Medicina tropical e de viagemRaciocínio clínico

Eosinofilia no viajante e no migrante: como investigar

Fileira de microscópios ópticos brancos e pretos alinhados sobre uma bancada de laboratório
Sumário
  1. Por que a eosinofilia isolada engana
  2. Quem está na sua frente: viajante ou migrante
  3. As causas que mais aparecem
  4. Como investigar passo a passo
  5. Quando não é parasita e o que olhar além do sangue
  6. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  7. Perguntas frequentes
  8. Take-home messages
  9. Referências

Um homem de 34 anos, nascido em Camarões e morando no Brasil há dois anos, faz exames de rotina para um emprego novo. Ele se sente bem. O hemograma mostra eosinófilos acima do normal, sem anemia e sem outras alterações. O médico da unidade fica com duas perguntas: isso precisa ser investigado em alguém sem sintomas, e por onde começar?

A cena se repete com o viajante que voltou de um trabalho voluntário na África, com a estudante que passou um semestre no sudeste asiático e com a família de refugiados que chega para a primeira consulta. A eosinofilia aparece quase por acaso, e o risco é tratá-la como achado sem importância ou, no extremo oposto, pedir uma bateria de exames sem lógica.

Este texto organiza o raciocínio: por que a eosinofilia isolada engana, como a história de exposição muda a lista de causas, quais exames rendem mais, quando pensar em causas não parasitárias e o que fazer quando nada aparece.

Principais pontos

  • Em viajantes e migrantes, a causa mais frequente de eosinofilia é helmintíase, mas a eosinofilia sozinha é um marcador fraco.
  • A ausência de sintomas não exclui infecção: a maioria dos portadores não tem queixa.
  • O país de origem ou o destino da viagem orienta quais parasitas procurar.
  • Exame de fezes e sorologias se complementam, porque cada um encontra uma parte das infecções.
  • A estrongiloidíase deve ser lembrada mesmo sem eosinofilia, principalmente antes de corticoide.
  • Quando a investigação parasitária é negativa, causas não infecciosas entram na lista.

Por que a eosinofilia isolada engana

Eosinofilia é o aumento de eosinófilos no sangue periférico. Em quem viveu ou viajou para regiões tropicais, a primeira hipótese costuma ser um helminto que passa pelos tecidos, porque é nessa fase que o parasita provoca a resposta eosinofílica mais intensa. Essa associação é verdadeira, mas é incompleta.

O marcador falha nas duas direções

Um estudo holandês avaliou 1207 viajantes que voltaram de regiões tropicais e procurou esquistossomose, estrongiloidíase, filariose e toxocaríase por sorologia. O valor preditivo positivo da eosinofilia foi de 15 a cada 100 para infecção prévia e de 0 para infecção recente, e nenhum sintoma teve valor preditivo (Baaten e colaboradores, 2011). Na prática, a maioria dos viajantes com eosinofilia não tinha essas infecções, e nenhum dos viajantes com eosinofilia tinha infecção recente.

Em outro cenário, com infecção muito comum, o resultado foi parecido. Entre 2004 refugiados na fronteira entre Tailândia e Mianmar, cerca de 73 a cada 100 tinham alguma infecção intestinal por parasita, e a eosinofilia teve sensibilidade entre 51 e 73 a cada 100 e especificidade entre 48 e 65 a cada 100, conforme o grupo de parasita, com valores preditivos que variaram de 4 a 98 a cada 100 (Webster e colaboradores, 2022). Os autores concluem que a eosinofilia não deve ser usada sozinha na triagem de refugiados.

O mesmo estudo mostrou que a contagem de eosinófilos varia com características que nada têm a ver com o parasita. A mediana geral foi de 483 células por microlitro, as contagens foram mais altas nas crianças de 2 a 4 anos do que nas pessoas com 65 anos ou mais, com razão de 4,2, e um pouco mais baixas nas mulheres (Webster e colaboradores, 2022). Entre os parasitas, Strongyloides e Ancylostoma ceylanicum foram os que mais elevaram a contagem, com razão de 1,8 em comparação com quem não tinha infecção. Ler o hemograma sem considerar idade e sexo distorce a interpretação.

O que isso muda no raciocínio

Esses números ajudam a calibrar a probabilidade pré-teste. A eosinofilia aumenta a suspeita, mas não confirma nada. Um hemograma normal também não afasta helmintíase em quem tem exposição. A pergunta útil não é apenas se há eosinofilia, e sim se a história de exposição justifica procurar um parasita específico.

Por isso, a investigação parte da pessoa, e não do número. Onde ela nasceu, por onde viajou, por quanto tempo, que tipo de contato teve com água doce, solo ou alimentos crus, e se vai receber algum tratamento que suprima a imunidade.

Sem sintomas não significa sem doença

Em Gran Canária, um estudo com 788 imigrantes da África subsaariana encontrou eosinofilia em 213, ou 27,0 a cada 100, e identificou helmintos em 75 a cada 100 dos que tinham eosinofilia (Pardo e colaboradores, 2006). Apenas 27,7 a cada 100 tinham sinais ou sintomas (Pardo e colaboradores, 2006). A maioria estava assintomática e, mesmo assim, carregava um parasita tratável.

Na Espanha, entre imigrantes e viajantes com eosinofilia sem explicação testados para toxocaríase, 40,9 a cada 100 dos casos positivos não tinham sintomas (Niño-Puerto e colaboradores, 2026). O silêncio clínico é a regra, e é justamente por isso que a triagem faz sentido em quem tem exposição.

Quem está na sua frente: viajante ou migrante

As duas situações compartilham o mesmo achado, mas não a mesma probabilidade de infecção. O tempo de exposição é o que mais pesa.

O viajante de curta duração

O viajante costuma ter exposição curta e pontual. Isso reduz a carga parasitária e explica por que muitas infecções recentes não produzem eosinofilia. No estudo holandês com 1207 viajantes, a eosinofilia teve valor preditivo positivo de 0 para infecção recente (Baaten e colaboradores, 2011), e as infecções recentes foram adquiridas principalmente na Ásia.

Quanto o viajante realmente se infecta

O mesmo estudo holandês colheu sangue antes e depois da viagem, o que permitiu separar infecção antiga de infecção nova. Infecção prévia apareceu em 112 dos 1207 viajantes (Baaten e colaboradores, 2011). Infecção recente, definida por soroconversão, foi rara: esquistossomose em 0,51 a cada 100 dos expostos, estrongiloidíase em 0,25, filariose em 0,09 e toxocaríase em 0,08 a cada 100.

Esses números dão uma ideia de escala. Para o viajante de curta duração, a probabilidade de infecção nova por esses helmintos é baixa, e a eosinofilia não ajuda a encontrá-la. Para o viajante que já morou fora ou viaja com frequência, a infecção antiga pesa mais, e o hemograma isolado continua sendo um filtro ruim.

Quando a exposição é recente e específica, como um banho em lago de área de esquistossomose, a história pesa mais que o hemograma. No estudo holandês, a infecção recente foi identificada pela comparação entre a sorologia de antes e a de depois da viagem (Baaten e colaboradores, 2011), e não pela contagem de eosinófilos. Para quem tem uma exposição clara, vale registrar a data do contato e discutir a sorologia com o paciente, sem esperar a eosinofilia aparecer.

Na entrevista, vale perguntar sobre banho em rio ou lago, caminhada descalço, consumo de carne ou peixe mal cozidos, contato com cães e trabalho em área rural. Um mergulho em lago africano muda a hipótese para esquistossomose, mesmo sem qualquer sintoma.

O migrante com exposição prolongada

O migrante viveu anos em área endêmica e pode ter infecções crônicas, às vezes mais de uma. Na Dinamarca, entre 793 refugiados recém-chegados, 6,8 a cada 100 tinham eosinofilia e 32,1 a cada 100 tinham IgE elevada (Lanng e colaboradores, 2025). O IgE elevado apareceu com muito mais frequência que a eosinofilia, o que reforça que o hemograma sozinho subestima o problema.

O mesmo estudo dinamarquês mostrou diferenças por origem: refugiados da Síria tiveram menor prevalência de eosinofilia e de IgE elevada, e os da Eritreia tiveram prevalência maior (Lanng e colaboradores, 2025). A origem muda a probabilidade antes mesmo de qualquer exame.

Nos Estados Unidos, um estudo com 812 refugiados encontrou eosinofilia em 147, ou 18,1 a cada 100, e identificou parasita em 63 deles, ou 42,9 a cada 100 (Ding e colaboradores, 2024). Mais da metade ficou sem diagnóstico parasitário, o que não significa que não havia parasita: significa que os exames disponíveis não encontraram.

O país de origem orienta a busca

No estudo de Gran Canária, o perfil de parasitas mudou com o país. Entre os imigrantes de Camarões com eosinofilia, 77 a cada 100 tinham filariose. Entre os de Mali, 63 a cada 100 tinham esquistossomose. Entre os da Nigéria, 30,8 a cada 100 tinham ancilostomíase (Pardo e colaboradores, 2006). O mesmo achado laboratorial pede exames diferentes conforme a geografia.

No sul da Ásia, o parasita que mais preocupa é outro. No Reino Unido, entre 503 migrantes do sul da Ásia, a sorologia para Strongyloides foi positiva em 33,6 a cada 100 dos que tinham eosinofilia e em 12,5 a cada 100 dos que não tinham, com razão de chances ajustada de 3,54 (Baker e colaboradores, 2020). Ou seja, a eosinofilia aumentou a chance, mas uma parte importante dos infectados não a tinha.

Ovo de Schistosoma haematobium visto ao microscópio, com o espículo terminal característico
Ovo de Schistosoma haematobium visto ao microscópio, com o espículo terminal característico. O contato com água doce em área endêmica é a pergunta que leva a pensar nesse parasita. Crédito: CDC, Public Health Image Library, domínio público, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

As causas que mais aparecem

A lista de helmintos possíveis é longa, mas um grupo pequeno responde pela maioria dos diagnósticos. Conhecer esse grupo evita tanto o exame aleatório quanto a falsa tranquilidade.

Filariose, esquistossomose e ancilostomíase

Em Gran Canária, entre os imigrantes com eosinofilia e diagnóstico definido, a filariose respondeu por 29,4 a cada 100, a esquistossomose por 17,2 a cada 100 e a ancilostomíase por 16,8 a cada 100 (Pardo e colaboradores, 2006). Os portadores de helmintos tinham contagem média de eosinófilos de 871, contra 643 nos que não tiveram parasita identificado.

A diferença entre as médias é real, mas pequena para decidir caso a caso. Uma contagem discretamente aumentada pode esconder filariose, e uma contagem alta pode não ter parasita identificado. A incerteza diagnóstica faz parte do processo e precisa ser explicada ao paciente.

Estrongiloidíase: o parasita que não pode passar

A estrongiloidíase merece destaque porque é a infecção que pode se tornar fatal se o paciente receber corticoide. Ela persiste por décadas graças à autoinfecção e pode cursar sem eosinofilia. No estudo britânico com migrantes do sul da Ásia, 35 dos 115 soropositivos não tinham eosinofilia (Baker e colaboradores, 2020).

Uma revisão sistemática feita para orientar a triagem na Europa concluiu que a sorologia é o teste de triagem mais eficaz para estrongiloidíase e esquistossomose em regiões de baixa endemicidade, porque é mais sensível que os métodos parasitológicos convencionais (Agbata e colaboradores, 2018). A mesma revisão aponta que o tratamento presuntivo com ivermectina para todos os migrantes provavelmente é custo-efetivo, embora a certeza da evidência sobre a triagem seja baixa.

Toxocaríase e eosinofilia pulmonar tropical

A toxocaríase é adquirida pela ingestão de ovos de Toxocara canis ou Toxocara cati presentes no solo contaminado (Baaten e colaboradores, 2011) e costuma ser esquecida. Na Espanha, entre 192 imigrantes e viajantes com eosinofilia sem explicação testados, 44 tiveram ELISA positivo, ou 23,0 a cada 100, e 41 foram confirmados por western blot (Niño-Puerto e colaboradores, 2026). A eosinofilia abaixo de 1000 se associou à toxocaríase, com razão de chances de 3,2, e os autores sugerem incluir a sorologia para Toxocara na investigação da eosinofilia sem explicação, depois de afastar as causas comuns.

A eosinofilia pulmonar tropical é uma reação exagerada a antígenos de filárias, vista principalmente no subcontinente indiano. Ela se apresenta com sibilância, tosse, febre e eosinofilia, e contagens acima de 3000 por microlitro são comuns (Mullerpattan e colaboradores, 2013). A asma brônquica está entre os diagnósticos diferenciais citados na revisão, e cerca de 20 a cada 100 pacientes recaem mesmo após o tratamento com dietilcarbamazina (Mullerpattan e colaboradores, 2013).

Na eosinofilia pulmonar tropical, os níveis de IgE total e de IgE e IgG específicos para filária costumam estar elevados, e as provas de função pulmonar podem mostrar padrão misto, restritivo e obstrutivo, com redução da capacidade de difusão (Mullerpattan e colaboradores, 2013). A revisão destaca que, sem tratamento, a doença pode deixar morbidade respiratória importante, o que contraria a ideia antiga de evolução benigna.

Ovo de ancilostomídeo visto ao microscópio em amostra de fezes
Ovo de ancilostomídeo visto ao microscópio em amostra de fezes. Um exame de fezes negativo não encerra a investigação quando a exposição é forte. Crédito: CDC, Public Health Image Library, domínio público, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Como investigar passo a passo

A investigação começa com uma boa história e segue com exames escolhidos pela exposição. O objetivo é encontrar parasitas tratáveis e não deixar passar a estrongiloidíase.

Primeiro passo: história de exposição

Pergunte o país de nascimento, os países onde viveu, o tempo em cada um, as viagens recentes e o tipo de exposição. Pergunte também sobre sintomas que costumam passar despercebidos: coceira, lesões de pele que se movem, tosse com chiado, diarreia intermitente, sangue na urina. Pergunte se haverá uso de corticoide, quimioterapia, transplante ou outro tratamento imunossupressor.

Registrar essas respostas de forma organizada ajuda quem vai seguir o caso. Um modelo de raciocínio clínico no prontuário deixa claro o que foi perguntado e por que cada exame foi pedido.

Segundo passo: fezes e sorologias juntas

O exame de fezes e as sorologias não competem, eles se completam. Em Gran Canária, o exame de fezes foi positivo em 35 a cada 100 dos imigrantes com eosinofilia, a sorologia para filária em 30 a cada 100 e a sorologia para esquistossomo em 28 a cada 100 (Pardo e colaboradores, 2006). Quando os métodos diretos mostravam só um geo-helminto, a sorologia encontrou outra infecção em 13,2 a cada 100, e os autores concluem que os métodos são complementares.

Para quem veio da África subsaariana, a combinação inclui fezes, sorologia para Strongyloides, sorologia para esquistossomo e pesquisa de filária conforme a região. Para quem veio do sul da Ásia ou do sudeste asiático, a sorologia para Strongyloides ganha peso. Quando há exposição a água doce em área de esquistossomose urinária, o exame de urina pode entrar na investigação, a critério do médico assistente.

Terceiro passo: repetir o hemograma e acompanhar

A eosinofilia nem sempre persiste. No estudo norte-americano, 81 refugiados repetiram o hemograma, e 52 deles, ou 64,2 a cada 100, tiveram normalização (Ding e colaboradores, 2024). Por outro lado, 66 refugiados, ou 44,9 a cada 100, não tiveram nenhuma nova contagem de eosinófilos (Ding e colaboradores, 2024). A repetição ajuda a decidir quem precisa de investigação mais ampla.

Acompanhar também significa garantir que o resultado seja visto. Na Dinamarca, em um subgrupo de 116 refugiados com resultados alterados, o médico de família abordou o achado em 50,9 a cada 100, e 31,0 a cada 100 dos que foram abordados receberam um diagnóstico (Lanng e colaboradores, 2025). Um exame pedido e não lido é uma oportunidade perdida.

Exposição principal Parasitas a priorizar Exames que mais ajudam
África ocidental e central Filariose, esquistossomose, ancilostomíase, estrongiloidíase Fezes, sorologias para filária, esquistossomo e Strongyloides
Água doce em área de esquistossomose Esquistossomose Sorologia para esquistossomo e exame de urina e fezes
Sul e sudeste da Ásia Estrongiloidíase, ancilostomíase, filariose Sorologia para Strongyloides e fezes
Contato com cães, gatos ou solo contaminado Toxocaríase Sorologia para Toxocara com confirmação
Viagem curta e recente Infecção aguda, muitas vezes sem eosinofilia Sorologia em momento adequado após a exposição

Quarto passo: decidir sobre tratamento

Quando um parasita é identificado, o tratamento é dirigido. Quando nada aparece e a exposição é forte, entra a discussão sobre tratamento presuntivo. A revisão europeia considera o tratamento presuntivo da estrongiloidíase com ivermectina provavelmente custo-efetivo para migrantes, mas lembra que a viabilidade dessa estratégia ainda precisa de demonstração em estudos clínicos (Agbata e colaboradores, 2018).

A mesma revisão encontrou que cursos curtos de praziquantel e de ivermectina foram seguros, altamente eficazes e custo-efetivos para tratar esquistossomose e estrongiloidíase, respectivamente, com certeza da evidência moderada a alta para a eficácia do tratamento (Agbata e colaboradores, 2018). A incerteza maior está na triagem, não no tratamento.

Essa decisão envolve o paciente, a disponibilidade dos exames e o risco de imunossupressão futura. Em quem vai iniciar corticoide, a decisão ganha urgência. Uma revisão sistemática concluiu que o tratamento presuntivo com ivermectina é provavelmente custo-efetivo (Agbata e colaboradores, 2018), o que apoia investigar e tratar antes da imunossupressão, com o infectologista quando possível.

Quando não é parasita e o que olhar além do sangue

Nem toda eosinofilia em viajante ou migrante é parasitária. A exposição tropical não protege contra as causas comuns de eosinofilia vistas em qualquer pessoa.

Causas não infecciosas

No estudo norte-americano com refugiados, 5 dos 147 com eosinofilia, ou 3,4 a cada 100, tiveram outros diagnósticos, como eczema, mielofibrose e alergia a medicamento (Ding e colaboradores, 2024). A proporção é pequena, mas inclui doenças graves que exigem outra linha de investigação.

Na lista ampla entram alergias, asma, dermatites, reações a medicamentos, doenças autoimunes e neoplasias hematológicas. Se a investigação parasitária é negativa e a eosinofilia persiste ou aumenta, o raciocínio precisa mudar de direção. Treinar esse diagnóstico diferencial ajuda a não ficar preso à primeira hipótese.

O coração e os órgãos-alvo

Os eosínofilos liberam mediadores que podem lesar órgãos, e o coração é um dos alvos. Um estudo espanhol avaliou com ecocardiograma 37 imigrantes subsaarianos com eosinofilia e sem sintomas, comparados a 13 controles, e encontrou associação entre eosinofilia e espessamento da valva mitral (Carranza-Rodríguez e colaboradores, 2017). Não houve relação entre o grau de eosinofilia e a lesão valvar, nem entre o tipo de helminto e a lesão.

Os autores sugerem ecocardiograma em toda pessoa da África subsaariana com eosinofilia, para detectar lesão valvar precoce (Carranza-Rodríguez e colaboradores, 2017). É uma recomendação de um estudo pequeno, mas lembra que a eosinofilia crônica não é inofensiva.

Esfregaço de sangue com um neutrófilo à esquerda e um eosinófilo à direita, entre hemácias
Esfregaço de sangue com um neutrófilo à esquerda e um eosinófilo à direita, entre hemácias. A contagem de eosinófilos orienta a investigação, mas não identifica a causa. Crédito: David Csaba L., domínio público, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Erros que se repetem

O primeiro erro é ignorar a eosinofilia porque o paciente está bem. Os dados mostram que a maioria dos portadores de helmintos não tem sintomas (Pardo e colaboradores, 2006).

O segundo erro é encerrar a investigação com um exame de fezes negativo. As sorologias encontram uma parte importante das infecções que as fezes não mostram.

O terceiro erro é usar a ausência de eosinofilia para descartar estrongiloidíase. Uma parte dos soropositivos não tem eosinofilia (Baker e colaboradores, 2020), e é justamente essa infecção que pode matar após o corticoide.

O quarto erro é pedir exames sem garantir o retorno. A tomada de decisão clínica inclui definir quem vai ver o resultado e o que será feito com ele.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Treinar o diagnóstico diferencial com pistas e buscar o código certo na CID-10 completam esse treino.

Perguntas frequentes

Eosinofilia em migrante sem sintomas precisa ser investigada?

Sim. A maioria dos portadores de helmintos não tem sintomas, e em Gran Canária só 27,7 a cada 100 dos imigrantes com eosinofilia tinham sinais ou sintomas (Pardo e colaboradores, 2006).

Hemograma normal afasta parasita?

Não. Em viajantes, a eosinofilia teve valor preditivo de 0 para infecção recente (Baaten e colaboradores, 2011), e entre migrantes do sul da Ásia, 35 de 115 soropositivos para Strongyloides não tinham eosinofilia (Baker e colaboradores, 2020).

Basta um exame de fezes?

Não. Fezes e sorologias encontram partes diferentes das infecções. Em Gran Canária, a sorologia encontrou outra infecção em 13,2 a cada 100 dos imigrantes cujo exame direto mostrava só um geo-helminto (Pardo e colaboradores, 2006).

Quando pensar em toxocaríase?

Quando a investigação inicial é negativa e há contato com animais ou solo. Na Espanha, 23,0 a cada 100 dos imigrantes e viajantes com eosinofilia sem explicação tiveram ELISA positivo (Niño-Puerto e colaboradores, 2026).

E se nenhum parasita for encontrado?

Repita o hemograma, reveja a exposição e considere causas não parasitárias. Parte das eosinofilias normaliza, e uma pequena parte tem causas como eczema, alergia a medicamento ou doença hematológica (Ding e colaboradores, 2024).

Take-home messages

  • Eosinofilia em quem tem exposição tropical sugere helmintíase, mas é um marcador fraco.
  • A maioria dos portadores de parasitas não tem sintomas.
  • O país de origem ou o destino da viagem decide quais parasitas procurar.
  • Fezes e sorologias se completam; um exame negativo não encerra a investigação.
  • Estrongiloidíase pode existir sem eosinofilia e deve ser afastada antes de corticoide.
  • Se a investigação parasitária é negativa, pense em causas não infecciosas.

Referências

  1. Agbata EN, Morton RL, Bisoffi Z, et al. Effectiveness of Screening and Treatment Approaches for Schistosomiasis and Strongyloidiasis in Newly-Arrived Migrants from Endemic Countries in the EU/EEA: A Systematic Review. Int J Environ Res Public Health. 2018. PMID 30577567.
  2. Baaten GG, Sonder GJ, van Gool T, et al. Travel-related schistosomiasis, strongyloidiasis, filariasis, and toxocariasis: the risk of infection and the diagnostic relevance of blood eosinophilia. BMC Infect Dis. 2011. PMID 21466667.
  3. Baker EC, Ming DK, Choudhury Y, et al. High Prevalence of <i>Strongyloides</i> among South Asian Migrants in Primary Care-Associations with Eosinophilia and Gastrointestinal Symptoms. Pathogens. 2020. PMID 32041352.
  4. Carranza-Rodríguez C, San-Román-Sánchez D, Marrero-Santiago H, et al. Endomyocardial involvement in asymptomatic sub-Saharan immigrants with helminth-related eosinophilia. PLoS Negl Trop Dis. 2017. PMID 28234952.
  5. Ding A, Osorio M, Teferi M, et al. A Retrospective Longitudinal Study of Refugees With Eosinophilia at an Academic Center in the United States From 2015 to 2020. Open Forum Infect Dis. 2024. PMID 39155943.
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  7. Mullerpattan JB, Udwadia ZF, Udwadia FE. Tropical pulmonary eosinophilia--a review. Indian J Med Res. 2013. PMID 24135173.
  8. Niño-Puerto L, Vicente B, Pendones Ulerio J, et al. Toxocariasis in immigrants and travelers with unexplained eosinophilia. Parasit Vectors. 2026. PMID 41721365.
  9. Pardo J, Carranza C, Muro A, et al. Helminth-related Eosinophilia in African immigrants, Gran Canaria. Emerg Infect Dis. 2006. PMID 17176579.
  10. Webster JL, Stauffer WM, Mitchell T, et al. Cross-Sectional Assessment of the Association of Eosinophilia with Intestinal Parasitic Infection in U.S.-Bound Refugees in Thailand: Prevalent, Age Dependent, but of Limited Clinical Utility. Am J Trop Med Hyg. 2022. PMID 35483390.

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