Calor e cérebro: epilepsia, AVC e esclerose múltipla

Sumário
Num caso fictício, uma professora de 42 anos com esclerose múltipla remitente-recorrente chega ao pronto atendimento no terceiro dia de uma onda de calor. Ela teve neurite óptica no olho esquerdo há quatro anos. Desde a tarde anterior, depois de corrigir provas numa sala sem ventilação, a visão desse olho ficou borrada e as pernas parecem mais fracas e cansadas. Ela pergunta se é um novo surto e se precisa de corticoide.
A pergunta é boa porque o calor costuma imitar uma piora da doença. A Organização Mundial da Saúde (OMS) lembra que o calor agrava doenças crônicas e que os profissionais de saúde precisam ajustar suas orientações a uma exposição cada vez maior (OMS, Heat and health). Na neurologia, o efeito aparece de formas diferentes em cada doença: sintomas transitórios na esclerose múltipla, mais crises em parte das pessoas com epilepsia, gatilho para AVC, piora de quem tem demência ou Parkinson e interação com remédios de uso contínuo.
Este texto usa as publicações da OMS como eixo e reúne revisões e estudos recentes de vários continentes, para ajudar quem atende a reconhecer o efeito do calor e a orientar pacientes neurológicos.
Principais pontos
- A Academia Europeia de Neurologia resume que o calor pode aumentar o risco de AVC, aumentar o risco de crises e piorar os sintomas da esclerose múltipla, o chamado fenômeno de Uhthoff (Caronna et al., 2026).
- Na esclerose múltipla, 60 a 80 por cento dos pacientes têm piora temporária dos sintomas quando a temperatura do corpo sobe, segundo revisão sistemática recente (Pereira et al., 2026).
- Em Taiwan, cada aumento interquartil do índice de bulbo úmido e termômetro de globo elevou em cerca de 8 por cento a chance de ida à emergência por crise epiléptica no mesmo dia (Chang et al., 2025).
- O calor úmido e as ondas de calor aparecem como gatilho imediato de AVC, embora o frio ainda responda pela maior parte da carga de AVC ligada à temperatura (Ali et al., 2026).
- Diuréticos, inibidores da ECA, bloqueadores do receptor de angiotensina, anticolinérgicos e antipsicóticos são as classes mais associadas a doença pelo calor em idosos (Tews et al., 2026).
- Por que o cérebro sofre com o calor
- Esclerose múltipla e o fenômeno de Uhthoff
- Epilepsia e crises
- AVC
- Demência e doença de Parkinson
- Remédios que atrapalham a perda de calor
- O que orientar, com a OMS como eixo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
Por que o cérebro sofre com o calor
O corpo mantém a temperatura central estável graças a um sistema coordenado pelo hipotálamo, que aumenta o fluxo de sangue para a pele e o suor quando o ambiente esquenta. A OMS descreve que, quando esse sistema não consegue eliminar o calor recebido do ambiente, sobem os riscos de exaustão e de golpe de calor, e o esforço para resfriar o corpo sobrecarrega o coração e os rins (OMS, Heat and health).
As doenças neurológicas mexem justamente com esse sistema. Uma revisão sistemática publicada em 2026 reuniu 13 estudos e concluiu que pacientes com epilepsia, AVC, esclerose múltipla, doença de Parkinson, doença de Alzheimer e esclerose lateral amiotrófica têm menor capacidade de adaptação fisiológica ao calor (Pereira et al., 2026). A mesma revisão descreve os mecanismos estudados em laboratório: estresse oxidativo, disfunção mitocondrial, excitotoxicidade, neuroinflamação e prejuízo da microcirculação cerebral.
O calor também age por caminhos indiretos. Ele piora o sono, que é gatilho conhecido de crises, e pode reduzir a estabilidade de remédios guardados em lugares quentes e úmidos (Gulcebi et al., 2025). Para quem tem uma doença neurológica crônica, cada um desses efeitos pode ser o empurrão que faltava para descompensar.
Há ainda um ponto de saúde pública. Um relatório de conferência internacional sobre clima e cérebro lembrou que apenas metade dos países com índice de desenvolvimento humano muito alto tem sistemas de alerta de calor para a saúde, e que a falta de preparo dos serviços apareceu até no relato de um atleta experiente que desmaiou numa maratona com doença pelo calor de manejo difícil (Mills et al., 2024). Em países de renda baixa e média o cenário costuma ser mais difícil.
Esclerose múltipla e o fenômeno de Uhthoff
A sensibilidade ao calor é uma característica clássica da esclerose múltipla. A revisão sistemática de 2026 registra que o aumento da temperatura do corpo, por exercício ou por calor ambiental, piora temporariamente sintomas cognitivos, motores, visuais e a fadiga em 60 a 80 por cento dos pacientes (Pereira et al., 2026). O mecanismo descrito é a falha de condução do impulso nos axônios desmielinizados, somada a uma distribuição anormal do suor.
O limiar é baixo. Um estudo experimental lembra que fadiga, visão borrada e fraqueza surgem ou pioram com elevação da temperatura central de cerca de 0,5 °C, e que alguns pacientes relatam efeito com elevações de apenas 0,2 °C (English et al., 2025). Nesse estudo, pessoas com esclerose múltipla e neurite óptica prévia foram aquecidas com uma roupa de água quente até subir 0,6 °C na temperatura central. O aquecimento piorou os sintomas visuais e reduziu a amplitude dos potenciais evocados visuais no olho afetado.
O mesmo estudo testou bolsas frias nas costas durante o aquecimento. Elas reduziram pouco a sensação de calor e não evitaram a piora visual, o que sugere que o que pesa é a temperatura central, e não apenas a sensação na pele (English et al., 2025). Na prática, resfriar o ambiente e o corpo inteiro tende a importar mais do que medidas localizadas.

Pseudossurto ou surto verdadeiro
A piora pelo calor pode parecer um surto, mas costuma regredir quando a temperatura volta ao normal. A revisão sistemática descreve que essa piora pode causar "surtos" de curta duração sem mudança na neuroimagem (Pereira et al., 2026). Algumas pistas ajudam a separar as duas situações:
- sintomas que já existiam antes e voltaram a aparecer, sem déficit novo;
- relação clara com exposição ao calor, exercício, banho quente ou febre;
- melhora em horas depois do resfriamento e do repouso;
- ausência de febre por infecção, que também eleva a temperatura e pode desencadear pseudossurto;
- déficit novo ou que persiste além de um dia, que pede avaliação de surto verdadeiro.
Calor e procura por atendimento
O efeito aparece também nos serviços. Nos Estados Unidos, calor fora do normal, mais de 1,5 °C acima da média mensal de longo prazo, associou-se a mais visitas de emergência e internações de pessoas com esclerose múltipla (Pereira et al., 2026). Um estudo de Chicago que examinou todos os diagnósticos de quase um milhão de atendimentos agudos encontrou a esclerose múltipla entre os diagnósticos com mais chance de atendimento nos dias seguintes ao calor extremo (Jang et al., 2026).
Epilepsia e crises
A OMS estima que cerca de 50 milhões de pessoas vivem com epilepsia no mundo, e que perto de 80 por cento delas estão em países de renda baixa e média (OMS, Epilepsy). Isso significa que a maior parte das pessoas com epilepsia vive justamente nas regiões mais expostas ao calor e com menos recursos para se proteger.
A relação entre calor e crises existe, mas é heterogênea. O maior estudo recente veio de Taiwan e analisou 187.657 atendimentos de emergência por crise epiléptica entre 2007 e 2017 (Chang et al., 2025). O risco subiu de forma linear com o índice de bulbo úmido e termômetro de globo, sem um limiar a partir do qual o efeito começasse, e foi maior no próprio dia da exposição.
Outros estudos encontraram resultados diferentes. A revisão sistemática de 2026 cita um estudo norte-americano sem associação entre calor ambiental e visitas de emergência por epilepsia, e outro com queda no risco de internação por crise no dia seguinte a temperaturas acima de 20 °C, o que sugere uma relação bimodal (Pereira et al., 2026). A mesma revisão destaca que a privação de sono, gatilho conhecido de crises, piora nas ondas de calor.
Crises febris em crianças
Nas crianças pequenas, a temperatura do ambiente se cruza com a febre. Um estudo no Japão analisou 3.201 atendimentos de ambulância por crise associada a febre em menores de 7 anos (Matsumoto et al., 2026). O risco subiu tanto no frio moderado quanto no calor moderado, com efeito que apareceu dias depois da exposição, o que os autores atribuem principalmente a infecções. A OMS lembra que baixar a temperatura de uma criança com febre reduz a chance de crise febril (OMS, Epilepsy).
Acesso ao tratamento
O calor pesa mais onde o tratamento já falta. A OMS estima que até 70 por cento das pessoas com epilepsia poderiam ficar livres de crises com diagnóstico e tratamento adequados, mas cerca de três quartos das pessoas com epilepsia em países de baixa renda não recebem o tratamento de que precisam (OMS, Epilepsy). Eventos climáticos extremos podem interromper cadeias de fornecimento de anticrises, e a adesão ao tratamento depende de que o remédio chegue (Gulcebi et al., 2025). Em países da África Subsaariana, relatos apontam relação entre temperaturas mais altas e piora das crises, além de mais internações nos meses quentes (Mills et al., 2024).
AVC
O AVC é uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo, e a relação com a temperatura é a mais estudada da neurologia. Uma revisão de 2026 sobre exposições ambientais conclui que o calor é um dos gatilhos ambientais imediatos mais claros de AVC, sobretudo com umidade alta, índice de calor elevado ou onda de calor (Ali et al., 2026).
Os números variam conforme o lugar. No registro nacional de AVC de Israel, um índice de calor de 100 °F comparado com 80 °F associou-se a um risco de AVC cerca de 40 por cento maior no dia do evento, e na província de Hunan, na China, as ondas de calor aumentaram as internações por AVC isquêmico, ainda mais com umidade alta (Ali et al., 2026). Os mecanismos propostos são desidratação, hemoconcentração, variação da pressão arterial, ativação autonômica, disfunção endotelial e tendência pró-trombótica.
A revisão sistemática de 2026 lembra que o frio também conta. Estudos no Canadá e na Espanha encontraram mais internações por AVC em temperaturas baixas, e os autores consideram os dados inconclusivos (Pereira et al., 2026). A revisão sobre exposições ambientais acrescenta que a temperatura baixa ainda responde pela maior parte da carga de AVC atribuída à temperatura, mas a parte ligada ao calor cresce rápido, sobretudo em idosos e em populações socialmente vulneráveis (Ali et al., 2026).
O déficit agudo no dia quente
Para quem atende, a consequência é dupla. O calor aumenta a chance de AVC verdadeiro e, ao mesmo tempo, pode piorar déficits antigos e produzir confusão, tontura e fraqueza que lembram AVC. O raciocínio de imitadores de AVC continua valendo: hipoglicemia, crise, desidratação e piora de lesão antiga entram no diferencial antes de concluir pelo evento vascular novo.
Demência e doença de Parkinson
Na doença de Parkinson, a falha autonômica altera o suor e a regulação da temperatura. A revisão sistemática de 2026 cita dados da Espanha em que, nas ondas de calor de 2008 e 2009, cada grau acima de 34 °C associou-se a aumento de 11,5 por cento nas internações de emergência e de 12 por cento na mortalidade de pessoas com Parkinson (Pereira et al., 2026). Os mesmos autores ressaltam que alguns estudos sobre Parkinson e calor têm resultados conflitantes.
Na demência, a termorregulação já prejudicada pela idade piora com a doença, e o paciente muitas vezes não percebe a sede nem consegue se proteger sozinho. Na Inglaterra, o risco de internação relacionada à demência subiu 4,5 por cento a cada grau acima de 17 °C, e nove de 11 estudos em oito países associaram temperaturas altas a piora dos sintomas, mais internações e mais mortes (Pereira et al., 2026).
O sono é outro elo. O relatório da conferência sobre clima e cérebro destacou que o aumento da temperatura prejudica o sono, sobretudo em idosos e em pessoas com demência (Mills et al., 2024). Noites quentes, sono ruim e desidratação formam um caminho conhecido para o delirium hipoativo no idoso, que costuma passar despercebido.
Comparação entre as condições
| Condição | Efeito do calor descrito | Força da evidência | Fonte |
|---|---|---|---|
| Esclerose múltipla | Piora temporária dos sintomas em 60 a 80 por cento; mais idas à emergência | Consistente | Pereira et al., 2026; Jang et al., 2026 |
| Epilepsia | Mais crises no mesmo dia em Taiwan, sem limiar | Heterogênea, relação bimodal em alguns estudos | Chang et al., 2025; Pereira et al., 2026 |
| Crise febril na criança | Risco no frio e no calor moderados, com atraso de dias | Um estudo regional | Matsumoto et al., 2026 |
| AVC | Gatilho imediato com calor úmido e ondas de calor | Moderada, frio também conta | Ali et al., 2026 |
| Doença de Parkinson | Mais internações e mortes por grau acima de 34 °C | Limitada, com resultados conflitantes | Pereira et al., 2026 |
| Demência | Mais internações a cada grau acima de 17 °C | Consistente em vários países | Pereira et al., 2026 |
Remédios que atrapalham a perda de calor
Muitos pacientes neurológicos usam remédios que interferem no suor, na hidratação ou na pressão arterial. Uma revisão de escopo com 61 estudos primários mostrou que diuréticos, inibidores da ECA, bloqueadores do receptor de angiotensina, anticolinérgicos e antipsicóticos foram as classes mais associadas a doença pelo calor em idosos (Tews et al., 2026). A mesma revisão cita evidência de aumento da temperatura central com anticolinérgicos potentes, antiparkinsonianos e betabloqueadores não seletivos.
Os anticrises merecem atenção própria. A revisão sobre remédios, epilepsia e clima descreve relatos de golpe de calor com topiramato, por redução do suor, e de hipertermia com crises e estado de mal num paciente com síndrome de Dravet em uso de zonisamida (Gulcebi et al., 2025). A bula do topiramato, citada na revisão de escopo, orienta avisar o paciente sobre a redução do suor, sobretudo em crianças (Tews et al., 2026).
Antes do verão, essas revisões apontam as classes que merecem ser revistas: topiramato e zonisamida, pela redução do suor; anticolinérgicos, incluindo os usados no Parkinson e na bexiga hiperativa; antipsicóticos, usados também para agitação na demência; diuréticos, inibidores da ECA e bloqueadores do receptor de angiotensina, pela desidratação e pela queda da pressão; e betabloqueadores não seletivos (Tews et al., 2026; Gulcebi et al., 2025).
Onde o remédio fica guardado
O calor também age sobre o comprimido. A revisão de Gulcebi e colaboradores descreve que a velocidade de dissolução de comprimidos de carbamazepina de diferentes fabricantes mudou com calor e umidade, e que caixas organizadoras de comprimidos podem comprometer a estabilidade dos remédios em regiões quentes e úmidas (Gulcebi et al., 2025). Os autores defendem orientar sobre o armazenamento seguro nos dias de calor extremo.
Na consulta, vale perguntar onde a pessoa guarda os remédios. Carro estacionado, mochila exposta ao sol e prateleira perto do fogão são lugares comuns e quentes. Manter o remédio na embalagem original e num lugar fresco é uma orientação simples, de custo baixo.
O que orientar, com a OMS como eixo
A OMS publica orientações práticas para o público durante ondas de calor, e elas servem de base para o paciente neurológico (OMS, Heat and health). Para a casa, a OMS sugere abrir as janelas à noite, quando lá fora está mais fresco, e fechá-las durante o dia, cobrindo com persianas ou venezianas para bloquear o sol direto.

As orientações da OMS que mais se aplicam a quem tem doença neurológica:
- ficar na sombra ou em casa nas horas mais quentes e passar algumas horas por dia num lugar fresco;
- usar ventilador apenas abaixo de 40 °C e, se houver ar-condicionado, ajustá-lo para cerca de 27 °C com um ventilador ligado;
- usar roupas leves e soltas, tomar banhos frescos e molhar a pele com pano úmido ou borrifador;
- beber água com regularidade, cerca de um copo por hora e pelo menos dois a três litros por dia;
- acompanhar os alertas oficiais de calor e checar com frequência pessoas vulneráveis, sobretudo idosos e quem mora sozinho.
Adaptar a cada doença
Na esclerose múltipla, o resfriamento do corpo inteiro e o planejamento das atividades para as horas mais frescas ajudam a manter o exercício, que melhora força, equilíbrio e independência (English et al., 2025). Na epilepsia, a prioridade é proteger o sono, manter os anticrises em dia e ter remédio de reserva quando há risco de falta. Na demência, a responsabilidade passa para o cuidador, que precisa oferecer água, controlar o ambiente e observar mudanças de comportamento.
Quem tem restrição de líquidos, como na insuficiência cardíaca ou na doença renal avançada, precisa de orientação individual sobre quanto beber. Na gestante, o calor traz ainda riscos obstétricos próprios, como o parto prematuro, discutidos no texto sobre calor extremo na gestação. A mesma atenção vale para quem trabalha no calor, um grupo em que a doença renal sem causa aparente já foi descrita.
Sinais para procurar atendimento
A OMS lembra que o golpe de calor é uma emergência com alta letalidade (OMS, Heat and health). Confusão, convulsão, pele muito quente, desmaio ou déficit novo exigem atendimento imediato, e o raciocínio do calor extremo na emergência e do golpe de calor por esforço se aplica: resfriar primeiro, transportar depois.
Serviços de saúde e neurologia resiliente ao clima
A OMS trabalha com os serviços de saúde para criar estratégias de ação para o calor, sistemas de alerta e respostas de emergência que identifiquem a população vulnerável (OMS, Heat and health). A Academia Europeia de Neurologia adaptou o marco operacional da OMS para sistemas de saúde resilientes ao clima e propôs dez áreas de ação para uma neurologia preparada para o clima (Caronna et al., 2026).
Na prática do serviço, isso significa listar os pacientes neurológicos mais frágeis, revisar remédios antes do verão, garantir estoque de anticrises e incluir o calor nas orientações de alta. A relação entre calor e saúde mental segue a mesma lógica: as internações sobem nas ondas de calor, e os serviços precisam se preparar antes.
Voltando ao caso
A professora do início tem sintomas antigos que voltaram com o calor, sem déficit novo, sem febre e sem infecção aparente. O quadro sugere fenômeno de Uhthoff, que costuma regredir com resfriamento e repouso (Pereira et al., 2026). A conduta é resfriar o ambiente, hidratar, procurar infecção urinária ou respiratória e reavaliar em algumas horas.
Se os sintomas melhorarem, o diagnóstico de pseudossurto se fortalece e ela pode evitar um corticoide desnecessário. Se persistirem além de um dia ou surgir um déficit novo, a investigação de surto verdadeiro entra em cena. Ela deve sair do atendimento com as orientações da OMS para os dias de calor e sabendo quais sinais exigem voltar.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Separar um pseudossurto de um surto, uma crise funcional de uma crise epiléptica ou um imitador de um AVC exige o mesmo exercício: pesar cada pista nova e revisar a hipótese, como no treino do diagnóstico diferencial com pistas.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Buscar o código certo na CID-10 completa esse treino.
Perguntas frequentes
O calor pode provocar um surto de esclerose múltipla?
O calor costuma provocar piora temporária de sintomas antigos, o fenômeno de Uhthoff, e não um surto com lesão nova. A piora regride com o resfriamento e pode acontecer sem mudança na neuroimagem (Pereira et al., 2026).
Quem tem epilepsia tem mais crises no calor?
Parte dos estudos mostra mais crises nos dias quentes, como em Taiwan, onde o risco subiu sem limiar (Chang et al., 2025). Outros estudos não encontraram associação ou encontraram até menos internações por crise depois de dias quentes, e a privação de sono parece ser um elo importante (Pereira et al., 2026).
O calor aumenta o risco de AVC?
Sim. Calor úmido, índice de calor alto e ondas de calor aparecem como gatilhos imediatos de AVC, embora o frio também aumente o risco (Ali et al., 2026).
Quais remédios exigem mais cuidado no calor?
Diuréticos, inibidores da ECA, bloqueadores do receptor de angiotensina, anticolinérgicos e antipsicóticos são as classes mais associadas a doença pelo calor em idosos (Tews et al., 2026). Entre os anticrises, topiramato e zonisamida podem reduzir o suor (Gulcebi et al., 2025).
O ventilador basta para quem tem doença neurológica?
A OMS orienta usar o ventilador apenas abaixo de 40 °C e combiná-lo com ar-condicionado em torno de 27 °C quando houver (OMS, Heat and health). Acima disso, procurar um lugar fresco por algumas horas por dia é mais seguro.
Take-home messages
- Trate o calor como fator de descompensação em pacientes com doença neurológica crônica (Caronna et al., 2026).
- Na esclerose múltipla, pense em fenômeno de Uhthoff antes de concluir por surto quando sintomas antigos voltam no calor (Pereira et al., 2026).
- Na epilepsia, proteja o sono e o acesso aos anticrises nas ondas de calor (Gulcebi et al., 2025).
- Lembre que calor úmido e ondas de calor são gatilhos imediatos de AVC (Ali et al., 2026).
- Revise diuréticos, anticolinérgicos, antipsicóticos e anticrises que reduzem o suor antes do verão (Tews et al., 2026).
- Use as orientações da OMS sobre sombra, ventilação, água e alertas oficiais como base do aconselhamento (OMS, Heat and health).
Referências
- World Health Organization. Heat and health. Nota descritiva. Texto integral.
- World Health Organization. Epilepsy. Nota descritiva. Texto integral.
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- Matsumoto N, Yamamura Y, Uraguchi K, et al. Immediate and delayed effects of thermal stress on fever-associated seizures in children: a time-stratified case-crossover study in Japan. Int J Biometeorol. 2026. PMID 41784651. DOI 10.1007/s00484-026-03146-z.
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