Edema pulmonar de altitude na tripulação em escala alta

Sumário
- Por que este é um cenário de raciocínio
- Quando e em quem acontece
- Como o quadro se apresenta
- Fisiopatologia: um vazamento por pressão
- O diagnóstico diferencial
- Exames: o que ajuda no local
- Tratamento: descer, oxigênio e vasodilatador
- Prevenção nas próximas escalas
- A cena revista hora a hora
- Raciocínio: o que fica do caso
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Checklist final
- Referências
Uma comissária de bordo de 35 anos está na segunda noite de uma escala numa cidade a mais de 3500 metros de altitude. No primeiro dia, ela subiu a pé uma ladeira longa com a tripulação e achou que estava mais cansada que os colegas. Na segunda noite, acorda com tosse seca e falta de ar mesmo deitada. O médico chamado ao hotel ouve crepitações na base direita, mede temperatura um pouco acima do normal e vê no oxímetro uma saturação bem abaixo do esperado, mesmo para a altitude. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.
O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.
Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico. A armadilha é tentadora: tosse, febre baixa e crepitações em base fazem pensar em pneumonia, e a conduta natural seria antibiótico e repouso no hotel. Se o quadro for edema pulmonar de altitude, ficar na altitude é o erro. O texto não é resumo de regras de escala de tripulação. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: o lugar onde a pessoa está muda o diagnóstico mais provável.
Principais pontos
- O edema pulmonar de altitude aparece acima de 2500 a 3000 metros, em geral em 1 a 5 dias.
- Os primeiros sinais são falta de ar ao esforço maior que a dos colegas, tosse leve e aperto no peito.
- Febre baixa e crepitações fazem parte do quadro e podem imitar pneumonia.
- Descer ou dar oxigênio é o tratamento principal.
- A nifedipina de liberação prolongada é o vasodilatador mais usado quando faltam descida e oxigênio.
- Diurético não faz parte do tratamento padrão.
Por que este é um cenário de raciocínio
O caso junta um ambiente que muda a fisiologia, uma pessoa saudável e um quadro respiratório que parece comum. Uma revisão sobre as doenças agudas de altitude descreve que, entre 1 e 5 dias depois de chegar a altitudes de 2500 metros ou mais, a pessoa corre risco de três formas de doença: o mal agudo da montanha, o edema cerebral e o edema pulmonar de altitude (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). A comissária está exatamente nessa janela.
Tripulações que fazem escalas em aeroportos altos chegam sem aclimatação, muitas vezes depois de uma noite de trabalho e com pouco sono. Os mesmos autores lembram que a falta de aclimatação é o principal fator de risco e que a subida rápida é o fator mais importante para a doença (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). Um voo leva a pessoa do nível do mar à altitude em poucas horas, sem nenhuma adaptação.
O que a cena ensina
A comissária traz uma pista de esforço no primeiro dia e uma pista de repouso no segundo. A progressão é típica. O post sobre sinais, sintomas e história mostra como a sequência dos sintomas pode ser mais informativa que qualquer achado isolado.
Quando e em quem acontece
A revisão de Luks e colaboradores situa o edema pulmonar de altitude em pessoas saudáveis acima de 2500 a 3000 metros, dentro de 1 a 5 dias da chegada (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). Uma revisão mais recente sobre edemas pulmonares induzidos pelo ambiente descreve que o quadro costuma se desenvolver em 1 a 2 dias acima de 3000 metros e que pode acometer pessoas saudáveis e muitas vezes jovens (Tetzlaff, Swenson e Bärtsch, 2022).
A suscetibilidade varia muito entre pessoas. Na mesma revisão, a frequência em quem sobe a 4559 metros em 24 horas é de cerca de 6 em cada 100 entre montanhistas sem história prévia e de 62 em cada 100 entre os que já tiveram o quadro (Tetzlaff, Swenson e Bärtsch, 2022). Luks e colaboradores descrevem uma probabilidade de 60 em cada 100 de repetir o edema com subida de 1 a 2 dias à mesma altitude em quem já teve o quadro documentado (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017).
A frequência também depende da velocidade de subida. Uma revisão indiana estima o edema em 0,01 a 0,1 em cada 100 visitantes de estações de esqui do Colorado, em cerca de 4 em cada 100 entre quem sobe mais de 600 metros por dia no Himalaia e nos Alpes, e em até 15 em cada 100 soldados levados de avião a 5500 metros (Paralikar, 2012). O transporte aéreo direto para uma cidade alta é justamente a subida rápida que aumenta o risco.
A pergunta sobre escalas anteriores
Para a comissária, isso torna uma pergunta essencial: ela já teve falta de ar, tosse ou cansaço incomum em escalas anteriores na mesma cidade? Uma história positiva aumenta muito a probabilidade do diagnóstico agora e muda o planejamento das próximas escalas. O post sobre taxa básica no diagnóstico lembra que a frequência de uma doença num grupo específico pesa antes de qualquer exame.
Como o quadro se apresenta
Os sintomas iniciais descritos por Luks e colaboradores são falta de ar ao esforço desproporcional em relação aos companheiros, tosse leve, aperto no peito e queda do desempenho físico (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). À medida que o edema avança, a tosse e a dispneia pioram e surge a ortopneia. Gorgolejo no peito e escarro rosado e espumoso indicam casos avançados.
O exame mostra cianose, taquipneia, taquicardia, temperatura levemente elevada e crepitações à ausculta (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). No caso, a comissária teve o cansaço maior que o dos colegas no primeiro dia e, no segundo, tosse e dispneia em repouso com crepitações e febre baixa. A apresentação é a descrita na revisão, e não um quadro atípico.
A gravidade escondida
A hipoxemia pode ser muito intensa. A revisão de Luks e colaboradores relata que, em casos avançados a 4559 metros, a pressão arterial de oxigênio média ficou em torno de 20 e poucos mmHg, contra 35 a 45 mmHg em controles saudáveis na mesma altitude (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). Tetzlaff e colaboradores estimam uma mortalidade de cerca de 50 em cada 100 sem tratamento adequado, e lembram que os sintomas, exceto a menor tolerância ao esforço, desaparecem em horas depois de descer rapidamente (Tetzlaff, Swenson e Bärtsch, 2022).

Fisiopatologia: um vazamento por pressão
O centro do mecanismo é a vasoconstrição pulmonar hipóxica. Em resposta ao ar com menos oxigênio, as arteríolas pulmonares se contraem. Nas pessoas suscetíveis, essa resposta é exagerada e desigual. A revisão de Luks e colaboradores descreve que a elevação exagerada da pressão na artéria pulmonar vem acompanhada de pressão microvascular acima de 20 mmHg, um limiar para a formação de edema alveolar (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017).
Os autores citam três mecanismos propostos: vazamento nas arteríolas, vasoconstrição hipóxica desigual entre regiões e constrição das veias (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). Se a vasoconstrição é desigual, o fluxo se concentra onde ela é menor, a pressão nos capilares sobe e o líquido extravasa. Num estudo suíço com montanhistas que subiram a 4559 metros, os 8 que tiveram edema, no segundo ou no terceiro dia, já mostravam antes do quadro evidente uma queda maior da capacidade vital forçada que os 10 controles e uma saturação noturna mais baixa (Clarenbach e colaboradores, 2012). As mudanças são compatíveis com pulmão menos complacente e troca gasosa prejudicada.
Edema sem inflamação no começo
O líquido do lavado broncoalveolar no edema inicial mostra um padrão de edema hidrostático não cardiogênico e não inflamatório (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). A pressão altera a permeabilidade da barreira entre alvéolo e capilar ou causa lesão mecânica direta, que os autores chamam de falha de estresse capilar. Isso explica por que a distribuição na imagem é irregular e por que reduzir a pressão na artéria pulmonar, com descida, oxigênio ou vasodilatador, funciona.
O post sobre ligar mecanismo e sintoma mostra como esse tipo de raciocínio ajuda a prever o tratamento. Se o problema é pressão, a solução é baixar a pressão. Se fosse infecção, o tratamento seria outro.
O diagnóstico diferencial
Tosse, dispneia, febre baixa e crepitações têm várias explicações. As hipóteses que a cena exige considerar são:
- Edema pulmonar de altitude.
- Pneumonia comunitária.
- Insuficiência cardíaca descompensada.
- Embolia pulmonar, sobretudo depois de voo longo.
- Infecção viral respiratória, incluindo COVID.
- Asma ou broncoespasmo agravado pelo ar frio e seco.
A pneumonia é o diferencial mais perigoso de confundir, porque o tratamento errado mantém a pessoa na altitude. A febre baixa e as crepitações aparecem nas duas condições. O que pesa a favor do edema é o contexto: chegada recente à altitude, piora ao esforço no primeiro dia e progressão para dispneia em repouso no segundo.
Edema de altitude não é COVID
Durante a pandemia, surgiu a ideia de tratar a lesão pulmonar da COVID como se fosse edema de altitude. Luks e Swenson argumentam que, apesar de semelhanças como hipoxemia, opacidades na imagem e mudança da complacência pulmonar, os mecanismos das duas condições são fundamentalmente diferentes e não podem ser vistos como equivalentes (Luks e Swenson, 2020). Os autores alertam que vasodilatadores e acetazolamida, úteis na altitude, não devem ser usados na COVID.
O raciocínio vale nos dois sentidos. Uma comissária com teste positivo para vírus respiratório numa cidade alta pode ter as duas coisas, e o tratamento de uma não substitui o da outra. O post sobre diagnóstico diferencial com pistas mostra como manter as hipóteses abertas até que o contexto e os exames decidam.
Fechar cedo demais
O médico do hotel vê uma mulher com febre, tosse e crepitação em base. A pneumonia é a primeira explicação que vem à cabeça. Uma revisão turca sobre doenças de altitude lembra que a queda do desempenho físico e a tosse seca são os sintomas mais precoces do edema pulmonar, e que ele pode levar à morte em horas a dias se não for reconhecido (Aksel e colaboradores, 2019). O post sobre pausa diagnóstica ajuda a criar o hábito de perguntar "o que mais poderia ser?" antes de fechar.
Exames: o que ajuda no local
Na altitude, os recursos são limitados e o diagnóstico é sobretudo clínico. A radiografia e a TC no edema sintomático mostram uma distribuição irregular, periférica e nodular do edema (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). A imagem da revisão mostra um montanhista com edema predominante do lado direito, o que lembra que a assimetria não afasta o diagnóstico.
O ultrassom de tórax tem sido estudado no local. Num estudo prospectivo chinês com 148 pacientes com suspeita de edema pulmonar de altitude, 126 tiveram o diagnóstico confirmado, e o ultrassom teve sensibilidade de cerca de 98 e especificidade de cerca de 91 em cada 100. Foi mais sensível que as crepitações e que a radiografia, e acompanhou bem a melhora depois do tratamento (Yang e colaboradores, 2018). Há um cuidado: num estudo com 42 visitantes saudáveis a 2745 metros, todos tinham linhas B nas bases pulmonares no terceiro dia (Lahham e colaboradores, 2023). Algumas linhas B sozinhas, sem quadro clínico, não fecham o diagnóstico.
O oxímetro como aliado
A saturação de oxigênio na altitude é mais baixa que ao nível do mar em qualquer pessoa. O que chama atenção é uma saturação muito abaixo da de colegas na mesma altitude, e uma saturação que melhora pouco com repouso. No caso, a saturação da comissária ficou bem abaixo da dos colegas, o que reforça o diagnóstico. As fontes lidas não definem um alvo numérico de saturação para esse cenário, e por isso o texto não traz esse número.
| Pista | Favorece edema pulmonar de altitude | Fonte |
|---|---|---|
| Chegada recente acima de 2500 a 3000 metros | Janela de 1 a 5 dias | Luks, Swenson e Bärtsch, 2017 |
| Dispneia ao esforço maior que a dos companheiros | Sintoma inicial típico | Luks, Swenson e Bärtsch, 2017 |
| Febre baixa e crepitações | Fazem parte do quadro | Luks, Swenson e Bärtsch, 2017 |
| Edema irregular e periférico na imagem | Padrão descrito na radiografia e na TC | Luks, Swenson e Bärtsch, 2017 |
| Episódio prévio em subida parecida | Recidiva frequente | Tetzlaff, Swenson e Bärtsch, 2022 |
| Melhora em horas com descida | Reforça o diagnóstico | Tetzlaff, Swenson e Bärtsch, 2022 |
Tratamento: descer, oxigênio e vasodilatador
O tratamento depende do lugar. Luks e colaboradores descrevem que pacientes conscientes, com acesso a serviços de saúde, muitas vezes não precisam descer e podem ser tratados com oxigênio suplementar e observação próxima (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). Em locais remotos ou com poucos recursos, a pessoa deve descer ou, se não for possível, receber oxigênio ou ficar numa câmara hiperbárica portátil, junto com um vasodilatador pulmonar.
Luks e Swenson resumem o mesmo princípio: o tratamento principal é o oxigênio suplementar ou, quando ele falta, a descida (Luks e Swenson, 2020). Para a comissária numa cidade com hospital, oxigênio e observação podem bastar. Se não houver oxigênio disponível, o voo de volta para uma altitude menor passa a ser parte do tratamento.
Nifedipina e tadalafila
Quando descida e oxigênio não estão disponíveis, a nifedipina de liberação prolongada é o agente preferido para o tratamento, segundo a revisão (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). A tabela de medicamentos da mesma revisão traz nifedipina de liberação prolongada 30 mg a cada 12 horas no tratamento e tadalafila 10 mg a cada 12 horas como alternativa, com o aviso de que a tadalafila não deve ser associada à nifedipina.
A base é pequena. Os autores apoiam a preferência pela nifedipina num estudo pequeno e sem grupo controle, e descrevem o uso de inibidores da fosfodiesterase 5 com base em relatos isolados (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). Uma revisão evolutiva lembra que, sem tratamento, a mortalidade se aproxima de 50 em cada 100 e que descer para uma altitude menor é curativo (Woods e Alcock, 2021).
O que não fazer
A revisão de Luks e colaboradores afirma que diuréticos não fazem parte dos protocolos padrão, porque muitos pacientes estão com volume depletado no momento da doença e o diurético aumenta o risco de hipotensão (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). A lógica do edema cardiogênico não se aplica aqui, porque o coração não é a causa. Antibiótico pode fazer sentido se houver dúvida real de pneumonia, mas não substitui descer ou dar oxigênio.

Prevenção nas próximas escalas
A melhor prevenção não é um remédio. Luks e colaboradores afirmam que, como a subida rápida demais continua sendo o principal fator de risco, a subida lenta até a altitude final é o melhor método para prevenir a doença (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). Para uma tripulação que chega de avião, subir devagar não é possível, o que torna a história pessoal e o planejamento das escalas ainda mais importantes.
Para quem já teve edema pulmonar de altitude, a prevenção com medicamento tem evidência. Uma revisão clínica de 2026 resume o ensaio randomizado de 1991 com 21 montanhistas com história de edema: numa nova subida a 4559 metros, o quadro apareceu em 7 de 11 que receberam placebo e em 1 de 10 que receberam nifedipina (Adhikari e colaboradores, 2026). Luks e colaboradores descrevem que tadalafila, dexametasona e salmeterol também preveniram o edema em pessoas suscetíveis, este último com efeito menor (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017).
Como a revisão organiza a prevenção
A tabela 2 da revisão de Luks e colaboradores traz as mesmas doses do tratamento para a prevenção, nifedipina de liberação prolongada 30 mg a cada 12 horas ou tadalafila 10 mg a cada 12 horas, e reserva a prevenção com medicamento sobretudo para quem já teve o quadro (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). A revisão de 2026, com base na diretriz da sociedade de medicina de áreas remotas, descreve o início 24 horas antes da subida e a manutenção até o início da descida, ou por 4 a 7 dias depois de chegar à altitude máxima, o que vier primeiro (Adhikari e colaboradores, 2026). Ela lembra também que, na maioria dos países europeus, esses medicamentos não têm registro para prevenir doença de altitude.
Para a comissária, isso significa uma conversa com o médico do trabalho sobre escalas futuras. A decisão envolve a altitude da cidade, o tempo de permanência, a história pessoal e as regras da empresa, que este texto não resume. O post sobre raciocínio prognóstico mostra como o diagnóstico de hoje muda o planejamento de amanhã.
A cena revista hora a hora
Reler o caso em ordem ajuda a ver onde cada pista entrou. No primeiro dia, a comissária chegou de avião, sem aclimatação, depois de uma jornada de trabalho. Subir a ladeira com a tripulação e sentir mais cansaço que os colegas é exatamente a dispneia de esforço desproporcional que a revisão descreve como sintoma inicial (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). Naquele momento, ninguém pensaria em doença, e é por isso que a pista costuma se perder.
Na primeira noite, ela dormiu na altitude. A revisão lembra que as altitudes de risco se referem à altitude em que a pessoa dorme (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017). Uma escala que inclui pernoite numa cidade alta expõe a tripulação de um jeito diferente de uma parada curta no aeroporto.
Na segunda noite, a tosse seca e a falta de ar deitada mostram a progressão para ortopneia. As crepitações na base direita e a febre baixa completam o quadro clínico descrito na revisão. A saturação muito abaixo da dos colegas indica que a troca gasosa já está comprometida. Cada pista sozinha teria outra explicação, mas juntas, no tempo certo e no lugar certo, apontam para o edema.
O que o médico do hotel pode fazer
A decisão prática tem poucos passos. Pedir oxigênio e uma avaliação num serviço de saúde, se houver. Se não houver oxigênio, organizar a descida, que no caso de uma tripulação pode ser o voo para uma cidade mais baixa, com acompanhamento. Manter a pneumonia como hipótese associada, sem deixar que ela atrase a medida principal. Registrar o episódio para o planejamento das escalas futuras.
O post sobre sinais, sintomas e história volta a ser útil aqui: um conjunto de sinais, junto, vale mais que cada um isolado.
Raciocínio: o que fica do caso
O cenário ensina a ler o lugar como parte do diagnóstico. Os mesmos sintomas no nível do mar e a 3500 metros apontam para doenças diferentes. A segunda lição é sobre o mecanismo: entender que o edema é um vazamento por pressão explica por que descer, dar oxigênio ou usar vasodilatador funciona, e por que diurético não ajuda.
A terceira lição é sobre a urgência. Uma doença que pode matar em poucos dias e melhora em horas com descida pede decisão rápida, mesmo com dúvida. O post sobre incerteza diagnóstica discute como agir quando a dúvida não pode esperar, e o texto sobre tomada de decisão clínica mostra como escolher a conduta que protege o paciente das duas hipóteses principais.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas. Você propõe um diagnóstico buscando o código na CID-10 e recebe um retorno de proximidade em cinco níveis, que mostra se o palpite ficou no código exato, na mesma categoria, no mesmo grupo, no mesmo capítulo ou em outro capítulo. Esse formato combina com o tema deste texto: pneumonia e edema de altitude ficam no mesmo capítulo, mas pedem condutas opostas. O post sobre CID-10 mostra como achar o código certo.
Para usar o caso do dia como treino, experimente três hábitos. Antes do primeiro palpite, pergunte onde a pessoa está e há quanto tempo. A cada pista, veja se ela muda a conduta ou só confirma o que você já pensava. Depois do resultado, anote se o primeiro diagnóstico plausível fechou a sua lista.
Três exercícios com casos
Pergunte pelo lugar. Para cada caso, escreva a altitude, o clima e o tempo desde a chegada.
Ligue mecanismo e conduta. Escreva o mecanismo da hipótese principal e o tratamento que decorre dele.
Teste a conduta oposta. Pergunte o que aconteceria se você tratasse a hipótese vizinha em vez da principal.
O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos mostra como casos ajudam a fixar esse hábito.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
O edema pulmonar de altitude pode acontecer em pessoas saudáveis?
Sim. Ele ocorre em pessoas saudáveis acima de 2500 a 3000 metros, em 1 a 5 dias (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017).
Febre baixa pode fazer parte do quadro?
Sim. Temperatura levemente elevada e crepitações estão entre os achados do exame (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017).
Oxigênio e observação podem bastar perto de um hospital?
Sim. Pacientes conscientes com acesso a serviço de saúde muitas vezes são tratados com oxigênio e observação próxima (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017).
A nifedipina ajuda quando não há oxigênio nem descida?
Sim. A nifedipina de liberação prolongada é o agente preferido nessa situação (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017).
Quem já teve o quadro pode se prevenir?
Sim. Nifedipina e tadalafila preveniram o edema em pessoas suscetíveis (Luks, Swenson e Bärtsch, 2017; Adhikari e colaboradores, 2026).
Checklist final
- Perguntei a altitude e há quanto tempo a pessoa chegou.
- Perguntei por episódios parecidos em escalas ou viagens anteriores.
- Valorizei a falta de ar ao esforço maior que a dos colegas.
- Lembrei que febre baixa e crepitações fazem parte do edema de altitude.
- Mantive pneumonia, insuficiência cardíaca e embolia no diferencial.
- Comparei a saturação com a de colegas na mesma altitude.
- Ofereci oxigênio e observação, ou organizei a descida.
- Reservei a nifedipina para quando oxigênio ou descida faltam.
- Evitei diurético.
- Planejei a prevenção das próximas escalas com o médico do trabalho.
Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.
Referências
- Adhikari S, Zimmer R, Brugger H, et al. Prevention of altitude illness in adults: preparing people for travel to high altitude. BMJ. 2026. PMID 42686358.
- Aksel G, Çorbacıoğlu ŞK, Özen C. High-altitude illness: Management approach. Turk J Emerg Med. 2019. PMID 31687609.
- Clarenbach CF, Senn O, Christ AL, et al. Lung function and breathing pattern in subjects developing high altitude pulmonary edema. PLoS One. 2012. PMID 22829927.
- Lahham S, Moeller J, Choi H, et al. Application of Point-of-care Ultrasound for Screening Climbers at High Altitude for Pulmonary B-lines. West J Emerg Med. 2023. PMID 36976605.
- Luks AM, Swenson ER, Bärtsch P. Acute high-altitude sickness. Eur Respir Rev. 2017. PMID 28143879.
- Luks AM, Swenson ER. COVID-19 Lung Injury and High-Altitude Pulmonary Edema. A False Equation with Dangerous Implications. Ann Am Thorac Soc. 2020. PMID 32735170.
- Paralikar SJ. High altitude pulmonary edema-clinical features, pathophysiology, prevention and treatment. Indian J Occup Environ Med. 2012. PMID 23580834.
- Tetzlaff K, Swenson ER, Bärtsch P. An update on environment-induced pulmonary edema: "When the lungs leak under water and in thin air". Front Physiol. 2022. PMID 36277204.
- Woods P, Alcock J. High-altitude pulmonary edema. Evol Med Public Health. 2021. PMID 33732460.
- Yang W, Wang Y, Qiu Z, et al. Lung Ultrasound Is Accurate for the Diagnosis of High-Altitude Pulmonary Edema: A Prospective Study. Can Respir J. 2018. PMID 30364105.