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Cardiologia

Dislipidemia 2026: metas de LDL e Lp(a) estão de volta

Modelo tridimensional da molécula de colesterol

Alexei Peter dos SantosThiago Longo MoraesAlexei Peter dos Santos e Thiago Longo Moraes

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Sumário
  1. As metas voltaram: o que muda em relação a 2018
  2. Calcular o risco: PREVENT nos Estados Unidos, SCORE2 na Europa
  3. Ler o perfil lipídico além do LDL
  4. Lipoproteína(a): uma dosagem na vida adulta
  5. Cálcio coronário zero: um argumento para adiar
  6. Cálcio coronário incidental na tomografia de tórax
  7. Metas por categoria e os remédios além da estatina
  8. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  9. Perguntas frequentes
  10. Take-home messages
  11. Referências

Um homem de 52 anos, sem doença cardiovascular conhecida, chega com um perfil lipídico pedido no check-up do trabalho. O LDL está alto, ele é ex-fumante, tem pressão no limite e um pai que infartou cedo. Há dois anos fez uma tomografia de tórax por causa de uma tosse que demorou a passar, e o laudo terminava com uma linha que ninguém comentou: calcificação coronária discreta. A pergunta antiga seria se ele "merece" estatina. A pergunta da diretriz de 2026 é mais precisa: qual é o risco dele, o que a lipoproteína(a) e o cálcio coronário acrescentam, e até onde o LDL precisa cair.

Em 2026, o American College of Cardiology e a American Heart Association publicaram uma nova diretriz de dislipidemia, que substitui a de 2018 (ACC/AHA, 2026). A mudança mais visível está na primeira mensagem do próprio documento: as metas de tratamento para LDL e colesterol não HDL estão de volta. Junto com elas vieram o cálculo de risco pelo PREVENT, a dosagem de lipoproteína(a) para todo adulto e um papel maior para o escore de cálcio coronário, inclusive o que aparece por acaso em tomografias feitas por outro motivo.

Do outro lado do Atlântico, a Sociedade Europeia de Cardiologia e a Sociedade Europeia de Aterosclerose publicaram em 2025 uma atualização focada da diretriz de 2019 (ESC/EAS, 2025). As duas leituras convergem em muita coisa e divergem em pontos que importam para quem atende em qualquer país. Este texto percorre as mudanças pelo raciocínio clínico, sem virar um resumo de cada recomendação.

Principais pontos

  • As metas de LDL e de colesterol não HDL voltaram à diretriz americana, com valores por categoria de risco (ACC/AHA, 2026).
  • O risco em prevenção primária passa a ser calculado pelo PREVENT-ASCVD nos Estados Unidos e pelo SCORE2 na Europa.
  • A lipoproteína(a) deve ser medida pelo menos uma vez na vida adulta, sem necessidade de jejum (ACC/AHA, 2026).
  • Cálcio coronário zero torna razoável adiar a estatina em quem tem risco incerto, com nova avaliação depois de alguns anos.
  • O cálcio coronário encontrado por acaso numa tomografia de tórax entra na decisão de tratar.
  • O ácido bempedoico ganhou lugar nas duas diretrizes para quem não tolera estatina.

Sumário

As metas voltaram: o que muda em relação a 2018

A diretriz americana de 2013 abandonou as metas numéricas de LDL e passou a recomendar estatina por intensidade, de acordo com o grupo de risco. A de 2018 manteve essa lógica e acrescentou limiares para somar outros remédios. A diretriz de 2026 inverte o movimento e diz, já nas mensagens principais, que as metas de LDL e de colesterol não HDL estão de volta (ACC/AHA, 2026).

O raciocínio por trás é direto. A estatina continua a base do tratamento, mas a pessoa que reduz pouco o LDL com ela fica com risco residual que a simples prescrição não mostra. A meta funciona como um marcador de que o tratamento chegou aonde precisava, e orienta quando somar ezetimiba ou outro remédio. A diretriz organiza o cuidado num modelo de três verbos: calcular o risco, personalizar com fatores que o aumentam e reclassificar ou reavaliar quando há incerteza (ACC/AHA, 2026).

O que a ESC já fazia

As diretrizes europeias nunca deixaram de usar metas. A atualização de 2025 manteve os alvos da versão de 2019 e mudou a forma de calcular o risco, a lista de remédios e a conduta na síndrome coronariana aguda (ESC/EAS, 2025).

Quantas pessoas passam a ter indicação

A mudança tem efeito populacional. Um estudo com dados representativos de adultos americanos de 30 a 79 anos estimou que a elegibilidade para estatina sobe de cerca de 40 em cada 100 adultos pela diretriz de 2018 para cerca de 54 em cada 100 pela de 2026 (Spitz et al., 2026). O maior aumento relativo aconteceu entre adultos com menos de 50 anos, e o ganho veio do conjunto de critérios novos, não só da troca da calculadora (Spitz et al., 2026).

Calcular o risco: PREVENT nos Estados Unidos, SCORE2 na Europa

A diretriz americana troca as equações de coorte agrupadas pelo PREVENT-ASCVD, que estima o risco de doença cardiovascular aterosclerótica em dez anos para adultos de 30 a 79 anos com LDL entre 70 e 189 mg/dL, com classe de recomendação 1 (ACC/AHA, 2026). As categorias passam a ser baixo risco abaixo de 3 em cada 100, limítrofe de 3 a 5, intermediário de 5 a 10 e alto a partir de 10 em cada 100 (ACC/AHA, 2026). O PREVENT inclui a função renal e foi desenvolvido para reduzir a superestimativa das equações antigas.

Os cortes ficaram mais baixos do que os da diretriz anterior, e essa é uma das razões para a elegibilidade maior. Quem atende precisa lembrar que a calculadora estima risco numa população, e a decisão para a pessoa à frente depende do que a calculadora não vê. Essa ideia é a mesma que guia a leitura de qualquer exame pela probabilidade pré-teste: o número de partida muda o significado de tudo que vem depois.

SCORE2 e SCORE2-OP

A atualização europeia recomenda o SCORE2 para pessoas aparentemente saudáveis com menos de 70 anos e o SCORE2-OP a partir dos 70, ambos com classe I (ESC/EAS, 2025). Os dois estimam eventos cardiovasculares fatais e não fatais em dez anos e são calibrados para quatro grupos de países, conforme a mortalidade cardiovascular de cada região (ESC/EAS, 2025).

Fatores que aumentam o risco

Na diretriz americana, a proteína C reativa ultrassensível igual ou acima de 2 mg/L em duas ocasiões, numa pessoa de risco limítrofe, torna razoável a estatina de alta intensidade, com classe 2a (ACC/AHA, 2026). Fatores reprodutivos, como pré-eclâmpsia, menopausa antes dos 40 anos e diabetes gestacional, também entram como modificadores de risco, com classe 2a (ACC/AHA, 2026). A doença cardiovascular cedo na família, a doença renal crônica e as doenças inflamatórias crônicas seguem como peças da personalização.

Ler o perfil lipídico além do LDL

O perfil lipídico parece simples, mas a forma de calcular o LDL mudou. A diretriz americana prefere as equações de Martin e Hopkins ou de Sampson, do NIH, à fórmula de Friedewald, com classe 1, porque estas erram menos quando os triglicerídeos estão altos ou o LDL está baixo (ACC/AHA, 2026). Para a maioria das pessoas, a coleta sem jejum é aceitável, o que simplifica o acesso ao exame.

O colesterol não HDL ganhou a mesma importância do LDL, com metas próprias em cada categoria (ACC/AHA, 2026). Ele soma o colesterol de todas as partículas que levam apolipoproteína B, inclusive as remanescentes ricas em triglicerídeos. Em quem tem diabetes, obesidade ou triglicerídeos altos, o LDL pode subestimar o número de partículas aterogênicas, e o não HDL corrige parte desse erro.

Apolipoproteína B depois de atingir a meta

A diretriz americana considera razoável medir a apolipoproteína B quando o LDL e o não HDL já estão na meta, para identificar quem ainda tem excesso de partículas, com classe 2a (ACC/AHA, 2026). A atualização europeia lembra que o LDL e as outras lipoproteínas com apolipoproteína B são causa direta da doença aterosclerótica (ESC/EAS, 2025).

Quando repetir o exame

Depois de começar ou ajustar o tratamento, a diretriz americana recomenda repetir o perfil lipídico em 4 a 12 semanas e depois a cada 6 a 12 meses, para conferir a resposta e a adesão (ACC/AHA, 2026). A europeia sugere conferir o LDL entre 4 e 6 semanas após iniciar ou intensificar a terapia (ESC/EAS, 2025). O rastreio em adultos sem doença vai a cada 5 anos a partir dos 19 anos, e em crianças entre 9 e 11 anos, pela diretriz americana (ACC/AHA, 2026). A hipercolesterolemia familiar heterozigótica afeta cerca de 1 em cada 250 a 300 pessoas (ACC/AHA, 2026).

Lipoproteína(a): uma dosagem na vida adulta

A lipoproteína(a) é uma partícula semelhante ao LDL, com uma proteína a mais, a apolipoproteína(a). Seu nível é determinado sobretudo pela genética e muda pouco ao longo da vida. A diretriz americana recomenda medir a lipoproteína(a) pelo menos uma vez em todos os adultos, com classe 1, e a coleta pode ser feita sem jejum (ACC/AHA, 2026).

O valor de 125 nmol/L ou mais, equivalente a 50 mg/dL, é considerado elevado e se associa a um risco cerca de 1,4 vez maior (ACC/AHA, 2026). O risco cresce de forma contínua: perto de 250 nmol/L ele dobra, e perto de 430 nmol/L fica em torno de quatro vezes maior, semelhante ao da hipercolesterolemia familiar (ACC/AHA, 2026). Essa gradação é a razão de a diretriz tratar a lipoproteína(a) como espectro e não como resultado positivo ou negativo.

O corte europeu

A atualização europeia recomenda considerar a lipoproteína(a) acima de 50 mg/dL, cerca de 105 nmol/L, como fator que aumenta o risco em todos os adultos, com classe IIa (ESC/EAS, 2025). O documento estima que pelo menos 20 em cada 100 pessoas tenham valores acima desse corte e recomenda medir em unidades molares quando possível, por causa da variação entre os métodos de laboratório (ESC/EAS, 2025). Um ponto prático: uma segunda dosagem após a menopausa é razoável, sobretudo se o valor anterior estava perto do corte (ESC/EAS, 2025).

O que fazer com o resultado

Até agora, faltam remédios aprovados que reduzam seletivamente a lipoproteína(a) com benefício comprovado em eventos. Por isso, as duas diretrizes usam o valor elevado para intensificar o resto. A americana recomenda controlar cedo os outros fatores de risco em quem tem lipoproteína(a) alta, com classe 1, e somar anticorpo monoclonal anti-PCSK9 em quem tem doença aterosclerótica e não atinge a meta de LDL, também com classe 1 (ACC/AHA, 2026). A europeia fala em manejo antecipado dos fatores de risco e redução mais intensa do LDL, considerando o risco absoluto e o nível de lipoproteína(a) (ESC/EAS, 2025).

Depois do infarto

Uma revisão de 2026 sobre lipoproteína(a) após infarto reúne estudos que a associam à progressão de placa, a placas de alto risco e a novos eventos, o que a torna candidata a explicar parte do risco residual (Gogan et al., 2026). A mesma revisão lembra que o benefício de reduzir só a lipoproteína(a) continua sem demonstração (Gogan et al., 2026).

Os remédios em teste

As terapias de RNA, como o oligonucleotídeo antissenso pelacarseno e os RNAs de interferência olpasirana, zerlasirana e lepodisirana, reduzem a lipoproteína(a) de 79 a cerca de 97 em cada 100 nos estudos de fase 2, descontado o placebo (Parcha e Bittner, 2026). O resultado preliminar do estudo de fase 3 com pelacarseno, divulgado pelo patrocinador, mostrou queda grande da lipoproteína(a) sem redução significativa de eventos, e os dados completos ainda não foram publicados com revisão por pares (Parcha e Bittner, 2026). Esse resultado reforça a cautela: baixar um marcador causal não garante, por si só, menos infartos, e o tamanho da redução necessária, o momento e o desfecho escolhido ainda estão em discussão (Gogan et al., 2026).

Cálcio coronário zero: um argumento para adiar

O escore de cálcio coronário, medido por tomografia sem contraste, mostra se há aterosclerose calcificada nas artérias do coração. A diretriz americana recomenda usá-lo para decidir quando o risco calculado deixa dúvida, com classe 1 (ACC/AHA, 2026). O exame funciona como um reclassificador: ele sobe ou desce a pessoa de categoria com base na própria artéria, e não na média da população.

Quando o escore é zero, a diretriz considera razoável adiar a estatina em quem não tem outros fatores de risco muito fortes e repetir o exame em 3 a 7 anos, com classe 2a (ACC/AHA, 2026). Quando é maior que zero, recomenda iniciar o tratamento, sobretudo com escore de 100 ou mais ou acima do percentil 75 para idade e sexo, com classe 1 (ACC/AHA, 2026).

O que o zero quer dizer

O cálcio zero indica que, naquele momento, a placa calcificada está ausente. Ele diminui a probabilidade de eventos em médio prazo, mas não exclui placa não calcificada, e por isso perde valor em fumantes, em pessoas com diabetes e em quem tem história familiar forte. A diretriz trata o zero como argumento para conversar e adiar, e não como garantia. Vale a ideia de prevenção quaternária: um exame pedido para tirar a dúvida pode também desencadear uma cascata de outros exames.

Onde as diretrizes discordam

Uma revisão narrativa de 2026 comparou diretrizes de prevenção cardiovascular e encontrou divergências justamente no escore de cálcio, na dosagem de lipoproteína(a), no rastreio de aneurisma de aorta abdominal e no início de hipolipemiante em idosos (Brotons et al., 2026). As maiores discordâncias apareceram quando as recomendações se apoiavam em estudos sem randomização ou em opinião de especialistas (Brotons et al., 2026). Na prática, o escore vale quando muda a decisão.

Cálcio coronário incidental na tomografia de tórax

A calcificação coronária aparece em tomografias de tórax feitas por muitos motivos: investigação de tosse, rastreio de câncer de pulmão, estadiamento oncológico e até tomografias de correção de atenuação em exames nucleares. A diretriz americana recomenda considerar esse achado incidental na decisão de tratar, inclusive quando ele é identificado por inteligência artificial, com classe 1 (ACC/AHA, 2026).

Quando o cálcio incidental é moderado ou grave, a diretriz considera razoável estatina de alta intensidade com meta de LDL abaixo de 70 mg/dL, com classe 2a (ACC/AHA, 2026). Quando é discreto, a orientação é estatina de intensidade moderada com meta abaixo de 100 mg/dL (ACC/AHA, 2026).

Reconstrução tridimensional das artérias coronárias por tomografia
Reconstrução tridimensional das artérias coronárias obtida por tomografia. Crédito: Goleisureintl, CC BY 4.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Quão confiável é a tomografia comum

A tomografia de tórax sem sincronização com o eletrocardiograma pode perder ou subestimar o cálcio por causa do movimento e do contraste. Ainda assim, uma metanálise de 15 estudos encontrou correlação de 0,96 entre o cálcio medido nessa tomografia e o medido na tomografia sincronizada (Patel e Williams, 2026). Os modelos de inteligência artificial passaram a quantificar o cálcio de forma automática, rápida e reprodutível, o que torna viável avaliá-lo em grande escala (Patel e Williams, 2026). A mesma revisão lembra que ainda faltam ensaios randomizados mostrando que essa busca oportunista reduz eventos.

O laudo precisa chegar à pessoa

Relatar o achado muda a conduta. Numa metanálise de 7 estudos, informar o cálcio incidental se associou a mais prescrições de estatina em 5 deles (Patel e Williams, 2026). No estudo NOTIFY-1, quem foi informado do achado estava usando estatina com mais frequência em 6 meses, cerca de 51 em cada 100 contra 7 em cada 100 (Patel e Williams, 2026).

A forma de comunicar também pesa. Um estudo qualitativo com participantes do programa inglês de rastreio de câncer de pulmão mostrou que muitas pessoas diziam entender o achado, mas tinham ideias equivocadas sobre o próprio risco (Fletcher et al., 2026). A confiança no profissional que explica e as informações vindas de redes sociais, família e amigos influenciaram a aceitação do hipolipemiante (Fletcher et al., 2026). Explicar o risco com clareza e marcar um retorno fazem parte do tratamento.

Metas por categoria e os remédios além da estatina

A diretriz americana distribui as metas conforme o risco. Em prevenção primária de risco intermediário, recomenda pelo menos estatina de intensidade moderada, com classe 1, e considera razoável a meta de LDL abaixo de 100 mg/dL e de não HDL abaixo de 130 mg/dL (ACC/AHA, 2026). No risco alto, a recomendação é estatina de alta intensidade com redução de pelo menos 50 em cada 100 do LDL, com meta abaixo de 70 mg/dL e de não HDL abaixo de 100 mg/dL, e ezetimiba se a meta não for atingida (ACC/AHA, 2026).

Na prevenção secundária, a meta é LDL abaixo de 70 mg/dL e não HDL abaixo de 100 mg/dL, com a opção razoável de buscar abaixo de 55 mg/dL (ACC/AHA, 2026). Em quem tem risco muito alto, definido por dois ou mais eventos maiores ou um evento maior com duas ou mais condições de alto risco, a meta passa a ser LDL abaixo de 55 mg/dL e não HDL abaixo de 85 mg/dL (ACC/AHA, 2026).

Tabela: categoria de risco e meta pela ACC/AHA 2026

Situação Tratamento inicial Meta de LDL e de não HDL
Prevenção primária, risco intermediário Estatina de intensidade moderada ou maior Abaixo de 100 e de 130 mg/dL (ACC/AHA, 2026)
Prevenção primária, risco alto Estatina de alta intensidade Abaixo de 70 e de 100 mg/dL (ACC/AHA, 2026)
Cálcio coronário incidental moderado ou grave Estatina de alta intensidade LDL abaixo de 70 mg/dL (ACC/AHA, 2026)
Diabetes de 40 a 75 anos Estatina de intensidade moderada Abaixo de 100 e de 130 mg/dL (ACC/AHA, 2026)
Doença aterosclerótica estabelecida Estatina de alta intensidade Abaixo de 70 e de 100 mg/dL, com opção de 55 (ACC/AHA, 2026)
Risco muito alto Estatina com ezetimiba ou anti-PCSK9 Abaixo de 55 e de 85 mg/dL (ACC/AHA, 2026)

As metas da tabela são as da diretriz americana; a europeia mantém os alvos de 2019, com LDL abaixo de 55 mg/dL no risco muito alto e abaixo de 70 mg/dL no risco alto (ESC/EAS, 2025).

Tubo de coleta de sangue sobre a mesa
Tubo de coleta de sangue, como o usado para o perfil lipídico e a lipoproteína(a). Crédito: AfroBrazilian, CC BY-SA 3.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo); números do rótulo desfocados.

Ácido bempedoico

O ácido bempedoico ganhou espaço nas duas diretrizes. A europeia recomenda o remédio, com classe I, para quem não consegue usar estatina, e considera razoável somá-lo à estatina, com ou sem ezetimiba, no risco alto ou muito alto que não atinge a meta (ESC/EAS, 2025). A base é o estudo CLEAR Outcomes, com 13970 pessoas que não toleravam estatina, seguidas por mediana de 40,6 meses, em que o remédio reduziu eventos cardiovasculares maiores com razão de risco de 0,87 (ESC/EAS, 2025). O mesmo estudo registrou mais gota e mais ácido úrico alto no grupo tratado (ESC/EAS, 2025).

Uma análise posterior do mesmo ensaio encontrou menos tromboembolismo venoso com o ácido bempedoico, com razão de risco de 0,58, um achado que ainda precisa de confirmação (Spiazzi et al., 2026). Nos estudos de fase 3, a eficácia e a segurança em pessoas com 75 anos ou mais foram semelhantes às dos grupos mais jovens, com ou sem estatina associada (Mancini et al., 2026).

Ezetimiba, anti-PCSK9 e inclisirana

A ezetimiba continua o primeiro passo depois da estatina, pela eficácia, pelo acesso e pela tolerância. Na hipercolesterolemia grave, com LDL de 190 mg/dL ou mais, a diretriz americana considera razoável a inclisirana, e a evinacumabe fica para a hipercolesterolemia familiar homozigótica (ACC/AHA, 2026). A europeia recomenda a evinacumabe nessa forma homozigótica a partir dos 5 anos, com classe IIa (ESC/EAS, 2025).

Na síndrome coronariana aguda

A atualização europeia trouxe duas recomendações novas para a internação por síndrome coronariana aguda. Quem já usava hipolipemiante deve ter o tratamento intensificado ainda na internação, com classe I (ESC/EAS, 2025). Quem nunca usou e provavelmente não atingirá a meta só com estatina pode começar já com estatina e ezetimiba, com classe IIa (ESC/EAS, 2025). Reconhecer a síndrome coronariana aguda a tempo é outra habilidade, discutida no texto sobre o escore HEART e no texto sobre infarto em mulheres.

Suplementos

As duas diretrizes desaconselham suplementos e vitaminas para baixar o colesterol. A americana dá classe 3 a esse uso e cita o estudo SPORT, em que a rosuvastatina baixou o LDL em cerca de 38 em cada 100 e os suplementos testados ficaram sem efeito relevante (ACC/AHA, 2026). A europeia também contraindica suplementos sem segurança documentada e sem redução significativa do LDL, com classe III (ESC/EAS, 2025).

Como aplicar ao caso do homem de 52 anos

De volta ao homem do início. O primeiro passo é calcular o risco com o PREVENT-ASCVD, já que ele tem entre 30 e 79 anos e LDL abaixo de 190 mg/dL (ACC/AHA, 2026). Suponha que ele caia no risco intermediário. O infarto do pai em idade jovem e o tabagismo prévio pesam para cima, e a lipoproteína(a), que ele nunca mediu, deve ser pedida uma vez.

O laudo antigo de tomografia muda a conversa. A calcificação coronária discreta, encontrada por acaso, já mostra aterosclerose na artéria dele, e a diretriz recomenda levar esse achado em conta (ACC/AHA, 2026). Pela regra do cálcio incidental discreto, a conduta sugerida é estatina de intensidade moderada com meta de LDL abaixo de 100 mg/dL (ACC/AHA, 2026). Se a lipoproteína(a) vier muito alta, o argumento para intensificar cresce.

O raciocínio por trás

O caso mostra os três verbos da diretriz na prática. Calcular situa o homem numa faixa. Personalizar acrescenta o que a calculadora não vê, como a família e a lipoproteína(a). Reclassificar usa a imagem da própria artéria. Em pessoas com várias doenças, essa conta se mistura a outras diretrizes, como discute o texto sobre multimorbidade. A obesidade e o diabetes também entram, e o texto sobre tirzepatida na obesidade com apneia do sono mostra como uma condição altera a leitura de outra. Montar a lista do que pode estar acontecendo, como no treino de diagnóstico diferencial, ajuda a não perder a hipercolesterolemia familiar quando o LDL vem muito alto.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Buscar o código certo na CID-10 completa esse treino.

Perguntas frequentes

As metas de LDL voltaram mesmo na diretriz americana?

Sim. A diretriz ACC/AHA de 2026 diz, entre as mensagens principais, que as metas de LDL e de colesterol não HDL estão de volta, com valores por categoria de risco (ACC/AHA, 2026). A estatina continua a base, e a meta orienta quando somar outro remédio.

Quantas vezes preciso medir a lipoproteína(a)?

Para a maioria dos adultos, uma vez na vida basta, porque o nível é determinado sobretudo pela genética (ACC/AHA, 2026). A diretriz europeia considera razoável repetir após a menopausa quando o primeiro valor estava perto do corte (ESC/EAS, 2025).

Cálcio coronário zero dispensa a estatina?

Ele torna razoável adiar a estatina em quem tem risco incerto e não tem fatores muito fortes, com nova avaliação em 3 a 7 anos (ACC/AHA, 2026). Em fumantes, em pessoas com diabetes e em quem tem história familiar forte, o zero pesa menos.

O que fazer com cálcio coronário visto numa tomografia de tórax?

A diretriz americana recomenda considerar esse achado na decisão de tratar, com estatina de alta intensidade quando o cálcio é moderado ou grave (ACC/AHA, 2026). Comunicar o achado com clareza aumenta a chance de a pessoa aceitar o tratamento.

Quem não tolera estatina fica sem opção?

Há alternativas com benefício comprovado. A diretriz europeia recomenda terapias sem estatina com benefício em eventos, como o ácido bempedoico, a ezetimiba e o anti-PCSK9, para quem não pode usar estatina (ESC/EAS, 2025).

Os novos remédios contra a lipoproteína(a) já funcionam?

Eles reduzem muito o nível no sangue, mas ainda falta demonstrar menos eventos cardiovasculares (Parcha e Bittner, 2026). Por enquanto, a lipoproteína(a) alta serve para intensificar o controle dos outros fatores de risco.

Take-home messages

  • A diretriz ACC/AHA 2026 trouxe de volta as metas de LDL e de colesterol não HDL.
  • O risco é calculado pelo PREVENT-ASCVD nos Estados Unidos e pelo SCORE2 na Europa, e personalizado com fatores que o aumentam.
  • O LDL deve ser calculado pelas equações de Martin e Hopkins ou de Sampson, e a apolipoproteína B ajuda depois de atingir a meta.
  • A lipoproteína(a) deve ser medida uma vez na vida adulta e funciona como espectro de risco.
  • Cálcio coronário zero torna razoável adiar a estatina quando o risco é incerto.
  • O cálcio encontrado por acaso numa tomografia de tórax entra na decisão de tratar.
  • O ácido bempedoico é opção com benefício em eventos para quem não tolera estatina.
  • Na síndrome coronariana aguda, a ESC recomenda intensificar o tratamento ainda na internação.

Quer treinar o raciocínio diante de uma pessoa com fatores de risco somados? Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

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