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Autópsia verbal: como se descobre a causa da morte

Prancheta de madeira vazia com prendedor de metal sobre fundo branco
Sumário
  1. Mortes que ninguém registra
  2. O que é a autópsia verbal
  3. Do relato à causa: médicos e algoritmos
  4. Quanto acerta a causa estimada
  5. Além da causa: as circunstâncias da morte
  6. Uso em saúde pública e na clínica
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Take-home messages
  10. Referências

Uma mulher de 34 anos morre em casa, em uma vila a quatro horas do hospital mais próximo. Ela estava grávida de sete meses e, segundo a irmã, teve dor de cabeça forte, inchaço nas pernas e, na última noite, uma convulsão. Nenhum médico a examinou, e o corpo foi enterrado no dia seguinte. Semanas depois, uma entrevistadora treinada visita a família e faz uma série de perguntas sobre os últimos dias. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

Este texto trata da autópsia verbal, o método que usa uma entrevista com familiares para estimar a causa de uma morte que ninguém certificou. A ideia é mostrar como ela funciona, o que os estudos dizem sobre sua precisão e por que ela importa para a saúde global. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: chegar a uma causa a partir de pistas contadas, e não vistas.

Principais pontos

  • Perto de metade das mortes no mundo não tem causa certificada.
  • A autópsia verbal é uma entrevista estruturada com familiares ou cuidadores, feita depois de um período de luto.
  • A Organização Mundial da Saúde publicou em 2016 um instrumento padronizado, legível por programas automáticos.
  • Algoritmos como InterVA, InSilicoVA e Tariff interpretam as respostas.
  • Contra a autópsia diagnóstica completa, a concordância caso a caso foi baixa em Maputo.
  • Perguntas sobre as circunstâncias da morte trazem informação útil para o planejamento.

Mortes que ninguém registra

Saber de que as pessoas morrem é o ponto de partida para decidir onde investir em saúde. Uma revisão sobre o uso da autópsia verbal em políticas de saúde lembra que uma em cada duas mortes no mundo não é registrada (Thomas e colaboradores, 2018). Outra análise estima que menos de um terço das mortes no mundo recebe uma causa atribuída (de Savigny e colaboradores, 2017). Os autores do InterVA-5 descrevem as mortes sem certificação como perto de metade da mortalidade global e como fonte de muita incerteza para o planejamento em saúde (Byass e colaboradores, 2019).

Um comentário de patologistas acrescenta o contexto: mais de dois terços da população mundial vive e morre em países sem registro vital funcional, onde a maior parte das mortes acontece fora de serviços de saúde e não é contada nem classificada por causa. Nesses lugares, a autópsia verbal virou o principal método para determinar a causa de morte (Fligner e colaboradores, 2011).

Por que a certificação não chega

A literatura sobre o tema aponta alguns motivos para a falta de causa registrada. A maior parte das mortes acontece fora dos serviços de saúde, e os sistemas de registro civil não funcionam em muitos países (Fligner e colaboradores, 2011). Faltam médicos treinados para certificar as mortes, e montar um sistema de registro completo levou décadas ou séculos em países como Suécia, Reino Unido e Austrália (Hazard e colaboradores, 2020).

Registro civil e estatísticas vitais

Os sistemas de registro civil e estatísticas vitais, conhecidos pela sigla em inglês CRVS, existem para contar nascimentos e mortes e para registrar suas causas. Onde a certificação médica é rara, a autópsia verbal foi proposta como a melhor alternativa disponível para preencher a lacuna das causas de morte (de Savigny e colaboradores, 2017). Isso exige integrar a entrevista à rotina do sistema, e não apenas a projetos de pesquisa, com a autópsia verbal feita na comunidade e ligada ao registro de cada morte (de Savigny e colaboradores, 2017).

Os mesmos autores defendem que os métodos automáticos permitem acompanhar as causas de morte dentro do CRVS de forma econômica e quase em tempo real (de Savigny e colaboradores, 2017). Uma revisão de 26 trabalhos, feitos em 15 países de renda baixa e média da África, da Ásia, do Oriente Médio e da América do Sul, examinou o uso da autópsia verbal para orientar políticas e melhorias nos sistemas de saúde e a descreve como uma solução pragmática e provisória para a falta de CRVS funcional (Thomas e colaboradores, 2018). O texto sobre one health mostra outro campo em que a vigilância depende de dados coletados longe do hospital.

Estantes deslizantes de arquivo em um corredor de arquivo municipal
Estantes de um arquivo municipal. O registro civil existe para contar nascimentos e mortes e registrar suas causas, e a autópsia verbal foi proposta para preencher a lacuna das causas onde a certificação médica é rara. Crédito: Jabbi, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

O método na rotina de vários países

A ferramenta SmartVA, que reúne um questionário reduzido e o algoritmo Tariff 2.0, foi traduzida e aplicada em países como Bangladesh, Brasil, China, Colômbia, Papua-Nova Guiné, Filipinas, Mianmar, Peru, Ruanda, Ilhas Salomão, Sri Lanka e Zâmbia (Hazard e colaboradores, 2020). Os autores relatam a experiência de usá-la como parte da rotina do registro civil e lembram que ela teve desempenho igual ou melhor que a maior parte dos métodos alternativos, inclusive a causa atribuída por médicos.

O que é a autópsia verbal

Patologistas lembram que, para a maior parte dos médicos, o termo autópsia verbal parece uma contradição. Mesmo assim, trata-se de um procedimento bem definido, que classifica a causa de morte a partir de entrevistas estruturadas com familiares, amigos e cuidadores e da revisão de registros médicos disponíveis (Fligner e colaboradores, 2011). Não há exame do corpo nem coleta de tecido. A palavra autópsia aparece porque o objetivo é o mesmo: descobrir por que a pessoa morreu.

A autópsia verbal é uma entrevista estruturada com um parente próximo ou cuidador da pessoa que morreu, feita depois de um período de luto (Nichols e colaboradores, 2018). As respostas são depois interpretadas, por médicos ou por algoritmos, para chegar a uma causa provável.

Página de caderno pautado em branco
Página de caderno em branco. A coleta da autópsia verbal pode ser feita em papel, e tudo o que se sabe sobre a morte vem do que a família lembra e do que a entrevistadora registra. Crédito: Cato kvuh, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Quem responde e quando

A entrevista é feita na comunidade, depois de um período de luto culturalmente aceitável (de Savigny e colaboradores, 2017). Na cena do início, a irmã é a informante. Ela viu a dor de cabeça, o inchaço e a convulsão, e essas três pistas, junto com a gestação, entram nas perguntas do questionário.

O questionário e o relato livre

Os questionários da OMS seguem uma estrutura comum (Nichols e colaboradores, 2018). Eles começam pela data e pelo local da entrevista, pelo local de estudo e pelo domicílio, seguem com os dados do informante principal e os dados sociodemográficos da pessoa que morreu, e passam pela história de lesões e acidentes. Depois vêm a lista de sintomas com a duração de cada um, os serviços de saúde usados antes da morte, o atestado e os documentos médicos guardados em casa, se houver, e, por fim, o relato livre dos acontecimentos até a morte, com a causa na opinião do informante.

Esse relato livre é considerado essencial quando a análise é feita por médicos (Nichols e colaboradores, 2018). Ele permite ver a ordem dos acontecimentos, algo que uma lista de sintomas sozinha não mostra.

O instrumento da OMS

A versão de 2016 do instrumento da OMS foi desenhada para servir de padrão internacional e para ser lida diretamente por programas automáticos como InterVA, InSilicoVA e Tariff 2.0. Ela vem acompanhada de manuais para entrevistadores e supervisores e está disponível em um modelo para coleta eletrônica na plataforma Open Data Kit (Nichols e colaboradores, 2018). A coleta pode ser feita em papel ou em tablet (de Savigny e colaboradores, 2017).

Encurtar sem perder informação. Um grupo de pesquisa desenvolveu, de forma sistemática, uma versão reduzida do questionário usado no estudo de validação do consórcio PHMRC. O tamanho ideal foi escolhido analisando como o desempenho caía à medida que o instrumento encolhia, para adultos, crianças e recém-nascidos (Serina e colaboradores, 2015). Essa versão reduzida, junto com o Tariff 2.0, deu origem ao SmartVA, preparado para uso em escala em tablets e celulares (Nichols e colaboradores, 2018).

Do relato à causa: médicos e algoritmos

Depois da entrevista, alguém precisa atribuir uma causa às respostas. Uma forma é a revisão dos formulários por médicos. Outra é o uso de algoritmos. Um grande estudo comparou cinco métodos automáticos, InterVA-4, Random Forest, Simplified Symptom Pattern, Tariff e King-Lu, com a revisão por médicos, usando 12.535 mortes de populações diversas com causa estabelecida de forma confiável (Murray e colaboradores, 2014).

O InterVA se baseia na regra de Bayes (Nichols e colaboradores, 2018). A versão InterVA-5 foi desenvolvida para se alinhar ao padrão OMS 2016 (Byass e colaboradores, 2019).

As três famílias de algoritmos mais citadas são o InterVA, baseado na regra de Bayes, o InSilicoVA, um dos programas que leem o instrumento OMS 2016, e o Tariff 2.0 com o SmartVA, algoritmo empacotado com o questionário reduzido do PHMRC (Nichols e colaboradores, 2018).

Os três aceitam dados do instrumento OMS 2016, o que permite comparar resultados entre países e entre métodos (Nichols e colaboradores, 2018).

O raciocínio por trás do algoritmo

A regra de Bayes é o mesmo princípio da probabilidade pré-teste: parte-se da chance de cada hipótese e ajusta-se essa chance conforme cada nova informação. A diferença é que o clínico faz isso de cabeça, e o programa faz por conta. O texto sobre taxa básica no diagnóstico mostra por que a prevalência inicial pesa tanto nesse cálculo.

Duas mãos segurando um tablet com a tela apagada
Tablet nas mãos. O SmartVA foi preparado para uso em escala em tablets e celulares, e cada resposta entra no cálculo do algoritmo. Crédito: Geralt, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Quanto acerta a causa estimada

A pergunta mais importante sobre qualquer método diagnóstico é quanto ele acerta. Para responder, é preciso um padrão de referência. O consórcio PHMRC criou critérios diagnósticos rigorosos, com achados de laboratório, patologia e imagem, para identificar mortes com causa confirmada em serviços de saúde, e desenvolveu um questionário de autópsia verbal baseado nos padrões da OMS (Murray e colaboradores, 2011). O objetivo era reunir mortes de referência bem definidas para validar os métodos de atribuição de causa.

Com esse banco, os pesquisadores compararam os métodos. Em adultos, a acurácia na fração de causas dos métodos automáticos ficou entre 0,764 e 0,770, contra 0,680 da revisão por médicos e 0,625 do InterVA (Murray e colaboradores, 2014). Em crianças, o Tariff chegou a 0,783, a revisão por médicos a 0,678 e o InterVA a 0,520 (Murray e colaboradores, 2014). Em recém-nascidos, os valores foram 0,817, 0,719 e 0,629 (Murray e colaboradores, 2014).

Comparar com a autópsia completa

Estudo Referência usada Achado principal
Murray 2011 Mortes em serviços de saúde com critérios clínicos, de laboratório e de imagem Criou o banco de validação PHMRC
Murray 2014 Banco PHMRC Métodos automáticos superaram a revisão médica na fração de causas
Menéndez 2020 Autópsia diagnóstica completa em Maputo Baixa concordância para tuberculose, malária e pneumonia

O teste mais duro veio de Maputo, em Moçambique. Pesquisadores compararam o InterVA com a autópsia diagnóstica completa em 316 mortes. Nenhuma das mortes por tuberculose foi identificada pela autópsia verbal, e a sensibilidade foi de 33 para malária e de 36 para pneumonia, em cada 100 mortes por essas causas. O algoritmo atribuiu 26 mortes a eclâmpsia, mas apenas 4 tinham essa causa na autópsia (Menéndez e colaboradores, 2020). A sensibilidade também foi zero para doenças diarreicas e infecções disseminadas, e de 32 em cada 100 para HIV. Em 16 mortes, o modelo não chegou a um resultado conclusivo.

Os autores concluem que esses resultados não ajudam a construir confiança nas estimativas atuais de causas de morte (Menéndez e colaboradores, 2020). Eles também lembram que a transmissão de malária em Maputo é baixa, o que pesa na interpretação dos números dessa causa.

População e indivíduo

Esses resultados parecem contraditórios, mas medem coisas diferentes. A acurácia na fração de causas mede se o método acerta a distribuição de causas em um grupo grande. A concordância caso a caso mede se ele acerta a causa de cada morte. No estudo do PHMRC, a concordância corrigida para o acaso dos métodos automáticos em adultos ficou perto de metade, abaixo da acurácia na fração de causas (Murray e colaboradores, 2014). Um método pode estimar bem a proporção de mortes por uma causa em uma região e, ainda assim, errar quais mortes foram essas.

Onde o método erra

A acurácia da autópsia verbal depende muito da qualidade dos critérios diagnósticos, da idade da pessoa que morreu e do tipo de doença envolvida. Mortes com sinais e sintomas pouco específicos são especialmente difíceis (Fligner e colaboradores, 2011). Os autores citam a dificuldade de separar mortes por malária das causadas por outras doenças febris, como septicemia, meningite, encefalite e pneumonia. Mortes maternas, perinatais e natimortos também têm especificidade diagnóstica ruim.

O caso da eclâmpsia em Maputo ilustra o problema na prática: o algoritmo atribuiu a essa causa muito mais mortes do que a autópsia confirmou (Menéndez e colaboradores, 2020). Na cena do início, a doença hipertensiva da gestação é a hipótese que mais chama atenção, mas o método sozinho não a confirmaria. É o mesmo atalho discutido no texto sobre diagnóstico diferencial com pistas: uma pista marcante pode encerrar a busca cedo demais.

Fontes de erro descritas nos estudos

Quando os métodos se completam

A autópsia anatomopatológica é considerada há muito tempo a referência para a causa de morte (Fligner e colaboradores, 2011). O principal obstáculo é a necessidade de patologistas, assistentes e laboratório de histologia, que faltam em muitos países de renda baixa e média. Outra preocupação são as atitudes culturais e religiosas sobre a morte e o manejo do corpo, que variam por país e precisam ser tratadas caso a caso.

Os autores propõem avaliar continuamente uma parte das mortes com autópsia anatomopatológica junto com a autópsia verbal, para melhorar a qualidade dos dados de mortalidade e identificar doenças novas ou emergentes (Fligner e colaboradores, 2011). Eles lembram ainda que os mesmos pressupostos que levam a erro em até 40 de cada 100 mortes certificadas por médicos estão presentes nos dados da autópsia verbal. O texto sobre sessões de morbimortalidade mostra a mesma lógica de aprender com o erro em escala menor.

Além da causa: as circunstâncias da morte

A causa biológica é só parte da história. Pesquisadores em Agincourt, na África do Sul, criaram um conjunto curto de perguntas sobre o caminho até o cuidado e as circunstâncias e eventos em torno da morte e o integraram ao formulário curto de autópsia verbal da OMS de 2012 (D'Ambruoso e colaboradores, 2016). Entre as mortes estudadas, 39 em cada 100 famílias não chamaram ajuda, 36 em cada 100 acharam o cuidado caro demais e 33 em cada 100 não foram a um serviço de saúde.

Os autores concluem que acrescentar essas perguntas traz informação complementar à distribuição de causas e relevante para o planejamento em saúde (D'Ambruoso e colaboradores, 2016). O objetivo era criar indicadores sobre os processos de cuidado, as circunstâncias e os eventos ligados ao sistema de saúde e ao contexto social.

Perguntas sobre o caminho até o cuidado

Os temas do conjunto de Agincourt pedem que a entrevista investigue se a família chamou ajuda, se a pessoa chegou a um serviço de saúde, se o gasto pesou na decisão de buscar cuidado, que caminho de cuidado a pessoa percorreu e que eventos aconteceram perto do momento da morte (D'Ambruoso e colaboradores, 2016).

Uso em saúde pública e na clínica

Os dados da autópsia verbal alimentam estimativas de carga de doença, planejamento de programas e avaliação de intervenções. A revisão de 26 trabalhos encontrou exemplos de uso do método para orientar políticas em vários países (Thomas e colaboradores, 2018). O SmartVA foi apresentado como forma de melhorar rapidamente o conhecimento sobre causas de morte em populações rurais, com poucos recursos, com experiências em Mianmar, Papua-Nova Guiné, Bangladesh e Filipinas (Hazard e colaboradores, 2020).

Para o clínico, a autópsia verbal tem uma lição direta: mostra quanto se consegue inferir apenas a partir do relato e quanto se perde. O texto sobre sinais, sintomas e história discute como interpretar o que chega pela fala do paciente e de quem o acompanha.

O que a autópsia verbal ensina a quem atende

O questionário da OMS separa a lista de sintomas, com a duração de cada um, do relato livre e da causa na opinião do informante (Nichols e colaboradores, 2018). Essa separação é um bom modelo para a consulta, em que o relato de um acompanhante também mistura o que foi visto com o que foi concluído. O texto sobre incerteza diagnóstica trata de como pesar pistas contadas por terceiros.

Na consulta, isso se traduz em registrar cada sintoma com sua duração, pedir o relato livre na ordem em que as coisas aconteceram, anotar separadamente o que o informante acha que foi a causa e perguntar por documentos médicos guardados em casa.

Raciocínio sobre a cena do início

Uma sequência didática para a cena, usando as etapas descritas acima, pode ser esta:

  1. Contexto. Mulher jovem, gestação de sete meses, morte em casa.
  2. Pistas. Dor de cabeça forte, inchaço nas pernas, convulsão.
  3. Questionário. Registrar cada sintoma com duração e colher o relato livre da irmã.
  4. Atribuição. Revisão por médico ou por algoritmo.
  5. Limite. Mortes maternas têm especificidade ruim na autópsia verbal, e em Maputo a eclâmpsia foi atribuída em excesso.
  6. Circunstâncias. Perguntar se a família chamou ajuda e se chegou a um serviço.
  7. Registro. Codificar a causa estimada, sabendo da incerteza.

O passo 7 lembra que a causa estimada também precisa de código. Saber encontrar o código certo na CID-10 é parte do trabalho. O texto sobre preparação para pandemias mostra outro uso de dados de vigilância, e o texto sobre cólera, sarampo e desnutrição em conflitos lembra como a contagem de mortes orienta a resposta em crises.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

A autópsia verbal é usada onde não há atestado de óbito?

Ela foi proposta como a melhor alternativa onde a certificação médica da morte é rara (de Savigny e colaboradores, 2017).

Existe um questionário padronizado da OMS?

O instrumento OMS 2016 serve de padrão internacional e pode ser lido por InterVA, InSilicoVA e Tariff 2.0 (Nichols e colaboradores, 2018).

Os algoritmos podem substituir a revisão por médicos?

Na estimativa da distribuição de causas, os estudos mostram vantagem dos algoritmos. No banco PHMRC, os métodos automáticos tiveram acurácia maior que a revisão médica (Murray e colaboradores, 2014).

A autópsia verbal pode errar a causa de uma morte específica?

Em Maputo, a comparação com a autópsia completa mostrou baixa concordância para tuberculose, malária e pneumonia (Menéndez e colaboradores, 2020).

Dá para usar a entrevista para entender falhas do sistema de saúde?

Perguntas sobre as circunstâncias mostraram famílias que não chamaram ajuda ou acharam o cuidado caro demais (D'Ambruoso e colaboradores, 2016).

Take-home messages

  • Perto de metade das mortes no mundo não tem causa certificada.
  • A autópsia verbal é uma entrevista estruturada com familiares, feita depois do luto.
  • O instrumento OMS 2016 padroniza a entrevista e permite análise automática.
  • No banco PHMRC, algoritmos superaram a revisão médica na fração de causas.
  • Contra a autópsia completa em Maputo, a concordância caso a caso foi baixa.
  • Sintomas pouco específicos e mortes maternas são os mais difíceis de classificar.
  • Perguntas sobre as circunstâncias trazem informação útil para o planejamento.
  • A autópsia anatomopatológica em parte das mortes pode melhorar a qualidade dos dados.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Byass P, Hussain-Alkhateeb L, D'Ambruoso L, et al. An integrated approach to processing WHO-2016 verbal autopsy data: the InterVA-5 model. BMC Med. 2019. PMID 31146736.
  2. D'Ambruoso L, Kahn K, Wagner RG, et al. Moving from medical to health systems classifications of deaths: extending verbal autopsy to collect information on the circumstances of mortality. Glob Health Res Policy. 2016. PMID 29202052.
  3. de Savigny D, Riley I, Chandramohan D, et al. Integrating community-based verbal autopsy into civil registration and vital statistics (CRVS): system-level considerations. Glob Health Action. 2017. PMID 28137194.
  4. Fligner CL, Murray J, Roberts DJ. Synergism of verbal autopsy and diagnostic pathology autopsy for improved accuracy of mortality data. Popul Health Metr. 2011. PMID 21806831.
  5. Hazard RH, Buddhika MPK, Hart JD, et al. Automated verbal autopsy: from research to routine use in civil registration and vital statistics systems. BMC Med. 2020. PMID 32146903.
  6. Menéndez C, Quintó L, Castillo P, et al. Limitations to current methods to estimate cause of death: a validation study of a verbal autopsy model. Gates Open Res. 2020. PMID 33145479.
  7. Murray CJ, Lopez AD, Black R, et al. Population Health Metrics Research Consortium gold standard verbal autopsy validation study: design, implementation, and development of analysis datasets. Popul Health Metr. 2011. PMID 21816095.
  8. Murray CJ, Lozano R, Flaxman AD, et al. Using verbal autopsy to measure causes of death: the comparative performance of existing methods. BMC Med. 2014. PMID 24405531.
  9. Nichols EK, Byass P, Chandramohan D, et al. The WHO 2016 verbal autopsy instrument: An international standard suitable for automated analysis by InterVA, InSilicoVA, and Tariff 2.0. PLoS Med. 2018. PMID 29320495.
  10. Serina P, Riley I, Stewart A, et al. A shortened verbal autopsy instrument for use in routine mortality surveillance systems. BMC Med. 2015. PMID 26670275.
  11. Thomas LM, D'Ambruoso L, Balabanova D. Verbal autopsy in health policy and systems: a literature review. BMJ Glob Health. 2018. PMID 29736271.

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