Álcool além da abstinência: o paciente "que só está bêbado"

Profissional de uniforme bege apoia a mão no painel de um aparelho de tomografia, com os pés de um paciente visíveis na abertura
Sumário
  1. Por que "só está bêbado" é um diagnóstico perigoso
  2. As três hipóteses que não podem passar
  3. Wernicke: o diagnóstico que a tríade esconde
  4. Tabela: pista, hipótese escondida e o que checar
  5. Reavaliar no tempo: a pista que só aparece depois
  6. Como conversar e registrar sem estigma
  7. Como treinar com casos e com o NEXO
  8. Perguntas frequentes
  9. Checklist final
  10. Referências

Sábado, quase meia-noite. Um homem de cinquenta anos chega trazido por desconhecidos que o encontraram sentado na calçada, confuso, com hálito alcoólico e roupas sujas. Na passagem de plantão, alguém resume: "É conhecido do serviço, só está bêbado, deixa dormir no corredor que amanhã ele vai embora". A frase parece prática. Ela também carrega três diagnósticos que podem passar despercebidos durante a noite: um trauma craniano com sangramento que cresce aos poucos, uma hipoglicemia que piora enquanto ele dorme e uma encefalopatia de Wernicke que, sem tratamento, pode deixar sequelas permanentes. Este texto usa a intoxicação alcoólica como cenário de raciocínio clínico: por que a expressão "só está bêbado" é um viés a desmontar, que hipóteses precisam ser checadas antes de aceitar o álcool como explicação e como reavaliar a pessoa ao longo do tempo. A cena e os exemplos do texto são fictícios e foram escritos para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

O texto evita ser um protocolo de atendimento ou um guia de doses. As diretrizes e os protocolos de cada serviço orientam a conduta. Aqui o foco é a forma de pensar diante de uma explicação que parece óbvia. Se você joga o caso do dia no NEXO, conhece o movimento: uma pista forte pode empurrar o raciocínio para um capítulo inteiro, e o retorno de proximidade mostra o quanto você se afastou da resposta.

Principais pontos

  • O hálito alcoólico confirma que houve consumo, e deixa em aberto o que está causando a alteração do nível de consciência.
  • Trauma craniano, hipoglicemia e encefalopatia de Wernicke são hipóteses que podem coexistir com a intoxicação e que precisam ser checadas.
  • A tríade clássica de Wernicke aparece completa em uma minoria dos casos, e critérios operacionais mais amplos ajudam a não perder o diagnóstico.
  • Reavaliar a pessoa ao longo do tempo é parte do diagnóstico: quem "só está bêbado" melhora, e quem piora pede outra explicação.
  • Linguagem estigmatizante e rótulos como "conhecido do serviço" aumentam o risco de fechamento prematuro.

Por que "só está bêbado" é um diagnóstico perigoso

A frase "só está bêbado" funciona como um diagnóstico de exclusão feito ao contrário: em vez de excluir as outras causas e chegar ao álcool, ela começa pelo álcool e dispensa a busca pelas outras. Pat Croskerry descreveu esse movimento como fechamento prematuro, um dos erros cognitivos mais frequentes em medicina de emergência (Croskerry, 2003). No estudo de Graber, Franklin e Gordon sobre erros diagnósticos em medicina interna, o fechamento prematuro foi o erro cognitivo mais comum entre os casos analisados (Graber, Franklin e Gordon, 2005).

O álcool é uma âncora especialmente forte porque explica muita coisa ao mesmo tempo. Confusão, fala arrastada, marcha instável, vômitos, sonolência e agressividade podem ser efeitos da intoxicação. O problema é que esses mesmos sinais aparecem em trauma craniano, hipoglicemia, encefalopatia de Wernicke, infecção do sistema nervoso central, intoxicação por outras substâncias, crise convulsiva e acidente vascular cerebral. Quando o álcool explica tudo, ele também esconde tudo.

A Organização Mundial da Saúde lembra que o uso de álcool está ligado a lesões, a doenças de vários órgãos e a um grande número de mortes no mundo (OMS, ficha sobre álcool). Para o raciocínio clínico, isso significa que a pessoa intoxicada tem probabilidade pré-teste aumentada para várias condições graves, e não apenas para a intoxicação em si. O post sobre probabilidade pré-teste ajuda a pensar como uma pista desloca o peso das hipóteses.

Há ainda um efeito de contexto. Plantões cheios, madrugadas e pessoas que chegam sem acompanhante criam pressão para resolver rápido. Nessas condições, o pensamento rápido assume o controle e a explicação mais disponível vence. A saída é ter alguns pontos de checagem fixos, que acontecem para toda pessoa com alteração de consciência, com ou sem álcool: glicemia, exame da cabeça, exame neurológico, sinais vitais seriados e uma pergunta sobre alimentação e quedas. Esses pontos funcionam como uma rede de segurança para o raciocínio, porque não dependem da primeira impressão.

O rótulo "conhecido do serviço"

Pessoas que voltam com frequência ao pronto-socorro em estado de intoxicação recebem apelidos, anotações rápidas e menos tempo de avaliação. O rótulo viaja de um plantão para o outro. Uma revisão sistemática mostrou que atitudes negativas de profissionais de saúde em relação a pessoas com transtornos por uso de substâncias são comuns e se associam a pior qualidade de cuidado (van Boekel e colaboradores, 2013). Cada visita é um novo episódio, com hipóteses próprias, mesmo que a pessoa já seja conhecida.

Quando a emoção entra na avaliação

Atender alguém intoxicado, agressivo ou sujo, no meio de um plantão cheio, provoca irritação. Essa emoção influencia o raciocínio, um fenômeno descrito no post sobre viés afetivo. Reconhecer a irritação é o primeiro passo para impedir que ela decida pela gente.

As três hipóteses que não podem passar

Três hipóteses merecem atenção especial porque são frequentes, graves e tratáveis, e porque se escondem bem atrás da intoxicação. Esse grupo é uma ferramenta de raciocínio, e não uma lista completa do diferencial.

Trauma craniano

Pessoas intoxicadas caem, brigam e se machucam, muitas vezes sem lembrar do que aconteceu. O exame neurológico fica difícil de interpretar, porque a intoxicação também altera consciência, fala e marcha. Por isso, a diretriz do NICE sobre trauma craniano orienta só atribuir a redução do nível de consciência à intoxicação depois de excluir uma lesão cerebral traumática importante (NICE NG232). Um hematoma atrás da orelha, uma assimetria pupilar discreta ou uma sonolência que demora a passar mudam o peso das hipóteses. A decisão sobre exame de imagem segue os critérios do serviço, e a reavaliação seriada ajuda a perceber o que o primeiro exame não mostrou.

Hipoglicemia

O álcool pode causar hipoglicemia, especialmente em pessoas com baixa ingestão alimentar, e a hipoglicemia pode parecer intoxicação: confusão, sudorese, comportamento alterado e sonolência. A glicemia capilar é rápida, barata e muda a conduta na hora. Ela deve fazer parte da avaliação inicial de qualquer pessoa com alteração do nível de consciência, inclusive de quem tem hálito alcoólico.

Encefalopatia de Wernicke

A encefalopatia de Wernicke é causada pela deficiência de tiamina e aparece com frequência em pessoas com uso pesado de álcool e alimentação inadequada. A tríade clássica inclui confusão, alterações oculares e ataxia, mas um estudo de necropsia com pessoas diagnosticadas com o complexo de Wernicke-Korsakoff mostrou que a maioria não tinha a tríade completa registrada em vida e que muitos casos só foram identificados após a morte (Harper, Giles e Finlay-Jones, 1986). Como a intoxicação também causa confusão e ataxia, a encefalopatia de Wernicke é uma das hipóteses mais fáceis de perder.

Outras hipóteses que andam junto

Além das três hipóteses principais, o diferencial da pessoa intoxicada inclui condições que também se escondem atrás do álcool. A intoxicação por outras substâncias, isoladas ou misturadas, é comum e muda o quadro. Uma crise convulsiva sem testemunhas pode deixar a pessoa confusa no período pós-ictal, e a própria abstinência pode provocar crises. Um acidente vascular cerebral pode ser confundido com fala arrastada e marcha instável. Infecções, como pneumonia aspirativa e meningite, podem começar com confusão e febre discreta. Em pessoas com doença hepática, a encefalopatia hepática entra no diferencial. Em noites frias, a hipotermia de quem ficou horas na rua também altera a consciência.

O post sobre diagnóstico diferencial com pistas sugere listar as hipóteses antes de escolher uma. Diante do álcool, essa lista curta, escrita logo na chegada, ajuda a manter o raciocínio aberto até que os dados permitam fechar.

Comorbidades que mudam a leitura do caso

O uso pesado e prolongado de álcool afeta quase todos os órgãos, e as comorbidades alteram a forma como a intoxicação se apresenta. Doença hepática crônica muda a coagulação, aumenta o risco de sangramento após um trauma e abre espaço para encefalopatia hepática. Pancreatite pode se apresentar como dor abdominal e vômitos que parecem efeito do álcool. Distúrbios de eletrólitos, como alterações de sódio, potássio, magnésio e fósforo, podem causar confusão, arritmias e fraqueza. A desnutrição aumenta o risco de deficiência de tiamina e de hipoglicemia.

Essas comorbidades também mudam a probabilidade pré-teste de cada hipótese. Uma pessoa com cirrose que chega confusa após uma queda tem mais chance de sangramento intracraniano do que uma pessoa sem doença hepática. Uma pessoa com baixa ingestão alimentar e vômitos há dias tem mais chance de Wernicke. O raciocínio precisa levar em conta a história completa, e não apenas o episódio da noite. Conversar com acompanhantes, consultar registros anteriores e perguntar sobre alimentação, quedas e outras doenças são passos simples que mudam o diferencial.

Exemplo fictício: a noite que muda de direção

Imagine uma mulher de quarenta e poucos anos trazida pela família após beber durante o dia. Na chegada, ela está sonolenta e responde com frases curtas. A glicemia está normal e o exame da cabeça não mostra lesões visíveis. Duas horas depois, ela continua sonolenta, e a equipe percebe um movimento ocular anormal e dificuldade para ficar sentada. A família conta que ela come pouco há semanas. Com dois achados dos critérios operacionais, a hipótese de Wernicke ganha peso, e o tratamento segue o protocolo do serviço. O que mudou o caso foi a reavaliação e a conversa com a família, e não um exame sofisticado.

Equipe de saúde militar em treinamento atende um colega que simula um ferido, com faixa na cabeça e colar cervical
Quem chega intoxicado depois de uma queda ou briga precisa ter o trauma craniano avaliado, e o exame neurológico deve ser repetido quando a intoxicação diminui. Crédito: Cpl. Shawn Pierce, U.S. Army, Domínio público (modelo de domínio público), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Wernicke: o diagnóstico que a tríade esconde

Se a tríade completa é rara, como pensar no diagnóstico? Caine e colaboradores propuseram critérios operacionais para pessoas com uso crônico de álcool: a presença de dois entre quatro achados, que são deficiência alimentar, alterações oculares, disfunção cerebelar e alteração do estado mental ou comprometimento leve de memória (Caine e colaboradores, 1997). Esses critérios aumentam a sensibilidade em relação à tríade clássica e ajudam a pensar no diagnóstico mais cedo.

A diretriz da European Federation of Neurological Societies sobre diagnóstico, tratamento e prevenção da encefalopatia de Wernicke recomenda considerar o diagnóstico com base clínica, valorizando os critérios operacionais, e tratar sem esperar confirmação laboratorial ou de imagem (Galvin e colaboradores, 2010). A revisão de Sechi e Serra no Lancet Neurology descreve também cenários fora do álcool, como cirurgia bariátrica, vômitos persistentes e desnutrição, o que amplia o raciocínio (Sechi e Serra, 2007).

No Reino Unido, um relatório do Royal College of Physicians trouxe orientações para o manejo da encefalopatia de Wernicke no pronto-socorro, com ênfase em reconhecer o risco e tratar cedo (Thomson e colaboradores, 2002). As diretrizes do NICE sobre condições físicas relacionadas ao uso de álcool e sobre transtornos por uso de álcool também tratam da prevenção e do tratamento da deficiência de tiamina (NICE CG100; NICE CG115).

O mito que atrasa a glicose

Um ensinamento comum diz que a glicose nunca deve ser dada antes da tiamina, porque isso precipitaria a encefalopatia de Wernicke. Um estudo retrospectivo nacional com veteranos atendidos em serviços de emergência por intoxicação alcoólica, que receberam glicose antes da tiamina, encontrou zero diagnósticos de Wernicke no seguimento, e os autores concluíram que o tratamento da hipoglicemia deve ser feito sem atraso (Jasti e colaboradores, 2025). Para o raciocínio, o ponto é a prioridade: a hipoglicemia é uma ameaça imediata, e a tiamina continua indicada para quem tem risco. A sequência exata segue o protocolo do serviço.

Tabela: pista, hipótese escondida e o que checar

A tabela resume as pistas que costumam aparecer em uma pessoa intoxicada e as hipóteses que podem estar por trás delas. Ela é um mapa de raciocínio, e a conduta segue o protocolo do serviço.

Pista Hipótese que pode se esconder O que ajuda a checar
Confusão desproporcional ao consumo relatado Hipoglicemia, Wernicke, trauma craniano, infecção Glicemia capilar, exame neurológico, história com acompanhantes
Hematoma, escoriação ou relato de queda Trauma craniano com sangramento Exame da cabeça, critérios de imagem do serviço, reavaliação seriada
Alterações oculares ou ataxia que persiste Encefalopatia de Wernicke Critérios operacionais, história alimentar, tratamento empírico conforme protocolo
Sudorese, tremor e taquicardia horas depois Abstinência alcoólica ou hipoglicemia Tempo desde o último consumo, glicemia, sinais vitais seriados
Febre ou rigidez de nuca Infecção do sistema nervoso central Exame físico completo, investigação conforme suspeita
Piora do nível de consciência com o tempo Sangramento, hipoglicemia, outra substância Reavaliação neurológica e metabólica imediata
Aparelhos de tomografia computadorizada desmontados, com o anel interno exposto e cabos aparentes em uma oficina
A tomografia de crânio entra na decisão porque a redução do nível de consciência só deve ser atribuída à intoxicação depois de excluir uma lesão cerebral traumática importante (NICE NG232). Crédito: Nettadi, CC BY 4.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Reavaliar no tempo: a pista que só aparece depois

A intoxicação alcoólica tem um curso previsível: a concentração de álcool cai com o tempo e a pessoa tende a melhorar. Esse curso é, ele próprio, uma ferramenta diagnóstica. Quem só está intoxicado melhora. Quem piora, ou quem permanece confuso quando deveria estar melhor, pede outra explicação.

Por isso, a reavaliação seriada faz parte do diagnóstico. O post sobre pausa diagnóstica propõe parar antes de fechar o caso e perguntar o que ainda falta explicar. Na pessoa intoxicada, essa pausa precisa acontecer mais de uma vez: na chegada, algumas horas depois e antes da alta.

Perguntas para cada reavaliação

  • O nível de consciência melhorou como esperado para o tempo decorrido?
  • O exame neurológico mudou, para melhor ou para pior?
  • A glicemia foi medida e repetida quando necessário?
  • Há algum achado novo, como hematoma, febre, assimetria ou alteração ocular?
  • Alguém conversou com acompanhantes ou com quem trouxe a pessoa?

A alta como parte do raciocínio

A alta de uma pessoa que estava intoxicada é uma decisão clínica, e não um ato administrativo. Ela pressupõe que a pessoa está orientada, que as hipóteses graves foram consideradas e que o seguimento dos próximos dias foi combinado. Se houver risco à vida ou sofrimento intenso, oriente a pessoa a buscar a ajuda necessária e garanta que ela saiba onde encontrar atendimento. A conversa sobre o uso de álcool, feita com respeito, pode ser a primeira porta para o tratamento.

Como conversar e registrar sem estigma

A linguagem usada na passagem de plantão e no prontuário influencia as decisões de quem vem depois. Um estudo randomizado mostrou que descrever a mesma pessoa como "abusador de substâncias" em vez de "pessoa com transtorno por uso de substâncias" aumentou a tendência de profissionais a atribuir culpa e a apoiar medidas punitivas (Kelly e Westerhoff, 2010). Frases como "só está bêbado", "alcoólatra" ou "poliqueixoso" carregam julgamento e encerram o raciocínio antes da hora.

Algumas trocas simples ajudam:

  • Troque "bêbado" por "pessoa com intoxicação alcoólica", e registre os achados que sustentam essa avaliação.
  • Troque "alcoólatra" por "pessoa com transtorno por uso de álcool", quando houver base para o diagnóstico.
  • Registre as hipóteses que ainda estão abertas, e não apenas a intoxicação.
  • Anote o horário de cada reavaliação e o que mudou.
  • Na passagem de plantão, diga o que falta checar, e não só o que já foi concluído.

O post sobre empatia e raciocínio clínico na consulta mostra como a forma de conversar muda a qualidade da informação. Com uma pessoa intoxicada, a conversa pode ser curta, mas ainda assim precisa ser respeitosa.

A conversa sobre álcool antes da alta

Quando a pessoa está orientada, o momento antes da alta é uma oportunidade de conversa. A abordagem pode ser curta: perguntar como ela vê o próprio consumo, oferecer informação sobre os riscos que apareceram naquela noite e perguntar se ela quer ajuda. As diretrizes do NICE descrevem formas de avaliação e de encaminhamento para pessoas com consumo nocivo ou dependência. O tom importa mais do que o roteiro: uma conversa sem julgamento aumenta a chance de a pessoa voltar quando precisar e de aceitar tratamento em outro momento. Se a pessoa recusar, a recusa fica registrada com data, e a oferta pode ser retomada em uma próxima visita.

Essa conversa também protege o raciocínio de quem atender a pessoa no futuro. Um registro que descreve o consumo, as hipóteses checadas e a resposta da pessoa ajuda mais do que um rótulo. Ele permite que o próximo plantão comece com informação, e não com um rótulo antigo.

Quatro glicosímetros portáteis de modelos diferentes sobre fundo branco, com visores digitais e fitas de teste
A glicemia capilar leva poucos instantes e pode mudar a conduta em uma pessoa que parecia apenas intoxicada. Crédito: Christidy, Domínio público (modelo de domínio público), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Como treinar com casos e com o NEXO

O NEXO oferece um caso clínico fictício por dia, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas. Você propõe um diagnóstico buscando o código na CID-10 e recebe um retorno de proximidade em cinco níveis, que mostra se o palpite ficou no código exato, na mesma categoria, no mesmo grupo, no mesmo capítulo ou em outro capítulo. Quando a primeira pista é o álcool, o retorno mostra se você ficou preso ao capítulo dos transtornos mentais ou se considerou o trauma, o distúrbio metabólico e a doença neurológica.

Três exercícios para treinar com casos

O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos explica por que estudar com casos fixa melhor as decisões. Três exercícios ajudam a treinar o raciocínio diante da intoxicação:

Tire o álcool da vinheta. Leia um caso com intoxicação e pergunte que diagnóstico você faria se o hálito alcoólico não estivesse lá.

Escreva as três hipóteses que não podem passar. Para cada caso com álcool, anote trauma, hipoglicemia e Wernicke, e o achado que ajudaria a descartar cada um.

Reescreva a passagem de plantão. Pegue uma frase fictícia como "só está bêbado, deixa dormir" e reescreva com hipóteses abertas, horário da próxima reavaliação e o que falta checar.

Esses exercícios combinam com a ideia de calibração do post sobre calibração da confiança no diagnóstico e com as estratégias do post sobre incerteza diagnóstica.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

O hálito alcoólico confirma que a confusão é por intoxicação?

O hálito confirma que houve consumo de álcool. A causa da confusão ainda precisa ser avaliada, porque trauma craniano, hipoglicemia, Wernicke e outras condições podem coexistir com a intoxicação.

A tríade clássica é necessária para pensar em Wernicke?

A tríade completa aparece em uma minoria das pessoas com o diagnóstico. Critérios operacionais que pedem dois entre quatro achados ajudam a reconhecer a condição mais cedo.

Posso dar glicose antes da tiamina?

Um estudo recente com veteranos sugere que o tratamento da hipoglicemia deve ser feito sem atraso, e a tiamina continua indicada para quem tem risco. A sequência segue o protocolo do serviço.

Toda pessoa intoxicada precisa de tomografia de crânio?

A decisão segue os critérios do serviço e a avaliação clínica. O ponto de raciocínio é atribuir a redução do nível de consciência à intoxicação somente depois de excluir uma lesão cerebral traumática importante (NICE NG232), e a reavaliação seriada é parte da decisão.

Este texto serve como protocolo de atendimento?

Este texto trata de raciocínio clínico e de vieses. Condutas e doses seguem os protocolos do seu serviço e as diretrizes de sociedades médicas, sob supervisão.

Como esse tema aparece em provas?

Provas costumam cobrar o reconhecimento da encefalopatia de Wernicke, a prioridade da glicemia na alteração de consciência e o diferencial do paciente intoxicado com trauma. Treinar com casos ajuda a ligar esses pontos.

Checklist final

  • Medi a glicemia na chegada e repeti quando necessário.
  • Examinei a cabeça e segui os critérios de imagem do serviço.
  • Pensei em Wernicke usando critérios operacionais, e não apenas a tríade.
  • Reavaliei o nível de consciência e o exame neurológico ao longo do tempo.
  • Registrei as hipóteses abertas em linguagem neutra.
  • Decidi a alta com a pessoa orientada e com seguimento combinado.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Caine D, Halliday GM, Kril JJ, Harper CG. Operational criteria for the classification of chronic alcoholics: identification of Wernicke's encephalopathy. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 1997. [PMID 9010400](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9010400/).
  2. Croskerry P. The importance of cognitive errors in diagnosis and strategies to minimize them. Acad Med. 2003. [PMID 12915363](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12915363/).
  3. Galvin R, Bråthen G, Ivashynka A, et al. EFNS guidelines for diagnosis, therapy and prevention of Wernicke encephalopathy. Eur J Neurol. 2010. [PMID 20642790](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20642790/).
  4. Graber ML, Franklin N, Gordon R. Diagnostic error in internal medicine. Arch Intern Med. 2005. [PMID 16009864](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16009864/).
  5. Harper CG, Giles M, Finlay-Jones R. Clinical signs in the Wernicke-Korsakoff complex: a retrospective analysis of 131 cases diagnosed at necropsy. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 1986. [PMID 3701343](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3701343/).
  6. Jasti J, Sherman K, Gummin D, Farkas A. Prevalence of Wernicke's Encephalopathy When Receiving Dextrose Before Thiamine: A National Study of Veterans. Acad Emerg Med. 2025. [PMID 40873301](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40873301/).
  7. Kelly JF, Westerhoff CM. Does it matter how we refer to individuals with substance-related conditions? A randomized study of two commonly used terms. Int J Drug Policy. 2010. [PMID 20005692](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20005692/).
  8. National Institute for Health and Care Excellence. Alcohol-use disorders: diagnosis and management of physical complications (CG100). [NICE CG100](https://www.nice.org.uk/guidance/cg100).
  9. National Institute for Health and Care Excellence. Alcohol-use disorders: diagnosis, assessment and management of harmful drinking and alcohol dependence (CG115). [NICE CG115](https://www.nice.org.uk/guidance/cg115).
  10. National Institute for Health and Care Excellence. Head injury: assessment and early management (NG232). 2023. [NICE NG232](https://www.nice.org.uk/guidance/ng232).
  11. Sechi G, Serra A. Wernicke's encephalopathy: new clinical settings and recent advances in diagnosis and management. Lancet Neurol. 2007. [PMID 17434099](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17434099/).
  12. Thomson AD, Cook CC, Touquet R, et al. The Royal College of Physicians report on alcohol: guidelines for managing Wernicke's encephalopathy in the accident and Emergency Department. Alcohol Alcohol. 2002. [PMID 12414541](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12414541/).
  13. van Boekel LC, Brouwers EP, van Weeghel J, et al. Stigma among health professionals towards patients with substance use disorders and its consequences for healthcare delivery: systematic review. Drug Alcohol Depend. 2013. [PMID 23490450](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23490450/).
  14. World Health Organization. Alcohol: fact sheet. [OMS](https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/alcohol).

Voltar ao blog

Álcool além da abstinência: o paciente "que só está bêbado"