organizada, com revisão de medicamentos, de volemia e de exames.
Biomarcadores de dano
A recomendação 2.4.1 sugere biomarcadores de dano em adultos com risco, com força 2B, e em crianças com força 2C (KDIGO, rascunho de março de 2026). O ponto de prática 2.4.1 pede albuminúria de base, e os pontos 2.4.2 e 2.4.3 tratam do [TIMP-2]×[IGFBP7] e da NGAL (KDIGO, rascunho de março de 2026). A recomendação 2.3.2 sugere a filtração cinética, que estima a função quando a creatinina ainda está mudando, com força 2B (KDIGO, rascunho de março de 2026). Escolher qual exame pedir, e quando, é o tema do texto sobre tomada de decisão clínica.
Depois da alta: o seguimento que falta
O que o rascunho pede
A recomendação 6.1.1 sugere seguimento coordenado depois da LRA, e a 6.2.1 sugere iniciar ou retomar os inibidores do sistema renina-angiotensina quando indicados (KDIGO, rascunho de março de 2026). O ponto de prática 6.3.1 pede avaliar função e dano renal em 3 meses (KDIGO, rascunho de março de 2026).
O que acontece na prática
Na Inglaterra, Mok e colegas acompanharam 209.222 pacientes e 279.187 episódios de LRA (Mok et al., 2026). A LRA foi registrada na atenção primária em 19,5 de cada 100 episódios, embora 72,6 de cada 100 pacientes tivessem contato com o clínico geral (Mok et al., 2026). Em 90 dias, só 34,2 de cada 100 tiveram creatinina, 34,6 de cada 100 tiveram pressão arterial medida e 4,2 de cada 100 fizeram relação albumina-creatinina (Mok et al., 2026).
Esse vazio é parecido com o que se vê em outras falhas da transição da alta para a atenção primária. Um resumo de alta útil depois de uma LRA costuma ter estes itens:
- o diagnóstico de LRA, com estágio, causa provável e creatinina de base;
- a creatinina e a diurese na alta;
- os remédios suspensos e quando reavaliar cada um;
- a data para repetir creatinina, albuminúria e pressão;
- os sinais que pedem retorno antes da consulta.
Voltando ao caso da abertura
O homem da diarreia tem uma creatinina ambulatorial recente, que serve de base. Se a creatinina dobrar, ele é C2; se a diurese ficar abaixo de 0,5 ml/kg/h por mais de 12 horas, pelo peso ideal, ele é U2 (KDIGO, rascunho de março de 2026). Se a função voltar em até 48 horas com reposição de líquidos e suspensão do anti-inflamatório, a lesão é transitória. Se não voltar, a investigação da causa ganha prioridade, e o seguimento em 3 meses dirá se houve DRA ou DRC. Organizar essas decisões em ordem é o tema do texto sobre raciocínio clínico no internato. Quando o potássio sobe no meio do caminho, vale rever o texto sobre hipercalemia no ECG.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
A KDIGO 2026 já está em vigor?
Ainda não. Em março de 2026, a KDIGO divulgou um rascunho para revisão pública, e o próprio documento avisa que o conteúdo vai mudar com os comentários recebidos (KDIGO, rascunho de março de 2026). Até a versão final, a régua de 2012 continua sendo a referência formal.
A creatinina deixou de valer?
Continua valendo. Ela segue como critério e como eixo C do estadiamento, e a cistatina C entra como alternativa quando a creatinina é menos confiável (KDIGO, rascunho de março de 2026).
Por que usar o peso ideal na diurese?
Porque o tecido adiposo produz pouca urina. Pelo peso real, o paciente obeso cruza o limiar de 0,5 ml/kg/h com rins normais, e o rascunho troca a conta para o peso corporal ideal (KDIGO, rascunho de março de 2026).
O que é doença renal aguda?
É a alteração renal que dura até 3 meses, depois de uma LRA ou sem ela, e que fica entre a lesão aguda e a DRC (KDIGO, rascunho de março de 2026).
Preciso de biomarcador para diagnosticar LRA?
Na maioria dos casos, a creatinina e a diurese bastam. O biomarcador de dano acrescenta o critério estrutural e o eixo B, mas o próprio rascunho reconhece que esses testes são mais caros e menos disponíveis (KDIGO, rascunho de março de 2026).
Quando repetir os exames depois da alta?
O rascunho pede avaliar função e dano renal em 3 meses (KDIGO, rascunho de março de 2026). Pacientes com DRA, DRC prévia ou risco alto costumam precisar de retorno antes disso.
Take-home messages
Lembre: este texto se baseia no rascunho de revisão pública da KDIGO 2026, de março de 2026, que ainda pode mudar antes da versão final (KDIGO, rascunho de março de 2026).
- A LRA passa a ser alteração de função ou de estrutura em até 7 dias, com a cistatina C como critério (KDIGO, rascunho de março de 2026).
- A creatinina de base vem de preferência de um exame ambulatorial dos últimos 12 meses, e a escolha deve ficar registrada.
- O estágio separa creatinina (C), urina (U) e biomarcador (B), e a diurese conta pelo peso ideal.
- A DRA cobre até 3 meses e se associa a mais mortes e mais DRC (Su et al., 2023).
- Microscopia da urina, ultrassonografia e teste com furosemida ajudam a achar a causa e o risco de progressão.
- O seguimento depois da alta ainda falha muito, e o rascunho pede reavaliação em 3 meses (Mok et al., 2026).
Jogue o caso do dia no NEXO.
Referências
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