Teranóstica em oncologia: muito além de achar o alvo

Sumário
- Por que a teranóstica é um ciclo, e não um exame
- Primeira etapa: selecionar pela imagem
- Segunda etapa: tratar com o radioligante
- Terceira etapa: medir a resposta pela imagem
- Quarta etapa: seguir a toxicidade
- Montando o ciclo passo a passo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Milestone inventory
- Take-home messages
- Referências
Uma mulher com tumor neuroendócrino de intestino delgado, com metástases hepáticas, faz uma PET com análogo de somatostatina. As lesões captam muito, mais do que o fígado normal. Alguém na reunião resume: "o alvo está lá, ela é candidata". A frase está certa e, ao mesmo tempo, conta só o começo da história.
Teranóstica é a junção de diagnóstico e terapia com a mesma molécula, ou com moléculas irmãs. Uma versão marcada com um emissor para imagem mostra onde o alvo está, e uma versão marcada com um emissor terapêutico leva radiação ao mesmo lugar. A imagem que seleciona o paciente é só a primeira de várias decisões, e cada uma delas exige raciocínio clínico.
Este texto trata a teranóstica como estratégia completa. Ele percorre as quatro etapas do ciclo: selecionar pela imagem, tratar com o radioligante, medir a resposta pela imagem e seguir a toxicidade. Os exemplos vêm das duas plataformas mais maduras, a dos receptores de somatostatina (SSTR) nos tumores neuroendócrinos e a do antígeno de membrana específico da próstata (PSMA) no câncer de próstata.
Principais pontos
- O alvo na imagem é necessário, mas a seleção também olha a doença que a imagem do alvo pode deixar escapar (Hindié, 2017).
- A PET PSMA é o padrão de seleção para o lutécio-PSMA, com FDG, SPECT pós-tratamento e ressonância como adjuntos (Ranjan, 2026).
- A resposta medida pela PET PSMA, somada ao PSA, prediz sobrevida melhor do que o PSA sozinho (Gafita, 2022).
- Nos tumores neuroendócrinos, a resposta deve ser avaliada com a mesma modalidade da linha de base (Bodei, 2013).
- Rim e medula óssea são os órgãos críticos, e o seguimento dos exames de sangue continua depois do último ciclo (Bodei, 2013).
- Neoplasias mieloides podem aparecer anos depois da terapia com radioligante (Strosberg, 2021).
Sumário
- Por que a teranóstica é um ciclo, e não um exame
- Primeira etapa: selecionar pela imagem
- Segunda etapa: tratar com o radioligante
- Terceira etapa: medir a resposta pela imagem
- Quarta etapa: seguir a toxicidade
- Montando o ciclo passo a passo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Milestone inventory
- Take-home messages
Por que a teranóstica é um ciclo, e não um exame
A ideia é antiga. O uso do iodo radioativo para tratar doenças da tireoide, iniciado por Saul Hertz, é considerado a primeira teranóstica, porque a mesma substância que mostra a glândula também a trata (Oldan, 2025). A metaiodobenzilguanidina (MIBG), que capta em feocromocitoma, paraganglioma e neuroblastoma, é descrita como o primeiro agente desenvolvido de propósito para ver e depois tratar (Oldan, 2025).
O que mudou nos últimos anos foi a escala. Os análogos de somatostatina e os ligantes de PSMA levaram a teranóstica para doenças comuns, para estudos de fase 3 e para a rotina de serviços oncológicos. Com a escala veio um risco de raciocínio: tratar a imagem positiva como se fosse a indicação inteira.
A diretriz conjunta para o lutécio-PSMA pede que a indicação seja discutida numa reunião interdisciplinar de tumores e trata o seguimento a longo prazo como obrigatório (Kratochwil, 2023). A orientação para a terapia com peptídeos nos tumores neuroendócrinos faz o mesmo pedido de decisão multidisciplinar (Bodei, 2013). As duas descrevem um ciclo, e não um procedimento isolado.
Pensar em ciclo muda as perguntas. Na seleção, a pergunta deixa de ser "tem alvo?" e passa a ser "toda a doença que importa tem alvo?". No tratamento, a equipe pergunta o que a pessoa já recebeu e o que a medula e o rim aguentam. Na resposta, pergunta qual exame, em que momento e com que critério. No seguimento, pergunta por quanto tempo vigiar e o que procurar. A decisão de quando chamar a medicina nuclear entra nessa conversa desde o começo.
Primeira etapa: selecionar pela imagem
A imagem do alvo é a porta de entrada. No NETTER-1, que comparou o lutécio-DOTATATE com octreotida de liberação prolongada em tumores neuroendócrinos de intestino médio, os receptores de somatostatina tinham de estar presentes em todas as lesões-alvo, com confirmação por revisão central independente (Strosberg, 2017). A captação foi graduada pela lesão de maior captação na cintilografia com análogo de somatostatina (Strosberg, 2017).
No câncer de próstata, a PET PSMA é o exame estabelecido para selecionar candidatos ao lutécio-PSMA (Ranjan, 2026). Os critérios de captação usados no VISION e os limites de medula e rim para indicar o tratamento estão no texto sobre quem é candidato pela PET PSMA, e não serão repetidos aqui.

A doença que a imagem do alvo pode esconder
O ponto fraco da seleção está nas lesões que perderam o alvo. Um tumor que se desdiferencia pode deixar de expressar receptores de somatostatina ou PSMA e ganhar metabolismo de glicose. Essas lesões aparecem na PET com FDG e somem na imagem do alvo. Se forem esquecidas, o tratamento atinge as lesões que captam e deixa crescer justamente as mais agressivas.
Nos tumores neuroendócrinos, o escore NETPET organiza essa leitura dupla. Ele vai de P1, quando todas as lesões captam análogo de somatostatina e nenhuma capta FDG, até P5, quando há lesões que captam FDG e não captam o análogo (Hindié, 2017). Num estudo com 62 pacientes comentado no editorial, o escore se associou à sobrevida (Hindié, 2017).
No câncer de próstata, a discordância tem o mesmo significado. Uma comparação retrospectiva mostrou que homens que preenchiam os critérios mais estritos do estudo TheraP, que exigia ausência de lesões FDG positivas sem PSMA, tiveram mais resposta de PSA e maior sobrevida livre de progressão, e que a doença FDG positiva e PSMA negativa teve pior evolução (Ranjan, 2026). A diretriz conjunta trata a PET com FDG como opcional, útil sobretudo para lesões hepáticas (Kratochwil, 2023).
Na leitura da seleção, algumas perguntas ajudam a decidir: se todas as lesões vistas na tomografia ou na ressonância captam o traçador do alvo; há lesões grandes, hepáticas ou de crescimento rápido que pedem FDG; o grau histológico e a velocidade de progressão combinam com uma doença bem diferenciada; a medula tem reserva suficiente depois dos tratamentos anteriores; a função renal permite um tratamento que passa pelo rim; e a pessoa consegue cumprir as regras de radioproteção em casa.
Quando a PET não está disponível
O acesso à PET varia muito entre serviços. A revisão sobre imagem multimodal descreve a SPECT com PSMA marcado com tecnécio-99m como alternativa mais acessível e de menor custo, com desempenho diagnóstico comparável (Ranjan, 2026). A mesma revisão aponta menor detecção no leito prostático com essa técnica, o que pesa na leitura de doença local (Ranjan, 2026).
A expressão do alvo também muda com o tratamento. A expressão de PSMA parece aumentar nos primeiros meses de bloqueio androgênico (Zhang, 2021). Por isso o momento da imagem de seleção em relação aos outros tratamentos entra no laudo e na discussão da equipe.
Segunda etapa: tratar com o radioligante
O radioligante se liga ao mesmo alvo da imagem e leva um emissor beta, como o lutécio-177, às células que o expressam. No VISION, o lutécio-PSMA-617 foi descrito como uma terapia que entrega radiação beta às células que expressam PSMA e ao microambiente ao redor (Sartor, 2021). A radiação atravessa poucos milímetros de tecido, o que concentra o efeito nas lesões e explica por que a seleção pela imagem pesa tanto.
Os resultados nas duas plataformas mostram o tamanho do efeito. No NETTER-1, 229 pacientes foram randomizados, e 116 receberam lutécio-DOTATATE (Strosberg, 2017). A sobrevida livre de progressão estimada no mês 20 foi de 65,2 em cada 100 com o lutécio, contra 10,8 em cada 100 no grupo controle (Strosberg, 2017). O risco de progressão ou morte foi 79 em cada 100 menor (Strosberg, 2017). A taxa de resposta foi de 18 em cada 100, contra 3 em cada 100 (Strosberg, 2017).
No câncer de próstata, o VISION randomizou 831 dos 1179 homens triados (Sartor, 2021). O que o estudo mostrou e o que veio depois, com o PSMAfore e o PSMAddition, está no texto sobre o que mudou depois do VISION.
O que acompanha a infusão
A infusão em si é a parte mais curta do ciclo, mas carrega cuidados que vêm da biologia do alvo. Na terapia com peptídeos, os rins captam o análogo de somatostatina por um sistema de transporte do túbulo proximal, e a infusão de aminoácidos é usada para reduzir essa captação (Bodei, 2013). Esses aminoácidos explicam boa parte da náusea e dos vômitos do dia do tratamento: no NETTER-1, a náusea apareceu em 59 em cada 100 pacientes e os vômitos em 47 em cada 100, atribuídos em grande parte à infusão de aminoácidos (Strosberg, 2017).
O análogo de somatostatina também protege contra a crise carcinoide em quem tem síndrome funcional (Bodei, 2013). Rubor, diarreia, broncoespasmo e instabilidade de pressão no dia da infusão pedem atenção imediata.
O planejamento individual do tratamento a partir da dosimetria dos órgãos ainda é pesquisa. Para o lutécio-PSMA, a diretriz conjunta diz que a dosimetria individual é opcional no uso padrão e que o ganho clínico de esquemas guiados por ela ainda precisa de confirmação (Kratochwil, 2023). Um ensaio randomizado de fase 3 em andamento comparou o esquema padrão com estratégias ajustadas a cada ciclo pela dosimetria de rim e medula, e a análise interina mostrou que essas estratégias são viáveis e seguras (Kolodziej, 2025). A pergunta sobre ganho de sobrevida continua aberta.

Terceira etapa: medir a resposta pela imagem
A teranóstica oferece uma vantagem que outras terapias sistêmicas raramente têm: o próprio tratamento pode ser fotografado. A diretriz conjunta descreve a cintilografia ou a SPECT feitas 1 a 2 dias depois da infusão do lutécio-PSMA, que mostram onde o radioligante se fixou (Kratochwil, 2023). Na terapia com peptídeos, as imagens pós-tratamento informam a intensidade e a localização da captação e ajudam a avaliar a resposta aos ciclos anteriores (Bodei, 2013).
PSA, flare e o momento certo
O PSA é o marcador mais usado no câncer de próstata, mas pode enganar no começo. A diretriz conjunta pede PSA a cada ciclo, lido pelos critérios do PCWG3, e o considera confiável 2 a 3 semanas depois do segundo ciclo, por causa do flare e da resposta tardia (Kratochwil, 2023). O PCWG3 orienta seguir o tratamento apesar de subidas precoces do PSA nas primeiras 12 semanas, se nada mais indicar progressão (Scher, 2016). As duas regras convivem: o segundo ciclo costuma cair perto dessa marca, e a revisão sobre imagem multimodal descreve flare de até 12 semanas (Ranjan, 2026).
Quando o PSA cai, a queda tem valor prognóstico. Na análise do VISION, uma queda de 50 em cada 100 ou mais no PSA aconteceu em 46 em cada 100 homens tratados com lutécio-PSMA, contra 7,1 em cada 100 no grupo controle (Armstrong, 2024). Uma alta isolada nas primeiras semanas, sem piora clínica e sem lesões novas, pede cautela antes de interromper o tratamento.
RECIP: a PET PSMA como régua
O RECIP 1.0 foi criado para padronizar a leitura da PET PSMA durante o lutécio-PSMA. O estudo incluiu 124 homens com PET na linha de base e numa avaliação intermediária em torno de 12 semanas (Gafita, 2022). A classificação combina a variação do volume total de doença PSMA positiva com o aparecimento de lesões novas, lidas por três médicos nucleares cegos para a evolução (Gafita, 2022). Os autores partiram de uma observação da prática: a carga total de doença pode cair ao mesmo tempo em que aparecem lesões novas (Gafita, 2022).
As categorias separaram bem os prognósticos. A sobrevida global mediana foi de 8,3 meses na progressão, 13,1 meses na doença estável e 21,7 meses na resposta parcial (Gafita, 2022). A combinação de PSA e RECIP teve índice de concordância de 0,65, contra 0,62 do PSA sozinho, para identificar respondedores (Gafita, 2022). Para identificar progressão, o índice foi de 0,66 na combinação, contra 0,63 com o PSA sozinho (Gafita, 2022).
A leitura visual também funciona. A revisão sobre imagem multimodal descreve concordância de 0,89 entre o RECIP visual e o quantitativo, medida pelo kappa (Ranjan, 2026). Isso aproxima o critério de serviços sem software de segmentação.
A diretriz conjunta propõe reestadiamento a cada 12 semanas, sempre com uma segunda modalidade além do PSA (Kratochwil, 2023). A lógica de usar a imagem funcional para guiar a conduta é a mesma discutida no texto sobre o que o PET interino mede no linfoma.

Nos tumores neuroendócrinos
Os tumores neuroendócrinos bem diferenciados crescem devagar, e a resposta aparece tarde. A orientação para a terapia com peptídeos coloca a primeira avaliação de resposta em torno de 3 meses depois do tratamento e as seguintes a cada 3 a 6 meses (Bodei, 2013). A regra mais importante é usar a mesma modalidade de imagem da linha de base (Bodei, 2013).
Trocar de exame no meio do caminho cria falsos sinais. Uma lesão que parece nova na PET pode ter estado sempre lá e ter passado despercebida numa cintilografia menos sensível. Uma lesão que parece menor numa ressonância pode estar igual na tomografia. O laudo de resposta deve dizer com que exame a comparação foi feita.
Quarta etapa: seguir a toxicidade
O seguimento é a parte mais longa do ciclo e a mais fácil de perder. A pessoa sai do serviço de medicina nuclear, volta à oncologia e, meses depois, chega ao pronto atendimento ou à atenção primária com um hemograma alterado. Quem a atende precisa saber que ela recebeu um radioligante e o que isso pode causar.
Medula e rim
Rim e medula óssea são os órgãos críticos da terapia com peptídeos (Bodei, 2013). A orientação propõe hemograma a cada 2 a 4 semanas entre os ciclos (Bodei, 2013). Depois do tratamento, o hemograma continua a cada 8 a 12 semanas por 12 meses e, depois, duas vezes por ano (Bodei, 2013).
No lutécio-PSMA, a diretriz conjunta pede hemograma e creatinina 2 a 3 semanas depois de cada ciclo (Kratochwil, 2023). Os mesmos exames se repetem 4 a 6 semanas depois do último ciclo (Kratochwil, 2023).
No NETTER-1, a toxicidade hematológica grave foi pouco frequente. Neutropenia, trombocitopenia e linfopenia de graus 3 ou 4 apareceram em 1, 2 e 9 em cada 100 pacientes, respectivamente (Strosberg, 2017). O estudo relatou ausência de sinais de toxicidade renal com mediana de seguimento de 14 meses (Strosberg, 2017). Esse seguimento é curto para efeitos renais, que tendem a aparecer tarde.
Neoplasias mieloides tardias
A complicação mais temida é a neoplasia mieloide relacionada à terapia. No NETTER-1, um paciente do grupo do lutécio teve síndrome mielodisplásica, o que corresponde a 0,9 em cada 100 (Strosberg, 2017). Na análise final do NETTER-1, com mediana de 76,3 meses de seguimento, 2 de 111 pacientes do grupo do lutécio tinham síndrome mielodisplásica, e nenhum caso novo de síndrome mielodisplásica ou leucemia mieloide aguda surgiu no seguimento longo (Strosberg, 2021).
Esses números contrastam com os de um único centro terciário, que acompanhou 173 pacientes tratados com terapia com peptídeos. Desses, 10 desenvolveram neoplasia mieloide, o que corresponde a 5,8 em cada 100, com mediana de 23 meses depois do tratamento (Batista, 2026). Dos 10 pacientes, 8 morreram, com mediana de 8 meses depois do diagnóstico (Batista, 2026). Os autores citam uma revisão sistemática de 2020 com média de 2,61 em cada 100 (Batista, 2026).
Na prática, citopenia persistente ou nova meses depois do último ciclo pede hemograma com esfregaço e avaliação hematológica, e não apenas uma explicação por "efeito do tratamento". A lógica é a mesma descrita no texto sobre o câncer depois da exposição à radiação, com uma diferença: aqui a exposição foi planejada, e o seguimento pode ser planejado também. A leitura do hemograma depois de uma exposição, com foco nos linfócitos, aparece no texto sobre diagnóstico diferencial e exames na síndrome aguda da radiação.
Outros efeitos que entram no seguimento
Alguns efeitos dependem do alvo. O PSMA também é expresso nas glândulas salivares, e a diretriz conjunta inclui o manejo da xerostomia no cuidado do lutécio-PSMA (Kratochwil, 2023). Boca seca muda a alimentação, o sono e a saúde dental, e merece pergunta direta em cada retorno.
A gestação é contraindicação absoluta à terapia com peptídeos, e a orientação recomenda evitar a gravidez por 6 meses depois do tratamento (Bodei, 2013). No lutécio-PSMA, a diretriz conjunta pede contracepção durante o tratamento e por 3 meses depois, por precaução geral com radiofármacos (Kratochwil, 2023). O rótulo americano orienta o homem com parceira em idade fértil a usar contracepção eficaz durante o tratamento e por 14 semanas depois da última aplicação (FDA, 2025). A janela de 6 meses da terapia com peptídeos, portanto, vale só para ela. Em pessoas em idade fértil, a conversa sobre contracepção faz parte do consentimento. O aconselhamento depois de uma exposição na gravidez é tema da série Radiação do blog.
Montando o ciclo passo a passo
Voltando à mulher da abertura, a captação intensa nas metástases hepáticas é a primeira peça. A equipe pergunta se todas as lesões vistas na tomografia captam o análogo, se o grau histológico e a velocidade de progressão combinam com doença bem diferenciada e se há lesão volumosa no fígado que justifique uma PET com FDG para procurar doença discordante (Hindié, 2017).
Antes do tratamento, vêm hemograma, função renal e a história dos tratamentos anteriores. Se houver síndrome carcinoide, a cobertura com análogo de somatostatina entra no plano (Bodei, 2013). Depois, a resposta é medida com o mesmo exame da linha de base.
A tabela resume o ciclo nas duas plataformas.
| Etapa | Tumores neuroendócrinos (SSTR) | Câncer de próstata (PSMA) |
|---|---|---|
| Seleção | Captação em todas as lesões-alvo; FDG se houver suspeita de discordância | PET PSMA; FDG opcional, útil no fígado |
| Antes de tratar | Rim, medula, síndrome funcional | Rim, medula, tratamentos anteriores |
| Dia da infusão | Aminoácidos, náusea, crise carcinoide | Cuidados de radioproteção |
| Imagem pós-tratamento | Cintilografia que mostra a captação | Cintilografia ou SPECT 1 a 2 dias depois |
| Resposta | Primeira em torno de 3 meses, mesma modalidade | PSA depois do flare e PET com RECIP |
| Seguimento | Hemograma por anos; neoplasia mieloide tardia | Hemograma e creatinina; xerostomia |
Os dados da tabela vêm das orientações para a terapia com peptídeos (Bodei, 2013) e para o lutécio-PSMA (Kratochwil, 2023), com o RECIP descrito por Gafita (Gafita, 2022).
A equipe ao redor do ciclo
Cada etapa envolve mais de uma especialidade. A oncologia conhece a doença e os tratamentos anteriores, a medicina nuclear seleciona, trata e lê a resposta, a radiologia contribui com a anatomia, a enfermagem prepara a infusão e orienta em casa, e a hematologia e a nefrologia entram no seguimento. Algumas tarefas costumam ficar sem dono:
- registrar no prontuário que a pessoa recebeu radioligante, com datas;
- combinar quem pede e quem lê o hemograma depois do último ciclo;
- definir qual exame será a régua da resposta;
- avisar a pessoa sobre sinais que pedem contato, como febre, sangramento e boca seca intensa;
- alinhar com a radioterapia quando houver tratamento local planejado, como no texto sobre como planejar o resgate;
- revisar a função renal e a medula antes de cada nova linha de tratamento, como no texto sobre os limites de medula e rim.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Treinar o diagnóstico diferencial com pistas e buscar o código certo na CID-10 completam esse treino.
Perguntas frequentes
O que é teranóstica?
É o uso de uma molécula que mostra o alvo na imagem e de uma versão terapêutica que leva radiação ao mesmo alvo, desde o iodo radioativo na tireoide (Oldan, 2025).
Basta o alvo aparecer na imagem para indicar o tratamento?
A imagem do alvo é necessária, mas lesões sem o alvo e com captação de FDG pioram a evolução e precisam entrar na decisão (Hindié, 2017).
Por que o PSA pode subir no começo do lutécio-PSMA?
Pode haver uma elevação transitória, o flare, e a diretriz considera o PSA confiável só 2 a 3 semanas depois do segundo ciclo (Kratochwil, 2023).
O que é o RECIP?
É um critério de resposta na PET PSMA que combina a variação do volume de doença com lesões novas e, somado ao PSA, prediz melhor a sobrevida (Gafita, 2022).
Qual exame usar para medir a resposta nos tumores neuroendócrinos?
O mesmo exame usado na linha de base, para que a comparação seja válida (Bodei, 2013).
Por quanto tempo seguir o hemograma?
Por anos. A orientação propõe hemograma por 12 meses depois do tratamento e, depois, duas vezes por ano (Bodei, 2013).
Milestone inventory
- Origem: o iodo radioativo, a partir do trabalho de Saul Hertz, inaugura a ideia de ver e tratar com a mesma substância (Oldan, 2025).
- MIBG: o primeiro agente desenvolvido de propósito para imagem e tratamento de tumores da medula adrenal e do neuroblastoma (Oldan, 2025).
- 2013: a orientação conjunta para a terapia com peptídeos nos tumores neuroendócrinos organiza seleção, cuidados e seguimento (Bodei, 2013).
- 2015: começam a aparecer estudos de lutécio-PSMA, e o ligante PSMA-I&T é desenvolvido (Zhang, 2021).
- 2017: o NETTER-1 mostra ganho de sobrevida livre de progressão com o lutécio-DOTATATE (Strosberg, 2017), e o escore NETPET propõe a leitura conjunta de FDG e receptor (Hindié, 2017).
- 2021: o VISION mostra ganho de sobrevida com o lutécio-PSMA-617 (Sartor, 2021).
- 2022: o RECIP 1.0 padroniza a resposta na PET PSMA (Gafita, 2022).
- 2023: a diretriz conjunta para o lutécio-PSMA define seleção, imagem pós-tratamento e calendário de exames (Kratochwil, 2023).
- 2024: a análise do PSA no VISION mostra o valor prognóstico da queda precoce (Armstrong, 2024).
- 2025: um ensaio randomizado testa o planejamento por dosimetria na terapia com peptídeos (Kolodziej, 2025).
- 2026: uma série com seguimento longo descreve as neoplasias mieloides tardias (Batista, 2026), e uma revisão organiza o papel de cada exame de imagem no lutécio-PSMA (Ranjan, 2026).
Take-home messages
- Teranóstica é um ciclo de quatro etapas: selecionar, tratar, medir a resposta e seguir a toxicidade.
- A imagem do alvo seleciona, mas a doença sem alvo e com FDG positivo pode decidir a evolução.
- O PSA pode subir no começo, e a resposta fica mais confiável quando combina PSA e PET.
- Nos tumores neuroendócrinos, a resposta é medida com o mesmo exame da linha de base.
- Rim e medula são os órgãos críticos, e o hemograma continua por anos.
- Citopenia tardia em quem recebeu radioligante pede avaliação hematológica.
Quer treinar o raciocínio que vai além do primeiro exame positivo? Jogue o caso do dia no NEXO.
Referências
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