Conflito armado e crise humanitáriaRaciocínio clínico

Ataques a serviços de saúde em conflitos armados

Escombros de um hospital destruído por bombardeio, com parte do prédio desabada ao fundo
Sumário
  1. O que conta como ataque à saúde
  2. Por que os números não se comparam
  3. O que os conflitos recentes mostram
  4. O hospital que continua funcionando
  5. Quem cuida sob ameaça
  6. O que o clínico pode fazer
  7. Erros de raciocínio comuns
  8. Perguntas frequentes
  9. Take-home messages
  10. Referências

A ambulância chega ao pronto-socorro de um hospital de fronteira com o para-brisa estilhaçado. O motorista conta que o veículo foi parado num posto de controle, revistado por quase uma hora e liberado só depois que o paciente, um menino com ferimento abdominal, já estava pálido e frio. Na mesma semana, o hospital perdeu o gerador numa explosão próxima, dois enfermeiros pararam de vir porque a estrada ficou perigosa e o estoque de soro durou menos que o previsto. Nada disso aparece como um único evento dramático. Mas, somado, decide quem sobrevive.

Ataques a serviços de saúde em conflitos armados são isso: não só o bombardeio que vira notícia, mas a ameaça, a obstrução, o sequestro do profissional, o saque da farmácia e a ocupação do prédio. Este texto explica o que conta como ataque, por que os números são tão difíceis de comparar, o que acontece com hospitais, equipes e formação médica, e o que o clínico pode fazer quando trabalha, ou um dia trabalhar, nesse cenário.

O que conta como ataque à saúde

O direito internacional humanitário protege profissionais de saúde, unidades, transportes, feridos e doentes durante a guerra (Patel e colaboradores, 2017). A ideia de fundo é simples: quem está fora do combate, ou cuidando de quem está fora do combate, não pode ser alvo. Na prática, essa proteção é violada com frequência, e a violação não se limita ao ataque armado contra o prédio.

Em 2011, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha publicou um relatório que documentou ataques à assistência à saúde em 16 países afetados por conflito (PLOS Medicine Editors, 2014). Os editores da PLOS Medicine lembraram, ao comentar o tema, a frase do próprio relatório: as estatísticas mostram apenas a ponta do iceberg, porque não capturam o efeito acumulado da violência, com profissionais deixando seus postos, hospitais ficando sem suprimentos e campanhas de vacinação interrompidas (PLOS Medicine Editors, 2014).

Para o clínico, vale pensar em quatro alvos, porque cada um produz um tipo diferente de dano. O primeiro é a pessoa, ou seja, médicos, enfermeiros, motoristas e agentes comunitários. O segundo é a unidade, do posto de saúde ao hospital de referência. O terceiro é o transporte, incluindo a ambulância parada, desviada ou atingida. O quarto é o próprio paciente, impedido de chegar, retirado do leito ou atacado dentro do serviço.

Haar e colaboradores, numa revisão sistemática sobre violência contra a saúde em conflitos, deixam claro que os ataques incluem os que atingem trabalhadores, unidades, pacientes e transportes, e que todos representam violações graves de direitos humanos e do direito internacional humanitário (Haar e colaboradores, 2021). Essa definição ampla importa, porque um sistema de registro que conta só prédios destruídos deixa de fora a maior parte do problema.

Há um ponto que costuma passar despercebido. Ameaça e intimidação também são formas de ataque, mesmo quando ninguém é ferido. Um profissional que recebe recado para não atender determinado grupo, ou que é obrigado a priorizar combatentes de um lado, sofre uma violação que muda a conduta clínica. Esse tipo de pressão tem parentesco com o que se discute em lesão moral: fazer, ou ser impedido de fazer, algo que fere os próprios valores profissionais.

Por que os números não se comparam

A primeira pergunta de quem começa a estudar o assunto é se os ataques aumentaram. A resposta honesta é que ninguém sabe com segurança, porque os sistemas de contagem mudaram muito ao longo do tempo.

Briody e colaboradores compararam ataques a unidades de saúde em seis conflitos das últimas três décadas: Iêmen, Síria, Iraque, Chechênia, Kosovo e Bósnia (Briody e colaboradores, 2018). Na Síria, uma organização de direitos humanos registrou ataques a 315 unidades em sete anos, enquanto outro sistema, lançado depois pelo grupo de saúde que coordenava a resposta a partir da Turquia, registrou ataques a 135 unidades em apenas 14 meses (Briody e colaboradores, 2018). No Iêmen foram relatados 93 ataques; no Iraque, 12; na Chechênia, mais de 24; no Kosovo, mais de 100; na Bósnia, 21 (Briody e colaboradores, 2018).

O número sírio é o maior, e os autores concluem que o fenômeno provavelmente aumentou em relação aos conflitos anteriores (Briody e colaboradores, 2018). Mas eles fazem uma ressalva decisiva: os dados eram incompletos em todos os conflitos, os métodos variavam muito e, em alguns casos, ataque nem sequer era definido (Briody e colaboradores, 2018). Duas contagens do mesmo país, feitas por sistemas diferentes, chegavam a ritmos mensais muito distintos.

Patel e colaboradores apontam as lacunas mais graves. Não há dados de base nem registro de rotina sobre ataques a trabalhadores e unidades de saúde, o que torna difícil identificar tendências reais (Patel e colaboradores, 2017). A maior parte das fontes disponíveis não capta a violência contra o trabalhador local, que parece arcar com a maioria dos ataques, e faltam dados separados por sexo (Patel e colaboradores, 2017). Os bancos que existem foram montados para registrar violência contra trabalhadores humanitários em geral e, segundo os autores, não oferecem dados específicos de saúde (Patel e colaboradores, 2017).

A revisão de Haar e colaboradores mostra o tamanho da lacuna na pesquisa. De 1479 artigos identificados até o início de 2020, apenas 45 entraram na análise (Haar e colaboradores, 2021). Desses, 26 tratavam de avaliar a evidência dos ataques, 15 analisavam seus impactos, três discutiam princípios legais e de direitos humanos e apenas um tratava dos métodos de documentação (Haar e colaboradores, 2021). Os autores pedem que o registro se torne mais consistente, completo, acessível e com taxonomia clara (Haar e colaboradores, 2021).

Para quem pensa como clínico, o problema lembra o da taxa básica no diagnóstico: o mesmo instrumento, aplicado em contextos diferentes, produz números que não podem ser comparados diretamente. Antes de concluir que um conflito é pior que outro, é preciso perguntar quem contou, como definiu o evento e quanto tempo observou.

Pergunta Por que importa O que a literatura mostra
Quem registrou? Cada sistema tem critérios e alcance próprios Na Síria, dois sistemas deram ritmos muito distintos (Briody e colaboradores, 2018)
O que foi definido como ataque? Contar só prédios subestima o problema Em alguns conflitos não havia definição (Briody e colaboradores, 2018)
O trabalhador local entra? É quem mais sofre e menos aparece As fontes costumam deixá-lo de fora (Patel e colaboradores, 2017)
Há dados separados por sexo? Ameaças e riscos diferem Esses dados faltam (Patel e colaboradores, 2017)
Como foi verificado? Evita duplicidade e boato Protocolos de fontes abertas ajudam (Barten e colaboradores, 2023)

O que os conflitos recentes mostram

A guerra na Ucrânia trouxe um dos registros mais detalhados até agora. Barten e colaboradores analisaram os ataques documentados por um centro ucraniano de saúde, que usou um protocolo de investigação digital em fontes abertas, no primeiro ano da invasão em larga escala (Barten e colaboradores, 2023). Foram 334 ataques contra 267 unidades de saúde, com 230 unidades danificadas e 37 destruídas (Barten e colaboradores, 2023). Hospitais gerais, unidades de atenção primária, serviços de emergência e hospitais infantis foram os alvos mais frequentes (Barten e colaboradores, 2023).

O padrão temporal também chama atenção. A maior parte dos ataques ocorreu nos três primeiros meses e nas regiões do leste, e armamento pesado foi usado em quase todos (Barten e colaboradores, 2023). O total de vítimas incluiu 97 mortos e 114 feridos (Barten e colaboradores, 2023). Esse tipo de dado ajuda a prever onde e quando o risco é maior, algo útil para quem planeja a retirada de pacientes ou a proteção de estoques.

Na Síria, o quadro é de desgaste prolongado. Omar descreve um conflito em que unidades de saúde foram atacadas como estratégia de guerra e estima que 782 profissionais de saúde morreram, com os médicos respondendo por cerca de um terço das mortes em cinco anos (Omar, 2020). Algumas unidades passaram a funcionar com capacidade mínima (Omar, 2020). O autor afirma que o número de ataques se manteve constante ao longo dos anos e que quase nada foi feito para responsabilizar os autores (Omar, 2020).

Ri e colaboradores testaram uma ideia diferente: usar dados públicos de ataques a hospitais como indicador da violência contra civis. No modelo ajustado, cada ataque a uma unidade de saúde na Síria correspondeu a cerca de 260 vítimas civis relatadas no mesmo mês (Ri e colaboradores, 2019). A associação mudou ao longo da guerra, com queda depois de maio de 2014 (Ri e colaboradores, 2019). Os autores propõem que ataques a hospitais funcionem como um termômetro adicional, que acrescenta detalhe aos indicadores tradicionais (Ri e colaboradores, 2019).

No Tigré, no norte da Etiópia, Gesesew e colaboradores reuniram a evidência sobre o que chamaram de medicina sob perigo (Gesesew e colaboradores, 2023). De 8039 documentos encontrados, 41 tratavam de conflito e saúde na região (Gesesew e colaboradores, 2023). Os ataques a infraestrutura, profissionais, pacientes, ambulâncias e caminhões de ajuda apareceram em 29 documentos, e a interrupção de serviços de saúde ou sociais em 31 (Gesesew e colaboradores, 2023). Os documentos descreviam ainda o uso da fome, de medicamentos e do estupro como armas de guerra (Gesesew e colaboradores, 2023). Quem atende sobreviventes desse último tipo de violência encontra o roteiro clínico em violência sexual em crise humanitária.

Gerador de energia de emergência numa sala técnica de hospital, com baterias no piso
Gerador de emergência de um hospital. Quando a rede elétrica cai, é ele que mantém geladeiras de medicamentos, monitores e salas cirúrgicas funcionando. Crédito: Mikael Häggström, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso, sem o painel com a marca.

O hospital que continua funcionando

Um hospital atacado raramente fecha de uma vez. Ele vai perdendo funções, e a ordem dessas perdas diz muito sobre o que o clínico encontrará no plantão.

Haque e colaboradores fizeram um inquérito com 74 hospitais ucranianos de 12 regiões, comparando o período anterior à guerra com o período de guerra (Haque e colaboradores, 2024). As internações de emergência diárias subiram de 2773 para 2830 (Haque e colaboradores, 2024). Ao mesmo tempo, o número de hospitais que ofereciam exames laboratoriais caiu de 72 para 63, o de rastreamento de câncer de 49 para 37, o de reabilitação de 37 para 27 e o de telessaúde de 33 para 21 (Haque e colaboradores, 2024). Os hospitais relataram ainda falhas na cadeia de suprimento de equipamentos e medicamentos, falta de kits de laboratório e problemas de armazenamento de medicamentos por falta de energia (Haque e colaboradores, 2024).

O desenho é claro. A emergência cresce, e tudo o que é eletivo, preventivo ou de acompanhamento encolhe. Isso tem consequência clínica direta: o paciente com doença crônica perde o seguimento justamente quando mais precisa, um tema discutido em os outros remédios que não podem parar. A pessoa em diálise que perde a sessão, ou o diabético sem insulina, pode chegar ao pronto-socorro com uma emergência que começou semanas antes.

Altare e colaboradores estudaram o leste da República Democrática do Congo, onde a insegurança é crônica (Altare e colaboradores, 2021). Eles identificaram três vias principais pelas quais a insegurança afeta a oferta e a qualidade do cuidado: a violência, as restrições de mobilidade e a disponibilidade de recursos (Altare e colaboradores, 2021). Entre os fatores intermediários, os dois mais importantes foram a disponibilidade de profissionais e o acesso a medicamentos e equipamentos (Altare e colaboradores, 2021).

Os prestadores responderam com várias estratégias, mostrando capacidade de absorver, adaptar e transformar o serviço diante da insegurança (Altare e colaboradores, 2021). A maior parte das respostas era do tipo absorvente e buscava compensar a falta de pessoal (Altare e colaboradores, 2021). Um trecho de entrevista ilustra a lógica do transporte: uma caixa de produtos nutricionais que cobre o tratamento de uma criança pesa 15 quilos, e quando o frete aéreo é cobrado por quilo, a atividade fica muito difícil de manter (Altare e colaboradores, 2021).

A distância também conta. Garber e colaboradores usaram análise geoespacial no Iêmen e estimaram que, em 2018, quase 8,8 milhões de pessoas viviam a mais de 30 minutos da unidade primária funcionante mais próxima, e mais de 12,1 milhões a mais de uma hora do hospital público funcionante mais próximo, mesmo supondo transporte motorizado (Garber e colaboradores, 2020). Quase 40 de cada 100 pessoas viviam a mais de duas horas de cuidado obstétrico e cirúrgico de emergência completo (Garber e colaboradores, 2020).

Esses números mudam o raciocínio clínico. Num cenário assim, o tempo até o primeiro atendimento é longo, e o paciente chega mais grave. A síndrome de esmagamento, o trauma por explosão e as infecções de feridas se apresentam numa fase mais avançada do que nos livros. A triagem precisa considerar não só a gravidade, mas também o que o serviço ainda consegue oferecer naquele dia.

Caixas de papelão com suprimentos médicos empilhadas ao ar livre, uma delas com uma cruz vermelha
Caixas de suprimentos médicos à espera de transporte. Em área insegura, cada quilo levado ao serviço depende de estrada aberta ou de frete caro. Crédito: Staff Sgt. Robert Barnett, domínio público, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso, sem as pessoas ao fundo.

Quem cuida sob ameaça

Elnakib e colaboradores entrevistaram profissionais de saúde no Iêmen no auge do conflito: foram 43 entrevistas com profissionais de unidades e 6 grupos focais com agentes comunitários e parteiras (Elnakib e colaboradores, 2021). Os participantes relataram ataques esporádicos de civis armados, tensões com pacientes e assédio em postos de controle (Elnakib e colaboradores, 2021). As condições de trabalho eram graves, com suspensão crônica de salários e falta séria de suprimentos e medicamentos (Elnakib e colaboradores, 2021).

O estudo também mostrou como esses profissionais seguiam trabalhando. As estratégias de enfrentamento giravam em torno de fatalismo e motivação religiosa, criatividade e improviso, e senso de dever e patriotismo (Elnakib e colaboradores, 2021). Os autores destacam que o cenário de segurança era complexo, com várias partes no conflito, politização da ajuda humanitária e restrições de acesso, somados a estressores do dia a dia que impediam o trabalho (Elnakib e colaboradores, 2021).

É tentador ler esse senso de dever como resiliência pura. Mas ele convive com estresse acumulado, e quem ensina ou supervisiona deve saber reconhecer o desgaste. O profissional que trabalha sem salário, com medo no trajeto e sem material para fazer o que sabe fazer está exposto ao sofrimento descrito em ambiente de trabalho e cultura da instituição. Quando algo dá errado, a culpa recai sobre ele, e o apoio entre colegas, discutido em segunda vítima, passa a ser parte do cuidado com a equipe.

A guerra também afeta quem ainda está aprendendo. Bdaiwi e colaboradores revisaram o impacto do conflito sírio na formação de profissionais de saúde e incluíram 70 estudos de 5710 citações triadas (Bdaiwi e colaboradores, 2023). Os ataques à educação e à formação, e as inovações para mantê-las, apareceram em boa parte dos trabalhos (Bdaiwi e colaboradores, 2023). Os autores concluem que o conflito politizou todos os aspectos da formação e que o sistema se dividiu em duas realidades, conforme o controle político de cada área (Bdaiwi e colaboradores, 2023). Eles defendem cooperação acadêmica internacional e plataformas de ensino que combinem aulas a distância, ensino entre pares e tutoria remota (Bdaiwi e colaboradores, 2023).

O efeito de longo prazo é previsível. Se o país perde médicos experientes e não forma novos com qualidade, a capacidade de atendimento continua baixa por anos depois do fim do conflito. A destruição de um hospital é visível; a interrupção de uma geração de residentes não aparece em nenhuma contagem de ataques.

Interior de uma tenda médica de campanha com macas dobráveis, mesa com material e caixas de equipamento
Tenda de atendimento de campanha montada e vazia. É nesse tipo de estrutura improvisada que muitas equipes aprendem e trabalham quando a guerra fecha os serviços fixos. Crédito: Bnow, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

O que o clínico pode fazer

A maior parte das respostas aos ataques depende de política, diplomacia e justiça. Mas há decisões ao alcance de quem está na linha de frente, e elas começam pelo registro.

Registrar bem é a contribuição mais concreta. Patel e colaboradores mostram que a falta de dados de rotina impede identificar tendências (Patel e colaboradores, 2017), e Briody e colaboradores defendem um sistema global padronizado, com várias vias de notificação e diferentes níveis de confirmação (Briody e colaboradores, 2018). Na prática, isso significa anotar data, hora, local, tipo de evento, quem foi atingido e o que deixou de ser feito por causa dele. Um paciente que morreu porque a ambulância ficou retida é uma informação que se perde se ninguém escrever.

Planejar o funcionamento mínimo também é parte do cuidado. Os dados ucranianos mostram que o que se perde primeiro é laboratório, prevenção e acompanhamento (Haque e colaboradores, 2024). Saber de antemão quais exames e quais medicamentos são indispensáveis, onde guardá-los quando a energia falha e como transferir pacientes ajuda a manter o essencial. A lógica de priorizar quando tudo chega junto está em triagem quando tudo chega junto, e a de não confundir gravidade com aparência está em supertriagem e subtriagem.

Pensar nas doenças que vêm depois evita surpresas. Quando a vacinação para, a água se contamina e os serviços se desorganizam, doenças antigas voltam, como mostra o texto sobre os serviços que se desorganizam. Um ataque ao posto de saúde hoje pode significar surto de sarampo daqui a alguns meses.

Cuidar da equipe é uma conduta clínica. O estudo do Iêmen mostra que salários suspensos, medo e falta de material convivem com senso de dever (Elnakib e colaboradores, 2021). Rodízio de turnos, conversa estruturada depois de eventos graves e encaminhamento de quem adoece fazem parte da proteção do serviço, como discutido em proteger quem cuida.

Por fim, conhecer a proteção legal ajuda a reconhecer a violação. O profissional que sabe que atender feridos de todos os lados é um dever protegido tem mais clareza para registrar a pressão em sentido contrário e para buscar apoio institucional quando ela aparece (Patel e colaboradores, 2017).

Erros de raciocínio comuns

O primeiro erro é achar que ataque é só bombardeio. A definição ampla inclui pessoas, unidades, transportes e pacientes (Haar e colaboradores, 2021). Quem pensa só no prédio deixa de registrar ameaças, obstruções e retenções em postos de controle, que no Iêmen apareceram como parte do cotidiano (Elnakib e colaboradores, 2021).

O segundo é comparar números de fontes diferentes como se fossem iguais. Duas contagens do mesmo país chegaram a ritmos mensais bem diferentes (Briody e colaboradores, 2018). Antes de tirar conclusão, é preciso perguntar como cada sistema definiu e verificou o evento.

O terceiro é olhar só a emergência. Na Ucrânia, as internações de emergência subiram enquanto laboratório, prevenção e reabilitação caíram (Haque e colaboradores, 2024). O dano maior pode estar no paciente crônico que não aparece, e não no ferido que chega.

O quarto é esquecer a geografia. No Iêmen, milhões de pessoas viviam a mais de meia hora da unidade primária funcionante (Garber e colaboradores, 2020). Um protocolo pensado para quem chega em minutos não serve para quem chega em horas.

O quinto é tratar o profissional como recurso inesgotável. A perda de profissionais é uma das vias principais pelas quais a insegurança reduz o cuidado (Altare e colaboradores, 2021), e a formação dos próximos também é atingida (Bdaiwi e colaboradores, 2023). Proteger quem cuida é proteger a capacidade de atender amanhã.

Perguntas frequentes

O que é considerado ataque a serviço de saúde?

Qualquer violência ou obstrução contra profissionais, unidades, transportes ou pacientes, incluindo ameaças, retenções e ocupações, e não apenas bombardeios (Haar e colaboradores, 2021).

Os ataques estão aumentando?

Na Síria, o número registrado foi bem maior que em conflitos anteriores, mas os dados de todos os conflitos são incompletos e os métodos variam muito (Briody e colaboradores, 2018).

Por que é tão difícil contar os ataques?

Porque não há registro de rotina, as definições variam e o trabalhador local e os dados por sexo costumam ficar de fora (Patel e colaboradores, 2017).

O que acontece com um hospital atacado?

Ele perde funções aos poucos. Na Ucrânia, a emergência cresceu enquanto laboratório, rastreamento e reabilitação diminuíram (Haque e colaboradores, 2024).

Como a insegurança afeta o atendimento fora do hospital?

Por meio da violência, das restrições de mobilidade e da falta de recursos, com destaque para a falta de profissionais e de medicamentos (Altare e colaboradores, 2021).

O que o clínico pode fazer na prática?

Registrar cada evento com detalhe, planejar o funcionamento mínimo, antecipar surtos e cuidar da equipe (Patel e colaboradores, 2017).

Take-home messages

Referências

  1. Altare C, Castelgrande V, Tosha M, et al. From Insecurity to Health Service Delivery: Pathways and System Response Strategies in the Eastern Democratic Republic of the Congo. Glob Health Sci Pract. 2021. PMID 34933986.
  2. Barten DG, Tin D, Granholm F, et al. Attacks on Ukrainian healthcare facilities during the first year of the full-scale Russian invasion of Ukraine. Confl Health. 2023. PMID 38066621.
  3. Bdaiwi Y, Sabouni A, Patel P, et al. Impact of armed conflict on health professionals' education and training in Syria: a systematic review. BMJ Open. 2023. PMID 37474187.
  4. Briody C, Rubenstein L, Roberts L, et al. Review of attacks on health care facilities in six conflicts of the past three decades. Confl Health. 2018. PMID 29743939.
  5. Elnakib S, Elaraby S, Othman F, et al. Providing care under extreme adversity: The impact of the Yemen conflict on the personal and professional lives of health workers. Soc Sci Med. 2021. PMID 33588206.
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  8. Haar RJ, Read R, Fast L, et al. Violence against healthcare in conflict: a systematic review of the literature and agenda for future research. Confl Health. 2021. PMID 33962623.
  9. Haque U, Bukhari MH, Fiedler N, et al. A Comparison of Ukrainian Hospital Services and Functions Before and During the Russia-Ukraine War. JAMA Health Forum. 2024. PMID 38758566.
  10. Omar A. Understanding and Preventing Attacks on Health Facilities During Armed Conflict in Syria. Risk Manag Healthc Policy. 2020. PMID 32256132.
  11. Patel P, Gibson-Fall F, Sullivan R, et al. Documenting attacks on health workers and facilities in armed conflicts. Bull World Health Organ. 2017. PMID 28053368.
  12. PLOS Medicine Editors. Health care in danger: deliberate attacks on health care during armed conflict. PLoS Med. 2014. PMID 24959856.
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