Deterioração clínica na enfermaria: NEWS2 e escalonamento

Sumário
- Por que este é um cenário de raciocínio
- O que o NEWS2 mede
- Como o quadro se apresenta
- Diagnóstico diferencial na enfermaria
- Conduta de enfermagem: avaliar e medir
- Conduta de enfermagem: escalonar e comunicar
- Por que o alerta falha
- Raciocínio passo a passo no caso
- Erros comuns
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Checklist final
- Referências
São três horas da manhã numa enfermaria cirúrgica. Um homem de 68 anos está no segundo dia depois de uma colectomia. Na ronda, a enfermeira conta uma frequência respiratória de 24 por minuto, mede saturação de 93 em ar ambiente, pressão sistólica de 102, pulso de 112 e temperatura de 38,4 graus. Ele responde, mas pergunta duas vezes onde está e quer tirar o acesso venoso. Na ronda da meia-noite, estava orientado. Nenhum número, sozinho, parece dramático. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.
O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.
Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para a enfermagem. A armadilha é olhar cada sinal vital isolado, achar cada um "aceitável" e voltar para o posto. A soma dos sinais conta outra história, e é exatamente isso que um escore de alerta precoce faz: transforma a impressão difusa de que algo vai mal num número que obriga a agir. O texto não substitui o protocolo da sua instituição. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: juntar pistas pequenas antes que o quadro fique óbvio.
Principais pontos
- O NEWS2 soma sete parâmetros fisiológicos, e a soma pesa mais do que qualquer sinal isolado.
- Confusão nova pontua tanto quanto responder só à voz, e não deve ser atribuída à idade ou à noite sem avaliação.
- A frequência respiratória é um dos preditores mais fortes de piora e um dos sinais mais mal medidos.
- A faixa do escore define a frequência de reavaliação e quem deve ser chamado, e com que urgência.
- A comunicação estruturada, como o SBAR, ajuda a transformar o número em ação do outro lado da linha.
- A preocupação da enfermeira é um gatilho legítimo para chamar ajuda, mesmo com escore baixo.
Por que este é um cenário de raciocínio
A deterioração clínica na enfermaria raramente começa com uma parada. Ela costuma vir anunciada por horas de pequenas mudanças: a respiração que acelera, o pulso que sobe, a pressão que cede um pouco, a pessoa que fica diferente. Quem está mais perto para ver essas mudanças é a equipe de enfermagem, que mede os sinais, conversa com o paciente e percebe quando ele "não está bem". O desafio é converter essa percepção em resposta antes que a janela feche.
Os escores de alerta precoce foram criados para isso. Uma revisão narrativa sobre o escore britânico compara o instrumento a um alarme de incêndio: ele deve ser julgado pelo número de incêndios que ajuda a evitar ou apagar, e não por prever com exatidão quem vai morrer (Holland e Kellett, 2023). Os autores lembram que o escore foi desenhado para identificar quem precisa ser visto com urgência por um profissional capacitado, e não para diagnosticar uma doença específica.
O que a cena ensina
A cena treina três hábitos. O primeiro é somar antes de julgar: cada sinal "aceitável" pode compor um escore alto. O segundo é tratar a confusão nova como sinal vital, e não como traço de personalidade do paciente idoso à noite. O terceiro é escalonar com clareza, dizendo o número, o que mudou e o que você precisa que o outro profissional faça. O post sobre tomada de decisão clínica discute como agir com informação incompleta.
O que o NEWS2 mede
O escore nacional de alerta precoce do Reino Unido, o NEWS, soma pontos para sete medidas: frequência respiratória, saturação de oxigênio, uso de oxigênio suplementar, temperatura, pressão sistólica, pulso e nível de consciência. Cada medida recebe de zero a três pontos conforme se afasta da faixa normal (Mitsunaga e colaboradores, 2019). Na tabela usada no estudo de Mitsunaga e colaboradores, por exemplo, a frequência respiratória de 21 a 24 vale 2 pontos e a de 25 ou mais vale 3; a saturação de 92 a 93 vale 2 pontos; a pressão sistólica de 101 a 110 vale 1 ponto; e o pulso de 111 a 130 vale 2 pontos (Mitsunaga e colaboradores, 2019).
A versão de 2017, o NEWS2, trouxe duas mudanças principais. Acrescentou a confusão nova à escala de consciência, que passou de AVPU a ACVPU, e criou uma segunda escala de saturação para pacientes com insuficiência respiratória hipercápnica ou em risco dela (Kostakis e colaboradores, 2021). Para a maioria dos pacientes, segundo os mesmos autores, as duas versões são praticamente idênticas (Kostakis e colaboradores, 2021). Na escala de consciência, responder só à voz, só à dor ou não responder valem 3 pontos cada um (Mitsunaga e colaboradores, 2019), e a confusão nova entra nesse mesmo grupo de alterações (Kostakis e colaboradores, 2021).

A escala 2 de saturação
Pacientes com insuficiência respiratória do tipo 2, ou em risco dela, costumam ter alvo de saturação mais baixo, de 88 a 92, segundo as diretrizes de oxigenoterapia citadas por Pimentel e colaboradores (Pimentel e colaboradores, 2019). Pontuar esses pacientes na escala comum geraria alertas falsos e poderia levar a oxigênio demais. A escala 2 do NEWS2 atribui pontos em limiares mais baixos de saturação e também pontua saturação alta quando o paciente está com oxigênio, refletindo a preocupação com a retenção de gás carbônico (Pimentel e colaboradores, 2019).
O detalhe importa para a enfermagem porque a escolha da escala é uma decisão clínica que precisa estar registrada. Usar a escala 2 em quem não tem esse risco é erro. No estudo de Pimentel e colaboradores, aplicar a escala 2 em pacientes sem risco de hipercapnia piorou o desempenho do escore em relação ao NEWS original (Pimentel e colaboradores, 2019). No nosso paciente, sem doença pulmonar crônica conhecida, a escala 1 é a correta.
O quanto o escore acerta
Na base de dados analisada por Pimentel e colaboradores, a área sob a curva para morte hospitalar em 24 horas ficou em torno de 0,86 a 0,91, conforme o grupo de risco respiratório (Pimentel e colaboradores, 2019). Um estudo em pacientes avaliados por equipes de resposta rápida no Canadá encontrou boa acurácia do NEWS2 para mortalidade hospitalar, com sensibilidade de 84,5 por cento no limiar de 5 pontos, mas com especificidade baixa, o que pode alimentar a fadiga de alarme (Fernando e colaboradores, 2019). Na pandemia de covid-19, o desempenho do escore se manteve parecido entre grupos com e sem a infecção (Kostakis e colaboradores, 2021).
Como o quadro se apresenta
Voltemos ao paciente. Somando os pontos com a tabela, a frequência de 24 vale 2, a saturação de 93 em ar ambiente vale 2, a pressão de 102 vale 1, o pulso de 112 vale 2, e a temperatura de 38,4 vale 1 (Mitsunaga e colaboradores, 2019). A confusão nova acrescenta 3 (Kostakis e colaboradores, 2021). O total chega a 11 pontos. Cada sinal isolado parecia tolerável. Juntos, colocam o paciente na faixa mais alta de risco.
A tabela com as faixas de resposta recomendadas pelo Royal College of Physicians aparece na revisão de Holland e Kellett (Holland e Kellett, 2023). Com 7 pontos ou mais, a recomendação é monitorização contínua dos sinais vitais, aviso imediato à equipe médica e avaliação de emergência por uma equipe com competência em cuidados críticos (Holland e Kellett, 2023).
| Faixa do NEWS2 | Frequência mínima de reavaliação | Resposta recomendada |
|---|---|---|
| 0 | A cada 12 horas | Seguir com a monitorização de rotina |
| 1 a 4 | A cada 4 a 6 horas | Enfermeira avalia e decide se aumenta a frequência ou escalona |
| 5 ou mais, ou 3 pontos em um único parâmetro | A cada hora | Avisar com urgência a equipe médica; avaliação urgente por profissional capacitado; cuidado em ambiente com monitorização |
| 7 ou mais | Monitorização contínua | Avisar de imediato a equipe médica; avaliação de emergência por equipe com competência em cuidados críticos |
Fonte da tabela: protocolo de escalonamento do Royal College of Physicians, reproduzido por (Holland e Kellett, 2023). A instituição pode adaptar as faixas, e os próprios autores defendem protocolos locais que digam como responder ao escore e quando sobrepor o julgamento clínico a ele.
Pistas que apontam a causa
O escore diz que o paciente está grave, mas não diz por quê. Por isso, junto com o número, a enfermeira registra o que viu: dor abdominal mais forte que na véspera, abdome distendido, dreno com líquido turvo, diurese escassa nas últimas horas, dor na panturrilha, falta de ar súbita, curativo sujo de sangue. Cada achado empurra o raciocínio para uma causa diferente. O post sobre sinais, sintomas e história mostra como ler essas pistas.
Diagnóstico diferencial na enfermaria
No segundo dia depois de uma cirurgia intestinal, um paciente com febre, taquipneia, taquicardia, pressão em queda e confusão nova tem sepse até prova em contrário. Mas a lista é maior, e a enfermagem precisa conhecê-la para colher os dados que ajudam a separar as hipóteses. A tabela resume o raciocínio.
| Hipótese | Pistas a favor | O que a enfermagem verifica |
|---|---|---|
| Sepse de foco abdominal | Febre, dor abdominal crescente, distensão | Aspecto do dreno e da ferida, diurese, glicemia |
| Pneumonia ou atelectasia | Tosse, dor ao respirar, saturação baixa | Ausculta, padrão respiratório, secreção |
| Embolia pulmonar | Falta de ar súbita, taquicardia, dor torácica | Panturrilhas, profilaxia de trombose feita ou não |
| Sangramento | Pressão em queda, palidez, pulso rápido | Curativo, drenos, fezes, hemoglobina recente |
| Efeito de opioide ou sedativo | Sonolência, respiração lenta | Prescrição, horários das doses, pupilas |
| Hipoglicemia | Confusão, sudorese | Glicemia capilar à beira do leito |
O post sobre diagnóstico diferencial com pistas mostra como organizar essa lista quando o tempo é curto.
Taquipneia: o sinal que chega primeiro
Num estudo multicêntrico com mais de 269 mil internações em enfermarias, a frequência respiratória, o pulso, a idade e a pressão sistólica foram as variáveis mais importantes para prever parada cardíaca, transferência para a terapia intensiva ou morte (Churpek e colaboradores, 2016). O risco tinha forma de U para a frequência respiratória, o pulso e a pressão, isto é, subia tanto com valores altos quanto baixos (Churpek e colaboradores, 2016). No nosso caso, a frequência de 24 é a primeira pista, e a mais fácil de deixar passar.
Confusão: o cérebro como órgão-sentinela
A confusão nova num idoso operado costuma ser chamada de "delirium do pós-operatório" e tratada como incômodo. Pode ser, mas o NEWS2 a coloca no mesmo peso de responder só à voz justamente porque a alteração aguda do estado mental pode refletir hipoperfusão, hipóxia, hipoglicemia ou infecção (Kostakis e colaboradores, 2021). A pergunta da enfermagem não é "ele está confuso?", e sim "ele está diferente de como estava?". A comparação com a avaliação anterior é o dado que importa.
Conduta de enfermagem: avaliar e medir
A primeira tarefa é medir bem. Um escore calculado com sinais mal medidos dá uma falsa sensação de segurança. A segunda é medir de novo, com a frequência que a faixa exige, para ver a tendência. A terceira é registrar o que o escore não capta.
Contar a respiração do jeito certo
Uma revisão sistemática sobre a medida manual da frequência respiratória encontrou cinco fontes de erro (Kallioinen e colaboradores, 2021). Quando o paciente percebe que está sendo observado, a frequência cai. Contagens curtas, de 15 ou 30 segundos multiplicadas, subestimam o valor. Há grande variação entre observadores e no mesmo observador. Certos números aparecem demais nos registros, sugerindo estimativa no lugar de contagem. E a frequência às vezes nem é registrada (Kallioinen e colaboradores, 2021). A recomendação dos autores para a enfermagem é contar, e não estimar, usar contagens de 60 segundos sempre que possível, fazer isso sem que o paciente perceba e registrar o valor obtido (Kallioinen e colaboradores, 2021).
Na prática, um bom momento é logo depois de medir o pulso, mantendo os dedos no punho e olhando o tórax por um minuto inteiro. O paciente acha que você ainda está contando o pulso e respira normalmente.
O que medir além dos sete parâmetros
- Glicemia capilar, porque a hipoglicemia confunde e é corrigida em minutos.
- Diurese das últimas horas, porque a queda costuma vir antes da hipotensão franca.
- Dor, com escala e localização, comparada à da véspera.
- Aspecto de ferida, drenos e sondas.
- Pele: temperatura das extremidades, cor, enchimento capilar.
- Medicamentos recebidos nas últimas horas, sobretudo opioides e sedativos.
Esses dados não entram na soma do escore, mas entram na conversa com quem vai avaliar o paciente. Em um estudo australiano com mais de 10 mil auditorias, quando havia gatilho de equipe de emergência, as intervenções de enfermagem mais associadas ao escalonamento correto incluíram eletrocardiograma, escala de coma de Glasgow e glicemia capilar (Considine e colaboradores, 2023).
Primeiras medidas dentro do escopo da enfermagem
Enquanto a ajuda chega, a enfermagem pode posicionar o paciente com a cabeceira elevada, oferecer oxigênio conforme o protocolo da instituição e o alvo de saturação adequado, garantir um acesso venoso pérvio, preparar o material de coleta de exames e manter a vigilância contínua. No estudo australiano, quando havia gatilho de equipe de emergência, pelo menos uma intervenção de enfermagem foi registrada em 63,7 por cento das auditorias (Considine e colaboradores, 2023). A conduta médica, como antibiótico, volume e exames de imagem, depende da avaliação que você está pedindo.

Conduta de enfermagem: escalonar e comunicar
Com 11 pontos, o paciente está na faixa de 7 ou mais. A resposta recomendada é avisar a equipe médica imediatamente e pedir avaliação de emergência por uma equipe com competência em cuidados críticos, com monitorização contínua (Holland e Kellett, 2023). Em muitos hospitais, isso significa acionar a equipe de resposta rápida.
Equipes de resposta rápida
Uma revisão sistemática encontrou evidência moderada de que a implantação de equipes de resposta rápida se associa a menor mortalidade hospitalar e a menos paradas cardíacas fora da terapia intensiva (Hall e colaboradores, 2020). O efeito sobre transferências para a terapia intensiva foi inconclusivo (Hall e colaboradores, 2020). A equipe só ajuda, porém, se for chamada. O braço que dispara o alarme, e que quase sempre é a enfermagem, é tão importante quanto o braço que responde.
SBAR: dizer o que importa em um minuto
O SBAR organiza a comunicação em situação, contexto, avaliação e recomendação. Uma revisão sistemática encontrou evidência moderada de melhora da segurança do paciente com a implantação do SBAR, especialmente quando usado para estruturar a comunicação por telefone (Müller e colaboradores, 2018). Para o nosso paciente, a chamada pode soar assim:
- Situação: "Sou a enfermeira da cirurgia, leito 12. O senhor está com NEWS2 de 11, com confusão nova."
- Contexto: "Segundo dia de colectomia. À meia-noite estava orientado e com escore de 2."
- Avaliação: "Frequência 24, saturação 93 em ar ambiente, sistólica 102, pulso 112, temperatura 38,4. Abdome mais distendido e diurese baixa. Acho que pode ser sepse."
- Recomendação: "Preciso que alguém da equipe de resposta rápida venha agora. Já coloquei oxigênio, a cabeceira está elevada e o acesso está pérvio."
A recomendação é a parte que mais se omite. Dizer o que você precisa, e em quanto tempo, evita que a chamada termine com "vou passar aí mais tarde". O post sobre raciocínio clínico interprofissional discute como diferentes profissões constroem juntas a decisão.
Preocupação da enfermeira como gatilho
Nem toda deterioração aparece no escore. Num estudo de coorte retrospectiva com 4634 acionamentos de equipe de resposta rápida, 1263 foram motivados apenas pela preocupação da enfermeira, sem alteração de sinais vitais (Gentil e colaboradores, 2025). O grupo acionado só pela preocupação precisou menos de transferência para a terapia intensiva do que o grupo acionado por sinais vitais alterados, 40 contra 50 por cento, embora o desenho observacional não permita afirmar causa (Gentil e colaboradores, 2025). A mensagem prática é que a preocupação registrada e comunicada é um dado clínico.
Por que o alerta falha
Ter um escore não basta. No estudo australiano já citado, quando havia gatilho de equipe de emergência ou de pré-emergência, o acionamento do sistema de resposta rápida ocorreu em apenas 26,8 por cento das auditorias (Considine e colaboradores, 2023). Os autores concluíram que havia lacunas no escalonamento conforme a política, embora a enfermagem fizesse várias intervenções dentro do próprio escopo (Considine e colaboradores, 2023).
As barreiras que a enfermagem descreve
Um estudo qualitativo com enfermeiras de enfermarias clínicas no Canadá identificou onze temas de barreiras e facilitadores para acionar a equipe de resposta rápida, unidos por uma ideia central: a complexidade que a própria enfermeira impõe à decisão de chamar (Fitzgerald e colaboradores, 2026). Entre os facilitadores, apareceram a consulta a colegas mais experientes e a confiança que cresce com a experiência (Fitzgerald e colaboradores, 2026). O título do artigo resume o medo mais comum: não querer dar alarme falso (Fitzgerald e colaboradores, 2026).
Fadiga de alarme e falsa segurança
O escore também falha nos dois sentidos. Com limiar alto, muitos pacientes que vão morrer ficam abaixo dele. A revisão de Holland e Kellett estima que um limiar de 7 pontos geraria alerta em cerca de 4 por cento das observações e detectaria pouco mais da metade das mortes em 24 horas, enquanto um limiar de 3 pontos detectaria quase 9 em cada 10 mortes, à custa de alertas em mais de um quarto das observações (Holland e Kellett, 2023). Com limiar baixo, a especificidade cai e os alarmes se acumulam (Fernando e colaboradores, 2019). Por isso, o escore organiza, mas não substitui, o julgamento clínico.
Há ainda o contexto. Num sistema de saúde inglês que adotou o escore em pronto-socorro, ambulâncias, comunidade e atenção primária, a maioria dos registros fora do hospital tinha escores de 0 a 2, e menos de um quinto chegava a 5 ou mais (Scott e colaboradores, 2019). O mesmo número pode ter peso diferente conforme o lugar e o paciente, e a enfermagem precisa ler o escore à luz de quem está na cama.
Raciocínio passo a passo no caso
Primeiro, a medida: a enfermeira conta a respiração por 60 segundos, sem avisar o paciente, e confirma 24 por minuto.
Segundo, a soma: com saturação de 93 em ar ambiente, sistólica de 102, pulso de 112, temperatura de 38,4 e confusão nova, o NEWS2 chega a 11.
Terceiro, a tendência: à meia-noite, o escore era 2. A mudança é tão importante quanto o valor.
Quarto, os dados extras: abdome mais distendido, diurese baixa, glicemia normal, nenhuma dose extra de opioide.
Quinto, as primeiras medidas: cabeceira elevada, oxigênio conforme protocolo, acesso venoso pérvio, monitorização contínua.
Sexto, a chamada: SBAR para a equipe de resposta rápida, com uma recomendação clara de avaliação imediata.
Sétimo, a reavaliação: a enfermeira repete os sinais enquanto a equipe chega e registra a hora de cada passo.
Erros comuns
O primeiro erro é julgar sinal por sinal. Cada um parece aceitável, mas a soma é alta.
O segundo erro é estimar a frequência respiratória. Contar por 60 segundos muda o número.
O terceiro erro é atribuir a confusão à idade ou ao horário. Confusão nova pontua alto e pede investigação.
O quarto erro é usar a escala 2 de saturação sem indicação registrada.
O quinto erro é esperar a próxima ronda. A faixa de 7 ou mais pede avaliação de emergência.
O sexto erro é ligar sem recomendação. Dizer o que você precisa encurta o caminho até a cama.
O sétimo erro é ignorar a própria preocupação porque o escore está baixo. O post sobre pausa diagnóstica mostra como parar e rever um quadro antes de fechar a conclusão.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas. Você propõe um diagnóstico buscando o código na CID-10 e recebe um retorno de proximidade em cinco níveis, que mostra se o palpite ficou no código exato, na mesma categoria, no mesmo grupo, no mesmo capítulo ou em outro capítulo. Esse formato combina com o tema deste texto: sepse, embolia pulmonar, sangramento e intoxicação por opioide ficam em lugares diferentes da classificação, mas podem começar com a mesma taquipneia de madrugada. O post sobre CID-10 mostra como achar o código certo.
Para usar o caso do dia como treino, experimente três hábitos. Antes do primeiro palpite, pergunte quais sinais vitais você somaria e em que faixa o paciente estaria. A cada pista, pergunte se ela muda a urgência ou só a causa. Depois do resultado, anote qual pista pequena você deixou passar.
Três exercícios com casos
Some os sinais. Para cada caso com sinais vitais, calcule o escore e diga qual seria a resposta pela faixa.
Escreva o SBAR. Em quatro frases, resuma o caso como se estivesse ligando para a equipe de plantão.
Procure a tendência. Imagine os mesmos sinais seis horas antes e pergunte o que teria mudado na conduta.
O post sobre simulação de atendimento mostra como treinar a avaliação do paciente, e o post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos mostra como casos ajudam a fixar esse hábito.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
Quais parâmetros entram no NEWS2?
Frequência respiratória, saturação de oxigênio, uso de oxigênio suplementar, temperatura, pressão sistólica, pulso e nível de consciência na escala ACVPU (Kostakis e colaboradores, 2021).
O que fazer com NEWS2 de 7 ou mais?
Monitorização contínua, aviso imediato à equipe médica e avaliação de emergência por equipe com competência em cuidados críticos (Holland e Kellett, 2023).
Um único parâmetro com 3 pontos já pede escalonamento?
Sim. Pela tabela de resposta, 3 pontos num único parâmetro entram na mesma faixa de 5 ou mais, com reavaliação a cada hora e aviso urgente à equipe médica (Holland e Kellett, 2023).
Quando usar a escala 2 de saturação?
Só em pacientes com insuficiência respiratória hipercápnica ou em risco dela, com alvo de 88 a 92 (Pimentel e colaboradores, 2019).
Posso chamar a equipe de resposta rápida só porque estou preocupada?
Sim. A preocupação da enfermeira é usada como gatilho em vários hospitais, e um estudo associou esse gatilho a menos transferências para a terapia intensiva (Gentil e colaboradores, 2025).
Checklist final
- Contei a frequência respiratória por 60 segundos, sem avisar o paciente.
- Somei os sete parâmetros e escolhi a escala de saturação certa.
- Comparei o escore e o estado mental com a avaliação anterior.
- Medi glicemia, diurese e dor, e olhei ferida e drenos.
- Apliquei a resposta da faixa do escore.
- Fiz a chamada em SBAR, com recomendação clara.
- Tomei as primeiras medidas dentro do meu escopo.
- Reavaliei e registrei a hora de cada passo.
- Levei em conta a minha preocupação mesmo quando o escore estava baixo.
Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.
Referências
- Churpek MM, Yuen TC, Winslow C, et al. Multicenter Comparison of Machine Learning Methods and Conventional Regression for Predicting Clinical Deterioration on the Wards. Crit Care Med. 2016. PMID 26771782.
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- Kallioinen N, Hill A, Christofidis MJ, et al. Quantitative systematic review: Sources of inaccuracy in manually measured adult respiratory rate data. J Adv Nurs. 2021. PMID 33038030.
- Kostakis I, Smith GB, Prytherch D, et al. The performance of the National Early Warning Score and National Early Warning Score 2 in hospitalised patients infected by the severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 (SARS-CoV-2). Resuscitation. 2021. PMID 33176170.
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