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Medicina do EsporteNeurologia

Exercício, cognição e risco de demência

Aparelho de remo ao ar livre em aço inox com assento vermelho sobre piso de blocos
Sumário
  1. Por que a pergunta importa
  2. O que mostram as coortes
  3. O problema da causalidade reversa
  4. O que mostram os ensaios randomizados
  5. Exercício em quem já tem demência
  6. Como ler a evidência em conjunto
  7. Como orientar o paciente na prática
  8. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  9. Perguntas frequentes
  10. Take-home messages
  11. Referências

Uma professora aposentada de 68 anos chega à consulta preocupada. A mãe teve doença de Alzheimer, e ela leu que caminhar "protege o cérebro". Quer saber quanto precisa andar para não ter o mesmo destino. Faz pouca atividade física, tem hipertensão controlada e dorme mal.

A pergunta é honesta e merece resposta honesta. A atividade física aparece entre os 14 fatores de risco modificáveis da comissão do Lancet sobre demência, que juntos respondem por quase metade dos casos em teoria evitáveis (Livingston, 2024). Ao mesmo tempo, os ensaios randomizados de exercício sobre cognição mostram resultados modestos ou nulos (Sink, 2015).

Este texto explica o que as coortes e os ensaios mostram, por que a causalidade reversa confunde tanto esse campo e como orientar o paciente sem prometer o que a evidência ainda não sustenta.

Principais pontos

  • A comissão do Lancet de 2024 lista a inatividade física entre 14 fatores de risco modificáveis para demência (Livingston, 2024).
  • Numa metanálise de 58 estudos, atividade física se associou a risco menor de demência, com risco relativo combinado de 0,80 (Iso-Markku, 2022).
  • Quando a atividade foi medida 10 anos ou mais antes do diagnóstico, a associação desapareceu numa metanálise com 404.840 pessoas (Kivimäki, 2019).
  • Na coorte Whitehall II, a atividade física começou a cair até 9 anos antes do diagnóstico de demência (Sabia, 2017).
  • Ensaios em idosos sem comprometimento cognitivo e em pessoas com demência leve a moderada não mostraram ganho cognitivo claro (Sink, 2015).
  • Em pessoas com demência, o exercício pode melhorar atividades da vida diária, com evidência de muito baixa qualidade (Forbes, 2015).

Sumário

Por que a pergunta importa

A demência é uma das grandes causas de incapacidade na velhice, e o número de pessoas afetadas cresce com o envelhecimento da população. A comissão do Lancet estima 57 milhões de pessoas com demência no mundo em 2019 e projeta 153 milhões em 2050 (Livingston, 2024).

Fatores de risco modificáveis

A comissão de 2024 acrescentou perda visual e colesterol alto aos 12 fatores do relatório de 2020 (Livingston, 2024). A lista inclui menor escolaridade, perda auditiva, hipertensão, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, consumo alto de álcool, traumatismo craniano, poluição do ar e isolamento social (Livingston, 2024).

Segundo a comissão, os 14 fatores juntos respondem por quase metade das demências, que em teoria poderiam ser evitadas se esses riscos fossem eliminados (Livingston, 2024). A palavra "teoria" pesa aqui: o cálculo supõe que cada fator seja causa e que removê-lo tenha efeito pleno.

Um fator entre vários

A inatividade física é um fator entre muitos, e se entrelaça com outros. Ela aumenta o risco de diabetes, doença coronariana e acidente vascular cerebral, que por sua vez aumentam o risco de demência (Kivimäki, 2019).

Por isso, o exercício entra na prevenção também por vias indiretas, como no controle da pressão. O efeito do exercício sobre a pressão arterial é tratado em detalhe no texto sobre quanto o exercício reduz a pressão.

O que mostram as coortes

A maior parte da evidência a favor do exercício vem de estudos observacionais, que acompanham pessoas ativas e inativas ao longo do tempo.

A metanálise de 2022

A metanálise de Iso-Markku incluiu 58 estudos com seguimento de pelo menos um ano (Iso-Markku, 2022). A atividade física se associou a risco menor de demência por todas as causas, com risco relativo combinado de 0,80, numa análise com 257.983 pessoas (Iso-Markku, 2022).

A associação também apareceu para doença de Alzheimer, com risco relativo de 0,86, e para demência vascular, com 0,79 (Iso-Markku, 2022). Os autores observaram relação graduada entre quantidade de atividade e risco para demência por todas as causas (Iso-Markku, 2022).

Seguimentos longos

Um ponto forte dessa metanálise foi separar os estudos com seguimento de 20 anos ou mais (Iso-Markku, 2022). A associação com menor risco de demência por todas as causas e de Alzheimer persistiu mesmo nesses seguimentos longos (Iso-Markku, 2022).

Os autores concluíram que a atividade física é um fator protetor modificável, mesmo após reduzir os efeitos da causalidade reversa (Iso-Markku, 2022). A comissão do Lancet citou esse resultado e acrescentou que a maior redução de risco ocorreu na passagem do sedentarismo extremo para alguma atividade (Livingston, 2024).

Manter e aumentar a atividade

A comissão descreve uma coorte de 29.826 pessoas acompanhadas por mediana de 24,5 anos, com duas medidas de atividade feitas com 10 anos de intervalo (Livingston, 2024). Quem manteve um nível adequado de atividade teve risco menor de demência do que quem permaneceu inativo, com razão de riscos de 0,75 (Livingston, 2024). Quem aumentou a atividade até esse nível também teve risco menor, com razão de riscos de 0,83 (Livingston, 2024).

O problema da causalidade reversa

As coortes têm uma armadilha conhecida. A demência começa no cérebro muitos anos antes do diagnóstico, e essa fase pré-clínica já pode reduzir a atividade física.

Quando a doença reduz o movimento

Se a pessoa se movimenta menos porque a doença já começou, a inatividade passa a ser consequência, e não causa. Estudos com seguimento curto, em geral menor que 10 anos, têm dificuldade de separar os dois efeitos (Sabia, 2017).

A comissão do Lancet reconhece esse ponto e descreve a relação entre exercício e demência como provavelmente bidirecional (Livingston, 2024).

O que mostrou a coorte Whitehall II

A coorte Whitehall II acompanhou 10.308 servidores públicos britânicos que tinham entre 35 e 55 anos no início, com sete medidas de atividade física entre 1985 e 2013 (Sabia, 2017). Ao longo de um seguimento médio de 27 anos, 329 participantes receberam diagnóstico de demência (Sabia, 2017).

A atividade física não se associou a declínio cognitivo nem a risco de demência, com razão de riscos de 1,00 no grupo que cumpria a recomendação (Sabia, 2017). Entre quem desenvolveu demência, a atividade física começou a cair até 9 anos antes do diagnóstico (Sabia, 2017).

A metanálise com dados individuais

Kivimäki reuniu dados individuais de 19 coortes, com 404.840 pessoas inicialmente sem demência (Kivimäki, 2019). Quando a atividade foi medida menos de 10 anos antes do diagnóstico, a inatividade se associou a risco maior de demência, com razão de riscos de 1,40 (Kivimäki, 2019).

Quando a medida foi feita 10 anos ou mais antes do início da demência, a diferença entre ativos e inativos desapareceu, com razão de riscos de 1,01 (Kivimäki, 2019). Os autores viram um sinal de risco maior apenas em inativos que desenvolveram doença cardiometabólica (Kivimäki, 2019).

Duas leituras do mesmo problema

As duas metanálises chegaram a conclusões diferentes. Iso-Markku encontrou associação em seguimentos de 20 anos ou mais (Iso-Markku, 2022); Kivimäki e a coorte Whitehall II, com outro desenho, não encontraram (Kivimäki, 2019). A diferença lembra que evidência observacional pede cautela na interpretação.

Esse raciocínio sobre sequência no tempo e causa aparece em outros campos. O texto sobre como a sequência no tempo engana discute o mesmo erro em outro contexto.

Aparelho elíptico cinza com apoios para as mãos e pedais diante de uma janela com persiana
Aparelhos aeróbicos como o elíptico foram usados em muitos programas testados em ensaios de cognição, com ganho de aptidão física, mas efeito cognitivo pequeno ou incerto. Crédito: Cpetro45, CC BY-SA 3.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

O que mostram os ensaios randomizados

Os ensaios randomizados resolvem o problema da causalidade reversa, mas têm limites próprios: seguimento curto, desfechos cognitivos sutis e participantes mais saudáveis que a média.

Idosos sem comprometimento cognitivo

A revisão Cochrane de Young sobre exercício aeróbico em idosos sem comprometimento cognitivo conhecido incluiu 12 ensaios com 754 participantes (Young, 2015). Os autores concluíram que os dados disponíveis não mostravam benefício cognitivo (Young, 2015).

O achado mais curioso foi que, mesmo nos ensaios em que a aptidão cardiorrespiratória melhorou, isso não coincidiu com melhora em nenhum domínio cognitivo avaliado (Young, 2015).

O estudo LIFE

O estudo LIFE randomizou 1.635 idosos sedentários de 70 a 89 anos para um programa de atividade física de intensidade moderada ou para educação em saúde (Sink, 2015). O programa incluía caminhada, treino resistido e flexibilidade (Sink, 2015).

Após 24 meses, os escores cognitivos foram iguais nos dois grupos (Sink, 2015). Os autores concluíram que o programa não melhorou a função cognitiva global nem a de domínios específicos (Sink, 2015). Houve sinais de melhora da função executiva em participantes com 80 anos ou mais e em quem tinha pior desempenho físico, como análise secundária (Sink, 2015).

O ensaio do hipocampo

Um ensaio com 120 idosos comparou caminhada aeróbica três vezes por semana com alongamento e tonificação durante um ano (Erickson, 2011). O grupo aeróbico teve aumento do volume do hipocampo, o que os autores descreveram como reversão da perda associada à idade de 1 a 2 anos (Erickson, 2011).

O resultado é biologicamente interessante, mas é um desfecho de imagem num ensaio pequeno, e não um desfecho de demência (Erickson, 2011).

O que diz a comissão

A comissão do Lancet cita um ensaio com 945 participantes de idade média de 78 anos, randomizados para controle, treino contínuo moderado ou treino intervalado de alta intensidade, duas vezes por semana, durante 5 anos (Livingston, 2024). Sem diferença significativa de cognição entre os grupos, a comissão considera os achados coerentes com o pequeno benefício cognitivo visto numa revisão guarda-chuva de ensaios (Livingston, 2024).

Mecanismos propostos

A comissão do Lancet resume os mecanismos mais discutidos. O exercício pareceu útil para a cognição em qualquer idade, possivelmente por mudanças no fluxo sanguíneo cerebral, menor hipertensão e mais óxido nítrico, com reflexo em plasticidade cerebral e menos neuroinflamação (Livingston, 2024).

Pessoas que fazem exercício moderado a vigoroso em mais dias da semana têm volumes cerebrais relativamente maiores do que as que fazem pouco ou nenhum exercício (Livingston, 2024). A comissão cita ainda estudos em camundongos sobre a irisina, uma miocina liberada durante o exercício, como possível fator neuroprotetor (Livingston, 2024).

Esses mecanismos tornam a hipótese plausível, mas plausibilidade biológica é diferente de prova clínica. Um desfecho de imagem ou um marcador no sangue podem melhorar sem que o risco de demência mude, e é por isso que os desfechos clínicos dos ensaios pesam mais.

Por que os ensaios são difíceis

Testar exercício contra demência exige milhares de pessoas acompanhadas por muitos anos, porque a doença se desenvolve devagar. Os ensaios disponíveis usam desfechos intermediários, como escores em testes cognitivos, que mudam pouco em pessoas saudáveis.

Também é difícil manter a diferença entre os grupos. No ensaio de 5 anos citado pela comissão, a grande maioria do grupo controle seguia as recomendações nacionais de atividade física, o que aproximou os grupos (Livingston, 2024). Quando o controle também se movimenta, o ensaio perde a capacidade de mostrar efeito.

Desfechos que importam para o paciente

Para o paciente e a família, o que mais pesa é manter a independência. Nesse ponto, a revisão Cochrane em demência mostrou sinal de ganho nas atividades da vida diária (Forbes, 2015). Num dos ensaios, a sobrecarga de cuidadores que supervisionavam o exercício em casa foi menor (Forbes, 2015).

Exercício em quem já tem demência

Para quem já tem demência, a pergunta muda. O alvo deixa de ser prevenir e passa a ser manter função, autonomia e qualidade de vida.

O ensaio DAPA

O ensaio DAPA randomizou 494 pessoas com demência leve a moderada, com idade média de 77 anos, para cuidado habitual mais quatro meses de exercício aeróbico e de força supervisionado ou para cuidado habitual apenas (Lamb, 2018).

Aos 12 meses, o escore cognitivo ADAS-cog piorou um pouco mais no grupo exercício, com diferença ajustada de 1,4 pontos (Lamb, 2018). A conclusão foi direta: o programa de intensidade moderada a alta não retardou o declínio cognitivo (Lamb, 2018).

A revisão Cochrane em demência

A revisão Cochrane de Forbes incluiu 17 ensaios com 1.067 participantes com demência (Forbes, 2015). Para cognição, a evidência de benefício foi inconclusiva, com diferença padronizada de médias de 0,43 e intervalo que cruzava o zero (Forbes, 2015).

Para atividades da vida diária, o exercício mostrou benefício em seis ensaios com 289 participantes, com diferença padronizada de médias de 0,68 (Forbes, 2015). A qualidade foi muito baixa e a heterogeneidade alta, o que pede cautela (Forbes, 2015).

O que esperar

Em quem já tem demência, o exercício faz sentido por mobilidade, prevenção de quedas e autonomia, e não como tratamento do declínio cognitivo (Forbes, 2015). Essa diferença precisa ficar clara na conversa com a família. A conversa sobre tratamentos que agem na doença é outra, como mostra o texto sobre anticorpos antiamiloide e quem pode recebê-los.

Como ler a evidência em conjunto

A tabela resume os principais estudos e o que cada desenho permite concluir.

Estudo Desenho e população Principal resultado
Iso-Markku, 2022 Metanálise de 58 estudos observacionais (Iso-Markku, 2022) Risco relativo de 0,80 para demência por todas as causas (Iso-Markku, 2022)
Kivimäki, 2019 Dados individuais de 19 coortes, 404.840 pessoas (Kivimäki, 2019) Razão de riscos de 1,01 com atividade medida 10 anos ou mais antes (Kivimäki, 2019)
Whitehall II, 2017 Coorte de 10.308 adultos, seguimento médio de 27 anos (Sabia, 2017) Razão de riscos de 1,00; atividade cai até 9 anos antes do diagnóstico (Sabia, 2017)
Young, 2015 Revisão Cochrane de 12 ensaios, 754 idosos sem comprometimento (Young, 2015) Benefício cognitivo ausente nos dados disponíveis (Young, 2015)
LIFE, 2015 Ensaio com 1.635 idosos sedentários por 24 meses (Sink, 2015) Escores cognitivos iguais entre os grupos (Sink, 2015)
DAPA, 2018 Ensaio com 494 pessoas com demência leve a moderada (Lamb, 2018) Declínio cognitivo igual ou levemente pior com exercício (Lamb, 2018)
Forbes, 2015 Revisão Cochrane de 17 ensaios, 1.067 pessoas com demência (Forbes, 2015) Possível ganho em atividades da vida diária, com qualidade muito baixa (Forbes, 2015)

Por que os resultados divergem

Coortes medem hábitos ao longo de décadas, e ensaios testam programas de meses ou poucos anos. Um programa de dois anos pode ser curto demais para mudar um processo que se instala ao longo de décadas.

Além disso, ensaios com desfecho cognitivo costumam recrutar pessoas mais motivadas e saudáveis, e os grupos de controle muitas vezes também ficam mais ativos. Isso reduz a diferença entre os grupos.

Benefícios que independem da cognição

Mesmo com incerteza sobre demência, os benefícios do exercício para saúde cardiovascular, metabólica, mental e funcional estão bem estabelecidos (Bull, 2020). A diretriz da Organização Mundial da Saúde lista a saúde cognitiva entre os desfechos favorecidos pela atividade física, ao lado de mortalidade, hipertensão, diabetes e saúde mental (Bull, 2020).

O efeito sobre sintomas depressivos, outro fator de risco listado pela comissão, é discutido no texto sobre o que os ensaios mostram no exercício para depressão.

Par de botas de caminhada gastas, com cadarços soltos, sobre um tapete cinza
A caminhada, atividade aeróbica testada no ensaio de Erickson e colaboradores, é a forma mais simples de somar minutos à recomendação semanal. Crédito: Active Weekender, CC BY-SA 2.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Como orientar o paciente na prática

A orientação parte da diretriz da Organização Mundial da Saúde, que vale para a saúde geral e não depende de provar efeito sobre a demência (Bull, 2020).

Quanto se mexer

Adultos devem fazer de 150 a 300 minutos por semana de atividade aeróbica moderada, ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, ou uma combinação equivalente (Bull, 2020). A diretriz reforça que alguma atividade física é melhor que nenhuma (Bull, 2020).

O que acrescentar no idoso

Idosos devem incluir atividade multicomponente, com ênfase em equilíbrio funcional e força, em intensidade moderada ou maior, em 3 ou mais dias por semana (Bull, 2020). O objetivo declarado é melhorar a capacidade funcional e prevenir quedas (Bull, 2020).

Reduzir o tempo sentado

A diretriz também traz recomendação para reduzir o comportamento sedentário (Bull, 2020). Trocar tempo sentado por atividade de qualquer intensidade traz benefício (Bull, 2020).

Controlar os outros fatores

Como a inatividade é um fator entre 14, a orientação deve incluir os demais: pressão arterial, audição, visão, tabagismo, álcool, diabetes, colesterol, depressão e contato social (Livingston, 2024). O exercício ajuda em vários deles ao mesmo tempo (Kivimäki, 2019).

Conversar sem prometer

A forma de apresentar importa. Dizer que o exercício "previne Alzheimer" cria uma expectativa que a evidência ainda não sustenta e pode gerar culpa se a doença surgir. Técnicas que exploram a motivação do próprio paciente têm evidência própria e funcionam melhor do que o medo.

Também convém evitar investigação excessiva de quem só quer saber se deve caminhar. O conceito de cascatas de cuidado lembra que exames sem indicação clara podem fazer mais mal que bem.

Quando a queixa é de memória

Se a paciente relata esquecimento novo, o raciocínio muda: é preciso avaliar a cognição e procurar causas tratáveis. No idoso internado, a confusão aguda tem outro nome e outra urgência, como mostra o texto sobre como rastrear o delirium com o 4AT e o CAM.

De volta ao caso

A professora de 68 anos pode ouvir uma resposta clara. Ficar ativa traz benefícios certos para pressão, humor, sono, equilíbrio e capacidade funcional (Bull, 2020). Sobre demência, as coortes sugerem associação, mas a causalidade reversa e os ensaios modestos impedem prometer prevenção (Kivimäki, 2019). A meta prática é a da diretriz: 150 a 300 minutos de atividade moderada por semana, com força e equilíbrio em 3 ou mais dias (Bull, 2020).

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Para os motivos de consulta mais frequentes, veja os códigos mais comuns na atenção primária.

Perguntas frequentes

Exercício previne demência?

As coortes mostram associação entre atividade física e risco menor de demência, com risco relativo de 0,80 (Iso-Markku, 2022). Os ensaios randomizados, porém, mostram efeito cognitivo pequeno ou nulo, e a prevenção ainda carece de prova (Sink, 2015).

O que é causalidade reversa nesse tema?

É a possibilidade de a demência em fase inicial reduzir a atividade física, e não o contrário. Na coorte Whitehall II, a atividade começou a cair até 9 anos antes do diagnóstico (Sabia, 2017).

Quanto exercício a diretriz recomenda?

De 150 a 300 minutos semanais de atividade moderada, ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa (Bull, 2020). Idosos devem somar força e equilíbrio em 3 ou mais dias por semana (Bull, 2020).

Exercício aeróbico melhora a memória de idosos saudáveis?

A revisão Cochrane de 12 ensaios concluiu que os dados disponíveis não mostravam benefício cognitivo (Young, 2015). Um ensaio menor viu aumento do volume do hipocampo após um ano de caminhada (Erickson, 2011).

Exercício trata a demência já instalada?

O ensaio DAPA mostrou que exercício de intensidade moderada a alta não retardou o declínio cognitivo (Lamb, 2018). Pode haver ganho em atividades da vida diária, com evidência de muito baixa qualidade (Forbes, 2015).

Qual tipo de exercício escolher?

Aquele que a pessoa consegue manter, somando aeróbico com força e equilíbrio, como recomenda a diretriz da Organização Mundial da Saúde (Bull, 2020).

A inatividade é um fator de risco modificável?

A comissão do Lancet a inclui entre 14 fatores de risco modificáveis para demência (Livingston, 2024). A força dessa relação causal ainda é debatida (Kivimäki, 2019).

Take-home messages

  • A inatividade física está entre os 14 fatores de risco modificáveis da comissão do Lancet.
  • As coortes mostram associação entre atividade e menor risco de demência.
  • A causalidade reversa explica parte dessa associação, porque a atividade cai anos antes do diagnóstico.
  • Ensaios randomizados mostram efeito cognitivo pequeno ou nulo.
  • Em quem já tem demência, o exercício serve para função e autonomia, e não para frear o declínio cognitivo.
  • Os benefícios do exercício para a saúde geral justificam a recomendação por si.
  • Oriente pela diretriz da OMS, com força e equilíbrio no idoso.
  • Converse sem prometer prevenção de demência.

Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

  1. Livingston G, Huntley J, Liu KY, et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. Lancet. 2024. PMID 39096926. DOI 10.1016/S0140-6736(24)01296-0.
  2. Iso-Markku P, Kujala UM, Knittle K, et al. Physical activity as a protective factor for dementia and Alzheimer's disease: systematic review, meta-analysis and quality assessment of cohort and case-control studies. Br J Sports Med. 2022. PMID 35301183. DOI 10.1136/bjsports-2021-104981.
  3. Kivimäki M, Singh-Manoux A, Pentti J, et al. Physical inactivity, cardiometabolic disease, and risk of dementia: an individual-participant meta-analysis. BMJ. 2019. PMID 30995986. DOI 10.1136/bmj.l1495.
  4. Sabia S, Dugravot A, Dartigues JF, et al. Physical activity, cognitive decline, and risk of dementia: 28 year follow-up of Whitehall II cohort study. BMJ. 2017. PMID 28642251. DOI 10.1136/bmj.j2709.
  5. Young J, Angevaren M, Rusted J, Tabet N. Aerobic exercise to improve cognitive function in older people without known cognitive impairment. Cochrane Database Syst Rev. 2015. PMID 25900537. DOI 10.1002/14651858.CD005381.pub4.
  6. Sink KM, Espeland MA, Castro CM, et al. Effect of a 24-Month Physical Activity Intervention vs Health Education on Cognitive Outcomes in Sedentary Older Adults: The LIFE Randomized Trial. JAMA. 2015. PMID 26305648. DOI 10.1001/jama.2015.9617.
  7. Erickson KI, Voss MW, Prakash RS, et al. Exercise training increases size of hippocampus and improves memory. Proc Natl Acad Sci U S A. 2011. PMID 21282661. DOI 10.1073/pnas.1015950108.
  8. Lamb SE, Sheehan B, Atherton N, et al. Dementia And Physical Activity (DAPA) trial of moderate to high intensity exercise training for people with dementia: randomised controlled trial. BMJ. 2018. PMID 29769247. DOI 10.1136/bmj.k1675.
  9. Forbes D, Forbes SC, Blake CM, Thiessen EJ, Forbes S. Exercise programs for people with dementia. Cochrane Database Syst Rev. 2015. PMID 25874613. DOI 10.1002/14651858.CD006489.pub4.
  10. Bull FC, Al-Ansari SS, Biddle S, et al. World Health Organization 2020 guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Br J Sports Med. 2020. PMID 33239350. DOI 10.1136/bjsports-2020-102955.

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