Medicina de desastresRaciocínio clínico

Terremotos: o perfil das lesões e a triagem

Sala de reanimação de pronto-socorro vazia, com maca, carrinho de materiais e coluna de gases
Sumário
  1. O tamanho do problema
  2. Quando os pacientes chegam
  3. O perfil das lesões
  4. Esmagamento e rim
  5. Como a triagem funciona no terremoto
  6. Infecções e feridas nas semanas seguintes
  7. Armadilhas de raciocínio no cenário de terremoto
  8. Perguntas frequentes
  9. Take-home messages
  10. Referências

Doze horas depois de um terremoto, um jovem de 24 anos chega ao pronto-socorro de um hospital regional. Passou a noite preso sob uma laje, com a perna direita comprimida, e foi retirado pela equipe de resgate pouco antes do amanhecer. Ele conversa, a pressão está aceitável e a dor parece a queixa principal. A fila atrás dele tem dezenas de pessoas com cortes, fraturas e crianças assustadas. O médico da triagem precisa decidir em segundos se aquele rapaz que fala e responde é um caso amarelo ou alguém prestes a parar o coração.

O terremoto produz um perfil de lesões diferente de outros desastres. Mistura trauma mecânico em massa, esmagamento prolongado, insuficiência renal e infecções tardias, tudo concentrado nos primeiros dias. Este texto revisa o que os estudos mostram sobre esse perfil, como as ferramentas de triagem se saem nesse cenário e quais armadilhas de raciocínio aparecem quando a demanda supera os recursos.

Principais pontos

  • Entre 1980 e 2009, terremotos mataram mais de 370 mil pessoas e feriram quase 1 milhão, sobretudo pelo colapso de construções.
  • Lesões de partes moles e fraturas de extremidades predominam, mas o esmagamento define boa parte da gravidade e do consumo de recursos.
  • Quase metade dos pacientes com síndrome de esmagamento precisa de diálise nas séries publicadas.
  • A procura se concentra nos primeiros dias, sobretudo nas primeiras 24 horas.
  • Nenhuma ferramenta de triagem é perfeita, e em uma grande base chinesa o REMS discriminou a gravidade melhor que o START.
  • Infecções por germes resistentes aparecem semanas depois e mudam o cuidado das feridas.

O tamanho do problema

Uma revisão histórica de Doocy e colaboradores reuniu os terremotos entre 1980 e 2009 e contou 372634 mortes, 995219 feridos e mais de 61 milhões de pessoas afetadas (Doocy e colaboradores, 2013). O principal mecanismo de morte e lesão foi o colapso de construções (Doocy e colaboradores, 2013). A chance de sobreviver caiu conforme o resgate demorava, e em um dos estudos incluídos 84 a cada 100 dos sobreviventes foram resgatados na primeira hora (Doocy e colaboradores, 2013). A revisão também destaca o papel da resposta de emergência e do sistema de saúde para reduzir mortes e lesões logo após o evento (Doocy e colaboradores, 2013).

O risco não é igual para todos. Na análise de Doocy, os muito jovens e os idosos tiveram risco maior de morte e de lesão (Doocy e colaboradores, 2013). Isso tem consequência direta para a triagem, porque são justamente esses grupos que comunicam pior seus sintomas e que compensam o choque de maneira diferente dos adultos jovens, como já discutido no texto sobre sinais vitais que enganam no idoso.

O conhecimento sobre crianças ainda é frágil. Uma revisão sistemática de Jacquet e colaboradores encontrou 2037 artigos sobre lesões em terremotos, mas apenas 10 traziam dados quantitativos sobre a população pediátrica (Jacquet e colaboradores, 2013). Todos eram retrospectivos, usavam faixas etárias diferentes e classificavam as lesões de forma heterogênea, o que impede somar os resultados com segurança (Jacquet e colaboradores, 2013).

Alguns números de uma única catástrofe ajudam a dar escala. Após os terremotos de Kahramanmaraş, na Turquia, em 2023, um hospital de Adana recebeu 1246 pacientes com menos de 18 anos no primeiro mês (Uluöz e Gökmen, 2023). Desses, 560 foram internados na ortopedia (Uluöz e Gökmen, 2023). Outro hospital da região atendeu 662 vítimas na primeira semana, das quais 19,8 a cada 100 morreram (Sarı e colaboradores, 2023).

Maca dobrável de lona laranja encostada na parede de um corredor
Maca dobrável de lona, do tipo usado no transporte de feridos. Nos primeiros dias após o terremoto, o fluxo de macas define o ritmo do pronto-socorro. Crédito: Bamjos, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso, sem a etiqueta da lona.

Quando os pacientes chegam

A demanda após um terremoto tem um formato típico: um pico muito precoce e uma cauda de complicações. Abu-Zidan e colaboradores descrevem que a carga de atendimento se concentra nos primeiros dias, principalmente nas primeiras 24 horas (Abu-Zidan e colaboradores, 2023). Os pacientes internados nesse primeiro dia tinham esmagamentos mais graves e mais complicações (Abu-Zidan e colaboradores, 2023).

As séries turcas confirmam esse desenho. No estudo de Sarı e colaboradores, 61,0 a cada 100 das vítimas chegaram nos 3 primeiros dias (Sarı e colaboradores, 2023). Entre as crianças de Adana, 42 a cada 100 das internações ortopédicas aconteceram nas primeiras 24 horas e 58 a cada 100 nos três primeiros dias (Uluöz e Gökmen, 2023). Uluöz e Gökmen concluem que quase todas as crianças feridas chegam ao hospital nos primeiros dias depois do terremoto (Uluöz e Gökmen, 2023).

O mesmo grupo de autores descreve a resposta médica em quatro fases (Abu-Zidan e colaboradores, 2023):

  1. Busca e resgate.
  2. Triagem e estabilização inicial.
  3. Cuidado definitivo.
  4. Evacuação.

Essas fases não acontecem em sequência limpa. Enquanto um bairro ainda está na busca e no resgate, o hospital da cidade já está no cuidado definitivo dos primeiros feridos, e pacientes retirados dos escombros continuam chegando por dias. Por isso a equipe da emergência precisa reavaliar o cenário várias vezes ao dia, e não apenas na ativação do plano.

O tempo sob os escombros também muda o perfil. Em um hospital da zona do terremoto, Köroğlu e colaboradores avaliaram 372 dos 2176 pacientes atendidos e encontraram 40,86 a cada 100 que tinham ficado sob escombros (Köroğlu e colaboradores, 2023). Em outra série de Sarı, 36,8 a cada 100 das vítimas tinham sido resgatadas de escombros (Sarı e colaboradores, 2023). Quem fica preso tende a chegar mais tarde e com mais risco de esmagamento, o que inverte a intuição de que os primeiros a chegar são sempre os mais graves.

O perfil das lesões

Na revisão de Doocy, as lesões de partes moles, como lacerações e contusões, e as fraturas foram os tipos de lesão mais relatados, e as extremidades foram as regiões mais atingidas (Doocy e colaboradores, 2013). Nos estudos com pacientes internados, porém, o esmagamento aparece várias vezes como a lesão mais comum (Doocy e colaboradores, 2013). A diferença é previsível: quem tem só um corte é tratado e liberado, enquanto o esmagamento fica no hospital.

Os dados de Köroğlu e colaboradores mostram o mesmo padrão. O membro inferior foi a região mais acometida, com 29,84 a cada 100 das lesões, e 31,45 a cada 100 dos pacientes precisaram de internação (Köroğlu e colaboradores, 2023). No estudo de Sarı, 38,3 a cada 100 foram internados e 17,4 a cada 100 precisaram de UTI (Sarı e colaboradores, 2023).

Nas crianças, a distribuição muda. Cakir e colaboradores revisaram as tomografias de 257 crianças atendidas após o terremoto e encontraram lesões relacionadas ao evento em 102 delas (Cakir e colaboradores, 2023). A lesão mais comum foi o trauma de crânio, em 18,7 a cada 100, seguido de tórax em 15,6, coluna em 8,5 e fratura de pelve em 7,4 (Cakir e colaboradores, 2023). Esses números lembram que a criança soterrada não é um adulto pequeno, e a decisão sobre imagem de crânio segue critérios próprios, como os discutidos no texto sobre a regra PECARN em crianças.

A ortopedia pediátrica de Adana dá uma ideia do volume cirúrgico. Foram 77 crianças com fraturas de ossos longos, 34 delas expostas (Uluöz e Gökmen, 2023). A fasciotomia foi feita em 131 crianças, 78 delas dos dois lados (Uluöz e Gökmen, 2023). Das 31 amputações, 17 foram feitas nas primeiras 24 horas e 28 na primeira semana (Uluöz e Gökmen, 2023).

Para organizar o raciocínio, vale pensar nas lesões em camadas. A primeira são as lesões imediatas pela queda de estruturas, que atingem crânio, tórax, coluna, pelve e extremidades. A segunda é o esmagamento com síndrome compartimental, que depende do tempo de compressão. A terceira são as complicações sistêmicas depois da liberação, como potássio alto, choque e lesão renal aguda. A quarta são as infecções de feridas e as infecções hospitalares das semanas seguintes. A quinta é a descompensação de doenças crônicas por falta de remédio, energia ou diálise. Cada camada tem seu próprio relógio, e a equipe que pensa só na primeira tende a ser surpreendida pelas outras.

Esmagamento e rim

A síndrome de esmagamento é a complicação que mais diferencia o terremoto de outros eventos com muitas vítimas. A compressão prolongada do músculo causa lesão de esmagamento, e a reperfusão que ocorre quando a compressão é aliviada pode levar a alterações metabólicas e rabdomiólise, conforme o tempo até a retirada (Abu-Zidan e colaboradores, 2023). Os autores descrevem que a reperfusão pode provocar hiperpotassemia e parada cardíaca no momento da liberação (Abu-Zidan e colaboradores, 2023). O tema está aprofundado no texto sobre o potássio no momento da liberação.

A escala é grande. Abu-Zidan e colaboradores citam uma série de 957 vítimas de Kahramanmaraş em que 7,7 a cada 100 tiveram lesão por esmagamento e 2,1 a cada 100 tiveram síndrome compartimental (Abu-Zidan e colaboradores, 2023). Os autores apontam a síndrome de esmagamento como a segunda maior causa de morte depois do trauma direto no terremoto (Abu-Zidan e colaboradores, 2023).

Uma meta-análise de Rostami e colaboradores reuniu 50 estudos publicados entre 1988 e 2023, a maioria da Turquia, do Irã e da China (Rostami e colaboradores, 2026). A proporção combinada de pacientes com síndrome de esmagamento que precisaram de diálise foi de 49 a cada 100 (Rostami e colaboradores, 2026). A lesão renal aguda foi a complicação mais frequente, também com 49 a cada 100 (Rostami e colaboradores, 2026). A mortalidade combinada foi de 8 a cada 100, com grande variação entre regiões, de 1 a 26 a cada 100 (Rostami e colaboradores, 2026). Os autores atribuem parte da heterogeneidade às definições inconsistentes da síndrome (Rostami e colaboradores, 2026).

O que aumenta o risco de rim? No estudo de Köroğlu e colaboradores com 33 pacientes com esmagamento, a frequência de lesão renal aguda subiu conforme o número de membros comprimidos: 35,7 a cada 100 com um membro, 66,7 com dois e 100 com três (Köroğlu e colaboradores, 2024). Ficar preso por mais de 6 horas também se associou a maior risco (Köroğlu e colaboradores, 2024). Esses dois dados cabem em perguntas simples na triagem: quantos membros ficaram presos e por quanto tempo.

A diálise é um recurso escasso no desastre. Quando quase metade dos pacientes com esmagamento precisa dela (Rostami e colaboradores, 2026), a capacidade de diálise da região vira gargalo, somada aos pacientes que já dialisavam antes do terremoto. O texto sobre diálise quando faltam energia e água trata desse segundo grupo, e o texto sobre rabdomiólise e lesão renal aguda detalha a fisiopatologia.

Alguns sinais fazem pensar em esmagamento com risco sistêmico e merecem ser procurados ativamente: membro comprimido por horas, sobretudo por mais de 6 horas, mais de um membro preso, edema tenso, dor desproporcional ou perda de sensibilidade no membro, urina escura ou escassa e alterações de ritmo no monitor logo após a liberação. Nenhum deles sozinho define o diagnóstico, mas a soma de dois ou três já muda a prioridade do paciente e a vigilância sobre ele.

Máquina de hemodiálise desligada em sala de diálise, sem paciente
Máquina de hemodiálise em sala sem pacientes. Após terremotos, a demanda por diálise cresce justamente quando energia e água ficam escassas. Crédito: Виталий Поспелов, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso, com tela, etiquetas e marca desfocadas.

Como a triagem funciona no terremoto

A triagem em massa parte do princípio de fazer o maior bem para o maior número, e os algoritmos mais usados, como START e SALT, estão descritos no texto sobre START, um algoritmo simples e rápido. O terremoto testa esses algoritmos de um jeito particular, porque o paciente com esmagamento pode andar pouco, respirar bem e ter perfusão aceitável na primeira avaliação, e ainda assim estar em risco alto.

Peng e colaboradores compararam cinco métodos de triagem em uma base de 29523 vítimas de terremotos no oeste da China entre 2008 e 2018 (Peng e colaboradores, 2021). As curvas foram calculadas com base em óbito hospitalar, escore de gravidade da lesão acima de 15 e necessidade de UTI, e a área sob a curva foi de 0,750 para o START, 0,737 para o CareFlight, 0,835 para o REMS, 0,736 para o T-RTS e 0,797 para o TEWS (Peng e colaboradores, 2021). O REMS teve a maior área sob a curva, atribuída pelos autores ao maior número de indicadores avaliados, e não houve diferença evidente entre os outros quatro métodos (Peng e colaboradores, 2021). Os autores lembram que o estudo prospectivo da triagem em terremotos é muito difícil, pela natureza súbita do evento e por questões éticas e logísticas, e que a maior parte da evidência vem de simulações e análises posteriores (Peng e colaboradores, 2021).

Método O que avalia, em linhas gerais Área sob a curva na base chinesa
START Marcha, respiração, perfusão e resposta a comandos 0,750 (Peng e colaboradores, 2021)
CareFlight Obediência a comandos, marcha, pulso e respiração 0,737 (Peng e colaboradores, 2021)
REMS Escore com sinais vitais, consciência e idade 0,835 (Peng e colaboradores, 2021)
T-RTS Escore com respiração, pressão e consciência 0,736 (Peng e colaboradores, 2021)
TEWS Escore de alerta com sinais vitais e mobilidade 0,797 (Peng e colaboradores, 2021)

A tabela não autoriza trocar um algoritmo por outro sem treinamento, mas mostra que nenhum método captura sozinho a gravidade do terremoto. O erro de classificação para baixo e para cima tem consequências diferentes, e o texto sobre supertriagem e subtriagem discute esse equilíbrio.

A experiência turca propõe complementos. Yilmaz e colaboradores revisaram o algoritmo de manejo usado na emergência de adultos após Kahramanmaraş com base no START e no SAVE, um sistema de avaliação secundária (Yilmaz e colaboradores, 2024). Eles descrevem o START-A como uma forma de agilizar a triagem e o controle da dor, e o SAVE como etapa de reavaliação que usa escalas de consciência e de gravidade de membros para decidir internação, cirurgia, transferência e alta (Yilmaz e colaboradores, 2024). Os autores destacam o uso de gasometria e de ultrassom à beira do leito durante essa avaliação (Yilmaz e colaboradores, 2024).

Na prática, a triagem no terremoto pede algumas perguntas extras além do algoritmo:

  1. Ficou preso? Por quanto tempo?
  2. Quantos membros ficaram comprimidos?
  3. Como está a urina?
  4. Há doença renal, diabetes ou outra condição que dependa de remédio ou aparelho?
  5. Quem vai reavaliar este paciente, e quando?

A última pergunta é a mais esquecida. A triagem em desastre é dinâmica, e um paciente classificado como amarelo na chegada pode virar vermelho depois da liberação ou da reidratação. O texto sobre ferramentas de triagem e o que cada uma vê mostra o mesmo princípio em outro contexto.

Infecções e feridas nas semanas seguintes

A segunda onda do terremoto é infecciosa. Hasanoglu e colaboradores acompanharam 225 sobreviventes com lesões musculoesqueléticas internados entre fevereiro e abril de 2023 (Hasanoglu e colaboradores, 2024). O germe mais isolado foi Acinetobacter baumannii, em 49,4 a cada 100 das culturas, seguido de enterococos, em 28,6 (Hasanoglu e colaboradores, 2024). Entre os germes isolados em culturas de ferida, 76 a cada 100 eram multirresistentes, e nas culturas de tecido profundo, 58 a cada 100 (Hasanoglu e colaboradores, 2024).

No mesmo estudo, 74 pacientes, ou 32,8 a cada 100, tiveram infecção de sítio cirúrgico, e 80, ou 35,6 a cada 100, passaram pela UTI (Hasanoglu e colaboradores, 2024). A mortalidade geral foi de 2,7 a cada 100 (Hasanoglu e colaboradores, 2024). Os autores chamam atenção para o fato de que, ao contrário do esperado em infecções pós-traumáticas, os germes gram-negativos predominaram (Hasanoglu e colaboradores, 2024).

Uma meta-análise de Xue e colaboradores reuniu 16 estudos com 2974 cepas isoladas de vítimas de terremotos (Xue e colaboradores, 2025). Os cinco patógenos mais frequentes foram Escherichia coli, Acinetobacter baumannii, Pseudomonas aeruginosa, Enterobacter cloacae e Staphylococcus aureus (Xue e colaboradores, 2025). As taxas de resistência a vários antibióticos de uso comum foram altas (Xue e colaboradores, 2025).

Na prática, isso muda o raciocínio em alguns pontos. A ferida de escombro deve ser tratada como contaminada, com limpeza e desbridamento cuidadosos. A febre na segunda ou terceira semana depois do terremoto pede cultura antes de presumir qual é o germe. O perfil de resistência local deve guiar a escolha empírica, e não o costume herdado de outros traumas. E sondas, cateteres e internações longas somam risco de infecção hospitalar a um paciente que já chegou com feridas contaminadas. A série de Hasanoglu mostra como essas camadas se somam: além das infecções de sítio cirúrgico, houve infecções urinárias hospitalares em 12 pacientes e infecções de corrente sanguínea em 13 (Hasanoglu e colaboradores, 2024).

O paralelo com enchentes é útil: a água e a terra contaminadas também mudam o perfil das infecções, como discutido em feridas e água de enchente.

Pinças e tesouras cirúrgicas dispostas sobre campo verde em mesa auxiliar
Instrumental cirúrgico sobre mesa auxiliar. Desbridamento e fasciotomia estão entre os procedimentos mais frequentes depois de terremotos. Crédito: آرمین, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

Armadilhas de raciocínio no cenário de terremoto

O ambiente do desastre favorece atalhos mentais. Alguns aparecem com frequência:

  • O paciente que conversa parece estável. No esmagamento, a liberação pode ser o momento de maior risco (Abu-Zidan e colaboradores, 2023).
  • A ferida que impressiona rouba a atenção. Fraturas expostas chamam o olhar, enquanto o membro fechado e tenso evolui para síndrome compartimental.
  • A criança quieta é lida como tranquila. Trauma de crânio foi a lesão mais comum nas tomografias pediátricas (Cakir e colaboradores, 2023).
  • A chegada tardia é lida como gravidade menor. Quem ficou mais tempo preso tem mais risco de lesão renal (Köroğlu e colaboradores, 2024).
  • A primeira classificação vira definitiva. Sem reavaliação, o paciente amarelo que piora some na fila.

Essas armadilhas são variações do mesmo erro: confiar demais na impressão inicial. A probabilidade pré-teste muda no terremoto, porque o contexto aumenta a chance de esmagamento, rim e infecção em pacientes que, em outro dia, seriam de baixo risco. O mesmo raciocínio vale para o paciente de explosão que parece bem e merece observação, tema do texto sobre quem parece bem e deve ser observado com critério.

Há também um custo para quem atende. Decidir quem recebe o primeiro leito, a primeira diálise ou a primeira cirurgia pesa sobre a equipe, e o texto sobre o que os estudos mostram sobre lesão moral em profissionais de saúde discute esse impacto.

Perguntas frequentes

Qual é a lesão mais comum no terremoto?

Nas revisões, lesões de partes moles e fraturas de extremidades são as mais relatadas, mas entre internados o esmagamento aparece com frequência como a lesão principal (Doocy e colaboradores, 2013).

Por que o paciente com esmagamento pode piorar depois de ser resgatado?

Porque a reperfusão do músculo liberado pode causar alterações metabólicas, hiperpotassemia e parada cardíaca (Abu-Zidan e colaboradores, 2023).

Quantos pacientes com síndrome de esmagamento precisam de diálise?

Na meta-análise de 50 estudos, a proporção combinada foi de 49 a cada 100 (Rostami e colaboradores, 2026).

O START funciona no terremoto?

Funciona, mas não é perfeito. Em uma base de 29523 vítimas, o REMS teve a maior área sob a curva, e os demais métodos ficaram próximos entre si (Peng e colaboradores, 2021).

Quando os pacientes chegam ao hospital?

A maioria nos primeiros dias, com concentração nas primeiras 24 horas (Abu-Zidan e colaboradores, 2023), e uma parcela continua chegando depois de dias sob escombros.

Por que as infecções das feridas são diferentes?

Porque germes gram-negativos e multirresistentes, como Acinetobacter baumannii, predominaram em séries de sobreviventes de terremoto (Hasanoglu e colaboradores, 2024).

Take-home messages

  • O colapso de construções responde pela maior parte das mortes e lesões nos terremotos.
  • Partes moles e fraturas de extremidades predominam, mas o esmagamento concentra a gravidade.
  • Tempo preso e número de membros comprimidos são perguntas obrigatórias na triagem.
  • Quase metade dos pacientes com síndrome de esmagamento precisa de diálise.
  • Nenhuma ferramenta de triagem basta sozinha, e a reavaliação é parte do algoritmo.
  • Semanas depois, infecções por germes resistentes exigem cultura e atenção ao perfil local.

Referências

  1. Abu-Zidan FM, Idris K, Cevik AA. Prehospital management of earthquake crush injuries: A collective review. Turk J Emerg Med. 2023. PMID 38024191.
  2. Cakir IM, Sengul I, Bekci T, et al. A needful, unique, and in-place evaluation of the injuries in earthquake victims with computed tomography, in catastrophic disasters! The 2023 Turkey-Syria earthquakes: part I. Rev Assoc Med Bras (1992). 2023. PMID 37585997.
  3. Doocy S, Daniels A, Packer C, et al. The human impact of earthquakes: a historical review of events 1980-2009 and systematic literature review. PLoS Curr. 2013. PMID 23857161.
  4. Hasanoglu I, Kayaaslan B, Ozdemir G, et al. Infections after musculoskeletal injuries in earthquake survivors. Jt Dis Relat Surg. 2024. PMID 39189579.
  5. Jacquet GA, Hansoti B, Vu A, et al. Earthquake-related injuries in the pediatric population: a systematic review. PLoS Curr. 2013. PMID 24761308.
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  7. Köroğlu M, Karakaplan M, Ergen E, et al. The initial response of a local hospital in the earthquake zone during the February 6, 2023 Kahramanmaraş earthquakes: Injuries and challenges. Acta Orthop Traumatol Turc. 2023. PMID 38454212.
  8. Peng Y, Hu H, Hu H. Assessment of earthquake casualties and comparison of accuracy of five injury triage methods: evidence from a retrospective study. BMJ Open. 2021. PMID 34625415.
  9. Rostami P, Jafari Rouhi A, Hajebrahimi R, et al. Crush injury syndrome in earthquakes: a systematic review and meta-analysis on its frequency and complications. BMC Emerg Med. 2026. PMID 41928063.
  10. Sarı H, Özel M, Akkoç MF, et al. First-Week Analysis after the Turkey Earthquakes: Demographic and Clinical Outcomes of Victims. Prehosp Disaster Med. 2023. PMID 37165847.
  11. Uluöz M, Gökmen MY. The 2023 Turkey Earthquake: Management of 627 Pediatric Musculoskeletal Injuries in the First Month. Children (Basel). 2023. PMID 38002824.
  12. Xue W, Chen W, Wang J, et al. Distribution and antibiotic resistance of pathogens in post-earthquake traumatic infections: a systematic review and meta-analysis. BMC Infect Dis. 2025. PMID 41168685.
  13. Yilmaz S, Tatliparmak AC, Karakayali O, et al. February 6th, Kahramanmaraş earthquakes and the disaster management algorithm of adult emergency medicine in Turkey: An experience review. Turk J Emerg Med. 2024. PMID 38766417.

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