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Anemia na DRC: o que a KDIGO 2026 mudou

Glomérulo renal visto ao microscópio, com capilares cheios de hemácias

Alexei Peter dos SantosThiago Longo MoraesAlexei Peter dos Santos e Thiago Longo Moraes

Publicado em Atualizado em

Sumário
  1. Por que a anemia da DRC é um problema de raciocínio
  2. Diagnóstico: o que pedir e com que frequência
  3. Ferro: novos nomes e novos limiares
  4. Ferro intravenoso na prática
  5. AEE ou HIF-PHI: a primeira escolha
  6. Hiporresposta: quando o tratamento não funciona
  7. Transfusão: sintomas, transplante e o que evitar
  8. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  9. Perguntas frequentes
  10. Take-home messages
  11. Referências

Um homem de 68 anos, com doença renal crônica em estágio G4 por nefropatia diabética, chega à consulta cansado e com falta de ar aos médios esforços. Num caso fictício como este, a hemoglobina cai cerca de 2 g/dl em seis meses e chega a pouco mais de 9 g/dl. A ferritina está em 180 ng/ml e a saturação de transferrina em 18. O médico que o acompanha precisa decidir se repõe ferro, se começa um agente estimulador da eritropoese, se investiga sangramento ou se faz tudo isso ao mesmo tempo.

A diretriz da KDIGO sobre anemia na doença renal crônica, publicada em 2026, foi a primeira revisão completa do tema desde 2012 (KDIGO Anemia Work Group, 2026). Em mais de uma década, chegaram os inibidores da prolil hidroxilase do fator induzível por hipóxia (os HIF-PHI), novos ensaios com ferro intravenoso e uma leitura mais cuidadosa dos riscos de buscar hemoglobina alta. O documento reorganizou tudo isso em quatro capítulos: diagnóstico, ferro, agentes que estimulam a eritropoese e transfusão.

Este texto segue o raciocínio da diretriz na ordem em que ele aparece no consultório e na sala de diálise. A classificação da doença renal crônica pela taxa de filtração e pela albuminúria fica para o texto sobre a KDIGO 2024; aqui o foco é a anemia.

Principais pontos

  • A KDIGO 2026 troca deficiência absoluta de ferro por deficiência sistêmica de ferro, e deficiência funcional por eritropoese restrita por ferro (KDIGO Anemia Work Group, 2026).
  • O rastreio inicial ficou mais enxuto: hemograma, reticulócitos, ferritina e saturação de transferrina.
  • Fora da hemodiálise, o ferro passa a ser sugerido com ferritina abaixo de 100 e saturação abaixo de 40, ou ferritina entre 100 e 300 com saturação abaixo de 25.
  • Na hemodiálise, o ferro intravenoso entra com ferritina até 500 e saturação até 30, de forma proativa.
  • Corrigidas as causas reversíveis, o agente estimulador da eritropoese é a primeira escolha, à frente do HIF-PHI.
  • Em adultos tratados, a meta é manter a hemoglobina abaixo de 11,5 g/dl (KDIGO Anemia Work Group, 2026).
  • A transfusão é decidida pelos sintomas, e quem pode receber transplante deve ser poupado dela sempre que possível.

Sumário

Por que a anemia da DRC é um problema de raciocínio

A anemia é uma das complicações mais comuns da doença renal crônica e fica mais frequente à medida que a filtração cai. A explicação clássica é a produção insuficiente de eritropoetina pelo rim doente, mas a diretriz insiste que ela raramente age sozinha (KDIGO Anemia Work Group, 2026). A inflamação crônica eleva a hepcidina, que prende o ferro nos estoques e reduz a absorção intestinal. As perdas de sangue na diálise, as coletas frequentes e os quelantes de fósforo completam o quadro.

Uma anemia que esconde outras

Na prática, o risco é atribuir toda anemia ao rim. A figura de causas reversíveis da KDIGO lista deficiência de ferro, de vitamina B12 e de folato, hipotireoidismo, hiperparatireoidismo, sangramento digestivo, hemólise, infecção, desnutrição, diálise inadequada, câncer e doenças da medula. Cada uma muda a conduta. O paciente com mieloma, por exemplo, pode chegar à consulta com anemia e insuficiência renal ao mesmo tempo, e o cuidado do rim no mieloma depende de reconhecer a doença de base cedo.

O que a década trouxe

Entre 2012 e 2026, três grupos de evidência mudaram o tema. Os ensaios com metas altas de hemoglobina, como TREAT, CHOIR e CREATE, mostraram mais acidente vascular cerebral e eventos cardiovasculares sem ganho de sobrevida, e foram a base para a meta mais baixa já em 2012. Depois vieram os estudos de ferro intravenoso proativo na hemodiálise, como o PIVOTAL, e os grandes programas de fase 3 dos HIF-PHI, como os estudos ASCEND com daprodustate e os INNO2VATE com vadadustate (KDIGO Anemia Work Group, 2026).

Uma coorte canadense de quase 29 mil pacientes ajuda a entender o efeito dessa história. Entre 2007 e 2017, a hemoglobina média caiu de 12,2 para 11,3 g/dl, o uso de agente estimulador recuou e a chance de ter hemoglobina abaixo de 9 g/dl aumentou a cada ano (Birks et al., 2026). Só uma minoria dos pacientes se encaixava nos critérios dos ensaios que motivaram a cautela (Birks et al., 2026). A diretriz de 2026 tenta corrigir esse excesso de conservadorismo sem voltar às metas altas.

Diagnóstico: o que pedir e com que frequência

A KDIGO recomenda procurar anemia no encaminhamento, ao longo do seguimento e sempre que os sintomas sugerirem. O conjunto inicial ficou mais enxuto: hemograma, reticulócitos com índice de produção, ferritina e saturação de transferrina (ponto de prática 1.2.1). A anemia continua definida pela hemoglobina abaixo de 13 g/dl em homens e abaixo de 12 g/dl em mulheres (KDIGO Anemia Work Group, 2026).

A frequência mínima

A diretriz sugere medir a hemoglobina ao menos uma vez por ano no estágio G3, duas vezes por ano no G4 e a cada três meses no G5 ou na diálise. Quem usa agente estimulador ou HIF-PHI, quem está abaixo da meta e quem tem perda rápida de função precisa de controles mais próximos.

Quando ampliar a investigação

Vitamina B12 e folato saíram do rastreio inicial obrigatório. O comentário da Associação Europeia de Melhores Práticas Renais (ERBP) chama atenção para isso e lembra que o folato é retirado pela diálise e pode cair durante o tratamento com agente estimulador (Del Vecchio et al., 2026). Se o primeiro conjunto de exames não explica a anemia, a KDIGO sugere ampliar a busca: esfregaço de sangue, haptoglobina, desidrogenase lática, proteína C reativa, B12, folato, função hepática, eletroforese de proteínas com imunofixação, cadeias leves livres, hormônio tireoestimulante, paratormônio e sangue oculto nas fezes (ponto de prática 1.2.2).

A lista funciona como um exercício de diagnóstico diferencial: as causas graves, como câncer, hemólise e mieloma, entram cedo. Uma lição parecida aparece na doença renal crônica de causa desconhecida, em que um exame normal pode enganar quem não pergunta pela história.

Ferro muito baixo pede busca de sangramento

Com ferritina abaixo de 45 ng/ml, ou com anemia microcítica sem outra explicação, a diretriz pede avaliação de perda de sangue e, se preciso, encaminhamento ao gastroenterologista, ao ginecologista ou ao urologista (ponto de prática 1.2.3). O raciocínio é simples: o rim explica a falta de eritropoetina, mas raramente explica um estoque de ferro vazio.

Esfregaço de sangue com hemácias pequenas e pálidas da anemia ferropriva
Esfregaço de sangue periférico na anemia por deficiência de ferro, com hemácias menores e mais pálidas que o normal. Crédito: Ed Uthman, CC BY 2.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Ferro: novos nomes e novos limiares

A mudança de nomenclatura é a primeira novidade do capítulo de ferro. Deficiência absoluta de ferro passou a se chamar deficiência sistêmica de ferro, porque os estoques do corpo estão de fato baixos. Deficiência funcional virou eritropoese restrita por ferro, porque os estoques podem até existir, mas o ferro fica preso pela hepcidina e não chega à medula (KDIGO Anemia Work Group, 2026). Os nomes novos descrevem melhor o que acontece e ajudam a explicar por que uma ferritina normal pode conviver com falta de ferro para fabricar hemácias.

Na hemodiálise

Para quem está em hemodiálise, a recomendação 2.1 sugere iniciar ferro com ferritina até 500 ng/ml e saturação de transferrina até 30, e a recomendação 2.2 prefere a via intravenosa à oral, ambas com grau 2D. O ponto de prática 2.1 pede uma estratégia proativa, com reposição programada para manter o estoque estável, e não apenas reativa quando os exames caem. A ideia vem do ensaio PIVOTAL, citado pela diretriz, em que o esquema proativo reduziu a necessidade de agente estimulador sem aumento de infecções.

Um estudo húngaro mostra que o esquema proativo nem sempre basta. Em 91 pacientes com dados completos numa unidade de hemodiálise, mais da metade seguia com saturação baixa apesar do ferro semanal programado; quando a equipe somou reposições extras guiadas pelos exames, a hemoglobina e a saturação subiram em três meses com o mesmo agente estimulador (Pribelszki et al., 2026).

Fora da hemodiálise

Para quem não faz diálise ou faz diálise peritoneal, a recomendação 2.3 sugere ferro em duas situações: ferritina abaixo de 100 ng/ml com saturação abaixo de 40, ou ferritina entre 100 e 300 ng/ml com saturação abaixo de 25. A escolha entre via oral e intravenosa (recomendação 2.4) depende das preferências do paciente, da gravidade da anemia e da deficiência, da eficácia, da tolerância e da disponibilidade de cada opção.

O paciente do caso de abertura, com ferritina de 180 e saturação de 18, se encaixa no segundo grupo e tem indicação de ferro antes de pensar em qualquer outro agente.

Deficiência de ferro sem anemia

O ponto de prática 2.11 sugere considerar ferro mesmo sem anemia quando a deficiência é profunda, com ferritina abaixo de 30 e saturação abaixo de 20. A ERBP concorda com essa posição, mas lembra que faltam estudos mostrando benefício clínico com os limiares mais altos da recomendação 2.3 quando não há anemia (Del Vecchio et al., 2026). Uma revisão sistemática de seis estudos em doença renal crônica fora da diálise encontrou melhora da saturação e da ferritina com ferro intravenoso, mas nenhum ganho medido na caminhada de seis minutos ou na qualidade de vida (Spencer et al., 2026).

Quando suspender

A diretriz considera razoável suspender o ferro de rotina com ferritina acima de 700 ng/ml ou saturação de 40 ou mais (ponto de prática 2.2), e pensar em pausa temporária durante uma infecção sistêmica (ponto de prática 2.8). Os controles de hemoglobina, ferritina e saturação devem ocorrer a cada três meses fora da hemodiálise e a cada um a três meses na hemodiálise, com exames extras depois de sangramento, internação ou início de agente estimulador.

Ferro intravenoso na prática

A troca da via oral pela intravenosa é indicada quando o esquema oral bem feito falha depois de um a três meses ou quando o paciente não o tolera (ponto de prática 2.7). A escolha da formulação intravenosa segue a preferência do paciente, a segurança, a disponibilidade e a logística das aplicações (KDIGO Anemia Work Group, 2026).

Reações e preparo

O ponto de prática 2.9 desfaz alguns hábitos antigos. O ferro intravenoso só deve ser aplicado onde houver capacidade de tratar hipersensibilidade e hipotensão. A pré-medicação com corticoide ou anti-histamínico deixou de ser rotina, e a aplicação de teste também, porque a ausência de reação no teste não prevê o risco. A diretriz traz um fluxograma por gravidade: sintomas inespecíficos pedem parar a infusão, observar e retomar mais devagar; uma reação grave, com sibilância, estridor ou hipotensão, pede adrenalina intramuscular, oxigênio, volume, internação e a suspensão definitiva do ferro intravenoso.

O fósforo que cai

Um efeito menos lembrado é a hipofosfatemia. A tabela de formulações da KDIGO registra o risco com a carboximaltose férrica, sobretudo em quem tem doença renal inicial e em transplantados renais. Uma metanálise de três ensaios randomizados encontrou risco de hipofosfatemia em cinco a seis semanas cerca de oito vezes maior com carboximaltose do que com derisomaltose férrica, e a forma grave ocorreu só no primeiro grupo (Dangre et al., 2026). Para quem repõe ferro repetidas vezes, medir o fósforo faz parte do seguimento.

AEE ou HIF-PHI: a primeira escolha

Antes de qualquer agente estimulador, a KDIGO pede corrigir as causas reversíveis da anemia, a começar pelo ferro (ponto de prática 3.1.2). A decisão de tratar para subir a hemoglobina é compartilhada com o paciente, pesando sintomas, o risco das transfusões e o risco de acidente vascular cerebral, de evento cardiovascular e de câncer (ponto de prática 3.1.1).

O agente estimulador vem primeiro

A recomendação 3.1.1 sugere usar um agente estimulador da eritropoese, e não um HIF-PHI, como primeira linha (grau 2D). A justificativa é a experiência longa com os agentes injetáveis e a falta de prova de que os comprimidos sejam mais seguros (KDIGO Anemia Work Group, 2026). O ponto de prática 3.1.3 lista quem deve evitar os HIF-PHI: câncer ativo ou recente, doença renal policística, retinopatia proliferativa, hipertensão pulmonar, gestação, eventos cardiovasculares ou tromboembólicos prévios, trombose de acesso vascular e doença hepática.

O que os estudos dos HIF-PHI mostram

As metanálises recentes ajudam a ver o tamanho do efeito. Uma revisão de 36 ensaios com mais de 27 mil pacientes mostrou que os HIF-PHI reduziram a necessidade de transfusão em comparação com os controles, sem aumento significativo de eventos cardiovasculares maiores ou de morte, com um sinal de hipercalemia fora da diálise (Huang et al., 2026). Uma metanálise em rede de 46 ensaios colocou o roxadustate no topo da elevação da hemoglobina, mas também entre os de mais eventos adversos fora da diálise, enquanto o agente estimulador teve o menor risco nesse grupo (Niu et al., 2026).

Na diálise peritoneal, a subanálise do ASCEND-D com 340 pacientes encontrou resposta da hemoglobina e eventos cardiovasculares parecidos entre daprodustate e darbepoetina, sem diferença em peritonite (Dasgupta et al., 2025). Uma análise por estatística de vitória dos ensaios INNO2VATE, com quase 3.900 pacientes em diálise, encontrou mortalidade e internações semelhantes entre vadadustate e darbepoetina (Chertow et al., 2026). No Japão, uma coorte nacional de pacientes com insuficiência cardíaca fora da diálise não mostrou mais internações por insuficiência cardíaca com HIF-PHI do que com agente estimulador (Kunitsu et al., 2026).

O conjunto sugere equivalência em vários desfechos, mas com seguimento curto para câncer e retinopatia, que são as dúvidas biológicas do bloqueio do fator induzível por hipóxia. Por isso a diretriz deixou o comprimido como segunda opção.

Quando começar e até onde subir

Na diálise, a recomendação 3.2.1 sugere iniciar o agente estimulador com hemoglobina entre 9,0 e 10,0 g/dl ou menos (KDIGO Anemia Work Group, 2026). Fora da diálise, incluindo transplantados e crianças, o momento de começar depende dos sintomas, do benefício esperado e do risco de transfusão ou do próprio tratamento (recomendação 3.2.2). Em adultos tratados, a recomendação 3.3.1, a única de grau 1 no capítulo, pede manter a hemoglobina abaixo de 11,5 g/dl (KDIGO Anemia Work Group, 2026). Para os HIF-PHI, a diretriz sugere usar os mesmos limiares.

Ajustes e monitorização

Depois de iniciar ou mudar o esquema, a hemoglobina deve ser medida a cada duas a quatro semanas, evitando subidas acima de 1 g/dl nesse intervalo. Os ajustes não devem ser feitos com intervalo menor que quatro semanas, salvo quando a hemoglobina sobe rápido demais logo no início, situação em que a quantidade deve cair de 25 a 50 por cento (KDIGO Anemia Work Group, 2026). Na manutenção, o controle passa a ser trimestral. O agente estimulador deve ser suspenso durante internação por acidente vascular cerebral agudo, trombose de acesso ou evento tromboembólico. A via subcutânea é a indicada fora da hemodiálise.

Para os HIF-PHI, a diretriz manda dosar a hemoglobina duas a quatro semanas após o início e depois a cada quatro semanas, acompanhar a tireoide nos primeiros três meses de roxadustate e interromper o remédio se a resposta não vier em três a quatro meses. Agente estimulador e HIF-PHI juntos estão vetados.

Tabela: dos exames à conduta

Situação O que a KDIGO 2026 sugere Grau
Hemodiálise com ferritina até 500 e saturação até 30 Iniciar ferro intravenoso, de forma proativa 2D
Fora da hemodiálise, ferritina abaixo de 100 e saturação abaixo de 40 Iniciar ferro oral ou intravenoso 2D
Fora da hemodiálise, ferritina de 100 a 300 e saturação abaixo de 25 Iniciar ferro oral ou intravenoso 2D
Ferritina acima de 700 ou saturação de 40 ou mais Suspender o ferro de rotina Ponto de prática
Causas reversíveis corrigidas e anemia persistente Agente estimulador como primeira linha, à frente do HIF-PHI 2D
Diálise com hemoglobina de 9 a 10 g/dl ou menos Iniciar agente estimulador 2D
Adulto em tratamento com agente estimulador Manter a hemoglobina abaixo de 11,5 g/dl (KDIGO Anemia Work Group, 2026) 1D
Hiporresposta mantida, com sintomas Tentativa de três a quatro meses de HIF-PHI ou transfusão Ponto de prática

Hiporresposta: quando o tratamento não funciona

A diretriz chama de hiporresposta inicial a ausência de subida da hemoglobina depois do primeiro mês de tratamento com a quantidade adequada ao peso. A hiporresposta adquirida aparece quando, depois de um período estável, o paciente passa a precisar de dois aumentos sucessivos para manter a meta (KDIGO Anemia Work Group, 2026).

Procurar a causa antes de aumentar

O primeiro passo é voltar à lista de causas reversíveis: deficiência de ferro, inflamação, infecção, sangramento oculto, hiperparatireoidismo, diálise insuficiente e baixa adesão. A KDIGO desaconselha aumentos repetidos além do dobro da quantidade inicial, porque as quantidades altas se associam a mais eventos cardiovasculares nos ensaios.

A tentativa com HIF-PHI

Se a causa não aparece e a hiporresposta persiste com sintomas ou risco de transfusão, o fluxograma da diretriz sugere uma tentativa de três a quatro meses com HIF-PHI, interrompida se a resposta não vier (pontos de prática 3.7.2 a 3.7.4). Quem tem câncer ativo, evento cardiovascular recente ou trombose recente deve ficar fora dessa opção. Na suspeita de aplasia pura de série vermelha ligada ao agente estimulador, a conduta é suspender o agente, transfundir se necessário e discutir com o hematologista.

Raciocínio parecido aparece com outros remédios que mexem na hemoglobina, como o sotatercepte na hipertensão pulmonar, em que a subida rápida também pede adiar a próxima aplicação.

Glomérulo com nefropatia diabética visto ao microscópio, com expansão do mesângio
Glomérulo com glomeruloesclerose diabética em coloração de hematoxilina e eosina. A perda progressiva de néfrons reduz a produção de eritropoetina pelo rim. Crédito: KGH, CC BY-SA 3.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Transfusão: sintomas, transplante e o que evitar

O capítulo de transfusão é curto e direto. A KDIGO pede que a transfusão faça parte de uma estratégia completa, decidido com o paciente (ponto de prática 4.1), e baseada nos sintomas e sinais da anemia, e não num número fixo de hemoglobina (ponto de prática 4.4) (KDIGO Anemia Work Group, 2026).

O candidato a transplante

Para quem pode receber um rim, a diretriz pede evitar transfusões sempre que possível, pelo risco de alossensibilização (ponto de prática 4.2). Anticorpos contra antígenos leucocitários humanos formados depois de uma transfusão reduzem a chance de encontrar um doador compatível e podem favorecer rejeição mediada por anticorpos depois do transplante (Li, 2026). O tema ganha peso com as novas fronteiras do transplante, como os protocolos de xenotransplante em pacientes em diálise.

Quando transfundir faz sentido

A transfusão tende a valer mais que seus riscos quando o agente estimulador ou o HIF-PHI não funciona, como nas hemoglobinopatias e na falência medular, ou quando esses remédios podem fazer mal, como em quem teve câncer ou acidente vascular cerebral (ponto de prática 4.3). Na anemia aguda, a transfusão entra quando é preciso corrigir rápido, como no sangramento agudo, na doença coronariana instável ou antes de uma cirurgia (ponto de prática 4.5). O paciente com doença renal também corre mais risco de sobrecarga circulatória, e saber separar TACO e TRALI faz parte do cuidado.

Poupar sangue no hospital

A tabela 11 da diretriz sugere medidas simples para reduzir transfusões: limitar coletas de sangue, preferir procedimentos menos invasivos, manter ferro e agente estimulador durante a internação quando não houver contraindicação e olhar a tendência da hemoglobina em vez de um valor isolado. Em situações de desastre, quando a diálise e os remédios faltam, a anemia piora junto com o potássio, e o texto sobre diálise quando faltam energia e água mostra como priorizar. O potássio, aliás, merece atenção quando se usa HIF-PHI fora da diálise, e reconhecer a hipercalemia no ECG ajuda em qualquer cenário. Na insuficiência cardíaca com doença renal, a tabela de potássio da finerenona é um bom exemplo de ajuste guiado por exame.

De volta ao consultório

O homem do caso de abertura tem anemia moderada, sintomas e eritropoese restrita por ferro, com ferritina de 180 e saturação de 18. O primeiro passo é repor ferro e investigar sangramento, já que a queda foi rápida. Se a hemoglobina seguir baixa depois de corrigido o ferro, a conversa com ele sobre um agente estimulador, com meta abaixo de 11,5 g/dl, vem em seguida (KDIGO Anemia Work Group, 2026). O HIF-PHI fica como alternativa se houver hiporresposta ou preferência forte pela via oral, desde que ele esteja fora dos grupos de risco.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Buscar o código certo na CID-10 completa esse treino.

Perguntas frequentes

O que mudou nos nomes da deficiência de ferro?

A KDIGO 2026 passou a chamar a deficiência absoluta de deficiência sistêmica de ferro e a funcional de eritropoese restrita por ferro. A primeira indica estoques baixos; a segunda indica ferro preso pela inflamação, que não chega à medula.

Ferritina normal afasta falta de ferro na doença renal?

A ferritina sobe com a inflamação, então um valor dentro da faixa pode esconder falta de ferro para a medula. Por isso a diretriz combina ferritina e saturação de transferrina e sugere repor ferro com ferritina de até 300 quando a saturação está abaixo de 25, fora da hemodiálise.

O comprimido HIF-PHI substitui a injeção de eritropoetina?

A diretriz sugere o agente estimulador injetável como primeira linha e deixa o HIF-PHI como alternativa, sobretudo na hiporresposta. Os estudos mostram eficácia parecida, mas o seguimento ainda é curto para riscos como câncer e retinopatia.

Qual é a meta de hemoglobina no tratamento?

Em adultos tratados com agente estimulador, a meta é manter a hemoglobina abaixo de 11,5 g/dl (KDIGO Anemia Work Group, 2026). Dentro desse teto, o valor ideal é individual e depende dos sintomas, da qualidade de vida e do risco de transfusão.

Precisa de pré-medicação antes do ferro intravenoso?

A pré-medicação com corticoide ou anti-histamínico deixou de ser rotina, assim como a aplicação de teste. O essencial é aplicar onde a equipe consegue tratar uma reação de hipersensibilidade.

Quando transfundir quem tem doença renal crônica?

A decisão segue os sintomas e sinais da anemia, e não um número fixo de hemoglobina. Quem pode receber transplante deve ser poupado de transfusões sempre que possível, pelo risco de formar anticorpos.

Take-home messages

  • A anemia da doença renal crônica quase sempre tem mais de uma causa, e o ferro vem primeiro.
  • Os novos nomes, deficiência sistêmica de ferro e eritropoese restrita por ferro, explicam por que a ferritina pode enganar.
  • Fora da hemodiálise, o ferro entra com ferritina abaixo de 100 e saturação abaixo de 40, ou ferritina até 300 e saturação abaixo de 25.
  • Na hemodiálise, o ferro intravenoso é proativo, com ferritina até 500 e saturação até 30.
  • O agente estimulador injetável é a primeira linha; o HIF-PHI é alternativa fora dos grupos de risco.
  • Hemoglobina abaixo de 11,5 g/dl em adultos tratados, com ajustes no máximo a cada quatro semanas (KDIGO Anemia Work Group, 2026).
  • Transfusão pelos sintomas, poupando o candidato a transplante.

Milestone inventory

  • 2012: a KDIGO publica a primeira diretriz de anemia na doença renal crônica, já com meta conservadora de hemoglobina.
  • 2019: o ensaio PIVOTAL sustenta o ferro intravenoso proativo na hemodiálise.
  • 2021: os programas ASCEND e INNO2VATE comparam HIF-PHI e agente estimulador em grandes populações.
  • 2026: a KDIGO atualiza a diretriz, renomeia a deficiência de ferro e coloca o agente estimulador à frente do HIF-PHI.

Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

  1. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Anemia Work Group. KDIGO 2026 Clinical Practice Guideline for the Management of Anemia in Chronic Kidney Disease (CKD). Kidney Int. 2026;109(1S):S1-S99. DOI 10.1016/j.kint.2025.06.006. Lido pelo PDF integral em kdigo.org.
  2. Del Vecchio L, Cases A, Eisenga MF, et al. KDIGO 2026 Clinical Practice Guideline for Anemia in Chronic Kidney Disease (CKD): a commentary from the European Renal Best Practice (ERBP). Nephrol Dial Transplant. 2026;41(8):1554-1572. PMID 41604211.
  3. Spencer S, Skidmore M, McGing RM, Bhandari S. A systematic review investigating the safety and efficacy of intravenous iron in people with ND-CKD who are iron deficient but not anaemic. Clin Kidney J. 2026;19(7):sfag172. PMID 42441103.
  4. Niu Y, Wang T, Zhan Y, et al. Efficacy and safety of prolyl hydroxylase inhibitors for anemia in chronic kidney disease: a network meta-analysis. Ren Fail. 2026;48(1):2616572. PMID 41633330.
  5. Huang J, Wang Y, Zhang H, et al. Effects of hypoxia-inducible factor prolyl hydroxylase inhibitors on transfusion and intravenous iron use in chronic kidney disease anemia: a systematic review and meta-analysis. Front Pharmacol. 2026;17:1916346. PMID 42819330.
  6. Birks P, Canney M, Djurdjev O, et al. Evaluation of Anemia Management in a Contemporary Population of Patients With Chronic Kidney Disease in Canada Since the Publication of Target Hemoglobin Trials: A Retrospective Observational Cohort Study. Can J Kidney Health Dis. 2026;13:20543581261468720. PMID 42466097.
  7. Pribelszki P, Szász M, Tapolyai M. Proactive iron supplementation alone in patients on chronic hemodialysis is not sufficient. Ren Fail. 2026;48(1):2694788. PMID 42552952.
  8. Dangre V, Rafiuddin M, Sriram K, et al. Time Course and Comparative Risk of Hypophosphatemia After Ferric Carboxymaltose versus Ferric Derisomaltose: A Systematic Review, Meta-analysis, and Clinical Cost Considerations. Hosp Pharm. 2026. PMID 42936098.
  9. Li JSY. Short Course Immunosuppression to Prevent Transfusion-Related Human Leukocyte Antigen Sensitization in Kidney Transplant Candidates: Commentary. Kidney360. 2026;7(4):888-890. PMID 41032664.
  10. Chertow GM, Agarwal R, Burke SK, et al. Comparing Vadadustat and Darbepoetin in Maintenance Dialysis with CKD-Related Anemia: A Win Statistics Analysis. J Am Soc Nephrol. 2026;37(6):1284-1286. PMID 41842948.
  11. Kunitsu Y, Ikuta K, Hira D, et al. Risk of Heart Failure Hospitalization Associated With Hypoxia-Inducible Factor Prolyl Hydroxylase Inhibitors Versus Erythropoiesis-Stimulating Agents: A Nationwide Claims-Based Cohort Study. Pharmacoepidemiol Drug Saf. 2026;35(9):e70453. PMID 42666150.
  12. Dasgupta I, Meadowcroft AM, Bhatt PR, et al. Efficacy and safety of daprodustat in patients on peritoneal dialysis in the ASCEND-D trial. Nephrol Dial Transplant. 2025;40(7):1332-1341. PMID 39817409.

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