Fluoroscopia e câncer na equipe: o que os estudos mostram

Sumário
- Quem fica perto do arco em C
- O que as grandes coortes ocupacionais mostram
- Técnicos de radiologia e procedimentos com fluoroscopia
- Séries de casos: o que medem e o que não
- Inquéritos e prevalência: ortopedia e hemodinâmica
- Limites da evidência, em linguagem clara
- Proteção prática na sala e na UTI
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Num caso fictício, uma ortopedista de 42 anos opera fraturas com arco em C várias noites por semana. No corredor, a enfermeira da hemodinâmica comenta um colega intervencionista tratado por glioblastoma, e a técnica de radiologia pergunta se o protetor de tireoide ainda vale a pena depois de tantos anos. A pergunta que chega ao preceptor não é sobre catarata: é sobre câncer de longo prazo.
A fluoroscopia guia procedimentos em ortopedia, hemodinâmica, radiologia intervencionista, cirurgia vascular e radiografias à beira do leito na UTI. A equipe, médicos, enfermagem e técnicos, permanece perto da fonte de espalhamento. Este texto reúne o que coortes grandes, séries de casos e inquéritos mostram sobre tumores de cérebro e pescoço, mama, tireoide e leucemia, deixa claros os limites de cada desenho e traduz a evidência em proteção prática. Catarata e pele da equipe ficam no post sobre cristalino e pele na radiologia intervencionista; a ICRP 118 trata das reações teciduais, como as do cristalino (ICRP, 2012); aqui o foco é neoplasia de longo prazo.
Principais pontos
- Séries de casos de tumores cerebrais em intervencionistas, como a de Roguin, sugerem lateralidade esquerda, mas não estimam risco populacional (Roguin et al., 2013).
- Em técnicos de radiologia dos EUA que faziam procedimentos com fluoroscopia guiada, a mortalidade por câncer cerebral foi maior (razão de riscos 2,55; intervalo de 1,48 a 4,40), com elevações modestas de melanoma e câncer de mama incidente (Rajaraman et al., 2016).
- Como analogia, e com a ressalva de que são trabalhadores nucleares e não equipes de saúde, nas coortes INWORKS a mortalidade por câncer sólido e por leucemia (exceto linfocítica crônica) cresceu com a exposição acumulada, em escalas de gray (Richardson et al., 2023; Leuraud et al., 2015).
- Inquéritos em cirurgiãs ortopédicas acharam prevalência de câncer de mama maior do que a esperada; é hipótese, sujeita a viés de resposta (Chou et al., 2012).
- Intervalo de confiança que inclui o nulo é inconclusivo; série de casos não mede incidência; a síntese abaixo é hipótese de trabalho para a equipe (síntese nossa).
- Quem fica perto do arco em C
- O que as grandes coortes ocupacionais mostram
- Técnicos de radiologia e procedimentos com fluoroscopia
- Séries de casos: o que medem e o que não
- Inquéritos e prevalência: ortopedia e hemodinâmica
- Limites da evidência, em linguagem clara
- Proteção prática na sala e na UTI
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
Quem fica perto do arco em C
A fluoroscopia produz imagem em tempo real e espalha radiação pelo ambiente da sala. Quem opera perto da mesa, quem segura o membro, quem registra a imagem e quem assiste na UTI com aparelho móvel recebe espalhamento. O princípio ALARA (tão baixo quanto razoavelmente alcançável) e as recomendações da ICRP para procedimentos sob fluoroscopia guiada pedem distância, blindagem e tempo de emissão reduzido (ICRP Publication 117).
As especialidades com maior tempo de fluoroscopia incluem ortopedia (fraturas, coluna), hemodinâmica e eletrofisiologia, radiologia intervencionista, cirurgia vascular e equipes de UTI e emergência com radiografia portátil. Enfermagem e técnicos passam anos na mesma sala. A exposição acumulada ao longo da carreira, e não um único dia, é o objeto das coortes e dos inquéritos discutidos abaixo (síntese nossa).

Unidades que aparecem nos estudos
O gray (Gy) e o miligray (mGy) medem energia absorvida em tecido. O sievert (Sv) e o milissievert (mSv) exprimem exposição efetiva ou equivalente, úteis para comparar cenários. As coortes INWORKS estimam risco por Gy acumulado; a USRT estima exposição ocupacional a órgãos em mGy. As unidades originais dos autores são mantidas neste texto.
O que as grandes coortes ocupacionais mostram
As melhores estimativas de risco de câncer após exposição prolongada a baixa quantidade de radiação vêm de trabalhadores nucleares monitorados, não de salas de hemodinâmica. Elas servem de referência biológica, com a ressalva de que a geometria da fluoroscopia (espalhamento assimétrico, cabeça e tronco parcialmente desprotegidos) difere do monitoramento típico da indústria nuclear (síntese nossa).
INWORKS: câncer sólido
As coortes INWORKS entram aqui como analogia explícita: são trabalhadores nucleares, não equipes de saúde, e servem para mostrar a relação biológica entre exposição acumulada e câncer. Richardson e colegas atualizaram a International Nuclear Workers Study (INWORKS) com 309 932 trabalhadores da França, do Reino Unido e dos EUA, 10,7 milhões de pessoas-ano e 28 089 mortes por câncer sólido (Richardson et al., 2023). A taxa de mortalidade por câncer sólido aumentou com a exposição acumulada: excesso de risco relativo de 0,52 por Gy (intervalo de 90 por cento de 0,27 a 0,77), com latência de 10 anos (Richardson et al., 2023). Na faixa de 0 a 100 mGy, a associação se manteve e o intervalo se alargou. Os autores descrevem o resultado como evidência de risco mesmo em exposições acumuladas baixas, típicas de ambientes ocupacionais.
Na análise anterior da mesma colaboração, com 308 297 trabalhadores e 17 957 mortes por câncer sólido, o excesso de risco relativo foi de 0,47 por Gy (0,18 a 0,79) para câncer sólido, com média de exposição ao cólon de 20,9 mGy entre expostos (Richardson et al., 2015). A coorte não é de profissionais de saúde; a extrapolação para a sala de procedimentos é biológica, não empírica direta (síntese nossa).
INWORKS: leucemia
Leuraud e colegas, na mesma base INWORKS, analisaram mortalidade por leucemia e linfoma. Para leucemia excluindo a linfocítica crônica, o excesso de risco relativo foi de 2,96 por Gy (intervalo de 90 por cento de 1,17 a 5,21), com latência de 2 anos; para leucemia mieloide crônica, 10,45 por Gy (4,48 a 19,65) (Leuraud et al., 2015). A média anual de exposição à medula foi baixa (cerca de 1,1 mGy por ano), e a leucemia linfocítica crônica não mostrou associação positiva (Leuraud et al., 2015). Esses números sustentam a preocupação com exposição ocupacional prolongada, sem provar o risco específico da fluoroscopia hospitalar (síntese nossa).
O que a indústria nuclear ensina e o que não ensina
As coortes INWORKS medem trabalhadores com dosimetria individual ao longo de décadas. A força do desenho é o denominador grande e a exposição medida. A fraqueza, para o leitor da sala de hemodinâmica, é a geometria: o feixe da fluoroscopia é localizado, o espalhamento é assimétrico, e a cabeça, o pescoço e as mãos podem ficar fora do avental. Por isso, a INWORKS é analogia, não medida da sala: são trabalhadores nucleares. Usar o excesso de risco relativo por Gy da INWORKS como número pessoal do ortopedista seria um erro. O uso correto é biológico: confirma que exposição prolongada a baixa quantidade de radiação se associa a câncer sólido e a leucemia; a magnitude na sua sala depende do tempo de emissão, da proteção e da posição (síntese nossa).
A USRT aproxima mais o hospital, porque os participantes são técnicos de radiologia. Mesmo assim, a exposição a órgãos foi reconstruída a partir de história de trabalho e modelos, não de um dosímetro no cristalino ou na mama a cada plantão. Intervalos largos e autorrelato de FGIP pedem leitura humilde dos hazard ratios (Rajaraman et al., 2016).
A revisão histórica de Linet e colegas resume que os excessos mais claros em trabalhadores médicos ocorreram em quem começou antes de 1950, sobretudo leucemia, mama e pele, quando as proteções eram menores (Linet et al., 2010).
Técnicos de radiologia e procedimentos com fluoroscopia
A US Radiologic Technologists Study (USRT) acompanha técnicos dos EUA com questionários e registros de câncer. Rajaraman e colegas compararam quem relatou trabalho com procedimentos intervencionistas guiados por fluoroscopia (FGIP) entre 1994 e 2008 com quem não relatou.
Cérebro, mama e melanoma
A mortalidade por câncer cerebral foi cerca de duas vezes maior entre quem fez FGIP (razão de riscos 2,55; intervalo de 95 por cento de 1,48 a 4,40) (Rajaraman et al., 2016). A incidência de melanoma (1,30; 1,05 a 1,61) e de câncer de mama feminino (1,16; 1,02 a 1,32) também se elevou; a mortalidade por câncer de mama não (1,07; 0,69 a 1,66) (Rajaraman et al., 2016). A incidência de todos os cânceres juntos, excluindo pele não melanoma, ficou no limite (1,08; 1,00 a 1,17), e os autores alertam para exposição estimada por autorrelato e para possíveis confundidores (Rajaraman et al., 2016).
Mama e tireoide na USRT: resposta à exposição
Numa análise de mama na USRT, Preston, Kitahara e colegas acharam associação positiva entre a radiação ocupacional estimada na mama e o risco de câncer de mama, com excesso de risco relativo de 0,07 a cada 100 mGy (intervalo de 95 por cento de −0,005 a 0,19) (Preston et al., 2016). A associação foi mais clara em mulheres nascidas antes de 1930, quando a exposição anual média estimada era bem maior (cerca de 37 mGy) do que em anos posteriores (cerca de 1,3 mGy) (Preston et al., 2016). O intervalo que quase toca o nulo pede cautela: o sinal existe, mas a precisão é limitada.
Para tireoide, Kitahara e colegas acompanharam 89 897 técnicos com 476 diagnósticos incidentes de câncer de tireoide. A exposição média estimada à tireoide foi de 57 mGy. O excesso de risco relativo por 100 mGy foi de −0,05 (intervalo de 95 por cento de menos de −0,10 a 0,34): o intervalo inclui o nulo, e o resultado é inconclusivo para excesso de câncer de tireoide na vida adulta com essa exposição (Kitahara et al., 2018). Isso não autoriza abandonar o protetor de tireoide: pelo princípio ALARA, ele segue recomendado mesmo com evidência inconclusiva, porque reduz a exposição do órgão a baixo custo (síntese nossa).
Pacientes pediátricos e tomografia aparecem em outro texto, sobre tomografia na criança e risco de câncer. Seguimento após acidentes radiológicos está em seguimento a longo prazo após exposição à radiação.
Séries de casos: o que medem e o que não
Roguin e colegas reuniram relatos de tumores cerebrais e de pescoço em médicos que faziam procedimentos intervencionistas. No relatório ampliado, 31 médicos (23 cardiologistas intervencionistas, 2 eletrofisiologistas e 6 radiologistas intervencionistas) tinham trabalhado longos períodos (latência média cerca de 23,5 anos) (Roguin et al., 2013). Entre os 26 médicos com lado informado, 22 tumores eram à esquerda (85 por cento), 3 à direita e 1 na linha média (Roguin et al., 2013). O relatório anterior já descrevia predomínio esquerdo e lembrava que o lado esquerdo da cabeça fica mais exposto na mesa (Roguin et al., 2012).
Série de casos não estima incidência nem risco relativo. Não há denominador de intervencionistas-ano, nem comparação formal com a população. Viés de notificação é esperado: casos chamativos chegam aos autores; casos sem tumor não. Jackson discutiu a mesma pergunta e pediu cautela antes de concluir causalidade só pela lateralidade (Jackson, 2012). A leitura honesta: a série gera hipótese biologicamente plausível e reforça proteção da cabeça e do pescoço; não quantifica o risco (síntese nossa).
Inquéritos e prevalência: ortopedia e hemodinâmica
Cirurgiãs ortopédicas
Chou e colegas enviaram questionário a mulheres fellow da AAOS. Entre 505 respostas (cerca de 70 por cento das elegíveis), a prevalência padronizada de qualquer câncer foi 1,85 vezes a esperada (intervalo de 1,19 a 2,76), e a de câncer de mama, 2,9 vezes (1,66 a 4,71), número que deve ser lido como hipótese, não como risco estabelecido (Chou et al., 2012). Na comparação entre especialidades, ortopedia manteve o excesso; urologia e cirurgia plástica, com menos fluoroscopia semanal, não (Chou et al., 2015). Cirurgiãs com câncer podem ter respondido mais ao questionário (viés de resposta), e a comparação com a população geral também distorce; o desenho não prova que a fluoroscopia seja a causa, mas justifica blindagem mamária adequada (síntese nossa).
Valone e colegas usaram fantoma antropomórfico e mostraram que o quadrante superior externo da mama pode ficar mal coberto conforme o tamanho e o tipo do avental, a posição do cirurgião e a orientação do arco em C (Valone et al., 2016). Hayda e colegas revisaram riscos ocupacionais para ortopedistas e reiteram o princípio ALARA, educação padronizada e dosimetria (Hayda et al., 2018).
Num hospital ortopédico italiano com proteção descrita como pobre, Mastrangelo e colegas acharam incidência acumulada de câncer de 29 por cento (9 em 31) entre ortopedistas, contra 4 por cento (7 em 158) em não expostos; a regressão ligou o trabalho como ortopedista ao risco de tumor (Mastrangelo et al., 2005). A amostra é pequena e o contexto de proteção inadequada limita a generalização.
Hemodinâmica e laboratório intervencionista
Andreassi e colegas compararam 466 profissionais expostos em hemodinâmica e eletrofisiologia com 280 não expostos. Em médicos muito expostos, a razão de chances ajustada para câncer foi 4,5 (intervalo de 0,9 a 25; p = 0,06): o intervalo inclui o nulo e o resultado é inconclusivo para câncer, embora outras condições tenham se associado à exposição (Andreassi et al., 2016).
Orme e colegas, em inquérito multicêntrico da Mayo Clinic com 1 543 respostas, não acharam diferença na prevalência de câncer entre quem participava de procedimentos com radiação e quem não (9 por cento em ambos os grupos) (Orme et al., 2015). A dor musculoesquelética foi maior nos expostos. Lidos juntos, Andreassi sugere um sinal que não atinge significância e Orme não acha diferença; nenhum dos dois encerra a questão, e o equilíbrio entre eles é o retrato honesto da evidência em hemodinâmica (síntese nossa). Klein e a SCAI descreveram, em pesquisa com 314 intervencionistas, limitação de carga por exposição e preocupações com catarata e câncer, sem estimar risco relativo populacional (Klein et al., 2015).
A tabela abaixo resume o desenho e o que cada tipo de estudo permite concluir (síntese nossa).
| Tipo de evidência | Exemplos | O que mede | Limite principal |
|---|---|---|---|
| Coorte com dosimetria individual | INWORKS (Richardson, Leuraud) | Mortalidade por câncer vs exposição acumulada em Gy | Poucos são profissionais de saúde; geometria diferente da fluoroscopia |
| Coorte de técnicos (USRT) | Rajaraman; Preston; Kitahara | Incidência e mortalidade vs FGIP ou mGy estimado | Autorrelato de procedimentos; intervalos amplos |
| Série de casos | Roguin 2012 e 2013 | Descrição e lateralidade de tumores | Ausência de denominador; viés de notificação; estimativa de risco indisponível |
| Inquérito de prevalência | Chou; Andreassi; Orme; Klein | Prevalência autorrelatada vs controles ou população | Viés de resposta; causalidade não estabelecida |
| Fantoma / dosimetria de bancada | Valone | Exposição relativa a regiões do tronco | Mede só exposição relativa, sem desfecho clínico de câncer |
Fontes: Richardson et al., 2023; Leuraud et al., 2015; Rajaraman et al., 2016; Roguin et al., 2013; Chou et al., 2012; Valone et al., 2016.
UTI, enfermagem e técnicos
Na UTI e no pronto-socorro, o aparelho móvel de raios X e o arco em C portátil colocam a enfermagem e os técnicos a poucos centímetros do paciente. Quem segura o chassi, quem estabiliza a cabeça e quem permanece na cabeceira durante a emissão recebe espalhamento. A cultura de "só um disparo rápido" sem avental é o oposto do ALARA. Anunciar a emissão, afastar quem não é essencial e vestir proteção mesmo em plantões lotados são medidas de equipe, não de herói individual (síntese nossa).
Orme e colegas lembram que a dor musculoesquelética foi maior em técnicos e enfermeiros do que em médicos assistentes no laboratório intervencionista, o que mostra que a carga física do avental e das posturas longas também é ocupacional (Orme et al., 2015). Câncer e coluna não competem: ambos pedem desenho de trabalho seguro.
Limites da evidência, em linguagem clara
Três regras de leitura evitam alarmismo e complacência (síntese nossa).
Primeiro: série de casos gera hipótese, não incidência. Roguin documenta tumores e lateralidade; não diz quantos intervencionistas por mil terão tumor.
Segundo: viés de notificação e de resposta. Quem teve câncer responde mais a inquéritos sobre câncer; quem está saudável some. Comparar prevalência de cirurgiãs com a população geral mistura fatores reprodutivos, rastreamento e ocupação.
Terceiro: intervalo de confiança que inclui o nulo é inconclusivo. Tireoide na USRT (−0,05 por 100 mGy, intervalo que cruza zero) (Kitahara et al., 2018) e câncer no estudo de Andreassi (razão de chances 4,5; 0,9 a 25) (Andreassi et al., 2016) não provam ausência nem presença de risco. Ausência de evidência não é evidência de ausência.
Como falar com a equipe sem alarmismo
Uma conversa útil no serviço separa três camadas. Camada 1: a biologia (radiação ionizante pode iniciar câncer; coortes ocupacionais mostram associação). Camada 2: a epidemiologia da sua especialidade (séries e inquéritos geram hipótese; coortes de técnicos sugerem sinais em cérebro, mama e melanoma; tireoide ficou inconclusiva). Camada 3: a ação (tempo, distância, blindagem, dosimetria, gestação). Misturar as três camadas num único "vamos ter câncer" ou num único "não há prova, então ignore" prejudica a segurança (síntese nossa).
Ler evidência com desenho e intervalo em mente é treino cotidiano: quem lê Roguin precisa evitar transformar série de casos em taxa de incidência, e quem lê Chou precisa lembrar quem respondeu ao questionário (síntese nossa).
A síntese editorial deste post é hipótese de trabalho: a exposição ocupacional prolongada à fluoroscopia é biologicamente capaz de elevar o risco de alguns cânceres; a magnitude nas salas de procedimentos modernas, com proteção correta, permanece mal quantificada; a resposta prática é reduzir a exposição sem abandonar procedimentos necessários.
Proteção prática na sala e na UTI
A ICRP 117 organiza a proteção em procedimentos sob fluoroscopia guiada: justificar o uso, otimizar a emissão e blindar a equipe (ICRP Publication 117). Na prática cotidiana:
- Tempo: fluoroscopia pulsada, último quadro retido, menos aquisição cinematográfica desnecessária.
- Distância: afastar-se do paciente e da fonte quando a imagem não exige mãos na mesa; o espalhamento cai rápido com a distância.
- Blindagem: avental bem ajustado (Valone mostrou falhas no quadrante superior externo), protetor de tireoide, anteparo móvel ou fixo, óculos plumbíferos quando indicados.
- Dosímetro: uso correto, leitura periódica e investigação de valores altos; dosímetro sob e sobre o avental conforme o protocolo local.
- Gestação: declarar cedo, reforçar blindagem e, se preciso, realocar tarefas; o aconselhamento fetal está em radiação na gestação.
- Ergonomia: avental pesado e posturas longas somam lesão musculoesquelética; ver também ergonomia do cirurgião e o cuidado com privação de sono no plantão.
Checklist operacional em uma frase por item
Antes do primeiro caso do dia: conferir avental (tamanho e tipo), protetor de tireoide, óculos se indicados, anteparo posicionado e dosímetro no lugar certo. Durante o caso: fluoroscopia pulsada, mãos fora do feixe primário, distância quando a imagem permitir, menos séries cinematográficas "por costume". Depois do caso: guardar o dosímetro, reportar valores altos e registrar falhas de equipamento. Em equipes com alta carga de coluna e trauma, a educação sobre blindagem mamária e tireoide deve entrar na residência com a mesma seriedade da técnica cirúrgica (Hayda et al., 2018; Valone et al., 2016).
Cirurgia vascular e hemodinâmica compartilham a mesma física de espalhamento. A diferença está no volume anual de procedimentos e na proximidade crônica da mesa. Quem acumula milhares de procedimentos ao longo de duas décadas é o público-alvo das séries de Roguin e dos inquéritos da SCAI, ainda que esses desenhos não meçam incidência (Roguin et al., 2013; Klein et al., 2015).
UTI e radiografia à beira do leito: quem segura o chassi ou permanece na cabeceira recebe espalhamento. Afastar quem não é essencial, usar avental e anunciar a emissão antes do disparo são gestos baratos e eficazes (síntese nossa).

O bem-estar da equipe não se resume à radiação. Fadiga, carga e cultura de segurança aparecem em textos como trabalhar doente: o presenteísmo do médico e lesão moral. Oncologia clínica do paciente, distinta do risco ocupacional, está em posts como câncer de mama: sequência do tratamento.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Ler um estudo ocupacional pede o mesmo cuidado com desenho, viés e intervalo de confiança que o jogo pede ao juntar pistas sem fechar cedo demais.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
A série de Roguin prova que intervencionistas terão tumor cerebral?
A série descreve tumores e lateralidade esquerda biologicamente plausível, sem denominador populacional nem risco relativo (Roguin et al., 2013; Jackson, 2012). Ela não prova o risco individual de cada intervencionista.
Técnicos que fazem fluoroscopia têm mais câncer?
Na USRT, mortalidade por câncer cerebral e incidência de melanoma e mama se elevaram entre quem relatou FGIP; outros sítios não (Rajaraman et al., 2016). A exposição foi estimada por história de trabalho.
O protetor de tireoide ainda faz sentido se a USRT não achou excesso?
Sim. A análise de tireoide foi inconclusiva (intervalo que inclui o nulo), não uma prova de ausência de risco (Kitahara et al., 2018). Pelo princípio ALARA, o protetor segue recomendado mesmo com evidência inconclusiva: é barato e reduz a exposição do órgão (Hayda et al., 2018).
Gestantes podem ficar na sala de hemodinâmica?
Com declaração antecipada da gravidez, blindagem reforçada, dosimetria e, se preciso, realocação. Detalhes de aconselhamento fetal estão no post sobre radiação na gestação.
Catarata entra neste texto?
Só por referência. Limiares, óculos e pele da equipe estão em cristalino e pele na radiologia intervencionista.
Take-home messages
- Coortes grandes (INWORKS, USRT) ligam exposição ocupacional prolongada a mais câncer sólido, leucemia e, em técnicos com FGIP, a mais mortalidade por câncer cerebral, com intervalos e limitações próprios de cada estudo; a INWORKS, de trabalhadores nucleares, vale como analogia (Richardson et al., 2023; Rajaraman et al., 2016).
- Séries de casos (Roguin) e inquéritos (Chou, Andreassi, Orme) geram hipótese e descrevem prevalência; não substituem coortes com denominador; Andreassi e Orme, juntos, ficam inconclusivos (Andreassi et al., 2016; Orme et al., 2015).
- Intervalo que inclui o nulo é inconclusivo; ausência de excesso na tireoide na USRT não autoriza tirar o protetor, que segue recomendado pelo princípio ALARA (Kitahara et al., 2018).
- Proteção prática: ALARA, fluoroscopia pulsada, distância, avental ajustado, protetor de tireoide, anteparo, dosímetro e protocolo local para gestação (ICRP Publication 117).
- A síntese deste post é hipótese de trabalho para a equipe, não cálculo individual de risco.
Jogue o caso do dia no NEXO e treine o raciocínio com pistas progressivas.
Referências
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