Escorpião na criança: gravidade, antiveneno e calor

Sumário
- Por que o escorpião pesa mais na criança
- Dor local ou envenenamento sistêmico: a fronteira que decide
- Coração e pulmão: edema pulmonar e miocardite
- Quem vai piorar: sinais e exames na chegada
- A decisão do antiveneno
- Calor, cidades e a expansão dos escorpiões
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Num caso fictício, um menino de três anos chora muito depois de calçar o tênis que ficou no quintal numa noite quente. A mãe vê um pequeno escorpião amarelado sair do calçado. Na chegada ao pronto-atendimento, quarenta minutos depois, o pé está dolorido e a criança agitada. Meia hora mais tarde, ela começa a vomitar sem parar, sua frio e respira mais rápido. A pergunta que o plantonista precisa responder é simples de formular e difícil de errar pouco: isto ainda é só dor local ou já é envenenamento sistêmico?
A picada de escorpião é um problema de saúde pública em boa parte do mundo, das Américas ao Magreb, do Oriente Médio à Índia. A maioria das picadas causa apenas dor, mas a criança pequena é quem mais morre, e a janela entre o quadro leve e o choque cardiogênico pode ser curta. Este texto reúne o que os estudos com texto completo mostram sobre a gravidade na criança, a decisão do antiveneno, o papel da prazosina e a forma como o calor e as cidades estão levando o escorpião para mais perto das casas.
Principais pontos
- Estimativas globais falam em mais de 1,2 milhão de picadas e mais de 3000 mortes por ano, com carga desproporcional em crianças (Vasconez-Gonzalez et al., 2025).
- A morte costuma vir de choque cardiogênico e edema pulmonar, dentro de uma tempestade autonômica causada pelo veneno (Rodrigo et al., 2017).
- O antiveneno contra Centruroides nos Estados Unidos e no México e contra Mesobuthus tamulus na Índia acelerou a melhora em ensaios controlados; para outros escorpiões do Velho Mundo, o benefício ficou inconclusivo (Rodrigo et al., 2017).
- Demora para chegar ao atendimento e idade menor se associaram a quadros mais graves numa grande série mexicana (González-Ruiz et al., 2026).
- No Brasil, a incidência de acidentes por escorpião subiu de forma acelerada e acompanha a temperatura com um mês de atraso (da Silva et al., 2026; Lacerda et al., 2025).
- Por que o escorpião pesa mais na criança
- Dor local ou envenenamento sistêmico: a fronteira que decide
- Coração e pulmão: edema pulmonar e miocardite
- Quem vai piorar: sinais e exames na chegada
- A decisão do antiveneno
- Calor, cidades e a expansão dos escorpiões
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
Por que o escorpião pesa mais na criança
Quase todos os escorpiões perigosos para o ser humano pertencem à família Buthidae (Rodrigo et al., 2017). Os gêneros mudam com a região: Centruroides no México, na América Central e no sudoeste dos Estados Unidos; Tityus na América do Sul e no Caribe; Androctonus, Leiurus e Buthus no norte da África e no Oriente Médio; Mesobuthus no Mediterrâneo oriental; Hottentotta no Sudeste Asiático (González-Ruiz et al., 2026). Essa diferença importa, porque cada antiveneno é feito contra venenos específicos e os ensaios clínicos não podem ser transpostos de um continente para outro sem cuidado.
A criança recebe a mesma quantidade de veneno que um adulto num corpo muito menor. A revisão sobre a carga global atribui a vulnerabilidade infantil à menor massa corporal e à maior suscetibilidade às complicações sistêmicas, e lembra que a mortalidade se concentra onde o acesso ao antiveneno e à terapia intensiva é difícil (Vasconez-Gonzalez et al., 2025). No Brasil, o gênero Tityus é a principal causa dos acidentes e aumenta o risco de morte em crianças com menos de dez anos (Lacerda et al., 2025).
Idade e peso na série mexicana
O estudo transversal retrospectivo de González-Ruiz e colegas analisou 3145 pacientes atendidos num pronto-socorro do oeste do México entre 2021 e 2025. Cada ano a mais de idade reduziu as chances de envenenamento moderado ou grave (aOR 0,772 por ano; IC 95 por cento de 0,698 a 0,851), e o peso maior também foi protetor (González-Ruiz et al., 2026). Na análise por faixa etária, menores de um ano tiveram mediana de 5,5 sintomas, contra 4 entre crianças de três a seis anos (González-Ruiz et al., 2026). Os autores lembram que o desenho retrospectivo limita a inferência causal e que confundimento residual não pode ser descartado.
Na coorte pediátrica de Belo Horizonte, as crianças que evoluíram para quadro grave tinham peso menor, até metade da mediana do grupo leve, e tendiam a ser mais novas, embora a idade em si não tenha alcançado significância estatística (dos Santos et al., 2026).

Dor local ou envenenamento sistêmico: a fronteira que decide
A dor no local da picada é quase universal. Ela apareceu em 95,5 por cento dos pacientes da série mexicana (González-Ruiz et al., 2026) e em 98,5 por cento das crianças da coorte brasileira (dos Santos et al., 2026). Parestesia local e sensação de corpo estranho na garganta também são comuns nas picadas por Centruroides (González-Ruiz et al., 2026).
O que separa o quadro leve do grave é o envenenamento sistêmico. As toxinas do escorpião se ligam aos canais de sódio dependentes de voltagem e impedem a sua inativação, o que prolonga a despolarização e excita ao mesmo tempo o sistema simpático e o parassimpático (Rodrigo et al., 2017). O resultado é uma tempestade autonômica: taquicardia ou bradicardia, hipertensão ou hipotensão, salivação e lacrimejamento excessivos, incontinência e edema pulmonar (Rodrigo et al., 2017).
Os sinais que mudam a conduta
Na coorte pediátrica de Belo Horizonte, as variáveis que diferiram entre leves e graves foram vômitos incontroláveis, sudorese intensa, frequência respiratória, escala de coma de Glasgow, prostração, rebaixamento sensorial, peso e glicemia (dos Santos et al., 2026). Vômitos repetidos aparecem em vários estudos como sinal de alarme, e na série de Silva e colegas eles se associaram à transferência para UTI (Silva et al., 2026).
A leitura a seguir é síntese nossa. Dor isolada, mesmo intensa, numa criança tranquila entre as crises de choro, sugere quadro local. Vômitos que não param, suor frio, agitação, sonolência, salivação, taquipneia, taquicardia ou extremidades frias indicam que o veneno já está agindo à distância, e a conversa muda de analgesia para monitorização e antiveneno. Quem trabalha com crianças conhece o valor de reavaliar em intervalos curtos, assunto do texto sobre escores de alerta pediátricos, e esse olhar se treina com exercícios de raciocínio clínico para pediatria.
Coração e pulmão: edema pulmonar e miocardite
As mortes por picada de escorpião se devem em geral ao choque cardiogênico e ao edema pulmonar (Rodrigo et al., 2017). A descarga maciça de adrenalina e noradrenalina provoca primeiro taquicardia, hipertensão e agitação; depois, com a disfunção cardíaca, surgem desconforto respiratório, líquido nos pulmões e queda da pressão (Fereidooni et al., 2023).
A revisão sistemática de Fereidooni e colegas reuniu 703 pacientes de 30 relatos e 34 séries com miocardite associada à picada. O quadro foi descrito sobretudo em crianças, com edema pulmonar em 60,7 por cento e choque ou hipotensão em 45,8 por cento (Fereidooni et al., 2023). A taquicardia sinusal foi o achado mais comum no eletrocardiograma, em 82 por cento, seguida de alterações de ST-T em 64,6 por cento, e 36,7 por cento dos pacientes precisaram de ventilação mecânica (Fereidooni et al., 2023). A mortalidade nos quadros confirmados foi estimada em 7,3 por cento, e quase todos os sobreviventes recuperaram rápido a função do ventrículo esquerdo (Fereidooni et al., 2023).
Como ler esses números
Os próprios autores apontam que a revisão se apoia em relatos e séries, que algumas séries contaram apenas pacientes internados em UTI, o que pode ter exagerado a frequência das manifestações e das mortes, e que outras complicações cardíacas ficaram fora da busca (Fereidooni et al., 2023). Os percentuais descrevem quem chegou a ter miocardite documentada, e não o risco de toda criança picada.
A recomendação dos autores é considerar miocardite na criança envenenada com sintomas cardiorrespiratórios e fazer triagem com marcadores cardíacos seriados e ecocardiograma (Fereidooni et al., 2023). O tratamento descrito incluiu inotrópicos, em especial dobutamina, prazosina, diuréticos, nitroglicerina e digoxina quando indicados (Fereidooni et al., 2023). O ultrassom à beira do leito tem aqui um papel prático, como discutido no texto sobre diagnóstico com poucos recursos.

Quem vai piorar: sinais e exames na chegada
Dois estudos brasileiros recentes tentaram prever, na admissão, qual paciente vai precisar de mais cuidado. Nenhum dos dois passou por validação externa: os cortes de glicemia e o escore de UTI foram desenvolvidos e testados nos dados de um único centro.
Glicemia de admissão na coorte pediátrica
Dos Santos e colegas conduziram uma coorte observacional prospectiva no Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, entre setembro de 2023 e março de 2024, com 67 crianças e adolescentes de 0 a 17 anos picados por escorpião, em sua maioria Tityus serrulatus (dos Santos et al., 2026). Nove crianças evoluíram para quadro moderado ou grave, 13,4 por cento do grupo, definido pela necessidade de antiveneno (dos Santos et al., 2026).
Uma glicemia de admissão a partir de 142 mg/dL teve especificidade de 100 por cento para os quadros graves, com área sob a curva ROC de 0,979 (IC 95 por cento de 0,937 a 1,000) (dos Santos et al., 2026). O corte de 105 mg/dL maximizou a sensibilidade, de 100 por cento, com especificidade menor, de 79,3 por cento (dos Santos et al., 2026). As limitações declaradas são a amostra pequena, com nove crianças no grupo grave, o centro único, o desenho associativo que impediu a validação formal dos cortes, a falta de comparação com troponina, CK-MB ou marcadores inflamatórios e a ausência de avaliação de desfecho com condutas guiadas pela glicemia. Os autores pedem que os cortes sejam tratados como hipóteses clínicas e que passem por validação externa multicêntrica antes do uso rotineiro.
Escore de transferência para UTI
Silva e colegas analisaram 146 pacientes de um centro toxicológico de Minas Gerais atendidos entre 2019 e 2024 e construíram modelos de regressão para prever transferência para UTI (Silva et al., 2026). Hiperamilasemia, vômitos e disfunção cardíaca ao ecocardiograma ou ao ultrassom à beira do leito se associaram fortemente à necessidade de terapia intensiva (Silva et al., 2026). O modelo final simplificado, transformado em nomograma, teve área sob a curva de 0,92, e no ponto de corte de 0,567 alcançou especificidade de 0,95 e sensibilidade de 0,78 (Silva et al., 2026).
Os autores escrevem que nenhum modelo determina com perfeição quem vai para a UTI a partir de variáveis da chegada e que o escore funciona melhor como teste confirmatório quando já existe suspeita clínica. Entre as limitações, citam dados incompletos, que exigiram imputação múltipla, e a raridade relativa dos desfechos graves; nos cinco conjuntos imputados, antes do reajuste, a área sob a curva média de um modelo intermediário, o quinto, foi de 0,648, sinal de quanto o desempenho depende dos dados usados. O escore não foi testado em outra população, e por isso ainda não tem validação externa (Silva et al., 2026).
Tempo até o atendimento
Na série mexicana, cada hora a mais até o atendimento aumentou as chances de quadro moderado ou grave (aOR 1,08 por hora; IC 95 por cento de 1,013 a 1,164) (González-Ruiz et al., 2026). O uso de remédios caseiros em geral, sobretudo leite e alho, teve associação inconclusiva com a gravidade (aOR 1,019; IC 95 por cento de 0,857 a 1,213) (González-Ruiz et al., 2026). O alho por via oral se associou a quadros mais graves, mas os autores interpretam o achado como reflexo de atraso na busca por atendimento, e não como efeito biológico do alho.
A decisão do antiveneno
A revisão sistemática com metanálise de Rodrigo e Gnanathasan reuniu ensaios clínicos controlados, randomizados ou não, sobre o manejo da picada em adultos e crianças (Rodrigo et al., 2017). O ponto central da revisão é que antiveneno não é uma entidade única: cada recomendação vale para o local, a espécie e a faixa etária dos ensaios.
Escorpiões do Novo Mundo
Para Centruroides nos Estados Unidos e no México, o antiveneno reverteu a síndrome clínica mais rápido do que a ausência de soro em crianças, com resolução dos sintomas em 4 horas (RR 0,02; IC 95 por cento de 0,01 a 0,06; 322 participantes; três ensaios) (Rodrigo et al., 2017). Essa é a evidência mais forte a favor do antiveneno em pediatria, e vale para menores de 18 anos picados por Centruroides (Rodrigo et al., 2017).
Escorpiões do Velho Mundo
Num ensaio randomizado na Tunísia, 825 pacientes receberam 20 mL de antiveneno bivalente contra Androctonus australis e Buthus occitanus ou placebo, sem diferença nas taxas de cura, de prevenção da piora ou de internação após 4 horas (Rodrigo et al., 2017). Ao comentar uma metanálise anterior, a revisão relata que o efeito nos escorpiões do Velho Mundo foi inconclusivo (diferença de risco de menos 0,05; IC 95 por cento de menos 0,28 a 0,18) (Rodrigo et al., 2017). Na mesma revisão, os corticoides não trouxeram benefício no ensaio tunisiano (Rodrigo et al., 2017).
Na Índia, o antiveneno contra Mesobuthus tamulus somado à prazosina encurtou a resolução dos sintomas em comparação com a prazosina isolada (diferença média de 12,59 horas a menos; IC 95 por cento de 14,01 a 11,17 horas a menos; 173 participantes; três ensaios) (Rodrigo et al., 2017). Os autores apontam limites importantes: poucos países estudados, controles históricos em alguns ensaios, tratamentos adicionais a critério do médico e vieses de seleção, detecção e relato.
Onde entra a prazosina
A prazosina, um bloqueador alfa-1, é usada contra a tempestade adrenérgica. Na revisão de Rodrigo, ela pode ser melhor do que o suporte isolado nas picadas por M. tamulus em crianças, com nível de evidência 3b (Rodrigo et al., 2017). Shokry Zaghary e Abd ElKader fizeram um estudo comparativo prospectivo randomizado no Egito, com 100 pacientes de mediana de idade de 7 anos, comparando antiveneno com prazosina e antiveneno isolado (Shokry Zaghary et al., 2025). O grupo da prazosina precisou de menos frascos de antiveneno, mediana de 6 contra 9 (Shokry Zaghary et al., 2025).
A mortalidade foi de 8 por cento com prazosina e de 20 por cento sem ela, mas a diferença não teve significância estatística, e o resultado deve ser lido como inconclusivo (Shokry Zaghary et al., 2025). Os autores descrevem o estudo como simples-cego, com risco inerente de viés e sem randomização estratificada por frequência cardíaca e pressão arterial. Na discussão, os autores citam ainda a recomendação de outro trabalho de preferir dobutamina à prazosina em edema pulmonar agudo, insuficiência cardíaca ou choque; isso não foi testado nem é um achado do estudo egípcio (Shokry Zaghary et al., 2025).
Uma sequência possível no pronto-socorro
A sequência a seguir é síntese nossa, a partir das fontes acima, e precisa ser ajustada ao protocolo local e à espécie da região:
- Identificar o escorpião quando possível, sem atrasar o atendimento, e registrar a hora da picada.
- Tratar a dor e observar a criança com reavaliações frequentes de frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial, perfusão e nível de consciência.
- Diante de sinais sistêmicos, como vômitos repetidos, sudorese intensa, agitação ou sonolência, taquipneia ou alteração hemodinâmica, indicar o antiveneno específico da região sem esperar exames.
- Em hipertensão ou sinais adrenérgicos, discutir prazosina; em edema pulmonar ou choque, priorizar suporte ventilatório, inotrópico e terapia intensiva.
- Pedir glicemia, troponina e ecocardiograma ou ultrassom à beira do leito como apoio à estratificação, lembrando que nenhum corte foi validado externamente.
A lógica de decidir pelo soro a partir de sinais clínicos, e não de exames, se parece com a do acidente ofídico, mas os mecanismos são outros; o texto sobre mordida de cobra e decisão do antiveneno trata da coagulopatia e da neurotoxicidade das serpentes.

Calor, cidades e a expansão dos escorpiões
No Brasil, o estudo ecológico e descritivo de Lacerda e colegas analisou os 5570 municípios entre 2012 e 2024 e contou 1 729 023 notificações de escorpionismo e 1230 mortes (Lacerda et al., 2025). A incidência subiu de 31,8 para 142,82 por 100 000 habitantes, um aumento de 349 por cento, com morte mais frequente em crianças e acidentes mais frequentes em idosos (Lacerda et al., 2025). Minas Gerais, São Paulo e Bahia concentraram os aglomerados de alto risco, e a região Norte teve padrão oposto. Os autores apontam como limitação a falta de informação sobre a espécie envolvida em cada acidente.
Temperatura com um mês de atraso
Da Silva e colegas fizeram uma análise nacional de série temporal de 2007 a 2025, cruzando os registros do SINAN com dados climáticos do TerraClimate num modelo não linear de defasagens distribuídas (da Silva et al., 2026). O crescimento foi não linear, com uma quebra estrutural por volta de 2011 que marca aceleração, e os meses de setembro a novembro concentraram mais acidentes. A temperatura teve a associação mais forte, com pico na defasagem de um mês (r de cerca de 0,57), e a chuva teve efeito mais fraco e mais tardio (da Silva et al., 2026).
Os autores descrevem o escorpionismo como sistema sensível ao clima, movido pela interação entre variabilidade ambiental e expansão urbana. As limitações que eles mesmos listam são os dados mensais agregados, a subnotificação, a ausência de variáveis socioeconômicas no modelo e o fato de o desenho mostrar associação, e não causalidade.
Um exemplo fora dos trópicos
Em Bodrum, na costa do Egeu, na Turquia, um estudo observacional retrospectivo de centro único reuniu 473 atendimentos de emergência por picada de escorpião entre 2015 e 2023 (İşkorur et al., 2026). Nos anos acima da temperatura média regional, a prevalência média foi de 0,21 por cento, contra 0,14 por cento nos anos mais frios, e a temperatura média se correlacionou com a incidência (r de 0,878) (İşkorur et al., 2026). Os autores alertam que o turismo sazonal, a migração para a cidade durante a pandemia de covid-19 e mudanças urbanas podem ter alterado o número de atendimentos independentemente do clima.
O que a cidade oferece ao escorpião
A revisão de Vasconez-Gonzalez e colegas descreve como casas de materiais pouco duráveis, com frestas e perto de abrigos naturais, favorecem a entrada do escorpião, e cita limpar entulho e vedar frestas entre as medidas comunitárias, e lembra que, no meio rural, crianças que ajudam no trabalho agrícola ficam mais expostas (Vasconez-Gonzalez et al., 2025). México, Brasil, Irã, Argélia e Marrocos aparecem entre os países de maior incidência (Vasconez-Gonzalez et al., 2025). Animais e vetores que mudam de território com o clima são um tema recorrente, como no texto sobre carrapatos em expansão e no de One Health.
As orientações à família a seguir são síntese nossa, compatíveis com as fontes: sacudir sapatos, roupas e toalhas antes de usar, afastar entulho e lixo das paredes da casa, vedar ralos e frestas e procurar atendimento logo após a picada de uma criança, em vez de esperar em casa ou tentar remédios caseiros. Em ondas de calor, a vigilância precisa ser maior, assunto que se soma ao do texto sobre calor extremo e desidratação.
Estudos em resumo
| Estudo | Desenho | População | Achado principal |
|---|---|---|---|
| Rodrigo, 2017 | Revisão sistemática e metanálise de ensaios controlados | Adultos e crianças picados por escorpião | Antiveneno eficaz contra Centruroides e M. tamulus; inconclusivo para outros do Velho Mundo (Rodrigo et al., 2017) |
| Shokry Zaghary, 2025 | Estudo comparativo prospectivo randomizado | 100 pacientes no Egito, mediana de 7 anos | Menos frascos com prazosina; mortalidade inconclusiva (Shokry Zaghary et al., 2025) |
| Fereidooni, 2023 | Revisão sistemática de relatos e séries | 703 pacientes com miocardite | Edema pulmonar e choque frequentes, sobretudo em crianças (Fereidooni et al., 2023) |
| dos Santos, 2026 | Coorte observacional prospectiva | 67 crianças em Belo Horizonte | Glicemia de admissão alta nos quadros graves; cortes ainda hipotéticos (dos Santos et al., 2026) |
| González-Ruiz, 2026 | Estudo transversal retrospectivo | 3145 pacientes no oeste do México | Demora no atendimento e idade menor associadas à gravidade (González-Ruiz et al., 2026) |
| da Silva, 2026 | Série temporal nacional com modelo de defasagens | Brasil, 2007 a 2025 | Expansão acelerada ligada à temperatura do mês anterior (da Silva et al., 2026) |
Fontes: dados de Rodrigo et al., 2017, Shokry Zaghary et al., 2025, Fereidooni et al., 2023, dos Santos et al., 2026, González-Ruiz et al., 2026 e da Silva et al., 2026.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Perceber o momento em que uma dor local vira envenenamento sistêmico é o mesmo exercício de juntar sinais, sintomas e história que aparece no texto sobre Sinais, sintomas e história: como interpretar o que o paciente traz.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
Toda criança picada por escorpião precisa de antiveneno?
A maioria das picadas causa só dor local. Na coorte pediátrica de Belo Horizonte, 58 de 67 crianças tiveram quadro leve e foram apenas observadas (dos Santos et al., 2026). O antiveneno é indicado quando surgem sinais sistêmicos, e a observação próxima nas primeiras horas é o que permite reconhecê-los.
Quanto tempo observar a criança?
Os estudos citados variam no tempo de observação, e a decisão depende do protocolo local. Na coorte de Belo Horizonte, a permanência média foi de 8,4 horas nos quadros leves e de 44,2 horas nos moderados ou graves (dos Santos et al., 2026). Por síntese nossa, quanto menor a criança e mais perigosa a espécie da região, mais longa deve ser a observação.
A prazosina substitui o antiveneno?
Pelas fontes revisadas, a prazosina funciona como complemento. Na Índia, a associação de antiveneno e prazosina superou a prazosina isolada (Rodrigo et al., 2017), e no Egito a adição de prazosina reduziu o número de frascos de antiveneno, sem diferença significativa de mortalidade (Shokry Zaghary et al., 2025).
Gelo, leite ou alho ajudam?
Na série mexicana, os remédios caseiros em geral tiveram associação inconclusiva com a gravidade, e o alho por via oral se associou a quadros piores, provavelmente por atrasar a ida ao hospital (González-Ruiz et al., 2026). O que tem associação consistente com gravidade é a demora em procurar atendimento.
O calor aumenta mesmo as picadas?
Estudos ecológicos no Brasil e na Turquia mostram associação entre temperatura mais alta e mais acidentes (da Silva et al., 2026; İşkorur et al., 2026). Esses desenhos mostram associação, e os autores reconhecem que urbanização, turismo e notificação também mudam os números.
Take-home messages
- Dor local é quase universal; vômitos repetidos, sudorese, agitação, taquipneia e alteração hemodinâmica marcam o envenenamento sistêmico.
- A criança pequena e de baixo peso tem maior risco de quadro grave, e cada hora de atraso pesa (González-Ruiz et al., 2026).
- Edema pulmonar e choque cardiogênico são as principais causas de morte; ecocardiograma e troponina ajudam a reconhecer a miocardite (Fereidooni et al., 2023).
- O benefício do antiveneno depende da espécie e do produto: forte para Centruroides e M. tamulus, inconclusivo para outros escorpiões do Velho Mundo (Rodrigo et al., 2017).
- Calor e cidade estão ampliando o território do escorpião, e a orientação às famílias faz parte do atendimento (da Silva et al., 2026).
Jogue o caso do dia no NEXO e treine o raciocínio com pistas progressivas.
Referências
- Rodrigo C, Gnanathasan A. Management of scorpion envenoming: a systematic review and meta-analysis of controlled clinical trials. Syst Rev. 2017;6(1):74. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28390429/).
- Shokry Zaghary MM, Abd ElKader MM. A comparative study of using scorpion antivenom versus scorpion antivenom and prazosin drug for scorpion stings management in Sohag University Hospitals. BMC Pharmacol Toxicol. 2025;26(1):31. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39953590/).
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- González-Ruiz HA, Huerta-Olvera SG, Plascencia-Jiménez JA, et al. Factors associated with clinical severity in scorpion envenomation: a retrospective cross-sectional study in western Mexico between 2021 and 2025. Front Toxicol. 2026;8:1880720. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42565038/).
- da Silva EB, de Oliveira Júnior JF, de Souza A, et al. Nonlinear expansion, spatial diffusion, and climate-driven dynamics of scorpionism in Brazil: a nationwide time-series and DLNM analysis (2007 a 2025). Int J Biometeorol. 2026;70(9):245. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42671639/).
- Lacerda AB, Cândido D, de Azevedo TS, et al. Scorpionism in Brazil: Space-time approach and risk areas in 2012 to 2024. PLoS Negl Trop Dis. 2025;19(10):e0013602. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41091795/).
- İşkorur C, Mutlu H, Korkut M, et al. The relationship between the scorpion sting incidents that occurred in Bodrum, Turkey, and local climatic variables: A retrospective observational study. Medicine (Baltimore). 2026;105(20):e48752. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42152307/).
- Vasconez-Gonzalez J, Alexander-León H, Noboa-Lasso ML, et al. Scorpionism: a neglected tropical disease with global public health implications. Front Public Health. 2025;13:1603857. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40529688/).



