Gás lacrimogêneo: lesões, risco e descontaminação

Sumário
Num caso fictício, um residente de 28 anos chega ao pronto-socorro com os olhos fechados pela dor, tosse seca e a pele do rosto ardendo. Ele estava a cerca de vinte metros de um lançador quando a nuvem o atingiu. Diz que "é só gás de protesto" e pede para ir embora depois de lavar o rosto. A pergunta clínica é outra: o que esse agente faz no olho, na pele e no pulmão, quem piora de verdade e o que o atendimento precisa fazer agora?
Gás lacrimogêneo e spray de pimenta entram na família dos agentes de controle de multidão. São irritantes sensoriais, e não agentes de nervo. A maioria das exposições passa com descontaminação e suporte, mas há relatos de lesão grave, incapacidade permanente e morte, sobretudo quando o agente fica concentrado em espaço fechado, a exposição se prolonga ou o projétil atinge a cabeça ou o olho. Este texto reúne o que as revisões e os estudos com texto completo mostram sobre a lesão, o risco e o cuidado imediato. O foco é a decisão clínica: reconhecer o padrão esperado, achar o paciente que foge desse padrão e descontaminar sem contaminar o serviço.
Principais pontos
- Os agentes mais citados são o CS (clorobenzilideno malononitrila), o CN (cloroacetofenona) e o OC (oleorresina de Capsicum, o spray de pimenta) (Schep et al., 2015; Quiroga-Garza et al., 2023).
- Em revisão sistemática, 8,7 por cento das lesões foram graves o bastante para exigir manejo médico especializado, e houve mortes e incapacidades permanentes (Haar et al., 2017).
- O olho é alvo central: blefaroespasmo, conjuntivite, edema e, em exposições próximas ou prolongadas, abrasão e opacificação da córnea (Quiroga-Garza et al., 2023).
- Quem tem asma, criança pequena e quem fica preso na nuvem em espaço fechado merecem atenção maior (Carenzo et al., 2026; Rothenberg et al., 2016).
- O antídoto específico não existe: a prioridade é sair da área, descontaminar e dar suporte aos sintomas (Schep et al., 2015; Quiroga-Garza et al., 2023).
- O que é o gás lacrimogêneo e o que ele não é
- Olho, pele e pulmão: o mapa da lesão
- Quão seguro isso é, de fato
- Quem corre mais risco
- A decisão no pronto-socorro: descontaminar antes de complicar
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
O que é o gás lacrimogêneo e o que ele não é
CS, CN e OC ativam canais iônicos de receptores transitórios de potencial nas terminações nervosas da dor. O OC age sobretudo no TRPV1; CS, CN e o agente CR agem no TRPA1 (Rothenberg et al., 2016; Quiroga-Garza et al., 2023). O resultado clínico é dor intensa, lacrimejamento, blefaroespasmo, tosse, sensação de aperto no peito e irritação da pele, em geral segundos após o contato (Schep et al., 2015).
Isso é diferente da síndrome colinérgica dos agentes de nervo e dos organofosforados, em que a atropina e a pralidoxima entram no raciocínio. O texto sobre agentes químicos e organofosforados cobre aquele cenário. Aqui o problema é irritação sensorial e inflamação neurogênica, com outro manejo.
CS, CN e OC em uma frase cada
A revisão de Schep ordena a irritação tipicamente como maior para CN, depois CS e depois OC, e descreve efeitos oculares e respiratórios em 20 a 60 segundos (Schep et al., 2015). O CS é o gás de protesto mais citado nas séries contemporâneas; o OC aparece sobretudo como spray e responde pela maior parte das chamadas a centros de intoxicação nos Estados Unidos (Nogee et al., 2023). O CN tem histórico de lesões cutâneas mais graves, com bolhas, em algumas séries antigas citadas pelas revisões (Schep et al., 2015; Quiroga-Garza et al., 2023).

Olho, pele e pulmão: o mapa da lesão
Olho
A superfície ocular concentra a queixa e o risco de sequela. Blefaroespasmo, fotofobia, conjuntivite e edema periocular são esperados; abrasão corneana, necrose e pseudopterígio aparecem em exposições mais graves ou a curta distância (Quiroga-Garza et al., 2023). Na série chilena de 112 pessoas expostas a CS e OC em 2019 e 2020, dor ou queimação ocular apareceu em 62,5 por cento, visão prejudicada em 51,7 por cento, injeção conjuntival em 25,8 por cento e abrasão corneana em 9,8 por cento (Jara Bravo et al., 2025).
Quiroga-Garza e colegas enfatizam que faltam terapias específicas e que o manejo atual se restringe à descontaminação e ao suporte dirigido aos sintomas (Quiroga-Garza et al., 2023). Irrigação tardia foi associada, em relato citado por eles, a piora permanente da acuidade por astigmatismo irregular e opacificação (Quiroga-Garza et al., 2023). A recomendação da revisão é irrigar cedo, por 15 a 20 minutos, com água ou soro fisiológico (Quiroga-Garza et al., 2023); soluções alcalinas caseiras, como leite ou antiácido, não fazem parte dessa recomendação.
Pele e vias aéreas
Dor ou queimação na pele ocorreu em 52,6 por cento e eritema em 37,5 por cento na série chilena; irritação de garganta em 56,2 por cento e desconforto respiratório em 54,4 por cento (Jara Bravo et al., 2025). Schep descreve irritação nasal, aperto torácico, dor de garganta, tosse e dificuldade para respirar após a inalação (Schep et al., 2015). Em espaço fechado ou com grande quantidade de agente, a revisão narrativa do pronto-socorro em distúrbios civis alerta para lesão mais grave, sobretudo em lactentes, idosos e pessoas com asma (Carenzo et al., 2026).
Quando o projétil conta mais que o gás
Haar e colegas separaram o trauma do cartucho ou do projétil do efeito químico. Entre 231 lesões por projétil, 63 foram graves, 27 por cento, com traumatismo craniano importante e perda de visão (Haar et al., 2017). No pronto-socorro, ferida na face ou no olho após impacto de cartucho não deve ser lida só como "irritação por gás"; o mecanismo é misto, e a triagem precisa do mesmo rigor usado em outros cenários de múltiplas vítimas, como no texto sobre triagem em desastre.
Quão seguro isso é, de fato
A percepção comum de que o gás lacrimogêneo só causa dor passageira não resiste à revisão sistemática de Haar. Em 31 estudos de 11 países, 5131 pessoas tiveram lesões documentadas; houve 2 mortes e 58 incapacidades permanentes (Haar et al., 2017). Das 9261 lesões contadas, 8,7 por cento foram graves e exigiram manejo médico profissional, 17 por cento foram moderadas e 74,3 por cento foram leves (Haar et al., 2017). Pele e olhos concentraram a maior parte das lesões graves.
Fatores que pioram
Os autores apontam tempo de exposição prolongado, maior quantidade de agente e espaços fechados como potencializadores, além de calor, umidade e vento que espalham o agente para quem não era o alvo (Haar et al., 2017). Rothenberg e colegas reforçam o risco em quem já tem doença crônica e pedem reavaliação do risco à saúde à luz dos mecanismos TRPV1 e TRPA1 (Rothenberg et al., 2016).
Limitações que a própria revisão declara
Haar esperava heterogeneidade e limites de qualidade que impediriam metanálise agrupada ou comparação direta entre agentes; a síntese é descritiva (Haar et al., 2017). Os números de gravidade descrevem o que foi publicado em estudos selecionados, e não o risco de toda exposição em campo. A revisão também não permite dizer qual agente é "mais seguro" em termos absolutos, porque os contextos, as concentrações e o modo de dispersão mudam entre países e fabricantes (Haar et al., 2017).

Quem corre mais risco
Carenzo e colegas destacam lactentes, idosos e pessoas com asma entre os grupos em que a lesão por agentes de controle de multidão pode ser mais grave (Carenzo et al., 2026). A criança pequena tem vias aéreas de menor calibre e menos reserva; o raciocínio se aproxima do de outros traumas em conflito, tratado no texto sobre criança ferida na guerra. Quem já vive com asma ou com hiperreatividade brônquica merece observação respiratória mais longa, no mesmo espírito do alerta sobre quem descompensa primeiro na fumaça de incêndio e ar ruim.
Exposição repetida e sintomas que ficam
Em Portland, em 2020, um questionário web com amostra de conveniência de 2257 adultos que relataram exposição recente a gás lacrimogêneo encontrou queixa física ou psicológica em 93,8 por cento, com 93,3 por cento imediatamente após a exposição e 86,1 por cento nos dias seguintes (Torgrimson-Ojerio et al., 2021). Houve tendência positiva entre número de dias de exposição e a maior parte das queixas tardias (Torgrimson-Ojerio et al., 2021). Os autores listam como limites a amostra de conveniência, a exposição a outros meios de força ao mesmo tempo e a ausência de correção para múltiplas comparações.
Arbak e colegas compararam 93 homens com exposição frequente a gás lacrimogêneo e 55 controles. A tosse com catarro por mais de três meses foi mais citada no grupo exposto, 24,7 por cento contra 11,3 por cento, mas sem significância estatística (P maior que 0,05), o que torna essa diferença inconclusiva (Arbak et al., 2014). No subgrupo de fumantes, a média do FEV1/FVC foi de 81,7 por cento nos expostos contra 84,1 por cento nos controles fumantes, e o fluxo médio expiratório previsto também foi menor nos fumantes expostos, ambos com significância estatística (Arbak et al., 2014). O desenho não estabelece causalidade, e os autores falam em risco aumentado de bronquite crônica.
Chamadas a centros de intoxicação
Nogee e colegas analisaram 107149 chamadas por lacrimogêneos ao National Poison Data System entre 2000 e 2021. O OC respondeu por 76,5 por cento; pessoas com 19 anos ou menos responderam por 62 por cento das chamadas; adultos a partir de 20 anos tiveram mais chance de efeito clínico maior (odds ratio 3,03; intervalo de confiança de 95 por cento de 1,91 a 4,81, adultos versus pessoas com 19 anos ou menos) (Nogee et al., 2023). Exposições escolares e acesso de crianças a sprays mal guardados aparecem entre os cenários. Isso muda a anamnese. Perguntas úteis, por síntese nossa a partir de Nogee, Carenzo e Haar:
- Houve nuvem em rua aberta, corredor, viatura ou outro espaço fechado?
- Houve impacto de cartucho na face, no olho ou na cabeça?
- Há asma, criança pequena ou idoso no grupo atendido?
- Em casa, há spray de defesa pessoal ao alcance de criança (Nogee et al., 2023; Carenzo et al., 2026; Haar et al., 2017)?
A decisão no pronto-socorro: descontaminar antes de complicar
Carenzo resume o cuidado dos irritantes químicos no pronto-socorro em descontaminação e suporte (Carenzo et al., 2026). Quiroga-Garza detalha o começo: proteger a equipe com óculos, máscara e avental; tirar o paciente do chão; tratar em área bem ventilada, porque as partículas se acumulam (Quiroga-Garza et al., 2023). Schep coloca a saída da área contaminada e o ar fresco como prioridade e afirma que não há antídoto (Schep et al., 2015).
A lógica de tirar a roupa e lavar antes de espalhar o agente pelo serviço se parece com a descontaminação descrita no texto da bomba suja, embora o contaminante seja outro. A via aérea que preocupa na queimadura e fumaça também entra no diferencial quando há tosse persistente, hipoxemia ou história de espaço fechado.
Uma sequência possível
A sequência a seguir é síntese nossa, a partir das fontes acima, e precisa do protocolo local:
- Proteger a equipe e levar o paciente para área ventilada, longe da nuvem.
- Remover roupas e lentes de contato contaminadas e acondicioná-las de modo a não reexpor ninguém.
- Irrigar olhos e pele com água ou soro fisiológico em abundância; evitar esfregar; não usar leite, antiácido ou outras soluções alcalinas caseiras.
- Avaliar via aérea, frequência respiratória, oxigenação e lesão ocular com fluoresceína quando a dor ou a visão não melhorarem após a irrigação.
- Tratar broncoespasmo como asma aguda quando houver sibilos ou história de asma; observar quem ficou em espaço fechado, criança pequena e quem recebeu impacto de cartucho.

Capacidade do serviço
Eventos de rua podem trazer muitos pacientes de uma vez, com demanda de espaço externo para descontaminação, trocas de roupa e proteção da equipe. Isso se encaixa no planejamento de capacidade de surto do hospital em desastres. O ultrassom e o exame à beira do leito ajudam no trauma associado, tema do texto sobre diagnóstico com poucos recursos.
Achados cardíacos e respiratórios em estudo recente
Chakhunashvili e colegas fizeram um estudo observacional caso-controle após protestos na Geórgia no fim de 2024, com gás lacrimogêneo e spray de pimenta misturados a água. Entre 69 participantes expostos avaliados clinicamente e 31 controles, alterações eletrocardiográficas na onda P, no complexo QRS e na onda T foram mais frequentes no grupo exposto (Chakhunashvili et al., 2025). Alterações na capillaroscopia foram mais comuns no grupo exposto, sem alcançar significância estatística (Chakhunashvili et al., 2025). O tipo de máscara não se associou à incidência de sintomas. Os autores descrevem dois quadros respiratórios clinicamente ligados à exposição e pedem mais estudo de longo prazo.
A leitura a seguir é síntese nossa: um ECG de admissão faz sentido quando há dor torácica, palpitações ou exposição intensa e prolongada, mas o estudo não valida rastreio eletrocardiográfico universal. O desenho observacional e a amostra clínica selecionada limitam a extrapolação.
Diferencial no pronto-socorro: além do irritante
No atendimento, a nuvem de irritante convive com trauma contuso, projéteis de impacto cinético, dispositivos sonoros e, às vezes, fogo. Carenzo organiza o pronto-socorro em distúrbios civis justamente porque cada arma de controle de multidão produz um padrão próprio, e o irritante químico é só uma peça (Carenzo et al., 2026). Dor torácica depois de corrida e pânico pode ser ansiedade, broncoespasmo ou, menos vezes, o tipo de alteração eletrocardiográfica descrita no estudo georgiano (Chakhunashvili et al., 2025).
A leitura a seguir é síntese nossa. Se a história é só aerossol a distância, sem impacto, o caminho é descontaminação e observação respiratória e ocular. Se houve estampido próximo, queda ou cartucho no chão perto da face, acrescente a lógica de trauma e peça exame de imagem conforme o mecanismo, ainda que a pele pareça pouco alterada. Essa disciplina de juntar pista à pista é a mesma do texto sobre sinais, sintomas e história.
Asma e o erro de liberar cedo demais
Rothenberg lembra que pessoas com morbidades crônicas ficam em risco maior de complicação (Rothenberg et al., 2016). Carenzo nomeia a asma de forma explícita entre os grupos vulneráveis (Carenzo et al., 2026). Um paciente que chega falando e quer ir embora pode piorar quando o broncoespasmo se estabelece minutos depois, sobretudo se a exposição foi em corredor, viatura ou ambiente sem saída fácil, cenário que Haar associa a mais lesão (Haar et al., 2017). O paralelo com a asma de tempestade é o de reconhecer quem descompensa por hiperreatividade quando o ar muda de súbito.
O que a descontaminação muda na prática
Quiroga-Garza descreve o paciente levantado do chão e tratado em espaço ventilado, porque as partículas se acumulam (Quiroga-Garza et al., 2023). Schep coloca ar fresco e remoção da área como primeiro passo (Schep et al., 2015). Na pele, a remoção da roupa reduz a carga que continua a liberar agente; no olho, a irrigação feita cedo busca limitar abrasão e cicatriz. A revisão ocular adverte que o atraso na irrigação entrou na história de pelo menos um caso com perda permanente de acuidade (Quiroga-Garza et al., 2023).
Lentes de contato e roupa
Por síntese nossa, alinhada ao princípio de tirar o que retém o agente: lentes de contato saem antes ou durante a irrigação, e a roupa vai para saco fechado longe da área limpa. A equipe troca luvas depois de manusear pertences contaminados. Esses detalhes raramente aparecem como desfecho nos estudos, mas são o que impede a reexposição do próximo paciente e do profissional.
Quando chamar oftalmologia e pneumologia
Jara Bravo documentou abrasão corneana em 9,8 por cento da amostra e visão prejudicada em mais da metade (Jara Bravo et al., 2025). Haar mostrou que olho e pele concentram lesões graves (Haar et al., 2017). A indicação de avaliação especializada, por síntese nossa, cabe quando há abrasão extensa, hipópio ou micro-hifema, dor desproporcional após irrigação, queda de acuidade, ou sibilos e hipoxemia que não cedem ao broncodilatador. No questionário de Portland com 2257 adultos (Torgrimson-Ojerio 2021), 54,6 por cento buscaram ou pretendiam buscar cuidado médico ou de saúde mental (Torgrimson-Ojerio et al., 2021), o que lembra que o impacto não acaba na porta do pronto-socorro.
Estudos em resumo
| Estudo | Desenho | População | Achado principal |
|---|---|---|---|
| Haar, 2017 | Revisão sistemática PRISMA | 31 estudos, 11 países | Lesões graves, mortes e incapacidades permanentes documentadas (Haar et al., 2017) |
| Quiroga-Garza, 2023 | Revisão da superfície ocular | Literatura sobre CS, CN e OC no olho | Manejo atual: descontaminação e suporte; sem terapia específica (Quiroga-Garza et al., 2023) |
| Torgrimson-Ojerio, 2021 | Corte transversal por questionário | 2257 adultos em Portland | Queixas físicas e psicológicas imediatas e nos dias seguintes (Torgrimson-Ojerio et al., 2021) |
| Jara Bravo, 2025 | Corte transversal retrospectivo | 112 expostos em Santiago | Olho, garganta, respiração e pele lideram os efeitos de curto prazo (Jara Bravo et al., 2025) |
| Nogee, 2023 | Análise de centro de intoxicação | 107149 chamadas nos EUA | OC predominante; muitos jovens; efeitos maiores mais em adultos (Nogee et al., 2023) |
| Carenzo, 2026 | Revisão narrativa | Pronto-socorro em distúrbios civis | Descontaminação e suporte; cuidado com asma, lactentes e idosos (Carenzo et al., 2026) |
Fontes: dados de Haar et al., 2017, Quiroga-Garza et al., 2023, Torgrimson-Ojerio et al., 2021, Jara Bravo et al., 2025, Nogee et al., 2023 e Carenzo et al., 2026.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Separar irritação passageira de lesão ocular ou respiratória que pede observação é o mesmo exercício de juntar sinais, sintomas e história que aparece no texto sobre Sinais, sintomas e história: como interpretar o que o paciente traz.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
Gás lacrimogêneo e spray de pimenta são a mesma coisa?
O CS é um agente sintético tipicamente disperso em nuvem; o OC é extrato de pimenta, comum em sprays. Os dois irritam olho, pele e vias aéreas por canais TRP diferentes (Quiroga-Garza et al., 2023; Rothenberg et al., 2016).
Precisa de antídoto?
As fontes revisadas descrevem ausência de antídoto específico; o cuidado é descontaminação e suporte (Schep et al., 2015; Quiroga-Garza et al., 2023).
Água, leite ou antiácido nos olhos?
A revisão ocular recomenda irrigação com água ou soro fisiológico por 15 a 20 minutos (Quiroga-Garza et al., 2023), e a revisão do pronto-socorro fala em irrigação abundante com água (Carenzo et al., 2026). Uma série citada na revisão ocular tratou pacientes com leite e antiácido, mas isso não é a recomendação: soluções alcalinas caseiras não substituem a água ou o soro.
Quem observar por mais tempo?
Por síntese nossa, alinhada a Carenzo e Haar: quem ficou em espaço fechado, criança pequena, pessoa com asma, quem recebeu impacto de cartucho na cabeça ou no olho, e quem mantém dor ocular, visão turva, sibilos ou hipoxemia após a irrigação (Carenzo et al., 2026; Haar et al., 2017).
Exposição repetida deixa sequela pulmonar?
Arbak encontrou mais sintomas respiratórios e redução de alguns índices em fumantes expostos, e interpretou risco de bronquite crônica, com desenho que não prova causalidade; a diferença na tosse crônica não alcançou significância (Arbak et al., 2014). Portland mostrou queixas que duram dias após a exposição, em amostra de conveniência (Torgrimson-Ojerio et al., 2021).
Take-home messages
- CS, CN e OC irritam por TRPV1 e TRPA1; a clínica começa em segundos e concentra-se em olho, pele e vias aéreas.
- A maior parte das lesões é leve, mas a revisão sistemática documenta lesões graves, incapacidades e mortes, sobretudo com projétil, espaço fechado e exposição prolongada (Haar et al., 2017).
- Asma, idade extrema e trauma por cartucho mudam a observação (Carenzo et al., 2026).
- Antídoto específico não existe: proteger a equipe, ventilar, retirar roupa e irrigar (Schep et al., 2015; Quiroga-Garza et al., 2023).
- Dor ocular ou respiratória que não cede após a irrigação pede reavaliação dirigida, e não alta por "só gás".
Jogue o caso do dia no NEXO e treine o raciocínio com pistas progressivas.
Referências
- Haar RJ, Iacopino V, Ranadive N, et al. Health impacts of chemical irritants used for crowd control: a systematic review of the injuries and deaths caused by tear gas and pepper spray. BMC Public Health. 2017;17(1):831. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29052530/).
- Quiroga-Garza ME, Ruiz-Lozano RE, Azar NS, et al. Noxious effects of riot control agents on the ocular surface: Pathogenic mechanisms and management. Front Toxicol. 2023;5:1118731. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36733462/).
- Rothenberg C, Achanta S, Svendsen ER, Jordt SE. Tear gas: an epidemiological and mechanistic reassessment. Ann N Y Acad Sci. 2016;1378(1):96-107. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27391380/).
- Torgrimson-Ojerio BN, Mularski KS, Peyton MR, et al. Health issues among adults who reported exposure to tear gas during 2020 Portland (OR) protests. BMC Public Health. 2021;21(1):803. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33902512/).
- Carenzo L, Leuci L, Dünser M, et al. Emergency department medical care during civil unrest: a narrative review. Scand J Trauma Resusc Emerg Med. 2026;34(1):124. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42387588/).
- Jara Bravo C, Cernuda Martínez JA, Arcos González P. Short-term health effects of tear agents chlorobenzylidenemalononitrile and oleoresin capsicum during the civil riots of Santiago. Toxicol Res. 2025;41(3):291-301. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40291112/).
- Nogee D, Therriault C, Yeh M, et al. Monitoring trends in lacrimator exposures using the National Poison Data System: 2000-2021. Clin Toxicol (Phila). 2023;61(7):543-550. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37417363/).
- Chakhunashvili K, Gunashvili G, Jobava N, et al. Collateral damage: Cardiovascular and respiratory implications of tear gas deployment during peaceful protest. Toxicol Rep. 2025;15:102166. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41377027/).
- Schep LJ, Slaughter RJ, McBride DI. Riot control agents: the tear gases CN, CS and OC-a medical review. J R Army Med Corps. 2015;161(2):94-99. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24379300/).
- Arbak P, Baser I, Kumbasar OO, et al. Long term effects of tear gases on respiratory system: analysis of 93 cases. ScientificWorldJournal. 2014;2014:963638. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25152930/).


