Comunicação e éticaRaciocínio clínico

Intérprete profissional: a consulta em outra língua

Sala de consulta vazia com maca de exame e cadeira para acompanhante
Sumário
  1. O tamanho do problema
  2. Intérprete profissional e intérprete improvisado
  3. Os erros que acontecem na interpretação
  4. Quando o médico fala a língua do paciente
  5. O impacto nos desfechos
  6. Presencial, telefone ou vídeo
  7. Como conduzir uma consulta interpretada
  8. Perguntas frequentes
  9. Take-home messages
  10. Referências

Um senhor de 82 anos que fala apenas espanhol recebe alta depois de uma internação por insuficiência cardíaca. Quem ajuda a enfermeira a revisar os medicamentos e a explicar as orientações, escritas em inglês, é uma auxiliar que fala um pouco da língua, mas não é intérprete. Dez dias depois, ele volta descompensado e precisa de suporte ventilatório: tinha parado o diurético por causa da diurese e mal entendia para que serviam os remédios novos (Medrano e colaboradores, 2023). O caso, descrito por Medrano e colaboradores, resume um problema que aparece em qualquer serviço que atende pessoas que não falam a língua da equipe (Medrano e colaboradores, 2023).

A consulta em outra língua não é só uma questão de cortesia. A forma como a comunicação é feita muda o que o médico entende da história, o que o paciente entende do plano e, em alguns cenários, o desfecho clínico. Este texto revisa o que os estudos mostram sobre intérpretes profissionais, familiares e profissionais bilíngues, os riscos de improvisar e as práticas que tornam uma consulta interpretada mais segura.

Principais pontos

  • O intérprete profissional melhora a qualidade do cuidado mais do que o intérprete improvisado.
  • Familiares cometem mais erros de interpretação que intérpretes profissionais, e omissões são o erro mais comum.
  • Consentimento, alta, reconciliação de medicamentos e conversas sobre objetivos de cuidado são cenários de alto risco.
  • Vídeo, telefone e intérprete presencial têm avaliações parecidas pelos pacientes, mas o presencial tende a gerar mais satisfação.
  • Falar com o paciente, em frases curtas e em primeira pessoa, reduz perdas na interpretação.

O tamanho do problema

O tema foi estudado sobretudo nos Estados Unidos, onde os números são grandes. Pelo censo de 2000, 47 milhões de pessoas no país falavam outra língua em casa, e metade delas dizia falar inglês menos que muito bem (Karliner e colaboradores, 2007). Em 2013, eram cerca de 61,6 milhões, das quais aproximadamente 25 milhões, ou 41 a cada 100, tinham proficiência limitada em inglês (Yang e colaboradores, 2023). Em 2015, cerca de 70 milhões de residentes falavam outra língua em casa, e 25,1 milhões tinham proficiência limitada (Medrano e colaboradores, 2023).

O fenômeno não é exclusivo de países de imigração tradicional. Qualquer serviço de saúde atende turistas, migrantes, refugiados, pessoas surdas que usam língua de sinais e falantes de línguas indígenas. A pergunta prática é sempre a mesma: quem vai garantir que o paciente e o médico estão falando da mesma coisa?

Medrano e colaboradores chamam de "dar um jeito" a prática de usar intérpretes não profissionais, funcionários bilíngues sem certificação ou familiares e amigos (Medrano e colaboradores, 2023). Esse improviso está associado a menor satisfação do paciente, menor autoeficácia, pior adesão aos medicamentos, pior autocuidado e menor compreensão da própria doença (Medrano e colaboradores, 2023). Os autores lembram também que a comunicação verbal ruim aumenta o risco de erros de segurança e se associa a decisões clínicas abaixo do ideal, erros diagnósticos, atrasos no cuidado, erros de medicação e eventos adversos (Medrano e colaboradores, 2023). Para quem estuda raciocínio clínico, esse é o ponto central: uma história mal colhida gera hipóteses ruins, por mais cuidadoso que seja o resto do processo. Diante de pacientes que falam outra língua, vale também olhar para o próprio viés implícito.

Sala de consulta vazia com maca de exame coberta por papel, banqueta e cadeira
Sala de consulta vazia, com maca, banqueta e cadeira. A disposição das pessoas na sala faz diferença numa consulta interpretada. Crédito: Harrison Keely, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

Intérprete profissional e intérprete improvisado

A revisão sistemática de Karliner e colaboradores é a referência clássica. Entre 3698 referências, 28 estudos preencheram os critérios, e 21 deles avaliaram o intérprete profissional separadamente do intérprete improvisado (Karliner e colaboradores, 2007). Nos quatro desfechos examinados, comunicação, uso de serviços, desfechos clínicos e satisfação, o intérprete profissional se associou a um cuidado melhor do que o improvisado (Karliner e colaboradores, 2007). Mais do que isso, ele parece aproximar a qualidade do cuidado daquela oferecida a pacientes sem barreira de língua (Karliner e colaboradores, 2007).

Alguns números dessa revisão ajudam a dimensionar a diferença. No estudo de Flores, citado por Karliner, a proporção de erros com potencial consequência clínica foi de 53 a cada 100 com intérpretes profissionais e de 77 a cada 100 com intérpretes improvisados, como familiares e funcionários (Karliner e colaboradores, 2007). Num estudo australiano pequeno, a compreensão completa de um diagnóstico terminal foi de 67 a cada 100 com intérprete e de 30 a cada 100 sem intérprete, mas a diferença não foi significativa (Karliner e colaboradores, 2007).

A revisão incluiu estudos publicados entre 1966 e 2005 que comparavam pelo menos dois grupos de língua (Karliner e colaboradores, 2007). A formação dos intérpretes variou de algumas horas a mais de um ano entre os estudos, e metade deles nem informou o treinamento (Karliner e colaboradores, 2007). Ou seja, "profissional" nem sempre quer dizer a mesma coisa, e essa heterogeneidade limita as conclusões.

A revisão de Heath e colaboradores, com 29 relatos, chegou a uma conclusão parecida: o intérprete profissional presencial teve os melhores resultados em satisfação e comunicação, qualquer intérprete foi melhor que nenhum, e intérpretes do círculo do paciente podem ser um recurso valioso no consultório privado (Heath e colaboradores, 2023). Num dos estudos incluídos, a satisfação foi de 92,4 a cada 100 com o intérprete profissional do hospital, de 85,1 com um intérprete do círculo do paciente, de 53,3 com intérprete por telefone e de 40 com intérprete improvisado (Heath e colaboradores, 2023). Ouvir a história nas palavras do próprio paciente é o centro da medicina narrativa.

Os erros que acontecem na interpretação

Os erros de interpretação foram estudados em detalhe por Lauridsen e colaboradores, que encontraram apenas 7 estudos sobre o tema (Lauridsen e colaboradores, 2024). Houve menos erros com o intérprete profissional presencial do que com familiares (Lauridsen e colaboradores, 2024). Já a comparação com membros da equipe de saúde sem formação em interpretação não mostrou diferença significativa (Lauridsen e colaboradores, 2024).

O erro mais comum é a omissão. Em três estudos que separaram os tipos de erro, as omissões responderam por 40, 42 e 63 a cada 100 dos erros com intérprete profissional, e por 51, 46 e 61 a cada 100 com intérprete improvisado (Lauridsen e colaboradores, 2024). Dois estudos encontraram que quanto mais longas e complexas as frases, maior o risco de interpretação equivocada (Lauridsen e colaboradores, 2024).

Daí vêm as três recomendações dos autores (Lauridsen e colaboradores, 2024). Primeiro, o intérprete profissional deve ser a primeira escolha. Segundo, se ele não estiver disponível, um profissional de saúde sem formação em interpretação deve ser preferido a familiares e amigos. Terceiro, todos na consulta devem usar frases curtas e diretas, o que reduz o risco de omissões. Quando um erro de interpretação causa dano, a conversa com o paciente segue os princípios de como comunicar um erro diagnóstico.

Há um tipo de erro que afeta diretamente o raciocínio diagnóstico. Bauer e Alegría revisaram 26 artigos sobre avaliação em saúde mental e descreveram que a avaliação feita numa língua que não é a principal do paciente pode levar a um exame do estado mental incompleto ou distorcido (Bauer e Alegría, 2010). Intérpretes sem formação podem cometer erros que fazem o clínico deixar de identificar pensamento desorganizado ou conteúdo delirante (Bauer e Alegría, 2010). A barreira de língua pode mascarar alterações da fala, do curso e do conteúdo do pensamento e da percepção (Bauer e Alegría, 2010). Os autores apontam que o intérprete profissional pode melhorar a revelação de informações e atenuar parte dessas dificuldades, mas que a concordância diagnóstica, o planejamento conjunto do tratamento e o encaminhamento para atendimento especializado podem ficar comprometidos (Bauer e Alegría, 2010). Uma alucinação que não é relatada, ou um discurso desorganizado que é "arrumado" na interpretação, muda a lista de hipóteses. Como boa parte do raciocínio parte da história clínica, uma história mal traduzida compromete o que vem depois.

Fone de ouvido com microfone acoplado, apoiado sobre fundo branco
Fone com microfone, do tipo usado na interpretação remota por telefone ou vídeo. Crédito: Zephyris, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

Quando o médico fala a língua do paciente

Uma saída comum é o próprio médico conduzir a conversa na língua do paciente. Isso pode ser ótimo, mas depende do nível real de fluência. Patel e colaboradores fizeram um inquérito com cirurgiões de um hospital universitário, com resposta de 33,1 a cada 100, ou 158 de 477 (Patel e colaboradores, 2016). Cerca de um terço, 32 a cada 100, relatou usar o próprio conhecimento de outra língua para obter o consentimento cirúrgico (Patel e colaboradores, 2016). Entre os que se diziam fluentes, 67 a cada 100 raramente ou nunca usavam intérprete naquela língua (Patel e colaboradores, 2016).

O mesmo inquérito mostrou que muitos cirurgiões recorriam a funcionários bilíngues, familiares e até menores de idade como intérpretes para o consentimento, embora a política do hospital proibisse expressamente o uso de menores (Patel e colaboradores, 2016). Quando o intérprete profissional não estava disponível a tempo, o improviso ficava mais frequente (Patel e colaboradores, 2016). Superestimar a própria fluência é, no fundo, um problema de calibração da confiança.

Quando a fluência é real, a concordância de língua é vantajosa. Segundo Medrano e colaboradores, o cuidado prestado por profissionais que falam a língua do paciente se associa a maior satisfação, melhor controle de doenças crônicas e menos visitas ao pronto-socorro, em comparação com o cuidado mediado por intérprete (Medrano e colaboradores, 2023). Os autores citam que o melhor atendimento com intérprete ainda é inferior ao atendimento na mesma língua em compreensão e satisfação, e que pacientes que trocaram para um médico que falava sua língua tiveram melhora significativa do controle glicêmico (Medrano e colaboradores, 2023). Por isso, recomendam que profissionais que se consideram fluentes avaliem formalmente a própria proficiência e busquem certificação (Medrano e colaboradores, 2023). A fluência para conversar sobre o fim de semana não é a mesma necessária para explicar riscos de uma cirurgia.

O consentimento é justamente um dos cenários que Medrano e colaboradores classificam como de alto risco sem interpretação profissional, ao lado da alta, da reconciliação de medicamentos e das conversas sobre objetivos de cuidado (Medrano e colaboradores, 2023). São momentos em que um mal-entendido tem consequência direta, como mostra o caso do início.

O impacto nos desfechos

Além da comunicação e da satisfação, há dados sobre desfechos clínicos. Bertram e colaboradores revisaram 1133 acionamentos de trauma em um centro de referência (Bertram e colaboradores, 2024). Dos 70 pacientes com proficiência limitada em inglês, 62, ou 88,6 a cada 100, precisaram de intérprete, e 41 desses, ou 66,1 a cada 100, tiveram um intérprete profissional nas primeiras 24 horas (Bertram e colaboradores, 2024).

Os pacientes sem interpretação precoce ficaram internados por mais tempo do que os pacientes proficientes em inglês, com razão de risco de 0,59 para a alta, e do que os pacientes com proficiência limitada que tiveram intérprete cedo, com razão de risco de 0,51 (Bertram e colaboradores, 2024). Entre os que tiveram intérprete precoce, o tempo de internação foi igual ao dos pacientes proficientes (Bertram e colaboradores, 2024). O estudo é retrospectivo e de um único centro, mas o sinal é coerente com o restante da literatura.

O tempo com o intérprete também parece importar. Torresdey e colaboradores estudaram 338 pacientes atendidos com intérprete profissional (Torresdey e colaboradores, 2024). A consulta durou em média 47,7 minutos, o tempo auxiliar do intérprete antes e depois do atendimento foi de 43,8 minutos e o tempo total chegou a 91,1 minutos (Torresdey e colaboradores, 2024). Os pacientes deram nota média de 97,4 em 100 ao apoio do intérprete e de 93,7 em 100 à comunicação com o clínico (Torresdey e colaboradores, 2024). Mais tempo total com o intérprete se associou a melhor avaliação da comunicação, com β de 7,23, mas só quando o tempo auxiliar foi incluído (Torresdey e colaboradores, 2024). O intérprete que acompanha o paciente até o laboratório ou explica a próxima etapa também faz parte do cuidado.

Presencial, telefone ou vídeo

Nem sempre há um intérprete na sala. Pathak e colaboradores compararam a avaliação de 326 pacientes sobre a qualidade da interpretação por vídeo, presencial e por telefone (Pathak e colaboradores, 2021). As médias ajustadas foram de 3,91 para o vídeo, 3,86 para o presencial e 3,73 para o telefone, sem diferenças significativas entre as modalidades (Pathak e colaboradores, 2021). A escala ia de 1, ruim, a 5, excelente, e a maioria dos pacientes classificou a qualidade como muito boa ou excelente nas três modalidades (Pathak e colaboradores, 2021). Medrano e colaboradores, por sua vez, sugerem preferir o vídeo ao telefone quando a interpretação é remota (Medrano e colaboradores, 2023).

A pandemia de covid-19 testou esses arranjos. Na revisão de Yang e colaboradores, a preocupação com contaminação e a falta de equipamentos de proteção reduziram a disponibilidade de intérpretes presenciais à beira do leito, e houve até receio de usar aparelhos de telefone e vídeo (Yang e colaboradores, 2023). Os hospitais responderam com soluções como um tablet montado em suporte com rodas para interpretação por áudio e vídeo no pronto-socorro, que registrou 477 atendimentos virtuais, somando 4123 minutos, em cerca de dois meses (Yang e colaboradores, 2023). Outra estratégia programou o número da interpretação por telefone num crachá eletrônico que os clínicos já usavam, o que permitia chamar o intérprete à beira do leito por comando de voz (Yang e colaboradores, 2023). Os minutos de interpretação por telefone dobraram entre o primeiro e o segundo trimestres de 2020, e os clínicos relataram maior sensação de conexão com os pacientes, porque a voz do intérprete parecia sair do próprio peito (Yang e colaboradores, 2023). Os autores lembram que conversas de fim de vida e de objetivos de cuidado são especialmente vulneráveis a mal-entendidos sem interpretação profissional (Yang e colaboradores, 2023).

Modelo anatômico da orelha humana em corte, mostrando orelha externa, conduto auditivo e estruturas da orelha média e interna
Modelo anatômico da orelha em corte, usado no ensino. Ouvir não é o mesmo que entender, e a interpretação existe para fechar essa distância. Crédito: RWhitwam, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

Na UTI, a interpretação tem uma camada a mais. Suarez e colaboradores entrevistaram 16 médicos, 12 enfermeiros e 12 intérpretes e descreveram três papéis para o intérprete profissional (Suarez e colaboradores, 2021). No primeiro, ele interpreta de forma literal. No segundo, atua como guardião do letramento em saúde, incorporando alguma defesa do paciente. No terceiro, funciona como mediador cultural, transmitindo a informação com as nuances culturais (Suarez e colaboradores, 2021). Ao todo, foram 40 participantes de 3 UTIs (Suarez e colaboradores, 2021). Alguns médicos preferiam a interpretação literal, outros se sentiam menos à vontade com ela (Suarez e colaboradores, 2021). Houve relatos de conversas paralelas entre intérprete e família das quais o médico se sentia excluído, e de situações em que a informação transmitida parecia incompleta (Suarez e colaboradores, 2021). O papel de guardião do letramento foi valorizado por alertar a equipe quando a compreensão estava ameaçada e por encorajar pacientes e famílias a fazer perguntas (Suarez e colaboradores, 2021). Os clínicos também viram vantagens e desvantagens em cada modalidade de interpretação para o desempenho desses papéis (Suarez e colaboradores, 2021). Nesse cenário, o intérprete passa a fazer parte da equipe, e os problemas descritos no raciocínio clínico interprofissional também aparecem.

Como conduzir uma consulta interpretada

As boas práticas reunidas por Medrano e colaboradores formam um roteiro simples (Medrano e colaboradores, 2023):

Fazer Evitar
Combinar com o intérprete antes da consulta, quando possível Falar do paciente na terceira pessoa, como "diga a ela"
Usar frases em primeira pessoa Dirigir-se ao intérprete em vez do paciente
Usar frases curtas e pedir interpretação frase a frase Conversas paralelas com o intérprete
Falar diretamente com o paciente e manter contato visual Deixar o telefone, a tela ou o intérprete entre você e o paciente
Priorizar os pontos-chave e tratar os temas complexos um de cada vez
Buscar ativamente a perspectiva do paciente

A ideia por trás da lista é simples: o intérprete dá voz à conversa, mas a relação continua sendo entre o médico e o paciente. Falar em terceira pessoa ou conversar com o intérprete à parte transforma o paciente em espectador da própria consulta. Ao final, vale pedir que o paciente explique com as próprias palavras o que entendeu, uma técnica que os participantes da oficina descrita a seguir citaram como aprendizado (Jones e colaboradores, 2020). A atenção às pistas do paciente, discutida em como treinar empatia na consulta, vale também com intérprete.

O treinamento ajuda a transformar essas práticas em hábito. Jones e colaboradores descreveram uma oficina de 90 minutos sobre trabalho com intérpretes profissionais (Jones e colaboradores, 2020). Entre os 53 participantes que responderam à avaliação, 98 a cada 100 disseram que a oficina cumpriu os objetivos, 98 a cada 100 que foi um uso valioso do tempo e 92 a cada 100 que o material de apoio foi útil (Jones e colaboradores, 2020). Além disso, 90 a cada 100 disseram que aplicariam o conteúdo na prática (Jones e colaboradores, 2020). Os participantes vinham de várias formações, incluindo estudantes de medicina, residentes e médicos (Jones e colaboradores, 2020). É uma avaliação de satisfação logo após a oficina, e não de mudança de comportamento, mas mostra que o tema cabe numa sessão curta de ensino. Os participantes citaram como aprendizados o posicionamento na sala, o contato visual e o método de pedir ao paciente que repita o que entendeu (Jones e colaboradores, 2020).

Na prática, algumas perguntas organizam o raciocínio antes de começar:

  • Qual é a língua preferida do paciente para falar de saúde, e não apenas para conversar no dia a dia?
  • A conversa envolve consentimento, alta, medicamentos ou objetivos de cuidado, os cenários de maior risco (Medrano e colaboradores, 2023)?
  • Há um intérprete profissional disponível agora, presencial ou remoto, ou é possível esperar por ele?
  • Se não houver, quem é a alternativa menos arriscada, lembrando que um profissional de saúde é preferível a um familiar (Lauridsen e colaboradores, 2024)?
  • Quanto tempo a consulta vai precisar, contando a interpretação e o tempo antes e depois do atendimento (Torresdey e colaboradores, 2024)?

Essas perguntas fazem parte da tomada de decisão clínica, tanto quanto a escolha do exame. As respostas, incluindo quem interpretou e de que forma, devem ficar registradas no prontuário.

Conversas difíceis pedem ainda mais cuidado. Ao dar uma má notícia com intérprete, os passos do protocolo SPIKES continuam válidos, e vale combinar antes com o intérprete o conteúdo e o tom da conversa.

Perguntas frequentes

Familiar pode servir de intérprete?

Pode em situações de exceção, mas não é o ideal. Familiares cometem mais erros de interpretação do que intérpretes profissionais, e a recomendação é preferir o intérprete profissional e, na falta dele, um profissional de saúde a familiares ou amigos (Lauridsen e colaboradores, 2024).

Criança pode interpretar para os pais?

Não deveria. No hospital estudado por Patel e colaboradores, a política proibia expressamente o uso de menores como intérpretes, mesmo assim alguns cirurgiões relataram recorrer a eles (Patel e colaboradores, 2016).

Interpretação por vídeo é tão boa quanto a presencial?

Na avaliação dos pacientes, vídeo, presencial e telefone tiveram notas parecidas, sem diferença significativa (Pathak e colaboradores, 2021). Outra revisão encontrou maior satisfação com o intérprete profissional presencial (Heath e colaboradores, 2023).

Qual é o erro de interpretação mais comum?

A omissão, que respondeu por boa parte dos erros tanto com intérpretes profissionais quanto com improvisados (Lauridsen e colaboradores, 2024).

Se eu falo um pouco da língua do paciente, posso dispensar o intérprete?

Depende da fluência e do que está em jogo. Em consentimento, alta e objetivos de cuidado, que são cenários de alto risco, o intérprete profissional é a escolha mais segura (Medrano e colaboradores, 2023).

O intérprete deve só traduzir palavra por palavra?

Nem sempre. Na UTI, intérpretes descrevem papéis que vão da interpretação literal à mediação cultural e à proteção do letramento em saúde do paciente (Suarez e colaboradores, 2021).

A barreira de língua pode atrapalhar o diagnóstico?

Pode. Em saúde mental, por exemplo, ela pode distorcer o exame do estado mental e esconder pensamento desorganizado ou delírios (Bauer e Alegría, 2010).

Take-home messages

  • Prefira o intérprete profissional; qualquer intérprete é melhor que nenhum, mas familiares erram mais.
  • Omissões são o erro mais comum, e frases curtas reduzem esse risco.
  • Consentimento, alta, medicamentos e objetivos de cuidado são cenários de alto risco.
  • Fale com o paciente, em primeira pessoa, olhando para ele.
  • Interpretação precoce e tempo adequado com o intérprete se associam a melhores resultados.

Referências

  1. Bauer AM, Alegría M. Impact of patient language proficiency and interpreter service use on the quality of psychiatric care: a systematic review. Psychiatr Serv. 2010. PMID 20675834.
  2. Bertram SC, Nichols FR, Cox LE, et al. Early use of professional interpreters improves trauma outcomes: Results of a single-center retrospective study. Surg Open Sci. 2024. PMID 39399161.
  3. Heath M, Hvass AMF, Wejse CM. Interpreter services and effect on healthcare - a systematic review of the impact of different types of interpreters on patient outcome. J Migr Health. 2023. PMID 36816444.
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  8. Patel DN, Wakeam E, Genoff M, et al. Preoperative consent for patients with limited English proficiency. J Surg Res. 2016. PMID 26541685.
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  10. Suarez NRE, Urtecho M, Jubran S, et al. The Roles of medical interpreters in intensive care unit communication: A qualitative study. Patient Educ Couns. 2021. PMID 33168459.
  11. Torresdey P, Chen J, Rodriguez HP. Patient Time Spent With Professional Medical Interpreters and the Care Experiences of Patients With Limited English Proficiency. J Prim Care Community Health. 2024. PMID 38912573.
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