Golpe de calor por esforço: resfriar antes de transportar

Sumário
- O espectro da doença do calor por esforço
- Quem está em risco
- Reconhecer em campo: sistema nervoso central e temperatura retal
- Resfriar primeiro, transportar depois
- O cuidado no hospital e as complicações
- Retorno à atividade
- Prevenção: aclimatação, políticas e equipe no local
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Um corredor de 24 anos desaba a 500 metros da chegada de uma prova de 10 quilômetros, numa manhã quente e úmida. Ele está de olhos abertos, mas confuso, não sabe dizer onde está e tenta se levantar sem coordenação. A pele está quente e ainda suada. Alguém sugere chamar a ambulância e levá-lo logo ao hospital mais próximo, a 20 minutos dali. O caso é fictício, e a cena acontece em corridas, treinos de futebol americano e marchas militares todo verão.
A decisão certa, segundo as entidades internacionais de medicina do esporte, é a contrária do instinto: medir a temperatura retal, colocar o corredor numa banheira de água gelada ali mesmo e só transportar depois que a temperatura cair (Roberts, 2023). O golpe de calor por esforço é uma das poucas emergências em que o tratamento definitivo acontece antes da ambulância, e em que o tempo até o resfriamento decide quem sobrevive sem sequelas.
Este texto percorre o espectro da doença do calor por esforço, os fatores de risco, o reconhecimento em campo, o resfriamento no local, o cuidado no hospital, o retorno à atividade e a prevenção.
Principais pontos
- O golpe de calor por esforço é definido por alteração do sistema nervoso central com hipertermia, em geral acima de 40 °C de temperatura retal (Roberts, 2023).
- A temperatura retal é a medida válida em campo; temperatura oral, timpânica e axilar subestimam a temperatura central depois do exercício (Casa, 2015).
- A imersão em água gelada é o método preferido de resfriamento, e taxas acima de 0,15 °C por minuto são as desejáveis (Roberts, 2023).
- Numa revisão com 521 pacientes, nenhum paciente morreu quando o tratamento incluiu um método com taxa de resfriamento adequada (Filep, 2020).
- O COI recomenda resfriar no local até a temperatura retal ficar abaixo de 39 °C, e só então transportar (Hosokawa, 2021).
- O retorno é feito em etapas, e a competição plena costuma vir de 2 a 4 semanas depois de o atleta demonstrar tolerância ao calor (Roberts, 2023).
Sumário
- O espectro da doença do calor por esforço
- Quem está em risco
- Reconhecer em campo: sistema nervoso central e temperatura retal
- Resfriar primeiro, transportar depois
- O cuidado no hospital e as complicações
- Retorno à atividade
- Prevenção: aclimatação, políticas e equipe no local
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
O espectro da doença do calor por esforço
O consenso do American College of Sports Medicine de 2023 substituiu o documento de 2007 e organizou a doença do calor por esforço em três quadros principais (Roberts, 2023). A exaustão pelo calor é a incapacidade de continuar o exercício, com cansaço, tontura e mal-estar, sem disfunção importante do sistema nervoso central; a maioria dos atletas volta à atividade em 1 a 2 dias depois de resfriar e repor líquidos. A lesão pelo calor por esforço traz dano de órgão, como fígado, rim ou músculo, sem a alteração neurológica marcante. O golpe de calor por esforço é a forma grave, com disfunção do sistema nervoso central e hipertermia.
A diferença em relação ao golpe de calor clássico é a origem do calor. No clássico, o idoso ou o doente crônico esquenta durante uma onda de calor, e o quadro se instala em horas ou dias, como mostra o post sobre o espectro da doença pelo calor. No golpe por esforço, o calor vem sobretudo do próprio músculo, em pessoas jovens e saudáveis, e pode surgir em menos de uma hora, mesmo em dias que não parecem extremos.
Quadros que confundem
A posição da National Athletic Trainers' Association lembra que a doença do calor inclui outros quadros, como a síncope pelo calor e as cãibras associadas ao exercício (Casa, 2015). A síncope pelo calor costuma aparecer nos primeiros 5 dias de aclimatação, antes de o volume de sangue aumentar, e vem com temperatura retal normal para o exercício. O consenso do ACSM acrescenta que o colapso logo depois da linha de chegada costuma ser hipotensão postural, pela parada súbita da bomba muscular das pernas, e resolve em menos de 30 minutos com pernas elevadas e repouso (Roberts, 2023).
Outras causas de colapso precisam entrar no raciocínio, e colocá-las lado a lado ajuda a não fechar cedo demais: hiponatremia associada ao exercício, colapso associado ao traço falciforme, hipoglicemia e parada cardíaca. O COI lembra a regra geral de triagem: parada cardíaca vem antes do golpe de calor na ordem de prioridade (Hosokawa, 2021).
| Quadro | Sistema nervoso central | Temperatura retal típica | Conduta inicial |
|---|---|---|---|
| Colapso postural depois da chegada | Normal ou tontura breve | Compatível com o exercício | Deitar, elevar as pernas, observar |
| Síncope pelo calor | Desmaio breve, recupera rápido | Normal para o exercício | Sombra, repouso, líquidos |
| Exaustão pelo calor | Preservado, sem disfunção importante | Elevada, em geral abaixo de 40 °C | Parar, resfriar, repor líquidos |
| Golpe de calor por esforço | Confusão, agitação, convulsão ou coma | Em geral acima de 40 °C | Imersão em água gelada no local |
| Fontes | Roberts, 2023; Casa, 2015 |
Quem está em risco
O golpe de calor por esforço acontece em quase todos os esportes. O consenso do ACSM cita taxas mais altas no futebol americano universitário e em provas de corrida, e lembra que militares e trabalhadores expostos ao calor têm as taxas mais altas de todas (Roberts, 2023). A revisão de Périard reforça que o esporte competitivo e o treinamento militar são os dois cenários clássicos, e que o militar tem vigilância melhor, com definições padronizadas e notificação obrigatória (Périard, 2022).
Os fatores de risco mais comuns em atletas são baixa aptidão física, falta de aclimatação ao calor, obesidade e ondas de calor ou dias inesperadamente quentes (Roberts, 2023). O consenso destaca um fator menos óbvio: a pressão externa para render acima do nível de aclimatação ou de condicionamento. Atletas muito motivados ignoram os sinais do próprio corpo, como lembra a NATA (Casa, 2015).
Fatores individuais
A revisão de Garcia lista desidratação, diferenças entre os sexos, idade, composição corporal e doença recente como fatores que parecem aumentar o risco, embora a pesquisa ainda seja limitada (Garcia, 2022). Infecção viral nos dias anteriores, privação de sono e alguns medicamentos e suplementos estimulantes também entram na história.
Os dados sobre sexo são poucos e contraditórios. Numa revisão sistemática de estudos militares, a incidência de golpe de calor foi de 0,10 a 0,26 por 1000 pessoas por ano em mulheres e de 0,22 a 0,48 em homens, mas as outras doenças do calor foram mais frequentes nas mulheres (Alele, 2020). Os autores concluem que a evidência limitada sugere risco maior de doença do calor por esforço nas mulheres, com muitos fatores de confusão.
O que acontece no corpo
Durante o exercício intenso no calor, o sangue é desviado para a pele e para o músculo, e o fluxo para o intestino e para o rim cai. A revisão de Garcia descreve a hipótese do intestino permeável: a isquemia intestinal deixa passar toxinas bacterianas para a circulação, o que dispara inflamação sistêmica e distúrbios de coagulação (Garcia, 2022). Quanto mais tempo o corpo passa acima de cerca de 41 °C, maior o risco de dano de órgão e de morte (Casa, 2015).
Reconhecer em campo: sistema nervoso central e temperatura retal
A pista principal é a mudança de comportamento. Confusão, desorientação, agressividade, fala arrastada, perda de coordenação, convulsão e coma são sinais de disfunção do sistema nervoso central, e qualquer um deles num atleta que se exercitava no calor deve levantar a hipótese de golpe de calor (Roberts, 2023). A pele pode continuar suada, e esperar pele seca para pensar em golpe de calor é um erro comum.
O ACSM recomenda medir a temperatura retal no local em todo atleta inconsciente com respiração espontânea e em todo atleta consciente com alteração neurológica (Roberts, 2023). A medida retal é a melhor estimativa da temperatura central em campo. A NATA é explícita: temperatura oral, timpânica, axilar e da testa são imprecisas depois do exercício e podem dar uma falsa sensação de segurança (Casa, 2015).
Quando não dá para medir
Quando a temperatura retal não pode ser medida na hora, o resfriamento tem prioridade (Roberts, 2023). A equipe avalia o contexto do colapso, os sinais vitais e o estado neurológico e trata como golpe de calor, porque atrasar o resfriamento para conseguir um termômetro custa mais do que resfriar um atleta que não precisava. A temperatura será necessária depois, para saber quando parar.
Outro detalhe evita erros. O paciente pode chegar ao hospital com temperatura retal abaixo de 40 °C porque foi resfriado no caminho, e isso não afasta o diagnóstico (Roberts, 2023). Raciocinar pela probabilidade pré-teste ajuda: num atleta confuso que desabou no calor, um termômetro normal na emergência tem pouco poder de afastar o quadro.
Resfriar primeiro, transportar depois
O princípio que dá nome a este texto resume as recomendações. A NATA orienta que, havendo médico no local, o atleta seja resfriado ali, sem interromper a imersão para transportar; sem médico, o resfriamento agressivo começa no local e continua durante o transporte e no hospital (Casa, 2015). O COI recomenda resfriar no local até a temperatura retal ficar abaixo de 39 °C e só então encaminhar (Hosokawa, 2021).
A lógica é a mesma de outras emergências tempo-dependentes. O consenso do ACSM compara o golpe de calor à parada cardíaca, ao AVC e à sepse: tempo é tecido (Roberts, 2023). A diferença é que o tratamento eficaz, a água gelada, cabe numa banheira à beira da pista.
A imersão em água gelada
A imersão em água gelada é o método preferido de resfriamento em qualquer condição, quando disponível (Roberts, 2023). O corpo fica imerso até o pescoço, com braços e pernas dentro, a água é agitada e o gelo é reposto para manter a temperatura baixa, enquanto alguém segura a cabeça e protege a via aérea. As taxas descritas vão de 0,13 a 0,35 °C por minuto.

Os resultados explicam a ênfase. Na corrida de Falmouth, de 11,4 quilômetros, 274 corredores seguidos, de 11 a 70 anos, foram reconhecidos e resfriados no local com imersão em água gelada, sem nenhuma morte e com poucas internações (Roberts, 2023). A NATA cita 252 militares com golpe de calor tratados com imersão em água fria, também sem mortes (Casa, 2015). O COI relata que, em medicina de provas, cerca de 93 de cada 100 pacientes resfriados por imersão nos primeiros 30 minutos receberam alta para casa no mesmo dia (Hosokawa, 2021).
A taxa de resfriamento
A revisão sistemática de Filep reuniu 32 relatos com 521 pacientes atendidos com golpe de calor por esforço. Sobreviveram 498, e 23 morreram de complicações (Filep, 2020). Nenhum paciente morreu quando o tratamento incluiu um método com taxa adequada de resfriamento, e os sobreviventes resfriados de forma insuficiente tiveram risco 4,57 vezes maior de complicações. Os autores defendem taxas acima de 0,15 °C por minuto, em linha com o ACSM, que considera aceitáveis taxas acima de 0,08 e desejáveis as acima de 0,15 (Roberts, 2023).
| Método | Taxa aproximada de resfriamento | Quando usar |
|---|---|---|
| Imersão em água gelada ou fria, com agitação | 0,13 a 0,35 °C por minuto | Preferido sempre que disponível |
| Imersão com lona, segurada pela equipe, com água e gelo | 0,14 a 0,17 °C por minuto | Na falta de banheira, com água e gelo à mão |
| Toalhas encharcadas em água gelada, trocadas em rodízio, com bolsas de gelo | 0,11 a 0,16 °C por minuto | Durante o transporte ou sem imersão |
| Fontes | Roberts, 2023; Filep, 2020 |
Quando a imersão não está disponível
Na falta de banheira, há alternativas. A imersão com lona, em que a equipe segura as bordas de uma lona com o atleta, água e gelo no meio, resfria de 0,14 a 0,17 °C por minuto (Roberts, 2023). Toalhas encharcadas em água gelada, torcidas e trocadas rapidamente sobre tronco, membros e cabeça, com bolsas de gelo no pescoço, nas axilas e na virilha, molhar o corpo repetidamente ou borrifar água fria continuamente também baixam a temperatura, mais devagar.

Quando parar de resfriar
Medir a temperatura repetidamente interrompe o resfriamento, e o ACSM aceita que, sem termômetro retal contínuo, a equipe mantenha a imersão até o atleta recuperar o estado neurológico normal, a frequência cardíaca e a pressão (Roberts, 2023). O medo de resfriar demais costuma atrasar o tratamento sem motivo: a maioria dos atletas "resfriados demais" fica entre 35 e 36 °C, faixa que não se associa a efeitos adversos conhecidos. O COI orienta voltar à água se a temperatura subir de novo (Hosokawa, 2021).
Por que a intuição atrapalha
Chamar a ambulância e transportar parece a atitude mais responsável. Essa escolha é um exemplo de como uma heurística que costuma ajudar, levar o paciente grave ao hospital, falha num cenário específico. O mesmo raciocínio aparece no post sobre calor extremo, em resfriar primeiro e investigar depois.
O cuidado no hospital e as complicações
Quando o atleta chega à emergência, a prioridade continua sendo a temperatura. A revisão de Rublee sobre manejo na emergência identificou três temas: reconhecimento, resfriamento rápido e suporte, e propôs um fluxo para que o hospital trate o golpe de calor como as outras condições tempo-dependentes, com alerta e equipe preparada (Rublee, 2021).
O suporte inclui via aérea, acesso venoso, glicemia, eletrólitos e monitorização. O COI lembra de checar hipoglicemia no atleta inconsciente e de tratar as causas que competem com o golpe de calor (Hosokawa, 2021). As complicações que mais preocupam são lesão renal aguda, rabdomiólise, lesão hepática, coagulação intravascular disseminada e lesão neurológica.
O que os exames mostram nos dias seguintes
Os exames mudam com o tempo. Numa análise de 2529 episódios de golpe de calor por esforço em militares americanos, os marcadores de lesão muscular e de função hepática atingiram o pico entre 0 e 4 dias depois da lesão e ficaram fora da faixa de referência por 2 a 16 dias (Ward, 2020). Uma enzima hepática normal na primeira hora tem pouco valor para afastar dano: o fígado pode piorar no segundo e no terceiro dia.
Seguir esses marcadores ao longo dos dias é usar o tempo como teste diagnóstico. A alta exige um plano claro de retorno e sinais de alerta, como mostra o post sobre rede de segurança.
Retorno à atividade
O retorno é a parte com menos evidência. O consenso de 2023 reconhece que a compreensão da recuperação é incompleta, que os dados para guiar a volta são limitados e que a recuperação é muito variável entre as pessoas (Roberts, 2023). A maioria das diretrizes exige que os sintomas tenham desaparecido em repouso e que os exames de fígado e rim estejam normais antes de reintroduzir o exercício.
O consenso propõe um retorno em etapas. O atleta começa com exercício leve em ambiente fresco, avança se não houver intolerância ou cansaço anormal e, quando tolera bem, inicia um plano de aclimatação, aumentando a cada dia duração, intensidade e exposição ao calor ao longo de 2 a 4 semanas (Roberts, 2023). A competição plena pode ser liberada de 2 a 4 semanas depois de o atleta demonstrar aclimatação e tolerância ao calor no esporte específico, sem sintomas nem exames alterados. Cada etapa é individual e pode levar até duas semanas.
O teste de tolerância ao calor
Quando o atleta não consegue avançar nas etapas intermediárias, ou teve episódios repetidos, o consenso sugere avaliação adicional, que pode incluir um teste de tolerância ao calor em laboratório (Roberts, 2023). O teste tem limites: o grau de aclimatação prévia muda o resultado e confunde a interpretação individual.
| Etapa | O que acontece | Critério para avançar |
|---|---|---|
| Recuperação | Repouso, sem exercício, com seguimento clínico e laboratorial | Sintomas resolvidos e exames de fígado e rim normais |
| Exercício em ambiente fresco | Atividade leve, com aumento gradual de duração e intensidade | Tolerância ao exercício, sem cansaço anormal |
| Aclimatação ao calor | Aumento diário de duração, intensidade e exposição ao calor, em 2 a 4 semanas | Tolerância ao calor no esporte específico |
| Competição plena | Treino e competição sem restrição | Ausência de sintomas e exames normais no período |
| Fonte | Roberts, 2023 |
Decidir com o atleta
O retorno envolve treinador, família e, no militar, a cadeia de comando. Explicar por que a volta é gradual e combinar o que interrompe o plano faz parte da decisão compartilhada. O atleta que se sente bem quer voltar logo, e a conversa sobre o risco de um segundo episódio precisa acontecer antes do primeiro treino.
Prevenção: aclimatação, políticas e equipe no local
A maior parte das doenças do calor por esforço pode ser prevenida (Roberts, 2023). A aclimatação ao calor, com exposição gradual ao longo de 1 a 2 semanas, induz a maior parte das adaptações fisiológicas que protegem o atleta. Organizadores devem ajustar treino e competição ao índice de estresse térmico do ambiente, ao grau de aclimatação e de aptidão dos participantes, ao horário, ao uniforme e ao tipo de piso.
As políticas funcionam. Num estudo com dados de 48 estados americanos, os anos em que a federação estadual de futebol americano escolar obrigava diretrizes de aclimatação na pré-temporada tiveram taxas de doença do calor 55 de cada 100 menores do que os anos sem a regra (Kerr, 2019). Périard descreve estratégias semelhantes no meio militar, como relação obrigatória entre trabalho e descanso, hidratação e políticas específicas por tarefa (Périard, 2022).
A cadeia de sobrevivência
O consenso do ACSM descreve uma cadeia de sobrevivência com quatro elos: manejo antes do hospital, serviço de emergência, cuidado avançado no hospital e orientação do retorno à atividade (Roberts, 2023). O COI pede que provas em ambiente quente tenham plano de ação de emergência, termômetro retal, banheiras de imersão e equipe treinada no local (Hosokawa, 2021). Sem esses recursos, o "resfriar primeiro" fica impossível.
Voltando ao corredor
O corredor confuso a 500 metros da chegada tem um golpe de calor por esforço até prova em contrário. A equipe mede a temperatura retal, coloca-o na banheira de gelo da tenda médica e espera a temperatura cair abaixo de 39 °C antes de qualquer transporte. A avaliação do caso também precisa considerar hiponatremia e hipoglicemia, que podem coexistir.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Separar o golpe de calor por esforço de uma síncope pelo calor, de uma hiponatremia ou de uma parada cardíaca é o tipo de raciocínio que se treina pista a pista. O post sobre síncope no pronto-socorro ajuda a separar o desmaio benigno do grave.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
Golpe de calor por esforço só acontece em dias muito quentes?
O risco aumenta com calor e umidade, mas o quadro pode surgir em dias moderados, porque a maior parte do calor vem do próprio músculo durante o exercício intenso (Roberts, 2023).
A pele seca é necessária para o diagnóstico?
A pele seca é dispensável. No golpe de calor por esforço o atleta costuma continuar suado, e o que define o quadro é a alteração neurológica com hipertermia (Roberts, 2023).
Termômetro de ouvido ou de testa serve?
Esses termômetros são inadequados no atleta. A temperatura oral, timpânica, axilar e da testa são imprecisas depois do exercício; a retal é a medida recomendada (Casa, 2015).
Por que resfriar antes de levar ao hospital?
O risco de dano de órgão e de morte cresce com o tempo acima de cerca de 41 °C (Casa, 2015), e o resfriamento por imersão nos primeiros 30 minutos se associa a sobrevida de todos os casos descritos em provas (Hosokawa, 2021).
O que muda quando o atleta chega ao hospital?
O resfriamento continua sendo a prioridade, junto com suporte e busca de complicações, e o hospital deve tratar o golpe de calor como as outras condições tempo-dependentes (Rublee, 2021).
E se não houver banheira?
Uma lona segurada pela equipe com água e gelo, ou toalhas geladas trocadas em rodízio com bolsas de gelo, baixam a temperatura, mais devagar que a imersão (Roberts, 2023).
Quando o atleta pode voltar a competir?
Depois de exames normais e de um retorno em etapas, a competição plena costuma vir de 2 a 4 semanas depois de o atleta demonstrar aclimatação e tolerância ao calor (Roberts, 2023).
Take-home messages
- Atleta com alteração neurológica durante exercício no calor tem golpe de calor por esforço até prova em contrário.
- A temperatura retal é a medida válida em campo; oral, timpânica, axilar e da testa enganam.
- A imersão em água gelada no local é o tratamento preferido, com meta de taxa acima de 0,15 °C por minuto.
- Resfriar até menos de 39 °C antes do transporte; sem termômetro, resfriar mesmo assim.
- Exames de fígado e músculo podem piorar nos dias seguintes e pedem seguimento.
- O retorno é gradual, com aclimatação de 2 a 4 semanas antes da competição plena.
- Aclimatação, políticas de pré-temporada e equipe com banheira no local previnem casos e mortes.
Jogue o caso do dia no NEXO.
Referências
- Roberts WO, Armstrong LE, Sawka MN, et al. ACSM Expert Consensus Statement on Exertional Heat Illness: Recognition, Management, and Return to Activity. Curr Sports Med Rep. 2023;22(4):134-149. PMID 37036463. DOI 10.1249/JSR.0000000000001058.
- Casa DJ, DeMartini JK, Bergeron MF, et al. National Athletic Trainers' Association Position Statement: Exertional Heat Illnesses. J Athl Train. 2015;50(9):986-1000. PMID 26381473. DOI 10.4085/1062-6050-50.9.07.
- Hosokawa Y, Racinais S, Akama T, et al. Prehospital management of exertional heat stroke at sports competitions: International Olympic Committee Adverse Weather Impact Expert Working Group for the Olympic Games Tokyo 2020. Br J Sports Med. 2021;55(24):1405-1410. PMID 33888465. DOI 10.1136/bjsports-2020-103854.
- Filep EM, Murata Y, Endres BD, et al. Exertional Heat Stroke, Modality Cooling Rate, and Survival Outcomes: A Systematic Review. Medicina (Kaunas). 2020;56(11):589. PMID 33167534. DOI 10.3390/medicina56110589.
- Garcia CK, Renteria LI, Leite-Santos G, et al. Exertional heat stroke: pathophysiology and risk factors. BMJ Med. 2022;1(1):e000239. PMID 36936589. DOI 10.1136/bmjmed-2022-000239.
- Périard JD, DeGroot D, Jay O. Exertional heat stroke in sport and the military: epidemiology and mitigation. Exp Physiol. 2022;107(10):1111-1121. PMID 36039024. DOI 10.1113/EP090686.
- Alele F, Malau-Aduli B, Malau-Aduli A, et al. Systematic review of gender differences in the epidemiology and risk factors of exertional heat illness and heat tolerance in the armed forces. BMJ Open. 2020;10(4):e031825. PMID 32265238. DOI 10.1136/bmjopen-2019-031825.
- Rublee C, Dresser C, Giudice C, et al. Evidence-Based Heatstroke Management in the Emergency Department. West J Emerg Med. 2021;22(2):186-195. PMID 33856299. DOI 10.5811/westjem.2020.11.49007.
- Ward MD, King MA, Gabrial C, et al. Biochemical recovery from exertional heat stroke follows a 16-day time course. PLoS One. 2020;15(3):e0229616. PMID 32130237. DOI 10.1371/journal.pone.0229616.
- Kerr ZY, Register-Mihalik JK, Pryor RR, et al. The Association between Mandated Preseason Heat Acclimatization Guidelines and Exertional Heat Illness during Preseason High School American Football Practices. Environ Health Perspect. 2019;127(4):47003. PMID 30969138. DOI 10.1289/EHP4163.


