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Infectologia

Pneumococo no adulto: conjugadas e quem vacinar

Micrografia eletrônica de varredura de um diplococo de Streptococcus pneumoniae

Thiago Longo MoraesAlexei Peter dos SantosThiago Longo Moraes e Alexei Peter dos Santos

Publicado em

Sumário
  1. Por que o pneumococo ainda preocupa no adulto
  2. Polissacarídica e conjugada: duas imunologias
  3. CAPiTA: o ensaio que testou a conjugada no idoso
  4. O efeito indireto da vacinação infantil
  5. Das conjugadas de 13 às de 21 valências
  6. Quem vacinar: ACIP e JCVI
  7. Na prática: idade, risco e história vacinal
  8. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  9. Perguntas frequentes
  10. Take-home messages
  11. Referências

Por quase três décadas, a vacina pneumocócica do adulto foi uma só: a polissacarídica de 23 sorotipos. Ela protegia contra a doença invasiva por alguns anos, mas nunca mostrou de forma consistente que evitava a forma mais comum da doença no adulto, a pneumonia sem bacteremia. As vacinas conjugadas, criadas para a criança, mudaram esse quadro quando um ensaio com mais de 84 mil idosos testou uma delas contra placebo (Isturiz, 2015).

Hoje há conjugadas de 15, 20 e 21 sorotipos, e os comitês de vacinação já não concordam sobre a idade de começar. Nos Estados Unidos, o comitê consultivo recomenda uma conjugada para todo adulto a partir dos 50 anos (Kobayashi, 2025). No Reino Unido, a indicação continua aos 65 anos e nos grupos de risco (UKHSA, 2026).

Este texto percorre o caminho da polissacarídica às conjugadas de maior valência e mostra como cada comitê escolhe quem vacinar a partir da idade, do risco e da história vacinal.

Principais pontos

  • No CAPiTA, a conjugada de 13 sorotipos evitou 45 de cada 100 primeiras pneumonias por sorotipo vacinal e 75 de cada 100 doenças invasivas em idosos (Isturiz, 2015).
  • A vacinação infantil reduziu os sorotipos das conjugadas antigas também no adulto, e outros sorotipos ocuparam o espaço (Garcia Quesada, 2025).
  • As conjugadas de 20 e 21 sorotipos foram aprovadas por resposta imune, sem novo ensaio de eficácia clínica (Essink, 2022; Kobayashi, 2024).
  • O comitê americano recomenda uma conjugada para todos a partir dos 50 anos (Kobayashi, 2025).
  • O britânico vacina aos 65 anos e nos grupos de risco, agora com a conjugada de 20 sorotipos (UKHSA, 2026).

Sumário

Por que o pneumococo ainda preocupa no adulto

O Streptococcus pneumoniae é um coco Gram-positivo encapsulado. A cápsula de polissacarídeo é seu principal fator de virulência, e mais de 100 tipos capsulares já foram descritos. Muitos sorotipos vivem na nasofaringe sem causar sintomas; outros raramente são encontrados ali, mas aparecem na doença invasiva. A transmissão exige contato próximo e frequente, e a doença tem pico no inverno (UKHSA, 2026).

No adulto, o pneumococo causa sinusite, otite, pneumonia e as formas invasivas: pneumonia bacterêmica, sepse e meningite. A doença invasiva, definida pela bactéria em um sítio normalmente estéril, é só uma fração do problema. A maior parte da carga está na pneumonia sem bacteremia, que é mais difícil de diagnosticar e de medir (McLaughlin, 2018).

Idade e doença de base

O risco cresce depois dos 50 anos, com a idade e com algumas doenças de base. Nos Estados Unidos, em 2022, adultos de 50 a 64 anos tiveram incidência de doença invasiva de 13,2 por 100 mil e mortalidade de 1,8 por 100 mil, abaixo apenas dos 65 anos ou mais, com 17,2 e 2,7 por 100 mil. Entre os adultos de 50 a 64 anos com doença invasiva ou internados por pneumonia pneumocócica, cerca de 90 de cada 100 tinham pelo menos uma condição de risco (Kobayashi, 2025).

As condições de risco se repetem entre os comitês: asplenia anatômica ou funcional, doença pulmonar, cardíaca, renal ou hepática crônica, diabetes, imunossupressão, implante coclear e fístula liquórica. A lista britânica inclui ainda pessoas em situação de rua, pela alta carga de doenças associadas, e trabalhadores expostos a fumos metálicos, como soldadores (UKHSA, 2026). A lista americana inclui tabagismo e alcoolismo (Kobayashi, 2022).

Um retrato brasileiro

Em um hospital terciário de Porto Alegre, 118 isolados invasivos colhidos entre 2005 e 2016 mostraram, em ordem, os sorotipos 19A, 3, 12F, 8, 14 e 11A. A mediana de idade foi de 57 anos, quase 3 de cada 10 pacientes tinham algum grau de imunossupressão e 33,1 de cada 100 morreram (Dullius, 2018).

Os autores calcularam a cobertura teórica: 31,4 de cada 100 isolados tinham sorotipos da polissacarídica isolada e 50,8 de cada 100, da combinação de conjugada de 13 sorotipos com a polissacarídica. É um único centro, com dados anteriores às conjugadas de maior valência, mas o retrato reforça um ponto do texto: boa parte da doença no adulto acontece antes dos 65 anos (Dullius, 2018).

Radiografia de tórax com consolidação no lobo inferior direito
Pneumonia lobar no lobo inferior direito, imagem típica de pneumonia bacteriana; no adulto, a maior parte da doença pneumocócica é pneumonia sem bacteremia. Crédito: John Campbell, Domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Polissacarídica e conjugada: duas imunologias

A vacina polissacarídica de 23 sorotipos contém o polissacarídeo capsular purificado de cada tipo. A maioria dos adultos saudáveis produz anticorpos em cerca de três semanas, mas a resposta é independente de linfócitos T: não gera memória imunológica robusta e é fraca antes dos 2 anos de idade (UKHSA, 2026).

Na conjugada, cada polissacarídeo é ligado a uma proteína carreadora, a mesma estratégia das vacinas contra Haemophilus influenzae tipo b e meningococo. A ligação recruta linfócitos T e melhora a resposta, sobretudo na criança a partir de 2 meses (UKHSA, 2026). Na conjugada de 13 sorotipos, a proteína é uma forma atóxica da toxina diftérica (Theilacker, 2022).

O que a polissacarídica entrega

A polissacarídica foi licenciada em 1983 (Kobayashi, 2023). Estudos posteriores confirmaram proteção contra doença invasiva, enquanto a evidência sobre pneumonia sem bacteremia no idoso ficou inconclusiva (Theilacker, 2022). Na Inglaterra, a efetividade nos dois primeiros anos após a vacina foi de 41 de cada 100 contra doença invasiva por sorotipo vacinal em pessoas com 65 anos ou mais, maior nas saudáveis do que nas com doença de base (UKHSA, 2026).

No Japão, entre 2013 e 2017, a efetividade da polissacarídica contra doença invasiva pelos sorotipos dela foi de 42,2 de cada 100 em adultos. No mesmo período, a vacinação infantil fez a fração de sorotipos da conjugada de 13 entre os adultos cair de 45 para 31 de cada 100, enquanto a dos sorotipos presentes só na polissacarídica subiu de 25 para 36 de cada 100 (Shimbashi, 2020).

Pneumococos com a cápsula tornada visível pelo teste de Neufeld-Quellung em campo de microscopia
Teste de Neufeld-Quellung: o antissoro específico faz a cápsula do pneumococo aparecer como um halo. É essa cápsula, com mais de 100 variantes, que define o sorotipo e serve de antígeno para as vacinas. Crédito: CDC, Domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

CAPiTA: o ensaio que testou a conjugada no idoso

A conjugada de 13 sorotipos foi aprovada para adultos de 50 anos ou mais em 2011, nos Estados Unidos, por via acelerada, com base em resposta imune comparada à da polissacarídica. A aprovação veio com uma exigência: demonstrar benefício clínico em um ensaio de eficácia (Theilacker, 2022).

O desenho

O CAPiTA foi conduzido nos Países Baixos entre 2008 e 2014. Randomizou 84.496 adultos imunocompetentes com 65 anos ou mais, que receberam uma aplicação da conjugada (42.240) ou placebo (42.256), em desenho duplo-cego (Isturiz, 2015). Quase metade dos participantes tinha uma condição predisponente, sobretudo doença cardíaca, diabetes, tabagismo e doença pulmonar (Theilacker, 2022).

A dificuldade era medir a pneumonia sem bacteremia por sorotipo. Para isso, o ensaio usou um teste de antígeno urinário específico para os 13 sorotipos, desenvolvido para o estudo, além da cultura de sítios estéreis (Isturiz, 2015).

Os resultados

Na população por protocolo, a eficácia foi de 45,56 de cada 100 contra o primeiro episódio de pneumonia por sorotipo vacinal, de 45,00 contra a forma sem bacteremia e de 75,00 contra doença invasiva por sorotipo vacinal. Contra pneumonia pneumocócica por qualquer sorotipo, desfecho exploratório, foi de 30,56. A proteção começou logo após a vacina e se manteve durante o seguimento médio de cerca de quatro anos, sem sinal de queda (Isturiz, 2015).

Análises posteriores mostraram eficácia semelhante entre participantes com e sem doença crônica e proteção mantida até os 84 anos (Theilacker, 2022). Um estudo em Louisville, nos Estados Unidos, com desenho teste-negativo, encontrou efetividade de 72,8 de cada 100 contra internação por pneumonia por sorotipo vacinal em adultos de 65 anos ou mais, muitos com imunossupressão, mas com intervalo de confiança largo, de 12,8 a 91,5 (McLaughlin, 2018).

As ressalvas

O próprio grupo do ensaio lista limites. O CAPiTA foi feito em um país de baixa incidência de pneumonia pneumocócica, com vacinação infantil já em curso. Pneumonia por qualquer causa e mortalidade eram desfechos exploratórios, sem poder estatístico, e os imunocomprometidos ficaram fora (Isturiz, 2015). As duas fontes abertas sobre o ensaio usadas aqui têm autores ligados ao fabricante, o que pede leitura atenta (Isturiz, 2015; Theilacker, 2022).

Uma eficácia relativa de 45 de cada 100 diz pouco sem a frequência basal do desfecho. Converter efeito relativo em benefício absoluto depende da incidência na população, o mesmo raciocínio do texto sobre taxa básica no diagnóstico. Para pesar o ganho contra o esforço de vacinar, vale também o texto sobre benefícios e danos na tomada de decisão.

O efeito indireto da vacinação infantil

As conjugadas reduzem a colonização da nasofaringe pelos sorotipos vacinais. Quando a criança vacinada deixa de carregar esses sorotipos, ela deixa de transmiti-los aos adultos. No Reino Unido, a conjugada de 7 sorotipos entrou no calendário infantil em 2006, com cobertura acima de 90 de cada 100 crianças, e a doença invasiva por esses sorotipos caiu em todas as idades (UKHSA, 2026).

Esse efeito mudou a conta da vacinação do adulto. Em 2014, os resultados do CAPiTA levaram o comitê americano a recomendar a conjugada de 13 sorotipos, em série com a polissacarídica, para todos os adultos de 65 anos ou mais (Isturiz, 2015). Em 2019, o mesmo comitê recuou: a doença evitável pela conjugada de 13 mudou pouco depois da recomendação, porque já estava em níveis baixos graças à vacinação infantil, e o uso passou a ser por decisão compartilhada nos idosos sem imunossupressão (Kobayashi, 2023).

A substituição de sorotipos

O espaço deixado pelos sorotipos vacinais foi ocupado por outros. Na Inglaterra, a doença invasiva voltou a crescer a partir de 2013 e 2014, sobretudo nos idosos, por sorotipos fora da conjugada de 13, em especial 8, 12F e 9N (UKHSA, 2026).

O projeto PSERENADE reuniu dados de 41 países, principalmente de 2015 a 2018. Nos locais com uso maduro da conjugada de 13, os sorotipos dela causavam 29,5 de cada 100 doenças invasivas em adultos de 50 anos ou mais. O sorotipo 3, que está na conjugada de 13, seguia entre os primeiros, com cerca de 14 de cada 100 doenças invasivas nessa faixa (Garcia Quesada, 2025).

A mesma análise estimou quanto da doença restante cada nova conjugada alcançaria: de 4,1 a 9,7 de cada 100 com a de 15 sorotipos, de 13,5 a 36,0 com a de 20 e de 29,9 a 53,8 com a de 21. Os dez sorotipos fora da conjugada de 13 mais frequentes estão em pelo menos uma das vacinas de maior valência (Garcia Quesada, 2025).

Das conjugadas de 13 às de 21 valências

As novas conjugadas foram aprovadas por ponte imunológica. Em vez de esperar pneumonias em um ensaio de eficácia, os estudos comparam a atividade opsonofagocítica dos anticorpos com a de vacinas cuja proteção já foi demonstrada (Theilacker, 2022).

Conjugada de 20 sorotipos

A conjugada de 20 sorotipos acrescenta à de 13 os sorotipos 8, 10A, 11A, 12F, 15B, 22F e 33F (Theilacker, 2022). No ensaio de fase 3, em adultos dos Estados Unidos e da Suécia, a resposta foi não inferior à da conjugada de 13 para os 13 sorotipos comuns e à da polissacarídica para 6 dos 7 sorotipos adicionais. O sorotipo 8 ficou abaixo do critério estatístico de não inferioridade, e a tolerabilidade foi semelhante à da conjugada de 13 (Essink, 2022).

Para os sete sorotipos novos, a indicação contra pneumonia foi concedida nos Estados Unidos por via acelerada, com o compromisso de um estudo observacional de efetividade após a aprovação (Theilacker, 2022).

Conjugada de 21 sorotipos

A conjugada de 21 sorotipos foi desenhada para o adulto. Ela traz oito sorotipos ausentes das outras vacinas licenciadas e deixa de fora vários sorotipos das conjugadas pediátricas, entre eles o 4 (Kobayashi, 2024; UKHSA, 2026). Entre 2018 e 2022, os sorotipos dela causaram cerca de 80 de cada 100 doenças invasivas em adultos americanos com indicação de vacina, dos quais 20 a 30 de cada 100 pelos oito novos (Kobayashi, 2024).

A ausência do sorotipo 4 tem peso regional. Depois da conjugada infantil, ele caiu, mas voltou a aparecer no oeste dos Estados Unidos, em adultos com menos de 65 anos com fatores de risco (Kobayashi, 2024). Na comparação com a de 20, a de 21 foi não inferior nos 10 sorotipos comuns e teve resposta maior em 10 dos 11 sorotipos próprios (Kobayashi, 2025).

No STRIDE-6, 717 adultos de 50 anos ou mais que já tinham recebido vacina pneumocócica foram vacinados com a de 21. A resposta apareceu para os 21 sorotipos, qualquer que fosse a vacina anterior, com perfil de segurança semelhante ao das vacinas licenciadas (Scott, 2024).

Segurança após o licenciamento

A vigilância americana registrou um sinal de síndrome de Guillain-Barré após a conjugada de 20, com taxa de notificação baixa, de 0,7 por milhão de aplicações distribuídas. Na base do Medicare, o sinal perdeu significância quando se usou outra definição de Guillain-Barré ou se ajustou a validade dos códigos diagnósticos (Kobayashi, 2025).

Quem vacinar: ACIP e JCVI

Os dois comitês olham a mesma evidência e chegam a escolhas diferentes. O texto sobre como OMS e países decidem o calendário vacinal explica por que isso acontece: epidemiologia local, efeito indireto, recursos e viabilidade entram no quadro da evidência à decisão.

Estados Unidos

Em 2022, o ACIP simplificou o esquema: uma conjugada de 20 sorotipos isolada ou uma de 15 seguida da polissacarídica, com intervalo de pelo menos um ano, para todos de 65 anos ou mais e para adultos de 19 a 64 anos com condição de risco. Para imunocomprometidos, implante coclear ou fístula liquórica, o intervalo pode cair para 8 semanas. Na época, a proposta de baixar a idade para 50 anos foi rejeitada por 4 votos a 11 (Kobayashi, 2022). Em 2024, a conjugada de 21 entrou como opção (Kobayashi, 2024).

Em outubro de 2024, o comitê mudou de posição e recomendou uma aplicação de conjugada para todo adulto de 50 anos ou mais sem conjugada prévia. Pesaram a incidência e a mortalidade na faixa de 50 a 64 anos, as disparidades raciais e a cobertura baixa da indicação por risco: só 37 de cada 100 adultos de 50 a 64 anos com indicação por doença de base estavam vacinados, contra 70 de cada 100 dos idosos com indicação por idade. Os sorotipos da conjugada de 21 respondiam por 83 de cada 100 doenças invasivas nessa faixa, e os da de 20, por 56 (Kobayashi, 2025).

O comitê registrou as incertezas: duração da proteção, tamanho do efeito indireto da vacinação infantil e necessidade futura de reforço. As análises econômicas foram mais favoráveis à de 21 do que à de 20 na faixa de 50 a 64 anos (Kobayashi, 2025).

Reino Unido

O JCVI mantém a indicação por idade aos 65 anos e por risco a partir dos 2 anos. Em 2023, aceitou a polissacarídica ou a conjugada de 20 para esses grupos, e no início de 2026 o programa passou a usar a conjugada de 20, com aplicação única. A polissacarídica deixou de ser distribuída pelo programa nacional (UKHSA, 2026).

Há detalhes próprios. Pessoas com asplenia, disfunção esplênica ou doença renal crônica recebem nova conjugada de 20 a cada 5 anos. Asma só entra na lista quando exige corticoide sistêmico contínuo ou repetido. A conjugada de 21 está licenciada, mas não faz parte do programa nacional (UKHSA, 2026).

As vacinas lado a lado

Vacina Sorotipos Base de aprovação no adulto Lugar nas recomendações atuais
Polissacarídica de 23 23, sem conjugação Licenciada em 1983; proteção contra doença invasiva, pneumonia sem bacteremia inconclusiva (Theilacker, 2022) Após a conjugada de 15 no ACIP; deixando o programa britânico (UKHSA, 2026)
Conjugada de 13 13 Eficácia clínica no CAPiTA (Isturiz, 2015) Substituída pelas de maior valência no adulto (Kobayashi, 2022)
Conjugada de 15 15, com 22F e 33F Ponte imunológica com a de 13 (Kobayashi, 2025) ACIP, seguida da polissacarídica (Kobayashi, 2025)
Conjugada de 20 20 Ponte com a de 13 e a polissacarídica; sorotipo 8 abaixo do critério (Essink, 2022) ACIP, aplicação única; JCVI, 65 anos e grupos de risco (UKHSA, 2026)
Conjugada de 21 21, com oito sorotipos novos e sem o 4 Ponte com a de 20 (Kobayashi, 2024) ACIP, aplicação única; fora do programa britânico (UKHSA, 2026)

Na prática: idade, risco e história vacinal

A escolha começa por três perguntas: quantos anos a pessoa tem, se tem condição de risco e o que já recebeu. Para quem nunca recebeu conjugada, o ACIP indica uma aplicação de 21, de 20 ou de 15; com a de 15, segue-se a polissacarídica pelo menos um ano depois (Kobayashi, 2025).

Quem já foi vacinado

A história vacinal define o passo seguinte. Quem recebeu só a polissacarídica pode receber uma conjugada pelo menos um ano depois. Quem recebeu só a conjugada de 13 recebe uma de 21 ou de 20 após pelo menos um ano. Quem tem conjugada de 13 e polissacarídica antes dos 65 anos recebe uma de 21 ou de 20 após 5 anos da última vacina; quem completou as duas depois dos 65 decide com o médico, em decisão compartilhada (Kobayashi, 2025).

Imunossupressão e cirurgia programada

No Reino Unido, a vacina deve ser feita idealmente 4 a 6 semanas antes de uma esplenectomia eletiva ou do início de quimioterapia ou radioterapia, e pelo menos duas semanas antes quando o prazo é curto. A cirurgia ou o tratamento nunca devem ser adiados por causa da vacina; se não houve tempo, vacina-se pelo menos duas semanas depois da cirurgia ou três meses após o fim da quimioterapia (UKHSA, 2026).

Pessoas com HIV, qualquer que seja a contagem de CD4, seguem as mesmas indicações. A gestação não impede a vacina quando a proteção é necessária sem demora. A única contraindicação é a anafilaxia confirmada a aplicação anterior ou a componente da vacina (UKHSA, 2026).

A complexidade como barreira

Esquemas com muitas opções confundem quem vacina. Em uma pesquisa com 751 médicos de família, internistas e farmacêuticos americanos, 38 de cada 100 discordaram que as recomendações eram fáceis de seguir. Diante de um idoso sem conjugada prévia, só 35 de cada 100 apontaram a conjugada de 15 seguida da polissacarídica, e 43 de cada 100, a de 20 isolada (Kahn, 2023).

Traduzir esse esquema em uma mensagem simples para o paciente é parte da conversa sobre vacinas, tema do texto sobre hesitação vacinal e a conversa na consulta. No mesmo público, a vacina contra o vírus sincicial respiratório traz decisões parecidas sobre idade e risco, tratadas no texto sobre VSR no idoso e na gestante. Na doença pulmonar obstrutiva crônica, uma das condições de risco mais frequentes, vale rever o texto sobre o que mudou no GOLD 2026.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Reconhecer uma pneumonia lobar, um paciente asplênico ou uma fístula liquórica nas pistas exercita a mesma leitura de risco que orienta a indicação da vacina.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Para treinar a busca do código, veja como o código da CID-10 é montado.

Perguntas frequentes

A partir de que idade o adulto deve receber a vacina pneumocócica?

Depende do comitê. O ACIP recomenda uma conjugada para todos a partir dos 50 anos (Kobayashi, 2025); o JCVI, aos 65 anos (UKHSA, 2026). Antes disso, os dois indicam a vacina para quem tem condição de risco. O calendário de cada país define a regra local.

Qual a diferença entre a polissacarídica e a conjugada?

A polissacarídica gera anticorpos sem ativar linfócitos T e não cria memória imunológica robusta. A conjugada liga o polissacarídeo a uma proteína e melhora a resposta (UKHSA, 2026). Só a conjugada de 13 tem eficácia contra pneumonia sem bacteremia demonstrada em ensaio randomizado no idoso (Theilacker, 2022).

A conjugada de 21 é melhor do que a de 20?

Ela cobre uma fração maior da doença invasiva atual do adulto, mas não inclui o sorotipo 4 e outros das conjugadas pediátricas (Kobayashi, 2024; Garcia Quesada, 2025). As duas foram aprovadas por resposta imune, e a escolha depende dos sorotipos que circulam no local.

Quem já recebeu a polissacarídica precisa de uma conjugada?

Pelo ACIP, sim, pelo menos um ano depois (Kobayashi, 2025). A recomendação se apoia nas vantagens imunológicas da conjugada e na duração limitada da proteção da polissacarídica (Kobayashi, 2023).

É preciso repetir a vacina?

Para a maioria, a recomendação atual é de uma aplicação (Kobayashi, 2025). No Reino Unido, pessoas com asplenia, disfunção esplênica ou doença renal crônica recebem nova conjugada de 20 a cada 5 anos (UKHSA, 2026).

A vacinação das crianças já protege os adultos?

Em parte. A vacinação infantil reduziu os sorotipos das conjugadas antigas em todas as idades, mas outros sorotipos ocuparam o espaço e hoje causam boa parte da doença invasiva no adulto (UKHSA, 2026; Garcia Quesada, 2025).

A vacina pode ser feita na gestação ou com HIV?

Pode. O Green Book permite a vacina na gestação quando a proteção é necessária sem demora, e pessoas com HIV seguem as indicações gerais, qualquer que seja a contagem de CD4 (UKHSA, 2026).

Take-home messages

  • A pneumonia sem bacteremia é a maior parte da doença pneumocócica no adulto.
  • A polissacarídica protege contra doença invasiva por pouco tempo e com evidência fraca para pneumonia.
  • O CAPiTA mostrou eficácia da conjugada de 13 contra pneumonia e doença invasiva por sorotipo vacinal no idoso.
  • A vacinação infantil trouxe proteção indireta e substituição de sorotipos no adulto.
  • As conjugadas de 20 e 21 foram aprovadas por ponte imunológica e cobrem mais da doença restante.
  • O ACIP vacina todos a partir dos 50 anos; o JCVI, aos 65 anos e nos grupos de risco.
  • A história vacinal define qual vacina e com que intervalo.

Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

  1. Isturiz R, Webber C. Prevention of adult pneumococcal pneumonia with the 13-valent pneumococcal conjugate vaccine: CAPiTA, the community-acquired pneumonia immunization trial in adults. Hum Vaccin Immunother. 2015;11(7):1825-1827. PMID 26076136. DOI 10.1080/21645515.2015.1043502.
  2. Theilacker C, Fletcher MA, Jodar L, Gessner BD. PCV13 Vaccination of Adults against Pneumococcal Disease: What We Have Learned from the Community-Acquired Pneumonia Immunization Trial in Adults (CAPiTA). Microorganisms. 2022;10(1):127. PMID 35056576. DOI 10.3390/microorganisms10010127.
  3. McLaughlin JM, Jiang Q, Isturiz RE, Sings HL, et al. Effectiveness of 13-Valent Pneumococcal Conjugate Vaccine Against Hospitalization for Community-Acquired Pneumonia in Older US Adults: A Test-Negative Design. Clin Infect Dis. 2018;67(10):1498-1506. PMID 29790925. DOI 10.1093/cid/ciy312.
  4. Shimbashi R, Suzuki M, Chang B, Watanabe H, et al. Effectiveness of 23-Valent Pneumococcal Polysaccharide Vaccine against Invasive Pneumococcal Disease in Adults, Japan, 2013–2017. Emerg Infect Dis. 2020;26(10):2378-2386. PMID 32946721. DOI 10.3201/eid2610.191531.
  5. Dullius CR, Zani L, Chatkin JM. Theoretical pneumococcal vaccine coverage: analysis of serotypes isolated from inpatients at a tertiary care hospital. J Bras Pneumol. 2018;44(5):361-366. PMID 29947715. DOI 10.1590/S1806-37562017000000056.
  6. Garcia Quesada M, Peterson ME, Bennett JC, Hayford K, et al. Serotype distribution of remaining invasive pneumococcal disease after extensive use of ten-valent and 13-valent pneumococcal conjugate vaccines (the PSERENADE project): a global surveillance analysis. Lancet Infect Dis. 2025;25(4):445-456. PMID 39706205. DOI 10.1016/S1473-3099(24)00588-7.
  7. Essink B, Sabharwal C, Cannon K, Frenck R, et al. Pivotal Phase 3 Randomized Clinical Trial of the Safety, Tolerability, and Immunogenicity of 20-Valent Pneumococcal Conjugate Vaccine in Adults Aged ≥18 Years. Clin Infect Dis. 2022;75(3):390-398. PMID 34940806. DOI 10.1093/cid/ciab990.
  8. Scott P, Haranaka M, Choi JH, Stacey H, et al. A Phase 3 Clinical Study to Evaluate the Safety, Tolerability, and Immunogenicity of V116 in Pneumococcal Vaccine–Experienced Adults 50 Years of Age or Older (STRIDE-6). Clin Infect Dis. 2024;79(6):1366-1374. PMID 39082735. DOI 10.1093/cid/ciae383.
  9. Kobayashi M, Farrar JL, Gierke R, Britton A, et al. Use of 15-Valent Pneumococcal Conjugate Vaccine and 20-Valent Pneumococcal Conjugate Vaccine Among U.S. Adults: Updated Recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices – United States, 2022. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2022;71(4):109-117. PMID 35085226. DOI 10.15585/mmwr.mm7104a1. Título original com travessão longo, trocado por meia-risca.
  10. Kobayashi M, Pilishvili T, Farrar JL, Leidner AJ, et al. Pneumococcal Vaccine for Adults Aged ≥19 Years: Recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices, United States, 2023. MMWR Recomm Rep. 2023;72(3):1-39. PMID 37669242. DOI 10.15585/mmwr.rr7203a1.
  11. Kobayashi M, Leidner AJ, Gierke R, Farrar JL, et al. Use of 21-Valent Pneumococcal Conjugate Vaccine Among U.S. Adults: Recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices – United States, 2024. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2024;73(36):793-798. PMID 39264843. DOI 10.15585/mmwr.mm7336a3. Título original com travessão longo, trocado por meia-risca.
  12. Kobayashi M, Leidner AJ, Gierke R, Xing W, et al. Expanded Recommendations for Use of Pneumococcal Conjugate Vaccines Among Adults Aged ≥50 Years: Recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices – United States, 2024. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2025;74(1):1-8. PMID 39773952. DOI 10.15585/mmwr.mm7401a1. Título original com travessão longo, trocado por meia-risca.
  13. Kahn R, Zielinski L, Gedlinske A, Askelson NM, et al. Health Care Provider Knowledge and Attitudes Regarding Adult Pneumococcal Conjugate Vaccine Recommendations – United States, September 28–October 10, 2022. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2023;72(36):979-984. PMID 37676840. DOI 10.15585/mmwr.mm7236a2. Título original com travessão longo, trocado por meia-risca.
  14. UK Health Security Agency. Pneumococcal: the green book, chapter 25. Immunisation against infectious disease. Atualizado em 29 de julho de 2026. gov.uk.

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Pneumococo no adulto: conjugadas e quem vacinar