Flebite e infecção de cateter: quando o acesso vira foco

Antebraço com cateter venoso periférico fixado por curativo transparente e extensão de soro, sobre lençol listrado de hospital
Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. Flebite: química, mecânica ou infecciosa
  3. Como avaliar o acesso à beira do leito
  4. Quando a flebite vira bacteremia
  5. O que fazer à beira do leito
  6. Raciocínio passo a passo no caso
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Checklist final
  10. Referências

Uma mulher de 67 anos está internada há cinco dias por pneumonia. Ela já toma o antibiótico por via oral desde ontem, mas o cateter venoso periférico do antebraço continua lá, fechado, sem uso há 48 horas. Ninguém lembra de quem decidiu mantê-lo "por segurança". Na passagem de plantão da manhã, a paciente tem febre de 38,6 graus e calafrio. A enfermeira descobre o curativo: a pele em volta do ponto de inserção está vermelha e quente, há um cordão endurecido subindo pela veia por alguns centímetros e uma gota de secreção amarelada no orifício. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para a enfermagem. A febre parece uma recaída da pneumonia, e o cateter parece um detalhe. A leitura correta inverte a ordem: o acesso esquecido virou o foco mais provável, e o germe que mais preocupa nessa situação é o Staphylococcus aureus. O texto não substitui o protocolo da sua instituição nem a prescrição médica. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: olhar para o dispositivo antes de culpar a doença de base.

Principais pontos

  • Flebite é comum: em terapia intensiva, apareceu em cerca de 1 a cada 13 cateteres periféricos num estudo multicêntrico.
  • Dor, endurecimento, vermelhidão ou secreção no ponto de inserção indicam retirada do cateter periférico.
  • Secreção no ponto de inserção deve ir para coloração de Gram e cultura.
  • A infecção de corrente sanguínea por cateter periférico é rara, mas pode ser grave, sobretudo quando o germe é Staphylococcus aureus.
  • Cateter sem uso é risco sem benefício: a pergunta diária é se ele ainda é necessário.
  • O local de um acesso já retirado também precisa ser olhado nos dias seguintes.

Por que este é um cenário de raciocínio

O cateter venoso periférico é o dispositivo invasivo mais usado no hospital, e por isso mesmo é fácil esquecê-lo. Num estudo prospectivo com 842 cateteres em adultos, 141 de 359 pacientes tiveram pelo menos uma complicação, e a flebite foi a primeira da lista, presente em 17,6 por cento dos cateteres, seguida por dor, vazamento, deslocamento, extravasamento e obstrução (Abolfotouh e colaboradores, 2014). Numa coorte portuguesa, as taxas de flebite e de infiltração foram de 43,2 e 59,7 por 1.000 cateteres-dia, e a maioria dos cateteres com esses traumas vasculares foi retirada nas primeiras 24 horas (Braga e colaboradores, 2018).

O cenário é bom para treino porque a resposta depende de juntar pistas que ficam em lugares diferentes: a febre está no gráfico de sinais vitais, o cateter está debaixo do curativo e a informação de que ele está parado há dois dias está na prescrição. O post sobre sinais, sintomas e história mostra como ler o que o paciente traz, e o post sobre deterioração clínica na enfermaria mostra como a febre e os outros sinais entram num escore de alerta.

O preço do atraso

Numa série japonesa de 62 pacientes com infecção de corrente sanguínea associada a cateter periférico, o tempo médio entre a inserção do cateter e o diagnóstico da bacteremia foi de 6 dias, e 8 pacientes (12,9 por cento) morreram em até 30 dias depois da hemocultura positiva (Sato e colaboradores, 2017). Quem morreu tinha proporção maior de infecção por Staphylococcus aureus, com razão de chances de 8,33 (Sato e colaboradores, 2017). Os autores relatam quadros que exigiram cuidados intensivos e antibiótico prolongado por complicações à distância (Sato e colaboradores, 2017).

O que a cena ensina

A cena treina quatro hábitos. O primeiro é examinar o ponto de inserção em todo paciente com febre nova. O segundo é perguntar todo dia se o cateter ainda é necessário. O terceiro é saber o que fazer com a secreção e com o cateter antes de jogá-los no lixo. O quarto é reconhecer quando a infecção local pode ter chegado ao sangue.

Flebite: química, mecânica ou infecciosa

Flebite é inflamação da parede da veia. No acesso periférico, ela costuma ser descrita em três grupos, e a distinção importa porque muda o que se espera da evolução. A revisão de escopo de Guanche-Sicilia e colaboradores, feita do ponto de vista da enfermagem, lembra que a flebite se manifesta por vermelhidão, edema na veia, dor, calor e febre, e que escalas de avaliação ajudam a padronizar o registro (Guanche-Sicilia e colaboradores, 2021).

Química

A flebite química vem do que corre dentro da veia. Em 3.429 cateteres de 23 unidades de terapia intensiva japonesas, os únicos fatores que aumentaram o risco de flebite na análise multivariada foram fármacos intravenosos; entre 26 avaliados, quatro se associaram a mais flebite: nicardipina, noradrenalina, amiodarona e levetiracetam (Yasuda e colaboradores, 2022). Medidas padronizadas de administração de fármacos na unidade se associaram a risco menor (Yasuda e colaboradores, 2022). Na coorte portuguesa, a piperacilina com tazobactam se associou à infiltração (Braga e colaboradores, 2018).

Mecânica

A flebite mecânica vem do atrito do cateter contra a parede da veia: cateter grosso para a veia, fixação frouxa, local de flexão. No estudo japonês, inserir no braço em vez do antebraço se associou a risco menor de flebite (Yasuda e colaboradores, 2022). No estudo de Abolfotouh e colaboradores, sexo feminino, inserção no antebraço ou braço e infusão de medicamentos previram flebite (Abolfotouh e colaboradores, 2014).

Infecciosa

A flebite infecciosa é a que mais preocupa. Ela pode ficar restrita ao local ou chegar à corrente sanguínea. Sinais como secreção purulenta, cordão muito doloroso, febre e calafrio puxam o raciocínio para infecção. No caso da cena, a secreção amarelada no orifício e a febre com calafrio já tiram o quadro do grupo "flebite química simples".

TipoPista típicaO que pensar
QuímicaSurge durante infusão de fármaco irritanteRevisar o fármaco, a diluição e a via
MecânicaCateter em local de flexão, fixação frouxaRevisar o local, o calibre e a fixação
InfecciosaSecreção, febre, calafrio, piora depois da retiradaRetirar, cultivar a secreção, pensar em bacteremia

Fontes da tabela: (Guanche-Sicilia e colaboradores, 2021), (Yasuda e colaboradores, 2022), (Braga e colaboradores, 2018) e (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009). A divisão é didática; na prática os mecanismos se somam.

Quem tem mais risco

A frequência de flebite varia muito entre estudos, porque as definições e as escalas mudam. No estudo multicêntrico AMOR-VENUS, com 2.741 pacientes e 7.118 cateteres periféricos em terapia intensiva, a flebite ocorreu em 7,5 por cento dos cateteres e em 12,9 por cento dos pacientes; a maioria dos cateteres foi retirada logo após o diagnóstico, o grau 1 foi o mais comum e o grau 4, o mais raro (Yasuda e colaboradores, 2021). A falha do cateter, somando todas as causas, chegou a 21 por cento (Yasuda e colaboradores, 2021).

Fatores ligados ao paciente e à internação

Na coorte portuguesa, o tempo de internação e o número de cateteres inseridos foram fatores de risco para flebite (Braga e colaboradores, 2018). Isso faz sentido: cada nova punção é uma nova porta de entrada e uma nova agressão à veia. Pacientes com veias difíceis acumulam tentativas e acessos em locais pouco favoráveis.

Fatores ligados ao cuidado

Numa análise de pontas de cateter em adultos internados, 41,8 por cento dos cateteres estudados terminaram em falha, e 5,8 por cento das pontas cultivadas tiveram crescimento, sobretudo Staphylococcus epidermidis; mais da metade das culturas positivas veio de pacientes com sinais locais compatíveis com infecção relacionada ao cateter (Blanco-Mavillard e colaboradores, 2019). A maioria dos episódios respondeu bem à retirada do cateter e ao manejo (Blanco-Mavillard e colaboradores, 2019). O dado lembra que a cultura de ponta sozinha não diagnostica infecção; ela precisa ser lida junto com a clínica.

O cateter parado

O cateter sem uso não recebe a mesma atenção que o cateter com infusão correndo. Ninguém abre o curativo para conferir uma via que não está sendo usada. No caso da cena, 48 horas sem uso significam 48 horas de risco sem nenhum benefício. A pergunta que previne o problema é simples e diária: este cateter ainda é necessário?

Como avaliar o acesso à beira do leito

Avaliar o acesso não é só olhar se ele "está funcionando". É olhar, tocar e perguntar, a cada turno e sempre que houver febre nova.

Escalas

Existem várias escalas para graduar a flebite, como a Visual Infusion Phlebitis, a escala de flebite e a escala de Maddox (Guanche-Sicilia e colaboradores, 2021). Sato e colaboradores recomendam examinar o ponto de inserção todos os dias e usar ferramentas como a Visual Infusion Phlebitis para evitar que a infecção local evolua para bacteremia (Sato e colaboradores, 2017). Num estudo Delphi com enfermeiras especialistas na Espanha, os itens considerados mais importantes para avaliar a flebite foram sintomas e observação, vermelhidão, escala de Maddox, endurecimento, temperatura e dor; no tratamento, a retirada do cateter ficou entre as ações prioritárias (Torné-Ruiz e colaboradores, 2024). Os mesmos autores encontraram grande variação entre serviços na avaliação, no tratamento e no seguimento (Torné-Ruiz e colaboradores, 2024). Use a escala adotada pelo seu serviço, sempre a mesma, para que a evolução seja comparável entre turnos.

O que observar e registrar

  • Data e local da inserção, calibre do cateter e quem inseriu.
  • Dor no trajeto, mesmo sem vermelhidão visível.
  • Vermelhidão, calor, edema e cordão palpável, com a extensão em centímetros.
  • Secreção no orifício: cor, quantidade e se sai espontaneamente ou à pressão.
  • Febre, calafrio, taquicardia e queda da pressão, que falam de repercussão sistêmica.
  • Se o cateter está em uso, o que corre por ele e há quanto tempo está sem uso.

O registro com medida em centímetros permite saber se o cordão está crescendo. Uma foto no prontuário, quando o serviço permite, ajuda a comparar entre turnos.

Micrografia eletrônica em tons de azul mostrando bactérias Staphylococcus aureus arredondadas sobre uma superfície rugosa
Staphylococcus aureus em microscopia eletrônica de varredura. É o germe que mais preocupa quando o acesso periférico infecta. Foto: Eric Erbe e Christopher Pooley, USDA, Wikimedia Commons, domínio público.

Quando a flebite vira bacteremia

A infecção de corrente sanguínea por cateter periférico é bem menos frequente que a flebite, mas não é desprezível. No AMOR-VENUS, a taxa foi de 0,8 por cento (Yasuda e colaboradores, 2021). No estudo de Blanco-Mavillard e colaboradores, a densidade foi de 0,76 por 1.000 internações (Blanco-Mavillard e colaboradores, 2019).

Staphylococcus aureus e o acesso periférico

Num centro acadêmico americano, entre 445 episódios de bacteremia por Staphylococcus aureus em dois anos, 34 (7,6 por cento) foram atribuídos a tromboflebite no local de um cateter periférico (Austin e colaboradores, 2016). A mortalidade em 90 dias foi comparável à dos outros focos, e a bacteremia por MRSA ligada ao cateter periférico durou mais (Austin e colaboradores, 2016). O achado mais útil para a enfermagem é outro: a maioria dessas infecções estava ligada a locais antigos de acesso, já retirados, e não ao cateter em uso e vigiado (Austin e colaboradores, 2016). Os autores defendem que vigiar o local depois da retirada seja prioridade da prevenção (Austin e colaboradores, 2016).

Como a bactéria chega ao sangue

Há duas rotas principais. Na primeira, germes da pele migram pelo trajeto do cateter, do orifício para dentro, e formam um biofilme na superfície do dispositivo. Na segunda, a contaminação entra pelo conector e pela luz do cateter, a cada manipulação. O biofilme protege a bactéria do antibiótico e do sistema imune, o que explica por que retirar o dispositivo é parte central do tratamento. Um coágulo infectado na veia, a tromboflebite supurativa, mantém a bacteremia mesmo depois da retirada.

Sinais de complicação

A diretriz da IDSA lista situações que pedem investigação de complicações: bacteremia ou febre que persistem mais de 3 dias depois do antibiótico adequado e da retirada do cateter, sobretudo quando o germe é Staphylococcus aureus, e suspeita de tromboflebite supurativa (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009). A ecocardiografia transesofágica é recomendada quando se considera um tratamento mais curto que 4 a 6 semanas na bacteremia por Staphylococcus aureus relacionada a cateter (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009). Kouijzer e colaboradores propõem estratificar o risco de infecção à distância usando fatores do paciente, da bacteremia (duração, tempo curto até a positividade, aquisição na comunidade, atraso no tratamento) e da evolução clínica (febre persistente, foco desconhecido, sinais de infecção metastática) (Kouijzer e colaboradores, 2023).

Para a enfermagem, isso se traduz em sinais concretos para comunicar: febre que não cede, nova dor nas costas ou numa articulação, sopro novo descrito pelo médico, lesões na pele, piora do cordão depois da retirada.

O que fazer à beira do leito

A sequência exata depende do protocolo local. As ações abaixo seguem a diretriz da IDSA para cateteres periféricos e a lógica de não perder o foco.

O cateter

A diretriz é direta: cateteres periféricos com dor, endurecimento, vermelhidão ou secreção associados devem ser retirados (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009). Na paciente da cena, todos esses sinais estão presentes. A retirada não espera a próxima troca programada nem a visita médica, e um novo acesso, se ainda for necessário, vai para outro local, de preferência no outro membro.

A secreção e as culturas

Qualquer secreção no ponto de inserção deve ser enviada para coloração de Gram e cultura de rotina, com culturas para fungos e micobactérias quando o paciente é imunocomprometido (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009). A IDSA recomenda colher hemoculturas antes do início do antibiótico (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009). Para cateter central, a recomendação é colher amostras pareadas, uma pelo cateter e outra por veia periférica, identificando cada frasco (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009); no cateter periférico, as hemoculturas vêm de punção em outro local. A ponta do cateter só é cultivada quando há suspeita de infecção relacionada ao cateter, e não de rotina (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009). Siga o protocolo do serviço sobre quando e como enviar a ponta.

Comunicar com clareza

Uma mensagem estruturada ajuda: "Paciente de 67 anos, quinto dia de internação por pneumonia, já em antibiótico oral. Febre de 38,6 graus com calafrio. Cateter periférico no antebraço esquerdo sem uso há 48 horas, com vermelhidão, cordão de 4 centímetros e secreção purulenta. Retirei o cateter e guardei a secreção para cultura. Peço avaliação agora e conduta sobre hemoculturas e antibiótico." A frase junta o foco provável, o que já foi feito e o que se pede.

O antibiótico

A escolha e a duração do antibiótico são decisão médica, guiadas pelo germe e pela gravidade. Quando o germe é Staphylococcus aureus, a IDSA recomenda retirar o cateter e tratar por 4 a 6 semanas, salvo exceções; um tratamento de pelo menos 14 dias pode ser considerado quando o paciente não é diabético nem imunossuprimido, o cateter foi retirado, não há prótese intravascular, não há endocardite nem tromboflebite supurativa e a febre e a bacteremia somem em até 72 horas de antibiótico adequado (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009). A prática varia muito no mundo: num inquérito com 2.031 médicos de 71 países, as escolhas de tratamento, o uso de antibiótico oral e até a definição de bacteremia persistente mudaram por continente (Westgeest e colaboradores, 2023). Os autores concluem que não existe um padrão internacional de cuidado para essa bacteremia (Westgeest e colaboradores, 2023).

Medidas locais

Compressas, pomadas e elevação do membro aparecem nas revisões como medidas para a flebite, com evidência heterogênea (Guanche-Sicilia e colaboradores, 2021), (Torné-Ruiz e colaboradores, 2024). Elas aliviam o desconforto, mas não substituem a retirada do cateter nem a investigação de infecção.

Trocar por rotina ou por indicação clínica

Por muito tempo, a regra foi trocar o cateter periférico em intervalo fixo, mesmo sem problema. Essa regra foi testada, e o resultado não é tão simples quanto parece.

O que os estudos mostraram

Num ensaio clínico randomizado australiano com 755 pacientes, a troca por indicação clínica não aumentou a falha do cateter por flebite ou infiltração em comparação com a troca de rotina a cada 3 dias, e os custos foram menores (Webster e colaboradores, 2008). A taxa de flebite foi baixa nos dois grupos (4 e 3 por cento) (Webster e colaboradores, 2008). Uma metanálise posterior, com 9 ensaios e 10.973 pacientes, encontrou mais flebite, oclusão e infiltração com a troca por indicação clínica, sem diferença em infecção local nem em infecção de corrente sanguínea (Chen e colaboradores, 2022). Os autores sugerem cautela antes de abandonar a troca de rotina (Chen e colaboradores, 2022).

O que isso significa na prática

As duas estratégias só funcionam com vigilância. Trocar por indicação clínica pressupõe olhar o acesso todo turno e retirar ao primeiro sinal. Trocar por rotina não dispensa esse olhar, porque a infecção pode aparecer antes do prazo. Nenhuma das duas justifica manter um cateter sem uso. A política de troca é decisão do serviço; o papel de quem está à beira do leito é examinar, registrar e retirar quando houver sinal ou quando o cateter deixar de ser necessário.

Prevenção que depende da enfermagem

  • Inserir só quando há indicação e retirar assim que deixar de haver.
  • Higienizar as mãos antes de tocar no cateter, no curativo ou no conector.
  • Desinfetar o conector antes de cada acesso, conforme o protocolo.
  • Manter o curativo limpo, seco e íntegro, e trocar quando não estiver.
  • Escolher o calibre e o local adequados para a veia e para a infusão.
  • Examinar o local de acessos já retirados nos dias seguintes.

Fontes da lista: (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009), (Guanche-Sicilia e colaboradores, 2021) e (Austin e colaboradores, 2016). Os detalhes de antissépticos, curativos e intervalos seguem o protocolo do serviço.

Colônias arredondadas e esbranquiçadas de Staphylococcus aureus sobre ágar sangue vermelho, vistas de perto
Colônias de Staphylococcus aureus em ágar sangue. A cultura da secreção e as hemoculturas dizem qual germe está em jogo. Foto: Mikael Häggström, Wikimedia Commons, CC0.

Raciocínio passo a passo no caso

Vale refazer o caminho do caso em ordem, como se as pistas chegassem uma a uma.

Primeira pista: febre no quinto dia

A primeira hipótese costuma ser a doença que trouxe a paciente: a pneumonia não respondeu. É uma hipótese razoável, mas ela já está em antibiótico e vinha melhorando. Febre nova no meio de uma internação pede a lista de focos hospitalares: cateteres, sonda vesical, ferida, pulmão de novo, diarreia associada a antibiótico, além de causas não infecciosas, como trombose e reação a fármaco.

Segunda pista: o cateter parado

Um dispositivo sem uso há 48 horas sobe na lista de suspeitos. Ele não deveria estar ali, e quem não deveria estar ali tende a não ser vigiado. O próximo passo é descobrir o curativo.

Terceira pista: o ponto de inserção

Vermelhidão, calor, cordão endurecido e secreção purulenta fecham a flebite infecciosa. O diferencial agora é mais estreito: celulite em volta do acesso, trombose venosa superficial infectada, flebite química que coincidiu com outra causa de febre. A secreção e o calafrio puxam para infecção.

Quarta pista: o que o calafrio diz

Calafrio sugere passagem de bactéria para o sangue. A pergunta deixa de ser só "flebite?" e passa a ser "bacteremia associada a cateter, possivelmente por Staphylococcus aureus?". Isso muda a urgência: retirar, cultivar, comunicar, preparar hemoculturas antes do antibiótico e ficar atento a sinais de complicação nos dias seguintes.

Quinta pista: a evolução

Se a febre e as hemoculturas positivas persistirem por mais de 3 dias depois da retirada e do antibiótico, a equipe procura complicações, como tromboflebite supurativa e endocardite (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009). A enfermagem é quem vê primeiro o cordão que cresce, a nova dor e a curva de febre que não cai.

HipóteseA favorContraO que decide
Pneumonia sem respostaDoença de base, febreVinha melhorando, já em antibiótico oralExame respiratório, imagem, evolução
Flebite químicaCordão e dor no trajetoCateter sem uso há 48 horas, secreção purulentaO que corria pelo cateter e quando
Flebite infecciosa localSecreção, vermelhidão, calorSem sinais sistêmicos (aqui há)Cultura da secreção
Bacteremia associada ao cateterFebre, calafrio, foco evidenteHemoculturas negativasHemoculturas antes do antibiótico
Trombose venosa superficialCordão endurecidoSecreção purulentaExame e, se indicado, ultrassom

Fontes da tabela: (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009), (Sato e colaboradores, 2017) e (Austin e colaboradores, 2016). A tabela organiza o raciocínio; o diagnóstico é da equipe.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, você tenta o diagnóstico buscando o código na CID-10 e recebe um retorno de proximidade em cinco níveis, que mostra se o palpite ficou no código exato, na mesma categoria, no mesmo grupo, no mesmo capítulo ou em outro capítulo. Esse formato combina com o tema deste texto: pneumonia, flebite, infecção relacionada a dispositivo vascular, septicemia estafilocócica e endocardite ficam em lugares diferentes da classificação, mas podem estar no mesmo paciente na mesma manhã. O post sobre CID-10 mostra como achar o código certo.

Para usar o caso do dia como treino, experimente três hábitos. Antes do primeiro palpite, pergunte que dispositivos o paciente tem. A cada pista, pergunte se ela fala da doença de base ou de algo que o hospital acrescentou. Depois do resultado, anote a pista que você deixou para depois por parecer pequena.

Três exercícios com casos

Liste os dispositivos. Em cada caso de internação, diga quais cateteres, sondas e drenos o paciente tem e há quanto tempo.

Separe local de sistêmico. Diga quais sinais falam de infecção no ponto de inserção e quais falam de sangue.

Planeje a vigilância. Diga o que você vai olhar nos dias seguintes à retirada do cateter.

O post sobre diagnóstico diferencial com pistas mostra como organizar hipóteses, o post sobre sepse na triagem de enfermagem mostra como agir quando a infecção já repercute no corpo todo, o post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos mostra como casos ajudam a fixar esses hábitos, e o post sobre incerteza diagnóstica discute como decidir quando os dados ainda não fecham.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

Toda flebite é infecção?

Não. A flebite pode ser química ou mecânica. Secreção purulenta, febre e calafrio puxam para infecção (Guanche-Sicilia e colaboradores, 2021), (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009).

Quando retirar o cateter periférico?

Quando houver dor, endurecimento, vermelhidão ou secreção no local (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009), e sempre que ele deixar de ser necessário.

Devo mandar a secreção para cultura?

Sim. A IDSA recomenda coloração de Gram e cultura de qualquer secreção no ponto de inserção (Mermel e colaboradores, IDSA, 2009).

Trocar a cada 3 dias evita infecção?

A troca por indicação clínica não aumentou a infecção nos estudos, mas uma metanálise encontrou mais flebite e infiltração sem troca de rotina (Webster e colaboradores, 2008), (Chen e colaboradores, 2022). Siga a política do serviço e vigie o acesso.

Por que olhar um acesso já retirado?

Porque muitas bacteremias por Staphylococcus aureus ligadas a cateter periférico vieram de locais antigos (Austin e colaboradores, 2016).

Checklist final

  • Examinei o ponto de inserção em todo paciente com febre nova.
  • Perguntei se o cateter ainda era necessário e retirei o que não era.
  • Graduei a flebite com a escala do serviço e medi o cordão em centímetros.
  • Retirei o cateter com dor, endurecimento, vermelhidão ou secreção.
  • Enviei a secreção para Gram e cultura e lembrei das hemoculturas antes do antibiótico.
  • Comuniquei foco provável, sinais sistêmicos e o que já foi feito.
  • Vigiei febre, cordão e sinais de complicação nos dias seguintes.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

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Flebite e infecção de cateter: quando o acesso vira foco