DRC na criança: causas, crescimento e transição

Sumário
- Por que a DRC da criança é outra doença
- Causas: do rim malformado ao gene alterado
- Como medir a função renal na criança
- Crescimento: a altura como sinal vital
- Pressão, coração, anemia e cérebro
- Terapia renal no mundo: quem tem acesso
- Transição para o cuidado adulto
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Num caso fictício, um menino de 9 anos chega à consulta de rotina porque a escola notou que ele é o menor da turma. A mãe conta que ele bebe muita água, acorda à noite para urinar e se cansa antes dos colegas no recreio. No prontuário, há uma ultrassonografia do pré-natal com os dois rins dilatados que ninguém voltou a olhar. A creatinina vem alta para a idade, a pressão está acima do percentil esperado e a hemoglobina está baixa. O pediatra precisa juntar as peças: a baixa estatura, a sede e o exame antigo contam a mesma história.
A doença renal crônica (DRC) na criança é rara, mas pesa muito. Ela começa, na maior parte das vezes, antes do nascimento, mexe com o crescimento, com a escola e com a família, e acompanha o paciente até a vida adulta. Em maio de 2025, a Assembleia Mundial da Saúde aprovou a primeira resolução da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre saúde renal, que cita crianças e gestantes entre os grupos que merecem atenção especial (OMS, 2025).
Este texto percorre as causas próprias da infância, a medida da função renal, o crescimento, as complicações que mudam o futuro da criança, o acesso desigual ao tratamento no mundo e a passagem para o cuidado adulto.
Principais pontos
- As anomalias congênitas do rim e do trato urinário (CAKUT) e as doenças hereditárias respondem pela maior parte da DRC infantil nos registros de países ricos (Harambat et al., 2012).
- Em países de renda baixa e média, a glomerulonefrite aparece com mais frequência e o diagnóstico chega mais tarde (Pais e Wightman, 2022).
- A altura é um sinal vital na criança com DRC: a baixa estatura se associa a menos transplante e a mais mortes (Bonthuis et al., 2023).
- O hormônio de crescimento tem critérios definidos e só entra depois de corrigir nutrição, acidose e distúrbio mineral (Drube et al., 2019).
- Atenção, memória de trabalho e funções executivas podem ser afetadas, o que pede olhar para a escola (Wijaya et al., 2022).
- A resolução WHA78.6 pede que países incluam o cuidado renal na cobertura universal, com o transplante como opção preferida (OMS, 2025).
Sumário
- Por que a DRC da criança é outra doença
- Causas: do rim malformado ao gene alterado
- Como medir a função renal na criança
- Crescimento: a altura como sinal vital
- Pressão, coração, anemia e cérebro
- Terapia renal no mundo: quem tem acesso
- Transição para o cuidado adulto
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
Por que a DRC da criança é outra doença
No adulto, a DRC costuma ser a consequência tardia de diabetes e hipertensão, e o estadiamento por taxa de filtração glomerular (TFG) e albuminúria organiza o risco, como mostra o texto sobre o estadiamento da DRC pela KDIGO 2024. Na criança, a lógica muda. A doença nasce de um rim que se formou mal, de um gene alterado ou de uma glomerulopatia, e convive com um corpo que ainda precisa crescer, aprender e amadurecer.
A diferença começa no próprio estadiamento. As categorias da TFG usadas no adulto não se aplicam antes dos 2 anos, porque a filtração do bebê ainda está amadurecendo e é normalmente baixa para os padrões adultos (Harambat et al., 2012). Um recém-nascido saudável tem TFG que parece insuficiente pelo critério adulto e que dobra nas primeiras semanas.
Rara, mas de longa duração
A DRC infantil é pouco frequente. Nos registros europeus, a incidência de DRC nos estágios 3 a 5 fica em torno de 11 a 12 por milhão de crianças da mesma faixa etária por ano (Harambat et al., 2012). A raridade é uma armadilha. O médico de atenção primária vê poucos pacientes assim na carreira e pode atribuir a baixa estatura à família, a sede ao calor e a anemia à dieta.
O peso vem do tempo. Uma criança que entra em diálise aos 5 anos pode viver décadas com a doença. A mortalidade na terapia renal substitutiva fica em torno de 30 vezes a de crianças da mesma idade, mesmo nos melhores serviços (Bonthuis et al., 2021). A expectativa de vida estimada para um adolescente com rim transplantado é de 63 anos, contra 38 anos para quem segue em diálise (Harambat et al., 2012).
O que o pediatra precisa reconhecer
Os sinais iniciais são discretos: crescimento lento, sede e urina em excesso, infecções urinárias repetidas, pressão alta para a idade, cansaço e palidez. O caminho clínico para avaliar a criança que perde terreno sem sinais óbvios aparece nos exercícios de raciocínio clínico para pediatria. Nos quadros agudos, a piora rápida de uma criança com DRC pode ser reconhecida pelos escores de alerta pediátricos.
Causas: do rim malformado ao gene alterado
CAKUT e doenças hereditárias
No registro norte-americano NAPRTCS, as anomalias congênitas do rim e do trato urinário respondem por 48 por cento dos casos de DRC infantil, as doenças hereditárias por 10 por cento e a glomerulonefrite por 14 por cento (Harambat et al., 2012). Os registros italiano e belga mostram proporções parecidas, com as anomalias congênitas em torno de 58 por cento (Harambat et al., 2012). O grupo CAKUT reúne hipoplasia e displasia renal, válvula de uretra posterior, obstrução da junção ureteropélvica e refluxo vesicoureteral de alto grau.
Uma revisão italiana somou as causas mais frequentes: CAKUT, síndrome nefrótica corticorresistente, glomerulonefrite e ciliopatias, que juntas passam de 70 por cento dos casos (Becherucci et al., 2016). A displasia renal, mostrada na imagem abaixo, é o exemplo mais claro de rim que não se formou do jeito certo.

O peso da genética
A genética mudou o diagnóstico. Mais de 600 genes já foram ligados a doenças renais, e a causa monogênica aparece em 10 a 60 por cento dos pacientes, conforme o grupo estudado (Cirillo et al., 2023). Quando a doença começa antes dos 25 anos, cerca de 20 por cento dos pacientes têm uma causa monogênica identificável (Becherucci et al., 2016). Achar o gene muda o aconselhamento da família, evita biópsias e tratamentos inúteis, como corticoide numa síndrome nefrótica genética, e orienta a escolha de um doador vivo aparentado.
O rim que se forma antes de nascer
A formação dos néfrons termina entre 34 e 36 semanas de gestação, e o bebê não ganha néfrons novos depois disso (Cirillo et al., 2023). A prematuridade e o baixo peso ao nascer reduzem o número de néfrons e deixam um rim com menos reserva para a vida inteira. A resolução da OMS reconhece essa ligação ao lembrar que os distúrbios hipertensivos da gestação levam a bebês prematuros e de baixo peso, que têm mais risco de doença renal (OMS, 2025).
Causas adquiridas e diferenças entre países
A lesão renal aguda é outra porta de entrada. Ela atinge de 10 a 35 por cento das crianças em terapia intensiva pediátrica, e parte delas fica com sequela crônica (Cirillo et al., 2023). Medicamentos nefrotóxicos também contam: depois da ifosfamida usada em tumores infantis, a DRC aparece em até 30 por cento dos pacientes (Cirillo et al., 2023).
O mapa das causas muda com a renda do país. Em países de renda baixa e média, a glomerulonefrite responde por 30 por cento a quase 60 por cento das causas registradas (Harambat et al., 2012). Infecções repetidas, falta de saneamento e água contaminada favorecem glomerulopatias e episódios de lesão aguda, enquanto a falta de pré-natal e de atenção primária atrasa o achado das malformações (Pais e Wightman, 2022). A resolução da OMS lista malária, dengue, HIV, tuberculose, hepatites, sepse e diarreias entre as infecções que podem lesar o rim de crianças (OMS, 2025).
Como medir a função renal na criança
Creatinina e as equações pediátricas
A creatinina depende da massa muscular, e a massa muscular de uma criança muda a cada ano. Por isso, as equações do adulto não servem. A equação de Schwartz de beira de leito, revista em 2009, usa a altura e a creatinina, e a equação CKiD U25, de 2021, combina creatinina e cistatina C, dispensa a altura e vale até os 25 anos (Cirillo et al., 2023). A segunda tem uma vantagem prática na transição, porque acompanha o paciente sem troca de fórmula na passagem para a clínica de adultos.
O recém-nascido é um caso à parte
Nas primeiras 72 horas de vida, a creatinina do bebê ainda reflete a da mãe e não serve para estimar a função dele (Cirillo et al., 2023). A TFG do recém-nascido a termo dobra nos primeiros cinco dias, chega perto de 60 mL/min/1,73 m² com um mês e só atinge o valor adulto entre 18 e 24 meses (Cirillo et al., 2023). Um valor isolado no berçário diz pouco; a tendência diz muito.
Rastrear ou não rastrear
O rastreamento com fita urinária em crianças sem sintomas é controverso. A Academia Americana de Pediatria retirou a fita de rotina em 2007 porque o rastreamento não se mostrou vantajoso, embora países como Japão, Coreia e Taiwan mantenham programas escolares (Harambat et al., 2012). O caminho mais seguro está na atenção primária atenta: medir altura e pressão em toda consulta e rever exames de imagem do pré-natal. Sem acompanhamento contínuo, esses sinais se perdem, como discute o texto sobre os quatro atributos da atenção primária.
Crescimento: a altura como sinal vital
Quanto a DRC rouba de altura
Mais de 35 por cento das crianças com DRC ficam abaixo do percentil 3 de altura (Becherucci et al., 2016). Cerca de 40 por cento das que começam terapia renal substitutiva na infância chegam à vida adulta com altura final reduzida (Drube et al., 2019). O prejuízo maior acontece cedo. Um terço de todo o crescimento pós-natal ocorre nos dois primeiros anos, e nessa fase a nutrição pesa mais do que qualquer hormônio (Becherucci et al., 2016).
As causas se somam: pouca ingestão de calorias, vômitos, acidose metabólica, perda de sal e água, distúrbio mineral e ósseo, anemia, resistência ao hormônio de crescimento e puberdade atrasada. Cada uma delas pede correção antes de pensar em hormônio.
A régua da OMS
Para saber se a criança cresce mal, é preciso uma régua comum. As curvas de crescimento infantil da OMS, lançadas em 2006, descrevem como crianças saudáveis devem crescer do nascimento aos 5 anos e incluem comprimento e altura para a idade, peso, índice de massa corporal e marcos motores (OMS, 2006). Em 2007, a OMS estendeu as curvas de altura e de índice de massa corporal até os 19 anos, com transição suave aos 5 anos e pontos de corte alinhados aos do adulto (de Onis et al., 2007).
O registro europeu de crianças em terapia renal usa critérios da OMS para avaliar o peso abaixo dos 2 anos (Bonthuis et al., 2023). O ponto prático é simples: medir comprimento deitado abaixo dos 2 anos, altura em pé depois, registrar na curva e calcular a velocidade de crescimento (Drube et al., 2019).

Altura, transplante e sobrevida
A altura não é só estética. Num registro europeu com 11.873 crianças em terapia renal, a baixa estatura se associou a menor chance de transplante e a mais que o dobro de risco de morte, com razão de risco ajustada de 2,30 (Bonthuis et al., 2023). Baixo peso e obesidade também aumentaram a mortalidade, sobretudo a cardiovascular, no mesmo estudo (Bonthuis et al., 2023). A baixa estatura funciona como marcador de doença mais grave e de nutrição insuficiente.
Quando usar hormônio de crescimento
O consenso europeu de 2019 definiu quando indicar o hormônio de crescimento recombinante (Drube et al., 2019):
- DRC nos estágios 3 a 5 ou em diálise, com mais de 6 meses de idade.
- Altura abaixo do percentil 3 e velocidade de crescimento abaixo do percentil 25.
- Desnutrição, acidose, distúrbio de sódio e água e distúrbio mineral já corrigidos, com bicarbonato de pelo menos 22 mmol/L.
- Paratormônio controlado; valores muito altos contraindicam o início.
- Depois do transplante, esperar 1 ano antes de considerar o hormônio.
A dose recomendada é de 0,045 a 0,05 mg/kg por dia, por via subcutânea, à noite (Drube et al., 2019). Na metanálise citada pelo consenso, o tratamento acrescentou 3,88 cm por ano no primeiro ano em relação ao controle (Drube et al., 2019). A partir dos 8 a 10 anos, muitas crianças aprendem a aplicar a própria injeção, o que já é um passo da transição.
Pressão, coração, anemia e cérebro
Hipertensão e o coração
A hipertensão aparece em cerca de metade das crianças com DRC; na coorte norte-americana CKiD, 54 por cento eram hipertensas e 38 por cento tinham hipertensão mascarada, vista só na monitorização ambulatorial (Becherucci et al., 2016). O ensaio ESCAPE, com 385 crianças, mostrou que mirar a pressão abaixo do percentil 50 para a idade reduziu em 35 por cento o risco de progressão da doença (Becherucci et al., 2016).
O coração sofre cedo. Hipertrofia do ventrículo esquerdo e rigidez arterial já aparecem na infância, e as doenças cardiovasculares respondem por 30 a 40 por cento das mortes de crianças em terapia renal (Harambat et al., 2012). No registro europeu, a doença cardiovascular foi a causa de morte mais frequente, à frente das infecções (Bonthuis et al., 2021).
Anemia
A anemia cresce com a perda de função: aparece em 73 por cento das crianças no estágio 3, 87 por cento no estágio 4 e 93 por cento no estágio 5 (Becherucci et al., 2016). Ela piora o cansaço, o apetite, o rendimento escolar e o coração. Os lactentes costumam precisar de doses de eritropoetina proporcionalmente maiores do que crianças maiores. O manejo geral da anemia renal está no texto sobre anemia na DRC e a KDIGO 2026.
Cognição e escola
A revisão sistemática de Wijaya e colegas encontrou prejuízo em atenção, habilidades visuoespaciais, memória de trabalho e funções executivas em crianças com DRC (Wijaya et al., 2022). Os fatores associados incluíram tempo mais longo em hemodiálise, hipertensão, convulsões, problemas no nascimento e menor escolaridade materna; o transplante se associou a resultados melhores (Wijaya et al., 2022). Para a família, isso significa conversar com a escola, pedir avaliação neuropsicológica quando o rendimento cai e não atribuir dificuldades à preguiça.
Progressão e puberdade
A progressão tende a acelerar na puberdade. No estudo italiano ItalKid, 68 por cento das crianças com hipodisplasia renal chegaram à fase terminal até os 20 anos (Harambat et al., 2012). Novos remédios testados no adulto, como finerenona e inibidores do SGLT2, ainda têm poucos dados em crianças; até 2023, não havia ensaio pediátrico registrado com inibidor do SGLT2 (Cirillo et al., 2023).
Terapia renal no mundo: quem tem acesso
O que dizem os registros
Na Europa, a incidência de crianças com menos de 15 anos que começam terapia renal substitutiva ficou estável entre 5,5 e 6,6 por milhão por ano de 2007 a 2016 (Bonthuis et al., 2021). Quatro em cada cinco começaram por diálise e um em cada cinco recebeu transplante preemptivo, antes de qualquer diálise (Bonthuis et al., 2021). A sobrevida em 5 anos ficou em torno de 94 por cento, e a sobrevida do enxerto em 5 anos em 89 por cento (Bonthuis et al., 2021).
O outro lado do mapa
Esses números descrevem a minoria das crianças do mundo. Cerca de 80 por cento das crianças em terapia renal substitutiva vivem na Europa, no Japão ou na América do Norte (Harambat et al., 2012). Em boa parte da África subsaariana, a diálise de manutenção pediátrica praticamente não existe, e menos de 10 por cento das crianças com falência renal no mundo recebem diálise ou transplante (Pais e Wightman, 2022). Onde o tratamento sai do bolso da família, a morte ou o abandono do tratamento atingem de 50 a 80 por cento das crianças em séries de centros isolados (Pais e Wightman, 2022).
A diálise peritoneal é a modalidade preferida em crianças pequenas, mas os insumos são caros, e em muitos lugares os pais fazem trocas manuais durante 12 a 16 horas por dia (Pais e Wightman, 2022). A doença de um filho vira empobrecimento da família inteira. O padrão segue a lei dos cuidados inversos: quem mais precisa recebe menos.
A resolução WHA78.6
A resolução aprovada em maio de 2025 estima que cerca de 674 milhões de pessoas vivem com DRC, 9 por cento da população mundial, e projeta a doença como quinta causa de morte em 2050 (OMS, 2025). O texto chama a doença renal de principal causa de gasto catastrófico em saúde em muitos países em desenvolvimento, onde poucos cobrem diálise e transplante (OMS, 2025).
A resolução pede que os países incluam o cuidado renal nos pacotes de cobertura universal, com diálise peritoneal, hemodiálise, transplante e cuidado conservador, e com atenção especial a gestantes e crianças (OMS, 2025). Ela trata o transplante como opção preferida para quem tem condição clínica e pede registros nacionais de doença renal. Os primeiros relatórios de progresso estão previstos para 2027, 2029 e 2031. As alternativas ao transplante humano, como o xenotransplante de rim de porco, ainda estão longe da realidade pediátrica.
Tabela: a DRC da criança em uma página
| Tema | O que muda na criança | Fonte |
|---|---|---|
| Causa principal em países ricos | Anomalias congênitas do rim e do trato urinário e doenças hereditárias | Harambat et al., 2012 |
| Causa frequente em países de renda baixa e média | Glomerulonefrite, com diagnóstico mais tardio | Pais e Wightman, 2022 |
| Estimativa da função | Schwartz de beira de leito ou CKiD U25; creatinina neonatal sem valor nas primeiras 72 horas | Cirillo et al., 2023 |
| Régua de crescimento | Curvas da OMS do nascimento aos 19 anos | de Onis et al., 2007 |
| Hormônio de crescimento | Altura abaixo do percentil 3 e velocidade abaixo do percentil 25, após corrigir os fatores tratáveis | Drube et al., 2019 |
| Alvo de pressão | Abaixo do percentil 50 para a idade no ensaio ESCAPE | Becherucci et al., 2016 |
| Cognição | Atenção, memória de trabalho e funções executivas | Wijaya et al., 2022 |
| Acesso ao tratamento | Cobertura universal com transplante como opção preferida | OMS, 2025 |
| Transição | Começar no início da adolescência e transferir em fase estável | Močnik et al., 2022 |
Transição para o cuidado adulto
Por que a passagem falha
A pediatria cuida da família; a clínica de adultos espera um paciente autônomo. Entre uma e outra, o jovem pode perder consultas, abandonar remédios e, no transplantado, perder o enxerto. Os jovens com DRC leve, malformações operadas na infância ou hipertensão sem remédio são os mais esquecidos, porque não têm consultas frequentes (Močnik et al., 2022).
Num levantamento esloveno com 100 jovens de 17 anos ou mais acompanhados na nefrologia pediátrica, 46 por cento não sabiam quem cuidaria deles depois e cerca de um terço não sabia como a doença afetava a escolha da profissão e a saúde reprodutiva (Močnik et al., 2022). Quase todos moravam com os pais, e muitos ainda iam às consultas acompanhados.
Como fazer a transição
O consenso internacional citado pelos autores propõe começar a preparação no início da adolescência, entre 12 e 14 anos, de forma gradual e adequada ao desenvolvimento, e fazer a transferência numa fase estável da doença, depois de terminar a escola (Močnik et al., 2022). A preparação inclui explicar a doença ao jovem com as palavras dele, ensinar o nome e o efeito dos remédios, treinar a ida sozinho à consulta e falar de profissão, sexualidade, gestação, álcool e drogas.
O método de checar se o paciente entendeu vale para o adolescente. Pedir que ele explique, com as próprias palavras, por que toma cada remédio revela lacunas que o sim de cabeça esconde. A consulta conjunta entre nefrologista pediátrico e de adultos ajuda a passar o vínculo, e o médico de família segura a continuidade, como mostra o texto sobre longitudinalidade. Os erros mais comuns lembram os da transição da alta hospitalar para a atenção primária: informação que não chega, responsável que não está definido e paciente que some.
Quem segue com quem
Há acordo de que jovens com DRC nos estágios 3 e 4 sejam transferidos para o nefrologista de adultos, enquanto quem tem DRC nos estágios 1 e 2 pode seguir na atenção primária e voltar ao especialista se surgir progressão, hipertensão ou proteinúria (Močnik et al., 2022). O importante é que alguém tenha o nome do jovem na lista.
Voltando ao menino da abertura
O menino de 9 anos tem os sinais típicos de uma DRC por malformação urinária que passou despercebida: dilatação renal no pré-natal, poliúria, baixa estatura, anemia e pressão alta. O próximo passo é a ultrassonografia, a urina, a estimativa da TFG por equação pediátrica e o encaminhamento ao nefrologista pediátrico. Antes de pensar em hormônio de crescimento, a equipe corrige nutrição, acidose, anemia e distúrbio mineral, registra a altura na curva da OMS e mede a velocidade de crescimento a cada consulta. A conversa sobre transição começa daqui a três ou quatro anos, mas a autonomia já pode começar agora, com ele aprendendo o nome dos próprios remédios.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Buscar o código certo na CID-10 completa esse treino.
Perguntas frequentes
Qual é a causa mais comum de DRC na criança?
Nos registros de países ricos, as anomalias congênitas do rim e do trato urinário, como displasia, hipoplasia e válvula de uretra posterior, vêm em primeiro lugar, seguidas das doenças hereditárias e glomerulares. Em países de renda baixa e média, a glomerulonefrite pesa mais.
Posso usar a equação do adulto para estimar a TFG de uma criança?
Na criança se usa a equação de Schwartz de beira de leito ou a CKiD U25, que combina creatinina e cistatina C e vale até os 25 anos. No recém-nascido, a creatinina das primeiras 72 horas reflete a da mãe.
Toda criança baixa com DRC deve receber hormônio de crescimento?
O hormônio entra só quando a altura está abaixo do percentil 3, a velocidade de crescimento abaixo do percentil 25 e os fatores tratáveis, como nutrição, acidose e distúrbio mineral, já foram corrigidos. Depois do transplante, espera-se 1 ano.
A DRC afeta o desempenho escolar?
Pode afetar atenção, memória de trabalho e funções executivas. Hemodiálise prolongada, hipertensão e convulsões pioram o quadro, e o transplante se associa a resultados melhores. A escola deve entrar no cuidado.
O que a resolução da OMS de 2025 muda para as crianças?
Ela pede que os países incluam o cuidado renal completo na cobertura universal, com atenção especial a crianças e gestantes, trata o transplante como opção preferida e pede registros nacionais de doença renal.
Com que idade começar a transição para o nefrologista de adultos?
A preparação começa no início da adolescência, entre 12 e 14 anos, de forma gradual. A transferência acontece numa fase estável da doença, em geral depois do fim da escola, com consulta conjunta sempre que possível.
Take-home messages
- A DRC da criança nasce, na maior parte das vezes, de malformações urinárias e de genes, e não de diabetes ou hipertensão.
- A prematuridade e o baixo peso ao nascer deixam menos néfrons para a vida inteira.
- A função renal da criança se estima com equações pediátricas; a creatinina dos primeiros dias de vida reflete a mãe.
- A altura é um sinal vital: medir em toda consulta, registrar na curva da OMS e corrigir os fatores tratáveis antes do hormônio de crescimento.
- Pressão abaixo do percentil 50, controle da anemia e atenção à escola mudam o futuro da criança.
- O acesso à diálise e ao transplante pediátricos é profundamente desigual no mundo, e a resolução WHA78.6 pede cobertura universal (OMS, 2025).
- A transição começa no início da adolescência e só termina quando alguém assume o cuidado do jovem adulto.
Milestone inventory
- 2006: a OMS lança as curvas de crescimento infantil do nascimento aos 5 anos (OMS, 2006).
- 2007: a OMS estende as curvas de altura e de índice de massa corporal até os 19 anos (de Onis et al., 2007).
- 2009: o ensaio ESCAPE mostra benefício do controle intensivo da pressão em crianças com DRC, e a equação de Schwartz é revista.
- 2019: o consenso europeu define critérios para o hormônio de crescimento na DRC infantil (Drube et al., 2019).
- 2021: a equação CKiD U25 passa a estimar a TFG do lactente ao adulto jovem, e o registro europeu publica dez anos de dados de terapia renal pediátrica (Bonthuis et al., 2021).
- 2025: a Assembleia Mundial da Saúde aprova a resolução WHA78.6, a primeira sobre saúde renal (OMS, 2025).
Jogue o caso do dia no NEXO.
Referências
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- Becherucci F, Roperto RM, Materassi M, Romagnani P. Chronic kidney disease in children. Clin Kidney J. 2016;9(4):583-591. PMID 27478602. DOI 10.1093/ckj/sfw047.
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- Drube J, Wan M, Bonthuis M, et al. Clinical practice recommendations for growth hormone treatment in children with chronic kidney disease. Nat Rev Nephrol. 2019;15(9):577-589. PMID 31197263. DOI 10.1038/s41581-019-0161-4.
- Wijaya EA, Solek P, Hakim DDL, et al. Factors Affecting Neurocognitive Function in Children with Chronic Kidney Disease: A Systematic Review. Int J Nephrol Renovasc Dis. 2022;15:277-288. PMID 36329897. DOI 10.2147/IJNRD.S375242.
- Pais P, Wightman A. Addressing the Ethical Challenges of Providing Kidney Failure Care for Children: A Global Stance. Front Pediatr. 2022;10:842783. PMID 35359883. DOI 10.3389/fped.2022.842783.
- Bonthuis M, Vidal E, Bjerre A, et al. Ten-year trends in epidemiology and outcomes of pediatric kidney replacement therapy in Europe: data from the ESPN/ERA-EDTA Registry. Pediatr Nephrol. 2021;36(8):2337-2348. PMID 33483800. DOI 10.1007/s00467-021-04928-w.
- Bonthuis M, Bakkaloglu SA, Vidal E, et al. Associations of longitudinal height and weight with clinical outcomes in pediatric kidney replacement therapy: results from the ESPN/ERA Registry. Pediatr Nephrol. 2023;38(10):3435-3443. PMID 37154961. DOI 10.1007/s00467-023-05973-3.
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