Fumaça na cabine: monóxido de carbono e cianeto

Detector de fumaça bege preso ao teto, visto de baixo em close
Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. Duas toxinas, dois mecanismos
  3. Como o quadro se apresenta
  4. A armadilha do oxímetro de pulso
  5. Exames: o que pedir e como ler
  6. Diagnóstico diferencial
  7. Conduta: oxigênio para todos, antídoto para alguns
  8. Sequelas e seguimento
  9. Raciocínio passo a passo no caso
  10. Erros comuns
  11. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  12. Perguntas frequentes
  13. Checklist final
  14. Referências

Um avião regional está parado no pátio quando começa um incêndio elétrico atrás de um painel. A fumaça escura toma a cabine por alguns minutos antes da evacuação. No pronto atendimento do aeroporto chegam o piloto e vários passageiros. O piloto tem dor de cabeça forte, náusea e se confunde com datas. Uma passageira de 60 anos está sonolenta, com pressão baixa e fuligem no nariz. O oxímetro de pulso mostra 98 nos dois. A gasometria da passageira traz lactato de 11 mmol/L. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico. A armadilha está no número mais confortável da sala: uma saturação perto de 100 parece afastar falta de oxigênio, e a equipe pode liberar o piloto e tratar a passageira apenas como choque. Na fumaça de um incêndio, o monóxido de carbono e o cianeto agem juntos e escondem a hipóxia dos tecidos. O texto não é resumo de normas de aviação. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: a pista que tranquiliza nem sempre mede o que você pensa.

Principais pontos

  • Fumaça de incêndio em espaço fechado expõe a monóxido de carbono e a cianeto ao mesmo tempo.
  • O oxímetro de pulso comum não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina.
  • A dosagem de carboxi-hemoglobina exige co-oximetria e, feita tarde, subestima a exposição.
  • Lactato acima de 8 mmol/L num paciente de incêndio sugere intoxicação por cianeto.
  • Oxigênio a 100 por máscara sem reinalação é o primeiro tratamento para todos.
  • A hidroxocobalamina é o antídoto usado quando há suspeita de cianeto.

Por que este é um cenário de raciocínio

O caso junta várias vítimas, um ambiente fechado e um instrumento que parece objetivo. Uma revisão sobre lesão inalatória descreve que, além do calor, a fumaça leva toxinas que agem no corpo inteiro, e que o manejo do monóxido de carbono e do cianeto continua controverso (Dries e Endorf, 2013). Não há um sinal único que feche o diagnóstico.

Na cabine de um avião, a fumaça se acumula em pouco espaço, e os materiais de revestimento e de fiação queimam juntos. O post sobre emergência em voo comercial trata do atendimento a bordo. Aqui a pergunta é outra: o que a equipe de terra precisa pensar quando recebe as vítimas.

O que a cena ensina

O piloto e a passageira estiveram no mesmo ambiente, mas mostram quadros diferentes. Ele tem cefaleia e confusão; ela tem sonolência, hipotensão e lactato muito alto. A diferença sugere que não existe uma única intoxicação com intensidades diferentes, e sim duas toxinas com pesos diferentes em cada pessoa. O post sobre sinais, sintomas e história mostra como comparar pacientes expostos ao mesmo evento ajuda a separar mecanismos.

Duas toxinas, dois mecanismos

O monóxido de carbono e o cianeto chegam juntos, mas atacam pontos diferentes do transporte e do uso do oxigênio. Uma revisão de lesão inalatória resume a diferença: o monóxido de carbono desloca o oxigênio da hemoglobina e também se liga à citocromo oxidase na mitocôndria, enquanto o cianeto se liga apenas à citocromo oxidase (Walker e colaboradores, 2015).

Monóxido de carbono: o sangue que não entrega

A afinidade do monóxido de carbono pela hemoglobina é cerca de 200 vezes maior que a do oxigênio. A ligação desloca a curva de dissociação da oxi-hemoglobina para a esquerda e muda o seu formato, e a entrega de oxigênio aos tecidos cai (Dries e Endorf, 2013). Uma revisão didática sobre a curva lembra que o desvio para a esquerda significa hemoglobina que segura o oxigênio com mais força e solta menos nos tecidos (Collins e colaboradores, 2015).

O resultado é um sangue que parece cheio de oxigênio e entrega pouco. O cérebro e o coração, que gastam muito oxigênio, sentem primeiro. O post sobre do ciclo básico à clínica mostra como a curva de dissociação estudada nos primeiros anos explica um paciente confuso com saturação normal.

Cianeto: a célula que não usa

O cianeto não mexe na hemoglobina. Ele bloqueia a cadeia respiratória dentro da mitocôndria, e a célula passa a depender do metabolismo sem oxigênio. Por isso o lactato sobe. A revisão de Lawson-Smith e colaboradores descreve que, nos casos leves, os sintomas são cefaleia, náusea, vertigem, ansiedade, alteração do estado mental e taquipneia; nos graves, dispneia, bradicardia, hipotensão e arritmia (Lawson-Smith, Jansen e Hyldegaard, 2011).

A passageira do caso tem sonolência, hipotensão e fuligem no nariz. Esse conjunto pesa a favor de cianeto, somado ao monóxido de carbono que ela certamente também inalou.

Seringas com amostras de sangue venoso, mais escuro, e arterial, mais vermelho, lado a lado sobre um campo claro
Seringas com sangue venoso e arterial. Na intoxicação por monóxido de carbono e por cianeto, a cor do sangue e a saturação medida no dedo podem parecer normais enquanto os tecidos sofrem falta de oxigênio. Crédito: Wesalius, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Como o quadro se apresenta

A intoxicação por monóxido de carbono tem um espectro amplo. Uma revisão clínica descreve uma apresentação que vai de cefaleia e tontura até coma e morte (Rose e colaboradores, 2017). Cefaleia, náusea e confusão, como no piloto, são sintomas comuns e pouco específicos. Num dia comum, eles fariam pensar em enxaqueca, desidratação ou estresse.

O contexto muda tudo. Depois de um incêndio, cefaleia e confusão são intoxicação até prova em contrário. O cianeto tem sintomas leves que se sobrepõem aos do monóxido de carbono, e por isso a clínica sozinha não separa os dois (Lawson-Smith, Jansen e Hyldegaard, 2011).

Sinais de lesão inalatória

Fuligem no nariz e na boca indica que a pessoa respirou fumaça em quantidade. Walker e colaboradores descrevem que o diagnóstico de lesão inalatória se apoiou por muito tempo em achados de exame pouco específicos e na broncoscopia, e que a gravidade vista na broncoscopia se relaciona com a inflamação das vias aéreas (Walker e colaboradores, 2015). A passageira precisa de avaliação da via aérea, além do tratamento das toxinas.

O coração também sofre

O monóxido de carbono lesa o miocárdio. Num registro coreano com 850 adultos intoxicados, cerca de 12 em cada 100 tiveram cardiomiopatia no ecocardiograma. Uma troponina I inicial acima de 0,01 ng/mL teve sensibilidade de 95 em cada 100 e valor preditivo negativo de 97 em cada 100 para essa lesão, e a disfunção miocárdica se associou a pior evolução (Kim e colaboradores, 2020). Eletrocardiograma e troponina entram na avaliação das vítimas com sintomas.

A armadilha do oxímetro de pulso

O número 98 no oxímetro é a pista mais perigosa do caso. Uma revisão sobre oximetria de pulso explica que os aparelhos convencionais distinguem apenas duas substâncias, a hemoglobina reduzida e a oxi-hemoglobina, e assumem que hemoglobinas anormais, como a carboxi-hemoglobina, estão ausentes (Jubran, 2015). A mesma revisão lista a carboxi-hemoglobina entre as limitações do método.

Na prática, o aparelho lê a hemoglobina ligada ao monóxido de carbono como se estivesse ligada ao oxigênio. A saturação aparece normal enquanto parte da hemoglobina não carrega oxigênio nenhum. No cianeto, a situação é ainda mais enganosa: o sangue pode estar de fato bem oxigenado, porque o problema está na célula que não usa o oxigênio.

Um viés com nome

Confiar no número que tranquiliza é uma forma de fechar o caso cedo demais. O post sobre exemplos de heurísticas no raciocínio clínico mostra como um atalho útil vira erro quando o contexto muda. O post sobre hipóxia hipobárica no voo mostra o caso oposto, em que o oxímetro de pulso funciona bem porque a hemoglobina é normal.

Exames: o que pedir e como ler

A primeira decisão é pedir os exames certos, e não confiar no oxímetro. A tabela resume o papel de cada um no caso.

Exame O que mostra Cuidado na leitura Fonte
Oximetria de pulso comum Saturação aparente Lê carboxi-hemoglobina como se fosse oxi-hemoglobina Jubran, 2015
Co-oximetria Carboxi-hemoglobina medida Feita tarde, subestima a exposição real Dries e Endorf, 2013
Lactato na gasometria Metabolismo sem oxigênio Acima de 8 mmol/L num paciente de incêndio sugere cianeto Lawson-Smith, Jansen e Hyldegaard, 2011
Cianeto no sangue Confirmação da intoxicação Resultado demora horas e não deve atrasar o antídoto Lawson-Smith, Jansen e Hyldegaard, 2011
Troponina e eletrocardiograma Lesão miocárdica Troponina inicial normal torna a cardiomiopatia pouco provável Kim e colaboradores, 2020
Broncoscopia Lesão das vias aéreas Gravidade relacionada à inflamação Walker e colaboradores, 2015

Carboxi-hemoglobina: o tempo conta

A carboxi-hemoglobina cai depressa quando a pessoa sai da fumaça e recebe oxigênio. Dries e Endorf descrevem uma meia-vida de cerca de 250 minutos em ar ambiente, que cai para 40 a 60 minutos com oxigênio a 100. Por causa do intervalo entre a exposição e a coleta, os níveis medidos na chegada ao serviço não refletem a intoxicação real (Dries e Endorf, 2013).

Isso significa que um nível baixo, colhido depois de uma hora de máscara de oxigênio na ambulância, não afasta uma intoxicação importante. O nível precisa ser lido junto com o tempo de exposição, o tempo de oxigênio e os sintomas.

Lactato: a pista do cianeto

A dosagem de cianeto no sangue não ajuda na hora da decisão. Lawson-Smith e colaboradores explicam que o resultado leva horas para ficar pronto e que o cianeto tem meia-vida de cerca de 1 hora no sangue (Lawson-Smith, Jansen e Hyldegaard, 2011). A mesma revisão propõe suspeitar de cianeto em vítima de incêndio com sinais neurológicos, fuligem na boca ou no escarro, ou acidose metabólica com lactato acima de 8 mmol/L. Um lactato de 10 mmol/L é descrito como indicador sensível e específico.

A passageira tem lactato de 11 mmol/L, sonolência e fuligem. Ela preenche esses critérios. O post sobre probabilidade pré-teste mostra por que o mesmo lactato pesa mais numa vítima de incêndio do que num paciente com sepse.

Detector de fumaça residencial bege visto de frente, com as aberturas de ventilação em círculo
Detector de fumaça. A fumaça de um incêndio em espaço fechado é uma mistura de gases, e o monóxido de carbono e o cianeto chegam juntos ao paciente. Crédito: Oleg Alexandrov, domínio público, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Diagnóstico diferencial

O diferencial nas vítimas de fumaça inclui quatro mecanismos que podem coexistir. Hipóxia simples, por falta de oxigênio no ar durante o incêndio, melhora rápido fora da fumaça. Intoxicação por monóxido de carbono reduz a entrega de oxigênio. Intoxicação por cianeto impede o uso do oxigênio. Lesão inalatória por calor e irritantes compromete a via aérea. Walker e colaboradores lembram que produtos da combustão como o gás carbônico agem como asfixiantes simples e que o ambiente do incêndio já é pobre em oxigênio (Walker e colaboradores, 2015).

Fora da fumaça

Também é preciso lembrar causas que não vêm do incêndio. Uma passageira hipotensa e sonolenta pode ter trauma da evacuação, queimadura extensa com perda de volume ou uma doença prévia descompensada pelo estresse. O piloto confuso pode ter batido a cabeça ao sair. Nenhuma dessas hipóteses exclui a intoxicação, mas todas mudam a conduta. O post sobre diagnóstico diferencial mostra como manter a lista aberta sem perder a prioridade.

O que separa os quadros no caso

No piloto, a cefaleia, a náusea e a confusão com lactato pouco alterado sugerem predomínio do monóxido de carbono. Na passageira, o lactato muito alto e a hipotensão sugerem cianeto somado. Nos dois, a co-oximetria ajuda, mas não decide sozinha.

Conduta: oxigênio para todos, antídoto para alguns

O primeiro passo é igual para todas as vítimas sintomáticas: oxigênio a 100 por máscara com reservatório e sem reinalação, ou por tubo se a via aérea estiver comprometida. Lawson-Smith e colaboradores colocam oxigênio a 100 e suporte de vida como base do tratamento do cianeto (Lawson-Smith, Jansen e Hyldegaard, 2011). Para o monóxido de carbono, o oxigênio encurta a meia-vida da carboxi-hemoglobina de cerca de 250 para 40 a 60 minutos (Dries e Endorf, 2013).

Hidroxocobalamina

Quando há suspeita de cianeto, o antídoto não espera a confirmação. Walker e colaboradores descrevem a hidroxocobalamina como o antídoto mais disponível: ela se liga ao cianeto e forma cianocobalamina, que não é tóxica e sai pela urina. A dose padrão é de 5 g por via intravenosa em 15 minutos, e uma segunda dose de 5 g pode ser dada em toxicidade grave ou resposta ruim (Walker e colaboradores, 2015).

A mesma revisão lembra que a hidroxocobalamina deixa a pele e a urina vermelhas e pode interferir em exames colorimétricos. Vale colher sangue para os exames antes da infusão, quando isso não atrasar o tratamento.

Oxigênio hiperbárico

O papel da câmara hiperbárica é o ponto mais discutido. Um ensaio randomizado comparou três sessões em câmara dentro de 24 horas, com oxigênio hiperbárico ou com oxigênio normobárico e ar ambiente. As sequelas cognitivas em 6 semanas foram menos frequentes no grupo hiperbárico, 19 de 76 contra 35 de 76 (Weaver e colaboradores, 2002). A revisão de Dries e Endorf, por outro lado, conclui que os dados não apoiam o uso rotineiro de oxigênio hiperbárico em vítimas de lesão inalatória fora de ensaios clínicos (Dries e Endorf, 2013).

Lawson-Smith e colaboradores citam a recomendação da sociedade americana de medicina hiperbárica para tratar com oxigênio hiperbárico a intoxicação por monóxido de carbono complicada por cianeto (Lawson-Smith, Jansen e Hyldegaard, 2011). Os dados sobre câmara no cianeto são poucos: num estudo dinamarquês com 37 pacientes intoxicados por monóxido de carbono, a concentração de cianeto no sangue não mudou depois do oxigênio hiperbárico (Lawson-Smith e colaboradores, 2010). Na prática, a decisão depende da gravidade, do acesso a uma câmara e da estabilidade do paciente para o transporte. A passageira hipotensa precisa estar estável antes de qualquer transferência.

Sequelas e seguimento

A melhora no pronto atendimento não encerra o caso. Rose e colaboradores descrevem que uma parte importante dos sobreviventes da intoxicação por monóxido de carbono fica com sequelas neurológicas e afetivas de longo prazo, e que esses déficits não acompanham necessariamente o nível de monóxido de carbono no sangue (Rose e colaboradores, 2017). Os autores atribuem o dano aos efeitos do gás sobre a respiração mitocondrial, o uso de energia pela célula, a inflamação e a formação de radicais livres.

Essa dissociação entre o nível no sangue e o dano no cérebro tem uma consequência prática. Um piloto com carboxi-hemoglobina modesta na chegada ainda pode ter problemas de memória, atenção ou humor semanas depois. No ensaio de Weaver e colaboradores, as sequelas cognitivas foram medidas por testes neuropsicológicos em 6 semanas e em 12 meses, e as diferenças entre os grupos apareceram nos dois momentos (Weaver e colaboradores, 2002). Uma revisão sobre sequelas neurocognitivas descreve que elas podem persistir desde a intoxicação ou surgir depois de uma recuperação aparente, com início entre 2 e 40 dias, mesmo em quem recebeu oxigênio hiperbárico (Ning e colaboradores, 2020).

O que combinar na alta

Na alta, vale explicar às vítimas que esquecimento, dificuldade de concentração, mudança de humor ou dor de cabeça que volta são motivos para nova avaliação. Para o piloto, a volta ao trabalho passa pelo médico examinador, que pode pedir avaliação cognitiva antes de liberar o voo. Quem teve lesão miocárdica precisa de seguimento cardiológico, porque a disfunção miocárdica se associou a pior evolução (Kim e colaboradores, 2020).

O post sobre raciocínio prognóstico trata dessa pergunta que vem depois do diagnóstico: o que esperar nos próximos meses e como acompanhar.

Raciocínio passo a passo no caso

Para o piloto, a sequência fica assim. Ele esteve na fumaça e tem cefaleia, náusea e confusão. O oxímetro normal não afasta nada. Recebe oxigênio a 100 por máscara, colhe co-oximetria, gasometria com lactato, eletrocardiograma e troponina. A carboxi-hemoglobina é lida junto com o tempo desde a exposição e o tempo de oxigênio. Ele não volta a voar no mesmo dia, e a avaliação de sequelas fica para o seguimento.

Para a passageira, a sequência é mais urgente. Ela tem sonolência, hipotensão, fuligem e lactato de 11 mmol/L. Recebe oxigênio a 100, avaliação imediata da via aérea, acesso venoso e hidroxocobalamina sem esperar a dosagem de cianeto. Depois, entram a co-oximetria, os exames cardíacos e a discussão sobre a câmara hiperbárica conforme a estabilidade.

Decidir sob incerteza

Para nenhuma das duas vítimas a equipe tem certeza na hora da decisão. O antídoto entra pela probabilidade, e não pela confirmação. O post sobre incerteza diagnóstica discute como agir quando o exame confirmatório chega tarde demais para mudar a conduta. O post sobre tomada de decisão clínica mostra como pesar o risco de tratar sem necessidade contra o de não tratar.

Uma pausa antes de liberar

O momento mais arriscado é o da alta do piloto. Ele melhora com o oxigênio e quer ir embora. Uma pausa diagnóstica antes de liberar obriga a perguntar se o coração foi avaliado, se a carboxi-hemoglobina foi lida no tempo certo e se alguém explicou os sinais de sequela tardia.

Erros comuns

O primeiro erro é confiar no oxímetro. Ele não mede a carboxi-hemoglobina e, no cianeto, pode mostrar uma saturação verdadeira e inútil (Jubran, 2015).

O segundo erro é ler a carboxi-hemoglobina sem o relógio. Um nível colhido depois de uma hora de oxigênio subestima a exposição (Dries e Endorf, 2013).

O terceiro erro é esperar a dosagem de cianeto para dar o antídoto. O resultado demora horas, e o lactato junto com a clínica já basta para a suspeita (Lawson-Smith, Jansen e Hyldegaard, 2011).

O quarto erro é tratar a passageira apenas como choque. Fluidos e vasopressores não corrigem uma célula que não consegue usar o oxigênio.

O quinto erro é esquecer o coração. A disfunção miocárdica é comum e se associa a pior evolução (Kim e colaboradores, 2020).

O sexto erro é dar alta sem falar de sequelas. Os déficits neurológicos e afetivos podem aparecer em sobreviventes e não acompanham necessariamente o nível de monóxido de carbono no sangue (Rose e colaboradores, 2017). Um piloto que se sente bem no dia seguinte ainda precisa de uma orientação clara sobre o que observar nas semanas seguintes e de uma volta ao voo combinada com o médico examinador.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas. Você propõe um diagnóstico buscando o código na CID-10 e recebe um retorno de proximidade em cinco níveis, que mostra se o palpite ficou no código exato, na mesma categoria, no mesmo grupo, no mesmo capítulo ou em outro capítulo. Esse formato combina com o tema deste texto: intoxicação por monóxido de carbono e por cianeto ficam no mesmo capítulo, mas pedem tratamentos diferentes. O post sobre CID-10 mostra como achar o código certo.

Para usar o caso do dia como treino, experimente três hábitos. Antes do primeiro palpite, pergunte o que cada instrumento de medida consegue e não consegue ver. A cada pista, veja se ela muda a conduta ou só confirma o que você já pensava. Depois do resultado, anote qual número tranquilizou você cedo demais.

Três exercícios com casos

Pergunte o que o exame mede. Para cada exame do caso, escreva em uma frase o que ele realmente detecta.

Ligue mecanismo e conduta. Escreva o mecanismo da hipótese principal e o tratamento que decorre dele.

Compare as vítimas. Quando várias pessoas passam pelo mesmo evento, compare os quadros e pergunte o que explica a diferença.

O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos mostra como casos ajudam a fixar esse hábito.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

O oxímetro de pulso pode mostrar saturação normal na intoxicação por monóxido de carbono?

Sim. O oxímetro convencional distingue apenas oxi-hemoglobina e hemoglobina reduzida e assume que a carboxi-hemoglobina está ausente (Jubran, 2015).

Um nível baixo de carboxi-hemoglobina na chegada pode esconder uma exposição grande?

Sim. Por causa do intervalo entre a exposição e a coleta, os níveis medidos na chegada não refletem a intoxicação real (Dries e Endorf, 2013).

O lactato ajuda a suspeitar de cianeto?

Sim. Em vítima de incêndio, lactato acima de 8 mmol/L sugere cianeto, e 10 mmol/L é descrito como indicador sensível e específico (Lawson-Smith, Jansen e Hyldegaard, 2011).

A hidroxocobalamina pode ser dada antes da confirmação?

Sim. A dosagem de cianeto demora horas, e a revisão de Lawson-Smith e colaboradores propõe decidir pelos sinais clínicos e pelo lactato (Lawson-Smith, Jansen e Hyldegaard, 2011).

O monóxido de carbono pode lesar o coração?

Sim. Num registro com 850 adultos intoxicados, cerca de 12 em cada 100 tiveram cardiomiopatia no ecocardiograma (Kim e colaboradores, 2020).

Checklist final

  • Considerei monóxido de carbono e cianeto em toda vítima de fumaça em espaço fechado.
  • Desconfiei da saturação do oxímetro de pulso comum.
  • Pedi co-oximetria e anotei o tempo desde a exposição e o tempo de oxigênio.
  • Pedi gasometria com lactato.
  • Ofereci oxigênio a 100 por máscara sem reinalação a todas as vítimas sintomáticas.
  • Avaliei a via aérea quando havia fuligem ou queimadura.
  • Dei hidroxocobalamina pela suspeita, sem esperar a dosagem de cianeto.
  • Colhi exames antes da infusão, quando isso não atrasou o antídoto.
  • Pedi eletrocardiograma e troponina.
  • Discuti a câmara hiperbárica conforme a gravidade e a estabilidade.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Collins JA, Rudenski A, Gibson J, et al. Relating oxygen partial pressure, saturation and content: the haemoglobin-oxygen dissociation curve. Breathe (Sheff). 2015. PMID 26632351.
  2. Dries DJ, Endorf FW. Inhalation injury: epidemiology, pathology, treatment strategies. Scand J Trauma Resusc Emerg Med. 2013. PMID 23597126.
  3. Jubran A. Pulse oximetry. Crit Care. 2015. PMID 26179876.
  4. Kim JS, Ko BS, Sohn CH, et al. High-Sensitivity Troponin I and Creatinine Kinase-Myocardial Band in Screening for Myocardial Injury in Patients with Carbon Monoxide Poisoning. Diagnostics (Basel). 2020. PMID 32326299.
  5. Lawson-Smith P, Jansen EC, Hilsted L, et al. Effect of Hyperbaric Oxygen Therapy on whole blood cyanide concentrations in carbon monoxide intoxicated patients from fire accidents. Scand J Trauma Resusc Emerg Med. 2010. PMID 20550698.
  6. Lawson-Smith P, Jansen EC, Hyldegaard O. Cyanide intoxication as part of smoke inhalation--a review on diagnosis and treatment from the emergency perspective. Scand J Trauma Resusc Emerg Med. 2011. PMID 21371322.
  7. Ning K, Zhou YY, Zhang N, et al. Neurocognitive sequelae after carbon monoxide poisoning and hyperbaric oxygen therapy. Med Gas Res. 2020. PMID 32189667.
  8. Rose JJ, Wang L, Xu Q, et al. Carbon Monoxide Poisoning: Pathogenesis, Management, and Future Directions of Therapy. Am J Respir Crit Care Med. 2017. PMID 27753502.
  9. Walker PF, Buehner MF, Wood LA, et al. Diagnosis and management of inhalation injury: an updated review. Crit Care. 2015. PMID 26507130.
  10. Weaver LK, Hopkins RO, Chan KJ, et al. Hyperbaric oxygen for acute carbon monoxide poisoning. N Engl J Med. 2002. PMID 12362006.

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