Ciclones e tornados: lesões e as mortes que vêm depois

Sumário
- Dois eventos, dois relógios
- O perfil das lesões no tornado
- Feridas, destroços e a infecção que chega depois
- As mortes que vêm depois
- Doença crônica, diálise e a janela de meses
- Monóxido de carbono e o gerador na garagem
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Num caso fictício, uma mulher de 71 anos chega ao pronto-socorro dois dias depois de um ciclone. O corte na perna, feito por uma telha que voou durante a tempestade, foi lavado em casa com água de balde. Agora a ferida está escura e dolorosa. Ela conta também que a luz caiu, que a geladeira com a insulina parou e que o vizinho ligou um gerador na garagem para não perder a comida. Em poucas linhas cabem as três frentes deste texto: a lesão causada pelo vento e pelos destroços, a infecção que aparece dias depois e as mortes indiretas que se acumulam por semanas.
Ciclones tropicais (furacões no Atlântico, tufões no Pacífico) e tornados são eventos de vento extremo com perfis diferentes. O tornado é curto, estreito e violento; o ciclone é largo, dura dias e traz chuva, inundação e queda prolongada de energia. A resposta clínica muda conforme o relógio: nas primeiras horas, trauma; nos dias seguintes, ferida contaminada, intoxicação e descompensação de doença crônica; nas semanas seguintes, mortalidade em excesso que muitas vezes passa despercebida. O post sobre terremotos trata do esmagamento; o de enchentes, da água contaminada. Aqui o eixo é o vento e o que ele deixa para trás.
Principais pontos
- No tornado de Yancheng, a cabeça foi a região mais atingida entre os feridos atendidos em hospital, e quase todos tiveram lesão de partes moles (Deng et al., 2018).
- No mesmo tornado, a maior parte das mortes ocorreu dentro de casa e por trauma craniano, segundo os dados do centro de controle de doenças local (Wang et al., 2017).
- Após o furacão Irma, a vigilância de óbitos classificou quase nove em cada dez mortes como indiretas, com destaque para descompensação de doença crônica, calor sem energia e monóxido de carbono (Issa et al., 2018).
- Na série de 494 localidades em 18 países, o risco de morte associado ao ciclone durou em média cerca de 20 dias depois da passagem (Huang et al., 2024).
- Em 34 países de renda baixa e média, a exposição a ciclone no mês anterior se associou a maior chance de morte antes dos cinco anos (Guo et al., 2025).
- O gerador portátil mal posicionado é causa conhecida de intoxicação por monóxido de carbono depois de tempestades, e a prevenção começa antes da queda de energia (Levy et al., 2014; Waite et al., 2014).
Dois eventos, dois relógios
O tornado concentra a energia num corredor estreito. Em minutos, telhados se soltam, paredes desabam e objetos viram projéteis. O ciclone espalha a energia por centenas de quilômetros e por vários dias: vento, chuva, maré de tempestade e inundação se somam, e a infraestrutura cai em cascata.
Essa diferença muda a pergunta clínica. Depois de um tornado, o hospital mais próximo recebe uma onda concentrada de feridos nas primeiras horas, e a lógica é a de triagem com múltiplas vítimas e de capacidade de surto. Depois de um ciclone, o volume de trauma costuma ser menor do que o de pessoas que perdem energia, água, transporte e acesso ao serviço habitual; a demanda se espalha por semanas (síntese nossa).
A vigilância de óbitos dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) define as mortes diretas como as causadas pelas forças ambientais do furacão e suas consequências imediatas, e as indiretas como as que resultam de condições inseguras ou insalubres pela perda ou interrupção de serviços, perdas pessoais ou ruptura do modo de vida (Issa et al., 2018). Essa distinção organiza o resto do texto.
O perfil das lesões no tornado
Em 23 de junho de 2016, um tornado classificado como EF4 atingiu Yancheng, no leste da China, com 99 mortos e 846 feridos (Deng et al., 2018). Dois grupos de pesquisa estudaram o mesmo evento por ângulos complementares, e a comparação ajuda a entender o que o clínico encontra.
O que chega ao hospital
Deng e colegas revisaram prontuários de três hospitais que atenderam feridos do tornado e incluíram 401 registros válidos de 451 obtidos (Deng et al., 2018). O estudo é transversal, e os autores reconhecem dois limites: só tiveram acesso aos registros desses 451 pacientes, que correspondem a 53,31 por cento dos 846 feridos (amostra que eles consideram representativa), e não puderam avaliar a distribuição geográfica das mortes (Deng et al., 2018).
Nessa amostra hospitalar, as regiões mais atingidas foram a cabeça (46,63 por cento), a superfície corporal (39,90 por cento) e o membro inferior (29,43 por cento) (Deng et al., 2018). Lesão de partes moles apareceu em 90,77 por cento dos pacientes, fratura em 38,90 por cento e lesão de órgão em 19,70 por cento (Deng et al., 2018). Pela escala abreviada de lesões (AIS), as lesões leves (AIS 1) foram as mais frequentes, com 60,85 por cento, e as críticas ou fatais (AIS 5 ou mais) ficaram em 2,50 por cento (Deng et al., 2018).
Os autores comparam esse perfil com o de terremotos: quem é vítima de terremoto tende a ser esmagado por um objeto pesado, enquanto a vítima de tornado costuma ter lesão de cabeça e membros por objetos lançados e por desabamento (Deng et al., 2018). Para o esmagamento prolongado, a referência é o post de síndrome de esmagamento.
O que acontece com quem morre
Wang e colegas partiram da base do centro de controle de doenças de Funing e do hospital popular do condado, numa análise retrospectiva (Wang et al., 2017). O tornado deixou 99 mortes diretamente atribuíveis e 337 feridos registrados nesse hospital; 274 dessas lesões (81 por cento) foram classificadas como leves (Wang et al., 2017).
Entre as mortes, 79 ocorreram no local, e o trauma craniano respondeu por 73 delas (73,7 por cento) (Wang et al., 2017). Morreram mais pessoas dentro de casa (87, ou 87,9 por cento) do que ao ar livre ou em veículo (Wang et al., 2017). Os autores ligam esse dado às construções tradicionais de tijolo de barro da área atingida, quase todas destruídas, e concluem que as orientações internacionais de segurança precisam ser modificadas quando aplicadas à China (Wang et al., 2017).
Idade, sexo e o peso da casa
A idade marcou o risco. No modelo de risco relativo de Wang, o grupo de 75 a 84 anos teve o maior risco de morte (RR 82,16; IC 95 por cento 19,66 a 343,33) em comparação com a faixa de referência do estudo, e as mulheres tiveram risco de morte maior que os homens (RR 1,53; IC 95 por cento 1,02 a 2,29) (Wang et al., 2017). O intervalo largo do primeiro número indica estimativa imprecisa (síntese nossa).
Deng e colegas descreveram uma distribuição etária em forma de haltere entre os feridos: 77,30 por cento tinham mais de 45 anos e 12,47 por cento eram crianças ou adolescentes (Deng et al., 2018). A explicação proposta pelos autores é demográfica: nas aldeias atingidas, os adultos jovens tinham migrado para as cidades, e idosos e adolescentes têm menos oportunidade de receber o alerta e se deslocar (Deng et al., 2018). Para o idoso ferido, vale lembrar as armadilhas descritas no post de trauma no idoso.
Num inquérito por amostragem com vítimas de dois tornados chineses (94 questionários válidos em Yancheng e 67 em Chifeng), o grau de desabamento da casa se associou fortemente à chance de lesão (OR 183,12; IC 95 por cento 8,04 a 4173,34), e a renda anual mais alta se associou a chance menor (OR 0,10; IC 95 por cento 0,02 a 0,50) (Deng et al., 2019). Estar dentro ou fora de casa não mostrou diferença estatística nessa amostra, enquanto diferenças no conhecimento sobre exercícios de preparo, no comportamento individual e no nível de medo afetaram de forma significativa a incidência de trauma (Deng et al., 2019).
O que isso muda no atendimento
Para a equipe que recebe feridos de tornado, os estudos chineses sugerem três prioridades (a ordem é síntese nossa):
- Procurar lesão de cabeça mesmo em quem chega andando, com os critérios descritos no post de traumatismo craniano leve.
- Esperar muitas lesões de partes moles, que lotam a sala de sutura e escondem as feridas contaminadas.
- Dar atenção ao idoso, que teve o maior risco de morte em Funing, e à criança ou adolescente, que somou cerca de um oitavo dos feridos atendidos em Yancheng (Deng et al., 2018; Wang et al., 2017).
Feridas, destroços e a infecção que chega depois
A lesão de partes moles que parece simples no primeiro dia pode ser a porta de entrada da complicação mais grave da semana. Destroços carregam terra, madeira, vidro e água parada.

Joplin e a mucormicose cutânea
Em 22 de maio de 2011, um tornado EF5 atravessou Joplin, no Missouri. Mais de 1.000 pessoas se feriram e 158 morreram (Weinhold, 2013). Poucos dias depois, alguns feridos passaram a ter infecção necrosante da pele, depois confirmada como mucormicose cutânea por Apophysomyces trapeziformis, um fungo comum em solo e matéria vegetal em decomposição (Weinhold, 2013).
A matéria jornalística da Environmental Health Perspectives resume a investigação do CDC: foram 13 pacientes identificados, cinco dos quais morreram, no maior conglomerado conhecido da doença até então (Weinhold, 2013). Comparados com feridos do mesmo tornado sem a infecção, os pacientes com mucormicose tinham mais feridas penetrantes, sobretudo múltiplas, com madeira, terra, cascalho e outros corpos estranhos, e todos estavam no centro da trajetória do tornado (Weinhold, 2013). O intervalo entre a lesão e a primeira cultura positiva variou de 6 a 24 dias (Weinhold, 2013).
A lição clínica é de suspeição: ferida penetrante com corpo estranho orgânico, necrose que avança apesar do antibiótico e paciente vindo do centro do dano pedem desbridamento, cultura e histopatologia, com discussão com a infectologia (síntese nossa). O post de enchentes detalha o cuidado com feridas expostas à água contaminada.
Mayotte: quando o sistema de vigilância também cai
O ciclone Chido atingiu Mayotte, departamento francês no oceano Índico, em 14 de dezembro de 2024, com rajadas de 250 km/h (Soler et al., 2025). Energia, água e comunicação ficaram interrompidas por períodos de três dias a mais de um mês, conforme a área, e os sistemas de monitoramento de saúde deixaram de funcionar (Soler et al., 2025).
Entre 14 de dezembro e 5 de janeiro, o hospital de Mayotte registrou 4.043 atendimentos de emergência, principalmente por lesões, como feridas e fraturas, e por distúrbios gastrointestinais (Soler et al., 2025). O hospital de campanha atendeu 2.403 pessoas, e a positividade de amostras de fezes para patógenos entéricos passou de 80 por cento durante duas semanas seguidas (Soler et al., 2025). Na conclusão, a equipe da Santé publique France descreve que o atraso no cuidado médico resultou em muitas lesões sem tratamento, manejo interrompido de doenças crônicas e trauma psicológico extenso (Soler et al., 2025).
As mortes que vêm depois
O número divulgado logo após um ciclone costuma contar só as mortes diretas.
Irma: quando a luz cai
O furacão Irma tocou a Flórida em 10 de setembro de 2017. A vigilância conjunta do CDC com os departamentos de saúde da Flórida, da Geórgia e da Carolina do Norte identificou 129 mortes relacionadas ao furacão até 10 de outubro (Issa et al., 2018). Dessas, 11 foram diretas, 115 indiretas e 3 possivelmente relacionadas (Issa et al., 2018).
Entre as indiretas, a categoria mais comum foi a descompensação de doença preexistente, com 46 mortes; 23 delas foram associadas a problemas crônicos, como doença cardíaca, agravados por estresse e ansiedade (Issa et al., 2018). Houve 17 mortes relacionadas ao calor por falta de ar-condicionado, 14 delas numa instituição de longa permanência na Flórida que ficou dias sem energia, e 3 mortes de pacientes cujo tratamento, como oxigênio suplementar, dependia de eletricidade (Issa et al., 2018). Outras 27 mortes ligadas à queda de energia não envolveram doença preexistente, entre elas 16 por intoxicação por monóxido de carbono (Issa et al., 2018).
A mesma tabela mostra 15 mortes por lesão durante preparação ou reparo, 13 em acidentes de trânsito e 13 por queda da própria altura em idosos, quatro das quais ocorreram depois do fim da vigilância por complicação da queda (Issa et al., 2018). Os autores destacam que as categorias se sobrepõem e que subdividir as circunstâncias ajuda a orientar mensagens de prevenção (Issa et al., 2018).
Para o clínico, o recado é simples: depois de um ciclone, a pessoa com doença crônica que perdeu energia em casa é paciente de risco, mesmo sem nenhum ferimento (síntese nossa). O cuidado com quem depende de insulina, diálise e oxigênio e com pessoas com deficiência tem posts próprios, e o calor sem ar-condicionado se cruza com o post de calor extremo.
Quanto tempo dura o risco
Huang e colegas reuniram óbitos diários de 494 localidades em 18 países ou territórios, de 1980 a 2019, na rede colaborativa Multi-Country Multi-City (MCC) (Huang et al., 2024). Foram 382 ciclones e 47,7 milhões de mortes por todas as causas, 15,5 milhões cardiovasculares e 4,9 milhões respiratórias, analisadas com modelo de Poisson misto e metarregressão (Huang et al., 2024).
O período de risco aumentado depois de cada ciclone foi em média de cerca de 20 dias para mortalidade geral e cardiopulmonar, e passou de 30 dias nos Estados Unidos, no Brasil e em Taiwan (Huang et al., 2024). Entre os 100 ciclones com maior efeito, o risco relativo variou de 1,04 a 1,42 para todas as causas, de 1,07 a 1,77 para causas cardiovasculares e de 1,12 a 1,92 para causas respiratórias (Huang et al., 2024). A relação com velocidade do vento e chuva acumulada foi aproximadamente linear, e o risco caiu de 1980 a 2019 em lugares como Filipinas, Taiwan e Estados Unidos (Huang et al., 2024).
Os autores apontam como limitações possíveis erros de classificação da exposição, confundimento residual e generalização limitada (Huang et al., 2024). No mesmo período, o Japão mostrou possível tendência de alta no risco de morte geral e cardiovascular ligado a ciclones (Huang et al., 2024).
Crianças em países de renda baixa e média
Guo e colegas usaram dados individuais das Pesquisas de Demografia e Saúde (DHS) em 34 países de renda baixa e média, de 1993 a 2021, num desenho de caso-controle pareado entre irmãos (Guo et al., 2025). Entraram 100.798 mortes antes dos cinco anos e 247.445 controles (Guo et al., 2025).
A exposição a ciclone nos três meses anteriores se associou a maior chance de morte (OR 1,038; IC 95 por cento 1,002 a 1,075), e o efeito foi mais forte no primeiro mês antes do óbito (OR 1,101; IC 95 por cento 1,039 a 1,166) (Guo et al., 2025). Os autores estimam que a exposição nos 30 dias anteriores pode ter causado 0,85 milhão de mortes de menores de cinco anos de 2000 a 2020 nos países expostos (Guo et al., 2025).
Os próprios autores lembram que, por ser observacional, o estudo depende de dados relatados pelas mães e de uma exposição dicotômica, o que pode introduzir viés de memória e erro de classificação (Guo et al., 2025).
Doença crônica, diálise e a janela de meses
Depois do furacão Maria, em Porto Rico, a discussão sobre o número real de mortos virou referência mundial.
O excesso de mortes por causa
Cowan e colegas usaram o registro demográfico do Departamento de Saúde de Porto Rico e compararam o risco de morte por 100.000 habitantes nos seis meses após o Maria com os mesmos meses do ano anterior (Cowan et al., 2025). Houve aumento para doença cardiovascular (razão de risco 1,18; IC 95 por cento 1,12 a 1,24), Alzheimer (1,23; IC 95 por cento 1,14 a 1,33), diabetes (1,15; IC 95 por cento 1,08 a 1,23), sepse (1,43; IC 95 por cento 1,26 a 1,62) e doença renal terminal (1,17; IC 95 por cento 1,04 a 1,32) (Cowan et al., 2025). Para doença pulmonar obstrutiva crônica, o intervalo incluiu o nulo (1,09; IC 95 por cento 0,98 a 1,22), e o resultado é inconclusivo (Cowan et al., 2025).
Na análise espacial, bairros com mais pessoas de 65 anos ou mais, mais moradias em prédios de várias unidades e mais domicílios sem veículo tiveram maior chance de ser áreas de risco alto ou sustentado de morte por doença crônica (Cowan et al., 2025). São comparações brutas antes e depois, em nível de comunidade, e não estimam o risco individual (síntese nossa).
Diálise fora da ilha
Rivera-Hernandez e colegas acompanharam 11.652 pacientes com falência renal em diálise em Porto Rico, numa série temporal interrompida (Rivera-Hernandez et al., 2022). Depois do Maria, a proporção de pacientes dialisados fora da ilha no trimestre seguinte subiu 5,8 pontos percentuais (IC 95 por cento 2,7 a 9,0) (Rivera-Hernandez et al., 2022). A mudança na mortalidade em seis meses não foi estatisticamente significativa, e o resultado é inconclusivo (Rivera-Hernandez et al., 2022). Os autores interpretam esse achado como possível reflexo do preparo das clínicas de diálise, da população com falência renal e de outros atores (Rivera-Hernandez et al., 2022).
Sandy e os anos seguintes
Keenan e colegas olharam para um horizonte mais longo. Numa análise ecológica com pareamento por escore de propensão, compararam áreas de código postal inundadas e não inundadas pelo furacão Sandy na região de Nova York, entre beneficiários do Medicare com 65 anos ou mais que continuaram na mesma área de código postal de 2013 a 2017 (Keenan et al., 2025). Nas áreas inundadas, a mortalidade por todas as causas em até cinco anos foi maior (razão de taxas ajustada 1,09; IC 95 por cento 1,06 a 1,12) (Keenan et al., 2025).
Os autores frisam que fizeram apenas análise ecológica e que o achado não se estende ao risco individual (Keenan et al., 2025).
Monóxido de carbono e o gerador na garagem
Quando a energia cai, o gerador a combustível traz uma das causas mais evitáveis de morte depois de tempestades.

O risco muda com a fase do desastre
Levy e colegas lembram que quase todos os geradores portáteis queimam combustível de carbono e produzem monóxido de carbono, e que, apesar das advertências para operar o aparelho só ao ar livre, o posicionamento inadequado faz deles a principal causa de morte por monóxido ligada a motores nos Estados Unidos (Levy et al., 2014). Na vigilância do Irma, foram 16 mortes por essa intoxicação (Issa et al., 2018).
A revisão de Waite e colegas, da Public Health England, reuniu 23 artigos e organizou o risco em três fases: antes do desastre, na fase de emergência e recuperação, e na fase tardia (Waite et al., 2014). Na fase tardia, um aquecedor ou caldeira danificados podem intoxicar meses depois, e essas mortes talvez nunca sejam atribuídas ao evento porque a vigilância costuma terminar quando a água baixa (Waite et al., 2014). Os autores apontam a subnotificação como problema central e defendem mensagens diferentes para cada fase (Waite et al., 2014).
Prevenção porta a porta
O corpo de bombeiros do condado de Howard, em Maryland, montou uma ação comunitária depois de tempestades: identificou áreas sem energia com sobrevoo de helicóptero e dados georreferenciados da companhia elétrica, e enviou equipes de casa em casa para avaliar riscos e entregar folhetos sobre o uso do gerador (Levy et al., 2014). O relato é descritivo, sem grupo de comparação, e os autores o apresentam como um dos primeiros exemplos de ação proativa de um corpo de bombeiros para prevenir intoxicação por monóxido (Levy et al., 2014).
O que perguntar no pronto-socorro
Cefaleia, náusea, tontura ou confusão em várias pessoas da mesma casa, dias depois de uma tempestade, sugerem monóxido até prova em contrário. As perguntas úteis são estas (síntese nossa):
- A casa tem gerador, e onde ele fica?
- Alguém usa fogareiro ou churrasqueira dentro de casa?
- Há mais gente na casa com sintomas?
O reconhecimento e o tratamento da intoxicação estão no post de queimaduras e fumaça.
Perda da casa e da rotina pesa por meses, e os primeiros cuidados psicológicos cabem em qualquer atendimento.
Estudos em resumo
| Estudo | Desenho e base de dados | Achado principal |
|---|---|---|
| Deng 2018 | Transversal, prontuários de 3 hospitais, tornado de Yancheng | Cabeça foi a região mais atingida; AIS 5 ou mais em 2,50 por cento (Deng et al., 2018) |
| Wang 2017 | Retrospectivo, base do centro de controle de doenças de Funing | 99 mortes; 73 por trauma craniano; 87 dentro de casa (Wang et al., 2017) |
| Deng 2019 | Inquérito por amostragem em 2 tornados | Desabamento da casa com OR 183,12 (Deng et al., 2019) |
| Weinhold 2013 | Matéria sobre investigação do CDC em Joplin | 13 pacientes com mucormicose, 5 mortes (Weinhold, 2013) |
| Soler 2025 | Vigilância ad hoc após o Chido, Mayotte | 4.043 atendimentos de emergência em 3 semanas (Soler et al., 2025) |
| Issa 2018 | Vigilância de óbitos do Irma, 3 estados | 115 de 129 mortes indiretas; 16 por monóxido (Issa et al., 2018) |
| Huang 2024 | Série temporal MCC, 494 localidades, 18 países | Risco por cerca de 20 dias; RR até 1,92 respiratório (Huang et al., 2024) |
| Guo 2025 | Pareamento entre irmãos (caso-controle), DHS, 34 países | OR 1,101 no mês anterior ao óbito (Guo et al., 2025) |
| Cowan 2025 | Registro de óbitos de Porto Rico, antes e depois do Maria | Sepse com razão de risco 1,43 (Cowan et al., 2025) |
| Rivera-Hernandez 2022 | Série temporal interrompida, 11.652 em diálise | Mais diálise fora da ilha; mortalidade inconclusiva (Rivera-Hernandez et al., 2022) |
| Keenan 2025 | Ecológico pareado, Medicare, Sandy | Razão de taxas 1,09 em 5 anos (Keenan et al., 2025) |
| Levy 2014 e Waite 2014 | Relato de ação comunitária e revisão de 23 artigos | Gerador e fase tardia como riscos de monóxido (Levy et al., 2014; Waite et al., 2014) |
Fontes: Deng et al., 2018; Wang et al., 2017; Deng et al., 2019; Weinhold, 2013; Soler et al., 2025; Issa et al., 2018; Huang et al., 2024; Guo et al., 2025; Cowan et al., 2025; Rivera-Hernandez et al., 2022; Keenan et al., 2025; Levy et al., 2014; Waite et al., 2014.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Uma pista pode trazer "ferida na perna com terra e madeira, dois dias depois de um tornado"; outra, "três pessoas da mesma casa com cefaleia depois que a luz caiu". O retorno de proximidade em cinco níveis ajuda a separar trauma, infecção de ferida, intoxicação e descompensação de doença crônica, sem transformar o treino em protocolo de campo. O exercício útil é perguntar, a cada pista, em que relógio do desastre o paciente está.
Perguntas frequentes
Qual é a lesão mais comum em vítimas de tornado?
Na amostra hospitalar de Yancheng, quase todos tiveram lesão de partes moles, e a cabeça foi a região mais atingida (Deng et al., 2018). Entre os mortos do mesmo tornado, o trauma craniano predominou (Wang et al., 2017).
Por que se fala em mortes indiretas depois de um furacão?
Porque, na vigilância do Irma, a maioria das mortes veio de descompensação de doença crônica, calor sem energia, monóxido de carbono, quedas e acidentes, e não da força do vento ou da água (Issa et al., 2018).
Por quanto tempo o risco de morte continua alto?
Na série multinacional MCC, a média foi de cerca de 20 dias, com mais de 30 dias nos Estados Unidos, no Brasil e em Taiwan (Huang et al., 2024). Em idosos de áreas inundadas pelo Sandy, a mortalidade maior apareceu em até cinco anos, num estudo ecológico (Keenan et al., 2025).
Como evitar intoxicação por gerador?
O gerador deve ficar ao ar livre, longe de portas e janelas, e a orientação precisa chegar antes da queda de energia. Ações porta a porta e mensagens adaptadas a cada fase do desastre são as estratégias descritas (Levy et al., 2014; Waite et al., 2014).
Take-home messages
- Pense em dois relógios: o tornado concentra trauma em horas; o ciclone espalha a demanda por semanas.
- Procure lesão de cabeça e trate partes moles com cuidado: são o perfil dominante em vítimas de tornado.
- Desconfie da ferida suja que piora: destroços orgânicos podem trazer infecção fúngica grave.
- Lembre que, na vigilância do Irma, quase nove em cada dez mortes foram indiretas, muitas em quem tinha doença crônica ou ficou sem energia.
- Pergunte sempre pelo gerador: o monóxido de carbono mata dias depois da tempestade e é evitável.
Referências
- Deng Q, Lv Y, Xue C, Kang P, Dong J, Zhang L. Pattern and spectrum of tornado injury and its geographical information system distribution in Yancheng, China: a cross-sectional study. BMJ Open. 2018;8(6):e021552. PMID: 29934390. PMC: PMC6020979.
- Wang K, Zhong S, Wang X, et al. Assessment of the public health risks and impact of a tornado in Funing, China, 23 June 2016: a retrospective analysis. Int J Environ Res Public Health. 2017;14(10):1201. PMID: 28994741. PMC: PMC5664702.
- Deng Q, Lv Y, Zhao F, Yu W, Dong J, Zhang L. Factors associated with injuries among tornado victims in Yancheng and Chifeng, China. BMC Public Health. 2019;19(1):1556. PMID: 31767001. PMC: PMC6878644.
- Weinhold B. Rare fungal illness follows tornado. Environ Health Perspect. 2013;121(4):A116. PMID: 23548439. PMC: PMC3620763.
- Soler M, Lapostolle A, Mano Q, et al. Immediate public health surveillance response to cyclone Chido, Mayotte, 14 December 2024. Euro Surveill. 2025;30(6):2500060. PMID: 39949322. PMC: PMC11914968.
- Issa A, Ramadugu K, Mulay P, et al. Deaths related to Hurricane Irma: Florida, Georgia, and North Carolina, September 4 to October 10, 2017. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2018;67(30):829-832. PMID: 30070979. PMC: PMC6072056.
- Huang W, Yang Z, Zhang Y, et al. Tropical cyclone-specific mortality risks and the periods of concern: a multicountry time-series study. PLoS Med. 2024;21(1):e1004341. PMID: 38252630. PMC: PMC10843109.
- Guo Y, Zhu Y, He C, et al. Cyclone exposure and mortality risk of children under 5 years old: an observational study in 34 low- and middle-income countries. PLoS Med. 2025;22(9):e1004735. PMID: 40996953. PMC: PMC12463208.
- Cowan KN, Zavala DE, Suarez E, Lopez-Rodriguez JA, Alvarez O. Excess mortality and associated community risk factors related to hurricane Maria in Puerto Rico. Environ Res Health. 2025;3(1):015014. PMID: 39906886. PMC: PMC11788712.
- Rivera-Hernandez M, Kim D, Nguyen KH, et al. Changes in migration and mortality among patients with kidney failure in Puerto Rico after Hurricane Maria. JAMA Health Forum. 2022;3(8):e222534. PMID: 36200633. PMC: PMC9375170.
- Keenan OJ, Soroka O, Abramson D, Safford M, Shapiro MF, Ghosh AK. Long-term impacts of hurricanes on mortality among Medicare beneficiaries: evidence from Hurricane Sandy. Front Public Health. 2025;13:1523941. PMID: 40843422. PMC: PMC12364919.
- Levy M, Jenkins JL, Seaman K. A fire department community health intervention to prevent carbon monoxide poisoning following a hurricane. PLoS Curr. 2014;6. PMID: 24596660. PMC: PMC3933212.
- Waite T, Murray V, Baker D. Carbon monoxide poisoning and flooding: changes in risk before, during and after flooding require appropriate public health interventions. PLoS Curr. 2014;6. PMID: 25045587. PMC: PMC4096798.


