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Infectologia

Influenza: por que a vacina muda todo ano

Micrografia eletrônica em cores artificiais de quatro partículas do vírus influenza A H1N1, em azul, cobertas de projeções de superfície, sobre fundo vermelho

Alexei Peter dos SantosThiago Longo MoraesAlexei Peter dos Santos e Thiago Longo Moraes

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Sumário
  1. Por que a vacina muda todo ano
  2. Como a OMS escolhe as cepas
  3. Quando a escolha erra: descompasso e adaptação ao ovo
  4. Efetividade variável: o que os números mostram
  5. Queda da proteção e vacinação repetida
  6. O viés do vacinado saudável
  7. Na prática: como orientar a vacinação anual
  8. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  9. Perguntas frequentes
  10. Take-home messages
  11. Referências

Quase toda vacina do calendário é a mesma por décadas. A de influenza muda a cada temporada, e quem a recebe ouve todo ano que precisa voltar no ano seguinte. A explicação está no próprio vírus: as proteínas da superfície mudam aos poucos, de forma contínua, e os anticorpos da temporada anterior reconhecem cada vez pior as variantes novas (OMS, 2022).

Para acompanhar essa mudança, uma rede global de laboratórios vigia os vírus em circulação, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda duas vezes por ano quais cepas entram na vacina, uma vez para cada hemisfério. A escolha é feita meses antes da temporada, porque fabricar a vacina leva tempo, e às vezes o vírus muda no caminho. O resultado é uma efetividade que varia de um ano para outro.

Este texto percorre a biologia da troca anual, o processo de escolha das cepas, os motivos dos descompassos, o que os números de efetividade mostram e por que os estudos observacionais sobre a vacina exigem leitura cuidadosa.

Principais pontos

  • A deriva antigênica, o acúmulo gradual de mutações na hemaglutinina e na neuraminidase, obriga a atualizar a vacina e a vacinar todo ano (OMS, 2022; Krammer, 2018).
  • A composição é decidida em fevereiro para o hemisfério norte e em setembro para o sul (Hampson, 2017), cerca de 6 a 8 meses antes de a vacina chegar ao uso (Morris, 2018).
  • Com cepas sem correspondência, a vacina inativada ainda protegeu adultos, mas menos: 52 contra 65 de cada 100 com cepas correspondentes (Tricco, 2013).
  • Mutações da cepa vacinal durante a produção em ovo podem reduzir a efetividade contra o H3N2 (Skowronski, 2014; Zost, 2017).
  • Estudos observacionais antigos superestimaram o efeito da vacina na mortalidade de idosos pelo viés do vacinado saudável (Fireman, 2009).

Sumário

Por que a vacina muda todo ano

O vírus influenza tem um genoma de RNA dividido em oito segmentos. Duas proteínas de superfície dominam a resposta imune: a hemaglutinina (HA), que liga o vírus à célula, e a neuraminidase (NA), que libera as partículas novas. Os anticorpos que neutralizam o vírus miram sobretudo a cabeça da HA (Krammer, 2018).

Deriva antigênica

A enzima que copia o RNA do vírus erra com frequência e não corrige os erros. A cada ciclo surgem mutações, e as que alteram os pontos da HA reconhecidos por anticorpos dão vantagem ao vírus numa população que já foi infectada ou vacinada. Esse acúmulo gradual de mutações na HA e na NA é a deriva antigênica. Uma ou poucas substituições perto dos sítios funcionais da cabeça da HA bastam para produzir uma deriva relevante (Krammer, 2018).

Modelo físico da hemaglutinina do vírus influenza, impresso em 3D, com superfície texturizada em amarelo, verde e vermelho e várias áreas marcadas em azul e roxo, sobre fundo cinza-claro
Modelo físico da hemaglutinina (HA), a proteína de superfície que liga o vírus influenza à célula, impresso em 3D. Segundo a descrição do NIAID, as áreas em azul e roxo marcam pontos onde mutações podem alterar a capacidade do vírus de se ligar às células; é sobretudo na cabeça dessa proteína que a deriva antigênica acumula as mudanças que fazem os anticorpos da temporada anterior reconhecerem pior o vírus novo. Crédito: NIAID, CC BY 2.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

A cabeça da HA evolui mais depressa do que a haste e é imunodominante, isto é, concentra a resposta de anticorpos (Wu e Wilson, 2020). É uma combinação desfavorável: o sistema imune foca justamente a parte que mais muda. Por isso os anticorpos gerados contra o vírus de dois ou três anos atrás perdem afinidade pelo vírus atual.

A OMS resume a consequência prática: todos os vírus influenza sofrem deriva antigênica, o que exige vacinas novas e imunização anual (OMS, 2022).

Deriva e salto

A deriva é diferente do salto antigênico. O salto é uma troca drástica da HA, em geral pela mistura de segmentos de vírus de origens diferentes, e está ligado às pandemias, porque quase ninguém tem anticorpos contra a proteína nova (Krammer, 2018). A vacina sazonal lida com a deriva; o salto exige uma vacina pandêmica.

O peso da doença

A atualização anual se justifica pela carga da influenza. A OMS estima cerca de 1 bilhão de infecções por ano no mundo, de 3 a 5 milhões de quadros graves e de 290 mil a 650 mil mortes por causa respiratória. A cada temporada, a infecção atinge cerca de 1 em cada 5 crianças e 1 em cada 10 adultos sem vacina (OMS, 2022).

Lenço de papel branco aberto e desdobrado ao lado de outro lenço dobrado, sobre um piso de carpete marrom
Lenços de papel, companhia de quase toda temporada de influenza. A infecção atinge a cada ano cerca de 1 em cada 5 crianças e 1 em cada 10 adultos sem vacina, e as epidemias de regiões temperadas se concentram no inverno. Crédito: Kirschblut, Domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Em regiões temperadas as epidemias ocorrem no inverno. Nos trópicos a influenza pode circular o ano todo, com surtos irregulares (OMS, 2022).

Como a OMS escolhe as cepas

A escolha depende do Sistema Global de Vigilância e Resposta à Influenza (GISRS, na sigla em inglês). Em setembro de 2015, a rede reunia 143 centros nacionais de influenza em 113 países e 6 centros colaboradores da OMS (Hampson, 2017). Os centros nacionais coletam amostras de pacientes, isolam e sequenciam os vírus e enviam uma parte aos centros colaboradores, que fazem a caracterização antigênica.

Duas reuniões por ano

As reuniões de composição da vacina acontecem em fevereiro, para o inverno do hemisfério norte, e em setembro, para o do hemisfério sul. As recomendações para os dois hemisférios são separadas desde 1998 (Hampson, 2017). A OMS mantém a revisão duas vezes por ano por meio do GISRS (OMS, 2022).

Os especialistas comparam os vírus recentes com as cepas da vacina em uso. Um dos testes mais usados é a inibição da hemaglutinação (HI): soros de furões infectados com uma cepa e de pessoas vacinadas são postos diante dos vírus novos. Quando os anticorpos contra a cepa vacinal reagem mal com os vírus que estão se espalhando, a cepa é trocada. Entram também na conta dados genéticos, a proporção de cada grupo de vírus em circulação e a disponibilidade de vírus candidatos adequados para a produção (Hampson, 2017).

Uma aposta feita com antecedência

A escolha precisa sair cedo. Produzir uma vacina atualizada leva pelo menos 6 a 8 meses, o que obriga a decidir quase um ano antes do pico da temporada (Morris, 2018). As reuniões acontecem antes de a temporada em curso terminar, e variantes que surgem depois delas escapam da análise (Hampson, 2017).

Por isso a escolha é, na prática, uma previsão. Modelos de biologia evolutiva tentam antecipar quais grupos de vírus vão predominar com base nas mutações e na velocidade de crescimento de cada grupo. Segundo a revisão de Morris e colaboradores, esses modelos são promissores, mas ainda complementam a decisão dos especialistas (Morris, 2018).

Trivalente ou quadrivalente

A vacina costuma conter dois vírus A (H1N1 e H3N2) e um ou dois vírus B. A linhagem B/Yamagata deixou de ser detectada desde março de 2020, e por isso, nos Estados Unidos, por exemplo, as vacinas para 2024–25 voltaram a ser trivalentes (Grohskopf, 2024). A mesma recomendação mostra outro detalhe: as cepas de referência de H1N1 e H3N2 diferem entre as vacinas produzidas em ovo e as produzidas em células ou por tecnologia recombinante.

Quando a escolha erra: descompasso e adaptação ao ovo

Há duas formas principais de a vacina ficar desalinhada com o vírus. Na primeira, uma variante surge ou cresce depois da reunião. Na segunda, a cepa escolhida está certa, mas muda durante a fabricação (Hampson, 2017).

Cepas sem correspondência

Uma meta-análise reuniu 34 ensaios clínicos randomizados, 47 temporadas e 94.821 participantes para comparar a eficácia contra cepas correspondentes e sem correspondência. Em adultos, a vacina inativada trivalente teve eficácia de 52 de cada 100 (IC 95: 37 a 63) contra cepas sem correspondência e de 65 (54 a 73) contra cepas correspondentes. Em crianças de 6 a 36 meses, a vacina atenuada teve 54 contra 83 (Tricco, 2013).

O achado tem duas leituras. A proteção cai quando a correspondência é ruim. Mas a vacina segue útil, porque os anticorpos têm reação cruzada com vírus parecidos (Tricco, 2013). Um ano de descompasso reduz o benefício, sem zerá-lo.

A mutação dentro do ovo

A maior parte das vacinas inativadas ainda é produzida em ovos embrionados de galinha. Para crescer bem no ovo, o vírus pode acumular mutações que o adaptam a esse ambiente, e algumas delas caem justamente nos sítios reconhecidos por anticorpos.

A temporada 2012-13 no Canadá ilustrou o problema. A efetividade foi de 50 de cada 100 (IC 95: 33 a 63) no geral e de 41 contra o H3N2. A análise genética mostrou que os vírus em circulação continuavam parecidos com a cepa escolhida. O problema estava na cepa vacinal adaptada ao ovo, com mutações nos sítios antigênicos B (H156Q e G186V) e D (S219Y), que reduziram em 16 vezes o título de HI contra os vírus em circulação (Skowronski, 2014).

Em 2016-17 o mecanismo foi outro. Os vírus H3N2 do grupo 3C.2a tinham adquirido, em 2014-15, um sítio de glicosilação no sítio antigênico B. A cepa vacinal adaptada ao ovo perdeu esse sítio durante a produção, e os anticorpos de furões e de pessoas vacinadas neutralizaram mal os vírus em circulação (Zost, 2017).

É uma das razões para o interesse em vacinas produzidas em cultura de células e recombinantes, que dispensam o ovo e usam cepas de referência próprias (Grohskopf, 2024). A OMS lista a adaptação ao ovo entre os fatores que fazem a efetividade variar (OMS, 2022).

Efetividade variável: o que os números mostram

Eficácia é o efeito medido em ensaio clínico randomizado; efetividade é o efeito medido no mundo real, em estudos observacionais. Para a influenza, as duas variam com a temporada, a população, o subtipo dominante, a correspondência entre vacina e vírus e a adaptação ao ovo (OMS, 2022).

Por subtipo

A OMS reuniu estimativas de várias temporadas. Em adultos de 18 a 65 anos, a eficácia combinada da vacina trivalente em 12 temporadas foi de 59 de cada 100 (IC 95: 51 a 67). Por subtipo, a efetividade foi de 38 (31 a 44) contra o H3N2, de 65 contra o H1N1pdm09 e de 63 contra o vírus B (OMS, 2022). O H3N2 é o subtipo mais difícil: muda mais depressa, sofre mais com a adaptação ao ovo e predomina em temporadas mais graves para idosos.

O que os ensaios clínicos mostram

A revisão Cochrane em adultos saudáveis encontrou que a vacina inativada reduziu a influenza confirmada de 2,3 para 0,9 de cada 100 pessoas (RR 0,41). Seria preciso vacinar 71 adultos para evitar um quadro de influenza. A síndrome gripal caiu de 21,5 para 18,1 de cada 100, com 29 vacinados para evitar um episódio. O efeito sobre internação foi pequeno e incerto (14,7 contra 14,1 de cada mil; RR 0,96; IC 95: 0,85 a 1,08; baixa certeza), e quase nulo sobre dias de trabalho perdidos (Demicheli, 2018a).

Em idosos, a mesma equipe encontrou redução da influenza de 6 para 2,4 de cada 100 (RR 0,42), com 30 vacinados para evitar um episódio, e da síndrome gripal de 6 para 3,5 de cada 100, mas com baixa certeza. Os autores observam que os estudos observacionais em idosos foram historicamente de baixa qualidade e que há três décadas faltam ensaios elegíveis nessa faixa (Demicheli, 2018b).

Esses números ajudam a calibrar a conversa. A vacina reduz o risco de influenza, mas o benefício absoluto depende do risco basal: num adulto saudável, a chance de ter influenza numa temporada já é baixa. É a mesma lógica da taxa básica no diagnóstico. Em grupos com mais complicações, como idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas, cada episódio evitado vale mais.

Um exemplo do hemisfério sul

Um estudo combinou dados de oito países do hemisfério sul, na Oceania, no Sudeste Asiático e na América do Sul, e analisou 31.368 internações por síndrome respiratória aguda grave em 2023. A efetividade combinada contra internação por influenza foi de 51,9 de cada 100 (IC 95: 37,2 a 66,7), com grande variação entre países. Na rede da América do Sul, a estimativa foi de 43,9. Os autores notam ainda que, em 2023, a circulação na Nova Zelândia e na Tailândia fugiu do pico habitual de maio a julho do hemisfério sul (Gharpure, 2025).

Esses estudos usam o desenho caso-controle teste-negativo, em que os casos são pacientes com teste positivo para influenza e os controles são pacientes com o mesmo quadro clínico e teste negativo. O desenho e suas armadilhas serão tema do próximo texto da série.

Queda da proteção e vacinação repetida

Proteção que diminui na temporada

A proteção também cai ao longo da própria temporada. Num estudo da Kaiser Permanente na Califórnia com dados de 2010 a 2017, a chance de influenza aumentou cerca de 16 de cada 100 a cada 28 dias após a vacinação. Quem tinha sido vacinado de 42 a 69 dias antes teve chance 1,32 vez maior do que quem tinha sido vacinado de 14 a 41 dias antes (Ray, 2019).

Isso pesa na hora de escolher a data da campanha. Vacinar muito cedo pode deixar a pessoa com menos proteção no pico da temporada; vacinar tarde demais perde as semanas iniciais de circulação. A OMS recomenda vacinar todo ano antes do início da temporada. Em áreas tropicais e subtropicais com vários picos ou circulação o ano todo, a vacina deve ser dada antes do principal período de aumento da atividade, com base na vigilância local e na recomendação de composição mais recente da OMS, independentemente do hemisfério em que o país está (OMS, 2022).

Vacinar todo ano atrapalha?

Uma dúvida comum é se a vacinação repetida reduz a resposta. A meta-análise de Ramsay e colaboradores reuniu 20 estudos. Em comparação com a ausência de vacina, a vacinação na temporada atual aumentou a proteção em 62 de cada 100 contra o H1N1, em 45 contra o H3N2 e em 64 contra o B. Quem também tinha sido vacinado na temporada anterior teve proteção um pouco menor contra H3N2 e B do que quem foi vacinado só na atual, sem diferença para o H1N1 (Ramsay, 2019).

A conclusão dos autores é prática: vacinar na temporada atual é melhor do que deixar de vacinar, independentemente do histórico. A OMS chega à mesma conclusão a partir dos dados de vacinação repetida (OMS, 2022). O fenômeno interessa à pesquisa sobre o desenho de vacinas, mas está longe de ser motivo para pular o ano.

O viés do vacinado saudável

Boa parte da evidência sobre a vacina de influenza em idosos vem de estudos observacionais, que comparam quem se vacinou com quem não se vacinou. Os dois grupos diferem em muito mais do que a vacina, e isso pode criar um efeito aparente maior do que o real.

O teste fora da temporada

O estudo de Fireman e colaboradores mostrou o problema com clareza. Os autores acompanharam pessoas de 65 anos ou mais na Kaiser Permanente do norte da Califórnia entre 1996 e 2005, com 115.823 mortes. Se a vacina age pela proteção contra a influenza, só pode reduzir mortes quando o vírus circula. Mesmo assim, fora das semanas de influenza, os vacinados morriam bem menos: a razão de chances foi de 0,34 no início de novembro, antes da temporada, e subiu para 0,56 em janeiro, 0,67 em abril e 0,76 em agosto (Fireman, 2009).

Esse "efeito" fora da temporada só pode ser viés. Pessoas muito frágeis, perto do fim da vida, deixam de se vacinar, e por isso o grupo sem vacina concentra mais mortes por qualquer causa. Depois de descontar esse viés, o efeito líquido da vacina sobre a mortalidade geral foi de 4,6 de cada 100 (IC 95: 0,7 a 8,3), bem abaixo das estimativas de cerca de 50 que circulavam na época (Fireman, 2009).

Dois vieses em direções opostas

Uma revisão sistemática avaliou 23 estudos observacionais de efetividade e classificou 19 deles, 83 de cada 100, como de alto risco de viés. Dois vieses agem ao mesmo tempo. O viés do vacinado saudável infla a efetividade, porque quem se vacina tende a ter hábitos mais saudáveis e melhor acesso a cuidados. O confundimento por indicação puxa no sentido oposto, porque pessoas doentes recebem mais recomendação de vacina. Nos estudos analisados, o ajuste para fatores de confusão aumentou a efetividade estimada em 12 pontos para mortalidade, 9 para internação e 7 para síndrome gripal (Remschmidt, 2015).

A lição vale para além da influenza. O mesmo raciocínio aparece na avaliação de eventos adversos após vacina, em que a sequência no tempo engana, e na forma como vieses retrospectivos distorcem o julgamento. Desfechos que a vacina deveria afetar e desfechos que ela jamais poderia afetar ajudam a separar efeito de viés.

Na prática: como orientar a vacinação anual

A tabela resume as recomendações da OMS e os achados das fontes lidas. A composição da vacina é revista pela OMS a cada temporada, para cada hemisfério.

Tema O que dizem as fontes Consequência prática Fonte
Repetição anual Deriva na HA e na NA reduz o reconhecimento pelos anticorpos Vacinar a cada temporada OMS, 2022
Composição Recomendação em fevereiro (norte) e setembro (sul) Usar a recomendação mais recente da OMS para a temporada Hampson, 2017
Correspondência ruim Eficácia menor, com proteção cruzada Vacinar mesmo em ano de descompasso Tricco, 2013
Momento Antes do início da temporada; nos trópicos, antes do principal período de atividade Definir a data com a vigilância local OMS, 2022
Queda na temporada Chance de influenza sobe com o tempo desde a vacina Evitar vacinar muito antes da circulação Ray, 2019
Vacinação prévia Vacinar na temporada atual supera ficar sem vacina Manter a vacinação independentemente do histórico Ramsay, 2019
Segurança Vacinas inativadas com excelente perfil; dor local comum Avisar sobre dor no local da aplicação OMS, 2022

A conversa no consultório

"Tomei no ano passado e peguei gripe" é uma frase comum. Ela mistura três coisas: quadros respiratórios causados por outros vírus, a eficácia parcial da vacina e anos de descompasso. Explicar que a vacina reduz o risco, sem eliminá-lo, e que a cepa muda de um ano para outro costuma funcionar melhor do que prometer proteção total. As técnicas de recomendação presuntiva ou participativa e a compreensão de por que a dúvida aparece ajudam nessa hora.

A segurança também entra na conversa. As vacinas inativadas têm excelente perfil de segurança; dor no local da injeção aparece em 60 a 80 de cada 100 vacinados (OMS, 2022). Quem teve reação alérgica grave a uma vacina anterior precisa de avaliação, e o texto sobre anafilaxia após vacina resume quem tem mais risco.

Da recomendação da OMS aos programas

A OMS recomenda que todos os países considerem programas de vacinação sazonal contra a influenza. Para quem inicia ou amplia um programa, lista como grupos a considerar, sem ordem de prioridade, profissionais de saúde, pessoas com comorbidades, idosos e gestantes; crianças e outros grupos podem entrar conforme a carga de doença e a capacidade de cada sistema (OMS, 2022). O processo de decisão, do quadro da evidência à recomendação, e o papel do SAGE nas recomendações globais explicam por que a mesma evidência gera esquemas diferentes. Para o idoso, a vacina de influenza costuma ser oferecida junto com outras, como a de VSR. Pesar benefícios e danos com números absolutos ajuda a comunicar o que esperar.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Reconhecer uma síndrome gripal num idoso no meio do inverno, ou suspeitar de influenza fora da temporada habitual, é o tipo de raciocínio que as pistas treinam. Saber como o código da CID-10 é montado acelera a busca.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações na página de curadoria, e quem produz conteúdo de saúde pode conhecer a página de criadores.

Perguntas frequentes

Por que preciso tomar a vacina de influenza todo ano?

Por dois motivos. O vírus muda por deriva antigênica, e a vacina é atualizada para acompanhar as cepas em circulação (OMS, 2022). Além disso, a proteção diminui ao longo dos meses depois da vacinação (Ray, 2019).

Quem escolhe as cepas da vacina?

A OMS, com base nos dados da rede global de vigilância (GISRS), em reuniões de fevereiro para o hemisfério norte e de setembro para o hemisfério sul (Hampson, 2017).

Se a vacina errar a cepa, ela ainda protege?

Protege menos, mas protege. Em adultos, a eficácia foi de 52 de cada 100 contra cepas sem correspondência e de 65 contra cepas correspondentes (Tricco, 2013).

A vacina dá gripe?

A vacina inativada contém vírus inativado ou partes dele e é incapaz de causar influenza. Dor no local da injeção é comum (OMS, 2022). Quadros respiratórios depois da vacina costumam ser causados por outros vírus, e a coincidência no tempo engana.

Tomar a vacina todo ano diminui o efeito dela?

Em algumas temporadas, quem se vacinou nos dois anos teve proteção um pouco menor contra H3N2 e B do que quem se vacinou só no ano atual. Mesmo assim, vacinar na temporada atual protege mais do que deixar de vacinar (Ramsay, 2019).

Por que estudos antigos mostravam a vacina cortando pela metade a mortalidade de idosos?

Pelo viés do vacinado saudável: idosos mais frágeis se vacinavam menos. O efeito aparecia até fora da temporada de influenza, o que mostra que era viés (Fireman, 2009).

Take-home messages

  • A deriva antigênica na HA e na NA obriga a atualizar a vacina e a vacinar todo ano.
  • A OMS recomenda a composição em fevereiro para o norte e em setembro para o sul, com meses de antecedência.
  • Descompasso e adaptação ao ovo reduzem a efetividade, sobretudo contra o H3N2, sem anular a proteção.
  • O benefício absoluto depende do risco basal: é maior em quem tem mais chance de complicação.
  • Vacinar na temporada atual supera ficar sem vacina, qualquer que seja o histórico.
  • Estudos observacionais exigem atenção ao viés do vacinado saudável e ao confundimento por indicação.

Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

  1. World Health Organization. Vaccines against influenza: WHO position paper – May 2022. Wkly Epidemiol Rec. 2022;97(19):185-208. Página da OMS.
  2. Krammer F, Smith GJD, Fouchier RAM, Peiris M, et al. Influenza. Nat Rev Dis Primers. 2018;4(1):3. PMID 29955068. DOI 10.1038/s41572-018-0002-y.
  3. Wu NC, Wilson IA. Influenza Hemagglutinin Structures and Antibody Recognition. Cold Spring Harb Perspect Med. 2020;10(8):a038778. PMID 31871236. DOI 10.1101/cshperspect.a038778.
  4. Hampson A, Barr I, Cox N, Donis RO, et al. Improving the selection and development of influenza vaccine viruses - Report of a WHO informal consultation on improving influenza vaccine virus selection, Hong Kong SAR, China, 18-20 November 2015. Vaccine. 2017;35(8):1104-1109. PMID 28131392. DOI 10.1016/j.vaccine.2017.01.018.
  5. Morris DH, Gostic KM, Pompei S, Bedford T, et al. Predictive Modeling of Influenza Shows the Promise of Applied Evolutionary Biology. Trends Microbiol. 2018;26(2):102-118. PMID 29097090. DOI 10.1016/j.tim.2017.09.004.
  6. Grohskopf LA, Ferdinands JM, Blanton LH, Broder KR, et al. Prevention and Control of Seasonal Influenza with Vaccines: Recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices – United States, 2024–25 Influenza Season. MMWR Recomm Rep. 2024;73(5):1-25. PMID 39197095. DOI 10.15585/mmwr.rr7305a1. Título original com travessão longo, trocado por meia-risca.
  7. Tricco AC, Chit A, Soobiah C, Hallett D, et al. Comparing influenza vaccine efficacy against mismatched and matched strains: a systematic review and meta-analysis. BMC Med. 2013;11:153. PMID 23800265. DOI 10.1186/1741-7015-11-153.
  8. Skowronski DM, Janjua NZ, De Serres G, Sabaiduc S, et al. Low 2012-13 influenza vaccine effectiveness associated with mutation in the egg-adapted H3N2 vaccine strain not antigenic drift in circulating viruses. PLoS One. 2014;9(3):e92153. PMID 24667168. DOI 10.1371/journal.pone.0092153.
  9. Zost SJ, Parkhouse K, Gumina ME, Kim K, et al. Contemporary H3N2 influenza viruses have a glycosylation site that alters binding of antibodies elicited by egg-adapted vaccine strains. Proc Natl Acad Sci U S A. 2017;114(47):12578-12583. PMID 29109276. DOI 10.1073/pnas.1712377114.
  10. Demicheli V, Jefferson T, Ferroni E, Rivetti A, et al. Vaccines for preventing influenza in healthy adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018;2(2):CD001269. PMID 29388196. DOI 10.1002/14651858.CD001269.pub6.
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  12. Ray GT, Lewis N, Klein NP, Daley MF, et al. Intraseason Waning of Influenza Vaccine Effectiveness. Clin Infect Dis. 2019;68(10):1623-1630. PMID 30204855. DOI 10.1093/cid/ciy770.
  13. Ramsay LC, Buchan SA, Stirling RG, Cowling BJ, et al. The impact of repeated vaccination on influenza vaccine effectiveness: a systematic review and meta-analysis. BMC Med. 2019;17(1):9. PMID 30626399. DOI 10.1186/s12916-018-1239-8.
  14. Remschmidt C, Wichmann O, Harder T. Frequency and impact of confounding by indication and healthy vaccinee bias in observational studies assessing influenza vaccine effectiveness: a systematic review. BMC Infect Dis. 2015;15:429. PMID 26474974. DOI 10.1186/s12879-015-1154-y.
  15. Fireman B, Lee J, Lewis N, Bembom O, et al. Influenza vaccination and mortality: differentiating vaccine effects from bias. Am J Epidemiol. 2009;170(5):650-656. PMID 19625341. DOI 10.1093/aje/kwp173.
  16. Gharpure R, Regan AK, Nogareda F, Cheng AC, et al. Effectiveness of 2023 southern hemisphere influenza vaccines against severe influenza-associated illness: pooled estimates from eight countries using the test-negative design. Lancet Glob Health. 2025;13(2):e203-e211. PMID 39890222. DOI 10.1016/S2214-109X(24)00473-X.

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