Incerteza diagnóstica: estratégias para decidir bem

Estrada coberta de neblina na floresta

O paciente chegou com dor abdominal difusa, os exames iniciais vieram normais e o preceptor pergunta qual é o seu diagnóstico. A vontade é dizer "ainda não sei" e pedir mais um exame, porque decidir sem certeza parece errado. Uma revisão sobre o tema descreve exatamente esse padrão: estudantes e residentes costumam tratar a certeza como condição para agir, e por isso têm dificuldade em situações em que ela não vem (Ilgen et al., 2019).

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto explica o que é incerteza diagnóstica, por que a confiança do médico e o acerto do diagnóstico nem sempre andam juntos e quais estratégias ajudam a decidir com informação incompleta. No fim, mostramos como treinar essa habilidade com casos curtos.

Principais pontos

  • Incerteza diagnóstica é a percepção de não conseguir explicar com precisão o problema do paciente, e ela muda ao longo do atendimento.
  • Confiança e acerto andam pouco juntos, por isso vale conferir a própria confiança com perguntas objetivas.
  • Limiares de decisão ajudam a responder se é hora de observar, de investigar mais ou de tratar.
  • A reavaliação planejada dá à incerteza um roteiro: sinais de alarme, quando voltar e o que fazer com os resultados.
  • Tolerar incerteza se associa a mais bem-estar em estudantes e médicos, e a prática com retorno ajuda a calibrar a confiança.

Sumário

O que é incerteza diagnóstica

Todo diagnóstico começa incerto. A queixa principal sugere algumas hipóteses, cada dado novo mexe na ordem delas, e em algum momento você decide com o que tem. A dificuldade é que a palavra "incerteza" cobre coisas diferentes, e cada uma pede uma resposta diferente.

Lago coberto por neblina da manhã, com uma ilha de árvores refletida na água e galhos na frente.
A neblina esconde parte da paisagem, e mesmo assim dá para ver o suficiente para seguir. Crédito: Kgbo, CC BY-SA 4.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Uma definição proposta pela literatura

Uma revisão sistemática procurou como a incerteza diagnóstica era definida e medida e encontrou 123 artigos para leitura completa, nenhum deles com uma definição do termo (Bhise et al., 2018). A partir do que encontraram, os autores propuseram definir incerteza diagnóstica como a "percepção subjetiva de uma incapacidade de fornecer uma explicação precisa para o problema de saúde do paciente" (Bhise et al., 2018).

Três características que importam

A mesma revisão identificou três atributos úteis para medir a incerteza (Bhise et al., 2018):

  • É subjetiva. Quem sente a incerteza é o clínico, e dois médicos diante do mesmo caso podem senti-la de forma diferente.
  • Afeta a investigação. Mal conduzida, ela pode atrasar o diagnóstico.
  • É dinâmica. Ela muda com o tempo, à medida que chegam dados novos.

O terceiro ponto é o mais prático. A incerteza do primeiro minuto da consulta não é a mesma do fim do plantão, e a sua tarefa é acompanhar como ela muda, e não eliminá-la de uma vez.

Fontes diferentes, respostas diferentes

Uma taxonomia publicada em revista de decisão médica organiza a incerteza em saúde em três dimensões: a fonte, o tipo de questão e o lugar onde ela está (Han et al., 2011). Os autores argumentam que separar os tipos de incerteza ajuda a escolher estratégias adequadas para cada um (Han et al., 2011).

Na prática do diagnóstico, ajuda fazer três perguntas:

Pergunta Exemplo Resposta mais útil
Falta informação sobre este paciente? O exame que separa as hipóteses ainda não foi feito Decidir se o exame muda a conduta
O conhecimento disponível é limitado? A evidência sobre aquele achado é fraca ou conflitante Reconhecer o limite e usar o melhor dado disponível
A situação é complexa demais para uma resposta só? Várias doenças ao mesmo tempo, sintomas que se sobrepõem Separar os problemas e priorizar o mais grave

Fonte da tabela: perguntas elaboradas pelo Editorial a partir da ideia de separar fontes e tipos de incerteza de Han et al., 2011; os exemplos são ilustrativos.

Confiança e acerto andam separados

Sentir-se seguro não é o mesmo que estar certo. Os estudos sobre calibração, a relação entre o quanto você acerta e o quanto você acha que acerta, mostram que essa diferença aparece até em médicos experientes.

O que os estudos de calibração mostram

Estudos com vinhetas compararam o quanto médicos e estudantes acertam com o quanto confiam na própria resposta, em casos fáceis e difíceis. Os números desses estudos estão reunidos na seção "Retorno e calibração" do texto sobre jogos de raciocínio clínico: em resumo, confiança e acerto andam pouco juntos, e o excesso de confiança aparece entre as causas de erro diagnóstico.

Por que isso importa para a incerteza

A leitura editorial desses estudos é útil: a sensação de incerteza é um sinal imperfeito. Às vezes você se sente seguro num caso difícil e está errado; às vezes se sente inseguro e está certo. Por isso vale ter um jeito de conferir a confiança que não dependa só da sensação, como veremos nas estratégias.

O lado oposto: incerteza demais

O excesso de confiança tem um espelho: a dificuldade de agir enquanto a dúvida existe. A revisão sobre conforto com a incerteza descreve que o conforto não é sentir certeza sobre o diagnóstico, e sim confiar na própria capacidade de agir, ou de não agir, de forma segura naquela situação (Ilgen et al., 2019). Segundo os autores, esse conforto se apoia em automonitoramento e em planejamento do que vem a seguir (Ilgen et al., 2019).

Tolerar a incerteza também se aprende

Tolerância à incerteza é a capacidade de lidar com informação insuficiente, ambígua ou pouco confiável sem paralisar. Ela tem sido estudada como característica individual, e os resultados interessam a quem está na formação.

Pedras planas enfileiradas atravessando um rio raso, com margens de grama e árvores ao fundo.
Atravessar com incerteza é avançar uma pedra de cada vez, conferindo o próximo passo. Crédito: Strobilomyces, CC BY-SA 3.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

O que os estudos associam à tolerância

Uma revisão sistemática reuniu 67 estudos sobre tolerância à incerteza e desfechos em saúde e em educação em saúde (Strout et al., 2018). A tolerância se associou a desfechos cognitivos, emocionais e comportamentais de estudantes, profissionais e pacientes, e a associação mais consistente foi com o bem-estar emocional (Strout et al., 2018).

Outra revisão, focada na formação médica, incluiu 11 estudos, e todos relataram associação entre menor tolerância à ambiguidade ou à incerteza e menor bem-estar psicológico (Hancock e Mattick, 2020).

Os limites dessa evidência

As duas revisões fazem a mesma ressalva. Os estudos eram, em sua maioria, transversais, heterogêneos na forma de medir e de baixa qualidade metodológica, o que limita conclusões fortes sobre causa e efeito (Strout et al., 2018; Hancock e Mattick, 2020). O que dá para dizer é que tolerar incerteza e estar bem andam juntos; ainda não se sabe com segurança qual vem primeiro.

O que dá para treinar

Se a tolerância é em parte uma habilidade, ela se desenvolve com exposição a situações incertas e com retorno sobre as decisões tomadas nelas. A revisão sobre conforto com a incerteza propõe justamente usar esse conceito para orientar programas de ensino e pesquisa (Ilgen et al., 2019). Para o estudante, isso significa praticar decisões com informação incompleta num ambiente em que errar ensina e não prejudica ninguém.

Estratégias para decidir sem certeza

As estratégias abaixo organizam o raciocínio quando a resposta ainda não está clara. Elas não substituem o conhecimento das doenças, e funcionam melhor quando você já tem hipóteses razoáveis.

Nomeie a incerteza e a fonte dela

Diga para si mesmo, ou escreva, o que exatamente está incerto. "Não sei se é apendicite ou adenite mesentérica" é diferente de "não sei o que este achado de imagem significa" e de "não sei se ela vai voltar para reavaliar". Cada frase aponta para um próximo passo diferente, como na tabela das fontes de incerteza.

Pense em limiares, não em certeza

O modelo de limiares descreve dois pontos de probabilidade que orientam a decisão: abaixo do limiar de teste, não tratar e não testar; acima do limiar de teste e tratamento, tratar sem mais exames; entre os dois, fazer o exame e decidir pelo resultado (Pauker e Kassirer, 1980). Os autores mostram que esses limiares dependem da confiabilidade e dos riscos do exame e dos benefícios e riscos do tratamento (Pauker e Kassirer, 1980).

A lição para a incerteza é direta: você raramente precisa de certeza para agir. Precisa saber se a probabilidade da doença já passou do ponto em que a ação compensa. O texto sobre probabilidade pré-teste mostra como estimar essa probabilidade, e o de tomada de decisão clínica aprofunda a escolha do exame.

Trabalhe com uma hipótese e uma lista aberta

Escolha uma hipótese de trabalho e mantenha visível o que pode estar por trás dela. A pergunta "o que eu não posso deixar passar?" garante que uma causa grave e tratável continue na lista até ser afastada. Esse hábito também protege contra o fechamento prematuro, explicado no texto sobre diagnóstico diferencial.

Confira a confiança com perguntas, não com sensação

Como confiança e acerto andam pouco juntos, como mostra a seção "Retorno e calibração" do texto sobre jogos de raciocínio clínico, vale usar perguntas objetivas antes de fechar:

  • Todos os achados importantes cabem na minha hipótese?
  • Existe um achado que contradiz a hipótese e que eu deixei de lado?
  • Se a minha hipótese estiver errada, qual seria a segunda, e o que a separaria da primeira?
  • Este caso é parecido com um que vi há pouco e que pode estar puxando a minha resposta?

Peça ajuda pelo motivo certo

Sugestão prática: como a sensação de dúvida é um sinal imperfeito, use critérios objetivos para pedir uma segunda opinião, como um achado que a hipótese não explica, um sinal de gravidade ou um caso que foge do que você costuma ver. No internato, apresentar o caso ao preceptor com a sua incerteza explícita é parte do treino, como mostra o texto sobre prioridade e hipótese no internato.

Registre o que você sabe

Quando o atendimento termina sem diagnóstico, registre o sintoma ou o achado mais específico, em vez de um diagnóstico que ainda não foi feito. O guia sobre como encontrar o código certo na CID-10 explica como usar o capítulo de sintomas para isso. Um registro honesto ajuda quem vai rever o paciente a saber de onde partir.

Erros comuns diante da incerteza

  • Pedir exame para aliviar a ansiedade. Antes de pedir, pergunte qual resultado mudaria a sua conduta. Se nenhum mudaria, o exame não resolve a incerteza que importa.
  • Esconder a dúvida na apresentação do caso. Dizer ao preceptor "minha hipótese é esta, com confiança moderada, e o que me faria mudar é aquele achado" mostra raciocínio, e não fraqueza.
  • Fechar cedo para acabar com o desconforto. A vontade de encerrar a dúvida empurra para a primeira hipótese plausível. Uma lista aberta, revista a cada dado, protege contra isso.
  • Tratar toda incerteza como igual. Falta de informação, limite do conhecimento e complexidade do caso pedem respostas diferentes, como mostra a tabela das fontes.
  • Esquecer o depois. Uma decisão tomada com incerteza sem roteiro de reavaliação deixa o paciente sem saber o que fazer se o quadro mudar.

Reavaliação planejada: a incerteza vira roteiro

Uma das formas mais concretas de lidar com a incerteza é planejar o que acontece depois da consulta. Na literatura de atenção primária, isso tem nome: safety netting, que pode ser traduzido como rede de segurança ou reavaliação planejada.

O que a revisão encontrou

Uma revisão de literatura com 47 estudos definiu a reavaliação planejada como uma técnica de consulta para comunicar a incerteza, informar o paciente sobre sinais de alarme e planejar consultas futuras que garantam a reavaliação no tempo certo (Jones et al., 2019). As orientações podem incluir a evolução esperada da doença, os sintomas que devem preocupar e como e quando procurar ajuda (Jones et al., 2019).

Os autores destacam que a reavaliação planejada vai além da conversa na consulta. Ela inclui acompanhar os resultados de exames e os encaminhamentos, e foi considerada especialmente importante no atendimento a crianças, a pessoas com quadro agudo, a pacientes com várias doenças e a pessoas com problemas de saúde mental (Jones et al., 2019).

Os quatro elementos de um bom roteiro

A partir da definição da revisão, um roteiro de reavaliação tem quatro partes:

Elemento Pergunta que ele responde Exemplo de frase ao paciente
Comunicar a incerteza O que sabemos e o que ainda não sabemos? "Pelo exame de hoje, a causa mais provável é esta, mas ainda não dá para ter certeza."
Sinais de alarme O que muda o roteiro? "Se aparecer este sintoma, procure atendimento no mesmo dia."
Quando reavaliar Em quanto tempo voltamos a olhar? "Se não melhorar até tal dia, volte para reavaliarmos."
Resultados e encaminhamentos Quem confere o exame e o retorno do especialista? "Eu vejo o resultado e entro em contato."

Fonte da tabela: elementos da definição de Jones et al., 2019; as frases são exemplos do Editorial e não substituem a orientação clínica de cada caso.

O tempo como ferramenta

Quando a probabilidade de uma doença grave é baixa e o paciente está estável, observar a evolução pode ser parte da investigação. A reavaliação planejada é o que torna essa escolha segura: o tempo passa com um roteiro, e não com o paciente sozinho. A decisão de observar, investigar ou tratar continua sendo de quem atende, com base no quadro e nas diretrizes; o roteiro apenas deixa claro o que fazer se o quadro mudar.

Um exemplo comentado

Volte ao paciente da abertura, com dor abdominal difusa e exames iniciais normais. Aplicando as estratégias deste texto, o raciocínio fica assim:

  1. Nomear a incerteza: a dúvida principal é entre uma causa benigna e autolimitada e uma causa cirúrgica em fase inicial, que ainda não deu sinais claros.
  2. Pensar no limiar: com o paciente estável e sem sinais de gravidade, a probabilidade de uma causa grave pode estar abaixo do ponto em que um tratamento imediato compensaria, mas não baixa o bastante para encerrar o assunto.
  3. Hipótese de trabalho e lista aberta: a hipótese de trabalho é a causa benigna; a causa cirúrgica continua na lista como aquela que não pode passar.
  4. Roteiro de reavaliação: explicar ao paciente o que se sabe e o que não se sabe, quais sintomas pedem retorno no mesmo dia, em quanto tempo reavaliar e quem confere os exames pendentes.
  5. Registro: anotar o sintoma como diagnóstico do atendimento e deixar o roteiro escrito para quem vir o paciente depois.

O exemplo é didático e não substitui a avaliação clínica nem as diretrizes de cada situação. O que ele mostra é a estrutura: a incerteza continua existindo, mas cada passo tem um motivo e um próximo passo.

O que isso ensina ao estudante

Para quem está aprendendo, a reavaliação planejada mostra que a incerteza não precisa ser resolvida na consulta. Ela precisa ser administrada. Uma boa prática é terminar cada caso de estudo com a pergunta: se eu estiver errado, como e quando vou descobrir?

Como treinar a incerteza com casos

A tolerância e a calibração melhoram com prática: muitas decisões com informação incompleta, cada uma seguida de retorno. Casos curtos, com dados que chegam aos poucos, reproduzem bem essa situação.

Um roteiro para cada caso

  1. Depois do primeiro dado, escreva a hipótese de trabalho e a sua confiança, de 0 a 10.
  2. A cada dado novo, atualize a hipótese e a confiança, e anote o que mudou.
  3. Antes de responder, diga qual é a fonte da incerteza que sobrou.
  4. Ao ver a resposta, compare a confiança que você deu com o resultado.
  5. Depois de alguns casos, olhe o padrão: você erra mais quando está seguro ou quando está inseguro?

Esse registro simples é uma forma direta de conferir a própria calibração, tema da seção "Retorno e calibração" do texto sobre jogos de raciocínio clínico.

Treinar no NEXO

No NEXO, o caso chega em até seis pistas, uma de cada vez, e você decide quando dar o palpite. Cada palpite errado mostra a proximidade na CID-10 em cinco níveis, do capítulo diferente ao CID exato, e abre a próxima pista. É uma forma prática de exercitar o roteiro acima: decidir com informação incompleta, ver o quanto você chegou perto e ajustar a hipótese.

O Diário traz um caso por dia, bom para manter o hábito de registrar a confiança. O Arquivo reúne os casos diários anteriores para treinar em volume. O Adrenalina acrescenta o tempo, o que aproxima o treino da pressão de decidir rápido. O Multimídia traz casos com imagem, áudio e outros exames, e o Continentes muda a epidemiologia de fundo. Como cada modo é liberado está na página de economia do NEXO.

Guardar o que a incerteza ensinou

Quando um caso mostrar que você estava seguro demais, ou inseguro sem motivo, registre o achado que deveria ter mudado a sua confiança. O botão do Anki cria o card direto do NEXO e abre no app do Anki. O método do caderno de erros ajuda a separar erro de conhecimento, de raciocínio e de atenção.

Discutir em grupo, pesquisar e revisar

Na aba Grupo do ranking, colegas convidados compartilham um ranking próprio. Com a turma jogando o mesmo caso do Diário, vale comparar em que pista cada um se sentiu seguro para responder e quem acertou. Se você coordena uma faculdade, uma liga ou uma residência e quer usar casos assim no ensino, conheça o NEXO Closer. Pesquisadores interessados em calibração da confiança e raciocínio diagnóstico podem propor estudos pelo NEXO Researcher, e médicos que queiram revisar os casos da sua especialidade podem participar pelo NEXO Curator, e quem produz conteúdo de medicina pode conhecer o NEXO Creators.

Perguntas frequentes

O que é incerteza diagnóstica?

É a percepção de não conseguir explicar com precisão o problema de saúde do paciente. Uma revisão sistemática propôs essa definição e descreveu a incerteza como subjetiva, capaz de afetar a investigação e dinâmica ao longo do tempo (Bhise et al., 2018).

Como lidar com a incerteza diagnóstica na prática?

Nomeie a fonte da incerteza, pense se a probabilidade da doença já passou do limiar para agir, mantenha uma hipótese de trabalho com uma lista aberta e planeje a reavaliação. O modelo de limiares mostra que a decisão depende da probabilidade e dos riscos e benefícios do exame e do tratamento (Pauker e Kassirer, 1980).

Sentir confiança no diagnóstico é um bom sinal?

É um sinal imperfeito. Os estudos de calibração resumidos na seção "Retorno e calibração" do texto sobre jogos de raciocínio clínico mostram que confiança e acerto andam pouco juntos. Use perguntas objetivas para conferir a hipótese antes de fechar.

O que é safety netting?

É a reavaliação planejada: comunicar a incerteza, explicar os sinais de alarme e combinar quando e como reavaliar, além de acompanhar exames e encaminhamentos (Jones et al., 2019).

Tolerância à incerteza tem relação com bem-estar?

Os estudos indicam que sim: duas revisões sistemáticas encontraram associação entre maior tolerância e mais bem-estar, com a ressalva de que a qualidade dos estudos era baixa (Strout et al., 2018; Hancock e Mattick, 2020).

Pedir mais exames resolve a incerteza?

Às vezes. O exame ajuda quando a probabilidade da doença está entre os limiares de teste e de tratamento, ou seja, quando o resultado pode mudar a decisão (Pauker e Kassirer, 1980). Fora dessa faixa, o exame acrescenta pouco à conduta.

Como o estudante pode treinar decisões com incerteza?

Pratique casos em que os dados chegam aos poucos, registre a sua confiança a cada etapa e compare com o resultado no fim. A revisão sobre conforto com a incerteza aponta automonitoramento e planejamento como base desse conforto (Ilgen et al., 2019).

Como o NEXO ajuda a treinar a incerteza?

No NEXO, você decide o palpite com até seis pistas e recebe a proximidade na CID-10 a cada tentativa. Isso permite treinar a decisão com informação incompleta e comparar a sua confiança com o resultado, caso a caso. Para conhecer o jogo, leia o que é o NEXO.

Checklist para decidir com incerteza

  1. Diga o que está incerto e de onde vem a incerteza.
  2. Escolha uma hipótese de trabalho e mantenha uma lista aberta.
  3. Inclua a causa grave que não pode passar até afastá-la.
  4. Pense no limiar: observar, investigar ou tratar.
  5. Pergunte se o exame muda a conduta antes de pedir.
  6. Confira a confiança com perguntas, não só com a sensação.
  7. Use a dificuldade do caso como gatilho para pedir ajuda.
  8. Planeje a reavaliação: sinais de alarme, prazo e quem confere os resultados.
  9. Registre o que você sabe, e mantenha a suspeita registrada como suspeita.
  10. Treine com casos curtos e compare a confiança com o acerto.

Quer treinar decisões com informação incompleta hoje? Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

  1. Bhise V, Rajan SS, Sittig DF, Morgan RO, Chaudhary P, Singh H. Defining and Measuring Diagnostic Uncertainty in Medicine: A Systematic Review. J Gen Intern Med. 2018. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28936618/
  2. Han PK, Klein WM, Arora NK. Varieties of uncertainty in health care: a conceptual taxonomy. Med Decis Making. 2011. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22067431/
  3. Ilgen JS, Eva KW, de Bruin A, Cook DA, Regehr G. Comfort with uncertainty: reframing our conceptions of how clinicians navigate complex clinical situations. Adv Health Sci Educ Theory Pract. 2019. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30390181/
  4. Strout TD, Hillen M, Gutheil C, et al. Tolerance of uncertainty: A systematic review of health and healthcare-related outcomes. Patient Educ Couns. 2018. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29655876/
  5. Hancock J, Mattick K. Tolerance of ambiguity and psychological well-being in medical training: A systematic review. Med Educ. 2020. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31867801/
  6. Jones D, Dunn L, Watt I, Macleod U. Safety netting for primary care: evidence from a literature review. Br J Gen Pract. 2019. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30510099/
  7. Pauker SG, Kassirer JP. The threshold approach to clinical decision making. N Engl J Med. 1980. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/7366635/

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