Finerenona na insuficiência cardíaca: potássio e dose

Mão posicionando o estetoscópio sob o manguito durante medida de pressão arterial
Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. Como a finerenona age e o que o FINEARTS-HF mostrou
  3. Situação regulatória: FDA e EMA
  4. Dose inicial, meta e exames de controle
  5. Potássio: a tabela que guia cada ajuste
  6. Função renal, pressão e interações
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Checklist final
  10. Referências

Uma mulher de 74 anos recebe alta depois de uma internação por insuficiência cardíaca descompensada. O ecocardiograma mostra fração de ejeção do ventrículo esquerdo de 55, com átrio esquerdo aumentado. Ela usa furosemida, um inibidor do cotransportador de sódio e glicose tipo 2 (SGLT2) e losartana. Na alta, a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) é de 48 mL/min/1,73 m² e o potássio, de 4,6 mEq/L. Ela também toma itraconazol por uma micose de unha e gosta de suco de toranja no café da manhã. O cardiologista pensa em acrescentar finerenona. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para estudantes e profissionais de saúde. A finerenona (nome comercial Kerendia) é um antagonista não esteroide do receptor mineralocorticoide. Ela já era usada na doença renal crônica com diabetes tipo 2 e passou a ter indicação na insuficiência cardíaca com fração de ejeção de 40 ou mais. O desafio está nos detalhes: a dose depende da função renal, o potássio guia cada ajuste e algumas interações proíbem o uso. O texto não substitui a bula do seu país nem o protocolo da sua instituição. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: decidir com pistas que chegam em sequência.

Principais pontos

  • A FDA aprovou a indicação na insuficiência cardíaca com fração de ejeção de 40 ou mais em 11 de julho de 2025; a EMA lista a mesma indicação em adultos com insuficiência cardíaca crônica sintomática.
  • No FINEARTS-HF, com 6001 pacientes, a finerenona reduziu o desfecho de morte cardiovascular e eventos de insuficiência cardíaca, com razão de taxas de 0,84.
  • A dose inicial é de 10 mg com TFGe de 25 a menos de 60 e de 20 mg com TFGe de 60 ou mais; as metas são 20 mg e 40 mg.
  • Não se inicia o remédio com potássio acima de 5,0 mEq/L nem com TFGe abaixo de 25.
  • Potássio e TFGe devem ser medidos 4 semanas depois de começar e depois de cada mudança de dose.
  • Inibidores fortes do CYP3A4, como o itraconazol, são contraindicados; a toranja deve ser evitada.

Por que este é um cenário de raciocínio

A insuficiência cardíaca com fração de ejeção levemente reduzida ou preservada é frequente em pessoas idosas e tem poucas opções que mudam desfechos. No FINEARTS-HF, a idade dos participantes variou de 40 a 97 anos, 64 por cento tinham 70 anos ou mais e 24 por cento tinham 80 anos ou mais (Chimura e colaboradores, 2024). A paciente da cena se parece com quem entrou no estudo: idosa, com internação recente, função renal reduzida e uso de diurético de alça (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

O cenário é bom para treino porque junta indicação, dose pela função renal, potássio, interações e orientação ao paciente. Quem atende no pronto-socorro, na enfermaria ou na farmácia pode encontrar essa paciente com potássio alto, creatinina subindo ou pressão baixa. O post sobre sinais, sintomas e história mostra como perguntar sobre remédios e alimentos, e o post sobre diagnóstico diferencial ajuda a pensar em outras causas de potássio alto.

O que a cena ensina

A cena treina seis hábitos. O primeiro é confirmar a indicação: insuficiência cardíaca sintomática com fração de ejeção de 40 ou mais. O segundo é medir potássio e TFGe antes de começar. O terceiro é escolher a dose inicial pela TFGe. O quarto é revisar todos os remédios em busca de inibidores e indutores do CYP3A4. O quinto é programar exames em 4 semanas. O sexto é ensinar a paciente sobre alimentos, suplementos e sinais de alerta.

O que não está em jogo

O texto não discute o diagnóstico completo da insuficiência cardíaca nem a escolha das outras terapias. A conduta de longo prazo é da equipe que acompanha a paciente. O post sobre tomada de decisão clínica ajuda a pensar na sequência de exames.

Como a finerenona age e o que o FINEARTS-HF mostrou

A finerenona é um antagonista não esteroide e seletivo do receptor mineralocorticoide (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Ela bloqueia a ativação desse receptor pela aldosterona e pelo cortisol, sem afinidade relevante pelos receptores de andrógeno, progesterona, estrogênio e glicocorticoide (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). A ativação excessiva do receptor mineralocorticoide parece contribuir para fibrose e inflamação (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

O estudo FINEARTS-HF

O FINEARTS-HF foi um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo em adultos com insuficiência cardíaca em classe funcional II a IV e fração de ejeção de 40 ou mais (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Os pacientes precisavam ter TFGe de pelo menos 25 e potássio de até 5,0 mEq/L (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Foram analisados 6001 pacientes, 3003 com finerenona e 2998 com placebo, seguidos por mediana de 2,7 anos (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Mais da metade, 54 por cento, teve um evento de insuficiência cardíaca nos 3 meses anteriores, e 20 por cento foram randomizados durante a internação ou até 7 dias depois do evento (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

A idade média foi de 72 anos, 46 por cento eram mulheres, a fração de ejeção média foi de 53 e 48 por cento tinham TFGe abaixo de 60 (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). A maioria usava diurético de alça (87 por cento), e 14 por cento usavam inibidor de SGLT2 (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Em 6 meses, cerca de 65 por cento chegaram à dose alvo (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

A finerenona reduziu o desfecho primário composto de morte cardiovascular e eventos totais de insuficiência cardíaca, com razão de taxas de 0,84 e intervalo de confiança de 0,74 a 0,95 (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Os eventos totais de insuficiência cardíaca também caíram, com razão de 0,82 (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Na página da EMA, o desfecho ocorreu em 21 por cento dos pacientes com finerenona (624 de 3003) e em 24 por cento com placebo (719 de 2998) (EMA, Kerendia). O efeito foi consistente nos subgrupos pré-especificados, incluindo sexo, fração de ejeção, classe funcional, TFGe, tempo desde o último evento, uso de inibidor de SGLT2 e diabetes (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

As análises de subgrupos

Várias análises pré-especificadas detalharam o efeito em grupos diferentes. O benefício foi parecido em todas as faixas de idade, inclusive nos octogenários (Chimura e colaboradores, 2024). Foi semelhante em mulheres e homens, num estudo em que cerca de 45,5 por cento eram mulheres (Chimura e colaboradores, 2025). A fragilidade foi comum e se associou a pior evolução, mas não mudou o efeito da finerenona (Butt e colaboradores, 2025). Também não houve diferença de efeito entre quem tinha ou não fibrilação atrial (Matsumoto e colaboradores, 2025).

A análise pela fração de ejeção estudou todo o espectro incluído no estudo (Docherty e colaboradores, 2025). Os pacientes com fração de ejeção que antes era abaixo de 40 e melhorou tiveram risco parecido com o resto do estudo e benefício comparável (Pabon e colaboradores, 2025). Os autores lembram que a melhora da fração de ejeção não significa recuperação do coração (Pabon e colaboradores, 2025). A finerenona também reduziu a intensificação de diurético oral no ambulatório, que ocorreu em 21 por cento dos pacientes e se associou a pior prognóstico (Cunningham e colaboradores, 2025).

Com ou sem inibidor de SGLT2

O efeito da finerenona sobre morte cardiovascular e piora da insuficiência cardíaca foi consistente com ou sem uso de inibidor de SGLT2, e não surgiram novos sinais de segurança com a combinação (Vaduganathan e colaboradores, 2025). Isso importa para a paciente da cena, que já usa um inibidor de SGLT2. Na análise conjunta FINE-HEART, com 18.991 participantes de três estudos, a finerenona não reduziu de forma significativa a morte cardiovascular, mas a morte por qualquer causa caiu com significância nominal (Vaduganathan e colaboradores, 2024).

Antes da insuficiência cardíaca: os estudos renais

A finerenona chegou primeiro à doença renal crônica com diabetes tipo 2. Na análise de desfechos cardiovasculares em pacientes com doença renal crônica e diabetes tipo 2, o desfecho cardiovascular incluiu morte cardiovascular, infarto, acidente vascular cerebral e internação por insuficiência cardíaca (Filippatos e colaboradores, 2021). Na análise conjunta FIDELITY, os efeitos adversos ligados a potássio alto foram mais frequentes com finerenona (14,0 por cento) que com placebo (6,9 por cento), sem mortes por esse motivo (Agarwal e colaboradores, 2022). Esses dados ajudam a entender o perfil de segurança que se repetiu na insuficiência cardíaca.

Corte transversal de coração humano com parede muscular marrom-avermelhada e cavidades no centro
Corte transversal do coração visto a olho nu, em peça de anatomia patológica. A insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada costuma envolver paredes espessas e rígidas. Foto: Mikael Häggström, Wikimedia Commons, CC0.

Situação regulatória: FDA e EMA

Estados Unidos. A FDA aprovou o Kerendia em 9 de julho de 2021, pela NDA 215341, como nova entidade molecular com revisão prioritária (Drugs@FDA, NDA 215341). A indicação na insuficiência cardíaca entrou pelo suplemento 9, classificado como nova indicação, em 11 de julho de 2025 (Drugs@FDA, NDA 215341). Um suplemento de 16 de setembro de 2026 trouxe mudança de bula com dados clínicos (Drugs@FDA, NDA 215341). Na bula revisada em 9/2026, a indicação inclui adultos com insuficiência cardíaca e fração de ejeção de 40 ou mais, para reduzir o risco de morte cardiovascular, internação por insuficiência cardíaca e visitas urgentes por insuficiência cardíaca (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). A mesma bula mantém a indicação na doença renal crônica com diabetes tipo 2 e inclui a doença renal crônica com diabetes tipo 1 (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

União Europeia. O Kerendia recebeu autorização de comercialização válida em toda a União Europeia em 16 de fevereiro de 2022 (EMA, Kerendia). A página da EMA lista duas indicações: doença renal crônica com albuminúria associada ao diabetes tipo 2 em adultos e insuficiência cardíaca crônica sintomática com fração de ejeção de 40 ou mais em adultos (EMA, Kerendia). O remédio está sob monitorização adicional, e o resumo do EPAR foi atualizado em 7 de maio de 2026 (EMA, Kerendia).

Outros países. A indicação exata e o acesso dependem da agência local. A paciente da cena estaria dentro da indicação americana e da europeia, desde que tenha sintomas e fração de ejeção de 40 ou mais.

Contraindicações

A bula americana lista três contraindicações (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026):

  • Hipersensibilidade a qualquer componente do produto.
  • Uso junto com inibidores fortes do CYP3A4.
  • Insuficiência adrenal.

A bula usa o itraconazol como exemplo de inibidor forte do CYP3A4 (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Para a paciente da cena, a finerenona não pode começar enquanto ela usa esse antifúngico. Vale esperar o fim do tratamento ou discutir outra opção para a micose com quem a receitou.

Dose inicial, meta e exames de controle

Antes de começar, a bula pede medir potássio e TFGe (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Não se deve iniciar o remédio se o potássio estiver acima de 5,0 mEq/L (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). A dose inicial depende da TFGe, e a dose alvo na insuficiência cardíaca também (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

TFGe no início (mL/min/1,73 m²)Dose inicialDose alvo na insuficiência cardíacaFonte
60 ou mais20 mg uma vez ao dia40 mg uma vez ao dia(bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026)
25 a menos de 6010 mg uma vez ao dia20 mg uma vez ao dia(bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026)
Menos de 25Início não recomendadoNão se aplica(bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026)

A paciente da cena tem TFGe de 48. Se o itraconazol já tiver terminado e o potássio continuar em 4,6 mEq/L, ela começaria com 10 mg e teria como meta 20 mg. No FINEARTS-HF, os pacientes começaram exatamente assim: 10 mg com TFGe de 25 a menos de 60 e 20 mg com TFGe de 60 ou mais (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

Exames de controle

Potássio e TFGe devem ser medidos 4 semanas depois de começar e 4 semanas depois de cada mudança de dose, e depois periodicamente (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). No primeiro mês, é esperado um pequeno aumento da creatinina, de menos de 0,1 mg/dL, com queda de 2 a 3 mL/min/1,73 m² na TFGe, que depois se estabiliza e é reversível (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). O ácido úrico também pode subir um pouco (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

Comprimidos e doses esquecidas

Os comprimidos têm 10, 20 e 40 mg e podem ser triturados para quem tem dificuldade de engolir (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Se a paciente esquecer uma dose, deve tomá-la no mesmo dia; se só lembrar no dia seguinte, pula a dose esquecida e segue o horário normal (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Vale escrever isso na receita, porque pacientes idosos com muitos remédios costumam dobrar a dose por engano.

Idosos e fígado

No FINEARTS-HF, 79 por cento dos pacientes tinham 65 anos ou mais e 43 por cento tinham 75 anos ou mais, e a bula não pede ajuste de dose pela idade (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Na insuficiência hepática grave (Child-Pugh C), o uso deve ser evitado; na moderada (Child-Pugh B), vale monitorar o potássio com mais frequência (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). A amamentação não é recomendada durante o tratamento (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

Potássio: a tabela que guia cada ajuste

Na insuficiência cardíaca, a bula traz uma tabela de ajuste guiada pelo potássio medido (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Ela vale para cada exame de controle e para cada decisão de subir ou descer a dose.

Potássio (mEq/L)Dose atual de 10 mgDose atual de 20 mgDose atual de 40 mg
Menos de 5,0Subir para 20 mgManter 20 mg se a TFGe inicial era abaixo de 60; se era 60 ou mais, subir para 40 mgManter 40 mg
5,0 a menos de 5,5ManterManterManter
5,5 a menos de 6,0Suspender e reiniciar com 10 mg quando o potássio ficar abaixo de 5,5Reduzir para 10 mgReduzir para 20 mg
6,0 ou maisSuspenderSuspenderSuspender

Fonte da tabela: (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Depois de suspender por potássio de 6,0 ou mais, o remédio pode ser reiniciado com 10 mg quando o potássio ficar abaixo de 5,5 (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Há duas regras extras. Se a TFGe caiu mais de 30 por cento em relação ao valor anterior, a dose deve ser mantida, sem subir (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Se o potássio repetido continuar em 5,5 ou mais, o reinício com 10 mg só deve ocorrer quando o potássio ficar abaixo de 5,0 (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

Com que frequência o potássio sobe

No FINEARTS-HF, o potássio acima de 5,5 mmol/L foi mais frequente com finerenona, e o potássio abaixo de 3,5 mmol/L foi menos frequente (Vardeny e colaboradores, 2025). Potássio acima de 6,0 foi pouco comum, mas também mais visto com finerenona (Vardeny e colaboradores, 2025). As internações por potássio alto foram raras, 0,5 por cento com finerenona e 0,2 por cento com placebo, e não houve mortes por esse motivo (Vardeny e colaboradores, 2025). Uma metanálise confirmou risco maior de potássio alto com finerenona na insuficiência cardíaca, com risco relativo de 2,07 (Yu e colaboradores, 2025).

O potássio baixo também pesa

Valores nos dois extremos, abaixo de 3,5 e acima de 5,5 mmol/L, se associaram a mais eventos nos dois grupos (Vardeny e colaboradores, 2025). Numa análise que combinou potássio e função renal, os pacientes com potássio acima de 4,5 mmol/L tiveram menos eventos de insuficiência cardíaca e menos mortes que os com potássio de até 4,5 mmol/L (Ferreira e colaboradores, 2025). A TFGe abaixo de 60 aumentou o risco de eventos, sem grande influência do potássio (Ferreira e colaboradores, 2025). Ou seja, o objetivo não é manter o potássio no menor valor possível, e sim dentro da faixa segura.

Aplicando à paciente

Suponha que, 4 semanas depois de começar com 10 mg, o potássio esteja em 5,1 mEq/L. Pela tabela, a dose de 10 mg deve ser mantida. Se estiver em 4,8 mEq/L, a dose pode subir para 20 mg, a meta dela. Se chegar a 5,7 mEq/L, a finerenona deve ser suspensa e reiniciada com 10 mg quando o potássio cair abaixo de 5,5. O post sobre pausa diagnóstica lembra de conferir o exame e a dose atual antes de decidir.

Fibras musculares cardíacas vermelhas em corte histológico com espaços claros entre elas
Músculo cardíaco visto ao microscópio. O receptor mineralocorticoide ativado em excesso contribui para fibrose e inflamação no coração. Foto: Mikael Häggström, Wikimedia Commons, CC0.

Função renal, pressão e interações

Na insuficiência cardíaca, a piora da função renal foi mais frequente com finerenona (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Os efeitos ligados à função renal ocorreram em 18 por cento com finerenona e em 12 por cento com placebo (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Entre eles, a bula cita insuficiência renal (7 e 4 por cento), queda da TFGe (5 e 4 por cento), lesão renal aguda (4 e 2 por cento) e falência renal (3 e 2 por cento) (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Esses efeitos levaram a mudança de dose em 9 por cento com finerenona e em 4 por cento com placebo, e a internação em 2,0 e 1,3 por cento (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). A bula orienta considerar adiar a subida da dose ou interromper o remédio quando a função renal piora (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

Pressão arterial

A finerenona reduziu a pressão sistólica de forma precoce e sustentada no FINEARTS-HF (Ostrominski e colaboradores, 2026). O benefício sobre morte cardiovascular e eventos de insuficiência cardíaca foi consistente em todas as faixas de pressão no início e pareceu independente da queda da pressão (Ostrominski e colaboradores, 2026). A pressão inicial não mudou o perfil de segurança (Ostrominski e colaboradores, 2026). Nos estudos renais, a hipotensão ocorreu em 4,6 por cento com finerenona e em 3,0 por cento com placebo (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Para a paciente idosa da cena, vale medir a pressão em pé e perguntar sobre tontura, sobretudo se o diurético for ajustado.

Outros efeitos

Nos estudos renais, a hiponatremia ocorreu em 1,3 por cento com finerenona e em 0,7 por cento com placebo (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). As internações por potássio alto foram de 0,9 e 0,2 por cento, e a suspensão do remédio por esse motivo foi de 1,7 e 0,6 por cento (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). O remédio não é removido por diálise, porque cerca de 90 por cento circula ligado a proteínas (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

Interações que mudam a conduta

A finerenona é metabolizada pelo CYP3A4, e a bula organiza as interações assim (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026):

  • Inibidores fortes do CYP3A4, como o itraconazol: uso contraindicado.
  • Toranja e suco de toranja: evitar.
  • Inibidores moderados ou fracos do CYP3A4: monitorar o potássio ao iniciar ou ajustar qualquer um dos dois remédios.
  • Indutores fortes ou moderados do CYP3A4: evitar, porque reduzem o efeito.
  • Remédios ou suplementos que aumentam o potássio: monitorar o potássio com mais frequência.
  • Substratos sensíveis do CYP2C8: monitorar quando a dose for de 40 mg, porque a finerenona é um inibidor fraco dessa enzima.

A paciente da cena tem duas interações na lista: o itraconazol e o suco de toranja. Ela também usa losartana, e a bula pede controle mais frequente do potássio com remédios que o aumentam (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). Isso não impede o uso, mas reforça o controle em 4 semanas. A bula orienta o paciente a falar com o médico antes de usar suplementos de potássio ou substitutos de sal com potássio (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). O post sobre raciocínio clínico interprofissional mostra por que a farmácia ajuda a encontrar essas interações.

Quando a paciente piora

Se a paciente chegar com fraqueza, palpitações ou alterações no eletrocardiograma, o potássio deve ser checado logo. Se chegar com vômitos, diarreia ou pouca ingestão de líquidos, a função renal pode piorar rápido, e a dose deve ser revista. O post sobre deterioração clínica na enfermaria mostra como escalar quando os sinais vitais mudam.

O que orientar na alta

A orientação na alta precisa ser curta e concreta. A paciente deve saber o nome do remédio, a dose e o motivo. Deve saber que precisa colher potássio e creatinina em 4 semanas, e a data deve estar escrita. Deve evitar suco de toranja, substitutos de sal e suplementos de potássio sem falar com a equipe. Deve avisar qualquer médico que for receitar um remédio novo de que usa finerenona, porque inibidores e indutores do CYP3A4 mudam a conduta (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026). E deve saber quais sinais pedem contato: fraqueza, palpitação, tontura ao levantar ou queda da quantidade de urina.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, cada caso começa com poucas pistas e você decide o que perguntar, o que pedir e quando fechar o raciocínio. A finerenona é um bom exercício porque um número de potássio, uma TFGe ou um antifúngico novo mudam a conduta. O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos explica por que esse formato fixa o conhecimento, e o post sobre incerteza diagnóstica ajuda quando os dados não fecham. O post sobre simulação de atendimento mostra como treinar a orientação de alta.

Três exercícios com casos

Mude a TFGe. Diga a dose inicial e a meta se a TFGe fosse de 65.

Mude o potássio. Diga o que fazer se, com 20 mg, o potássio estivesse em 5,6 mEq/L.

Mude o remédio. Diga o que fazer se a paciente começasse um indutor forte do CYP3A4.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

A finerenona substitui a espironolactona?

São remédios diferentes. A finerenona é não esteroide e seletiva, e a indicação aprovada na insuficiência cardíaca vale para fração de ejeção de 40 ou mais (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

Qual é a dose inicial?

Pela bula, 10 mg com TFGe de 25 a menos de 60 e 20 mg com TFGe de 60 ou mais, uma vez ao dia (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

Quando colher potássio?

Antes de começar, 4 semanas depois de começar, 4 semanas depois de cada mudança de dose e depois periodicamente (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

Pode usar com inibidor de SGLT2?

Sim. No FINEARTS-HF, o efeito foi consistente com ou sem inibidor de SGLT2 (Vaduganathan e colaboradores, 2025).

Que alimento evitar?

Toranja e suco de toranja (bula americana do Kerendia, revisada em 9/2026).

Checklist final

  • Confirmei insuficiência cardíaca sintomática com fração de ejeção de 40 ou mais.
  • Medi potássio e TFGe antes de começar.
  • Conferi que o potássio está em até 5,0 mEq/L e a TFGe em 25 ou mais.
  • Escolhi a dose inicial e a meta pela TFGe.
  • Revisei inibidores e indutores do CYP3A4, toranja e fontes de potássio.
  • Programei potássio e TFGe em 4 semanas.
  • Usei a tabela de potássio para cada ajuste.
  • Orientei sobre dose esquecida, tontura e sinais de alerta.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Agarwal R, Filippatos G, Pitt B, et al. Cardiovascular and kidney outcomes with finerenone in patients with type 2 diabetes and chronic kidney disease: the FIDELITY pooled analysis. Eur Heart J. 2022. PMID 35023547.
  2. Bayer HealthCare Pharmaceuticals. KERENDIA® (finerenone) tablets, for oral use. Prescribing Information. Revisada em 9/2026. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
  3. Butt JH, Jhund PS, Henderson AD, et al. Finerenone According to Frailty in Heart Failure: A Prespecified Analysis of the FINEARTS-HF Randomized Clinical Trial. JAMA Cardiol. 2025. PMID 40531488.
  4. Chimura M, Petrie MC, Schou M, et al. Finerenone Improves Outcomes in Patients With Heart Failure With Mildly Reduced or Preserved Ejection Fraction Irrespective of Age: A Prespecified Analysis of FINEARTS-HF. Circ Heart Fail. 2024. PMID 39342655.
  5. Chimura M, Wang X, Jhund PS, et al. Finerenone in Women and Men With Heart Failure With Mildly Reduced or Preserved Ejection Fraction: A Secondary Analysis of the FINEARTS-HF Randomized Clinical Trial. JAMA Cardiol. 2025. PMID 39550721.
  6. Cunningham JW, Chatur S, Claggett BL, et al. Finerenone and Outpatient Worsening Heart Failure With Mildly Reduced or Preserved Ejection Fraction: A Secondary Analysis of the FINEARTS-HF Randomized Clinical Trial. JAMA Cardiol. 2025. PMID 40009358.
  7. Docherty KF, Henderson AD, Jhund PS, et al. Efficacy and Safety of Finerenone Across the Ejection Fraction Spectrum in Heart Failure With Mildly Reduced or Preserved Ejection Fraction: A Prespecified Analysis of the FINEARTS-HF Trial. Circulation. 2025. PMID 39342512.
  8. European Medicines Agency. Kerendia. EPAR. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
  9. Ferreira JP, Vaduganathan M, Claggett BL, et al. Interplay of serum potassium and kidney function with finerenone in heart failure with mildly reduced or preserved ejection fraction: Findings from FINEARTS-HF. Eur J Heart Fail. 2025. PMID 41039732.
  10. Filippatos G, Anker SD, Agarwal R, et al. Finerenone and Cardiovascular Outcomes in Patients With Chronic Kidney Disease and Type 2 Diabetes. Circulation. 2021. PMID 33198491.
  11. Matsumoto S, Henderson AD, Jhund PS, et al. Finerenone and Atrial Fibrillation in Heart Failure: A Secondary Analysis of the FINEARTS-HF Randomized Clinical Trial. JAMA Cardiol. 2025. PMID 40156827.
  12. Ostrominski JW, Claggett BL, Kulac IJ, et al. Finerenone and Blood Pressure in Heart Failure With Mildly Reduced or Preserved Ejection Fraction: The FINEARTS-HF Randomized Clinical Trial. JAMA Cardiol. 2026. PMID 42418169.
  13. Pabon MA, Vardeny O, Vaduganathan M, et al. Finerenone in Heart Failure With Improved Ejection Fraction: The FINEARTS-HF Randomized Clinical Trial. JAMA Cardiol. 2025. PMID 40397470.
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Finerenona na insuficiência cardíaca: potássio e dose