Mieloma múltiplo: cuidado integrado do rim ao osso

Duas máquinas de diálise brancas lado a lado, com telas e painéis de botões coloridos, ao lado de bolsas plásticas de solução
Sumário
  1. Por que o mieloma exige coordenação
  2. O rim: tratar o mieloma é tratar o rim
  3. O osso: imagem, dor e estabilidade
  4. Fragilidade, geriatria e reabilitação
  5. Centro transplantador e equipe local
  6. Infecção e novas terapias
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Checklist final
  10. Referências

Uma mulher de 67 anos, costureira aposentada, chega ao pronto atendimento com dor lombar há dois meses, cansaço e enjoo. Os exames mostram anemia, cálcio alto e creatinina de 4,1 mg/dL. A tomografia encontra uma fratura por compressão em L1 e várias lesões líticas na bacia. Em três dias, ela é vista pelo clínico, pelo nefrologista, pelo ortopedista e pela hematologista, e cada um fala de uma parte do corpo. A filha pergunta quem está cuidando da mãe como um todo e se ela vai precisar de diálise para sempre. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para estudantes e profissionais de saúde. O tema é a organização do cuidado no mieloma múltiplo: como hematologia, nefrologia, ortopedia, radioterapia e reabilitação dividem tarefas, como a odontologia e a geriatria entram no plano e como o centro transplantador compartilha o seguimento com a equipe local. O texto não substitui a diretriz do seu país nem o protocolo do seu serviço. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: as pistas chegam por especialidades diferentes, e o diagnóstico só aparece quando alguém junta todas.

Principais pontos

  • O mieloma afeta osso, rim, medula e sistema imune ao mesmo tempo, e por isso exige uma coordenação clara desde a primeira semana.
  • No rim, o que mais pesa para a recuperação é a resposta rápida ao tratamento do mieloma, e não a remoção mecânica das cadeias leves.
  • No osso, imagem de corpo inteiro, agente antirreabsortivo, controle da dor e procedimentos na coluna são decididos em conjunto.
  • A avaliação dentária antes do bisfosfonato ou do denosumabe reduz problemas que interrompem o tratamento.
  • Fragilidade e idade funcional orientam a intensidade do tratamento, e a reabilitação começa cedo.
  • O centro transplantador e a equipe local precisam de um plano escrito de quem faz o quê.

Por que o mieloma exige coordenação

O mieloma múltiplo é uma neoplasia de plasmócitos da medula óssea. As células doentes produzem uma proteína monoclonal, muitas vezes cadeias leves livres, e liberam sinais que ativam os osteoclastos e inibem os osteoblastos. O resultado é um quadro que se espalha por vários órgãos: o osso perde massa e fratura, o rim sofre com as cadeias leves e com o cálcio alto, a medula produz menos células normais e o sistema imune fica menos capaz de produzir anticorpos. Cada um desses problemas tem seu especialista, e é aí que mora o risco. Sem coordenação, a paciente da cena pode receber três planos que não conversam: o nefrologista aguardando a diálise, o ortopedista pensando em cirurgia e a hematologia esperando o resultado da medula.

O consenso chinês sobre doença óssea do mieloma defende uma abordagem multidisciplinar que inclui hematologia, radiologia, ortopedia e outras especialidades, com cuidados de suporte como controle da dor, reabilitação, suporte nutricional e avaliação dentária, segundo o documento de Wang e colaboradores. O mesmo texto descreve que eventos ósseos ocorrem em 35 a 46 em cada 100 pacientes já no diagnóstico e em até 75 em cada 100 nos dois primeiros anos, de acordo com o consenso. Esses números mostram que o osso não é um detalhe: ele define dor, mobilidade e independência por anos.

Na prática, a coordenação começa com uma pergunta simples: quem é o médico de referência? No mieloma, em geral é a hematologia, que define o tratamento da doença e chama as outras áreas. Mas a referência só funciona se os outros souberem que ela existe e se houver um canal rápido para decisões urgentes, como compressão medular, piora renal ou infecção.

Quem faz o quê na primeira semana

ÁreaPergunta principalDecisão típica
HematologiaQual o diagnóstico, o risco e o tratamento inicial?Confirmar o mieloma, iniciar a terapia e coordenar o plano
NefrologiaO rim vai recuperar? Precisa de diálise agora?Hidratação, correção do cálcio, revisão de medicamentos, diálise se indicada
RadiologiaQuantas lesões existem e onde há risco de fratura?Imagem de corpo inteiro e laudo com lesões de risco
Ortopedia e colunaA coluna está estável? Há risco neurológico?Órtese, vertebroplastia, cifoplastia ou cirurgia
RadioterapiaHá dor localizada, compressão ou lesão que ameaça fratura?Radioterapia paliativa em campo limitado
OdontologiaA boca está pronta para o antirreabsortivo?Avaliação e tratamento de focos antes da primeira dose
ReabilitaçãoO que a paciente consegue fazer com segurança?Plano de mobilidade, prevenção de quedas e exercício
Braço de paciente com agulhas e linhas de sangue presas por esparadrapo, ligado a uma máquina de hemodiálise ao lado do leito
Sessão de hemodiálise pela fístula do braço. No mieloma com insuficiência renal grave, a diálise pode ser temporária quando o tratamento da doença produz resposta rápida. Crédito: Anna Frodesiak, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

O rim: tratar o mieloma é tratar o rim

A insuficiência renal é uma das apresentações mais assustadoras do mieloma. A revisão de Gembillo e colaboradores descreve que ela afeta até metade dos pacientes com mieloma recém-diagnosticado e que 2 a 4 em cada 100 precisam de diálise já na apresentação, quase sempre por nefropatia de cilindros de cadeias leves, segundo a revisão publicada em 2026. A mesma revisão mostra que a recuperação renal se associa à velocidade e à intensidade da queda das cadeias leves no sangue, e que essa queda reflete principalmente a resposta hematológica ao tratamento.

Por isso, a primeira tarefa da nefrologia e da hematologia é conjunta: começar rápido o tratamento do mieloma e cuidar do rim ao mesmo tempo. Hidratação, correção do cálcio, suspensão de anti-inflamatórios e de contrastes desnecessários e revisão de doses de medicamentos fazem parte do cuidado. A remoção das cadeias leves por métodos extracorpóreos foi muito estudada. Os ensaios randomizados de hemodiálise com membranas de alto ponto de corte, MYRE e EuLITE, não mostraram benefício no desfecho renal principal, e o EuLITE teve mais infecções pulmonares no braço de alto ponto de corte, conforme a revisão de Gembillo. A conclusão dos autores é que a hemodiálise convencional de alto fluxo, somada ao tratamento rápido do mieloma, é o padrão quando a diálise é necessária.

O MYRE também comparou dois esquemas com bortezomibe em 184 pacientes com nefropatia de cilindros que não precisavam de diálise imediata, e a resposta renal aos 3 meses foi de cerca de 45 e 51 em cada 100, sem diferença significativa, segundo a mesma revisão. Para a equipe, a mensagem é que o tratamento eficaz da doença importa mais que pequenas variações no esquema.

A diálise pode ser temporária

A pergunta da filha da paciente tem resposta animadora em parte dos casos. Em um centro canadense, 70 pacientes com mieloma recém-diagnosticado chegaram com insuficiência renal grave que exigia diálise; 48 em cada 100 ficaram livres da diálise, e a obtenção precoce de resposta muito boa, em menos de 4,4 meses, foi o fator associado à recuperação, segundo o estudo de Sharma e colaboradores. No mesmo grupo, 73 em cada 100 fizeram transplante autólogo, e a independência da diálise, o LDH baixo e o transplante se associaram a maior sobrevida, de acordo com o mesmo artigo. É um estudo retrospectivo, de um único centro, e não autoriza promessas individuais, mas ajuda a equipe a dizer que a diálise do início não significa necessariamente diálise para sempre.

Essa conversa precisa ser feita a duas vozes. O nefrologista explica o que é a diálise, o acesso vascular e os sinais de recuperação; a hematologista explica que a resposta ao tratamento do mieloma é o que mais pesa. Quando cada um fala só da sua parte, a família ouve duas histórias diferentes.

  • Iniciar o tratamento do mieloma sem esperar a recuperação do rim.
  • Corrigir cálcio e volemia e suspender nefrotóxicos.
  • Ajustar a dose de cada medicamento à função renal do dia.
  • Acompanhar as cadeias leves e a creatinina em datas combinadas.
  • Rediscutir a diálise a cada reavaliação de resposta.

O osso: imagem, dor e estabilidade

O osso é onde o mieloma mais dói. A revisão de Thalambedu e colaboradores lembra que até 90 em cada 100 pacientes desenvolvem doença óssea ao longo da vida, mais frequente na coluna, segundo a revisão sobre procedimentos de aumento vertebral. A dor limita a mobilidade, a imobilidade piora a força e o risco de queda, e a queda gera nova fratura. Quebrar esse ciclo é trabalho de várias áreas.

Imagem de corpo inteiro

A radiografia de esqueleto, que já foi o padrão, perde lesões iniciais, sobretudo na coluna e na pelve. O grupo de imagem da rede asiática de mieloma descreve que o inventário com radiografias simples subestima a doença ativa em até 40 em cada 100 exames quando comparado ao PET com FDG ou à tomografia de corpo inteiro com baixa dose, segundo o consenso de Nagarajan e colaboradores. Os autores defendem a detecção precoce porque intervenções cirúrgicas, radioterápicas ou mecânicas antes da fratura protegem a função. Na prática, o radiologista que conhece mieloma ajuda muito quando o laudo aponta lesões com risco de fratura, e não só a lista de lesões.

Antirreabsortivos e controle da dor

O tratamento do mieloma é a base para o osso, mas não basta. O consenso de Wang descreve o uso de bisfosfonatos ou denosumabe para reduzir a perda óssea e os eventos esqueléticos, com cirurgia e radioterapia para problemas estruturais ou de dor, segundo o documento de 2025. A escolha entre os dois agentes depende da função renal, do risco dentário e da logística, e a dose e o intervalo seguem a bula e o protocolo local. No controle da dor, o mesmo consenso lembra que alguns opioides exigem ajuste e que fentanil e butorfanol são preferidos na insuficiência renal grave, com depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min, conforme o consenso. A dor neuropática também é comum e tem tratamento próprio.

Vertebroplastia e cifoplastia

Para fraturas vertebrais dolorosas, os procedimentos de aumento vertebral injetam cimento no corpo vertebral. Em uma série de 792 pacientes com mieloma e fraturas por compressão, tratados com 2693 procedimentos em um único centro, a dor média caiu de 6,9 para 2,7 na escala visual, menos de 1 em cada 100 pacientes precisou de antibiótico por infecção local e não houve déficit neurológico, segundo o estudo de Erdem e colaboradores. É uma série de casos, sem grupo controle, mas o resultado explica por que a radiologia intervencionista e a cirurgia de coluna fazem parte da equipe.

A revisão de Thalambedu descreve que esses procedimentos oferecem controle de dor melhor e mais rápido, com provável menor morbidade que as abordagens não operatórias, e discute indicações, contraindicações e momento, segundo a revisão de 2024. A instabilidade da coluna e a compressão medular são outra história: pedem avaliação cirúrgica e radioterápica urgente.

  • Dor que piora à noite ou ao deitar.
  • Fraqueza ou formigamento nas pernas.
  • Alteração do controle da urina ou das fezes.
  • Dor nova e intensa depois de esforço pequeno.
  • Deformidade nova da coluna ou perda de altura.

Esses sinais de alerta devem estar no material entregue à paciente e à família, com o telefone de quem atende.

Radioterapia: quando e para quê

A radioterapia é usada no mieloma há décadas para lesões líticas sintomáticas e doença extramedular. A revisão de Schlusemann e colaboradores resume que os objetivos são aliviar sintomas e prevenir complicações como déficit neurológico e fratura patológica, segundo a revisão sobre radioterapia na era das terapias imunes. Os mesmos autores descrevem novas indicações: radioterapia como ponte antes da terapia com células CAR-T, como resgate depois da falha da CAR-T e no controle de doença oligoprogressiva ou extramedular durante anticorpos biespecíficos.

Essas indicações novas aumentam a necessidade de conversa entre radioterapeuta e hematologista. O campo, a dose e o momento precisam respeitar a coleta de células, a janela da terapia celular e o risco de toxicidade medular. Radioterapia ampla demais pode reduzir a reserva da medula e atrapalhar tratamentos futuros. Para quem quer entender a terapia celular no mieloma, o texto sobre CAR-T no mieloma, síndrome de liberação de citocinas e ICANS aprofunda a toxicidade e o monitoramento.

Boca, dentes e antirreabsortivos

Dentista de luvas e máscara examina a boca de um paciente deitado na cadeira odontológica, com espelho e sonda nas mãos
Exame odontológico. No mieloma, a avaliação dentária antes do bisfosfonato ou do denosumabe ajuda a prevenir a osteonecrose de mandíbula. Crédito: Sergio Gamboa, Força Aérea dos Estados Unidos, Domínio público (obra do governo dos Estados Unidos), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

A osteonecrose de mandíbula associada a medicamentos é uma complicação conhecida dos bisfosfonatos e do denosumabe. Ela pode doer, infectar e interromper o tratamento. Em uma coorte sueca de 144 pacientes com mieloma recém-diagnosticado, todos com exame clínico e radiológico da boca e tratamento de focos infecciosos antes do bisfosfonato, o tratamento dentário invasivo se associou a risco de osteonecrose cerca de oito vezes maior, e periodontite, menos dentes e três ou mais linhas de tratamento também pesaram, segundo o estudo de Olofsson e colaboradores. No mesmo grupo, cerca de 30 em cada 100 relataram dor ou desconforto na boca ligado ao tratamento, conforme o mesmo artigo.

A conclusão dos autores é prática: triagem e planejamento dentário podem resultar em menos infecções orais e menos interrupções do tratamento do mieloma. Para a equipe, isso se traduz em um fluxo simples. A hematologia pede a avaliação dentária assim que o antirreabsortivo é planejado, a odontologia trata os focos e informa quando a boca está pronta, e o seguimento odontológico entra no calendário. Quando a dor óssea é intensa e o antirreabsortivo não pode esperar, a equipe registra a decisão e agenda a avaliação o quanto antes.

  • Avaliação clínica e radiológica da boca antes da primeira dose.
  • Tratamento de cáries, periodontite e dentes sem prognóstico.
  • Orientação de higiene e de sinais de alerta, como exposição óssea.
  • Contato direto entre dentista e hematologia antes de qualquer extração.
  • Revisão odontológica periódica durante o tratamento.

Fragilidade, geriatria e reabilitação

O mieloma é uma doença de pessoas mais velhas. O documento de Côté e colaboradores, de Quebec, lembra que a idade mediana ao diagnóstico é de 70 anos e que cerca de um terço dos pacientes tem mais de 75, segundo as recomendações sobre suporte geriátrico. Os autores destacam o escore de fragilidade do IMWG, que soma pontos de idade, atividades básicas e instrumentais da vida diária, e classifica o paciente como apto, de aptidão intermediária ou frágil. Eles propõem uma via de encaminhamento estruturada, com triagem por idade e critérios para consulta geriátrica.

A fragilidade muda a conversa sobre intensidade. Em relato do IMWG citado no ensaio de Lee e colaboradores, a fragilidade se associou a sobrevida pior e a mais interrupção do tratamento, 31 contra 17 em cada 100, segundo o artigo de 2026. A idade no documento não basta: duas pessoas de 75 anos podem ter reservas completamente diferentes. O geriatra ajuda a separar o que é fragilidade fixa do que é efeito reversível da doença, como a dor que impede de andar ou a anemia que causa cansaço.

Exercício depois do transplante

A reabilitação não precisa esperar o fim do tratamento. No ensaio randomizado de Lee e colaboradores, 32 sobreviventes de mieloma pré-frágeis ou frágeis, até 180 dias depois do transplante autólogo, foram divididos entre exercício orientado por aplicativo e cuidado usual; o programa teve 8 semanas de teleexercício supervisionado e 8 semanas em casa, com adesão de 85 e 78 em cada 100 sessões, segundo o ensaio publicado em 2026. O grupo do exercício teve redução maior do escore de fragilidade e melhora no tempo de levantar da cadeira, de acordo com o mesmo estudo. É um estudo pequeno e de um único centro, mas mostra que exercício guiado é possível mesmo no período de recuperação.

Na paciente da cena, a fisioterapia começa no hospital, com mobilização segura depois da conduta na coluna, treino de transferência e orientação para casa. A terapia ocupacional revisa o banheiro, a cama e a cozinha. A nutrição avalia perda de peso e ingestão de proteína, sobretudo se houver enjoo pelo cálcio alto ou pela insuficiência renal.

Centro transplantador e equipe local

Para pacientes elegíveis, o transplante autólogo de células-tronco continua parte do tratamento de primeira linha em muitos serviços. Ele exige uma estrutura que nem todo hospital tem: coleta de células, internação em unidade especializada, hemoterapia e equipe treinada em infecção. Por isso, o paciente muitas vezes alterna entre dois lugares, o centro transplantador e a equipe que o acompanha perto de casa.

O estudo qualitativo de Hansen e colaboradores ouviu 12 pacientes com mieloma e 4 cuidadores em grupos focais e descreveu que os sintomas depois do transplante e a recuperação longa tiveram impacto negativo na qualidade de vida de pacientes e cuidadores, segundo o artigo publicado em 2023. Os autores defendem que a decisão sobre o transplante seja compartilhada e inclua profissionais, paciente e cuidadores, conforme o mesmo estudo. Isso vale também para a logística: quem vai cuidar, por quanto tempo e como será o transporte.

O compartilhamento do seguimento funciona quando há um documento simples, entregue ao paciente e enviado à equipe local, com os pontos a seguir.

  • Resumo do diagnóstico, do risco e do tratamento recebido.
  • Datas das próximas avaliações de resposta e de quem as faz.
  • Calendário de vacinas, profilaxias e exames de seguimento.
  • Sinais que pedem contato com o centro transplantador.
  • Telefone e nome de quem responde em cada lugar.

Infecção e novas terapias

O mieloma reduz a produção de anticorpos normais, e muitos tratamentos aprofundam essa imunodeficiência. Com os anticorpos biespecíficos, o risco aumentou. Em um estudo retrospectivo com 44 pacientes tratados com teclistamabe, houve 5 internações por infecção em 4378 dias com imunoglobulina intravenosa e 14 em 4619 dias sem ela, segundo o estudo de Sheu e colaboradores. É um estudo pequeno e observacional, mas reforça que infectologia e hemoterapia fazem parte da equipe, sobretudo nas linhas mais avançadas.

As terapias que têm como alvo o GPRC5D trouxeram outro tipo de efeito. O consenso belga de Albrecht e colaboradores descreve alterações de paladar, boca seca, dificuldade para engolir, alterações de pele e de unhas, que costumam ser de baixo grau, mas afetam a qualidade de vida e o estado nutricional; as estratégias incluem ajuste de dose, cuidados com a boca, apoio dermatológico e encaminhamento precoce à nutrição, segundo as recomendações multidisciplinares de 2026. O documento foi escrito para hematologistas, enfermagem oncológica, nutricionistas e pacientes, um exemplo de como a equipe se amplia conforme o tratamento muda.

Para a enfermagem, isso significa perguntar ativamente sobre paladar, peso, pele e unhas em cada visita, e não esperar a queixa. Para a nutrição, significa entrar antes da perda de peso. Para a hematologia, significa saber que um efeito de baixo grau pode ser o motivo pelo qual o paciente pensa em abandonar um tratamento que funciona.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

O NEXO usa casos fictícios com apresentação clínica real, com até seis pistas, para treinar a decisão em etapas. O mieloma é um ótimo exemplo de pistas espalhadas: uma dor lombar, uma anemia, uma creatinina alta e um cálcio alterado podem ser vistos por profissionais diferentes sem que ninguém junte o quadro. Treinar a pergunta "o que une essas pistas?" é a mesma habilidade que a equipe usa para coordenar o cuidado. O texto sobre como treinar diagnóstico diferencial com pistas mostra esse exercício, e o post sobre raciocínio clínico interprofissional discute como as profissões dividem o pensamento.

A trilha Researcher aprofunda os mecanismos por trás das pistas, o perfil Closer ajuda a medir a própria precisão, a Curator organiza a curadoria de casos e a Creators reúne quem produz conteúdo médico. Os limites de uso estão em /economia. Para pensar em como a emoção da família e da equipe pesa na decisão, veja também o texto sobre viés afetivo.

Perguntas frequentes

Quem coordena o cuidado no mieloma múltiplo?

Em geral, a hematologia, que define o tratamento da doença e chama nefrologia, ortopedia, radioterapia, odontologia, geriatria e reabilitação conforme a necessidade. O importante é que todos saibam quem é a referência.

A diálise no início do mieloma é para sempre?

Nem sempre. Parte dos pacientes recupera a função renal, e a resposta rápida ao tratamento do mieloma é o fator mais associado à recuperação. A equipe reavalia a necessidade de diálise a cada etapa.

Filtros especiais para remover cadeias leves ajudam o rim?

Os ensaios randomizados com membranas de alto ponto de corte não mostraram benefício no desfecho renal principal. A hemodiálise convencional com tratamento rápido do mieloma é o padrão quando a diálise é necessária.

Por que ir ao dentista antes do remédio para o osso?

Porque bisfosfonatos e denosumabe podem causar osteonecrose de mandíbula, e o tratamento dentário invasivo depois do início aumenta esse risco. Tratar os focos antes reduz infecções e interrupções.

Vertebroplastia resolve a dor da fratura?

Em séries de casos, a dor caiu de forma importante com poucas complicações. A indicação depende da estabilidade da coluna e da ausência de compressão neurológica, e é decidida com a equipe de coluna e a radiologia.

Quem é idoso pode fazer o tratamento completo?

Depende da aptidão, e não só da idade. Escores de fragilidade e avaliação geriátrica ajudam a escolher a intensidade, e a reabilitação pode melhorar a reserva.

Checklist final

  • Médico de referência definido e conhecido por todas as áreas.
  • Função renal, cálcio e medicamentos nefrotóxicos revistos no primeiro dia.
  • Imagem de corpo inteiro com lesões de risco de fratura descritas.
  • Conduta na coluna discutida com ortopedia, radiologia e radioterapia.
  • Avaliação dentária antes do antirreabsortivo.
  • Escore de fragilidade e plano de reabilitação registrados.
  • Plano de profilaxia de infecção conforme o tratamento.
  • Documento de seguimento compartilhado entre centro transplantador e equipe local.

Jogue o caso do dia no NEXO e treine a juntar pistas que chegam por caminhos diferentes.

Referências

  1. Albrecht N, Boeckx E, Caers J, et al. Multidisciplinary approach to managing GPRC5D-related adverse events in relapsed or refractory multiple myeloma patients. Ann Hematol. 2026. PMID 42463915.
  2. Côté J, Desforges P, Dionne C, et al. Perspective recommendations on geriatric support for older adults with multiple myeloma based on challenges faced by a multidisciplinary team. Front Oncol. 2026. PMID 41869669.
  3. Erdem E, Samant R, Malak SF, et al. Vertebral augmentation in the treatment of pathologic compression fractures in 792 patients with multiple myeloma. Leukemia. 2013. PMID 23728152.
  4. Gembillo G, Soraci L, Lo Cicero L, et al. Extracorporeal Free-Light-Chain Removal in Myeloma Cast Nephropathy: Plasma Exchange and Hemodialysis Strategies in the Era of Effective Antimyeloma Therapy. J Clin Med. 2026. PMID 42795985.
  5. Hansen DK, Bixby T, Fixler K, et al. Experience of Autologous Stem Cell Transplant in Multiple Myeloma: The Patient and Caregiver Perspective. J Patient Exp. 2023. PMID 37766811.
  6. Lee K, Shamunee J, Lee H, et al. mHealth-Supported Exercise Rehabilitation to Reverse Frailty After Autologous Transplantation in Multiple Myeloma: Randomized Controlled Trial. JMIR Mhealth Uhealth. 2026. PMID 42166768.
  7. Nagarajan C, Anthony NF, Hillengass J, et al. Imaging in plasma cell disorders-consensus recommendations of the Asian myeloma network bone imaging workgroup. Lancet Reg Health West Pac. 2025. PMID 40535453.
  8. Olofsson R, Korytowska M, Almhöjd U, et al. Oral health, dental treatment, and medication related osteonecrosis of the jaw in multiple myeloma - a longitudinal cohort study. BMC Oral Health. 2024. PMID 38317122.
  9. Schlusemann T, Shumilov E, Reinartz G, et al. Role of Radiotherapy in the Era of Novel Immune-Based Treatment Strategies for Multiple Myeloma. Hematol Oncol. 2026. PMID 41832944.
  10. Sharma R, Atenafu EG, Masih-Khan E, et al. Survival and Renal Recovery in Newly Diagnosed Multiple Myeloma Patients Presenting With Dialysis-Requiring Severe Renal Impairment. Eur J Haematol. 2026. PMID 41536023.
  11. Sheu M, Molina Garcia S, Patel M, et al. Infection Prophylaxis with Intravenous Immunoglobulin in Multiple Myeloma Patients Treated with Teclistamab. Oncology. 2026. PMID 41129420.
  12. Thalambedu N, Kamran M, Al-Hadidi S. The Role of Vertebral Augmentation Procedures in the Management of Multiple Myeloma. Clin Hematol Int. 2024. PMID 38817694.
  13. Wang Y, Xu Q, Li Y, et al. Expert consensus on a multidisciplinary approach for the management of multiple myeloma-related bone disease. Cancer Pathog Ther. 2025. PMID 40697511.

Voltar ao blog

Mieloma múltiplo: cuidado integrado do rim ao osso