Festivais e eventos de massa: calor, drogas e o posto médico

Sumário
- Como se mede a demanda de um evento
- Quem procura o posto médico
- O calor como fator que mais pesa
- Drogas: o que circula e o que chega ao hospital
- Checagem de drogas e as barreiras para pedir ajuda
- O efeito fora do recinto
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Num atendimento fictício, um rapaz de 23 anos chega ao posto médico de um festival às quatro da tarde. Está quente, confuso e suado, e os amigos hesitam quando a enfermeira pergunta o que ele usou. Na maca ao lado, uma senhora de 70 anos espera curativo numa bolha do pé, e do lado de fora a fila de quem quer só um analgésico não para de crescer. O posto de um evento de massa vive essa mistura: muita queixa leve, algumas emergências reais e uma parte da história que o paciente prefere esconder.
Evento de massa é aquele em que o número de pessoas reunidas pode sobrecarregar os recursos de resposta da comunidade que o recebe (Sultana et al., 2025). Este texto olha para o que chega ao posto médico, para o papel do calor e das drogas e para o efeito do evento fora do recinto. A análise química das amostras está no post sobre checagem de drogas, e o diferencial da síndrome serotoninérgica, no de MDMA.
Principais pontos
- Num festival austríaco acompanhado por sete edições, o número de visitantes previu mal o número de atendimentos, e a temperatura se associou aos atendimentos por calor (Maleczek et al., 2022).
- Em Glastonbury 2022, a maior parte dos 2.828 pacientes teve problemas leves e voltou ao festival; a intoxicação respondeu por uma fatia pequena dos diagnósticos registrados (Bennett e Cottrell, 2024).
- Num hospital terciário de Las Vegas, quem chegou intoxicado do festival Electric Daisy Carnival foi internado em UTI com mais frequência do que outros intoxicados do mesmo período, num estudo de centro único (Ren et al., 2026).
- Em inquérito com 1.229 frequentadores de festivais australianos, o medo da polícia foi a barreira mais citada para pedir ajuda (Page et al., 2022).
- Dias com eventos de música tiveram mais chamadas de ambulância em todo o estado de Rhode Island, o que mostra que o evento também pesa sobre a rede de fora (Kienbacher et al., 2024).
Como se mede a demanda de um evento
A taxa de apresentação de pacientes (PPR, na sigla em inglês) conta quantas pessoas procuram o serviço de saúde do evento para cada mil ou dez mil presentes. A taxa de transporte ao hospital (TTHR) conta quantas dessas pessoas saem do recinto para um hospital.
Os números variam muito conforme o tipo de evento. Numa revisão de escopo com 22 artigos sobre eventos em estádios e arenas, a PPR foi de uma a 24 por 10.000 espectadores, com mediana de 3,8 por 10.000, e a TTHR foi de zero a quatro por 10.000, com mediana de 0,35 por 10.000 (Sultana et al., 2025). A unidade de análise dessa revisão é o artigo, e os autores insistem na falta de padronização das medidas, o que limita comparações diretas (Sultana et al., 2025).
Entre os fatores descritos, o clima apareceu como fator ambiental relevante em 12 dos 22 artigos (54,6 por cento) (Sultana et al., 2025).
Para quem organiza o atendimento, a demanda tem três camadas (síntese nossa). A primeira é o volume de queixas leves, que define o tamanho do posto. A segunda são as emergências graves, raras e imprevisíveis, que definem o equipamento e o treino da equipe. A terceira é o efeito do evento sobre a cidade, que define a conversa com o serviço de ambulância e os hospitais de referência, nos moldes do que se discute em capacidade de surto.

Quem procura o posto médico
Maleczek e colegas analisaram os protocolos da operação de resgate de um grande festival de música austríaco entre 2011 e 2017, com 1.003.500 visitantes somados nas sete edições e 13.759 atendimentos (Maleczek et al., 2022). A PPR mediana foi de 12,01 por 1.000 visitantes, variando de 9,33 a 20,86, e a TTHR mediana foi de 0,57 por 1.000, variando de 0,40 a 1,06 (Maleczek et al., 2022). A gravidade foi medida pela escala NACA, e as emergências que exigem cuidado avançado (NACA 3 a 5) caíram de 73 para 3 ao longo do período, sem queda no número de visitantes (Maleczek et al., 2022).
Contra a expectativa dos próprios autores, o número de visitantes não previu o número de atendimentos nos modelos de regressão linear (Maleczek et al., 2022). Vale notar que a unidade dessa regressão é a edição do festival, ou seja, sete pontos, e que o organizador só divulgava estimativas de público, uma limitação que os autores reconhecem (Maleczek et al., 2022).
Um achado prático do mesmo festival foi a prevenção ambiental. A equipe passou a procurar e remover ninhos de vespa a partir de 2012, e os atendimentos por picada de inseto caíram de 395 em 2011 para 44 no ano seguinte (Maleczek et al., 2022).
Glastonbury: muita queixa leve, pouca intoxicação registrada
Bennett e Cottrell revisaram os prontuários eletrônicos dos serviços médicos de Glastonbury em 2022, um festival com cerca de 210.000 pessoas, incluindo equipe e artistas, a maioria acampada no local (Bennett e Cottrell, 2024). Receberam atendimento 2.828 pacientes, com PPR de 13,47 e TTHR de 0,30 por 1.000 frequentadores (Bennett e Cottrell, 2024). Os diagnósticos mais comuns foram lesões articulares, problemas gastrointestinais e bolhas, e 2.563 pacientes (90,66 por cento) voltaram ao festival depois do atendimento (Bennett e Cottrell, 2024).
Apenas 164 pacientes (5,48 por cento) foram diagnosticados como intoxicados (Bennett e Cottrell, 2024). Os autores leem esse dado como sinal de que drogas e álcool contribuíram pouco para a carga de trabalho do posto, mas reconhecem que, com dados anonimizados, não conseguiram identificar quem voltou ao posto mais de uma vez (Bennett e Cottrell, 2024).
O estudo traz um olhar raro sobre os extremos de idade. Entre os pacientes, 88 (3,11 por cento) tinham 65 anos ou mais; nesse grupo, 72 (81,82 por cento) voltaram ao festival e 5 (5,68 por cento) foram levados ao hospital, proporções diferentes das do conjunto (Bennett e Cottrell, 2024). As crianças com menos de 10 anos tiveram mais diagnósticos na categoria de doença e menos lesões que o conjunto, mas os autores advertem que os números pequenos desses subgrupos impedem conclusões firmes (Bennett e Cottrell, 2024).

A maratona como contraponto
Eventos esportivos mudam o perfil. Na Maratona de Viena de 2023, com 39.871 participantes, 277 corredores (0,7 por cento) precisaram de atendimento, 239 deles na área de chegada, e 58 (20,9 por cento dos atendidos) foram hospitalizados (Brock et al., 2025). A queixa mais frequente foi síncope ou colapso, em 24,9 por cento dos atendidos (Brock et al., 2025).
A equipe fez gasometria venosa no local em 31 pacientes (11,2 por cento) que precisaram de acesso venoso (Brock et al., 2025). Na amostra documentada, os autores registraram ausência de hiponatremia, e em 8 dessas gasometrias (25,8 por cento) o sódio ficou acima de 145 mmol/L (Brock et al., 2025). O estudo é retrospectivo e descritivo, de um único evento, e serve para mostrar que a hiponatremia associada ao exercício não é o único distúrbio de sódio a considerar no corredor que desaba (síntese nossa). Para separar o colapso benigno da síncope com causa cardíaca, vale o raciocínio do post de síncope no pronto-socorro.
O calor como fator que mais pesa
A temperatura é o fator ambiental mais estudado. No festival austríaco, a temperatura ambiente se associou de forma significativa aos atendimentos relacionados ao calor, sem associação com os atendimentos relacionados ao frio, numa regressão com médias anuais das sete edições (Maleczek et al., 2022). A fisiologia do golpe de calor e o resfriamento estão nos posts de calor extremo e de golpe de calor por esforço.
Festivais de rock no Japão
Takeda e colegas analisaram quatro festivais de rock realizados no Japão em julho e agosto de 2023, cruzando o que cada organizador publicou na internet, a temperatura de globo de bulbo úmido (WBGT) máxima diária e os transportes de emergência por suspeita de doença do calor (Takeda et al., 2026). Três festivais registraram WBGT máximo diário no nível de perigo, de 31 °C ou mais, e o quarto ficou no nível de alerta severo (Takeda et al., 2026).
Mesmo com WBGT alto, dois festivais não publicaram nenhum aviso sobre calor em seus sites, um deu orientação básica e só um adotou medidas mais completas, com alertas, lembretes de hidratação, informação sobre áreas de descanso e postos de primeiros socorros, e recomendação de levar chapéu, toalha e ventilador portátil (Takeda et al., 2026). Os transportes por doença do calor aumentaram nas regiões de dois dos festivais (Takeda et al., 2026).
A leitura exige cuidado. O estudo é ecológico, e os dados de transporte cobrem a província inteira, e não o entorno do local do evento; o WBGT veio da estação meteorológica mais próxima, e não foi medido no recinto (Takeda et al., 2026). Os autores dizem com clareza que a análise não permite afirmar que os pacientes transportados estiveram no festival (Takeda et al., 2026).

O Hajj e o golpe de calor grave
As peregrinações religiosas trazem um público mais velho e uma exposição longa ao sol. No Hajj de 2018, um estudo transversal com 80 pontos de coleta abordou 1.200 pessoas e incluiu 231 com quadro compatível com doença do calor (Alkassas et al., 2021). Desses, 14 (6 por cento) tiveram golpe de calor e 40 (17,32 por cento) exaustão pelo calor, e todos os de golpe de calor vinham de fora da Arábia Saudita (Alkassas et al., 2021). A maior parte dos quadros apareceu entre 11h e 13h (Alkassas et al., 2021). Na discussão, os autores pedem atenção maior aos idosos e a quem tem doença crônica, como hipertensão e diabetes, as comorbidades mais comuns na amostra (Alkassas et al., 2021).
Aldardeer e colegas acompanharam, numa coorte prospectiva exploratória em nove hospitais, 23 peregrinos adultos internados com golpe de calor confirmado, definido por temperatura central de 40 °C ou mais com disfunção do sistema nervoso central (Aldardeer et al., 2026). A idade média foi de 65,1 anos, e 8 pacientes (34,8 por cento) foram transferidos para um centro de referência (Aldardeer et al., 2026). Os transferidos tiveram creatinina mais alta, plaquetas mais baixas e precisaram mais de ventilação mecânica (75,0 contra 26,7 por cento) (Aldardeer et al., 2026). Os autores advertem que, pela amostra pequena, os achados são exploratórios e não estabelecem preditores de gravidade, porque a transferência também reflete fatores do sistema de saúde (Aldardeer et al., 2026).
Drogas: o que circula e o que chega ao hospital
O consumo de drogas em festivais é estudado por caminhos diferentes, cada um com sua unidade de análise. Gerrity e colegas mediram 24 substâncias e metabólitos em amostras de esgoto coletadas no recinto, na comunidade ao redor e na estação de tratamento a jusante do Electric Daisy Carnival, em Las Vegas, entre 2023 e 2025 (Gerrity et al., 2026). Cocaína, metanfetamina, anfetamina, um metabólito da maconha e tramadol apareceram em todas as amostras do fim de semana do festival (Gerrity et al., 2026).
Em comparação com semanas sem festival, as concentrações de MDMA ficaram cerca de 10 a 30 vezes maiores nos pontos fora do recinto e perto de 100 vezes maiores na estação de tratamento (Gerrity et al., 2026). A unidade aqui é a amostra de esgoto, e não a pessoa, e os autores reconhecem que o desenho da coleta mudou de um ano para outro, o que dificulta comparações entre anos (Gerrity et al., 2026).
O festival na UTI
Ren e colegas compararam, num hospital terciário de ensino de Las Vegas, adultos internados por intoxicação por drogas ou álcool entre 2019 e 2024 (Ren et al., 2026). Das 1.127 internações revisadas, 103 entraram no estudo, 40 delas (38,80 por cento) ligadas ao Electric Daisy Carnival (Ren et al., 2026). Os pacientes do festival eram mais jovens e tinham escore SOFA e intervalo QT semelhantes aos dos demais, mas foram internados em UTI com mais frequência (77,50 contra 44,40 por cento) (Ren et al., 2026).
Na regressão logística dos autores, a ligação com o festival se associou a maior chance de internação em UTI (OR 4,63; IC 95 por cento 1,54 a 13,89), enquanto tempo de internação e mortalidade não diferiram entre os grupos (Ren et al., 2026). Os próprios autores listam limitações importantes: desenho retrospectivo de centro único, toxicologia muitas vezes incompleta, ausência de denominador para comparar incidências e classificação dependente do que o paciente contou e do que foi documentado (Ren et al., 2026).
Lidos em conjunto, esgoto e UTI contam partes diferentes da mesma história (síntese nossa). O esgoto mostra o que a multidão consome; o prontuário do hospital mostra quem chegou grave. Nenhum dos dois diz quantos frequentadores passaram mal sem sair do recinto, e é aí que entra o registro do posto médico.
Adulterantes e a surpresa do conteúdo
No primeiro estudo de checagem num festival de música eletrônica perto da Cidade do México, 40 participantes entregaram 51 amostras, analisadas por colorimetria, espectroscopia no infravermelho e fitas de imunoensaio para fentanil (Cruz et al., 2023). A maioria das amostras continha a substância esperada e algum adulterante, com destaque para outras anfetaminas e para a venlafaxina, um antidepressivo (Cruz et al., 2023). As fitas detectaram fentanil em 2 de 4 amostras de cocaína e em 14 de 22 amostras de MDMA confirmado (Cruz et al., 2023).
Os autores lembram que a fita pode dar falso positivo em amostras com concentração alta de MDMA ou de outras anfetaminas, e que a amostra foi pequena, não aleatória e de um único festival, sem possibilidade de generalização (Cruz et al., 2023). Para o clínico, a lição é que o paciente pode ter tomado algo diferente do que acredita (síntese nossa). Diante de sedação inesperada, vale considerar opioide mesmo quando a história fala só em estimulante, e a avaliação segue o post de redução de danos.
Checagem de drogas e as barreiras para pedir ajuda
A checagem no próprio festival é também uma porta de conversa com a equipe de saúde. No piloto avaliado em 2019 no festival Groovin the Moo, em Canberra, o serviço testou 170 substâncias trazidas por mais de 230 frequentadores, com idade média de 21 anos entre os adultos atendidos (Olsen et al., 2022). Responderam ao questionário antes da testagem 158 participantes, e o conteúdo coincidiu com o esperado em 88 por cento deles (139) (Olsen et al., 2022).
A catinona N-etilpentilona, associada a risco alto de intoxicação grave, apareceu em 7 amostras, e os registros do serviço indicam que todas foram descartadas (Olsen et al., 2022). Na avaliação, os frequentadores relataram ganho de conhecimento sobre redução de danos e mais confiança nos profissionais de saúde, mas a intenção declarada de descartar a droga testada foi baixa, 8,6 por cento entre os que responderam (Olsen et al., 2022).
Em inquérito com 227 frequentadores de um festival de quatro dias no Colorado, 75,3 por cento já tinham usado kit reagente e 66,5 por cento, fita de teste de fentanil (Piercey et al., 2025). As barreiras citadas para testar no festival foram acesso ao material, ambiente, medo legal, dinâmica do grupo, falta de treino e limites de cada ferramenta (Piercey et al., 2025).
O que impede de procurar o posto
Page e colegas entrevistaram no local 1.229 frequentadores de seis festivais de Nova Gales do Sul, na Austrália, em 2019 e 2020, sobre o que os impediria de pedir ajuda se eles ou um amigo passassem mal (Page et al., 2022). Ao menos uma barreira foi relatada por 83,2 por cento; as mais citadas foram medo de ter problema com a polícia (32,7 por cento), não saber onde encontrar ajuda (20,6 por cento), não saber o quão grave a pessoa estava (17,2 por cento) e receio de que amigos ou familiares descobrissem (15,3 por cento) (Page et al., 2022).
Os autores reconhecem que a pergunta era hipotética, sem especificar a causa do mal-estar, e que a escolha hipotética pode diferir do comportamento real (Page et al., 2022).
Essas barreiras são, em boa parte, questões de desenho do serviço (síntese nossa). Um posto visível, sinalizado e percebido como separado da ação policial pode atenuar duas das quatro barreiras mais citadas, hipótese que os estudos citados não testaram. A equipe que pergunta sobre uso de drogas sem julgamento obtém uma história melhor, o que vale também para o paciente que chega só alcoolizado, tema do post sobre álcool.
O efeito fora do recinto
O evento pesa sobre a cidade inteira. Kienbacher e colegas analisaram todas as chamadas de ambulância de resposta primária em Rhode Island, nos Estados Unidos, entre 2018 e 2022: foram 1.704 dias e 695.535 chamadas, com média de 38 chamadas por 100.000 habitantes por dia (Kienbacher et al., 2024). A unidade de análise é o dia, para o estado inteiro, e os eventos foram identificados por busca na internet (Kienbacher et al., 2024).
Nos modelos de regressão de Poisson dos autores, dias com eventos de música tiveram 3 chamadas a mais por 100.000 habitantes (IC 95 por cento 2 a 3) e dias de exposições públicas, 2 a mais (IC 95 por cento 1 a 2) (Kienbacher et al., 2024). Eventos esportivos ficaram sem efeito detectado sobre as chamadas; para eventos agrícolas, a estimativa foi de 1 chamada a menos, com intervalo que inclui o nulo (IC 95 por cento de menos 1 a 0), e o resultado é inconclusivo (Kienbacher et al., 2024). O aumento por dia parece pequeno, mas se soma num serviço que já trabalha perto do limite (síntese nossa).
Infecções que viajam para casa
O festival também dispersa doenças. Em agosto de 2025, a vigilância de vírus respiratórios da Dinamarca detectou um salto nas detecções de influenza A, de 19 numa semana para 115 na seguinte, fora da temporada habitual (Bolt Botnen et al., 2025). O sequenciamento identificou um agrupamento de 17 pessoas com vírus muito semelhantes, e as entrevistas mostraram que todas tinham ido a um grande festival de música ao ar livre (Bolt Botnen et al., 2025). Febre e tosse nos dias seguintes a um festival entram no raciocínio do clínico da cidade, e a dinâmica do vírus está no post sobre influenza.
Um roteiro de perguntas no posto
Juntando os estudos, cinco perguntas ajudam a orientar o atendimento no posto (síntese nossa):
- Há quanto tempo a pessoa está no sol, o que bebeu e onde dormiu?
- O que usou, de quem comprou e se a substância foi testada?
- Alguém do grupo está com sintomas parecidos?
- Que remédios de uso contínuo a pessoa toma?
- A pessoa consegue voltar ao evento acompanhada, ou precisa de observação ou transporte?
Quando há muitas vítimas ao mesmo tempo, a lógica muda para a de triagem em desastre.
Estudos em resumo
| Estudo | Desenho, amostra e unidade | Achado principal |
|---|---|---|
| Maleczek 2022 | Retrospectivo, 7 edições de festival austríaco, 13.759 atendimentos | PPR mediana 12,01 por 1.000 (Maleczek et al., 2022) |
| Bennett 2024 | Retrospectivo, Glastonbury 2022, 2.828 pacientes | TTHR 0,30 por 1.000 (Bennett e Cottrell, 2024) |
| Brock 2025 | Retrospectivo, Maratona de Viena 2023, 277 atendidos | Hospitalização de 20,9 por cento dos atendidos (Brock et al., 2025) |
| Sultana 2025 | Revisão de escopo, 22 artigos, estádios e arenas | PPR mediana 3,8 por 10.000 (Sultana et al., 2025) |
| Takeda 2026 | Ecológico, 4 festivais, dados por província | WBGT de perigo em 3 festivais (Takeda et al., 2026) |
| Alkassas 2021 | Transversal, Hajj 2018, 231 com doença do calor | Golpe de calor em 14 (Alkassas et al., 2021) |
| Aldardeer 2026 | Coorte prospectiva, 23 com golpe de calor | Ventilação 75,0 contra 26,7 por cento (Aldardeer et al., 2026) |
| Gerrity 2026 | Vigilância de esgoto, amostras de 2023 a 2025 | MDMA perto de 100 vezes maior na estação de tratamento (Gerrity et al., 2026) |
| Ren 2026 | Coorte retrospectiva, centro único, 103 internados | UTI 77,50 contra 44,40 por cento (Ren et al., 2026) |
| Cruz 2023 | Checagem, 40 participantes, 51 amostras | Fentanil em 14 de 22 amostras de MDMA (Cruz et al., 2023) |
| Olsen 2022 | Métodos mistos, 158 questionários | Concordância de 88 por cento (Olsen et al., 2022) |
| Piercey 2025 | Inquérito, 227 frequentadores | Kit reagente já usado por 75,3 por cento (Piercey et al., 2025) |
| Page 2022 | Inquérito, 1.229 frequentadores | Medo da polícia em 32,7 por cento (Page et al., 2022) |
| Kienbacher 2024 | Série de 1.704 dias, unidade dia e estado | Mais 3 chamadas por 100.000 (Kienbacher et al., 2024) |
| Bolt Botnen 2025 | Investigação de surto, vigilância nacional | Agrupamento de 17 pessoas (Bolt Botnen et al., 2025) |
Fontes: Maleczek et al., 2022; Bennett e Cottrell, 2024; Brock et al., 2025; Sultana et al., 2025; Takeda et al., 2026; Alkassas et al., 2021; Aldardeer et al., 2026; Gerrity et al., 2026; Ren et al., 2026; Cruz et al., 2023; Olsen et al., 2022; Piercey et al., 2025; Page et al., 2022; Kienbacher et al., 2024; Bolt Botnen et al., 2025.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Uma pista pode trazer "rapaz confuso e quente no meio da tarde de um festival"; outra, "os amigos não sabem dizer o que ele tomou". O retorno de proximidade em cinco níveis ajuda a separar doença do calor, intoxicação por estimulante, efeito de opioide e hiponatremia, sem transformar o treino em protocolo de campo. O exercício útil é perguntar, a cada pista, o que o ambiente do evento acrescenta à história.
Perguntas frequentes
O número de pessoas no evento prevê quantos vão procurar o posto?
Mal. No festival austríaco acompanhado por sete edições, o público estimado não previu o número de atendimentos, e a temperatura teve mais relação com os atendimentos por calor (Maleczek et al., 2022). A revisão sobre estádios aponta tipo de evento, local, clima e suporte de saúde como fatores, além do tamanho do público (Sultana et al., 2025).
A maioria dos atendimentos em festival é por drogas?
Nos registros de Glastonbury 2022, a intoxicação respondeu por 5,48 por cento dos pacientes, e lesões articulares, problemas gastrointestinais e bolhas foram mais comuns (Bennett e Cottrell, 2024). No festival austríaco, só 5 por cento dos atendimentos foram por intoxicação, a maioria por álcool, e os autores acham esse número baixo diante da literatura; uma das explicações que propõem é a possibilidade de dormir no local até passar o efeito (Maleczek et al., 2022).
Por que o calor preocupa tanto?
Porque a temperatura se associa aos atendimentos por calor (Maleczek et al., 2022) e porque o golpe de calor grave pode exigir ventilação mecânica e transferência, como na coorte do Hajj (Aldardeer et al., 2026). No Japão, festivais com WBGT de perigo nem sempre publicaram avisos sobre calor (Takeda et al., 2026).
A checagem de drogas no festival muda o comportamento?
No piloto de Canberra, os frequentadores relataram mais conhecimento sobre redução de danos e mais confiança nos profissionais, e as amostras com N-etilpentilona foram descartadas; a intenção de descartar a droga testada, porém, foi baixa (Olsen et al., 2022). Os dados são autorrelatados.
O que afasta o frequentador do posto médico?
No inquérito australiano, medo da polícia, não saber onde achar ajuda, dúvida sobre a gravidade e receio de que a família descubra foram as barreiras mais citadas (Page et al., 2022).
Take-home messages
- No festival austríaco estudado, a temperatura se associou aos atendimentos por calor, e o público estimado previu mal o volume do posto (Maleczek et al., 2022).
- Em Glastonbury 2022, a maior parte dos pacientes teve problema leve e voltou ao festival (Bennett e Cottrell, 2024).
- No estudo de centro único de Las Vegas, os intoxicados do festival foram mais para a UTI, com mortalidade semelhante à dos demais (Ren et al., 2026).
- Na checagem perto da Cidade do México, as fitas detectaram fentanil em amostras vendidas como MDMA, num estudo pequeno e não aleatório (Cruz et al., 2023).
- Nos festivais australianos estudados, o medo da polícia foi a barreira mais citada para pedir ajuda (Page et al., 2022).
Referências
- Maleczek M, Rubi S, Fohringer C, Scheriau G, Meyer E, Uray T, Duma A. Medical care at a mass gathering music festival: Retrospective study over 7 years (2011-2017). Wien Klin Wochenschr. 2022;134(7-8):324-331. PMID: 33900474. PMC: PMC9023407.
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- Alkassas W, Rajab AM, Alrashood ST, Khan MA, Dibas M, Zaman M. Heat-related illnesses in a mass gathering event and the necessity for newer diagnostic criteria: a field study. Environ Sci Pollut Res Int. 2021;28(13):16682-16689. PMID: 33389467. PMC: PMC7778691.
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- Gerrity D, Barber CA, Trenholm RA, et al. Multiyear Wastewater Monitoring of High-Risk Substances Surrounding an Annual Electronic Dance Music Festival, Las Vegas, Nevada, USA, 2023-2025: Surveillance Study. JMIR Public Health Surveill. 2026;12:e102679. PMID: 42710006. PMC: PMC13552836.
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