Radônio em casa: segundo fator de risco do câncer de pulmão

Sumário
- O que é o radônio e por que ele fica dentro de casa
- Mineiros e casas: o que a evidência mostra
- Radônio e tabaco: um risco que se multiplica
- Quem nunca fumou e o peso na população
- Quando pensar no radônio na história clínica
- Medir e corrigir: o que orientar
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Referências
Num caso fictício, uma professora de 58 anos que nunca fumou recebe o diagnóstico de adenocarcinoma de pulmão. Na consulta seguinte, ela pergunta o que pode ter causado a doença, já que nunca pôs um cigarro na boca. O residente revisa a anamnese: tabagismo passivo, ocupação, poluição do ar. Falta uma pergunta que quase ninguém faz: há quantos anos ela mora na mesma casa, e alguém já mediu o radônio lá dentro?
O radônio é um gás radioativo de origem natural, sem cor e sem cheiro, que sai do solo e se acumula em ambientes fechados. Para a maioria das pessoas, ele é a maior fonte de radiação ionizante fora da medicina, e quase ninguém sabe que está exposto. Este texto reúne o que as coortes de mineiros, os estudos caso-controle residenciais e as estimativas de carga de doença mostram sobre o risco de câncer de pulmão, como esse risco se soma ao do tabaco e em que momento vale lembrar do radônio na história clínica.
Principais pontos
- O radônio é considerado a segunda causa mais importante de câncer de pulmão, depois do tabagismo (Gaskin et al., 2018; Ritchie et al., 2026).
- Entre quem nunca fumou, ele é descrito como a principal causa (Kurkela et al., 2023), ou como uma das principais, na formulação do Código Europeu Contra o Câncer (Ritchie et al., 2026).
- Na análise de 13 estudos europeus, o risco de câncer de pulmão subiu de forma linear com a concentração de radônio em casa, sem um limiar seguro aparente (Darby et al., 2005).
- O efeito relativo é parecido em fumantes e não fumantes, mas o risco absoluto é muito maior em quem fuma, e a maior parte das mortes atribuíveis ao radônio ocorre em fumantes e ex-fumantes (Darby et al., 2005; Heinzl et al., 2024).
- A exposição só é conhecida quando se mede, e a recomendação é verificar mapas locais, buscar medição profissional e corrigir a casa se necessário (Ritchie et al., 2026).
- O que é o radônio e por que ele fica dentro de casa
- Mineiros e casas: o que a evidência mostra
- Radônio e tabaco: um risco que se multiplica
- Quem nunca fumou e o peso na população
- Quando pensar no radônio na história clínica
- Medir e corrigir: o que orientar
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
O que é o radônio e por que ele fica dentro de casa
O radônio-222 surge do decaimento do urânio-238, presente em toda a crosta terrestre. Com meia-vida de quatro dias, ele tem tempo de se difundir pelo solo e chegar ao ar antes de decair. O gás inalado é quase todo exalado logo em seguida, mas os produtos de decaimento de vida curta, que são sólidos, tendem a se depositar no epitélio brônquico, e dois deles, o polônio-218 e o polônio-214, emitem partículas alfa (Darby et al., 2005). É essa radiação alfa, muito localizada, que danifica o DNA das células que revestem as vias aéreas.
Ao ar livre, o radônio se dilui. Dentro de um prédio, ele se acumula. A concentração interna depende da geologia, da permeabilidade do subsolo ao gás, da ventilação e dos materiais de construção, e edifícios de alta eficiência energética sem proteção adequada contra o radônio já mostraram concentrações internas maiores (Ritchie et al., 2026). A unidade usada nos estudos é o becquerel por metro cúbico de ar (Bq/m³), que conta as desintegrações radioativas por segundo em cada metro cúbico (Darby et al., 2005).
A radiação que a maioria recebe sem saber
Em muitos países, a exposição domiciliar aos produtos de decaimento do radônio responde por cerca de metade de toda a exposição não médica à radiação ionizante (Darby et al., 2005). Essa exposição é contínua e não deixa nenhum sinal. Quem trabalha com voos e viagens espaciais encontra outro tipo de radiação natural, tratado no texto sobre radiação cósmica em astronautas e tripulações.
Casas novas não estão livres
Uma intuição comum é a de que o radônio é problema de casas antigas e úmidas. Um estudo que testou 11 727 residências nas pradarias do oeste do Canadá encontrou média geométrica de 108 Bq/m³, e 17,8 por cento delas tinham 200 Bq/m³ ou mais (Stanley et al., 2019). Nessa região, construções mais recentes, com maior área, menos andares, pé-direito mais alto e janelas abertas com menos frequência se associaram a mais radônio, e as medições no porão foram mais altas do que nos andares de cima (Stanley et al., 2019). Os dados são de uma região de alto potencial geológico e entram aqui só como exemplo de que a idade da casa não protege.

Mineiros e casas: o que a evidência mostra
O que os mineiros ensinaram primeiro
A ligação entre radônio e câncer de pulmão foi estabelecida primeiro em mineiros subterrâneos e depois confirmada na população geral pelos estudos caso-controle residenciais (Ruano-Ravina et al., 2023). O radônio e seus produtos de decaimento foram classificados como causa conhecida de câncer humano pela IARC em 1988 (Gaskin et al., 2018).
As primeiras coortes de mineiros tinham exposições muito altas, bem diferentes das de uma casa. Para aproximar a estimativa das condições atuais, uma análise conjunta acompanhou 57 873 mineiros de urânio do sexo masculino no Canadá, na República Tcheca, na França, na Alemanha e nos Estados Unidos, contratados a partir de 1960, período com avaliação de exposição de melhor qualidade (Richardson et al., 2022). Foram 1,9 milhão de pessoas-ano de observação e 1217 mortes por câncer de pulmão (Richardson et al., 2022).
A taxa de câncer de pulmão aumentou de forma linear com a exposição acumulada, com excesso de taxa relativa de 1,33 por 100 WLM (IC 95 por cento 0,89 a 1,88) (Richardson et al., 2022). WLM, ou working level month, é a unidade de exposição ocupacional aos produtos de decaimento do radônio, diferente do Bq/m³ usado nas casas. A associação variou com a idade alcançada, a idade na exposição e a intensidade anual: abaixo de 55 anos de idade alcançada, em mineiros expostos a partir dos 35 anos e com baixa intensidade anual, o excesso foi de 8,38 por 100 WLM (IC 95 por cento 3,30 a 18,99) (Richardson et al., 2022).
Os estudos caso-controle em casas
A peça central da evidência residencial é a análise colaborativa de dados individuais de 13 estudos caso-controle em nove países europeus, com 7148 pessoas com câncer de pulmão e 14 208 controles (Darby et al., 2005). A exposição foi medida em Bq/m³ nas casas habitadas nos 5 a 34 anos anteriores, e a análise foi estratificada por estudo, idade, sexo, região e um histórico detalhado de tabagismo.
Um risco que cresce sem limiar aparente. A concentração média medida foi de 97 Bq/m³ nas casas dos controles e de 104 Bq/m³ nas casas de quem teve câncer (Darby et al., 2005). O risco de câncer de pulmão aumentou 8,4 por cento (IC 95 por cento 3,0 a 15,8) a cada 100 Bq/m³ de radônio medido (Darby et al., 2005). Corrigidas as incertezas aleatórias das medições, que diluem a associação, o aumento passou para 16 por cento (IC 95 por cento 5 a 31) a cada 100 Bq/m³ de radônio habitual (Darby et al., 2005).
A relação foi compatível com uma reta, e a associação continuou significativa mesmo entre quem tinha concentrações medidas abaixo de 200 Bq/m³ (Darby et al., 2005). Na prática, a análise não encontrou um valor abaixo do qual o radônio fosse inofensivo. Os autores ressaltam que os estudos mostraram o risco em conjunto, e não separadamente.
Por que o ajuste para tabagismo pesa tanto. Entre os controles, a proporção de nunca fumantes aumentou com a concentração de radônio (Darby et al., 2005). Se o tabagismo não tivesse entrado na estratificação, o aumento de risco teria sido de só 2,3 por cento a cada 100 Bq/m³ medidos, e com apenas sete categorias de tabagismo, de 5,2 por cento (Darby et al., 2005). Esse detalhe metodológico explica por que estudos com histórico de tabagismo grosseiro tendem a subestimar o efeito do radônio.
Um estudo regional como exemplo. Estudos mais recentes seguem a mesma direção. Na Irlanda do Norte, um estudo caso-controle de base populacional com dados secundários ligou um atlas indicativo de radônio aos registros de câncer, com 1687 pessoas com câncer de pulmão e 8094 controles (Delargy et al., 2026). Morar na classe de radônio mais alta do atlas se associou a uma razão de chances de 2,24 (IC 95 por cento 1,25 a 3,92) (Delargy et al., 2026). Por tipo histológico, o carcinoma de pequenas células teve razão de chances de 4,39 (IC 95 por cento 1,45 a 10,91), e o carcinoma escamoso de 2,19 (IC 95 por cento 0,73 a 5,35), intervalo que inclui o nulo e, portanto, é inconclusivo (Delargy et al., 2026). A exposição foi atribuída pela área de residência, e não medida em cada casa, limitação que os próprios autores apontam; o estudo não foi desenhado para medir o risco individual.

Radônio e tabaco: um risco que se multiplica
A pergunta clínica mais importante é como o radônio se combina com o cigarro. Na análise europeia, o aumento proporcional de risco a cada 100 Bq/m³ não diferiu de forma convincente por tabagismo (P = 0,98), e o modelo em que os efeitos de radônio e tabaco apenas se somariam foi rejeitado (P = 0,05) (Darby et al., 2005). Em outras palavras, os dados são compatíveis com um radônio que multiplica o risco de base, e o risco de base do fumante é muito maior (síntese nossa).
O que isso significa em risco absoluto
Pelo modelo dos autores, e na ausência de outras causas de morte, o risco absoluto de câncer de pulmão até os 75 anos em concentrações habituais de 0, 100 e 400 Bq/m³ seria de cerca de 0,4, 0,5 e 0,7 por cento em quem nunca fumou (Darby et al., 2005). Para fumantes de cigarro, os valores seriam cerca de 25 vezes maiores, de 10, 12 e 16 por cento (Darby et al., 2005).
Por isso, a maior parte dos cânceres de pulmão atribuíveis ao radônio ocorre em fumantes, pelo efeito combinado dos dois (Ritchie et al., 2026). Na Finlândia, entre fumantes, a maioria dos cânceres relacionados ao radônio foi atribuída ao efeito conjunto de radônio e tabaco (Kurkela et al., 2023). Na Alemanha, das mortes atribuídas ao radônio residencial, 19 por cento ocorreram em nunca fumantes, 41 por cento em ex-fumantes e 41 por cento em fumantes atuais (Heinzl et al., 2024).
A forma exata da interação ainda se discute
Um estudo caso-controle espanhol descreveu associação significativa com concentrações acima de 37 Bq/m³ e uma interação submultiplicativa entre radônio e tabaco (Ruano-Ravina et al., 2023). A análise europeia, com muito mais participantes, rejeitou o modelo aditivo, mas isso não prova que a interação seja exatamente multiplicativa (síntese nossa). Para a conversa com o paciente, a mensagem prática não muda: radônio e cigarro juntos pesam muito mais do que cada um isolado.
Isso não transforma o radônio em assunto da consulta de cessação. Como reduzir o consumo nem sempre reduz o risco está no texto sobre tabaco e menos exposição, e a abordagem para parar de fumar está em cessação do tabagismo em cada consulta.
Quem nunca fumou e o peso na população
O cenário do caso fictício do início é o mais desconcertante para o paciente. Na análise europeia, considerando apenas quem nunca fumou, o risco aumentou 10,6 por cento (IC 95 por cento 0,3 a 28,0) a cada 100 Bq/m³ medidos, sem variação por idade, sexo ou tabagismo do cônjuge (Darby et al., 2005). O intervalo é largo, mas fica acima do nulo.
Na Espanha, um estudo multicêntrico em 11 hospitais com mais de 500 nunca fumantes com câncer de pulmão e mais de 900 controles encontrou relação linear com o radônio e risco significativo acima de 200 Bq/m³ (Ruano-Ravina et al., 2023). Os autores observam que, sem tabaco, é preciso uma concentração maior de radônio para que o risco apareça de forma clara (Ruano-Ravina et al., 2023).
Carcinoma de pequenas células em nunca fumantes
O carcinoma de pequenas células é muito ligado ao tabaco e raro em quem nunca fumou. Uma série de casos multicêntrica numa região de alto radônio reuniu 32 nunca fumantes com esse tipo histológico (Torres-Durán et al., 2021). A mediana de radônio nas casas foi de 182 Bq/m³ (intervalo interquartil 82 a 234), e 87,5 por cento eram mulheres, muitas donas de casa e agricultoras (Torres-Durán et al., 2021). Os autores concluíram que o radônio pode ter um papel, mas não encontraram associação entre a concentração e as características da doença ao diagnóstico; a sobrevida em 1 e 2 anos foi de 34,4 e 21,9 por cento (Torres-Durán et al., 2021). Por ser uma série de casos, sem grupo de comparação, o estudo descreve, e não mede risco.
Outros desfechos: ainda inconclusivo
Uma revisão sistemática com metanálise procurou efeitos do radônio além do câncer de pulmão, com 129 estudos na revisão e 40 na metanálise (Henyoh et al., 2024). Nenhuma das associações estimadas atingiu significância estatística. Para cânceres linfo-hematológicos na infância, por exemplo, a razão de risco foi de 1,01 (IC 95 por cento 1,00 a 1,03), intervalo que toca o nulo e deve ser lido como inconclusivo (Henyoh et al., 2024). Os autores não descartam outros efeitos e pedem estudos maiores; hoje, o câncer de pulmão é o desfecho com evidência firme.
Quanto câncer de pulmão o radônio explica
Uma estimativa global calculou a fração de mortes por câncer de pulmão atribuível ao radônio residencial em 66 países com levantamentos nacionais representativos (Gaskin et al., 2018). Com três modelos de risco diferentes, as medianas foram de 16,5, 14,4 e 13,6 por cento (Gaskin et al., 2018). Pelo primeiro modelo, a fração variou de 4,2 por cento no Japão a 29,3 por cento na Armênia (Gaskin et al., 2018). Somados, foram 226 057 óbitos por câncer de pulmão atribuídos ao radônio em 2012, uma mediana de 3,0 por cento de todas as mortes por câncer (Gaskin et al., 2018).
A OMS estima que entre 3 e 14 por cento dos cânceres de pulmão possam ser atribuídos ao radônio, faixa que depende da concentração média local, do tipo de construção e da prevalência de tabagismo (Ritchie et al., 2026). Estimativas nacionais entram aqui como exemplos dessa variação. Na Finlândia, cerca de 72 a 211 cânceres de pulmão por ano, ou 3 a 8 por cento do total, foram atribuídos à exposição evitável ao radônio, números que os autores consideraram baixos para o nível de radônio do país e explicaram pela menor prevalência de tabagismo (Kurkela et al., 2023). Na Alemanha, a estimativa foi de cerca de 2800 mortes por ano (IC 95 por cento 900 a 5100), ou 6,3 por cento (IC 95 por cento 2,1 a 11,4) das mortes por câncer de pulmão (Heinzl et al., 2024).
As estimativas de fração atribuível dependem de modelos de risco, da distribuição de radônio e de dados de tabagismo, e mudam bastante entre métodos; a própria equipe finlandesa registrou valores bem menores que os da estimativa global para o mesmo país (Kurkela et al., 2023). Elas servem para dimensionar o problema, e não para atribuir a causa de um câncer individual.
Quando pensar no radônio na história clínica
Diante de um paciente com câncer de pulmão, o radônio raramente muda a conduta imediata. Ele entra na história clínica por três motivos: entender a exposição de quem adoeceu, proteger quem mora na mesma casa e orientar quem tem risco somado, como o fumante. A investigação de um nódulo e o tratamento do câncer seguem seus próprios caminhos, discutidos nos textos sobre nódulo pulmonar incidental e câncer de pulmão localizado.
Perguntas que cabem na anamnese
As perguntas abaixo são síntese nossa, a partir dos fatores descritos nas fontes (Ritchie et al., 2026; Stanley et al., 2019):
- Há quantos anos mora na casa atual, e onde morou antes por longos períodos?
- A casa tem porão ou cômodos de uso diário no nível do solo ou abaixo dele?
- A região é conhecida por radônio alto nos mapas oficiais, ou o solo é granítico ou de origem vulcânica?
- Alguém já mediu o radônio na casa ou no trabalho, por quanto tempo e com que resultado?
- Trabalhou em mineração subterrânea, túneis, cavernas ou em prédios no subsolo?
A resposta dessas perguntas se encaixa no raciocínio sobre exposição e risco, como qualquer outro dado da história. O texto sobre seguimento a longo prazo após exposição à radiação trata de quem teve exposições conhecidas e precisa de acompanhamento.
Em quem lembrar mais
Na nossa síntese, o radônio merece lugar de destaque em três situações. A primeira é o câncer de pulmão em quem nunca fumou, em que ele é descrito como a principal causa ou uma das principais (Kurkela et al., 2023; Ritchie et al., 2026). A segunda é o fumante ou ex-fumante que mora em área de radônio alto, em que o risco absoluto é muito maior (Darby et al., 2005). A terceira é a família com crianças ou gestantes que pergunta o que fazer em casa: um programa da Pensilvânia, citado aqui como exemplo, que distribuiu kits de teste a pais de recém-nascidos mostrou que, entre 11 556 kits analisados, 41,8 por cento tinham radônio acima de 4 picocuries por litro (Pillay et al., 2025).
O mesmo programa mostra o tamanho do desafio: dos 3 093 704 bebês nascidos no período, os pais de 24 165, ou 0,78 por cento, pediram o teste (Pillay et al., 2025).
Medir e corrigir: o que orientar
O Código Europeu Contra o Câncer, na 5ª edição coordenada pela IARC, recomenda que as pessoas verifiquem os mapas locais de radônio, busquem medição profissional quando indicado e tomem medidas corretivas se necessário (Ritchie et al., 2026). A ressalva "se necessário" é proposital: a correção é indicada quando a concentração passa do nível de referência nacional, para não gerar preocupação desnecessária em quem tem exposição baixa.
Níveis de referência
A OMS recomenda que a concentração de radônio dentro de casa não passe de 100 Bq/m³, e a legislação da União Europeia fixa um limite superior de referência de 300 Bq/m³, que cada país pode reduzir (Ritchie et al., 2026). Outros países usam valores e unidades próprios; nos Estados Unidos, por exemplo, os resultados costumam ser dados em picocuries por litro (Pillay et al., 2025). Como o risco cresce de forma linear desde concentrações baixas, um valor abaixo do nível de referência não equivale a risco zero (Darby et al., 2005).
Como medir
A medição de longa duração é a mais informativa. No estudo canadense, testes de curta duração, apesar de muito usados, tiveram valor limitado para estimar a exposição, com precisão muito influenciada pela época do ano (Stanley et al., 2019). Em quase metade das casas, a variação entre inverno e verão foi mínima, e nas demais o pico podia ser no inverno ou no verão, o que contraria a ideia de que basta medir numa estação (Stanley et al., 2019).

O que a correção consegue evitar
As medidas vão de melhorar a ventilação, em geral simples, a selar frestas no nível do porão e fazer modificações estruturais, que exigem mais investimento (Ritchie et al., 2026). Reduzir o radônio também melhora a qualidade do ar interno, com possível benefício respiratório além da prevenção do câncer (Ritchie et al., 2026).
Os modelos nacionais dão uma ideia do ganho possível. Na Alemanha, remediar todas as casas acima de 100 Bq/m³ evitaria cerca de 966 mortes por câncer de pulmão por ano, ou 34,0 por cento das atribuíveis ao radônio (Heinzl et al., 2024). Na Finlândia, levar as casas acima de 100 Bq/m³ a esse nível eliminaria cerca de 30 por cento dos cânceres atribuíveis (Kurkela et al., 2023). São projeções de modelo, e não resultados observados após a correção.
Como conversar com o paciente
O modo de conversar a seguir é síntese nossa. Para quem já tem câncer de pulmão, vale dizer que o radônio pode ter contribuído, mas que nenhum estudo permite atribuir a causa de um caso individual. Para a família, a mensagem é prática: medir a casa por tempo suficiente e corrigir se o valor passar do nível de referência. Para o fumante, a informação de que radônio e cigarro juntos pesam muito mais do que cada um isolado pode ser mais um motivo para parar, sem transformar a conversa sobre radônio em sermão.
Estudos em resumo
| Estudo | Desenho | População | Achado principal |
|---|---|---|---|
| Darby, 2005 | Análise colaborativa de 13 estudos caso-controle | 7148 pessoas com câncer de pulmão e 14 208 controles em nove países europeus | Risco cresce de forma linear com o radônio em casa, sem limiar aparente (Darby et al., 2005) |
| Richardson, 2022 | Análise conjunta de coortes de mineiros | 57 873 mineiros de urânio contratados a partir de 1960 | Câncer de pulmão aumenta de forma linear com a exposição acumulada em WLM (Richardson et al., 2022) |
| Gaskin, 2018 | Estimativa de fração atribuível | 66 países com levantamento nacional | Radônio residencial responde por parcela relevante das mortes por câncer de pulmão (Gaskin et al., 2018) |
| Delargy, 2026 | Estudo caso-controle de base populacional | 1687 pessoas com câncer de pulmão e 8094 controles na Irlanda do Norte | Mais câncer de pulmão na classe de radônio mais alta do atlas (Delargy et al., 2026) |
| Torres-Durán, 2021 | Série de casos multicêntrica | 32 nunca fumantes com carcinoma de pequenas células | Radônio alto nas casas; sem associação com as características ao diagnóstico (Torres-Durán et al., 2021) |
| Henyoh, 2024 | Revisão sistemática e metanálise | 129 estudos, 40 na metanálise | Outros desfechos além do pulmão: associações inconclusivas (Henyoh et al., 2024) |
Fontes: as concentrações residenciais estão em Bq/m³; a coorte de mineiros usa WLM, unidade ocupacional. Dados de Darby et al., 2005, Richardson et al., 2022, Gaskin et al., 2018, Delargy et al., 2026, Torres-Durán et al., 2021 e Henyoh et al., 2024.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Lembrar de uma exposição ambiental que o paciente não menciona é o mesmo exercício de juntar sinais, sintomas e história que aparece no texto sobre Sinais, sintomas e história: como interpretar o que o paciente traz.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
Morar numa casa com radônio alto significa que vou ter câncer?
O risco aumenta, mas a maioria das pessoas expostas não terá câncer de pulmão. Pelo modelo europeu, quem nunca fumou e vive com 400 Bq/m³ tem risco absoluto de cerca de 0,7 por cento até os 75 anos, contra 0,4 por cento sem radônio (Darby et al., 2005). Em fumantes, os números são muito maiores.
Apartamento em andar alto também tem radônio?
Em geral, menos. No estudo canadense, as medições no porão foram mais altas do que nos andares de cima (Stanley et al., 2019), e na Finlândia as casas tiveram mais cânceres atribuíveis do que os apartamentos (Kurkela et al., 2023). Andar alto reduz, mas não zera a exposição, porque os materiais de construção também contam (Ritchie et al., 2026).
O radônio causa outros cânceres além do de pulmão?
A evidência atual é inconclusiva. A metanálise mais recente não encontrou associação estatisticamente significativa para outros desfechos, embora não descarte essa possibilidade (Henyoh et al., 2024).
Parar de fumar reduz o risco ligado ao radônio?
Como o aumento relativo é parecido com ou sem tabagismo e o risco de base de quem não fuma é menor, o risco absoluto atribuível a ele é muito menor em quem não fuma (Darby et al., 2005). A abordagem da cessação está no texto sobre cessação do tabagismo em cada consulta.
Take-home messages
- O radônio é a segunda causa mais importante de câncer de pulmão, depois do tabagismo, e uma das principais em quem nunca fumou.
- O risco cresce de forma linear com a concentração em casa, sem limiar seguro aparente, e só se conhece a exposição medindo.
- Radônio e tabaco juntos pesam muito mais: a maior parte das mortes atribuíveis ocorre em fumantes e ex-fumantes.
- Na história clínica, pergunte sobre tempo de moradia, porão, região, medições anteriores e trabalho subterrâneo.
- Oriente medição de longa duração e correção da casa quando o valor passa do nível de referência.
Jogue o caso do dia no NEXO e treine o raciocínio com pistas progressivas.
Referências
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- Richardson DB, Rage E, Demers PA, et al. Lung Cancer and Radon: Pooled Analysis of Uranium Miners Hired in 1960 or Later. Environ Health Perspect. 2022;130(5):57010. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35604341/).
- Henyoh AMS, Laurent O, Mandin C, et al. Radon exposure and potential health effects other than lung cancer: a systematic review and meta-analysis. Front Public Health. 2024;12:1439355. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39386959/).
- Gaskin J, Coyle D, Whyte J, et al. Global Estimate of Lung Cancer Mortality Attributable to Residential Radon. Environ Health Perspect. 2018;126(5):057009. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29856911/).
- Kurkela O, Nevalainen J, Pätsi SM, et al. Lung cancer incidence attributable to residential radon exposure in Finland. Radiat Environ Biophys. 2023;62(1):35-49. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36344858/).
- Heinzl F, Schnelzer M, Scholz-Kreisel P. Lung cancer mortality attributable to residential radon in Germany. Radiat Environ Biophys. 2024;63(4):505-517. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39537856/).
- Ruano-Ravina A, Martin-Gisbert L, Kelsey K, et al. An overview on the relationship between residential radon and lung cancer: what we know and future research. Clin Transl Oncol. 2023;25(12):3357-3368. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37610496/).
- Ritchie D, Crowley Q, Greinert R, et al. European Code Against Cancer, 5th edition - ultraviolet radiation, radon and cancer. Mol Oncol. 2026;20(1):49-67. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41542817/).
- Delargy CM, Coleman HG, Crowley QG, et al. Lung cancer risk in relation to indicative radon atlas metrics in Northern Ireland: a population-based case-control study using secondary data. Environ Geochem Health. 2026;48(7):295. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41961378/).
- Torres-Durán M, Curiel-García MT, Ruano-Ravina A, et al. Small-cell lung cancer in never-smokers. ESMO Open. 2021;6(2):100059. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33640828/).
- Stanley FKT, Irvine JL, Jacques WR, et al. Radon exposure is rising steadily within the modern North American residential environment, and is increasingly uniform across seasons. Sci Rep. 2019;9(1):18472. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31796862/).
- Pillay T, Ray MN, Bascom R, et al. Increasing Residential Radon Testing Through Outreach to Families of Newborn Children in Pennsylvania: Evaluation of Intervention Outcomes, 2002-2023. AJPM Focus. 2025;4(4):100372. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40584296/).


