Comunicação e éticaRaciocínio clínico

Planejamento antecipado de cuidados: a conversa

Leito de enfermaria de clínica médica com roupa de cama dobrada
Sumário
  1. O que é planejamento antecipado de cuidados
  2. Por que a conversa importa
  3. O que os ensaios clínicos mostram
  4. Onde a evidência é mais frágil
  5. Planejamento na demência
  6. Como conduzir a conversa
  7. Armadilhas comuns
  8. Perguntas frequentes
  9. Take-home messages
  10. Referências

Uma mulher de 74 anos com insuficiência cardíaca avançada vem à consulta de rotina com a filha. Já foi internada três vezes no último ano. O médico ajusta os remédios, pede exames e, no fim, pergunta se ela já pensou no que gostaria que fosse feito se piorasse muito. Ela olha para a filha, a filha olha para o chão, e a consulta acaba ali. Na internação seguinte, intubada na UTI, ninguém sabe o que ela teria escolhido.

O planejamento antecipado de cuidados existe para que essa conversa aconteça antes da crise, com calma, e para que alguém saiba o que dizer quando o paciente não puder falar. Este texto revisa o que é o planejamento antecipado, o que os ensaios clínicos mostram sobre seus efeitos, onde a evidência é frágil e como conduzir a conversa na prática.

Principais pontos

  • O planejamento antecipado de cuidados é um processo contínuo de conversa sobre valores, objetivos e preferências, e não apenas um formulário.
  • Ensaios clínicos mostram de forma consistente aumento do registro de preferências e da indicação de um representante.
  • O efeito sobre a concordância entre o cuidado recebido e o desejado é menos claro.
  • Familiares de pacientes que fizeram o planejamento tendem a ter menos estresse, ansiedade e depressão.
  • A conversa começa pelos valores e objetivos de vida, e só depois chega aos tratamentos específicos.

O que é planejamento antecipado de cuidados

Em 2017, um painel de 52 clínicos, pesquisadores e gestores de 4 países, com apoio de um comitê de pacientes e representantes, chegou a uma definição de consenso após 10 rodadas do método Delphi (Sudore e colaboradores, 2017). Pela definição, o planejamento antecipado de cuidados é um processo que apoia adultos, em qualquer idade ou estado de saúde, a compreender e compartilhar seus valores pessoais, objetivos de vida e preferências sobre cuidados médicos futuros (Sudore e colaboradores, 2017). O objetivo é ajudar a garantir que as pessoas recebam cuidados coerentes com seus valores, objetivos e preferências durante doenças graves e crônicas (Sudore e colaboradores, 2017).

Três escolhas do painel ajudam a entender a proposta. A primeira foi tratar o planejamento como um processo contínuo, e não como um evento único, porque a situação do paciente muda e as preferências podem ficar mais específicas com o tempo (Sudore e colaboradores, 2017). A segunda foi falar em "pessoa ou pessoas de confiança", termo que abrange representantes legais, familiares e amigos, respeitando quem escolhe alguém sem laço de parentesco (Sudore e colaboradores, 2017). A terceira foi reconhecer que, em muitas culturas, incluir a família é essencial, e que discutir os desejos com o representante e com a família pode evitar conflitos (Sudore e colaboradores, 2017).

O planejamento se apoia em alguns instrumentos. Agarwal e Epstein descrevem a procuração para cuidados de saúde, que designa um representante, e o testamento vital, que costuma tratar de preferências sobre reanimação cardiopulmonar, ventilação mecânica e, às vezes, hidratação e nutrição artificiais (Agarwal e Epstein, 2018). Há também formulários que transformam as preferências em ordens médicas acionáveis, como o POLST, que acompanham o paciente entre serviços (Agarwal e Epstein, 2018). Os nomes e as regras variam entre jurisdições, mas a lógica é a mesma: registrar as escolhas e quem fala pelo paciente.

Base de um ventilador mecânico de UTI com as conexões do circuito respiratório
Conexões do circuito de um ventilador mecânico de UTI. A ventilação mecânica é um dos tratamentos mais discutidos no planejamento antecipado. Crédito: Blogotron, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

Por que a conversa importa

Muitos pacientes precisam tomar decisões justamente quando já não têm capacidade para isso. Agarwal e Epstein citam um estudo de Silveira e colaboradores, baseado em dados do Health and Retirement Study, que mostrou exatamente isso (Agarwal e Epstein, 2018). No mesmo estudo, quem tinha diretivas antecipadas ou um procurador designado recebeu cuidados coerentes com suas preferências (Agarwal e Epstein, 2018). Entre os pacientes com diretivas, 92,7 a cada 100 queriam cuidados limitados, contra 1,9 a cada 100 que queriam todo o cuidado possível (Agarwal e Epstein, 2018).

Em pacientes com câncer, o planejamento antecipado se associa a menos quimioterapia nas últimas semanas de vida, menos internações e mais uso de hospice (Agarwal e Epstein, 2018). A conversa, segundo os autores, deve terminar no registro dos desejos, crenças e valores do paciente (Agarwal e Epstein, 2018).

A conversa também protege quem fica. No estudo de Kunzler e colaboradores, 120 entrevistas com representantes de pacientes com doença avançada revelaram cinco temas (Kunzler e colaboradores, 2023). As diretivas escritas aumentavam a confiança de que as decisões estavam alinhadas com os desejos do paciente, servindo como lembrete das conversas anteriores e trazendo clareza em momentos de conflito familiar (Kunzler e colaboradores, 2023). Discussões repetidas ajudavam nas decisões do momento, e as conversas faziam os representantes se sentirem mais preparados (Kunzler e colaboradores, 2023). Ao mesmo tempo, alguns sentiam que "não havia escolha" sobre os cuidados, e arrependimento e dúvida foram as emoções negativas mais comuns (Kunzler e colaboradores, 2023).

O que os ensaios clínicos mostram

O ensaio de Detering e colaboradores, na Austrália, é um dos mais citados. Foram incluídos 309 pacientes internados com 80 anos ou mais, legalmente capazes, acompanhados por seis meses ou até a morte (Detering e colaboradores, 2010). Dos 154 sorteados para o planejamento, 125, ou 81 a cada 100, receberam a intervenção (Detering e colaboradores, 2010). Entre os 56 pacientes que morreram em seis meses, os desejos de fim de vida foram conhecidos e seguidos em 25 de 29 no grupo intervenção, ou 86 a cada 100, contra 8 de 27 no grupo controle, ou 30 a cada 100 (Detering e colaboradores, 2010). Os familiares dos pacientes do grupo intervenção que morreram tiveram menos estresse, com 5 familiares afetados contra 15, menos ansiedade, com 0 contra 3, e menos depressão, com 0 contra 5 (Detering e colaboradores, 2010).

Na atenção primária, Gabbard e colaboradores randomizaram 759 idosos vulneráveis, com idade média de 77,7 anos, para uma via conduzida por enfermeira navegadora com apoio no prontuário eletrônico ou para o cuidado habitual (Gabbard e colaboradores, 2021). O registro de uma nova conversa de planejamento foi de 42,2 a cada 100 contra 3,7 a cada 100 (Gabbard e colaboradores, 2021). A indicação de um representante foi de 64 contra 35 a cada 100, e o preenchimento de documentos legais, de 24,3 contra 10,0 a cada 100 (Gabbard e colaboradores, 2021). O formulário de ordens médicas sobre o escopo do tratamento foi preenchido em 10,3 contra 1,1 a cada 100, e os códigos de cobrança de planejamento foram usados em 25,3 contra 1,3 a cada 100 (Gabbard e colaboradores, 2021). As visitas ao pronto-socorro e as internações foram semelhantes entre os grupos, com razão de risco de 1,17 (Gabbard e colaboradores, 2021). O estudo mostra que uma equipe organizada consegue levar a conversa para a rotina, mas não responde se ela muda o cuidado no fim da vida.

Em oncologia ambulatorial, Volandes e colaboradores estudaram 13800 pacientes com 65 anos ou mais e câncer avançado em 29 clínicas, comparando uma fase com intervenção e uma fase de cuidado habitual (Volandes e colaboradores, 2025). A intervenção combinava vídeos de apoio à decisão em 25 línguas com treinamento dos oncologistas em conversas sobre objetivos de cuidado (Volandes e colaboradores, 2025). O registro de planejamento foi de 25,3 a cada 100 na fase de intervenção, contra 20,8 a cada 100 no cuidado habitual, com diferença ajustada de 6,8 pontos (Volandes e colaboradores, 2025). As conversas sobre objetivos de cuidado registradas foram de 21,4 contra 16,8 a cada 100 (Volandes e colaboradores, 2025). Os registros de encaminhamento para cuidados paliativos ficaram praticamente iguais, 9,6 contra 9,5 a cada 100, e os de limitação de tratamentos de suporte de vida foram de 7,2 contra 8,4 a cada 100 (Volandes e colaboradores, 2025). O ganho, portanto, veio sobretudo das conversas sobre objetivos de cuidado.

A tabela resume os principais ensaios citados.

Estudo Participantes Intervenção Principal resultado
Detering, Austrália 309 internados com 80 anos ou mais (Detering e colaboradores, 2010) Planejamento facilitado Desejos conhecidos e seguidos em 86 contra 30 a cada 100 (Detering e colaboradores, 2010)
Gabbard, atenção primária 759 idosos (Gabbard e colaboradores, 2021) Enfermeira navegadora e prontuário Registro em 42,2 contra 3,7 a cada 100 (Gabbard e colaboradores, 2021)
Volandes, oncologia 13800 pacientes em 29 clínicas (Volandes e colaboradores, 2025) Vídeos e treinamento de clínicos Registro em 25,3 contra 20,8 a cada 100 (Volandes e colaboradores, 2025)
Wolff, atenção primária 1181 conversas com facilitadores (Wolff e colaboradores, 2025) Facilitadores e contato ativo Registro em 12,0 contra 6,6 a cada 100 (Wolff e colaboradores, 2025)
Bernacki, oncologia 91 clínicos e 278 pacientes (Bernacki e colaboradores, 2019) Guia de conversa e treinamento Desfechos coprimários sem diferença; menos ansiedade (Bernacki e colaboradores, 2019)

Onde a evidência é mais frágil

Os ensaios mostram de forma consistente que o planejamento aumenta o registro. O que acontece depois é menos claro. O ensaio SHARING Choices, de Wolff e colaboradores, randomizou consultórios de atenção primária: 19 no grupo intervenção e 32 no controle, com 22949 e 41966 pacientes, respectivamente (Wolff e colaboradores, 2025). Facilitadores fizeram 17931 tentativas de contato, 13963 por telefone e 3968 pelo portal do paciente, e 1181 pacientes participaram de conversas (Wolff e colaboradores, 2025). Ou seja, mesmo com um esforço grande de contato ativo, só uma pequena parte dos pacientes chegou de fato à conversa. Novas preferências de fim de vida foram registradas em 12,0 a cada 100 no grupo intervenção, contra 6,6 a cada 100 no controle, com razão de chances ajustada de 2,15 (Wolff e colaboradores, 2025). O efeito foi menor em pacientes negros, com 75 anos ou mais e com demência (Wolff e colaboradores, 2025).

O dado inesperado veio entre os que morreram. Entre 1498 pacientes falecidos residentes em Maryland, o cuidado potencialmente oneroso no fim de vida foi mais frequente no grupo intervenção, 28,8 contra 20,9 a cada 100, com razão de chances ajustada de 1,40 (Wolff e colaboradores, 2025). Os autores concluem que a intervenção aumentou o registro, mas também se associou a mais cuidado oneroso (Wolff e colaboradores, 2025). O resultado não significa que conversar faz mal, mas mostra que registrar preferências não basta para mudar o cuidado no fim da vida.

O Serious Illness Care Program, testado por Bernacki e colaboradores em oncologia ambulatorial, ilustra outro limite. Participaram 91 clínicos e 278 pacientes (Bernacki e colaboradores, 2019). O treinamento foi avaliado como eficaz por 97,9 a cada 100 dos clínicos, e 34 de 39 que receberam lembrete fizeram ao menos uma conversa, com duração mediana de 19 minutos, variando de 5 a 70 (Bernacki e colaboradores, 2019). Os desfechos coprimários, avaliados em 64 pacientes, não diferiram entre os grupos (Bernacki e colaboradores, 2019). Ainda assim, a proporção de pacientes com ansiedade moderada a grave foi menor no grupo intervenção, 5,0 contra 10,2 a cada 100 em 14 semanas, e 4,2 contra 10,4 a cada 100 em 24 semanas (Bernacki e colaboradores, 2019). A depressão também caiu em 14 semanas, 10,6 contra 20,8 a cada 100, mas a diferença não se manteve em 24 semanas, 12,5 contra 17,8 a cada 100 (Bernacki e colaboradores, 2019).

Leito de UTI com grade metálica, suporte de soro e carrinho de apoio, sem paciente
Leito de UTI vazio com suporte de soro. Muitas decisões que o planejamento tenta antecipar acontecem nesse cenário. Crédito: Navid hameedi, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

As revisões sistemáticas reforçam esse quadro. Na insuficiência cardíaca, a revisão Cochrane de Nishikawa e colaboradores incluiu 9 ensaios, com 1242 participantes e 426 representantes (Nishikawa e colaboradores, 2020). O registro das conversas pela equipe pode ter aumentado, com risco relativo de 1,68, o que corresponde a passar de 489 para 822 por 1000 participantes (Nishikawa e colaboradores, 2020). Três estudos mostraram melhora da depressão, com diferença média padronizada de menos 0,58 (Nishikawa e colaboradores, 2020). O efeito sobre a concordância entre preferências e cuidado no fim de vida foi incerto, com risco relativo de 1,19 baseado em um único estudo pequeno (Nishikawa e colaboradores, 2020). A revisão observou ainda maior mortalidade por todas as causas no grupo do planejamento, com risco relativo de 1,32 em 795 participantes de 5 estudos, e a qualidade da evidência foi de baixa a muito baixa (Nishikawa e colaboradores, 2020).

Na hemodiálise, a revisão Cochrane de Lim e colaboradores encontrou apenas 2 estudos, com 337 participantes, e nenhum deles relatou desfechos relevantes para a revisão (Lim e colaboradores, 2016). A ausência de evidência não é evidência de ausência de efeito, mas mostra quanto ainda falta estudar em grupos com doença crônica avançada.

A revisão de escopo de McMahan e colaboradores ajuda a organizar o panorama. Em 69 ensaios, a proporção de desfechos primários positivos foi de 75 a cada 100 para materiais escritos, 69 para programas multimídia, 67 para conversas facilitadas, 59 para vídeos e 57 para treinamento de clínicos (McMahan e colaboradores, 2021). Ao todo, 72 a cada 100 dos desfechos de processo e 86 a cada 100 dos desfechos de ação foram positivos (McMahan e colaboradores, 2021). Na qualidade do cuidado, 88 a cada 100 dos desfechos de congruência entre paciente, representante e clínico e 100 a cada 100 dos de satisfação com a comunicação foram positivos, mas não os de concordância com os objetivos (McMahan e colaboradores, 2021). Nos desfechos de saúde, todos os de redução do sofrimento de representantes e clínicos foram positivos, mas não os de qualidade de vida do paciente (McMahan e colaboradores, 2021).

Planejamento na demência

A demência traz um desafio próprio, porque a capacidade de participar diminui com o tempo. Um estudo Delphi com 107 especialistas de 33 países, conduzido pela Associação Europeia de Cuidados Paliativos, definiu o planejamento antecipado na demência como um processo de comunicação adaptado à capacidade da pessoa, que inclui a família, quando houver, e continua com ela (van der Steen e colaboradores, 2024). Os especialistas destacaram três questões inter-relacionadas que merecem atenção: capacidade, família, e engajamento e comunicação (van der Steen e colaboradores, 2024).

Na prática, isso significa começar cedo, quando a pessoa ainda pode expressar valores e escolher quem vai representá-la, e continuar a conversa com a família à medida que a doença avança. Estimar a trajetória da doença, tarefa do raciocínio prognóstico, ajuda a escolher esse momento.

Como conduzir a conversa

O planejamento, segundo o painel de Sudore e colaboradores, parte dos objetivos de vida e dos valores e só depois os traduz em preferências de tratamento (Sudore e colaboradores, 2017). Na prática, um roteiro possível tem cinco passos: Ouvir a história da pessoa, como propõe a medicina narrativa, é um bom ponto de partida.

  1. Preparar: escolher um momento sem pressa, convidar a pessoa de confiança e perguntar se o paciente quer conversar sobre o tema.
  2. Entender: perguntar o que o paciente sabe sobre a própria doença e o que espera para o futuro. Os princípios de como comunicar o prognóstico ajudam a corrigir expectativas.
  3. Explorar valores: perguntar o que é mais importante para ele, o que o preocupa, o que seria inaceitável e de onde tira forças. As pistas que o paciente oferece ajudam a aprofundar essa parte.
  4. Traduzir: discutir como esses valores se aplicam a situações concretas, como internação na UTI, ventilação mecânica ou reanimação.
  5. Registrar e revisar: anotar as preferências e o representante no prontuário e combinar quando voltar ao tema. Vale escrever de forma que outro profissional entenda, como em como escrever a avaliação.

O treinamento faz diferença. No ensaio de Bernacki e colaboradores, os clínicos receberam um treinamento de 2,5 horas no guia de conversas sobre doença grave, e quase todos o consideraram eficaz (Bernacki e colaboradores, 2019). No ensaio de Volandes e colaboradores, o treinamento dos oncologistas foi combinado com vídeos para os pacientes, o que permite padronizar parte da informação e liberar tempo para a conversa sobre valores (Volandes e colaboradores, 2025).

Conversas sobre o fim da vida compartilham muitos princípios com a comunicação de más notícias, e o protocolo SPIKES oferece uma estrutura útil para os momentos mais difíceis. A conversa também envolve incerteza prognóstica, e as estratégias para lidar com a incerteza diagnóstica ajudam a explicar o que se sabe e o que não se sabe sem prometer o que não se pode cumprir.

Tubo endotraqueal com balonete e linha de insuflação, sobre fundo claro
Tubo endotraqueal com balonete, dispositivo usado na intubação. Discutir intubação e ventilação antes da crise é parte central do planejamento. Crédito: ICUnurses, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

Armadilhas comuns

A primeira armadilha é reduzir o planejamento a um formulário. O painel de consenso insistiu que se trata de um processo contínuo, que muda com a saúde do paciente (Sudore e colaboradores, 2017). Um documento assinado há anos, sem revisão, pode não refletir o que o paciente quer hoje.

A segunda é esquecer o representante. No estudo de Gabbard e colaboradores, a indicação de um representante quase dobrou com a intervenção (Gabbard e colaboradores, 2021). E, nas entrevistas de Kunzler e colaboradores, as conversas prévias ajudaram os representantes a se sentirem mais preparados e confiantes (Kunzler e colaboradores, 2023).

A terceira é medir sucesso apenas pelo registro. Os resultados de Wolff e da revisão Cochrane na insuficiência cardíaca mostram que mais registro não garante cuidado concordante no fim da vida (Wolff e colaboradores, 2025) (Nishikawa e colaboradores, 2020). A conversa precisa chegar às pessoas que vão tomar decisões no momento da crise, e o registro precisa estar acessível a elas.

A quarta é adiar a conversa até que a capacidade se perca. Na demência e em outras doenças progressivas, a janela para ouvir o próprio paciente pode se fechar (van der Steen e colaboradores, 2024) (Agarwal e Epstein, 2018). Pensar no planejamento como parte da tomada de decisão clínica ajuda a trazê-lo para a consulta de rotina, e não só para a véspera da UTI.

Perguntas frequentes

Planejamento antecipado é o mesmo que testamento vital?

Não. O testamento vital é um dos instrumentos possíveis, ao lado da procuração para cuidados de saúde e de ordens médicas como o POLST (Agarwal e Epstein, 2018). O planejamento é o processo de conversa que dá sentido a esses documentos (Sudore e colaboradores, 2017).

Quando começar a conversa?

A definição de consenso fala em adultos em qualquer idade ou estado de saúde (Sudore e colaboradores, 2017). Na demência, a recomendação é adaptar o processo à capacidade, o que favorece começar cedo (van der Steen e colaboradores, 2024).

O planejamento muda o cuidado no fim da vida?

Em alguns estudos, sim: no ensaio de Detering, os desejos foram conhecidos e seguidos com muito mais frequência (Detering e colaboradores, 2010). Mas outros estudos não mostraram melhora na concordância e até encontraram mais cuidado oneroso (Wolff e colaboradores, 2025) (Nishikawa e colaboradores, 2020).

A família se beneficia?

Há sinais de que sim. Familiares de pacientes que fizeram o planejamento tiveram menos estresse, ansiedade e depressão (Detering e colaboradores, 2010), e representantes relatam se sentir mais preparados (Kunzler e colaboradores, 2023).

Quem pode conduzir a conversa?

Médicos, enfermeiras e facilitadores treinados conduziram as conversas nos ensaios citados (Gabbard e colaboradores, 2021) (Wolff e colaboradores, 2025) (Bernacki e colaboradores, 2019). Dividir a tarefa pede coordenação, como se discute no raciocínio clínico interprofissional.

Vídeos ajudam?

Vídeos de apoio à decisão, combinados com treinamento dos clínicos, aumentaram o registro em oncologia (Volandes e colaboradores, 2025), e intervenções com vídeo tiveram desfechos positivos em boa parte dos ensaios (McMahan e colaboradores, 2021).

E se o paciente não quiser falar sobre isso?

A conversa deve ser oferecida, não imposta. Perguntar se o paciente quer conversar, e com quem, é o primeiro passo, e o tema pode ser retomado depois, já que o planejamento é um processo contínuo (Sudore e colaboradores, 2017). O desconforto da própria equipe com o tema também pesa, e reconhecer o viés afetivo ajuda a não adiar a conversa por conta dele.

Take-home messages

  • Planejamento antecipado é um processo de conversa sobre valores, objetivos e preferências, não só um documento.
  • A intervenção aumenta o registro e a indicação de representante de forma consistente.
  • O efeito sobre a concordância do cuidado no fim da vida é incerto, e registrar não basta.
  • Familiares e representantes parecem se beneficiar da conversa prévia.
  • Comece pelos valores, inclua a pessoa de confiança e revise as preferências ao longo do tempo.

Referências

  1. Agarwal R, Epstein AS. Advance Care Planning and End-of-Life Decision Making for Patients with Cancer. Semin Oncol Nurs. 2018. PMID 30100366.
  2. Bernacki R, Paladino J, Neville BA, et al. Effect of the Serious Illness Care Program in Outpatient Oncology: A Cluster Randomized Clinical Trial. JAMA Intern Med. 2019. PMID 30870563.
  3. Detering KM, Hancock AD, Reade MC, et al. The impact of advance care planning on end of life care in elderly patients: randomised controlled trial. BMJ. 2010. PMID 20332506.
  4. Gabbard J, Pajewski NM, Callahan KE, et al. Effectiveness of a Nurse-Led Multidisciplinary Intervention vs Usual Care on Advance Care Planning for Vulnerable Older Adults in an Accountable Care Organization: A Randomized Clinical Trial. JAMA Intern Med. 2021. PMID 33427851.
  5. Kunzler BR, Smith TJ, Levi BH, et al. The Value of Advance Care Planning for Spokespersons of Patients With Advanced Illness. J Pain Symptom Manage. 2023. PMID 36690164.
  6. Lim CE, Ng RW, Cheng NC, et al. Advance care planning for haemodialysis patients. Cochrane Database Syst Rev. 2016. PMID 27457661.
  7. McMahan RD, Tellez I, Sudore RL. Deconstructing the Complexities of Advance Care Planning Outcomes: What Do We Know and Where Do We Go? A Scoping Review. J Am Geriatr Soc. 2021. PMID 32894787.
  8. Nishikawa Y, Hiroyama N, Fukahori H, et al. Advance care planning for adults with heart failure. Cochrane Database Syst Rev. 2020. PMID 32104908.
  9. Sudore RL, Lum HD, You JJ, et al. Defining Advance Care Planning for Adults: A Consensus Definition From a Multidisciplinary Delphi Panel. J Pain Symptom Manage. 2017. PMID 28062339.
  10. van der Steen JT, Nakanishi M, Van den Block L, et al. Consensus definition of advance care planning in dementia: A 33-country Delphi study. Alzheimers Dement. 2024. PMID 37985444.
  11. Volandes AE, Chang Y, Lakin JR, et al. An Intervention to Increase Advance Care Planning Among Older Adults With Advanced Cancer: A Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2025. PMID 40343696.
  12. Wolff JL, Scerpella D, Giovannetti ER, et al. Advance Care Planning, End-of-Life Preferences, and Burdensome Care: A Pragmatic Cluster Randomized Clinical Trial. JAMA Intern Med. 2025. PMID 39621341.

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