Conflito armado e crise humanitáriaRaciocínio clínico

Saúde mental de refugiados: triagem e cuidado

Corredor vazio de um centro de saúde com cadeiras brancas encostadas na parede e piso claro
Sumário
  1. Quanto sofrimento mental existe
  2. O tempo não resolve sozinho
  3. Por que triar e o que pode dar errado
  4. Instrumentos que foram testados
  5. O instrumento no mundo real
  6. O que ajuda no cuidado
  7. Vieses que atrapalham a consulta
  8. Perguntas frequentes
  9. Take-home messages
  10. Referências

Uma mulher de 34 anos, que chegou ao país há quatro meses, procura a unidade básica por dor de cabeça todos os dias, insônia e cansaço. Fala pouco da língua local, veio com dois filhos e não sabe onde está o marido. O exame físico é normal. A consulta tem quinze minutos, a fila está longa e a tentação é pedir um exame, receitar um analgésico e seguir. Mas a pergunta que muda o caso é outra: o que essa pessoa viveu, e como ela está dormindo, pensando e sentindo desde então?

A saúde mental de refugiados é um daqueles temas em que o clínico erra por dois lados. Pode deixar passar um transtorno tratável escondido atrás de queixas físicas, ou pode rotular como doença psiquiátrica um sofrimento esperado. Este texto mostra o que a epidemiologia diz, como funciona a triagem, quais instrumentos foram testados, o que ajuda no cuidado e quais vieses atrapalham a consulta.

Quanto sofrimento mental existe

A pergunta parece simples, mas os números variam tanto que é fácil se perder. A revisão sistemática mais citada dos últimos anos, de Blackmore e colaboradores, incluiu só estudos com entrevista clínica e instrumento validado, com pelo menos 50 participantes (Blackmore e colaboradores, 2020). Foram 26 estudos, com 5143 refugiados e solicitantes de asilo adultos em 15 países (Blackmore e colaboradores, 2020).

O resultado dá a ordem de grandeza. A prevalência de transtorno de estresse pós-traumático ficou em cerca de 31 de cada 100 pessoas, a de depressão também em cerca de 31 de cada 100, a de transtornos de ansiedade em 11 de cada 100 e a de psicose em cerca de 1,5 de cada 100 (Blackmore e colaboradores, 2020). Os autores destacam que houve grande heterogeneidade entre os estudos nas estimativas de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade (Blackmore e colaboradores, 2020).

Essa heterogeneidade não é detalhe. Morina e colaboradores revisaram 38 estudos com 39518 adultos deslocados e refugiados de 21 países afetados por conflito armado (Morina e colaboradores, 2018). As prevalências mais altas foram de estresse pós-traumático, que variou de 3 a 88 em cada 100, de depressão, de 5 a 80, e de ansiedade, de 1 a 81 (Morina e colaboradores, 2018). Apenas 12 artigos originais traziam dados sobre outros transtornos mentais (Morina e colaboradores, 2018).

Para quem pensa como clínico, essa amplitude ensina mais do que a média. Ela diz que a prevalência depende de quem foi estudado, onde, quando e com que método. É o mesmo raciocínio da probabilidade pré-teste: antes de interpretar um resultado de triagem, é preciso ter uma ideia razoável de quão comum é o problema naquela população.

O mesmo instrumento, aplicado em dois lugares diferentes, vai produzir proporções muito diferentes de positivos verdadeiros. Num alojamento de recém-chegados de uma zona de guerra ativa, um resultado positivo tem grande chance de corresponder a um transtorno real. Numa consulta de rotina com alguém estabelecido há anos, com emprego e rede de apoio, o mesmo resultado merece mais cautela. Esse efeito é discutido em o mesmo exame em populações diferentes, e vale tanto para um questionário de saúde mental quanto para um exame de sangue.

Outro ponto que a epidemiologia ajuda a lembrar é que psicose é rara nessa população, na faixa de pouco mais de um em cada cem adultos estudados (Blackmore e colaboradores, 2020). Isso não significa ignorá-la, mas significa que delírio, alucinação ou desorganização importante pedem avaliação ampla, inclusive de causas orgânicas, antes de serem atribuídos ao trauma.

O tempo não resolve sozinho

Uma crença comum é que o sofrimento passa quando a pessoa se estabiliza no novo país. A evidência sugere cautela. Bogic e colaboradores revisaram a saúde mental de refugiados de guerra cinco anos ou mais depois do deslocamento (Bogic e colaboradores, 2015). Foram 29 estudos com 16010 pessoas (Bogic e colaboradores, 2015).

A variação entre os estudos foi enorme para depressão, estresse pós-traumático e ansiedade, mas as estimativas costumavam ficar na faixa de 20 em cada 100 ou mais (Bogic e colaboradores, 2015). Fatores clínicos e metodológicos explicaram boa parte das diferenças, e os estudos de melhor qualidade em geral relataram taxas mais baixas (Bogic e colaboradores, 2015). As prevalências também dependiam do país de origem e do país de acolhimento (Bogic e colaboradores, 2015).

Isso tem duas implicações práticas. A primeira é que o refugiado que chegou há muitos anos pode continuar com um transtorno ativo, e a pergunta sobre o passado não perde validade com o tempo. A segunda é que estudos de baixa qualidade tendem a superestimar o problema, o que reforça a importância de não rotular por pertencimento a um grupo.

Para o caso da mulher do início, isso quer dizer algo concreto. Ela chegou há quatro meses, está separada do marido e cuida sozinha de dois filhos. Esses dados aumentam a chance de sofrimento importante, mas não dizem qual é o problema. Pode ser depressão, pode ser estresse pós-traumático, pode ser luto, pode ser uma combinação. Também pode ser cefaleia de outra causa que merece investigação própria. A conversa clínica é o que separa essas hipóteses.

A revisão guarda-chuva de Turrini e colaboradores acrescenta uma correção importante. Embora a atenção costume ir para o estresse pós-traumático, depressão e ansiedade foram pelo menos tão frequentes quanto ele, chegando a até 40 de cada 100 solicitantes de asilo e refugiados em alguns estudos (Turrini e colaboradores, 2017). Quem procura só trauma pode deixar passar a depressão que está na frente.

Estetoscópio sobre fundo branco
O estetoscópio lembra que o sofrimento mental costuma chegar ao serviço como queixa física repetida, e o exame do corpo é muitas vezes a porta de entrada da conversa. Crédito: Stethoscopes, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

Por que triar e o que pode dar errado

Triar é perguntar de forma sistemática, com um instrumento curto, a quem ainda não procurou ajuda por aquele problema. Em refugiados, o argumento a favor é forte: o sofrimento é frequente, muitas vezes chega disfarçado de queixa física e o acesso a cuidado especializado costuma ser difícil.

Magwood e colaboradores fizeram uma revisão de escopo sobre triagem de saúde mental em refugiados e solicitantes de asilo antes da partida e depois da chegada ao país de reassentamento (Magwood e colaboradores, 2022). De 25862 citações, 70 publicações atenderam aos critérios: 45 descreviam programas de triagem e 25 eram estudos de validação de instrumentos, e os autores caracterizaram 85 instrumentos de triagem (Magwood e colaboradores, 2022).

A revisão traz alertas que todo serviço deveria considerar. Os autores lembram que é importante garantir que a informação de uma avaliação prévia não leve à rejeição de refugiados vulneráveis por causa da saúde mental, nem por causa da oferta de serviços no país de destino (Magwood e colaboradores, 2022). Também recomendam definir de antemão como a informação será compartilhada e usada, porque num piloto alguns profissionais não sabiam para que serviria o dado nem com quem poderiam compartilhá-lo (Magwood e colaboradores, 2022).

Esse ponto é ético, mas também clínico. Se a pessoa teme que a resposta afete seu pedido de asilo, a triagem perde validade, porque ela responde o que acha seguro. Explicar para que serve a pergunta, quem verá a resposta e o que acontece em seguida faz parte do instrumento tanto quanto os itens.

Na prática, uma frase simples ajuda: explicar que as perguntas são feitas a todas as pessoas que chegam, que servem para oferecer ajuda e que as respostas ficam no prontuário de saúde. Se houver qualquer limite a esse sigilo, ele precisa ser dito antes. Essa transparência é também uma forma de respeito, e costuma melhorar a qualidade das respostas.

Há ainda o risco de triar sem ter para onde encaminhar. A mesma revisão aponta que os programas de avaliação de saúde de refugiados precisam estar ligados ao sistema nacional de saúde para fazer sentido (Magwood e colaboradores, 2022). Um resultado positivo sem caminho de cuidado vira apenas um rótulo, algo próximo do que se discute em o que sobrediagnóstico não é e em como o dano chega ao paciente.

Instrumentos que foram testados

Dois instrumentos aparecem com mais frequência na literatura recente, e ambos foram pensados para ser aplicados por profissionais que não são especialistas em saúde mental.

O primeiro é o Refugee Health Screener. Kaltenbach e colaboradores testaram a versão de 15 itens em 86 refugiados recém-chegados à Alemanha, como questionário de autopreenchimento, e depois fizeram entrevista clínica em 56 deles (Kaltenbach e colaboradores, 2017). Cerca de metade dos refugiados teve resultado positivo, indicando problemas atuais de saúde mental (Kaltenbach e colaboradores, 2017). O instrumento mostrou boa viabilidade, confiabilidade e validade, detectou estresse pós-traumático, depressão, ansiedade e somatização, e uma versão mais curta, de 13 itens, foi igualmente válida (Kaltenbach e colaboradores, 2017).

Bjärtå e colaboradores aplicaram a versão de 13 itens em 510 refugiados que viviam em alojamentos para solicitantes de asilo na Suécia (Bjärtå e colaboradores, 2018). Eles propuseram pontos de corte de 11, 18 e 25 para sintomas leves, moderados e graves, e confirmaram o corte de 11 já descrito antes (Bjärtå e colaboradores, 2018). Os autores defendem que cortes adicionais ajudam a orientar a decisão clínica, separando quem precisa de acompanhamento de quem precisa de encaminhamento urgente (Bjärtå e colaboradores, 2018).

O segundo é o STAR-MH, desenvolvido na Austrália para triar depressão maior e estresse pós-traumático em solicitantes de asilo e refugiados (Hocking e colaboradores, 2018). O instrumento final tem nove itens, sendo dois de inclusão imediata, e leva em mediana seis minutos para ser aplicado (Hocking e colaboradores, 2018). Na amostra testada, 32 de cada 100 pessoas tinham estresse pós-traumático, depressão ou ambos pela entrevista estruturada, e quase todos os outros transtornos diagnosticados apareciam junto com um desses dois (Hocking e colaboradores, 2018). Com o corte de dois pontos, a sensibilidade foi de 93 em cada 100 e a especificidade de 75 em cada 100 (Hocking e colaboradores, 2018).

Instrumento Formato O que foi mostrado Ponto de atenção
Refugee Health Screener, 15 itens Autopreenchimento ou entrevista Boa validade; cerca de metade positiva em recém-chegados (Kaltenbach e colaboradores, 2017) Positivo indica sofrimento, não diagnóstico
Refugee Health Screener, 13 itens Versão curta Cortes para leve, moderado e grave (Bjärtå e colaboradores, 2018) Uso real depende de tempo e língua (Hagström e colaboradores, 2024)
STAR-MH Nove itens, cerca de seis minutos Sensibilidade alta para depressão e estresse pós-traumático (Hocking e colaboradores, 2018) Especificidade menor gera falsos positivos

A tabela ajuda a lembrar uma regra básica de sensibilidade, especificidade e valores preditivos. Um instrumento muito sensível é ótimo para não deixar ninguém de fora, mas produz falsos positivos. Por isso, todo positivo precisa de uma conversa clínica antes de virar diagnóstico.

O instrumento no mundo real

Ter um bom instrumento não garante que ele seja usado. Hagström e colaboradores avaliaram a implantação da versão de 13 itens na avaliação de saúde de migrantes forçados em oito centros de atenção primária da região de Estocolmo (Hagström e colaboradores, 2024). O uso variou muito: três centros usaram o instrumento com frequência alta e cinco com frequência baixa (Hagström e colaboradores, 2024).

As principais barreiras foram a língua, a falta de tempo e a desconfiança das enfermeiras sobre a validade e a utilidade do instrumento (Hagström e colaboradores, 2024). Os facilitadores foram a disponibilidade em muitas línguas e a percepção de que ele complementava de forma importante a avaliação de saúde (Hagström e colaboradores, 2024). Uma enfermeira descreveu o questionário como um quebra-gelo, o que aparece no próprio título do estudo (Hagström e colaboradores, 2024).

A língua merece atenção especial. Um questionário traduzido ajuda, mas a conversa que vem depois precisa de intérprete profissional. O texto sobre intérprete profissional e intérprete improvisado explica por que usar o filho ou um vizinho como intérprete é arriscado, e os erros que acontecem na interpretação mostra como o sentido se perde. Num assunto como trauma, violência ou ideação suicida, o intérprete improvisado pode impedir a resposta verdadeira.

Fones de ouvido de interpretação simultânea sobre uma folha branca numa mesa clara
Fones usados em interpretação simultânea. Na consulta, o intérprete profissional, presente ou a distância, é o que permite perguntar sobre trauma e risco. Crédito: European Parliament, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso, sem o texto impresso na folha.

O que ajuda no cuidado

Triar só faz sentido se houver o que oferecer depois. A boa notícia é que há evidência de que intervenções psicossociais funcionam nessa população.

Turrini e colaboradores reuniram 26 estudos com 1959 participantes numa revisão sistemática com metanálise (Turrini e colaboradores, 2019). As intervenções psicossociais tiveram efeito benéfico clinicamente significativo sobre estresse pós-traumático, depressão e ansiedade, com evidência de qualidade moderada (Turrini e colaboradores, 2019). O benefício se manteve em seguimento de um mês ou mais (Turrini e colaboradores, 2019). A revisão guarda-chuva anterior já apontava as intervenções cognitivo-comportamentais, em especial a terapia de exposição narrativa, como as mais estudadas, com resultado positivo contra controles inativos, mas não contra controles ativos (Turrini e colaboradores, 2017).

Um dos achados mais úteis para quem trabalha com poucos recursos vem de um ensaio com refugiados sírios na Holanda. De Graaff e colaboradores testaram uma intervenção psicológica breve aplicada por pares, ou seja, por pessoas da mesma comunidade treinadas para isso (de Graaff e colaboradores, 2023). Foram 206 participantes com sofrimento psicológico e prejuízo funcional, divididos entre a intervenção somada ao cuidado habitual e o cuidado habitual isolado (de Graaff e colaboradores, 2023). Em três meses, o grupo da intervenção teve maior redução de depressão, ansiedade, sintomas de estresse pós-traumático e problemas identificados pelos próprios participantes, mas não de prejuízo funcional (de Graaff e colaboradores, 2023).

A falta de efeito sobre o funcionamento diário é um lembrete útil. Sintomas podem melhorar enquanto a vida continua difícil por razões que nenhuma intervenção psicológica resolve sozinha, como moradia precária, falta de trabalho e incerteza sobre o pedido de asilo. O cuidado em saúde mental de refugiados costuma precisar de articulação com assistência social, apoio jurídico e escola, e o clínico ajuda muito quando sabe para onde encaminhar cada necessidade.

Esse resultado amplia o que o clínico pode oferecer. Nem todo refugiado com sofrimento precisa de psiquiatra; muitos se beneficiam de intervenções estruturadas e breves, desde que haja um caminho claro para quem piora. O que não pode faltar é a avaliação do risco, discutida em o que a conversa capta que a escala não capta.

Crianças pedem uma abordagem própria. Bürgin e colaboradores descrevem que a guerra produz respostas agudas de estresse, risco aumentado de transtornos específicos, sofrimento pela separação dos pais e medo pela segurança própria e da família (Bürgin e colaboradores, 2022). Eles defendem intervenções em vários níveis, voltadas às necessidades da criança, informadas por trauma e orientadas para forças e resiliência (Bürgin e colaboradores, 2022). As intervenções imediatas devem garantir recursos físicos e emocionais básicos para que a criança recupere segurança externa e interna, e a triagem e a avaliação devem orientar intervenções dirigidas (Bürgin e colaboradores, 2022).

Para o clínico geral, isso se traduz em algumas perguntas simples aos pais ou cuidadores: como a criança está dormindo, se voltou a fazer xixi na cama, se está brincando, se vai à escola, se tem medo de se separar dos adultos. Mudanças marcantes nesses pontos justificam avaliação mais detalhada. E a saúde mental dos pais conta: uma mãe deprimida e sozinha terá mais dificuldade de oferecer a segurança de que a criança precisa, o que é mais um motivo para cuidar dos dois ao mesmo tempo.

Otoscópio em pé sobre uma bancada clara, diante de uma parede cinza
Na consulta da criança, o exame físico simples também abre espaço para observar como ela reage, brinca e se relaciona. Crédito: Fatimah Bello, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

Vieses que atrapalham a consulta

O primeiro viés é o sombreamento diagnóstico ao contrário. Em vez de atribuir tudo à doença mental, o clínico atribui tudo ao corpo e trata só a dor de cabeça. Em populações em que depressão e ansiedade são tão frequentes quanto o estresse pós-traumático (Turrini e colaboradores, 2017), a queixa física repetida com exame normal deveria levar à pergunta sobre sono, humor e preocupações.

O segundo é o oposto: chamar de transtorno qualquer sofrimento. Refugiados enfrentam perdas reais, incerteza jurídica e separação familiar, e tristeza diante disso não é necessariamente doença. O texto sobre sombreamento diagnóstico mostra como o rótulo pode esconder outra doença, inclusive uma causa orgânica.

O terceiro é supor que todos os refugiados têm trauma grave. A grande variação entre estudos (Morina e colaboradores, 2018) e o fato de estudos melhores encontrarem taxas menores (Bogic e colaboradores, 2015) mostram que pertencer ao grupo não define o diagnóstico. A pergunta certa é individual, e começa por quem está na sua frente: de onde veio, por onde passou, há quanto tempo chegou.

O quarto é a pressa. Ouvir a história em pedaços, ao longo de várias consultas, costuma render mais do que um interrogatório na primeira. A medicina narrativa ajuda a lembrar que a forma como a pessoa conta o que viveu também é dado clínico.

O quinto é esquecer que a violência pode estar acontecendo agora. Sobreviventes de violência sexual em contexto de crise precisam de um roteiro próprio, descrito em acompanhamento e saúde mental.

O sexto viés é esquecer o contexto em que a pessoa vive hoje. Mesmo longe da guerra, muitas pessoas deslocadas vivem em condições que agravam o sofrimento, como alojamentos lotados, calor, pouca privacidade e falta de rotina. O texto sobre cólera, sarampo e desnutrição em conflitos mostra como a saúde mental entra junto com as outras demandas de uma crise, e não depois delas. Quem atende populações deslocadas também convive com histórias pesadas todos os dias, e proteger quem cuida faz parte de manter o serviço funcionando.

Por fim, vale lembrar a sequência que costuma funcionar no consultório. Primeiro, garantir a comunicação, com intérprete profissional e tempo suficiente. Segundo, ouvir a queixa que trouxe a pessoa e examiná-la com o mesmo cuidado dado a qualquer paciente. Terceiro, perguntar sobre sono, humor, preocupações e segurança, com ou sem instrumento. Quarto, avaliar o risco. Quinto, combinar o próximo passo de forma clara, com retorno marcado. Uma consulta interpretada bem conduzida torna cada um desses passos possível.

Perguntas frequentes

Quão comum é o transtorno mental entre refugiados?

Numa revisão com 26 estudos, cerca de 31 em cada 100 tinham estresse pós-traumático e outros 31 em cada 100 tinham depressão, com grande variação entre estudos (Blackmore e colaboradores, 2020).

O sofrimento diminui com o tempo?

Não necessariamente. Cinco anos ou mais depois do deslocamento, as taxas ainda costumavam ficar na faixa de 20 em cada 100 ou mais (Bogic e colaboradores, 2015).

Qual instrumento de triagem usar?

O Refugee Health Screener e o STAR-MH foram testados nessa população e podem ser aplicados por não especialistas (Kaltenbach e colaboradores, 2017).

Um resultado positivo é um diagnóstico?

Não. Instrumentos sensíveis produzem falsos positivos, e todo positivo precisa de avaliação clínica (Hocking e colaboradores, 2018).

O que fazer depois de uma triagem positiva?

Avaliar o risco, oferecer intervenção psicossocial, que tem benefício demonstrado, e encaminhar quando necessário (Turrini e colaboradores, 2019).

Por que o intérprete importa tanto?

Porque a língua é uma das principais barreiras ao uso da triagem na prática (Hagström e colaboradores, 2024).

Take-home messages

Referências

  1. Bjärtå A, Leiler A, Ekdahl J, et al. Assessing Severity of Psychological Distress Among Refugees With the Refugee Health Screener, 13-Item Version. J Nerv Ment Dis. 2018. PMID 30256332.
  2. Blackmore R, Boyle JA, Fazel M, et al. The prevalence of mental illness in refugees and asylum seekers: A systematic review and meta-analysis. PLoS Med. 2020. PMID 32956381.
  3. Bogic M, Njoku A, Priebe S. Long-term mental health of war-refugees: a systematic literature review. BMC Int Health Hum Rights. 2015. PMID 26510473.
  4. Bürgin D, Anagnostopoulos D, Board and Policy Division of ESCAP, et al. Impact of war and forced displacement on children's mental health-multilevel, needs-oriented, and trauma-informed approaches. Eur Child Adolesc Psychiatry. 2022. PMID 35286450.
  5. de Graaff AM, Cuijpers P, Twisk JWR, et al. Peer-provided psychological intervention for Syrian refugees: results of a randomised controlled trial on the effectiveness of Problem Management Plus. BMJ Ment Health. 2023. PMID 36789918.
  6. Hagström A, Hasson H, Hollander AC, et al. "Sometimes it can be like an icebreaker": A mixed method evaluation of the implementation of the Refugee Health Screener-13 (RHS-13). J Migr Health. 2024. PMID 39220097.
  7. Hocking DC, Mancuso SG, Sundram S. Development and validation of a mental health screening tool for asylum-seekers and refugees: the STAR-MH. BMC Psychiatry. 2018. PMID 29548315.
  8. Kaltenbach E, Härdtner E, Hermenau K, et al. Efficient identification of mental health problems in refugees in Germany: the Refugee Health Screener. Eur J Psychotraumatol. 2017. PMID 29163869.
  9. Magwood O, Kassam A, Mavedatnia D, et al. Mental Health Screening Approaches for Resettling Refugees and Asylum Seekers: A Scoping Review. Int J Environ Res Public Health. 2022. PMID 35329237.
  10. Morina N, Akhtar A, Barth J, et al. Psychiatric Disorders in Refugees and Internally Displaced Persons After Forced Displacement: A Systematic Review. Front Psychiatry. 2018. PMID 30298022.
  11. Turrini G, Purgato M, Acarturk C, et al. Efficacy and acceptability of psychosocial interventions in asylum seekers and refugees: systematic review and meta-analysis. Epidemiol Psychiatr Sci. 2019. PMID 30739625.
  12. Turrini G, Purgato M, Ballette F, et al. Common mental disorders in asylum seekers and refugees: umbrella review of prevalence and intervention studies. Int J Ment Health Syst. 2017. PMID 28855963.

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