CID-10: como encontrar o código certo rapidamente

Fim da consulta, fila na recepção, e o prontuário eletrônico pede o CID antes de fechar o atendimento. Você digita "dor de cabeça" e a busca devolve uma lista longa, com cefaleia tensional, enxaqueca, cefaleia não especificada e mais uma dúzia de opções. Escolher no susto é comum: numa simulação com prontuário eletrônico, pouco mais da metade dos códigos que os clínicos registraram era adequada ao cenário, e cerca de um quarto dos códigos esperados foi omitido (Horsky et al., 2017).
O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.
Este guia mostra como encontrar o código da CID-10 em poucos passos: como o código é montado, como usar o índice alfabético e a lista de categorias, o que fazer quando ainda não há diagnóstico e quais erros aparecem com mais frequência. No fim, você vê como treinar a noção de capítulo e de grupo, que é o que mais acelera a busca.
Principais pontos
- O código da CID-10 tem uma letra e números: a letra indica o capítulo, os três primeiros caracteres formam a categoria e o quarto, depois do ponto, a subcategoria.
- A própria OMS orienta procurar o termo no índice alfabético e depois conferir o código na lista de categorias, lendo as inclusões e exclusões.
- Quando o atendimento termina sem diagnóstico, o registro mais útil é o sintoma ou o achado, e o capítulo XVIII (R00 a R99) existe para isso.
- O sufixo .9 costuma significar "não especificado" e o .8, "outros": são úteis, mas não devem substituir um código mais preciso quando você tem a informação.
- Saber em que capítulo e em que grupo a doença está encurta a busca, e é uma habilidade que dá para treinar.
Sumário
- Como o código da CID-10 é montado
- O caminho rápido: índice, lista e conferência
- Quando ainda não há diagnóstico: o capítulo dos sintomas
- Os motivos de consulta mais comuns na atenção primária
- Erros comuns e como evitar
- CID-10, CID-11 e CIAP
- Como treinar a noção de capítulo e grupo
- Perguntas frequentes
- Checklist para encontrar o CID
Como o código da CID-10 é montado
A CID-10 é a décima revisão da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde. Ela organiza doenças, sintomas, achados e motivos de contato com o serviço de saúde numa hierarquia de capítulos, grupos, categorias e subcategorias. Entender essa hierarquia é o primeiro atalho: quem sabe onde a doença mora procura em poucos lugares.

Letra, categoria e subcategoria
O manual da OMS descreve o código como alfanumérico: uma letra na primeira posição e números na segunda, na terceira e na quarta, com o quarto caractere depois do ponto (OMS, CID-10, volume 2). Os três primeiros caracteres formam a categoria, e cada categoria pode ser dividida em até dez subcategorias de quatro caracteres (OMS, CID-10, volume 2).
Um exemplo do próprio buscador da OMS: R50 é "febre de outras origens e de origem desconhecida", e R50.9 é "febre não especificada" (buscador da CID-10 da OMS). A categoria diz o tema; a subcategoria diz o detalhe.
O que o .8 e o .9 querem dizer
Segundo o manual, o quarto caractere .8 em geral é usado para "outras" condições da categoria, e o .9 tem quase sempre o mesmo sentido do título da categoria, sem acrescentar informação (OMS, CID-10, volume 2). Na prática, o .9 é o "não especificado".
Isso tem uma consequência direta na busca. Quando a lista oferece um código terminado em .9 e outro mais específico, vale perguntar se você tem a informação que o específico pede. Se tem, o específico descreve melhor o atendimento. Se não tem, o .9 é a escolha honesta.
Os capítulos e as letras
Os capítulos agrupam as condições por sistema do corpo ou por tipo de problema. A tabela abaixo traz os capítulos da versão 2019 com a faixa de códigos de cada um, conforme o buscador da OMS (buscador da CID-10 da OMS). A tradução dos títulos é livre.
| Capítulo | Faixa | Tema |
|---|---|---|
| I | A00 a B99 | Doenças infecciosas e parasitárias |
| II | C00 a D48 | Neoplasias |
| III | D50 a D89 | Sangue, órgãos hematopoéticos e alguns transtornos imunitários |
| IV | E00 a E90 | Doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas |
| V | F00 a F99 | Transtornos mentais e comportamentais |
| VI | G00 a G99 | Sistema nervoso |
| VII | H00 a H59 | Olho e anexos |
| VIII | H60 a H95 | Ouvido e apófise mastoide |
| IX | I00 a I99 | Aparelho circulatório |
| X | J00 a J99 | Aparelho respiratório |
| XI | K00 a K93 | Aparelho digestivo |
| XII | L00 a L99 | Pele e tecido subcutâneo |
| XIII | M00 a M99 | Sistema osteomuscular e tecido conjuntivo |
| XIV | N00 a N99 | Aparelho geniturinário |
| XV | O00 a O99 | Gravidez, parto e puerpério |
| XVI | P00 a P96 | Algumas afecções do período perinatal |
| XVII | Q00 a Q99 | Malformações congênitas e anomalias cromossômicas |
| XVIII | R00 a R99 | Sintomas, sinais e achados anormais não classificados em outra parte |
| XIX | S00 a T98 | Lesões, envenenamentos e outras consequências de causas externas |
| XX | V01 a Y98 | Causas externas de morbidade e mortalidade |
| XXI | Z00 a Z99 | Fatores que influenciam o estado de saúde e o contato com serviços de saúde |
| XXII | U00 a U85 | Códigos para propósitos especiais |
Fonte da tabela: lista de capítulos e blocos do buscador da CID-10 da OMS, versão 2019, consultado em 11/10/2026.
Repare que algumas letras são divididas entre capítulos (D, H) e que alguns capítulos usam duas letras (A e B, S e T). Por isso a letra ajuda a localizar, mas a faixa completa é que decide.
Grupos dentro do capítulo
Entre o capítulo e a categoria existem os grupos, também chamados de blocos. O capítulo XVIII, por exemplo, tem blocos como R00 a R09 (sintomas e sinais do aparelho circulatório e respiratório), R10 a R19 (aparelho digestivo e abdome) e R50 a R69 (sintomas e sinais gerais) (buscador da CID-10 da OMS). Saber o bloco certo é o que permite abrir uma lista curta em vez de rolar o capítulo inteiro.
O caminho rápido: índice, lista e conferência
A OMS tem um roteiro curto para quem usa a classificação de vez em quando. A primeira frase dele já resume o método: o índice alfabético tem muitos termos que não aparecem na lista de categorias, e é preciso consultar os dois antes de atribuir um código (OMS, CID-10, volume 2).

O roteiro da OMS em oito passos
Resumindo o guia básico do volume 2 (OMS, CID-10, volume 2):
- Identifique o tipo de afirmação e vá à seção certa do índice alfabético. Doenças e lesões ficam na seção I; causas externas, na seção II.
- Localize o termo principal. Para doenças, em geral é o substantivo da condição; alguns adjetivos e epônimos também são termos principais.
- Leia as notas que aparecem sob o termo principal.
- Leia os modificadores entre parênteses (não mudam o código) e os termos recuados abaixo (podem mudar o código) até cobrir todas as palavras do diagnóstico.
- Siga as remissões "ver" e "ver também".
- Confira na lista de categorias se o código escolhido é adequado. Um código de três caracteres seguido de traço no índice indica que existe um quarto caractere a escolher.
- Leia os termos de inclusão e de exclusão do código, da categoria, do bloco e do capítulo.
- Atribua o código.
Como isso fica na busca do prontuário
A busca do prontuário eletrônico faz o papel do índice: você digita um termo e recebe candidatos. O passo que costuma faltar é o 6 e o 7, a conferência. Na simulação com dois prontuários eletrônicos, os autores observaram muita variação nos termos de busca usados para o mesmo diagnóstico, e os cenários de doença de Crohn e de diabetes tiveram as maiores taxas de código inadequado (Horsky et al., 2017).
Três hábitos ajudam a busca a devolver o que você quer:
- Busque pelo substantivo da condição, como pede o passo 2: "pneumonia", "cefaleia", "fratura". Adjetivos e localização vêm depois, como refinamento.
- Leia a lista inteira de candidatos antes de escolher o primeiro. A diferença entre duas opções muitas vezes está no quarto caractere.
- Abra a categoria do candidato e leia os irmãos. Se o paciente tem uma forma mais específica, ela costuma estar ali do lado.
Inclusões e exclusões
As notas de inclusão listam condições que entram no código mesmo com outro nome. As de exclusão mandam você para outro lugar. O capítulo XVIII, por exemplo, exclui os achados anormais no rastreamento pré-natal da mãe, que vão para O28, e algumas afecções originadas no período perinatal, que ficam em P00 a P96 (buscador da CID-10 da OMS). Ler a exclusão antes de confirmar ajuda a evitar um código no capítulo errado.
Quando ainda não há diagnóstico: o capítulo dos sintomas
Muitos atendimentos terminam sem um diagnóstico fechado: a dor abdominal que melhorou, a tontura que ainda está em investigação, a febre que vai ser reavaliada. Para esses casos, a CID-10 tem um capítulo próprio, e usá-lo bem é parte de registrar com precisão.
O que entra no capítulo XVIII
O capítulo XVIII (R00 a R99) reúne sintomas, sinais, resultados anormais de exames e condições mal definidas para as quais não há diagnóstico classificável em outro capítulo (buscador da CID-10 da OMS). A nota da OMS explica que sinais e sintomas que apontam com clareza para um diagnóstico foram colocados no capítulo da doença; aqui ficam os que podem indicar, sem a investigação necessária, duas ou mais doenças ou dois ou mais sistemas do corpo (buscador da CID-10 da OMS).
A mesma nota lista as situações em que o capítulo é o lugar certo (buscador da CID-10 da OMS):
- quando não foi possível chegar a um diagnóstico mais específico mesmo depois de investigar os fatos do caso;
- quando o sintoma do primeiro atendimento se mostrou passageiro e a causa não foi determinada;
- quando o diagnóstico era provisório e o paciente não voltou para continuar a investigação;
- quando o paciente foi encaminhado antes de o diagnóstico ser feito;
- quando um diagnóstico mais preciso não estava disponível por outro motivo;
- para certos sintomas que representam, por si, problemas importantes no cuidado.
Exemplos de códigos de sintoma
Alguns códigos do capítulo XVIII aparecem com frequência em quem atende queixas comuns. Os títulos abaixo foram conferidos no buscador da OMS (buscador da CID-10 da OMS) e traduzidos livremente.
| Queixa | Código | Título na CID-10 |
|---|---|---|
| Tosse | R05 | Tosse |
| Dor torácica sem causa definida | R07.4 | Dor torácica não especificada |
| Dor abdominal sem localização definida | R10.4 | Outras dores abdominais e as não especificadas |
| Náusea e vômito | R11 | Náusea e vômitos |
| Tontura | R42 | Tontura e instabilidade |
| Febre sem foco definido | R50.9 | Febre não especificada |
| Cefaleia | R51 | Cefaleia |
| Cansaço | R53 | Mal-estar e fadiga |
| Desmaio | R55 | Síncope e colapso |
Fonte da tabela: categorias e subcategorias dos blocos R00 a R09, R10 a R19, R40 a R46 e R50 a R69 no buscador da CID-10 da OMS, versão 2019.
Sintoma registrado é informação útil
A orientação da OMS para morbidade é clara: se nenhum diagnóstico definitivo foi estabelecido até o fim do atendimento, registre o sintoma, o achado anormal ou o problema que dá o maior grau de especificidade, em vez de qualificar um diagnóstico como "possível", "questionável" ou "suspeito" (OMS, CID-10, volume 2). Registrar "dor torácica não especificada" quando é isso que você sabe descreve o atendimento melhor do que um diagnóstico que ainda não foi feito.
O motivo tem base clínica. Num estudo clássico em ambulatório de clínica médica, uma causa orgânica foi demonstrada em apenas 16% de queixas comuns como dor torácica, fadiga, tontura e cefaleia, mesmo com exames feitos em mais de dois terços delas (Kroenke e Mangelsdorff, 1989). Nesses atendimentos, o sintoma é o diagnóstico mais preciso disponível.
Internação e suspeita
Para pacientes internados, o manual pede cautela com os capítulos XVIII e XXI como condição principal: eles são aceitáveis quando não se chegou a um diagnóstico mais específico até a alta, ou quando não havia doença atual a registrar (OMS, CID-10, volume 2). Se, depois do episódio, a condição principal continua registrada como "suspeita", sem mais informação, o manual manda classificar a suspeita como se estivesse confirmada (OMS, CID-10, volume 2).
Quando a suspeita foi afastada pela investigação, a categoria indicada é a Z03, de observação e avaliação para suspeita de doenças. O exemplo do manual é a internação para investigar neoplasia maligna do colo do útero que foi descartada, registrada como Z03.1 (OMS, CID-10, volume 2).
O peso do capítulo XVIII nas estatísticas
Os dados do Brasil mostram por que o uso do capítulo importa. Em 2010, o Sistema de Informações sobre Mortalidade registrou 97.314 óbitos por causas mal definidas do capítulo XVIII; 30,3% foram investigados e 65,5% destes passaram a ter uma causa definida depois da investigação (França et al., 2014). O capítulo é a resposta certa quando a causa ainda é desconhecida, e a investigação seguinte é o que permite trocar o R por um código mais preciso.
Os motivos de consulta mais comuns na atenção primária
Uma lista exata dos CIDs mais usados depende do serviço, da população e do sistema de registro, e por isso varia muito entre locais. A literatura sobre motivos de consulta ajuda a saber quais grupos da CID você vai procurar mais vezes no começo da prática.
O que uma revisão sistemática encontrou
Uma revisão sistemática sobre motivos de consulta na atenção primária em países de renda baixa e média encontrou que a maioria dos estudos usava sistemas de classificação não validados ou agrupava os diagnósticos por sistema (Bigio et al., 2022). Só quatro estudos, do Brasil, da Índia, da Nigéria e da África do Sul, usaram a CIAP-2 e puderam ser combinados (Bigio et al., 2022).
Nesses quatro estudos, os cinco motivos de consulta mais citados pelos pacientes foram cefaleia, febre, sintoma lombar ou nas costas, tosse e dor geral ou em vários locais (Bigio et al., 2022). Os cinco diagnósticos mais registrados pelos profissionais foram hipertensão sem complicação, infecção de vias aéreas superiores, diabetes tipo 2, malária e manutenção da saúde ou prevenção (Bigio et al., 2022).
Como usar essa lista
Repare que os motivos de consulta são quase todos sintomas, e os diagnósticos são doenças crônicas comuns, infecções respiratórias e prevenção. Isso dá um mapa prático para treinar a busca:
| O que aparece na consulta | Onde procurar na CID-10 |
|---|---|
| Queixas como cefaleia, febre, tosse e dor | Capítulo XVIII (R00 a R99), enquanto não há diagnóstico |
| Hipertensão e outras doenças cardiovasculares | Capítulo IX (I00 a I99) |
| Infecções de vias aéreas | Capítulo X (J00 a J99) |
| Diabetes e outras doenças metabólicas | Capítulo IV (E00 a E90) |
| Dor lombar com diagnóstico osteomuscular | Capítulo XIII (M00 a M99) |
| Consultas de prevenção, acompanhamento e rastreamento | Capítulo XXI (Z00 a Z99) |
Fonte da tabela: motivos de consulta e diagnósticos de Bigio et al., 2022, cruzados com as faixas de capítulo do buscador da CID-10 da OMS.
O capítulo XXI merece atenção. Consultas de rotina, vacinação, acompanhamento de doença já tratada e outros contatos sem doença atual têm códigos próprios ali, e o manual pede que essas circunstâncias sejam registradas como condição principal (OMS, CID-10, volume 2).
Erros comuns e como evitar
A CID-10 nasceu para estatística de mortalidade e de morbidade, e hoje é usada também em pesquisa, gestão e financiamento. Por isso um código errado não fica só no prontuário: ele se espalha para os dados.
Onde o erro entra
Uma revisão sobre a precisão dos códigos da CID separou as fontes de erro em dois trajetos (O'Malley et al., 2005). No trajeto do paciente, pesam a quantidade e a qualidade da informação na admissão, a comunicação entre paciente e equipe, o conhecimento do clínico sobre a doença e a atenção aos detalhes. No trajeto do papel, pesam a diferença entre registros, o treino de quem escolhe o código, o controle de qualidade do serviço e erros como especificar mal, separar demais ou superestimar o código (O'Malley et al., 2005).
Quanto os registros acertam
Uma revisão sistemática que comparou dados hospitalares de rotina da Grã-Bretanha com a revisão dos prontuários encontrou precisão mediana de 83,2% (Burns et al., 2012). A variação entre os estudos foi grande, de 50,5% a 97,8% (Burns et al., 2012). Na simulação ambulatorial, a omissão foi maior para os diagnósticos secundários do que para o principal, e códigos de vacinação, dependência de diálise e dependência de nicotina foram os mais esquecidos (Horsky et al., 2017).
Os erros que mais aparecem na rotina
- Escolher o primeiro da lista. A busca ordena por semelhança de texto, não por adequação ao caso. Leia os candidatos e abra a categoria.
- Usar .9 por pressa. Quando você sabe a localização, o tipo ou a causa, o código específico registra isso. O .9 fica para quando a informação realmente falta.
- Registrar "suspeita de" como se fosse diagnóstico. Se o diagnóstico não foi feito até o fim do atendimento, o sintoma é o registro recomendado (OMS, CID-10, volume 2).
- Esquecer os diagnósticos secundários. As comorbidades tratadas ou acompanhadas no atendimento também são registradas como outras condições (OMS, CID-10, volume 2).
- Ignorar a exclusão. Uma nota de exclusão pode mandar a condição para outro capítulo inteiro.
Um hábito que corrige quase todos
Antes de confirmar, leia o título do código escolhido em voz baixa e compare com a frase que você escreveria no prontuário. Se o título diz mais do que você sabe, troque por um código mais geral. Se diz menos, procure um irmão mais específico na mesma categoria. O texto sobre como interpretar sinais, sintomas e história ajuda a decidir o que você realmente sabe ao fim da consulta.
CID-10, CID-11 e CIAP
Três classificações aparecem com frequência para quem atende: a CID-10, a CID-11 e a CIAP. Elas têm finalidades parecidas, mas não são intercambiáveis.
A CID-11 já está em vigor
A CID-11 foi adotada pela Assembleia Mundial da Saúde em 2019 e entrou em vigor em 1º de janeiro de 2022 (OMS, implementação da CID-11). A própria OMS informa que os países podem continuar usando a CID-10 pelo tempo necessário, mas incentiva a adoção rápida da CID-11 (OMS, implementação da CID-11). Na transição, o que você aprende sobre a lógica de capítulos, inclusões e exclusões continua valendo.
A CIAP olha para o motivo da consulta
A Classificação Internacional de Atenção Primária, a CIAP (ICPC, em inglês), foi desenvolvida pela WONCA, a organização mundial de médicos de família. As edições 1 e 2 registram três elementos do atendimento: o motivo da consulta, o diagnóstico ou problema de saúde e o processo de cuidado (Napel et al., 2022). A CIAP-3 acrescenta informações sobre funcionalidade e um capítulo para vacinação e rastreamento (Napel et al., 2022).
| CID-10 | CID-11 | CIAP | |
|---|---|---|---|
| Quem mantém | OMS | OMS | WONCA |
| Foco | Doenças, sintomas e motivos de contato | Doenças, sintomas e motivos de contato, com estrutura nova | Motivo da consulta, problema e processo na atenção primária |
| Situação | Em uso, com transição em curso | Em vigor desde 2022 | Usada na atenção primária; edição 3 publicada |
Fonte da tabela: OMS, implementação da CID-11 e Napel et al., 2022.
Onde consultar
O buscador da CID-10 da OMS permite buscar por termo ou por código e mostra capítulos, blocos, inclusões e exclusões. A versão em português da CID-10 pode ser consultada no site do DATASUS. Para conferir uma regra de uso, como condição principal ou suspeita, a fonte é o volume 2 da CID-10.
Como treinar a noção de capítulo e grupo
O atalho mais rápido para achar um código é saber, antes de buscar, em que capítulo e em que grupo a doença está. Essa noção vem de exposição repetida, e dá para treinar fora do consultório.
Estudar a CID pela lógica, não pela lista
Decorar códigos raramente compensa. O que compensa é conhecer a arquitetura: as faixas dos capítulos, os blocos dos capítulos que você mais usa e o sentido do .8 e do .9. Com isso, uma busca que devolveria dezenas de opções vira uma escolha entre três ou quatro irmãos da mesma categoria.
Um exercício simples: escolha um bloco por semana, como R50 a R69 ou J00 a J06, e leia as categorias e as notas de exclusão. Na semana seguinte, tente lembrar onde ficam três condições daquele bloco antes de abrir o buscador. Para fixar o que errou, os cartões de revisão do texto sobre repetição espaçada com Anki funcionam bem.
A proximidade na CID-10 do NEXO
No NEXO, você lê até seis pistas de um caso, busca o diagnóstico pelo nome ou pelo código da CID-10 e envia o palpite. A resposta mostra a proximidade em cinco níveis: CID exato, mesma categoria, mesmo grupo, mesmo capítulo ou capítulo diferente. É a mesma hierarquia deste guia, usada como retorno a cada palpite.
Esse retorno treina justamente a noção de vizinhança entre códigos. Um palpite na mesma categoria diz que você estava entre irmãos e faltou precisão; um palpite em outro capítulo diz que a hipótese saiu do sistema certo. Na terceira pista aparece a área do caso e, na quinta, a faixa da CID. O texto sobre o que é o NEXO explica uma partida passo a passo.
Modos para treinar mais
O Diário traz um caso por dia, o mesmo para todo mundo. O Arquivo reúne os casos diários anteriores, bom para voltar a uma área em que você errou mais. O Multimídia traz casos com imagem, áudio e outros exames, e o Continentes, casos ligados a diferentes regiões do mundo. O Adrenalina treina o raciocínio com tempo. Como cada modo é liberado e quais são os limites de uso está na página de economia do NEXO.
O botão do Anki cria o card direto do NEXO e abre no app do Anki, o que ajuda a guardar o diagnóstico com o código e o achado que separou as hipóteses. Para registrar o tipo de erro, use o método do caderno de erros.
Levar para a turma e para a pesquisa
Se você coordena uma faculdade, uma liga ou uma residência e quer usar casos com retorno pela CID-10 no ensino, conheça o NEXO Closer. Pesquisadores que queiram estudar o efeito desse tipo de retorno no raciocínio diagnóstico podem propor estudos pelo NEXO Researcher. Médicos que queiram revisar os casos e a classificação da sua especialidade podem participar pelo NEXO Curator, e quem produz conteúdo de medicina pode conhecer o NEXO Creators.
Perguntas frequentes
Como encontrar o CID de uma doença rapidamente?
Busque pelo substantivo da condição, leia todos os candidatos e abra a categoria do mais provável para ver os irmãos. Antes de confirmar, leia as inclusões e exclusões. O roteiro da OMS pede justamente consultar o índice e depois conferir o código na lista de categorias (OMS, CID-10, volume 2).
Qual CID usar quando ainda não tenho o diagnóstico?
Registre o sintoma, o achado anormal ou o problema mais específico que você conhece, em geral no capítulo XVIII (R00 a R99). A OMS recomenda esse registro em vez de qualificar um diagnóstico como "possível" ou "suspeito" (OMS, CID-10, volume 2).
O que significa o .9 no final do código?
Na maior parte das categorias, o .9 tem o mesmo sentido do título da categoria, sem informação adicional, e funciona como "não especificado". O .8 costuma indicar "outras" condições da categoria (OMS, CID-10, volume 2).
Como registrar sintomas inespecíficos na CID-10?
Procure o sintoma no índice e confira no capítulo XVIII, que reúne sintomas e sinais que podem indicar mais de uma doença ou mais de um sistema (buscador da CID-10 da OMS). Escolha a subcategoria que descreve o que você observou, como R07.4 para dor torácica não especificada ou R50.9 para febre não especificada.
Posso registrar "suspeita de" uma doença?
Se o diagnóstico não foi estabelecido até o fim do atendimento, a orientação é registrar o sintoma ou o achado. Se, ao fim de um episódio, a condição principal continua como suspeita sem outra informação, o manual manda classificá-la como confirmada; se a suspeita foi afastada, a categoria é a Z03 (OMS, CID-10, volume 2).
Quais são os CIDs mais usados na atenção primária?
Depende do serviço e da população. Numa revisão de estudos que usaram a CIAP-2, os motivos de consulta mais comuns foram cefaleia, febre, sintomas nas costas, tosse e dor, e os diagnósticos mais comuns foram hipertensão, infecção de vias aéreas superiores, diabetes tipo 2, malária e prevenção (Bigio et al., 2022). Na CID-10, isso corresponde sobretudo aos capítulos XVIII, IX, X, IV e XXI.
Ainda vale aprender a CID-10 com a CID-11 em vigor?
Vale. A CID-11 está em vigor desde 1º de janeiro de 2022, mas a OMS informa que os países podem continuar usando a CID-10 pelo tempo necessário (OMS, implementação da CID-11). A lógica de capítulos, inclusões, exclusões e condição principal ajuda na transição.
Qual a diferença entre CID e CIAP?
A CID, mantida pela OMS, classifica doenças, sintomas e motivos de contato com os serviços. A CIAP, da WONCA, foi pensada para a atenção primária e registra o motivo da consulta, o problema e o processo de cuidado (Napel et al., 2022).
Como o NEXO ajuda a aprender a CID-10?
Cada palpite no NEXO é feito pela CID-10 e recebe a proximidade em cinco níveis, do capítulo diferente ao CID exato. Esse retorno mostra, caso a caso, se a sua hipótese estava na categoria, no grupo ou no capítulo certo, que é a mesma hierarquia usada para encontrar um código rapidamente.
Checklist para encontrar o CID
- Defina o que você sabe: diagnóstico confirmado, sintoma, achado ou motivo de contato.
- Pense no capítulo antes de buscar, pela faixa de letras.
- Busque pelo substantivo da condição e depois refine.
- Leia todos os candidatos, não só o primeiro.
- Abra a categoria e compare os irmãos pelo quarto caractere.
- Leia inclusões e exclusões do código, do bloco e do capítulo.
- Use .9 só quando a informação faltar de verdade.
- Na falta de diagnóstico, registre o sintoma no capítulo XVIII.
- Registre também as outras condições tratadas no atendimento.
- Treine um bloco por semana e confira onde ficam as condições que você mais vê.
Quer treinar a noção de capítulo e grupo hoje? Jogue o caso do dia no NEXO.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems, 10th Revision, Volume 2: Instruction manual. Edição 2019. https://icd.who.int/browse10/Content/statichtml/ICD10Volume2_en_2019.pdf
- Organização Mundial da Saúde. ICD-10 Version:2019, consulta on-line (capítulos, blocos e categorias). https://icd.who.int/browse10/2019/en
- Organização Mundial da Saúde. ICD-11 Implementation (perguntas frequentes). https://www.who.int/standards/classifications/frequently-asked-questions/icd-11-implementation
- Horsky J, Drucker EA, Ramelson HZ. Precisão e completude dos códigos da CID-10 em atendimentos ambulatoriais (título original em inglês na página do PubMed). AMIA Annu Symp Proc. 2017. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29854158/
- O'Malley KJ, Cook KF, Price MD, et al. Measuring diagnoses: ICD code accuracy. Health Serv Res. 2005. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16178999/
- Burns EM, Rigby E, Mamidanna R, et al. Revisão sistemática da precisão dos códigos de alta hospitalar (título original em inglês na página do PubMed). J Public Health (Oxf). 2012. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21795302/
- Kroenke K, Mangelsdorff AD. Common symptoms in ambulatory care: incidence, evaluation, therapy, and outcome. Am J Med. 1989. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2919607/
- França E, Teixeira R, Ishitani L, et al. Ill-defined causes of death in Brazil: a redistribution method based on the investigation of such causes. Rev Saude Publica. 2014. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25210826/
- Bigio J, MacLean E, Vasquez NA, et al. Most common reasons for primary care visits in low- and middle-income countries: A systematic review. PLOS Glob Public Health. 2022. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36962326/
- Napel HT, van Boven K, Olagundoye OA, et al. Improving Primary Health Care Data With ICPC-3: From a Medical to a Person-Centered Perspective. Ann Fam Med. 2022. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35879074/