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Medicina do Esporte

Sarcopenia: diagnóstico e treino resistido no idoso

Andador com rodas, cesto e assento encostado numa parede de concreto
Sumário
  1. O que mudou na definição de sarcopenia
  2. Como fazer o diagnóstico: o caminho F-A-C-S
  3. Força e massa: o que cada medida diz
  4. Por que a sarcopenia importa
  5. Treino resistido: o tratamento com evidência mais forte
  6. Como prescrever na prática
  7. Proteína, vitamina D e remédios
  8. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  9. Perguntas frequentes
  10. Take-home messages
  11. Referências

Uma mulher de setenta e poucos anos vem à consulta de rotina acompanhada da filha. A queixa é vaga: ela anda mais devagar, demora para se levantar da poltrona e passou a usar o corrimão em qualquer escada. A filha acha que é "coisa da idade". A paciente pesa o mesmo de sempre, e por isso ninguém pensou em perda de músculo.

A cena ilustra o problema central da sarcopenia. A doença foi por muito tempo negligenciada e pouco tratada na prática clínica, em parte pela dificuldade de decidir o que medir, como medir e com quais pontos de corte (Cruz-Jentoft, 2019). O peso estável engana, porque músculo pode ser trocado por gordura sem que a balança mude.

Este texto mostra como o consenso europeu revisado organizou o diagnóstico, por que a força de preensão virou o primeiro sinal a procurar e o que a evidência diz sobre o treino resistido, o único tratamento com recomendação forte nas diretrizes internacionais.

Principais pontos

  • O consenso europeu revisado (EWGSOP2) passou a tratar a baixa força muscular como a principal característica da sarcopenia (Cruz-Jentoft, 2019).
  • A sequência proposta é encontrar, avaliar, confirmar e graduar a gravidade, num caminho chamado F-A-C-S (Cruz-Jentoft, 2019).
  • Os pontos de corte de preensão do EWGSOP2 são menos de 27 kg em homens e menos de 16 kg em mulheres (Cruz-Jentoft, 2019).
  • Numa revisão sistemática de estudos de coorte, a sarcopenia esteve associada a mortalidade maior, com razão de chances combinada de 3,6 (Beaudart, 2017).
  • A diretriz internacional de prática clínica recomenda com força a prescrição de atividade física baseada em resistência para tratar a sarcopenia (Dent, 2018).
  • Proteína entra como recomendação condicional, e vitamina D e hormônios anabólicos ficaram sem recomendação por falta de evidência (Dent, 2018).

Sumário

O que mudou na definição de sarcopenia

A primeira definição europeia, publicada em 2010, foi muito usada no mundo e ajudou a identificar e cuidar de pessoas com sarcopenia (Cruz-Jentoft, 2019). Em 2018, o grupo se reuniu de novo para incorporar a evidência acumulada na década, e o resultado é o consenso conhecido como EWGSOP2 (Cruz-Jentoft, 2019).

Uma doença do músculo, e não só do envelhecimento

O EWGSOP2 descreve a sarcopenia como uma doença muscular, uma "falência do músculo", enraizada em alterações adversas que se acumulam ao longo da vida (Cruz-Jentoft, 2019). O consenso lembra que ela é comum em idosos, mas também pode aparecer mais cedo (Cruz-Jentoft, 2019).

Essa mudança de linguagem tem consequência prática. Quando a sarcopenia é vista como doença, e não como parte inevitável da idade, ela passa a merecer rastreio, diagnóstico e tratamento.

Força antes de massa

A principal novidade foi colocar a baixa força muscular à frente dos outros critérios. No EWGSOP2, a força baixa identifica a sarcopenia provável; a baixa quantidade ou qualidade de músculo confirma o diagnóstico; e o baixo desempenho físico indica sarcopenia grave (Cruz-Jentoft, 2019).

A lógica é clínica. A força prevê desfechos ruins melhor do que a massa, e medir força é simples e barato (Cruz-Jentoft, 2019). O consórcio americano SDOC chegou a uma conclusão parecida por outro caminho: a massa magra medida por densitometria não se associou a desfechos adversos em idosos da comunidade, com ou sem ajuste pelo tamanho corporal (Bhasin, 2020).

Primária e secundária

O consenso separa a sarcopenia primária, atribuída sobretudo ao envelhecimento, da secundária, ligada a outras causas, e considera essa divisão útil na prática (Cruz-Jentoft, 2019). Na sarcopenia secundária, procurar a doença de base faz parte do tratamento. Inatividade, imobilidade no leito, desnutrição e doenças crônicas entram nessa lista, e o paciente com perda de peso por câncer, como discutido no texto sobre desnutrição e caquexia no câncer gástrico, é um exemplo frequente.

Prevenção ao longo da vida

O EWGSOP2 resume a prevenção numa frase: maximizar o músculo na juventude e no início da vida adulta, manter na meia-idade e minimizar a perda na velhice (Cruz-Jentoft, 2019). A frase lembra que o músculo da idade avançada depende de décadas anteriores, e que o momento de começar a treinar força é sempre o presente.

Como fazer o diagnóstico: o caminho F-A-C-S

O EWGSOP2 recomenda um caminho com quatro passos, encontrar, avaliar, confirmar e graduar a gravidade, para uso na clínica e na pesquisa (Cruz-Jentoft, 2019). A sigla em inglês é F-A-C-S, de Find, Assess, Confirm, Severity (Cruz-Jentoft, 2019).

Encontrar: o questionário SARC-F

Para encontrar casos, o consenso sugere o questionário SARC-F, que colhe do próprio paciente sinais típicos de sarcopenia (Cruz-Jentoft, 2019). A diretriz internacional da ICFSR sugere rastrear idosos a partir dos 65 anos uma vez por ano ou depois de eventos de saúde importantes, usando a velocidade de marcha ou o SARC-F (Dent, 2018).

O SARC-F tem uma limitação conhecida. Numa metanálise de 20 estudos, a sensibilidade combinada variou de 27 a 77 de cada 100 pessoas com a doença, conforme o critério diagnóstico usado, e a especificidade ficou entre 63 e 91 em cada 100 (Lu, 2021). Os autores concluíram que, pela praticidade e pela especificidade alta, o questionário continua útil para rastrear (Lu, 2021).

Na prática, um SARC-F negativo deixa passar parte dos casos. Quando a suspeita clínica é forte, como na paciente da abertura, vale ir direto para a medida de força.

Avaliar: força de preensão ou teste de levantar da cadeira

O segundo passo é medir a força. O consenso recomenda a preensão palmar, medida com dinamômetro, ou o teste de levantar da cadeira cinco vezes sem usar os braços, que serve como medida indireta da força das coxas (Cruz-Jentoft, 2019). Quando a mão não permite a medida, como na artrite avançada ou depois de um AVC, métodos de torque isométrico do membro inferior são uma alternativa (Cruz-Jentoft, 2019).

Força baixa já basta para falar em sarcopenia provável e para começar a intervir (Cruz-Jentoft, 2019). O consenso também lembra outras causas de fraqueza a considerar, como depressão, AVC, distúrbios de equilíbrio e doença vascular periférica (Cruz-Jentoft, 2019).

Confirmar: quantidade ou qualidade de músculo

A confirmação exige mostrar pouca quantidade ou qualidade de músculo. O EWGSOP2 lista a densitometria por dupla emissão de raios X (DXA) e a bioimpedância na clínica, e a ressonância e a tomografia na pesquisa (Cruz-Jentoft, 2019). A circunferência da panturrilha, com ponto de corte abaixo de 31 cm, pode servir de substituto quando não há outro método disponível (Cruz-Jentoft, 2019).

Graduar a gravidade: desempenho físico

O último passo mede o desempenho. Uma velocidade de marcha de até 0,8 m/s indica sarcopenia grave pelo EWGSOP2 (Cruz-Jentoft, 2019). O consenso também aceita a bateria SPPB, o teste Timed Up and Go e a caminhada de 400 metros (Cruz-Jentoft, 2019).

A tabela resume os pontos de corte do EWGSOP2.

Teste Ponto de corte Fonte
Força de preensão Menos de 27 kg em homens e menos de 16 kg em mulheres (Cruz-Jentoft, 2019) EWGSOP2 (Cruz-Jentoft, 2019)
Levantar da cadeira Mais de 15 s para cinco repetições (Cruz-Jentoft, 2019) EWGSOP2 (Cruz-Jentoft, 2019)
Massa muscular apendicular (ASM) Menos de 20 kg em homens e menos de 15 kg em mulheres (Cruz-Jentoft, 2019) EWGSOP2 (Cruz-Jentoft, 2019)
ASM dividida pela altura ao quadrado Menos de 7,0 kg/m² em homens e menos de 5,5 kg/m² em mulheres (Cruz-Jentoft, 2019) EWGSOP2 (Cruz-Jentoft, 2019)
Velocidade de marcha Até 0,8 m/s (Cruz-Jentoft, 2019) EWGSOP2 (Cruz-Jentoft, 2019)
SPPB Até 8 pontos (Cruz-Jentoft, 2019) EWGSOP2 (Cruz-Jentoft, 2019)
Timed Up and Go 20 s ou mais (Cruz-Jentoft, 2019) EWGSOP2 (Cruz-Jentoft, 2019)
Caminhada de 400 m Abandono do teste, ou 6 min ou mais (Cruz-Jentoft, 2019) EWGSOP2 (Cruz-Jentoft, 2019)

Força e massa: o que cada medida diz

A preensão palmar é o exame que mais informação entrega pelo menor esforço. O EWGSOP2 descreve a força de preensão baixa como forte preditora de internações mais longas, mais limitação funcional, pior qualidade de vida e morte (Cruz-Jentoft, 2019).

A preensão como sinal vital

Os dados populacionais reforçam essa ideia. No UK Biobank, com 502 293 participantes de 40 a 69 anos, cada 5 kg a menos de força de preensão se associou a maior mortalidade geral, com razão de risco de 1,16 em homens e 1,20 em mulheres (Celis-Morales, 2018). A mesma análise encontrou associação com mortalidade cardiovascular, respiratória e por câncer (Celis-Morales, 2018).

Esses números vêm de um estudo observacional e mostram associação, sem provar que aumentar a preensão prolongue a vida. Mesmo assim, ajudam a explicar por que a força virou o ponto de partida do diagnóstico.

Os pontos de corte mudam conforme o consenso

O valor de referência depende de quem define. O EWGSOP2 usa menos de 27 kg em homens e menos de 16 kg em mulheres, valores baseados em dados normativos do Reino Unido (Cruz-Jentoft, 2019). O consórcio SDOC, com outra metodologia, chegou a menos de 35,5 kg em homens e menos de 20 kg em mulheres como discriminadores de lentidão na marcha (Bhasin, 2020).

O consenso europeu reconhece que suas recomendações focam populações europeias e usam referências de adultos jovens saudáveis (Cruz-Jentoft, 2019). A revisão global de prevalência lista pelo menos seis classificações em uso, incluindo os grupos europeu, asiático e internacional, cada uma com seus próprios cortes (Petermann-Rocha, 2022). O SDOC alerta que o desempenho de um ponto de corte de preensão pode variar com idade, etnia e doença de base (Bhasin, 2020).

Para quem atende, a consequência é simples. Vale usar o consenso adotado no serviço, registrar qual foi usado e interpretar o resultado no contexto do paciente, sem tratar o ponto de corte como fronteira absoluta.

Por que a massa sozinha engana

A massa muscular é a parte mais difícil de medir. Os aparelhos, os métodos e as equações variam, e a antropometria sozinha é uma medida ruim de músculo, apesar de ser usada para avaliar estado nutricional (Cruz-Jentoft, 2019).

Na análise do SDOC, a massa magra pela DXA não previu desfechos adversos de forma independente, ao contrário da força de preensão e da velocidade de marcha (Bhasin, 2020). O painel concluiu que fraqueza e lentidão deveriam fazer parte da definição de sarcopenia (Bhasin, 2020).

Desempenho físico na beira do leito

Os testes de desempenho são simples, mas exigem cuidado. O EWGSOP2 lembra que nem sempre é possível aplicá-los, por exemplo quando demência, distúrbio da marcha ou de equilíbrio atrapalham o teste (Cruz-Jentoft, 2019). A velocidade de marcha, por outro lado, é considerada rápida, segura e muito confiável (Cruz-Jentoft, 2019).

Bengala de metal apoiada numa poltrona de couro laranja junto à parede
A bengala costuma aparecer quando a força e a marcha já caíram; o rastreio da sarcopenia tenta encontrar a perda antes desse ponto. Crédito: Jim Vallianos, CC BY-SA 4.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Por que a sarcopenia importa

A sarcopenia está ligada a desfechos que pesam para o paciente e para a família. Numa revisão sistemática de estudos de coorte, 11 de 12 estudos avaliaram mortalidade, e a mortalidade foi maior entre pessoas com sarcopenia, com razão de chances combinada de 3,596 (Beaudart, 2017).

Função, quedas e internações

A mesma revisão mostrou associação com declínio funcional, com razão de chances combinada de 3,03 em seis estudos (Beaudart, 2017). As quedas e as internações também foram mais frequentes nos estudos que as avaliaram, embora o número de estudos fosse pequeno (Beaudart, 2017). O efeito sobre fraturas e tempo de internação foi menos claro (Beaudart, 2017).

As quedas são o ponto em que a sarcopenia encontra a emergência. Um idoso fraco que cai da própria altura pode ter lesão grave com poucos sinais, como mostra o texto sobre a queda da própria altura no idoso.

Quantas pessoas têm sarcopenia

A prevalência depende do critério. Numa metanálise com 151 estudos e 692 056 pessoas, a prevalência variou entre 10 e 27 em cada 100, conforme a classificação e o ponto de corte (Petermann-Rocha, 2022). A sarcopenia grave variou de 2 a 9 em cada 100 (Petermann-Rocha, 2022).

A diferença entre critérios aparece até entre os sexos. Com o EWGSOP2, a prevalência foi maior em homens, de 11 contra 2 em cada 100, enquanto com o critério do grupo internacional foi maior em mulheres, de 17 contra 12 em cada 100 (Petermann-Rocha, 2022). Os autores concluíram que a falta de um critério único dificulta comparar estudos (Petermann-Rocha, 2022).

A internação como acelerador

A perda de músculo acelera em situações de repouso. Dias de cama durante uma internação reduzem o estímulo que o músculo recebe. A mobilização na enfermaria também ajuda a prevenir o delirium, como discutido no texto sobre o que fazer à beira do leito no delirium hipoativo.

O mesmo raciocínio aparece num cenário extremo. Em órbita, sem a carga do peso corporal, astronautas perdem osso e músculo, e as contramedidas incluem exercício, como mostra o texto sobre medicina espacial. O músculo responde à carga, na Terra e fora dela.

Treino resistido: o tratamento com evidência mais forte

A diretriz internacional de prática clínica para sarcopenia, da ICFSR, recomenda com força a prescrição de atividade física baseada em resistência como tratamento (Dent, 2018). Uma recomendação forte, pelo método GRADE, indica que os benefícios superam claramente os riscos (Dent, 2018).

O que mostram as revisões em idosos

A revisão Cochrane sobre treino resistido progressivo em idosos incluiu 121 ensaios com 6700 participantes (Liu, 2009). Na maioria, o treino foi feito duas a três vezes por semana em intensidade alta (Liu, 2009). O efeito sobre a força muscular foi grande, com diferença média padronizada de 0,84 em 73 ensaios (Liu, 2009).

Os ganhos chegaram à função. Houve melhora modesta da velocidade de marcha, de 0,08 m/s em 24 ensaios, e efeito moderado a grande no tempo para levantar da cadeira, em 11 ensaios (Liu, 2009). A melhora na capacidade física geral foi pequena, mas significativa (Liu, 2009).

O que mostram os estudos em quem já tem sarcopenia

Uma metanálise em rede de 2023 reuniu 42 ensaios com 3728 pessoas com sarcopenia, com idade mediana de 72,9 anos e seguimento mediano de 12 semanas (Shen, 2023). Com certeza alta ou moderada, o treino resistido, com ou sem nutrição, e a combinação de resistido com aeróbico e equilíbrio foram as intervenções mais eficazes para a qualidade de vida (Shen, 2023).

Na força de preensão, a combinação de treino resistido e de equilíbrio com nutrição foi a mais eficaz, com ganho médio de 4,19 kg (Shen, 2023). Na velocidade de marcha, resistido e equilíbrio, com ou sem nutrição, renderam 0,16 m/s, acima da diferença mínima importante de 0,1 m/s (Shen, 2023).

Segurança

A segurança costuma ser a dúvida do paciente e da família. Na revisão Cochrane, eventos adversos graves foram raros, e nenhum evento grave foi atribuído diretamente ao exercício (Liu, 2009). Os autores pedem cautela porque os eventos adversos foram mal registrados em muitos ensaios (Liu, 2009).

Queixas musculoesqueléticas, como dor articular e dor muscular, apareceram em vários estudos que as monitoraram de forma prospectiva (Liu, 2009). Na prática, essas queixas costumam ser motivo para rever a carga e a técnica com o paciente.

Por que a intensidade importa

A diretriz de exercício da ICFSR afirma que a sarcopenia exige treino resistido de intensidade alta para a melhor adaptação (Izquierdo, 2021). O mesmo documento descreve o treino resistido como o tratamento central da sarcopenia, já que remédios não mostraram benefício claro (Izquierdo, 2021).

Aparelho de leg press com anilhas de ferro cinza dos dois lados da plataforma
Aparelhos como o leg press permitem aumentar a carga dos membros inferiores de forma gradual e com apoio para as costas, útil para idosos que começam o treino. Crédito: Paulmcdonald, CC BY-SA 4.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Como prescrever na prática

A diretriz de exercício da ICFSR recomenda treino resistido duas a três vezes por semana, começando com uma a duas séries e progredindo para duas a três séries de 8 a 12 repetições (Izquierdo, 2021).

Começar e progredir

Para quem nunca treinou, a diretriz propõe usar cargas equivalentes a 50, 60, 70 e depois 80 em cada 100 partes da carga máxima de uma repetição nos quatro primeiros dias de treino, ao longo de uma a duas semanas (Izquierdo, 2021). Nos treinos seguintes, a escala de esforço percebido guia o aumento da carga, mantendo o esforço entre difícil e muito difícil, de 15 a 18 na escala original de Borg (Izquierdo, 2021).

Metanálises citadas pela diretriz mostram que progredir até 70 a 80 partes em cada 100 da carga máxima gera mais força do que ficar em cargas leves ou moderadas (Izquierdo, 2021). Na revisão de Borde, o tempo total de treino e a intensidade tiveram efeito significativo sobre a força, e o maior efeito apareceu com 70 a 79 partes em cada 100 da carga máxima (Borde, 2015).

Volume e frequência

A revisão de Borde, em idosos saudáveis, encontrou o melhor efeito isolado sobre a força com duas sessões semanais, duas a três séries por exercício e sete a nove repetições por série (Borde, 2015). Os maiores efeitos apareceram nos programas mais longos, de 50 a 53 semanas (Borde, 2015).

O recado prático é que o ganho continua com o tempo. Um programa de poucas semanas pode mostrar resultado inicial, mas a força se mantém com treino regular e sem prazo para acabar.

Potência e equilíbrio

A perda de potência com a idade é especialmente rápida, e por isso a diretriz da ICFSR defende incluir treino de potência, com contrações rápidas e fortes, sempre que possível, em idosos ativos e frágeis (Izquierdo, 2021). A diretriz também lembra que combinar equilíbrio e treino resistido é a intervenção mais eficaz para reduzir quedas (Izquierdo, 2021).

Na metanálise em rede, resistido combinado com equilíbrio foi uma das combinações mais eficazes para a velocidade de marcha (Shen, 2023). Para a paciente da abertura, isso significa somar exercícios de equilíbrio ao treino de força desde o início.

Quando o esforço percebido não serve

A diretriz da ICFSR orienta usar escalas de esforço percebido quando a frequência cardíaca não reflete a intensidade, como em quem usa betabloqueador ou marcapasso (Izquierdo, 2021). Se o comprometimento cognitivo impede o uso da escala, o observador pode avaliar a respiração, a capacidade de falar, o suor e a expressão facial (Izquierdo, 2021).

Onde treinar

Aparelhos, pesos livres e faixas elásticas servem para o treino resistido, segundo a revisão Cochrane (Liu, 2009). A escolha depende do acesso e da segurança do paciente. Para quem tem limitação importante, começar com supervisão de fisioterapeuta ou profissional de educação física ajuda a ajustar a carga e a técnica.

Adesão

A melhor prescrição é a que o paciente segue. Perguntar o que a pessoa quer voltar a fazer, como subir escadas sem ajuda ou carregar as compras, ajuda a dar sentido ao treino. Para quem está ambivalente, a entrevista motivacional oferece um caminho, e começar pela agenda do paciente evita impor metas que não fazem sentido para ele.

Proteína, vitamina D e remédios

A diretriz da ICFSR recomenda, de forma condicional, que o clínico considere suplementação de proteína ou dieta rica em proteína para idosos com sarcopenia (Dent, 2018). Uma recomendação condicional indica que muitos profissionais escolheriam a intervenção, mas outros não, por incerteza sobre o balanço entre benefícios e ônus (Dent, 2018).

O que a nutrição acrescenta ao treino

Na metanálise em rede, somar intervenção nutricional ao exercício teve efeito maior na força de preensão do que o exercício sozinho, com efeito parecido nas outras medidas de função física (Shen, 2023). A nutrição, portanto, complementa o treino, sem substituí-lo.

Vitamina D e hormônios

A ICFSR considerou insuficiente a evidência para dizer se a suplementação de vitamina D sozinha funciona em idosos com sarcopenia (Dent, 2018). A diretriz também considerou insuficiente a evidência para recomendar hormônios anabólicos (Dent, 2018). A diretriz de exercício reforça que remédios ainda não mostraram benefício claro na sarcopenia (Izquierdo, 2021).

Cuidado com o excesso

O diagnóstico de sarcopenia pode virar porta de entrada para exames repetidos de composição corporal e suplementos sem indicação. Para a maioria dos pacientes, força, marcha e um programa de treino orientam mais do que exames sucessivos. O conceito de prevenção quaternária ajuda a pesar o que cada exame acrescenta.

De volta ao caso

Na paciente da abertura, o caminho F-A-C-S começaria pela suspeita clínica e pela medida da força de preensão ou pelo teste de levantar da cadeira (Cruz-Jentoft, 2019). Com força baixa, já se fala em sarcopenia provável e já se começa o treino (Cruz-Jentoft, 2019).

A prescrição inicial seria treino resistido duas a três vezes por semana, com progressão de carga guiada pelo esforço percebido, somado a exercícios de equilíbrio (Izquierdo, 2021). A conversa sobre alimentação e proteína entraria em seguida (Dent, 2018). A medida da velocidade de marcha ajudaria a graduar a gravidade e a acompanhar a resposta (Cruz-Jentoft, 2019).

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Para os motivos de consulta mais frequentes, veja os códigos mais comuns na atenção primária.

Perguntas frequentes

O que é sarcopenia?

É uma doença muscular, marcada por perda de força e de massa ou qualidade do músculo, que se acumula ao longo da vida e é comum em idosos (Cruz-Jentoft, 2019).

Qual é o primeiro exame a fazer?

A medida de força, pela preensão palmar ou pelo teste de levantar da cadeira cinco vezes (Cruz-Jentoft, 2019). Força baixa já define sarcopenia provável (Cruz-Jentoft, 2019).

Quais são os pontos de corte da preensão?

Pelo EWGSOP2, menos de 27 kg em homens e menos de 16 kg em mulheres (Cruz-Jentoft, 2019). Outros consensos usam valores diferentes, como o SDOC, com menos de 35,5 kg e menos de 20 kg (Bhasin, 2020).

O SARC-F basta para descartar sarcopenia?

Ele é específico, mas pouco sensível, com sensibilidade combinada entre 27 e 77 de cada 100 pessoas com a doença, conforme o critério (Lu, 2021). Com suspeita clínica, vale medir a força.

Qual exercício trata a sarcopenia?

O treino resistido, com recomendação forte da diretriz internacional (Dent, 2018). Combinar resistido com equilíbrio e aeróbico também melhora a qualidade de vida (Shen, 2023).

Com que frequência treinar?

Duas a três vezes por semana, progredindo para duas a três séries de 8 a 12 repetições (Izquierdo, 2021).

Treino de força é seguro para idosos?

Eventos adversos graves foram raros na revisão Cochrane, e nenhum evento grave foi atribuído diretamente ao exercício (Liu, 2009).

Suplemento de proteína ajuda?

A diretriz recomenda considerar proteína de forma condicional (Dent, 2018). Somada ao exercício, a nutrição aumentou mais a força de preensão do que o exercício sozinho (Shen, 2023).

Existe remédio para sarcopenia?

Até agora, nenhum remédio mostrou benefício claro, e a evidência é insuficiente para hormônios anabólicos e vitamina D isolada (Dent, 2018).

Take-home messages

  • Sarcopenia é doença do músculo, e não apenas parte do envelhecimento.
  • A força baixa é o primeiro sinal a procurar e já permite falar em sarcopenia provável.
  • O caminho F-A-C-S organiza o diagnóstico em encontrar, avaliar, confirmar e graduar.
  • Pontos de corte variam por consenso e região; registre qual foi usado.
  • O SARC-F é específico, mas deixa passar casos; com suspeita, meça a força.
  • Treino resistido é o tratamento com recomendação forte.
  • A intensidade deve progredir até cargas altas, guiada pelo esforço percebido.
  • Proteína complementa o treino; vitamina D e hormônios ficaram sem recomendação.

Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

  1. Cruz-Jentoft AJ, Bahat G, Bauer J, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age Ageing. 2019. PMID 30312372. DOI 10.1093/ageing/afy169.
  2. Bhasin S, Travison TG, Manini TM, et al. Sarcopenia Definition: The Position Statements of the Sarcopenia Definition and Outcomes Consortium. J Am Geriatr Soc. 2020. PMID 32150289. DOI 10.1111/jgs.16372.
  3. Dent E, Morley JE, Cruz-Jentoft AJ, et al. International Clinical Practice Guidelines for Sarcopenia (ICFSR): Screening, Diagnosis and Management. J Nutr Health Aging. 2018. PMID 30498820. DOI 10.1007/s12603-018-1139-9.
  4. Izquierdo M, Merchant RA, Morley JE, et al. International Exercise Recommendations in Older Adults (ICFSR): Expert Consensus Guidelines. J Nutr Health Aging. 2021. PMID 34409961. DOI 10.1007/s12603-021-1665-8.
  5. Liu CJ, Latham NK. Progressive resistance strength training for improving physical function in older adults. Cochrane Database Syst Rev. 2009. PMID 19588334. DOI 10.1002/14651858.CD002759.pub2.
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  7. Borde R, Hortobágyi T, Granacher U. Dose-Response Relationships of Resistance Training in Healthy Old Adults: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Med. 2015. PMID 26420238. DOI 10.1007/s40279-015-0385-9.
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  9. Lu JL, Ding LY, Xu Q, et al. Screening Accuracy of SARC-F for Sarcopenia in the Elderly: A Diagnostic Meta-Analysis. J Nutr Health Aging. 2021. PMID 33491031. DOI 10.1007/s12603-020-1471-8.
  10. Beaudart C, Zaaria M, Pasleau F, et al. Health Outcomes of Sarcopenia: A Systematic Review and Meta-Analysis. PLoS One. 2017. PMID 28095426. DOI 10.1371/journal.pone.0169548.
  11. Petermann-Rocha F, Balntzi V, Gray SR, et al. Global prevalence of sarcopenia and severe sarcopenia: a systematic review and meta-analysis. J Cachexia Sarcopenia Muscle. 2022. PMID 34816624. DOI 10.1002/jcsm.12783.

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