Saída da prisão: morte por opioides nas primeiras semanas

Sumário
- Por que as primeiras semanas pesam tanto
- O tamanho do risco nas grandes coortes
- A volta para casa contada por quem saiu
- Metadona e buprenorfina na prisão e depois da saída
- Naloxona para levar na saída
- Onde a continuidade se rompe
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Num atendimento fictício, um homem de 34 anos chega ao pronto atendimento numa sexta-feira à noite, trazido por um amigo que o encontrou sonolento e com a respiração lenta no banheiro de uma pensão. Ele saiu da prisão na segunda-feira. Passou dois anos lá dentro sem usar heroína e, no primeiro dia de liberdade, voltou a usar a mesma quantidade de antes. O amigo tinha naloxona no bolso.
A cena resume o que as grandes coortes mostram há mais de uma década: a saída da prisão abre uma janela curta de risco muito alto de morte por intoxicação por opioides. Este texto olha para o tamanho dessa janela, para quem corre mais risco, para o relato de quem saiu e para o que as fontes dizem sobre o tratamento com metadona ou buprenorfina e sobre a naloxona. O reconhecimento da intoxicação está no post sobre a toxíndrome opioide e a decisão da naloxona, e a escolha do fármaco, no post sobre buprenorfina ou metadona.
Principais pontos
- Na metanálise de seis sistemas prisionais, a morte por drogas foi de três a oito vezes mais frequente nas duas primeiras semanas depois da saída do que nas semanas 3 a 12 (Merrall et al., 2010).
- No estado de Washington, a intoxicação por drogas foi a principal causa de morte depois da saída, e os opioides estavam envolvidos em 14,8 por cento de todas as mortes (Binswanger et al., 2013).
- Nas cadeias de Nova York, receber metadona ou buprenorfina nos últimos dias antes da saída se associou a menos mortes por intoxicação no primeiro mês, numa análise observacional (Lim et al., 2023).
- Na Escócia, a proporção de mortes por opioides ocorridas nas quatro semanas depois da saída caiu depois do programa nacional de naloxona, numa comparação de antes e depois sem sorteio (Bird et al., 2016).
- Pessoas egressas entrevistadas em Denver e em Massachusetts citaram a perda de tolerância e a droga de rua mais forte como razões do risco (Binswanger et al., 2012; Michener et al., 2024).
- Por que as primeiras semanas pesam tanto
- O tamanho do risco nas grandes coortes
- A volta para casa contada por quem saiu
- Metadona e buprenorfina na prisão e depois da saída
- Naloxona para levar na saída
- Onde a continuidade se rompe
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
Por que as primeiras semanas pesam tanto
A explicação mais citada é fisiológica. Durante a prisão, o acesso a opioides cai ou some, e a tolerância diminui. Na saída, a pessoa que usa drogas tende a voltar ao padrão de antes, e a mesma quantidade passa a deprimir a respiração de um organismo que já não está adaptado. O mecanismo da depressão respiratória está detalhado no post sobre sedação antes da queda da saturação.
Essa explicação aparece na voz de quem viveu a saída. No estudo qualitativo de Denver, com 29 pessoas egressas entrevistadas, a falta de conhecimento sobre a tolerância mais baixa foi a razão mais citada para as intoxicações depois da saída, ao lado do aumento da potência da droga de rua durante os anos de prisão (Binswanger et al., 2012).
A tolerância, porém, explica só uma parte. Os mesmos participantes descreveram estresse, falta de moradia, perda de vínculos e a droga disponível em toda parte logo nos primeiros dias (Binswanger et al., 2012). Em Massachusetts, as pessoas entrevistadas acrescentaram o suprimento de drogas mais tóxico e o uso sozinho como fatores que pioram o desfecho (Michener et al., 2024).
Como hipótese nossa, sem estudo que a teste diretamente nas fontes lidas, a janela de risco pode ser lida como a soma de dois efeitos que coincidem no tempo: a tolerância perdida e a ruptura do cuidado, quando o tratamento recebido dentro da prisão não continua do lado de fora.
O tamanho do risco nas grandes coortes
Os estudos ligam registros de saída da prisão a registros de óbito. A unidade de análise muda de um estudo para outro, e isso pesa na leitura: alguns contam pessoas, outros contam saídas, e a mesma pessoa pode sair da prisão várias vezes no período.
Washington: a intoxicação como principal causa
O estudo de Washington ligou 192.944 saídas de 76.461 pessoas, entre 1999 e 2009, ao National Death Index dos Estados Unidos; a unidade de análise foram as saídas (Binswanger et al., 2013). A mortalidade geral foi de 737 por 100.000 pessoas-ano, e a intoxicação por drogas foi a principal causa, com 167 mortes por 100.000 pessoas-ano (Binswanger et al., 2013).
Os opioides estiveram envolvidos em 14,8 por cento de todas as mortes (Binswanger et al., 2013). Comparada à população geral do estado, a razão de mortalidade padronizada por intoxicação foi de 10,33 (IC 95 por cento 9,61 a 11,10) (Binswanger et al., 2013). A taxa de mortes por intoxicação foi maior na primeira semana depois da saída do que nas semanas seguintes, o que os autores não observaram para as outras causas de morte.
Os autores apontam limites que valem para a leitura: a ligação entre registros, feita com critérios rígidos, pode ter deixado de encontrar algumas mortes, e a codificação da causa de morte na certidão traz incerteza (Binswanger et al., 2013).

Seis sistemas prisionais na mesma conta
A metanálise de Merrall reuniu seis estudos de seis sistemas prisionais, com pessoas de 18 a 35 anos, somando 69.093 pessoas-ano de acompanhamento; houve 1.033 mortes nas 12 semanas depois da saída, das quais 612 ligadas a drogas (Merrall et al., 2010). A comparação central foi entre as semanas 1 e 2 e as semanas 3 a 12.
A razão de mortes por drogas nas duas primeiras semanas em relação às semanas 3 a 12 variou entre os sistemas prisionais, e os autores relataram heterogeneidade entre países (Merrall et al., 2010):
- Reino Unido: 7,5 (IC 95 por cento 5,7 a 9,9) (Merrall et al., 2010).
- Austrália: 4,0 (IC 95 por cento 3,4 a 4,8) (Merrall et al., 2010).
- Washington: 8,4 (IC 95 por cento 5,0 a 14,2) (Merrall et al., 2010).
- Novo México: 3,1 (IC 95 por cento 1,3 a 7,1) (Merrall et al., 2010).
O risco também caiu de forma gradual. Nas semanas 3 e 4, ainda foi maior do que nas semanas 5 a 12, com razão de 1,7 (IC 95 por cento 1,3 a 2,2) (Merrall et al., 2010). Em síntese nossa, a janela se abre de modo abrupto na saída e se estreita ao longo de semanas, sem fechar de vez.
Suécia e Nova Zelândia: o risco que persiste
A coorte nacional sueca acompanhou 47.326 pessoas egressas por uma mediana de 5,1 anos e registrou 2.874 mortes, com mortalidade de 1.205 por 100.000 pessoas-ano; a unidade de análise foram as pessoas (Chang et al., 2015). O transtorno por uso de drogas se associou a mais mortalidade, com razão de risco ajustada de 1,67 (IC 95 por cento 1,53 a 1,83), e o transtorno por uso de álcool, com 1,62 (1,48 a 1,77) (Chang et al., 2015).
Na estimativa dos autores, os transtornos por uso de substâncias responderam por 34 por cento das mortes de homens e 50 por cento das de mulheres na fração atribuível populacional (Chang et al., 2015). Os mesmos autores ressalvam que a evidência de que um tratamento específico reduza a mortalidade ainda não é conclusiva e que o risco continua além das primeiras semanas.
A coorte nacional da Nova Zelândia acompanhou 90.195 pessoas por uma média de 9,4 anos, com 4.764 mortes, e a mortalidade foi 3,3 vezes a da população geral (IC 95 por cento 3,2 a 3,4) (Cunningham et al., 2022). A razão de mortalidade padronizada por envenenamento por álcool e outras drogas foi de 8,7 (7,7 a 9,8) entre homens e 25,5 (18,7 a 33,9) entre mulheres (Cunningham et al., 2022).
As razões mais altas, para todas as causas, ocorreram no primeiro mês depois da saída, e a de suicídio chegou a 28,8 (IC 95 por cento 23,3 a 35,4) (Cunningham et al., 2022). Ao longo de todo o acompanhamento, as causas mais comuns foram doença cardiovascular, câncer e suicídio. O risco de suicídio nessa janela conversa com o post sobre avaliação do risco de suicídio.
Quem corre mais risco
As mulheres aparecem com risco maior em mais de uma coorte. Em Washington, a razão de risco para morte por intoxicação foi de 1,38 (IC 95 por cento 1,12 a 1,69) para mulheres em relação aos homens (Binswanger et al., 2013). Na Nova Zelândia, a diferença entre os sexos no envenenamento por álcool e outras drogas também foi grande, embora as mulheres fossem só 13 por cento da coorte (Cunningham et al., 2022).
O uso de álcool também pesa. Na Malásia, entre 291 homens com HIV e transtorno por uso de opioides, o uso de álcool se associou a mais mortalidade depois da saída, com razão de risco de 2,0 (IC 95 por cento 1,1 a 3,9) (Bazazi et al., 2022). A soma de depressores aparece também no post sobre gabapentinoides e opioides e no de desmame de benzodiazepínicos.
Os eventos que não matam
A intoxicação que não mata também se concentra no começo. Em Victoria, na Austrália, 400 homens que injetavam drogas antes da prisão foram acompanhados por ligação com dados de ambulância; a unidade de análise foram os eventos, e 47 participantes tiveram 70 eventos não fatais (Curtis et al., 2023). A incidência geral foi de 57 por 1.000 pessoas-ano (IC 95 por cento 45 a 72) e chegou a 587 (306 a 1.129) nos 14 dias depois da saída (Curtis et al., 2023). Como só contaram os eventos atendidos por ambulância, os autores consideram os números subestimados.
A volta para casa contada por quem saiu
Em Denver, 29 pessoas egressas, nove delas mulheres, foram entrevistadas em média 42 dias depois da saída; a unidade de análise foram as entrevistas (Binswanger et al., 2012). Dezesseis delas tinham presenciado ou conheciam alguém que teve intoxicação depois de sair da prisão, e três tinham passado pela experiência (Binswanger et al., 2012).
A maior parte dos participantes conhecia o perigo, e mesmo assim descreveu a volta ao uso como algo difícil de evitar diante do estresse, da falta de moradia e da droga oferecida logo na saída. Entre os fatores de proteção, citaram programas estruturados de tratamento, espiritualidade e recursos da comunidade, como grupos de ajuda mútua (Binswanger et al., 2012).
Massachusetts: "esperado que aconteça"
Em Massachusetts, 38 pessoas com transtorno por uso de opioides que tinham saído de oito cadeias foram entrevistadas; a unidade de análise também foram as entrevistas (Michener et al., 2024). O título vem da ideia, recorrente nas falas, de que a intoxicação depois da saída era esperada.
Os participantes descreveram a mudança de tolerância, um suprimento de drogas mais tóxico e o uso sozinho logo depois de sair, sem nenhum "bloqueador", como os fatores que mais pioravam o risco (Michener et al., 2024). A disponibilidade de materiais de redução de danos, como seringas estéreis e naloxona, apareceu entre os fatores de política que influenciam o desfecho.
A mudança no suprimento descrita pelos participantes conversa com o post sobre xilazina e nitazenos. A forma de nomear quem sai da prisão também pesa: o post sobre estigma e linguagem discute como "pessoa que usa drogas" e "pessoa egressa" mudam a conversa clínica.
Metadona e buprenorfina na prisão e depois da saída
O tratamento com agonista opioide, com metadona ou buprenorfina, é a principal intervenção estudada para essa janela. Os dados vêm de coortes observacionais e de um ensaio com braço de escolha do participante, o que limita a força das conclusões.
Nova York: o primeiro mês
Nas cadeias da cidade de Nova York, o estudo de Lim acompanhou 15.797 adultos com transtorno por uso de opioides em 31.382 encarceramentos, entre 2011 e 2017; a unidade de análise foram os encarceramentos (Lim et al., 2023). A exposição foi receber metadona ou buprenorfina nos três últimos dias antes da saída, o que ocorreu em 17.119 encarceramentos, contra 14.263 sem tratamento; houve 111 mortes por intoxicação.
Nos dias 1 a 28 depois da saída, o tratamento se associou a menor risco de morte por intoxicação, com razão de risco ajustada de 0,20 (IC 95 por cento 0,08 a 0,46), e a menor mortalidade geral, com 0,22 (0,11 a 0,42) (Lim et al., 2023). Nos dias 29 a 56, a associação com a mortalidade geral se manteve, com 0,29 (IC 95 por cento 0,09 a 0,89) (Lim et al., 2023).
Nos dias 57 a 365, o resultado para mortalidade geral foi inconclusivo, com 1,20 (IC 95 por cento 0,85 a 1,70), e os outros intervalos para morte por intoxicação também foram inconclusivos (Lim et al., 2023). Os autores descrevem a análise como exploratória e sem registro prévio. O valor E de 3,8, calculado para o limite do intervalo de confiança, indica quanto um fator de confusão não medido precisaria pesar, associado tanto ao tratamento quanto à morte, para anular o achado (Lim et al., 2023).
Na mesma coorte, o tratamento antes da saída se associou a menos atendimentos de emergência por intoxicação não fatal nos dias 1 a 14, com razão de risco ajustada de 0,49 (IC 95 por cento 0,33 a 0,74) (Cherian et al., 2024). Depois do 14º dia, a associação desapareceu, e os autores lembram que os dados de pronto atendimento deixam de contar parte dos eventos.
Massachusetts: duas cadeias vizinhas
Em Massachusetts, duas cadeias vizinhas formaram um experimento natural: a de Franklin County oferecia buprenorfina antes, e a de Hampshire County passou a oferecer só mais tarde (Evans et al., 2022). Foram 469 pessoas, 197 em Franklin e 272 em Hampshire, e a unidade de análise foram as pessoas.
A reincidência criminal foi menor no grupo de Franklin, com razão de risco ajustada de 0,68 (IC 95 por cento 0,53 a 0,86) (Evans et al., 2022). Cerca de 3 por cento dos participantes morreram em cada cadeia, e o estudo não comparou a mortalidade entre os grupos (Evans et al., 2022).
Malásia: quando o resultado é inconclusivo
Na Malásia, 291 homens com HIV e transtorno por uso de opioides participaram de um ensaio aberto com um braço sorteado e um braço de escolha do participante; a unidade de análise foram as pessoas (Bazazi et al., 2022). Houve 62 mortes em 872,5 pessoas-ano de acompanhamento (Bazazi et al., 2022).
O efeito da metadona iniciada antes da saída sobre a mortalidade foi inconclusivo, com razão de risco de 1,2 (IC 95 por cento 0,5 a 2,8) (Bazazi et al., 2022). A maior parte das mortes foi por causas infecciosas, o que diferencia essa população das coortes norte-americanas e lembra o peso de testar e tratar HIV e hepatite C em quem usa drogas.
Para quem vai começar buprenorfina perto da saída, a técnica de início está no post sobre abstinência precipitada.
Naloxona para levar na saída
A naloxona é o antagonista que reverte a depressão respiratória por opioide. A lógica de entregá-la na saída da prisão parte de uma observação das fontes: a intoxicação costuma acontecer diante de outras pessoas, e mais de três quartos das pessoas que injetam heroína já presenciaram uma (Strang et al., 2013).
O ensaio N-ALIVE
O ensaio N-ALIVE, no Reino Unido, foi desenhado para sortear a entrega de naloxona na saída da prisão e medir as mortes nas quatro semanas seguintes. O artigo de fundamentação descreve um piloto com 5.600 participantes e um ensaio principal previsto com 56.000 (Strang et al., 2013). Segundo o relato escocês, o sorteio foi interrompido em dezembro de 2014, antes do ensaio principal (Bird et al., 2016).

O programa nacional escocês
A Escócia começou um programa nacional de naloxona em 2011, com kits entregues também na saída da prisão. A avaliação comparou o período anterior, de 2006 a 2010, com o posterior, de 2011 a 2013; a unidade de análise foram as mortes por opioides registradas no país (Bird et al., 2016).
Antes do programa, 9,8 por cento das mortes por opioides (193 de 1.970) ocorreram nas quatro semanas depois da saída da prisão; depois, a proporção foi de 6,3 por cento (76 de 1.212) (Bird et al., 2016). A redução foi de 36 por cento (IC 95 por cento 20 a 51), o que corresponde a cerca de 42 mortes a menos (19 a 65), num período em que foram entregues cerca de 12.000 kits (Bird et al., 2016).
O desenho tem limites que os próprios autores reconhecem: a comparação de antes e depois não tem sorteio, e fatores de confusão que mudaram no mesmo período não podem ser excluídos. A naloxona entra no texto como uma medida avaliada em escala nacional, com evidência observacional, e a conduta diante da intoxicação está no post sobre a toxíndrome opioide.
Onde a continuidade se rompe
O tratamento que começa ou continua dentro da prisão só protege se a pessoa encontrar a próxima tomada do lado de fora. Na Colúmbia Britânica, no Canadá, um estudo ligou registros de saúde e de prisões em 13.380 saídas de pessoas com transtorno por uso de opioides, entre 2015 e 2018; a unidade de análise foram as saídas (Palis et al., 2022).
Cerca de 25 por cento das saídas (3.328) terminaram com a dispensação de tratamento agonista opioide em até dois dias (Palis et al., 2022). Entre pessoas com doença mental, o transtorno por uso de estimulantes se associou a menor chance de receber o tratamento, com razão de chances de 0,73 (IC 95 por cento 0,64 a 0,84) (Palis et al., 2022). Sem doença mental, o resultado foi inconclusivo, com 0,89 (IC 95 por cento 0,70 a 1,13) (Palis et al., 2022). Os autores descrevem a análise como exploratória.
A ruptura lembra a de outras transições do cuidado, como a discutida no post sobre a alta hospitalar e a atenção primária, e a da alta a pedido no post sobre endocardite em quem injeta drogas.

Um roteiro de perguntas antes da saída
Como síntese nossa, sem validação como instrumento, cinco perguntas ajudam a organizar a conversa com a pessoa egressa ou com a equipe que prepara a saída, à luz das fontes acima:
- A pessoa estava em tratamento com metadona ou buprenorfina, e onde será a próxima tomada depois da saída (Lim et al., 2023; Palis et al., 2022)?
- Ela sabe que a tolerância caiu durante a prisão (Binswanger et al., 2012)?
- Ela sai com naloxona, e alguém próximo sabe usar (Bird et al., 2016)?
- Há uso de álcool ou de outros depressores junto com o opioide (Bazazi et al., 2022)?
- Há sinais de risco de suicídio, que também se concentra no primeiro mês (Cunningham et al., 2022)?
O roteiro segue a lógica da redução de danos: parte de onde a pessoa está, inclusive quando ela pretende voltar a usar.
Estudos em resumo
| Estudo | Desenho, amostra e unidade | Achado principal |
|---|---|---|
| Binswanger 2013 | Coorte, Washington, 192.944 saídas de 76.461 pessoas; unidade saída | SMR por intoxicação 10,33 (Binswanger et al., 2013) |
| Merrall 2010 | Metanálise, 6 sistemas prisionais, 69.093 pessoas-ano | Semanas 1 e 2 contra 3 a 12: 3,1 a 8,4 (Merrall et al., 2010) |
| Chang 2015 | Coorte nacional, Suécia, 47.326 pessoas; unidade pessoa | Drogas aHR 1,67 (Chang et al., 2015) |
| Cunningham 2022 | Coorte nacional, Nova Zelândia, 90.195 pessoas; unidade pessoa | SMR geral 3,3 (Cunningham et al., 2022) |
| Lim 2023 | Coorte, cadeias de Nova York, 31.382 encarceramentos; unidade encarceramento | Dias 1 a 28: aHR 0,20 (Lim et al., 2023) |
| Cherian 2024 | Mesma coorte de Nova York; unidade encarceramento | Dias 1 a 14: aHR 0,49 (Cherian et al., 2024) |
| Evans 2022 | Experimento natural, 2 cadeias, 469 pessoas; unidade pessoa | Reincidência aHR 0,68 (Evans et al., 2022) |
| Bird 2016 | Antes e depois, Escócia, mortes por opioides; unidade morte | Redução de 36 por cento (Bird et al., 2016) |
| Strang 2013 | Fundamentação de ensaio, piloto com 5.600 | Intoxicação costuma ter testemunha (Strang et al., 2013) |
| Bazazi 2022 | Ensaio aberto, Malásia, 291 homens; unidade pessoa | HR 1,2, inconclusivo (Bazazi et al., 2022) |
| Palis 2022 | Coorte, Colúmbia Britânica, 13.380 saídas; unidade saída | Tratamento em 2 dias em cerca de 25 por cento (Palis et al., 2022) |
| Binswanger 2012 | Qualitativo, Denver, 29 participantes; unidade entrevista | Tolerância perdida como razão mais citada (Binswanger et al., 2012) |
| Michener 2024 | Qualitativo, Massachusetts, 38 participantes; unidade entrevista | Uso sozinho e droga mais tóxica (Michener et al., 2024) |
| Curtis 2023 | Coorte com ligação de dados, Victoria, 400 homens; unidade evento | 587 por 1.000 pessoas-ano nos 14 dias (Curtis et al., 2023) |
Fontes: Binswanger et al., 2013; Merrall et al., 2010; Chang et al., 2015; Cunningham et al., 2022; Lim et al., 2023; Cherian et al., 2024; Evans et al., 2022; Bird et al., 2016; Strang et al., 2013; Bazazi et al., 2022; Palis et al., 2022; Binswanger et al., 2012; Michener et al., 2024; Curtis et al., 2023.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Uma pista pode trazer "homem sonolento, com respiração lenta e pupilas puntiformes"; outra, "saiu da prisão há quatro dias". O retorno de proximidade em cinco níveis ajuda a separar intoxicação por opioides, efeito somado de outros depressores e causas estruturais de rebaixamento, sem transformar o treino em protocolo. O exercício útil é perguntar, a cada pista, o que a data da saída acrescenta à história.
Perguntas frequentes
Por que o risco é tão alto logo depois da saída?
Na coorte de Washington, a taxa de mortes por intoxicação foi maior na primeira semana do que nas semanas seguintes (Binswanger et al., 2013). Pessoas egressas entrevistadas em Denver citaram a tolerância mais baixa depois do período sem acesso às drogas e a droga de rua mais potente (Binswanger et al., 2012).
Por quanto tempo dura esse risco aumentado?
Na metanálise de Merrall, a morte por drogas foi mais frequente nas semanas 1 e 2 do que nas semanas 3 a 12, e nas semanas 3 e 4 ainda foi maior do que nas semanas 5 a 12 (Merrall et al., 2010). Na Suécia, os autores observaram que o risco persiste além das primeiras semanas (Chang et al., 2015).
O tratamento com metadona ou buprenorfina na prisão reduz as mortes depois da saída?
Nas cadeias de Nova York, o tratamento nos últimos dias antes da saída se associou a menos mortes por intoxicação nos primeiros 28 dias, numa análise observacional e exploratória (Lim et al., 2023). Na Malásia, entre homens com HIV, o efeito da metadona antes da saída sobre a mortalidade foi inconclusivo (Bazazi et al., 2022).
A naloxona entregue na saída funciona?
Na Escócia, a proporção de mortes por opioides nas quatro semanas depois da saída caiu depois do programa nacional de naloxona, numa comparação de antes e depois em que fatores de confusão não podem ser excluídos (Bird et al., 2016).
Quem corre mais risco?
Em Washington, as mulheres tiveram risco maior de morte por intoxicação do que os homens (Binswanger et al., 2013). Na Malásia, o uso de álcool se associou a mais mortalidade depois da saída (Bazazi et al., 2022).
Take-home messages
- Nos seis sistemas prisionais da metanálise, a morte por drogas foi mais frequente nas duas primeiras semanas depois da saída do que nas semanas 3 a 12 (Merrall et al., 2010).
- Em Washington, a intoxicação por drogas foi a principal causa de morte depois da saída da prisão (Binswanger et al., 2013).
- Nas cadeias de Nova York, o tratamento com metadona ou buprenorfina antes da saída se associou a menos mortes no primeiro mês, num estudo observacional (Lim et al., 2023).
- Na Escócia, a proporção de mortes por opioides logo depois da saída caiu depois do programa nacional de naloxona, sem sorteio (Bird et al., 2016).
- Na Colúmbia Britânica, só cerca de um quarto das saídas terminou com tratamento agonista opioide em até dois dias (Palis et al., 2022).
Referências
- Binswanger IA, Blatchford PJ, Mueller SR, Stern MF. Mortality after prison release: opioid overdose and other causes of death, risk factors, and time trends from 1999 to 2009. Ann Intern Med. 2013;159(9):592-600. PMID: 24189594. PMC: PMC5242316.
- Merrall EL, Kariminia A, Binswanger IA, et al. Meta-analysis of drug-related deaths soon after release from prison. Addiction. 2010;105(9):1545-54. PMID: 20579009. PMC: PMC2955973.
- Chang Z, Lichtenstein P, Larsson H, Fazel S. Substance use disorders, psychiatric disorders, and mortality after release from prison: a nationwide longitudinal cohort study. Lancet Psychiatry. 2015;2(5):422-430. PMID: 26360286. PMC: PMC4579558.
- Cunningham R, King PT, Telfer K, et al. Mortality after release from incarceration in New Zealand by gender: A national record linkage study. SSM Popul Health. 2022;20:101274. PMID: 36353095. PMC: PMC9638823.
- Lim S, Cherian T, Katyal M, et al. Association between jail-based methadone or buprenorphine treatment for opioid use disorder and overdose mortality after release from New York City jails 2011-17. Addiction. 2023;118(3):459-467. PMID: 36305669. PMC: PMC9898114.
- Cherian T, Lim S, Katyal M, et al. Impact of jail-based methadone or buprenorphine treatment on non-fatal opioid overdose after incarceration. Drug Alcohol Depend. 2024;259:111274. PMID: 38643529. PMC: PMC11111329.
- Evans EA, Wilson D, Friedmann PD. Recidivism and mortality after in-jail buprenorphine treatment for opioid use disorder. Drug Alcohol Depend. 2022;231:109254. PMID: 35063323. PMC: PMC8852331.
- Bird SM, McAuley A, Perry S, Hunter C. Effectiveness of Scotland's National Naloxone Programme for reducing opioid-related deaths: a before (2006-10) versus after (2011-13) comparison. Addiction. 2016;111(5):883-91. PMID: 26642424. PMC: PMC4982071.
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