
Trabalhar doente: o presenteísmo do médico

Sumário
- O que é presenteísmo por doença
- O que médicos brasileiros relataram
- Cultura oculta no treinamento
- COVID-19: presenteísmo medido no dia a dia
- O que as revisões conseguem (e não conseguem) afirmar
- Cinco sinais para ficar em casa (síntese nossa)
- O que muda no raciocínio do plantão
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Num plantão fictício de emergência, um residente acorda com febre baixa, mialgia e tosse seca. Hesita: se faltar, o colega herda a sobrecarga; se for, pode espalhar vírus a pacientes frágeis e a uma equipe já curta. Decide ir "só até o meio-dia". Às 11 horas tosse no posto e atende uma idosa com DPOC. Ninguém mede a temperatura dele. O caso não é raro: a literatura chama isso de presenteísmo por doença, e o custo não aparece no ponto eletrônico.
Este texto reúne o que estudos e revisões mediram sobre médicos e outros profissionais de saúde que trabalham doentes: prevalência, motivos, risco de contágio e o que a formação reforça. Em cada trecho, o texto informa o desenho e o tamanho da amostra e separa o que foi medido do que é inferência nossa. O tema vizinho da privação de sono no plantão trata fadiga; aqui o eixo é doença ativa e a decisão de ficar ou sair.
Principais pontos
- Em Juiz de Fora, 82,8 por cento de 309 médicos relataram já ter praticado presenteísmo; 57,6 por cento adoeceram no trabalho e 35 por cento se afastaram (Oliveira et al., 2022).
- Em treinamento nos EUA, 60 por cento sentiam obrigação de trabalhar doentes e 33 por cento com sintomas gripais; residentes e estudantes mais que docentes (Kaldjian et al., 2019).
- Entre 255 profissionais com COVID-19 sintomática, 49,8 por cento trabalharam com sintomas (Linsenmeyer et al., 2023).
- A revisão sistemática de Lui e colegas reteve 24 estudos e concluiu que a heterogeneidade não permite evidência conclusiva sobre exposições, custos ou intervenções (Lui et al., 2018).
- Motivos recorrentes: não sobrecarregar colegas, senso de dever e sintomas "leves"; a cultura oculta do plantão reforça a ida (Kaldjian et al., 2019; Widera et al., 2010).
- O que é presenteísmo por doença
- O que médicos brasileiros relataram
- Cultura oculta no treinamento
- COVID-19: presenteísmo medido no dia a dia
- O que as revisões conseguem (e não conseguem) afirmar
- Cinco sinais para ficar em casa (síntese nossa)
- O que muda no raciocínio do plantão
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
O que é presenteísmo por doença
Presenteísmo, neste artigo, é trabalhar apesar de doença que reduz desempenho ou eleva risco a terceiros. Não se confunde com horário extra nem com "estar presente" no sentido de engajamento. A distinção importa porque o médico doente pode transmitir infecção, errar sob febre e atrasar a própria recuperação (Widera et al., 2010).
Presenteísmo de doença versus de produtividade
Parte da literatura organizacional mede perda de produtividade com escalas, sem exigir infecção contagiosa. A revisão de Lui separou exposições e desfechos em médicos e enfermeiros hospitalares e mostrou que as definições variam entre estudos (Lui et al., 2018). Para a beira do leito, a pergunta prática é outra: há febre, vômito, diarreia ou sintomas respiratórios que deveriam afastar o profissional hoje?
Por que o tema é de segurança do paciente
Surtos ligados a profissionais doentes estão documentados para influenza, norovírus e outros agentes (Widera et al., 2010). O presenteísmo deixa de ser só bem-estar do médico e vira item de segurança do paciente, no mesmo espírito das falhas na transição da alta: não transferir risco oculto a quem não consentiu.
Uma síntese nossa é que o dever profissional inclui proteger o paciente do próprio profissional quando a doença é contagiosa ou incapacitante.
O que os números clássicos mostraram
Antes das coortes de COVID-19, revisões narrativas já pintavam prevalências altas. Widera e colegas reuniram exemplos que ainda circulam em discussões de infecção hospitalar (Widera et al., 2010).
Médicos noruegueses e residentes com gripe
Rosvold e colegas pesquisaram 1.015 médicos noruegueses: em um ano, 80 por cento foram trabalhar em doença pela qual afastariam um paciente (Widera et al., 2010). Em estudo sobre vacinação contra influenza, 70 por cento dos residentes e estudantes admitiram ter trabalhado com sintomas gripais (Widera et al., 2010).
Hospital pediátrico na Filadélfia
Szymczak e colegas aplicaram um inquérito anônimo em 2014 num grande hospital pediátrico da Filadélfia e receberam respostas de 280 médicos assistentes e 256 profissionais de prática avançada (Szymczak et al., 2015). Embora 95,3 por cento acreditassem que trabalhar doente punha pacientes em risco, 83,1 por cento trabalharam doentes ao menos uma vez no ano anterior (Szymczak et al., 2015). Os respondentes iriam trabalhar com sintomas respiratórios agudos importantes (55,6 por cento) e até com febre (16,0 por cento), e os médicos relataram isso mais que os demais profissionais (Szymczak et al., 2015). Entre os motivos, 98,7 por cento citaram não querer deixar os colegas na mão, e 64,9 por cento dos comentários livres descreveram extrema dificuldade de achar cobertura (Szymczak et al., 2015).
Síndrome gripal em inquérito nacional
Chiu e colegas, do CDC, usaram um painel não probabilístico de 1.914 profissionais de saúde na temporada de influenza 2014-2015 (Chiu et al., 2017). Relataram síndrome gripal 414 (21,6 por cento), e 41,4 por cento deles trabalharam doentes, com mediana de 3 dias (Chiu et al., 2017). Farmacêuticos (67,2 por cento) e médicos (63,2 por cento) tiveram as maiores frequências, e o hospital foi o local com mais trabalho doente (49,3 por cento) (Chiu et al., 2017).
Surto em instituição de longa permanência
Na investigação de gastroenterite aguda em nursing home, 94 por cento dos funcionários doentes foram trabalhar e 8 por cento vomitaram no trabalho (Widera et al., 2010). O caso ilustra o extremo: sintomas claros e ainda assim presença.
Leitura cautelosa
Esses números vêm de contextos e instrumentos diferentes. Servem como alerta, não como meta-análise. A revisão sistemática posterior de Lui reforçou que a qualidade das medidas limita conclusões causais (Lui et al., 2018). Quem lê só o percentual sem a pergunta exata compara coisas distintas.
O que médicos brasileiros relataram
Oliveira e colegas entrevistaram 309 médicos em Juiz de Fora, Minas Gerais, com questionário e WHOQOL-BREF (Oliveira et al., 2022). A amostra tinha 54,4 por cento de mulheres e idade média de 40,9 anos (Oliveira et al., 2022).
Doença, afastamento e presenteísmo
Entre os participantes, 57,6 por cento (n = 178) relataram ter adoecido durante a atividade profissional, 35 por cento (n = 110) se afastaram e 82,8 por cento (n = 256) já praticaram presenteísmo (Oliveira et al., 2022). As doenças mais citadas envolveram aparelho respiratório (29,5 por cento), infectoparasitárias (14,38 por cento) e circulatório (9,59 por cento) (Oliveira et al., 2022).
Qualidade de vida e tempo de profissão
Na análise multivariada, o domínio meio ambiente teve a pior média do WHOQOL-BREF, e tempo de profissão de 10 anos ou mais associou-se a maior chance de escore mais alto nesse domínio, com OR 2,28 (IC 95 por cento de 1,46 a 3,56) (Oliveira et al., 2022). Idade de 39 anos ou mais teve efeito protetor no mesmo modelo (Oliveira et al., 2022). Cerca de 80,9 por cento não se sentiam representados por entidades quanto a qualidade e segurança do trabalho (Oliveira et al., 2022).

O que isso muda na prática brasileira
A combinação de alto presenteísmo e afastamento relativamente baixo sugere norma cultural, não só falha individual. Dialoga com burnout na formação e com lesão moral: o médico pode ir doente por dever distorcido, não por ignorar a transmissão.
A literatura brasileira de Oliveira também lembra que doenças respiratórias lideram o autorrelato de adoecimento no trabalho (Oliveira et al., 2022). Isso aproxima o presenteísmo do calendário de vírus respiratórios e da política de afastamento sazonal. Serviços que só discutem o tema em pandemia esquecem o inverno seguinte.
Cultura oculta no treinamento
Kaldjian e colegas pesquisaram estudantes, residentes e docentes de Medicina de Família, Pediatria e Clínica Médica em 2012-2013 sobre trabalhar com possível doença infecciosa (Kaldjian et al., 2019). Na segunda pesquisa, 127 pessoas responderam (44 por cento de taxa de resposta): 69 estudantes, 20 residentes e 38 docentes (Kaldjian et al., 2019).
Obrigação e sintomas gripais
Sessenta por cento afirmaram obrigação profissional de trabalhar doentes. Trinta e três por cento se sentiam obrigados a trabalhar com sintomas gripais (febre, mialgia e tosse), com diferença entre residentes (67 por cento), estudantes (35 por cento) e docentes (14 por cento; p = 0,001) (Kaldjian et al., 2019).
Motivos declarados
A maioria (83 por cento) queria evitar criar mais trabalho para colegas. Residentes e estudantes também temiam repercussão negativa e parecer preguiçosos com mais frequência que docentes (Kaldjian et al., 2019). Os autores discutem um currículo oculto de eficiência que compete com a cultura de segurança (Kaldjian et al., 2019).
Esse achado se conecta ao post sobre currículo oculto na Medicina: o que se aprende no corredor pode anular o que se ensina sobre isolamento e afastamento.
Limitações do desenho
A taxa de resposta de 44 por cento abre viés de seleção. A pesquisa é de um centro e de uma década atrás. Ainda assim, o gradiente residente-docente é um sinal útil para preceptoria: quem ensina modela a decisão de ir ou ficar.
COVID-19: presenteísmo medido no dia a dia
Linsenmeyer e colegas analisaram entrevistas de saúde ocupacional e um questionário de seguimento no sistema de saúde de veteranos de Boston, nos EUA (Linsenmeyer et al., 2023). Entre profissionais com COVID-19, 255 (78,0 por cento) estavam sintomáticos; desses, 127 (49,8 por cento) relataram presenteísmo no momento do diagnóstico (Linsenmeyer et al., 2023).
Sintomas específicos e inespecíficos
Entre 168 com pelo menos um sintoma típico de COVID-19, 79 (47 por cento) trabalharam sintomáticos; entre 87 só com sintomas inespecíficos, 47 (54 por cento) trabalharam (Linsenmeyer et al., 2023). A diferença entre esses grupos não foi significativa (Linsenmeyer et al., 2023).
Por que foram trabalhar
No subgrupo que respondeu ao seguimento (52 pessoas, 20,4 por cento), preocupações com a carga dos colegas (66 por cento) e responsabilidade pessoal (45 por cento) superaram limites de licença paga (19 por cento) e expectativa percebida de trabalhar doente (10 por cento) (Linsenmeyer et al., 2023). Sintomas eram atribuídos a alergia, resfriado, enxaqueca ou "COVID leve" (Linsenmeyer et al., 2023).

Médicos japoneses na linha de frente
Ishimaru e colegas analisaram 3.968 médicos empregados em inquérito nacional (taxa de resposta 18,5 por cento) durante a pandemia (Ishimaru et al., 2023). Aqui presenteísmo foi medido como prejuízo do funcionamento no trabalho, com 21 pontos ou mais na Work Functioning Impairment Scale, e ocorreu em 13,9 por cento (Ishimaru et al., 2023). Médicos de linha de frente tiveram aOR 1,71 (IC 95 por cento de 1,16 a 2,53) e os de segunda linha 1,45 (1,17 a 1,78) frente aos demais (Ishimaru et al., 2023). Envolvimento em vacinação contra COVID-19 teve OR ajustado 0,94 (0,77 a 1,16), intervalo que inclui o nulo e é inconclusivo para associação (Ishimaru et al., 2023).
A taxa de 13,9 por cento (Ishimaru et al., 2023) é menor que a de Oliveira e a de Linsenmeyer porque a pergunta (prejuízo funcional, não ida ao trabalho doente), a janela temporal e a população diferem: comparar prevalências brutas entre estudos sem alinhar a definição induz erro de leitura.
O que as revisões conseguem (e não conseguem) afirmar
Lui e colegas identificaram publicações sobre presenteísmo em médicos e enfermeiros hospitalares, selecionaram 38 para qualidade e retiveram 24 para extração (Lui et al., 2018). Dezessete trataram exposições e desfechos, quatro custos, um intervenção e dois validações (Lui et al., 2018).
Heterogeneidade e conclusão nula
A conclusão explícita: a heterogeneidade e a qualidade limitada das ferramentas não produziram evidência conclusiva sobre associação do presenteísmo com exposições, custos econômicos ou intervenções (Lui et al., 2018). Isso não diz que o problema é pequeno; diz que a ciência disponível não sustenta efeito único mensurável.
Revisão sobre doença infecciosa
Webster e colegas revisaram sistematicamente o presenteísmo ligado a doença infecciosa: de 3.580 artigos, incluíram 23 artigos com 24 estudos, quase todos transversais e de qualidade relativamente baixa (Webster et al., 2019). A prevalência variou de 35 a 97 por cento, e o fator de risco mais consistente foi a ocupação: trabalhar na saúde, e especificamente ser médico, elevou o risco (Webster et al., 2019). Os motivos se agruparam em política e cultura da organização, características do trabalho, como falta de cobertura, e razões pessoais, como não sobrecarregar colegas (Webster et al., 2019).
Revisão de escopo recente
Sampaio e colegas, em revisão de escopo publicada em 2026, incluíram 31 artigos, em maioria transversais (70,97 por cento), com prevalências que oscilaram de 14,1 por cento na Austrália a 100 por cento no Irã, conforme instrumento e população (Sampaio et al., 2026). Entre 90 menções a motivos, as mais frequentes foram sintomas leves (36, ou 40,0 por cento) e dificuldade de achar substituto (25, ou 27,8 por cento) (Sampaio et al., 2026).
Como ler a tabela de prevalências
| Fonte | População | Achado central | Nota de leitura |
|---|---|---|---|
| Oliveira 2022 | 309 médicos (Brasil) | 82,8 por cento já praticaram presenteísmo (Oliveira et al., 2022) | Autorrelato acumulado |
| Kaldjian 2019 | 127 em treinamento (EUA) | 60 por cento obrigação; 33 por cento gripal (Kaldjian et al., 2019) | Atitude, não só comportamento |
| Linsenmeyer 2023 | 255 HCW com COVID sintomática | 49,8 por cento trabalharam sintomáticos (Linsenmeyer et al., 2023) | Conta qualquer período sintomático |
| Ishimaru 2023 | 3.968 médicos (Japão) | 13,9 por cento; aOR frente 1,71 (1,16 a 2,53) (Ishimaru et al., 2023) | Prejuízo funcional, não ida doente |
| Chiu 2017 | 414 profissionais com síndrome gripal (EUA) | 41,4 por cento trabalharam doentes; médicos 63,2 por cento (Chiu et al., 2017) | Painel na internet, não probabilístico |
| Lui 2018 | 24 estudos retidos | Evidência inconclusiva (Lui et al., 2018) | Heterogeneidade de medidas |
A tabela não ranqueia países: ranqueia perguntas diferentes. O clínico usa os números para calibrar o risco local, no espírito da calibração da confiança.
Cinco sinais para ficar em casa (síntese nossa)
Falta um escore universal validado para "o médico pode trabalhar hoje?". A lista abaixo é síntese nossa a partir dos padrões de infecção e dos motivos citados nos estudos, não um escore publicado.
- Febre medida ou sensação febril clara nas últimas 24 horas.
- Vômito, diarreia aguda ou incapacidade de hidratar-se no turno.
- Tosse nova com mal-estar sistêmico em período de transmissão respiratória.
- Lesões cutâneas infectadas drenando em área que o equipamento de proteção não cobre.
- Comprometimento cognitivo ou fadiga de decisão intensa o bastante para duvidar do próprio julgamento.
O que a equipe pode combinar antes da crise
Serviços que definem cobertura de última hora, teleconsulta alternativa e ausência sem punição informal reduzem o incentivo a ir doente (Widera et al., 2010; Linsenmeyer et al., 2023). Hipótese nossa: o residente só consegue ficar em casa se o preceptor modelar a mesma regra e se a escala tiver substituto real.
Checklist rápido antes de entrar no hospital (síntese nossa):
- Temperatura e sintomas das últimas 24 horas.
- Setor com pacientes de alto risco hoje.
- Nome do substituto ou caminho de cobertura.
- Se a resposta a "eu afastaria o paciente com o que eu sinto?" for sim, a barra para ir sobe.

O que muda no raciocínio do plantão
Presenteísmo afeta o raciocínio clínico por dois caminhos: transmissão e desempenho. O primeiro é epidemiológico; o segundo se parece com a lógica da privação de sono, mas a causa é doença, não só vigília.
Contágio e diagnóstico diferencial
Um profissional com influenza ou norovírus vira vetor intramural (Widera et al., 2010). Pacientes vulneráveis, como idosos com delirium ou imunossuprimidos, pagam o preço. A decisão de afastar-se é ato clínico, não só administrativo. Em períodos de influenza, a pergunta ganha peso adicional.
Quando o erro cabe na conversa
Se o médico trabalhou doente e houve dano, a comunicação honesta segue a mesma ética de comunicar erro diagnóstico: fatos, responsabilidade e plano, sem teatralizar culpa.
Rede de segurança para a equipe
Combinar sinais de alerta e quem cobre a falta é rede de segurança aplicada à própria equipe: o paciente indireto do presenteísmo é quem está no leito ao lado.
Na prática do plantão, o presenteísmo compete com outras pressões já discutidas no NEXO: a fadiga de alertas no hospital digital, a pressa da agenda do paciente e a cultura de não interromper o fluxo. Nenhuma dessas pressões justifica expor neonato, oncológico ou idoso frágil a um vírus trazido pelo próprio plantonista. A pergunta útil no handoff é objetiva: alguém na equipe está doente o bastante para afastar um paciente com o mesmo quadro? Se a resposta for sim, a escala precisa de plano B no mesmo turno, não no dia seguinte.
Outro ponto prático é documentar o afastamento sem estigma. Serviços que registram "afastamento por doença infectocontagiosa" como evento esperado, e não como falha moral, alinham o prontuário de pessoal à segurança do paciente. Síntese nossa: o heroísmo silencioso do doente que comparece é um indicador negativo de cultura, não um elogio de currículo.
Papel da enfermagem e da escala
Presenteísmo não é só decisão médica. Enfermeiros e técnicos aparecem em vários dos estudos reunidos por Lui e pela revisão de escopo, com prevalências que às vezes superam as dos médicos conforme o instrumento (Lui et al., 2018; Sampaio et al., 2026). A escala multiprofissional que não tem cobertura para um elo quebra o elo seguinte: o residente que fica em casa sem substituto pressiona o plantonista; o plantonista doente pressiona a enfermagem.
O que a enfermagem enxerga primeiro
Sinais precoces de colega incapaz (tosse persistente, vômito no banheiro, lentidão atípica) costumam ser notados por quem compartilha o posto. Políticas claras de afastamento protegem quem denuncia o risco sem virar "dedo-duro". Isso se alinha à lógica de deterioração clínica e escalonamento: o canal de alerta precisa existir antes da crise.
Cobertura como tecnologia de segurança
Quando falta lista de backup, banco de horas acionável ou redistribuição planejada, o discurso "fique em casa" é vazio. Hipótese nossa: a intervenção mais custo-efetiva não é um cartaz sobre higiene, e sim um protocolo de cobertura que o chefe de escala consiga executar em 30 minutos.
A mensagem final para o leitor clínico é sóbria: presenteísmo por doença é frequente, mensurável e modificável quando a instituição trata afastamento como ferramenta de proteção, não como falha de caráter. Enquanto a métrica informal for "quem veio mesmo doente", os números de Rosvold, Oliveira e dos estudos de COVID-19 vão se repetir com outros vírus e outras equipes.
Três cenas para discutir na preceptoria
Três cenas clínicas ajudam a fixar o raciocínio (todas fictícias, mas alinhadas aos mecanismos dos estudos):
- Residente com febre medida e tosse no início do plantão de UTI neonatal: o risco de transmissão supera qualquer argumento de "equipe curta".
- Cirurgião com gastroenterite aguda que insiste em operar eletivo: o paralelo com o surto de nursing home em que 94 por cento foram trabalhar doentes mostra o padrão, não a exceção (Widera et al., 2010).
- Preceptora que elogia o interno "guerreiro" que veio gripado: esse reforço é exatamente o currículo oculto medido por Kaldjian (Kaldjian et al., 2019).
Em cada cena, a pergunta correta não é "você aguenta?". É "quem paga o risco se você ficar?". Quando o pagador do risco é o paciente, a ética profissional aponta para o afastamento com cobertura, não para o heroísmo.
Do ponto de vista de ensino, vale pedir ao residente que escreva, uma vez por mês, um parágrafo sobre a última vez em que quase foi trabalhar doente e o que o fez mudar de ideia (ou o que o fez ir). Esse exercício barato torna visível a norma local. Se a maioria dos relatos terminar com "fui porque ninguém cobria", o problema não é motivacional: é de escala. Se terminar com "fui porque o chefe elogiaria", o problema é de currículo oculto e de avaliação. Os dados de Kaldjian e de Linsenmeyer apontam para os dois mecanismos ao mesmo tempo (Kaldjian et al., 2019; Linsenmeyer et al., 2023).
Erros de leitura que este post evita
Três confusões recorrentes atrapalham a conversa clínica.
- Tratar qualquer percentual de presenteísmo como comparável entre países sem alinhar a pergunta.
- Concluir que "não há evidência" na revisão de Lui significa "não há dano".
- Usar presenteísmo como sinônimo de burnout ou de privação de sono.
Cada confusão muda a conduta: a primeira gera debate estéril de ranking; a segunda paralisa política local; a terceira mistura intervenções. O caminho seguro é citar o estudo com n, definição e IC quando houver, e marcar síntese nossa quando a ponte for extrapolação.
Quando o IC inclui o nulo
No inquérito japonês, a associação entre atuar na vacinação contra COVID-19 e presenteísmo teve OR 0,94 com IC 95 por cento de 0,77 a 1,16 (Ishimaru et al., 2023). Como o intervalo cruza 1, o resultado é inconclusivo para benefício ou prejuízo dessa exposição sobre o desfecho medido. Reportar só o ponto OR sem o IC convidaria a uma leitura falsa de "proteção".
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Uma pista pode trazer "plantonista com febre e tosse atendeu idosos na véspera"; outra, "três pacientes da mesma ala com quadro gripal em 48 horas". O retorno de proximidade em cinco níveis ajuda a separar influenza, COVID-19, outro vírus respiratório e pneumonia bacteriana, e lembra que a fonte do surto pode estar na própria equipe.
Perguntas frequentes
Presenteísmo do médico é o mesmo que burnout?
Burnout é síndrome de esgotamento; presenteísmo por doença é trabalhar apesar de enfermidade. Não são a mesma entidade. Podem coexistir, mas as medidas e as intervenções diferem (Oliveira et al., 2022; Lui et al., 2018).
Resfriado só com coriza autoriza o plantão?
Depende do contexto, da febre, do setor (oncologia, neonatal, imunocomprometidos) e da política local. Estudos mostram que sintomas leves são motivo frequente para ir (Sampaio et al., 2026). Na dúvida com risco a vulneráveis, a opção mais segura é afastar e cobrir.
A revisão de Lui prova que presenteísmo não causa dano?
Ela mostra ausência de evidência conclusiva por heterogeneidade de medidas, não evidência de ausência de dano (Lui et al., 2018).
Por que residentes vão mais doentes que docentes?
No estudo de Kaldjian, residentes relataram mais obrigação com sintomas gripais e mais medo de punição informal (Kaldjian et al., 2019). Hierarquia e avaliação moldam o comportamento.
O que o serviço pode fazer esta semana?
Definir critérios explícitos de afastamento, garantir substituto acionável e alinhar preceptores para não elogiar quem veio mesmo doente. Sem cobertura real, o discurso de segurança vira currículo oculto às avessas.
Take-home messages
- Presenteísmo por doença é comum em médicos e outros profissionais de saúde; as prevalências variam com a pergunta e a população (Webster et al., 2019; Oliveira et al., 2022).
- Motivos centrais: não sobrecarregar colegas e senso de dever, inclusive com sintomas gripais (Kaldjian et al., 2019; Szymczak et al., 2015).
- Na COVID-19, quase metade dos profissionais sintomáticos de um sistema de saúde de Boston trabalhou com sintomas (Linsenmeyer et al., 2023).
- Revisões sistemáticas ainda não fecham associação causal única; heterogeneidade deixa achados inconclusivos em várias perguntas (Lui et al., 2018).
- A decisão de ficar em casa é ato de segurança do paciente e precisa de cobertura institucional, não só de heroísmo individual (Widera et al., 2010).
- Treine a pergunta do contágio junto com a do desempenho cognitivo no início de cada plantão (síntese nossa).
Referências
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- Chiu S, Black CL, Yue X, et al. Working with influenza-like illness: presenteeism among US health care personnel during the 2014-2015 influenza season. Am J Infect Control. 2017;45(11):1254-1258. PMID: 28526310. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5670002/
- Lui JNM, Andres EB, Johnston JM. Presenteeism exposures and outcomes amongst hospital doctors and nurses: a systematic review. BMC Health Serv Res. 2018;18(1):985. PMID: 30567547. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6299953/
- Kaldjian LC, Shinkunas LA, Reisinger HS, et al. Attitudes about sickness presenteeism in medical training: is there a hidden curriculum? Antimicrob Resist Infect Control. 2019;8:149. PMID: 31508227. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6727412/
- Webster RK, Liu R, Karimullina K, et al. A systematic review of infectious illness presenteeism: prevalence, reasons and risk factors. BMC Public Health. 2019;19(1):799. PMID: 31226966. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6588911/
- de Oliveira JM, Gonçalves LSB, da Fonseca ALS, et al. Physicians' quality of life, illness and presenteeism: a cross-sectional epidemiological study. Rev Bras Med Trab. 2022;20(3):401-411. PMID: 36793455. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9904841/
- Linsenmeyer K, Mohr D, Gupta K, et al. Sickness presenteeism in healthcare workers during the coronavirus disease 2019 (COVID-19) pandemic: an observational cohort study. Infect Control Hosp Epidemiol. 2023;44(10):1693-1696. PMID: 37039605. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10587373/
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