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Infectologia

Hesitação vacinal: o modelo 5C e a conversa na consulta

Cadeira de coleta com braços estofados azuis voltada para um mocho vazio numa sala de atendimento
Sumário
  1. O que é hesitação vacinal e quão comum ela é
  2. Do modelo 3C ao 5C: um mapa das razões
  3. Por que a dúvida aparece: vieses e desinformação
  4. Recomendação presuntiva ou participativa
  5. Entrevista motivacional na consulta de vacinação
  6. Corrigir desinformação sem reforçá-la
  7. Perfis de pais e como adaptar a conversa
  8. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  9. Perguntas frequentes
  10. Take-home messages
  11. Referências

Um pai chega à consulta de um ano da filha com uma lista de perguntas impressa. Ele leu que são vacinas demais para um corpo pequeno, ouviu de uma vizinha que o filho dela teve febre alta depois da tríplice viral e quer saber se pode adiar tudo para depois do verão. O pediatra tem doze minutos. A forma como ele abre a conversa nos próximos trinta segundos pesa mais no resultado do que a quantidade de dados que conseguir apresentar.

A hesitação vacinal é o atraso em aceitar ou a recusa de vacinas apesar de elas estarem disponíveis, na definição usada pela Organização Mundial da Saúde, que a colocou entre as ameaças mais urgentes à saúde global (Kaushik, 2025). Ela raramente é uma posição fechada. Na maioria das famílias, é uma dúvida que pode crescer ou diminuir conforme a experiência com o serviço de saúde.

Este texto apresenta o modelo 5C como mapa para entender de onde vem a dúvida, compara formatos de recomendação estudados em consultas reais e mostra o que a evidência diz sobre entrevista motivacional e correção de desinformação.

Principais pontos

  • Cerca de 21 de cada 100 pais de crianças pequenas relatam hesitação em relação às vacinas de rotina, com variação entre regiões do mundo (Abenova, 2023).
  • O modelo 5C descreve cinco antecedentes psicológicos da vacinação: confiança, complacência, restrições, cálculo e responsabilidade coletiva (Betsch, 2018).
  • Anunciar a vacina como o passo esperado da consulta se associou a melhor cobertura do que abrir a decisão como pergunta (Opel, 2018).
  • Um treino de profissionais em recomendação por anúncio aumentou a vacinação contra HPV em adolescentes; um treino centrado em conversa não teve efeito (Malo, 2018).
  • A entrevista motivacional reduziu a hesitação de mães no pós-parto num ensaio randomizado, com efeito que persistiu por meses (Verger, 2023; Ramalli, 2026).
  • Corrigir mitos pode funcionar, mas o formato importa e a evidência sobre efeito rebote é conflitante (Pluviano, 2017; Ecker, 2023).

Sumário

O que é hesitação vacinal e quão comum ela é

A hesitação vacinal ocupa o espaço entre a aceitação sem perguntas e a recusa total. Uma revisão sistemática de 34 estudos descreveu a hesitação dos pais como um contínuo: há quem aceite tudo com dúvidas, quem atrase algumas vacinas, quem escolha apenas parte do calendário e, numa ponta pequena, quem recuse todas (Obohwemu, 2022). Tratar esses grupos como um bloco único leva a conversas que não servem para ninguém.

Uma metanálise de 23 estudos transversais, com 29.131 pais de crianças de zero a seis anos em mais de 30 países, estimou que cerca de 21 de cada 100 pais são hesitantes em relação às vacinas de rotina. A proporção foi menor nas Américas, perto de 13 de cada 100, e maior no Mediterrâneo Oriental, perto de 28 de cada 100 (Abenova, 2023). Os instrumentos de medida variaram entre os estudos, o que pede cautela na comparação direta entre países.

A hesitação também aparece em famílias cujos filhos estão com o calendário em dia. Uma revisão sobre linguagem na consulta lembra que entre 15 e 35 de cada 100 pais de crianças bem vacinadas relatam algum grau de hesitação (Jacobson, 2020). Isso significa que a criança vacinada hoje pode ter um pai que adia a próxima vacina se a experiência desta consulta for ruim.

Por que o tema importa para quem atende

Quedas de cobertura abrem espaço para surtos de doenças que pareciam controladas. O sarampo é o primeiro sinal, por ser muito transmissível, e a difteria volta onde a vacinação de rotina falha por anos. Os posts sobre sarampo quando a vacinação para e sobre surtos de difteria quando a vacinação cai mostram o que acontece na outra ponta dessa cadeia.

Para o clínico, a hesitação raramente chega com esse nome. Ela aparece como um pedido para "deixar para a próxima", uma pergunta sobre ingredientes, uma história de reação em um parente ou um silêncio desconfortável na hora de assinar. Reconhecer esses sinais é o primeiro passo, e o modelo 5C ajuda a organizá-los.

Do modelo 3C ao 5C: um mapa das razões

Os primeiros modelos de hesitação reuniam as razões em três grupos: confiança nas vacinas e no sistema, complacência diante do risco da doença e conveniência do acesso. Esse modelo 3C, proposto por um grupo de trabalho do SAGE da OMS, foi depois ampliado para quatro dimensões, com a inclusão do cálculo, ou seja, a busca ativa de informação para pesar riscos e benefícios (Betsch, 2018).

Betsch e colegas propuseram o modelo 5C, que acrescenta a responsabilidade coletiva e renomeia a conveniência como restrições. Em três estudos, com 1.445, 1.003 e 350 participantes, o grupo desenvolveu uma escala longa de 15 itens e uma curta de 5 itens, que explicaram mais variação no comportamento vacinal do que medir apenas a confiança (Betsch, 2018).

As cinco dimensões

A confiança é a crença na eficácia e na segurança das vacinas, no sistema que as oferece e nas motivações de quem decide as políticas. A complacência acontece quando o risco da doença parece baixo, a ponto de a vacinação não parecer necessária. As restrições são barreiras estruturais e psicológicas: horário, distância, custo indireto, dificuldade de entender o calendário (Betsch, 2018).

O cálculo descreve a pessoa que busca muita informação para decidir. Quem calcula muito tende a encontrar mais conteúdo contrário às vacinas, simplesmente porque procura mais e em mais lugares. A responsabilidade coletiva é a disposição de se vacinar para proteger os outros, inclusive quem não pode receber a vacina (Betsch, 2018).

Por que o mapa ajuda na consulta

Cada dimensão pede uma resposta diferente. Um pai com baixa confiança precisa de um profissional em quem confiar, mais do que de um gráfico. Um pai complacente precisa entender que a doença ainda circula. Uma mãe com restrições precisa de um horário possível, e não de um sermão. A revisão de Obohwemu agrupou as barreiras encontradas nos estudos exatamente por essas dimensões, o que mostra que o modelo se aplica bem à prática (Obohwemu, 2022).

Ouvir antes de responder é o que permite identificar a dimensão em jogo. As pistas que o paciente oferece durante a consulta costumam revelar se a dúvida é sobre segurança, sobre necessidade ou sobre logística.

Por que a dúvida aparece: vieses e desinformação

A decisão sobre vacinar envolve julgar riscos pequenos e distantes, e esse é o terreno em que o raciocínio humano mais usa atalhos. Os mesmos atalhos mentais que aparecem no raciocínio clínico também guiam pais e pacientes.

Viés de omissão e de status quo

O viés de omissão é a tendência de julgar um dano causado por uma ação como pior do que um dano igual ou maior causado por não agir. Para um pai, uma reação depois da vacina pesa como culpa própria; uma doença que a criança pega por não estar vacinada parece obra do acaso. O viés de status quo reforça esse efeito ao favorecer a opção que mantém tudo como está. Opel e colegas citam esses dois vieses para explicar por que perguntar "o que você quer fazer?" pode empurrar a decisão para o adiamento (Opel, 2018).

A disponibilidade também conta. A história da vizinha cujo filho teve febre é concreta e próxima; as crianças que não tiveram sarampo graças à vacina são invisíveis. Quanto mais rara a doença se torna, mais a balança mental pende para o risco percebido da vacina.

Desinformação e o peso da busca

A desinformação circula com rapidez e se apoia em histórias pessoais, imagens e linguagem emocional. O efeito é maior entre pessoas com perfil de cálculo alto, que procuram ativamente e acabam expostas a mais conteúdo enganoso (Betsch, 2018). A revisão sobre o cenário dos Estados Unidos descreve a mídia social e a perda de confiança nas instituições como motores importantes da hesitação recente (Kaushik, 2025).

Uma meta-etnografia de 12 estudos ouviu profissionais que atendem pais hesitantes. Os relatos descrevem frustração, sensação de falar com "uma pedra que se recusa a ser esculpida" e o risco de a relação se desgastar. Os autores concluem que a aliança terapêutica é a ferramenta central, e que a pressa em convencer tende a afastar a família (Fernández-Basanta, 2021).

Curativos adesivos de formatos variados sobre um fundo azul
O curativo depois da vacina é pequeno, mas para muitos pais simboliza um risco que eles escolheram assumir, e é aí que o viés de omissão pesa. Crédito: Jonn Leffmann, CC BY 4.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Recomendação presuntiva ou participativa

O formato da primeira frase sobre vacinas tem sido estudado com gravações de consultas reais. No formato presuntivo, o profissional anuncia a vacina como parte natural da visita: "hoje ela vai receber as vacinas de um ano". No formato participativo, ele abre a decisão como pergunta: "o que você pensa sobre as vacinas de hoje?".

O que mostrou o estudo de Seattle

Opel e colegas acompanharam 73 pares de pais e crianças em Seattle, com consultas gravadas e registros de vacinação ao longo do tempo. Cerca de 65 de cada 100 pais receberam ao menos uma vez o formato presuntivo e 42 de cada 100 o formato participativo. O formato participativo se associou a 10,1 dias a mais sem a vacinação em dia a cada 100 dias de seguimento, o que somou cerca de 98 dias a mais para o conjunto de seis vacinas avaliadas (Opel, 2018).

O estudo é observacional e pequeno. Pais mais hesitantes podem ter recebido o formato participativo justamente porque o profissional percebeu a dúvida. Mesmo com essa limitação, o resultado se soma a outros dados que apontam na mesma direção.

O ensaio com treino de anúncio

Malo e colegas analisaram um ensaio em 20 clínicas da Carolina do Norte, com 11.578 adolescentes de 11 e 12 anos e 83 profissionais. As clínicas receberam um treino em recomendação por anúncio, um treino em recomendação por conversa ou nenhum treino. O treino de anúncio aumentou a vacinação contra HPV; o treino de conversa não mudou a cobertura (Malo, 2018).

A análise teórica sugere por que o anúncio funcionou. O tempo médio de discussão caiu de 3,8 para 3,2 minutos, os profissionais se sentiram mais seguros e a vacina passou a ser apresentada como norma, ao lado das outras vacinas da idade (Malo, 2018). O ganho veio da forma da recomendação, e não de mais tempo de conversa.

Força da recomendação

A recomendação do profissional está entre os fatores mais consistentes para a aceitação de vacinas. Recomendações fortes e claras superam as fracas ou ambíguas, e intervenções puramente educativas às vezes saem pela culatra ao reforçar a dúvida (Jacobson, 2020). Uma frase como "se fosse meu filho, eu vacinaria hoje" carrega a confiança do profissional sem precisar de estatística.

Presuntivo não é impositivo

Anunciar a vacina é diferente de encerrar a conversa. O anúncio funciona como ponto de partida para quem aceita sem grandes dúvidas, que é a maioria. Se o pai levanta uma preocupação, o passo seguinte é ouvir, reconhecer a dúvida e responder, sem abandonar a recomendação. Leask e colegas descrevem esse equilíbrio como uma recomendação clara acompanhada de abertura para perguntas e de consentimento válido (Leask, 2012).

Esse ponto cria uma tensão com a decisão compartilhada, que é o padrão para escolhas em que há mais de uma opção razoável. No calendário de rotina, os benefícios superam os danos com folga, e a tarefa do profissional é comunicar uma recomendação, e não apresentar um cardápio neutro. Em situações de equilíbrio real, como algumas vacinas opcionais em adultos, o modelo de decisão compartilhada em três conversas volta a ser a referência.

Entrevista motivacional na consulta de vacinação

A entrevista motivacional é um estilo de conversa que ajuda a pessoa a explorar a própria ambivalência e a encontrar razões para mudar. Ela usa perguntas abertas, afirmações de reconhecimento, reflexões e resumos, as habilidades OARS, e evita o reflexo de corrigir, que costuma gerar resistência.

O ensaio com parteiras na França

Verger e colegas randomizaram 733 mães em maternidades do sudeste da França. O grupo de intervenção conversou com parteiras treinadas em entrevista motivacional; o grupo controle recebeu um folheto. A hesitação caiu 5,8 pontos a mais no grupo de intervenção, numa escala de 0 a 100, e a intenção de vacinar subiu 0,6 ponto a mais, numa escala de 0 a 10. O efeito foi maior entre mães com hesitação inicial alta e com menor escolaridade (Verger, 2023).

O seguimento do mesmo ensaio, cerca de sete meses depois, mostrou que o efeito se manteve e até aumentou: queda de 10,1 pontos na hesitação e alta de 0,8 ponto na intenção. O benefício foi consistente entre mães com diferentes situações financeiras (Ramalli, 2026).

O que dizem as revisões

O quadro geral é mais modesto. Uma revisão sistemática de 118 estudos comparou intervenções educativas, que eram 108, com intervenções motivacionais, que eram 10. Frente ao cuidado habitual, a educação se associou a um aumento pequeno da vacinação (risco relativo de 1,10), e a entrevista motivacional a um aumento de 1,07 sem significância estatística. A qualidade dos estudos foi baixa, e os autores pedem ensaios melhores antes de conclusões firmes (Labbé, 2025).

Os dois achados convivem. A entrevista motivacional parece ajudar mais quem está de fato ambivalente, como as mães com hesitação alta no ensaio francês. Para a maioria que aceita, a recomendação clara basta. O post sobre por que a explicação sozinha falha detalha esse mecanismo, e o de o que a evidência mostra resume os limites do método.

Como fica na prática

Depois do anúncio, se o pai hesita, uma pergunta aberta ajuda: "o que te preocupa nessa vacina?". A reflexão mostra que a preocupação foi ouvida: "você quer ter certeza de que não vai fazer mal a ela". A seguir, pede-se permissão para oferecer informação, e a resposta se concentra na dúvida específica. Ao final, um resumo devolve ao pai o que ele disse e a recomendação do profissional.

A revisão de Kaushik e colegas descreve esse caminho em pediatria e sugere que a entrevista motivacional seja usada como complemento da recomendação forte, e não como substituto (Kaushik, 2025). Leask e colegas também recomendam um estilo guia, que fica entre o diretivo e o puramente seguidor, e estimulam o profissional a evocar as motivações do próprio pai para proteger o filho (Leask, 2012).

Corrigir desinformação sem reforçá-la

Quando um pai traz um mito, a reação natural é desmenti-lo de imediato. A evidência sobre o melhor formato dessa correção mudou nos últimos anos e ainda tem pontos em aberto.

O temor do efeito rebote

Pluviano e colegas, na Universidade de Edimburgo, testaram três estratégias pró-vacina: um folheto de mitos e fatos, quadros com dados e imagens que apelavam ao medo da doença. As três falharam em reduzir crenças erradas, e algumas pioraram a intenção de vacinar com o passar do tempo. Os autores sugeriram que repetir o mito, mesmo para negá-lo, poderia torná-lo mais familiar e mais crível (Pluviano, 2017).

A replicação que não confirmou

Ecker e colegas tentaram replicar esse efeito, acrescentaram uma condição só com mitos rotulados como falsos e mediram crenças logo após a correção e sete dias depois. O formato de mitos e fatos reduziu as crenças erradas, e os autores não encontraram efeito rebote por familiaridade nem por medo em nenhum dos momentos (Ecker, 2023). A conclusão prática é que corrigir é melhor do que se calar, desde que a correção seja clara.

O formato que costuma funcionar

Algumas regras simples ajudam. Começar pelo fato correto, e não pelo mito. Mencionar o mito uma vez, deixando explícito que é falso. Explicar por que ele é falso, com um mecanismo que preencha o espaço deixado. Fechar repetindo o fato. Em todo o processo, conferir se a família entendeu, com o teach-back, que pede que a pessoa explique com as próprias palavras o que ouviu.

Apelos ao medo pedem cuidado. Imagens fortes de crianças doentes podem afastar pais ansiosos, como sugere o estudo de Pluviano (Pluviano, 2017). Uma descrição concreta e calma do que a doença causa, de preferência ligada à experiência do próprio profissional, tende a ser mais útil.

Bolas de algodão coloridas num pote de vidro sobre bancada de mármore
Detalhes do ambiente da sala de vacina influenciam a experiência da família, e a experiência pesa na próxima decisão. Crédito: Quartl, CC BY-SA 3.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Perfis de pais e como adaptar a conversa

Leask e colegas propuseram um quadro para profissionais com cinco perfis aproximados de pais. Os que aceitam sem questionar seriam de 30 a 40 de cada 100; os que aceitam com cautela, de 25 a 35; os hesitantes, de 20 a 30; os que atrasam ou escolhem parte das vacinas, de 2 a 27, conforme o país; e os que recusam todas, menos de 2 de cada 100 (Leask, 2012). As proporções são estimativas de diferentes estudos, mas o recado é claro: a recusa total é rara, e a maior parte da conversa acontece com pais que ainda estão decidindo.

Uma conversa para cada perfil

Para quem aceita sem questionar, o anúncio basta, junto de uma explicação breve sobre o que esperar depois. Para quem aceita com cautela, vale reservar um minuto para perguntas e reconhecer que é normal ter dúvidas. Para o hesitante, a conversa se beneficia do estilo guia, com perguntas abertas e informação dirigida à preocupação real (Leask, 2012).

Para quem atrasa ou escolhe, ajuda priorizar as vacinas mais urgentes para a idade e combinar uma data concreta para as seguintes. Para quem recusa, o objetivo é manter a porta aberta: registrar a conversa, deixar claro que o profissional continua disponível e retomar o tema em outra visita, sem romper o vínculo. A rede de segurança também vale aqui, com orientação específica sobre os sinais de doença que exigem retorno rápido numa criança não vacinada.

A tabela dos 5C na consulta

A tabela abaixo reúne sinais que costumam aparecer na conversa e respostas compatíveis com a evidência. Ela é um apoio para organizar o raciocínio, e não um roteiro rígido.

Dimensão 5C Sinal na consulta Como responder
Confiança "Não sei se essas vacinas são seguras" ou desconfiança de quem as fabrica Reconhecer a preocupação, explicar como a segurança é monitorada e oferecer a própria recomendação de forma clara
Complacência "Ninguém mais pega essa doença" Contar que a doença ainda circula e o que acontece quando a cobertura cai, com exemplos concretos
Restrições Faltas repetidas, dificuldade de horário, confusão com o calendário Aproveitar a visita atual, simplificar o plano e combinar a próxima data antes de a família sair
Cálculo Lista de perguntas, leitura extensa na internet, pedido de estudos Valorizar a busca, responder ponto a ponto e indicar fontes confiáveis, sem desqualificar o esforço
Responsabilidade coletiva "Meu filho é saudável, não preciso" Lembrar quem depende da proteção coletiva, como bebês muito pequenos e pessoas imunossuprimidas

A relação vem antes do argumento

A meta-etnografia de Fernández-Basanta reforça que o vínculo é o que sustenta qualquer técnica (Fernández-Basanta, 2021). Um pai que se sente julgado tende a procurar outro serviço ou a evitar consultas, o que reduz as chances de vacinar no futuro. Pensar na relação como ferramenta de proteção ajuda o profissional a enxergar cada conversa como parte de uma relação longa.

O próprio profissional também tem vieses. A segurança excessiva em prever quem vai aceitar ou recusar pode levar a escolher o formato errado logo de saída. A calibração da confiança vale para essa leitura tanto quanto para o diagnóstico.

Adultos e outros contextos

Grande parte da evidência vem de pais de crianças, mas o modelo 5C foi desenvolvido e testado também com adultos que decidem sobre a própria vacinação (Betsch, 2018). Na consulta de um adulto, os mesmos sinais aparecem com outro conteúdo: o idoso complacente que acha que a gripe é banal, o trabalhador com restrições de horário, a gestante que calcula cada risco. A lógica da resposta é a mesma.

O ensaio francês mostra que o pós-parto é um momento de oportunidade, porque a mãe está em contato frequente com o serviço e pensa ativamente na saúde do bebê (Verger, 2023). Momentos de transição, como a primeira consulta de puericultura ou a entrada na escola, oferecem janelas semelhantes.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Muitos casos de doenças imunopreveníveis começam com uma história vacinal incompleta, e reconhecer esse detalhe é parte do raciocínio.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Para treinar a busca do código, veja como o código da CID-10 é montado.

Perguntas frequentes

O que é hesitação vacinal?

É o atraso em aceitar ou a recusa de vacinas apesar de elas estarem disponíveis. Ela vai de pequenas dúvidas até a recusa total, e a maioria dos pais hesitantes acaba vacinando quando a conversa é bem conduzida (Kaushik, 2025; Obohwemu, 2022).

Quais são os 5C da hesitação vacinal?

Confiança, complacência, restrições, cálculo e responsabilidade coletiva. Cada dimensão descreve uma razão diferente para a dúvida e pede uma resposta diferente (Betsch, 2018).

Qual é a melhor forma de recomendar uma vacina?

Os estudos disponíveis favorecem o formato presuntivo, que anuncia a vacina como parte esperada da consulta, seguido de abertura para perguntas se houver dúvida (Opel, 2018; Malo, 2018).

A entrevista motivacional funciona para vacinas?

Um ensaio randomizado com mães no pós-parto mostrou redução da hesitação que se manteve por meses. As revisões, porém, encontram efeito pequeno e estudos de baixa qualidade, então o método parece mais útil para quem está de fato ambivalente (Ramalli, 2026; Labbé, 2025).

Desmentir um mito pode piorar a situação?

Um estudo de 2017 sugeriu esse risco, mas uma replicação maior de 2023 encontrou redução das crenças erradas e nenhum efeito rebote. A correção funciona melhor quando começa e termina pelo fato correto (Pluviano, 2017; Ecker, 2023).

O que fazer quando a família recusa todas as vacinas?

Manter o vínculo, registrar a conversa, orientar sobre sinais de alerta e retomar o tema nas próximas visitas. A recusa total é rara, e a relação preservada aumenta a chance de mudança futura (Leask, 2012; Fernández-Basanta, 2021).

Quantos pais são hesitantes no mundo?

Uma metanálise estimou cerca de 21 de cada 100 pais de crianças pequenas, com variação entre regiões (Abenova, 2023).

Take-home messages

  • A hesitação vacinal é um contínuo, e a maioria dos pais hesitantes ainda está decidindo.
  • O modelo 5C organiza as razões da dúvida em confiança, complacência, restrições, cálculo e responsabilidade coletiva.
  • Anunciar a vacina como o passo esperado da consulta se associa a melhor cobertura do que abrir a decisão como pergunta.
  • Uma recomendação forte e clara do profissional é um dos fatores mais consistentes para a aceitação.
  • A entrevista motivacional ajuda quem está ambivalente e funciona melhor como complemento da recomendação.
  • Corrigir mitos vale a pena quando a correção começa e termina pelo fato correto.
  • O vínculo preservado é o que mantém a porta aberta para a próxima vacina.

Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

  1. Betsch C, Schmid P, Heinemeier D, Korn L, et al. Beyond confidence: Development of a measure assessing the 5C psychological antecedents of vaccination. PLoS One. 2018. PMID 30532274. DOI 10.1371/journal.pone.0208601.
  2. Opel DJ, Zhou C, Robinson JD, Henrikson N, et al. Impact of the Childhood Vaccine Discussion Format over Time on Immunization Status. Acad Pediatr. 2018. PMID 29325912. DOI 10.1016/j.acap.2017.12.009.
  3. Malo TL, Hall ME, Brewer NT, Lathren CR, et al. Why is announcement training more effective than conversation training for introducing HPV vaccination? A theory-based investigation. Implement Sci. 2018. PMID 29673374. DOI 10.1186/s13012-018-0743-8.
  4. Labbé S, Bacon SL, Wu N, Ribeiro PAB, et al. Addressing vaccine hesitancy: A systematic review comparing the efficacy of motivational versus educational interventions on vaccination uptake. Transl Behav Med. 2025. PMID 40167044. DOI 10.1093/tbm/ibae069.
  5. Jacobson RM, St. Sauver JL, Griffin JM, MacLaughlin KL, et al. How health care providers should address vaccine hesitancy in the clinical setting: Evidence for presumptive language in making a strong recommendation. Hum Vaccin Immunother. 2020. PMID 32242766. DOI 10.1080/21645515.2020.1735226.
  6. Leask J, Kinnersley P, Jackson C, Cheater F, et al. Communicating with parents about vaccination: a framework for health professionals. BMC Pediatr. 2012. PMID 22998654. DOI 10.1186/1471-2431-12-154.
  7. Pluviano S, Watt C, Della Sala S, Moore AC. Misinformation lingers in memory: Failure of three pro-vaccination strategies. PLoS One. 2017. PMID 28749996. DOI 10.1371/journal.pone.0181640.
  8. Ecker UKH, Sharkey CXM, Swire-Thompson B, Lindsay S, et al. Correcting vaccine misinformation: A failure to replicate familiarity or fear-driven backfire effects. PLoS One. 2023. PMID 37043493. DOI 10.1371/journal.pone.0281140.
  9. Verger P, Cogordan C, Fressard L, Gosselin V, et al. A postpartum intervention for vaccination promotion by midwives using motivational interviews reduces mothers' vaccine hesitancy, south-eastern France, 2021 to 2022: a randomised controlled trial. Euro Surveill. 2023. PMID 37733238. DOI 10.2807/1560-7917.ES.2023.28.38.2200819.
  10. Ramalli L, Cogordan C, Fressard L, Donato X, et al. Sustained impact of motivational interviewing on reducing vaccine hesitancy among postpartum mothers: A randomized control trial, Southeastern France, 2021 to 2022. Hum Vaccin Immunother. 2026. PMID 41628064. DOI 10.1080/21645515.2025.2611647.
  11. Obohwemu K, Christie-de Jong F, Ling J, et al. Parental childhood vaccine hesitancy and predicting uptake of vaccinations: a systematic review. Prim Health Care Res Dev. 2022. PMID 36330835. DOI 10.1017/S1463423622000512.
  12. Abenova M, Shaltynov A, Jamedinova U, Semenova Y. Worldwide Child Routine Vaccination Hesitancy Rate among Parents of Children Aged 0–6 Years: A Systematic Review and Meta-Analysis of Cross-Sectional Studies. Vaccines (Basel). 2023. PMID 38250844. DOI 10.3390/vaccines12010031.
  13. Fernández-Basanta S, Lagoa-Millarengo M, Movilla-Fernández M, et al. Encountering Parents Who Are Hesitant or Reluctant to Vaccinate Their Children: A Meta-Ethnography. Int J Environ Res Public Health. 2021. PMID 34300041. DOI 10.3390/ijerph18147584.
  14. Kaushik A, Fomicheva J, Boonstra N, Faber E, et al. Pediatric Vaccine Hesitancy in the United States–The Growing Problem and Strategies for Management Including Motivational Interviewing. Vaccines (Basel). 2025. PMID 40006662. DOI 10.3390/vaccines13020115.

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