Plaquetopenia induzida por heparina: escore 4T e conduta

Tampas coloridas de quatro tubos de coleta de sangue, cinza, roxas e vermelha, em fundo escuro
Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. O que é a plaquetopenia induzida por heparina
  3. O escore 4T à beira do leito
  4. Primeiras horas: o que a enfermagem faz
  5. Anticoagulação sem heparina
  6. Raciocínio passo a passo no caso
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Checklist final
  10. Referências

Uma mulher de 68 anos fez uma artroplastia total do quadril e recebe heparina subcutânea para prevenir trombose. No pré-operatório, as plaquetas estavam em 260 mil por microlitro. No sexto dia depois da cirurgia, o hemograma de rotina mostra 118 mil. A técnica de enfermagem comenta que a perna operada está mais inchada que ontem, e a paciente diz que a panturrilha dói quando ela apoia o pé. Ela não sangra, não tem febre e está animada para a alta. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para a enfermagem. O número de plaquetas ainda parece aceitável, e a perna inchada parece um detalhe esperado depois de uma prótese de quadril. Juntos, os dois achados podem apontar para uma reação imunológica grave à heparina, que causa trombose apesar da plaquetopenia. O texto não substitui o protocolo da sua instituição nem a prescrição médica. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: perceber que duas pistas pequenas contam a mesma história.

Principais pontos

  • A plaquetopenia induzida por heparina (HIT, na sigla em inglês) costuma surgir entre o quinto e o décimo dia depois do início da heparina.
  • Uma queda de 50 por cento ou mais das plaquetas importa, mesmo que o número final ainda pareça normal.
  • O risco principal não é sangrar, e sim trombosar: veias das pernas, pulmão e, às vezes, artérias.
  • O escore 4T estima a probabilidade antes dos exames e vai de 0 a 8 pontos.
  • Na suspeita, toda heparina é suspensa, inclusive a dos flushes de cateter, e começa um anticoagulante sem heparina.
  • A varfarina só entra depois da recuperação das plaquetas e sobreposta a outro anticoagulante.

Por que este é um cenário de raciocínio

A plaquetopenia induzida por heparina é uma complicação comum e grave da terapia com heparina, com alta morbidade e mortalidade; reconhecê-la depressa importa para suspender a heparina e iniciar outro anticoagulante (Franchini, 2005). O cenário é bom para treino porque contraria um reflexo: plaqueta baixa costuma lembrar sangramento, e a resposta automática seria até suspender toda anticoagulação. Aqui, a lógica é a oposta. O paciente com HIT precisa de anticoagulação, só que sem heparina.

O quadro também testa o olhar para tendências. Um valor de 118 mil por microlitro, isolado, não chama atenção. Comparado aos 260 mil do pré-operatório, é uma queda de mais da metade. O post sobre sinais, sintomas e história mostra como ler um achado no contexto do paciente, e o post sobre tomada de decisão clínica discute como escolher o exame que muda a conduta.

O que é a plaquetopenia induzida por heparina

A HIT é uma reação imune. Anticorpos IgG dependentes de heparina se ligam a complexos formados pelo fator plaquetário 4 e pela heparina na superfície das plaquetas; isso ativa as plaquetas, causa plaquetopenia e gera trombina (Linkins e colaboradores, 2018). A revisão de Marchetti e colaboradores descreve o modelo atual como uma doença imune em várias etapas, que depende da exposição simultânea ao fator plaquetário 4, uma molécula do próprio corpo, e à heparina, em proporções específicas (Marchetti e colaboradores, 2021).

Quando aparece

O início típico é entre 5 e 10 dias depois da primeira exposição à heparina (Franchini, 2005). Há duas exceções. No início rápido, as plaquetas caem nos primeiros três dias em quem recebeu heparina recentemente; no início tardio, a queda começa cinco dias ou mais depois de a heparina ser suspensa (Franchini, 2005). Num estudo com 100 pacientes com HIT depois de cirurgia cardíaca, a mediana do início foi o sétimo dia do pós-operatório; cerca de 10 por cento tiveram apresentação precoce nos primeiros quatro dias, explicada por exposição recente à heparina (Warkentin e colaboradores, 2022).

Como as plaquetas se comportam

A plaquetopenia costuma ser moderada, com mediana entre 50 e 80 mil por microlitro, mas o menor valor pode continuar acima de 150 mil e mesmo assim representar uma queda de 50 por cento ou mais em relação ao valor anterior à heparina (Franchini, 2005). No estudo de cirurgia cardíaca, 76 dos 100 pacientes tiveram queda de 50 por cento ou mais, e quase todos os outros tiveram queda entre 30 e 49,9 por cento (Warkentin e colaboradores, 2022). A queda também é rápida: depois de começar, levou em mediana só mais dois dias para chegar a 50 por cento (Warkentin e colaboradores, 2022).

O risco é de trombose

Sem anticoagulação alternativa, complicações tromboembólicas podem ocorrer em 30 a 75 por cento dos pacientes (Grouzi, 2014). Trombose venosa profunda e embolia pulmonar são muito frequentes no pós-operatório; num estudo citado por Franchini, a trombose venosa profunda em pacientes ortopédicos que recebiam heparina para profilaxia foi de 17,8 por cento e subiu para 88,9 por cento entre os que desenvolveram HIT (Franchini, 2005). Pacientes com cateter venoso central e HIT têm mais trombose venosa do membro superior, e áreas de necrose no local das injeções de heparina também podem ser uma manifestação da doença (Franchini, 2005).

Quem tem mais risco

O risco depende do tipo de heparina, das características do paciente e da história clínica; a HIT pode ocorrer depois de qualquer exposição, inclusive flushes de heparina e cateteres revestidos de heparina, e pacientes cirúrgicos têm risco maior que os clínicos (Grouzi, 2014). Em artroplastia de quadril, Franchini cita um estudo em que a HIT ocorreu em 9 de 332 pacientes com heparina não fracionada e em nenhum de 333 com heparina de baixo peso molecular (2,7 contra 0 por cento) (Franchini, 2005). Numa grande base americana de internações, a incidência acumulada de HIT foi de 0,02 por cento depois de artroplastia de quadril e 0,01 por cento depois de artroplastia de joelho; quando ocorreu, aumentou a mortalidade hospitalar, o tempo de internação e o custo (Chen e colaboradores, 2021).

Radiografia frontal de um joelho direito com prótese total, cerca de três meses depois da cirurgia
Pacientes de cirurgia ortopédica de grande porte recebem profilaxia com heparina e fazem parte do grupo em que a HIT precisa ser lembrada. Foto: autor desconhecido, Wikimedia Commons, domínio público.

O escore 4T à beira do leito

O escore 4T estima a probabilidade de HIT antes dos exames. Ele soma de 0 a 2 pontos em quatro categorias: o grau da plaquetopenia, o momento da queda, a presença de trombose ou outras complicações e a existência de outras causas para a queda; o total vai de 0 a 8 (Babuin e Pengo, 2010). A tabela resume os critérios publicados na revisão de Babuin e Pengo.

Categoria2 pontos1 ponto0 ponto
PlaquetopeniaQueda acima de 50 por cento e menor valor de 20 mil ou maisQueda de 30 a 50 por cento ou menor valor de 10 a 19 milQueda abaixo de 30 por cento ou menor valor abaixo de 10 mil
Momento da quedaEntre o 5º e o 10º dia, ou em até 1 dia com heparina nos últimos 30 diasDepois do 10º dia, momento incerto, ou em menos de 1 dia com heparina entre 30 e 100 dias antesAntes do 4º dia, sem heparina recente
Trombose ou outras complicaçõesTrombose nova comprovada, necrose de pele ou reação sistêmica aguda após bolo intravenoso de heparinaTrombose progressiva ou recorrente, lesões eritematosas de pele, trombose suspeita não comprovadaNenhuma
Outras causas da quedaNenhuma evidentePossívelDefinida

Fonte da tabela: (Babuin e Pengo, 2010). O dia da primeira exposição à heparina conta como dia zero.

Como ler o resultado

Na mesma tabela, 6 a 8 pontos indicam probabilidade alta, 4 a 5 intermediária e 0 a 3 baixa (Babuin e Pengo, 2010). A revisão de Marchetti e colaboradores lembra que o 4T é recomendado pela Sociedade Americana de Hematologia; um escore baixo pode afastar HIT, enquanto um intermediário ou alto pede exames (Marchetti e colaboradores, 2021). Os autores fazem uma ressalva: há estudos com casos confirmados de HIT e escore baixo, o que levanta dúvida sobre afastar a doença com 3 pontos (Marchetti e colaboradores, 2021).

Aplicando ao caso

A paciente da cena caiu de 260 para 118 mil, uma queda de cerca de 55 por cento, com menor valor acima de 20 mil: 2 pontos. A queda apareceu no sexto dia de heparina: 2 pontos. A perna inchada e dolorida sugere trombose, ainda não comprovada: 1 ponto. Se não houver outra causa evidente para a queda, ela soma mais 2 pontos. O total seria 7, probabilidade alta. Se o ultrassom confirmar trombose venosa profunda, o terceiro item sobe para 2 pontos.

O papel do registro

Os dados que alimentam o escore, como o valor de base das plaquetas, o dia de início da heparina e o aparecimento de sinais de trombose, costumam estar no registro de enfermagem. Organizá-los numa linha do tempo facilita a decisão médica e evita que o escore seja calculado com informação incompleta.

Exames de laboratório

O diagnóstico da HIT continua clínico, apoiado por exames de laboratório; os critérios incluem plaquetopenia (queda para menos de 100 mil por microlitro ou queda de mais de 50 por cento em relação ao valor de base), exclusão de outras causas e resolução da plaquetopenia depois da suspensão da heparina (Franchini, 2005).

Os imunoensaios detectam anticorpos contra o complexo fator plaquetário 4 e heparina. Eles são sensíveis, mas pouco específicos. Dependendo do contexto clínico, só 10 a 50 por cento dos pacientes com imunoensaio positivo têm anticorpos capazes de ativar plaquetas, e a HIT não pode ser confirmada por imunoensaio isolado por causa do baixo valor preditivo positivo (Minet e colaboradores, 2017). Por isso o 4T vem antes: ele evita pedir o exame para quem tem probabilidade baixa e reduz resultados positivos sem significado.

Os ensaios funcionais verificam se os anticorpos realmente ativam plaquetas na presença de heparina (Minet e colaboradores, 2017). O ensaio de liberação de serotonina é considerado o padrão de referência, mas esses testes têm limites de sensibilidade, especificidade, complexidade e acesso (Tardy e colaboradores, 2020). Na prática, o resultado pode demorar.

A consequência para a beira do leito é importante: com probabilidade intermediária ou alta, a conduta não espera o resultado. Grouzi resume o princípio geral de que, em pacientes com suspeita de HIT de probabilidade não baixa ou com HIT confirmada, a heparina deve ser suspensa e substituída (Grouzi, 2014). Plaquetas em queda no pós-operatório têm outras causas, organizadas na tabela. O post sobre incerteza diagnóstica discute como decidir quando os exames ainda não chegaram.

HipótesePistasO que a enfermagem verifica
HITQueda de 50 por cento ou mais entre o 5º e o 10º dia de heparina, tromboseValor de base, dia de início da heparina, membros, locais de injeção
Hemodiluição ou consumo da cirurgiaQueda nos primeiros dias, recuperação progressivaData da queda, volume infundido, sangramento
Infecção ou sepseFebre, taquicardia, foco infecciosoSinais vitais, ferida operatória, acessos
Outros medicamentosAntibiótico ou outro fármaco iniciado recentementeLista de medicamentos e datas
Erro de coletaAmostra coagulada, valor isolado e discordanteRepetição do exame, aspecto da amostra

O post sobre diagnóstico diferencial com pistas mostra como organizar essa lista sem perder a hipótese mais perigosa.

Primeiras horas: o que a enfermagem faz

Comunicar com clareza

Uma mensagem estruturada ajuda: "Paciente de 68 anos no sexto dia de artroplastia de quadril, com heparina subcutânea profilática. Plaquetas caíram de 260 para 118 mil, mais da metade. Perna operada mais inchada, com dor na panturrilha. Sem sangramento. Suspeito de plaquetopenia induzida por heparina e peço avaliação antes da próxima dose." Essa frase coloca valor de base, momento, sinal de trombose e o pedido concreto.

Suspender toda heparina

O manejo da HIT exige a suspensão de todas as formas de heparina e de heparina de baixo peso molecular, incluindo flushes de heparina e cateteres revestidos de heparina (Grouzi, 2014). Aqui a enfermagem tem papel central, porque conhece as fontes escondidas: a solução heparinizada para manter a via do cateter, o flush de cateter totalmente implantado, a linha arterial com solução de heparina, a dose de profilaxia que ainda está no aprazamento. A heparina de baixo peso molecular também não serve como troca, porque os anticorpos da heparina não fracionada reagem com frequência com a de baixo peso molecular (Franchini, 2005).

Plaquetas não são o alvo

Um reflexo comum diante de plaquetas baixas é pensar em transfusão. Na HIT, o problema é a ativação das plaquetas e a trombose, e não a falta de plaquetas para coagular; por isso a decisão sobre qualquer transfusão cabe à equipe médica e à hematologia, e não deve ser tratada como correção de rotina do número. As plaquetas começam a subir 2 a 3 dias depois da suspensão da heparina e costumam voltar ao normal em 4 a 10 dias (Franchini, 2005).

Anticoagulação sem heparina

Suspender a heparina não basta. Sem anticoagulação alternativa, o risco de trombose continua alto (Grouzi, 2014). A escolha do anticoagulante é médica e segue o protocolo local; a enfermagem precisa conhecer o raciocínio para preparar, administrar e vigiar com segurança.

Argatroban

O argatroban é um inibidor direto da trombina de uso intravenoso. Segundo a bula citada por Babuin e Pengo, em adultos com HIT sem disfunção hepática, depois de suspender a heparina e medir o TTPa basal, a dose inicial recomendada é de 2 microgramas por quilo por minuto em infusão contínua; o TTPa é checado 2 horas depois do início e de cada ajuste, sem passar de 10 microgramas por quilo por minuto, até que o TTPa estável fique entre 1,5 e 3 vezes o valor basal, sem passar de 100 segundos (Babuin e Pengo, 2010). Na disfunção hepática, a dose inicial cai para 0,5 micrograma por quilo por minuto, com TTPa monitorado de perto, e não é necessário ajuste inicial na disfunção renal (Babuin e Pengo, 2010).

Na prática, muitos serviços começam abaixo da dose da bula. Num estudo francês em pacientes com alto risco de sangramento, 70 por cento em terapia intensiva, a dose inicial média foi de 0,77 micrograma por quilo por minuto, e a recuperação das plaquetas foi rápida (Tardy-Poncet e colaboradores, 2015). Numa coorte suíça de 32 pacientes com HIT confirmada, os autores sugerem iniciar com 1,0 micrograma por quilo por minuto quando a função hepática é normal e monitorar a concentração do medicamento ou o tempo de trombina pelo menos 240 minutos depois do início ou do ajuste (Marchetti e colaboradores, 2022). A dose exata é sempre a da prescrição e do protocolo.

Numa meta-análise em rede, o argatroban teve o menor tempo de internação e as menores taxas de hemorragia, tromboembolismo e mortalidade em comparação com bivalirudina, lepirudina, desirudina e danaparoide (Colarossi e colaboradores, 2021). Como a eliminação é hepática e a meia-vida é curta, ele é uma opção para pacientes com alto risco de sangramento e insuficiência renal (Tardy-Poncet e colaboradores, 2015). Não há antídoto específico; se houver sangramento grave, a infusão é suspensa imediatamente, o TTPa é dosado e o tratamento é de suporte (Babuin e Pengo, 2010).

O papel da enfermagem na infusão

O argatroban exige bomba de infusão, dupla checagem conforme o protocolo, coleta de TTPa nos horários definidos e atenção a sangramento. Outro detalhe é o horário. Como Marchetti e colaboradores observaram concentrações mais altas em medidas feitas depois de 240 minutos do ajuste (Marchetti e colaboradores, 2022), uma coleta muito precoce pode levar a aumentos de dose desnecessários. Seguir o horário do protocolo é parte da segurança.

Componente acetabular de uma prótese de quadril, com anel metálico e superfície interna branca, ao lado de uma escala em centímetros
Componente de prótese de quadril. Depois de uma artroplastia, a perna inchada pode ser só edema, ou pode ser a primeira pista de trombose. Foto: John Marton, Wikimedia Commons, domínio público.

Fondaparinux

Uma revisão sistemática encontrou 154 pacientes com HIT tratados com fondaparinux: 6,5 por cento tiveram nova trombose e 16,9 por cento sangramento maior, taxas semelhantes às dos medicamentos aprovados (Linkins e colaboradores, 2018). Os autores concluem que o fondaparinux parece eficaz e seguro na HIT aguda, apesar de não haver ensaios randomizados, e pedem cautela na insuficiência renal (Linkins e colaboradores, 2018).

Anticoagulantes orais diretos

Numa série francesa de sete pacientes com HIT confirmada, tratados com rivaroxabana ou apixabana depois de alguns dias de anticoagulante parenteral ou já no diagnóstico, a recuperação das plaquetas levou em média 3,3 dias depois da suspensão da heparina, e nenhum paciente teve sangramento importante ou trombose relacionada ao tratamento (Carré e colaboradores, 2021).

Varfarina: esperar

A varfarina sozinha na fase aguda é perigosa. Ela reduz a proteína C e pode precipitar gangrena venosa de membro e necrose de pele; por isso, deve começar só depois de recuperação substancial das plaquetas, enquanto o paciente ainda recebe um inibidor da trombina ou danaparoide, com sobreposição de pelo menos 5 dias (Franchini, 2005). A anticoagulação dura pelo menos 2 a 3 meses para evitar recorrência da trombose (Franchini, 2005).

Dhawan relata uma mulher de 56 anos com HIT tratada com argatroban até a recuperação das plaquetas e depois com ponte para varfarina, que desenvolveu necrose de pele induzida por varfarina (Dhawan, 2020). A autora lembra que internações longas podem causar deficiência de vitamina K e INR instável, e que o efeito somado do inibidor da trombina e da varfarina no INR precisa entrar na decisão (Dhawan, 2020). O argatroban também eleva o INR durante a transição, o que exige atenção à interpretação do exame (Grouzi, 2014). Na coorte suíça, os autores sugerem um INR alvo de 3,5 a 4,5 durante a ponte entre argatroban e antagonista da vitamina K (Marchetti e colaboradores, 2022).

Raciocínio passo a passo no caso

Primeiro, a tendência: plaquetas de 260 para 118 mil, uma queda de mais da metade. O valor isolado engana; a comparação com a base, não.

Segundo, o tempo: sexto dia de heparina, dentro da janela típica de 5 a 10 dias (Franchini, 2005).

Terceiro, a trombose: perna operada mais inchada e dor na panturrilha. Num paciente com HIT, a trombose venosa profunda é a regra, e não a exceção (Franchini, 2005).

Quarto, a probabilidade: escore 4T de cerca de 7 pontos, alto (Babuin e Pengo, 2010).

Quinto, a ação: comunicar antes da próxima dose, suspender toda heparina, incluindo flushes (Grouzi, 2014), e preparar o anticoagulante sem heparina conforme prescrição.

Sexto, o seguimento: ultrassom da perna, exames de anticorpos, plaquetas diárias, TTPa ou outro controle conforme o medicamento, e registro da reação. O post sobre pausa diagnóstica lembra o valor de parar antes da próxima dose.

Erros comuns

O primeiro erro é olhar só a faixa de referência e achar que 118 mil está bom.

O segundo erro é atribuir a perna inchada apenas ao edema da cirurgia, sem pensar em trombose.

O terceiro erro é trocar a heparina não fracionada por heparina de baixo peso molecular, que reage com os mesmos anticorpos (Franchini, 2005).

O quarto erro é suspender a heparina subcutânea e esquecer o flush do cateter (Grouzi, 2014).

O quinto erro é suspender toda anticoagulação por medo de sangramento, deixando a paciente sem proteção contra trombose (Grouzi, 2014).

O sexto erro é começar varfarina cedo e sozinha (Franchini, 2005) (Dhawan, 2020).

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas. Você propõe um diagnóstico buscando o código na CID-10 e recebe um retorno de proximidade em cinco níveis, que mostra se o palpite ficou no código exato, na mesma categoria, no mesmo grupo, no mesmo capítulo ou em outro capítulo. Esse formato combina com o tema deste texto: trombose venosa, reação adversa a medicamento, sepse e plaquetopenia de outras causas ficam em lugares diferentes da classificação, mas podem começar com a mesma perna inchada e o mesmo hemograma. O post sobre CID-10 mostra como achar o código certo.

Para usar o caso do dia como treino, experimente três hábitos. Antes do primeiro palpite, pergunte quais medicamentos o paciente recebe e há quantos dias. A cada pista, pergunte se ela fala de causa ou de complicação. Depois do resultado, anote a pista que você ignorou por parecer esperada.

Três exercícios com casos

Calcule o escore. Em cada caso com plaquetas em queda, some os quatro itens do 4T e diga o que faria com o resultado.

Encontre a heparina escondida. Liste todas as fontes de heparina que o paciente pode estar recebendo, incluindo soluções de cateter.

Planeje a transição. Diga quando a varfarina poderia começar e por que não antes.

O post sobre simulação de atendimento mostra como treinar a avaliação do paciente, e o post sobre raciocínio clínico interprofissional discute como enfermagem, medicina, farmácia e hematologia decidem juntas. O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos mostra como casos ajudam a fixar esses hábitos.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

Plaquetas normais afastam HIT?

Não. O menor valor pode ficar acima de 150 mil e ainda representar queda de 50 por cento ou mais (Franchini, 2005).

Preciso esperar o exame para suspender a heparina?

Com probabilidade intermediária ou alta, não. A heparina é suspensa e substituída na suspeita (Grouzi, 2014).

Qual é a dose de argatroban?

A bula traz 2 microgramas por quilo por minuto, ou 0,5 na disfunção hepática, com TTPa entre 1,5 e 3 vezes o basal (Babuin e Pengo, 2010). Estudos usaram doses iniciais menores (Tardy-Poncet e colaboradores, 2015) (Marchetti e colaboradores, 2022). Siga a prescrição.

Checklist final

  • Comparei as plaquetas com o valor de base, não só com a faixa de referência.
  • Contei os dias desde o início da heparina.
  • Procurei sinais de trombose nos membros, no tórax e na pele.
  • Organizei os dados do escore 4T para a equipe.
  • Comuniquei antes da próxima dose de heparina.
  • Suspendi toda heparina prescrita, incluindo flushes e soluções de cateter.
  • Não troquei por heparina de baixo peso molecular.
  • Preparei o anticoagulante sem heparina e os controles conforme protocolo.
  • Registrei a reação para que a heparina não volte.
  • Lembrei que a varfarina só entra depois da recuperação das plaquetas.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Babuin L, Pengo V. Argatroban in the management of heparin-induced thrombocytopenia. Vasc Health Risk Manag. 2010. PMID 20859550.
  2. Carré J, Guérineau H, Le Beller C, et al. Direct Oral Anticoagulants as Successful Treatment of Heparin-Induced Thrombocytopenia: A Parisian Retrospective Case Series. Front Med (Lausanne). 2021. PMID 34422867.
  3. Chen Y, Wang J, Shi ZJ, et al. Incidence, Outcomes and Risk Factors of Heparin-Induced Thrombocytopenia After Total Joint Arthroplasty: A National Inpatient Sample Database Study. Clin Appl Thromb Hemost. 2021. PMID 34558329.
  4. Colarossi G, Maffulli N, Trivellas A, et al. Superior outcomes with Argatroban for heparin-induced thrombocytopenia: a Bayesian network meta-analysis. Int J Clin Pharm. 2021. PMID 33774764.
  5. Dhawan N. Beware of Warfarin-Induced Skin Necrosis in the Setting of Heparin-Induced Thrombocytopenia. Cureus. 2020. PMID 32754398.
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