Câncer de pulmão localizado: barreiras até a cura

Sala de hospital com tomógrafo branco e azul e a mesa do paciente estendida, sem pessoas
Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. O que está em jogo quando o tratamento não acontece
  3. A primeira barreira: o sintoma que ninguém conta
  4. O tempo entre o diagnóstico e o tratamento
  5. Distância, renda e apoio social
  6. Desigualdade racial e viés do sistema
  7. Idade, comorbidade e a decisão do paciente
  8. O que funciona para não perder pacientes
  9. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  10. Perguntas frequentes
  11. Checklist final
  12. Referências

Um motorista aposentado de 71 anos faz uma tomografia de tórax por causa de uma pneumonia que demorou a melhorar. A pneumonia resolve, mas o radiologista descreve um nódulo de 2,5 centímetros no lobo superior esquerdo. O clínico pede a biópsia, que leva cinco semanas para ser marcada. O resultado mostra adenocarcinoma, e o estadiamento não encontra doença fora do pulmão. O paciente mora a duas horas do centro de referência, depende do filho para o transporte e diz que está bem, que só cansa um pouco ao subir a ladeira. Na consulta seguinte, ele pergunta se vale a pena operar nessa idade. Três meses depois do achado, ainda não existe data para tratamento nenhum. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para estudantes e profissionais de saúde. A pergunta vem da lista do Dr. Alexei para a série de oncologia: quais fatores impedem pacientes com doença localizada de chegar ao tratamento curativo? A resposta não está num remédio nem numa técnica cirúrgica. Ela está no caminho entre o primeiro exame e o primeiro dia de tratamento, onde o paciente pode se perder sem que ninguém perceba. O texto não substitui a diretriz do seu país nem o protocolo do seu serviço. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer a ideia: às vezes a pista mais importante é o tempo que passou entre duas etapas.

Principais pontos

  • O câncer de pulmão de não pequenas células em estádio inicial tem tratamento com intenção curativa, por cirurgia ou por radioterapia estereotáxica.
  • Sem tratamento, a doença inicial costuma ser fatal em poucos anos, o que torna cada paciente perdido no caminho uma perda concreta.
  • Os atrasos se acumulam em várias etapas: sintomas não relatados, exames demorados, encaminhamentos, avaliação de risco cirúrgico e decisão compartilhada.
  • Distância, renda, seguro de saúde, apoio social e raça aparecem ligados a menos tratamento curativo e a mais demora em vários estudos.
  • Intervenções simples, como alerta de pacientes sem tratamento e navegação por enfermagem, quase eliminaram uma diferença racial num estudo pragmático.
  • Idade e comorbidade não bastam para negar tratamento: a radioterapia estereotáxica oferece alternativa curativa para quem não pode operar.

Por que este é um cenário de raciocínio

Quando se fala em raciocínio clínico na oncologia, a imagem comum é a de uma decisão técnica: qual cirurgia, qual esquema, qual dose. A pergunta do Dr. Alexei desloca o foco. Ela pede que o profissional olhe para o paciente que nunca chegou à mesa de decisão, porque se perdeu antes. Esse paciente não aparece nos ensaios clínicos, não aparece nas reuniões de equipe e muitas vezes não aparece nem no prontuário do centro de referência. Ele fica no meio do caminho.

O câncer de pulmão é um bom exemplo porque o estádio inicial é a janela em que a cura é possível, e porque essa janela é estreita. A maioria dos pacientes ainda é diagnosticada com doença avançada. Os poucos que têm a sorte de descobrir um tumor pequeno, por rastreamento ou por acaso, precisam atravessar uma sequência de etapas: confirmar o diagnóstico, estadiar, avaliar a função pulmonar e o risco cirúrgico, discutir com a equipe, decidir com o paciente e marcar o tratamento. Cada etapa tem fila, custo e chance de abandono.

O raciocínio aqui tem três camadas. A primeira é reconhecer que o tempo é parte do diagnóstico, não um detalhe administrativo. A segunda é identificar quem corre mais risco de se perder, com base em fatores clínicos e sociais conhecidos. A terceira é saber o que fazer quando o paciente parece não querer ou não poder seguir, sem confundir barreira com escolha. O post sobre a equipe multidisciplinar no câncer de pulmão mostra como a organização do serviço ajuda nessas três camadas.

Por que esse erro passa despercebido

Cada profissional vê só um trecho do caminho. O radiologista descreve o nódulo e segue para o próximo exame. O pneumologista pede a biópsia e espera o resultado. O cirurgião recebe o encaminhamento quando ele chega. Ninguém é responsável pelo intervalo entre as etapas, e é exatamente nesse intervalo que o paciente desaparece. Um sistema que não mede o tempo total não percebe a perda.

O que está em jogo quando o tratamento não acontece

A justificativa para tratar com urgência o paciente com doença localizada está no prognóstico sem tratamento. Uma revisão alemã sobre radioterapia estereotáxica lembra que a sobrevida específica por câncer de pulmão em 5 anos fica abaixo de 20 em cada 100 nos pacientes com estádio I que não recebem tratamento (Guckenberger e colaboradores, 2014). O estudo ACCURE, feito em cinco centros de câncer nos Estados Unidos, descreve o câncer de pulmão inicial sem tratamento como quase sempre fatal em até 4 anos (Cykert e colaboradores, 2019).

Com tratamento, o cenário muda. A cirurgia com ressecção anatômica é o padrão para quem tem condição clínica, e a radioterapia estereotáxica, conhecida pela sigla em inglês SBRT, tornou-se o tratamento padrão para quem não pode operar. Ensaios de fase II com SBRT em pacientes inoperáveis relataram controle local de 84 a 98 em cada 100 tumores (Guckenberger e colaboradores, 2014). A diferença entre tratar e não tratar, portanto, é enorme.

Quantos não chegam lá

Num registro da Califórnia com 22.821 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células em estádio inicial, cerca de 81 em cada 100 receberam o tratamento recomendado pelas diretrizes, e só 58 em cada 100 desses o receberam em tempo adequado (Obrochta e colaboradores, 2022). Num estudo com 8.501 pacientes em estádios I a III nos Estados Unidos, o tempo mediano entre diagnóstico e qualquer tratamento foi de 41 dias, e esse tempo aumentava conforme aumentava a vulnerabilidade social do condado (Hu e colaboradores, 2025). Esses números vêm de sistemas com muitos recursos. Em lugares com menos centros de referência, o caminho tende a ser mais longo.

A primeira barreira: o sintoma que ninguém conta

O caminho começa antes do diagnóstico. Um estudo qualitativo inglês entrevistou 20 pacientes que aguardavam ressecção de câncer de pulmão inicial e encontrou um padrão consistente: a maioria tinha mudanças de saúde que poderiam indicar a doença e que nunca foram levadas ao médico de família (Brindle e colaboradores, 2012). Sintomas episódicos, ou que pareciam explicados pela idade ou pelo tabagismo, eram tratados como normais.

O achado mais útil para quem atende é sobre a forma da pergunta. Perguntas abertas sobre a saúde em geral não traziam esses sintomas à tona. Eles só apareciam com perguntas fechadas sobre mudanças específicas. Perguntas que usavam rótulos de doença, como dor ou falta de ar, funcionavam pior do que perguntas em linguagem leiga, como incômodo ou ficar sem fôlego (Brindle e colaboradores, 2012).

O que isso ensina sobre anamnese

O paciente que diz estar bem não está necessariamente sem sintomas. Ele pode ter ajustado a vida ao sintoma sem perceber, subindo a ladeira mais devagar ou parando de carregar compras. No quadro inicial, o motorista aposentado diz que só cansa um pouco. Essa frase merece uma segunda pergunta: desde quando, comparado com o quê, o que deixou de fazer. O post sobre simulação de atendimento trata de como treinar essas perguntas.

  • Pergunte sobre mudanças concretas: subir escadas, carregar peso, dormir, apetite.
  • Use palavras do dia a dia, não termos de doença.
  • Pergunte de novo sobre sintomas que o paciente atribui à idade ou ao cigarro.
  • Registre a data aproximada de início, porque ela ajuda a medir o atraso depois.
Homem sentado sopra num bocal ligado a um espirômetro enquanto um técnico acompanha o teste ao lado de um computador
Teste de espirometria. A avaliação da função pulmonar é uma das etapas entre o diagnóstico e a cirurgia, e cada exame marcado em separado acrescenta dias ao caminho. Crédito: Carla Thomas, NASA, Domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

O tempo entre o diagnóstico e o tratamento

A pergunta sobre quanto tempo se pode esperar tem resposta nos dados. Um estudo com 9.904 veteranos americanos operados por câncer de pulmão em estádio I mostrou que o tempo médio até a cirurgia foi de 70,1 dias. A partir de 12 semanas, cada semana adicional de atraso aumentou o risco de recidiva (Heiden e colaboradores, 2021). O mesmo estudo encontrou fatores ligados ao atraso, entre eles raça negra e maior privação socioeconômica da área de moradia.

Diretrizes citadas no estudo de Louisiana recomendam que a cirurgia aconteça dentro de 6 a 8 semanas depois do diagnóstico (Neroda e colaboradores, 2021). Nesse estudo, com 3.616 pacientes operados em estádios I a IIIA, o tempo mediano até a cirurgia foi de 27 dias nos pacientes brancos e de 42 dias nos negros. A cirurgia passou de 6 semanas em cerca de 29 em cada 100 pacientes brancos e em cerca de 48 em cada 100 pacientes negros (Neroda e colaboradores, 2021).

Durante a pandemia de COVID-19, surgiu uma pergunta prática: se a cirurgia vai demorar, vale trocar por SBRT imediata? Uma análise da base nacional americana comparou ressecção em cunha feita 90 a 120 dias depois do diagnóstico com SBRT feita nos primeiros 30 dias, em pacientes operáveis com estádio IA. Depois do pareamento, a sobrevida em 5 anos foi de 53 em cada 100 com a cirurgia tardia e de 31 em cada 100 com a SBRT precoce (Mayne e colaboradores, 2020). O estudo é observacional, e quem recebeu SBRT pode ter sido mais doente de outras formas. Mesmo assim, ele mostra que trocar de modalidade só por causa da fila exige cautela.

O raciocínio que fica é duplo. O tempo importa, e atrasos longos pioram o resultado. Mas a resposta ao atraso não é escolher qualquer tratamento rápido, e sim organizar o serviço para que o tratamento certo aconteça a tempo.

IndicadorAchadoFonte
Tempo médio até a cirurgia, estádio I, veteranos70,1 diasHeiden 2021
Ponto a partir do qual o atraso aumentou a recidiva12 semanasHeiden 2021
Prazo recomendado pelas diretrizes citadas6 a 8 semanasNeroda 2021
Cirurgia depois de 6 semanas, pacientes brancos e negros29 e 48 em cada 100Neroda 2021
Início do tratamento com 8 semanas ou mais, estádio I24 e 34 em cada 100Holmes 2018
Sobrevida em 5 anos, cirurgia tardia e SBRT precoce53 e 31 em cada 100Mayne 2020
Tempo mediano até qualquer tratamento, estádios I a III41 diasHu 2025

Distância, renda e apoio social

O motorista do quadro inicial mora a duas horas do centro de referência. A distância parece óbvia como barreira, mas os dados mostram que ela age junto com outros fatores. No estudo californiano, o efeito do tempo de viagem variou conforme o grupo. Entre pacientes negros, cada 15 minutos a mais de carro se associou a risco maior de tratamento abaixo do recomendado. Entre os moradores dos bairros mais pobres, cada 15 minutos a mais de viagem de carro ou de transporte público se associou a mais subtratamento e mais atraso (Obrochta e colaboradores, 2022).

A leitura correta é que distância pesa mais para quem tem menos recursos. Quem tem carro, tempo livre e dinheiro para hospedagem atravessa a distância. Quem depende de um parente, de transporte público ou de faltar ao trabalho tem cada viagem como um obstáculo novo. Um tratamento que exige cinco idas ao hospital antes do primeiro dia pode ser inviável para essa pessoa.

O peso do seguro e do apoio social

No estudo de Louisiana, ter apoio social, ter seguro privado e morar em área com menos pobreza se associaram a cirurgia em tempo adequado. Os determinantes sociais explicaram cerca de um quarto da diferença racial no atraso cirúrgico (Neroda e colaboradores, 2021). No estudo nacional de Hu, a proporção de pacientes operados foi maior nos condados com menor vulnerabilidade social, maior renda e sem falta de médicos de atenção primária, e entre pacientes com seguro privado (Hu e colaboradores, 2025).

  • Pergunte como o paciente vai chegar a cada consulta e exame.
  • Pergunte quem acompanha e se essa pessoa pode faltar ao trabalho.
  • Verifique a cobertura do plano ou o fluxo do sistema público antes de marcar.
  • Agrupe exames no mesmo dia sempre que possível.
  • Avise o serviço social cedo, não depois da primeira falta.

Esses fatores não aparecem na tomografia, mas mudam o desfecho tanto quanto o tamanho do tumor. O post sobre tomada de decisão clínica discute como incluir o contexto do paciente na escolha de exames.

Dois patologistas olham ao mesmo tempo por um microscópio de dupla cabeça numa sala de laboratório
Patologistas examinam uma biópsia ao microscópio de dupla cabeça. O tempo até o laudo é uma das etapas que somam dias ao intervalo entre o achado e o tratamento. Crédito: Linda Bartlett, Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, Domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Desigualdade racial e viés do sistema

Vários estudos americanos mostram que pacientes negros com câncer de pulmão inicial recebem menos cirurgia curativa e esperam mais pelo tratamento. Uma revisão narrativa resume esses dados e conclui que a diferença persiste mesmo depois de ajustes por fatores clínicos, e que a menor condição socioeconômica também se associa a menos cirurgia e piores resultados (Evans e colaboradores, 2021). A mesma revisão lembra que existem estratégias para reduzir essa diferença.

Na base nacional americana, com 119.184 pacientes em estádio I, pacientes negros tiveram tempo maior até o tratamento nas três modalidades: cirurgia, SBRT e radioterapia convencional. Iniciaram o tratamento 8 semanas ou mais depois do diagnóstico cerca de 34 em cada 100 pacientes negros, contra 24 em cada 100 brancos (Holmes e Chen, 2018).

O que o leitor de outro país pode tirar disso

Os dados vêm dos Estados Unidos, onde raça se mistura com seguro, renda e geografia de forma particular. Em outros países, as linhas de desigualdade podem ser outras: região, origem, idioma, escolaridade, vínculo de trabalho, distância de um centro de alta complexidade. A lição que atravessa fronteiras é que o sistema perde mais pacientes de alguns grupos do que de outros, e que isso só aparece quando alguém mede. Uma análise sobre barreiras no câncer de pulmão inicial cita estigma, viés implícito dos profissionais e niilismo terapêutico como alvos de intervenção (Zarinshenas e colaboradores, 2023).

O niilismo merece atenção especial. O câncer de pulmão carrega a ideia de doença sempre fatal e, para fumantes, a ideia de culpa. Um profissional que pensa assim, mesmo sem dizer, pode apresentar o tratamento com menos entusiasmo, e o paciente percebe. O post sobre pausa diagnóstica ajuda a reconhecer esse tipo de atalho mental.

Idade, comorbidade e a decisão do paciente

Pacientes idosos e com doença pulmonar obstrutiva crônica são os mais propensos a ficar sem tratamento. Na Holanda, só 40 em cada 100 pacientes com 75 anos ou mais e estádio I eram operados, e a proporção de idosos sem tratamento chegava a 30 em cada 100 (Guckenberger e colaboradores, 2014). Parte dessa diferença é adequada, porque alguns pacientes de fato não toleram cirurgia. Mas a não indicação de cirurgia não deveria significar ausência de tratamento, já que a SBRT é o padrão para os inoperáveis.

Quando o paciente recusa

Um estudo holandês com pacientes tratados por cirurgia ou SBRT avaliou o papel do paciente na decisão. Cerca de 40 em cada 100 relataram conflito decisional, e cerca de 36 em cada 100 sentiram que não tinham informação suficiente (Mokhles e colaboradores, 2018). Parte deles disse que alternativas não foram discutidas. Esses números mostram que a recusa ou a hesitação nem sempre são escolhas informadas. Muitas vezes são reflexo de uma conversa incompleta.

No quadro inicial, o paciente pergunta se vale a pena operar nessa idade. A pergunta é legítima, mas é também uma pista. Ela pode esconder medo, falta de informação sobre a SBRT, preocupação com o filho que vai faltar ao trabalho ou uma experiência ruim com um parente. Responder só com dados de sobrevida perde essas camadas.

  • Pergunte o que o paciente já sabe e o que mais o preocupa.
  • Apresente cirurgia, SBRT e observação com os mesmos critérios.
  • Explique o prognóstico sem tratamento com clareza e sem alarme.
  • Ofereça uma segunda conversa com a família, se o paciente quiser.
  • Registre a decisão e o motivo, para que a equipe saiba se foi escolha ou barreira.

O post sobre incerteza diagnóstica traz estratégias para conversar sobre riscos quando os números não respondem tudo.

O que funciona para não perder pacientes

A melhor evidência de que o problema tem solução vem do estudo ACCURE. Em cinco centros de câncer nos Estados Unidos, os pesquisadores combinaram três medidas: um registro em tempo real, alimentado pelo prontuário eletrônico, que alertava quando um paciente perdia uma consulta ou não chegava ao tratamento esperado; retorno às equipes clínicas sobre as taxas de tratamento completo separadas por raça; e uma enfermeira navegadora que consultava o sistema de alerta todos os dias (Cykert e colaboradores, 2019).

Antes da intervenção, a taxa de tratamento curativo era de cerca de 78 em cada 100 pacientes brancos e de 69 em cada 100 pacientes negros. Com a intervenção, as taxas subiram para cerca de 96,5 e 95 em cada 100, e a diferença praticamente desapareceu (Cykert e colaboradores, 2019). O estudo não foi randomizado e usou controles históricos e concorrentes, mas o tamanho da mudança é difícil de ignorar.

Por que essas medidas funcionam

Elas atacam exatamente o ponto cego descrito no começo: o intervalo entre as etapas. O alerta automático torna visível o paciente que sumiu. O retorno por grupo mostra à equipe uma desigualdade que ela não via. A navegadora converte o alerta em ação, ligando para o paciente, remarcando, resolvendo o transporte. Nenhuma das três exige tecnologia cara.

  • Lista ativa de pacientes com diagnóstico de câncer de pulmão inicial e sem data de tratamento.
  • Responsável nomeado por acompanhar o tempo total, não só cada etapa.
  • Reunião multidisciplinar com prazo curto depois do estadiamento.
  • Exames de risco cirúrgico agrupados e marcados juntos.
  • Indicadores de tempo e de tratamento separados por grupo social.
  • Busca ativa de quem faltou, antes de considerar abandono.

Os perfis de time no NEXO, como curadores e criadores de casos, mostram como converter esse tipo de fluxo em casos para ensino.

Sala de hospital com um tomógrafo branco e azul e a mesa do paciente estendida, sem ninguém na sala
Equipamento de imagem num hospital do interior da Flórida, comprado com apoio de um programa federal de desenvolvimento rural. Levar exames para mais perto do paciente encurta parte do caminho até o tratamento. Crédito: Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, Domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. A pergunta do Dr. Alexei é um bom exercício porque obriga a pensar além do diagnóstico. Saber que o paciente tem câncer de pulmão inicial é só metade do trabalho. A outra metade é perceber o que pode impedir que ele chegue ao tratamento. O post sobre diagnóstico diferencial mostra como treinar a leitura de pistas, e o post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos explica por que esse formato funciona.

Três exercícios com casos

Mude a distância. Diga o que muda no plano se o paciente morasse a dez minutos do hospital, mas sem ninguém para acompanhá-lo.

Mude a função pulmonar. Diga como você apresentaria as opções se a espirometria mostrasse doença obstrutiva grave.

Mude a resposta. Diga o que você faria se o paciente faltasse à consulta com o cirurgião e não atendesse ao telefone.

O post sobre raciocínio clínico interprofissional ajuda a pensar no papel da enfermagem e do serviço social nesse caminho. Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato, e a página closer mostra como levar o NEXO para sua instituição.

Perguntas frequentes

Qual é o prazo aceitável entre o diagnóstico e a cirurgia?

Diretrizes citadas na literatura recomendam 6 a 8 semanas (Neroda e colaboradores, 2021). Num grande estudo, o risco de recidiva começou a subir depois de 12 semanas (Heiden e colaboradores, 2021).

Se o paciente não pode operar, ainda existe tratamento curativo?

Sim. A radioterapia estereotáxica é o padrão para pacientes inoperáveis com estádio I, com controle local alto em ensaios de fase II (Guckenberger e colaboradores, 2014).

Vale trocar a cirurgia por radioterapia só porque a fila está longa?

Com cautela. Uma análise observacional mostrou sobrevida maior com cirurgia mesmo atrasada do que com SBRT precoce em pacientes operáveis (Mayne e colaboradores, 2020). A decisão deve ser discutida pela equipe.

Como saber se a recusa é escolha ou barreira?

Pergunte o que motiva a recusa, confira se todas as opções foram explicadas e verifique transporte, custo e apoio familiar. Muitos pacientes relatam conflito decisional e falta de informação (Mokhles e colaboradores, 2018).

No estudo ACCURE, alerta automático, retorno às equipes e enfermeira navegadora aumentaram o tratamento curativo para perto de 95 em cada 100 pacientes e quase eliminaram a diferença racial (Cykert e colaboradores, 2019).

Checklist final

  • Registrei a data do achado, do diagnóstico e do encaminhamento.
  • Perguntei sobre sintomas com palavras do dia a dia.
  • Agrupei biópsia, estadiamento e exames de risco sempre que possível.
  • Perguntei sobre transporte, acompanhante, trabalho e cobertura.
  • Levei o caso à reunião multidisciplinar sem esperar todos os exames.
  • Apresentei cirurgia e SBRT como opções curativas, com o prognóstico sem tratamento.
  • Diferenciei recusa informada de barreira não resolvida.
  • Coloquei o paciente numa lista ativa até a data do tratamento.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Brindle L, Pope C, Corner J, et al. Eliciting symptoms interpreted as normal by patients with early-stage lung cancer: could GP elicitation of normalised symptoms reduce delay in diagnosis? Cross-sectional interview study. BMJ Open. 2012. PMID 23166137.
  2. Cykert S, Eng E, Walker P, et al. A system-based intervention to reduce Black-White disparities in the treatment of early stage lung cancer: A pragmatic trial at five cancer centers. Cancer Med. 2019. PMID 30714689.
  3. Evans N, Grenda T, Alvarez NH, Okusanya OT. Narrative review of socioeconomic and racial disparities in the treatment of early stage lung cancer. J Thorac Dis. 2021. PMID 34277067.
  4. Guckenberger M, Andratschke N, Alheit H, et al. Definition of stereotactic body radiotherapy: principles and practice for the treatment of stage I non-small cell lung cancer. Strahlenther Onkol. 2014. PMID 24052011.
  5. Heiden BT, Eaton DB, Engelhardt KE, et al. Analysis of Delayed Surgical Treatment and Oncologic Outcomes in Clinical Stage I Non-Small Cell Lung Cancer. JAMA Netw Open. 2021. PMID 34042991.
  6. Holmes JA, Chen RC. Racial Disparities in Time From Diagnosis to Treatment for Stage I Non-Small Cell Lung Cancer. JNCI Cancer Spectr. 2018. PMID 31360839.
  7. Hu X, Kao YH, Arunachalam A, et al. Trends in initial primary treatment approach and biomarker testing across social determinants of health in early-stage non-small cell lung cancer. Future Oncol. 2025. PMID 41257359.
  8. Mayne NR, Lin BK, Darling AJ, et al. Stereotactic Body Radiotherapy Versus Delayed Surgery for Early-stage Non-small-cell Lung Cancer. Ann Surg. 2020. PMID 33074904.
  9. Mokhles S, Nuyttens JJME, de Mol M, et al. Treatment selection of early stage non-small cell lung cancer: the role of the patient in clinical decision making. BMC Cancer. 2018. PMID 29334910.
  10. Neroda P, Hsieh MC, Wu XC, et al. Racial Disparity and Social Determinants in Receiving Timely Surgery Among Stage I-IIIA Non-small Cell Lung Cancer Patients in a U.S. Southern State. Front Public Health. 2021. PMID 34150706.
  11. Obrochta CA, Parada H, Murphy JD, et al. The impact of patient travel time on disparities in treatment for early stage lung cancer in California. PLoS One. 2022. PMID 36197902.
  12. Zarinshenas R, Amini A, Mambetsariev I, et al. Assessment of Barriers and Challenges to Screening, Diagnosis, and Biomarker Testing in Early-Stage Lung Cancer. Cancers (Basel). 2023. PMID 36900386.

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