Hemorragia pós-parto: medir a perda e tratar em pacote

Estetoscópio obstétrico de Pinard em madeira clara, deitado sobre uma superfície branca
Sumário
  1. Por que a hemorragia pós-parto é um cenário de raciocínio
  2. O olho engana: o problema da estimativa visual
  3. Medir em vez de estimar
  4. A tabela: estimativa visual e medição objetiva
  5. O ensaio E-MOTIVE e a ideia de pacote
  6. Os componentes do pacote
  7. Ácido tranexâmico: o relógio importa
  8. Prevenção: o que acontece antes do sangramento
  9. Os atrasos e como a equipe os reduz
  10. Fechamento precoce e a falsa tranquilidade
  11. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  12. Perguntas frequentes
  13. Checklist final
  14. Referências

Numa maternidade movimentada, uma mulher acaba de ter o segundo filho num parto vaginal sem intercorrências. A placenta saiu completa, o bebê está no colo e a equipe já se prepara para a próxima admissão. Vinte minutos depois, a técnica de enfermagem troca o forro da cama e comenta que "sangrou um pouco mais que o normal". A pressão ainda está boa, a mulher conversa e diz que só está cansada. Ninguém pesou nada, ninguém mediu nada, e a impressão geral é de que está tudo sob controle. A cena é fictícia e foi escrita para ensino. Este texto usa esse quadro como cenário de raciocínio clínico: por que o olho engana na hemorragia pós-parto, como medir a perda de sangue de forma objetiva e por que o tratamento funciona melhor quando é acionado como um pacote, ao mesmo tempo, e não como uma sequência de tentativas.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

O texto não é um protocolo de tratamento. Fármacos, doses, vias e fluxos de escalonamento seguem diretrizes nacionais e o treinamento de cada serviço. O interesse aqui é o raciocínio: por que a detecção tardia é o ponto fraco mais comum e por que um gesto simples, como colocar um coletor graduado sob a mulher, muda a decisão. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o movimento: a pista que parece pequena, quando medida, muda a hipótese e a urgência.

Principais pontos

  • A estimativa visual da perda de sangue costuma subestimar o sangramento, e o erro cresce quanto maior a perda.
  • A Organização Mundial da Saúde recomenda medir de forma objetiva a perda de sangue em todos os partos.
  • O pacote de tratamento reúne massagem uterina, uterotônico, ácido tranexâmico, fluidos intravenosos, exame e escalonamento, iniciados juntos.
  • O ácido tranexâmico funciona melhor quando dado o quanto antes, idealmente nas primeiras horas.
  • Atrasos em reconhecer, decidir e agir são o padrão mais frequente quando a hemorragia termina mal.

Por que a hemorragia pós-parto é um cenário de raciocínio

A hemorragia pós-parto é tradicionalmente definida como perda de sangue de meio litro ou mais nas primeiras horas depois do nascimento. Continua sendo uma das principais causas de morte materna no mundo, e boa parte dessas mortes é considerada evitável. A dificuldade raramente está em saber o que fazer. Está em perceber a tempo que é preciso fazer.

Coomarasamy e colaboradores descreveram, numa revisão recente, a hemorragia pós-parto como uma sucessão de possíveis atrasos: em reconhecer o sangramento, em chamar ajuda, em iniciar o tratamento, em escalonar, em transferir e em transfundir (Coomarasamy e colaboradores, 2026). Cada atraso parece pequeno visto isoladamente. Somados, transformam uma complicação tratável numa emergência.

O que a cena ensina

A cena tem três pistas fracas. A primeira é a frase "sangrou um pouco mais que o normal", que é uma estimativa visual. A segunda é a pressão ainda normal, que tranquiliza a equipe mas não exclui uma perda importante, porque muitas mulheres jovens e saudáveis compensam por bastante tempo. A terceira é o cansaço, que pode ser apenas o esforço do parto ou o começo de uma hipovolemia. Nenhuma das três é conclusiva. O que falta é um número.

O post sobre diagnóstico diferencial mostra como pistas fracas, somadas, mudam a ordem das hipóteses. Aqui a lógica é a mesma, com uma diferença: a pista mais importante pode ser medida.

O olho engana: o problema da estimativa visual

Estimar a perda de sangue olhando para lençóis, compressas e o chão da sala é a prática mais antiga e ainda muito comum. Também é pouco confiável. Natrella e colaboradores compararam a estimativa visual com a medição e resumiram o achado numa frase: quanto mais se perde, mais se deixa de ver (Natrella e colaboradores, 2018). Perdas pequenas tendem a ser superestimadas, e perdas grandes, subestimadas, justamente quando o erro custa mais.

A revisão Cochrane de Yunas e colaboradores avaliou a acurácia dos métodos de diagnóstico da hemorragia pós-parto e concluiu que a estimativa visual deixa passar cerca de metade dos diagnósticos (Yunas e colaboradores, 2025). A mesma revisão encontrou alta sensibilidade e especificidade quando um coletor calibrado era usado junto com a observação dos sinais vitais.

Por que o erro é sistemático

O sangue se espalha em superfícies diferentes, mistura-se com líquido amniótico e urina, fica retido em compressas e coágulos e escorre para fora do campo de visão. Quem está na sala também está ocupado com o bebê, com a placenta e com a conversa. Além disso, a equipe tende a ancorar na primeira impressão de um parto tranquilo. O post sobre exemplos de heurísticas no raciocínio clínico mostra como atalhos úteis no dia a dia viram armadilhas quando a situação muda.

Uma revisão Cochrane anterior, de Diaz, Abalos e Carroli, não encontrou evidência suficiente para preferir um método de estimativa sobre outro em desfechos clínicos (Diaz e colaboradores, 2018). A conclusão parecia frustrante na época. Ela mudou com o ensaio E-MOTIVE, que testou a medição não como um fim em si, mas como gatilho para o tratamento.

Medir em vez de estimar

A medição objetiva pode ser feita de duas formas principais. A volumétrica usa um coletor plástico graduado colocado sob as nádegas logo depois do nascimento, que recolhe o sangue e permite ler o volume diretamente. A gravimétrica pesa compressas e forros e desconta o peso seco. As duas exigem rotina e treino, mas nenhuma depende de tecnologia cara.

As recomendações da Organização Mundial da Saúde de 2023 para o diagnóstico e tratamento da hemorragia pós-parto pedem a medição objetiva da perda de sangue de rotina em todos os partos, e não só quando alguém já desconfia de sangramento excessivo (Organização Mundial da Saúde, 2023). A lógica é simples: se a medição só começa quando alguém percebe o problema, ela herda o atraso da estimativa visual.

O papel dos sinais vitais

Pressão arterial, frequência cardíaca e o índice de choque, que é a razão entre frequência cardíaca e pressão sistólica, ajudam a avaliar a repercussão da perda. Mas não substituem a medição. Na revisão de Yunas e colaboradores, um índice de choque elevado teve baixa sensibilidade como critério isolado (Yunas e colaboradores, 2025). Em outras palavras, quando o índice de choque sobe, a perda já costuma ser importante. Esperar por ele é esperar demais.

Por isso, a recomendação combina medição e sinais de alerta. O pacote deve ser acionado quando a perda medida chega a meio litro ou quando atinge cerca de trezentos mililitros acompanhada de sinais vitais anormais ou de outros sinais de alerta (Organização Mundial da Saúde, 2023).

O que torna a medição viável na rotina

A medição só funciona se o coletor for colocado antes de o sangramento começar, ou seja, logo depois do nascimento do bebê, e se alguém for responsável por olhar o volume em momentos combinados. Sem essa rotina, o coletor vira mais um objeto na cama. Também é preciso decidir o que fazer com líquido amniótico e urina, que podem inflar a leitura no início, e combinar quando o coletor será retirado.

Outra condição é que o número tenha consequência. Se a técnica anuncia que o limiar foi atingido e ninguém reage, a equipe aprende rapidamente que medir não muda nada. Por isso a medição e o pacote foram testados juntos: um sem o outro perde boa parte do efeito.

Dois cateteres intravenosos periféricos de calibres diferentes sobre fundo claro
Cateteres intravenosos periféricos. No pacote de tratamento da hemorragia pós-parto, o acesso venoso e os fluidos fazem parte das primeiras ações, ao lado da massagem uterina e dos fármacos. Crédito: Saltanat ebli, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

A tabela: estimativa visual e medição objetiva

A comparação abaixo resume o que muda quando a equipe passa a medir.

Aspecto Estimativa visual Medição objetiva
Como é feita Impressão de quem olha lençóis, compressas e chão Coletor graduado sob a mulher ou pesagem de compressas
Erro típico Subestima perdas grandes, superestima perdas pequenas Menor, desde que o coletor seja colocado logo após o nascimento
Momento do diagnóstico Tende a ser tardio, quando surgem sinais de choque Mais precoce, com um limiar claro para agir
Gatilho para tratar Depende da percepção individual Volume definido, com ou sem sinais de alerta
Registro Vago, difícil de comparar Número que a equipe inteira pode ler
Uso na auditoria Pouco útil para aprender Permite revisar quanto tempo levou cada etapa

A tabela não diz que os sinais clínicos deixam de importar. Diz que o número muda a conversa entre as pessoas na sala. Uma técnica que diz "o coletor já marca quase meio litro" é ouvida de outro modo que uma que diz "acho que sangrou bastante".

O ensaio E-MOTIVE e a ideia de pacote

O ensaio E-MOTIVE, publicado por Gallos e colaboradores, randomizou hospitais em quatro países africanos para usar ou não uma estratégia com duas partes (Gallos e colaboradores, 2023). A primeira era a detecção precoce com coletor calibrado. A segunda era um pacote de tratamento acionado de uma vez: massagem uterina, uterotônico, ácido tranexâmico, fluidos intravenosos, exame do trato genital e escalonamento quando necessário.

Os resultados foram fortes. O desfecho composto de hemorragia grave, laparotomia ou morte materna por sangramento caiu de modo importante no grupo da intervenção. A detecção da hemorragia passou de cerca de metade dos casos para mais de nove em cada dez, e o pacote passou a ser aplicado na grande maioria das vezes, contra uma minoria no grupo controle. O ensaio não testou um fármaco novo. Testou uma forma diferente de organizar o que já se sabia.

Por que pacote e não sequência

A prática tradicional costumava funcionar em degraus: massagem, esperar; uterotônico, esperar; outro uterotônico, esperar. Cada espera parece prudente, mas consome minutos de sangramento ativo. O pacote inverte a lógica. As primeiras medidas começam juntas, e a reavaliação vem depois, com a decisão de escalonar se o sangramento não parar.

A recomendação da Organização Mundial da Saúde de 2023 incorporou essa ideia: o pacote deve ser iniciado assim que a hemorragia é diagnosticada, de preferência em até quinze minutos, e quem não responde deve seguir para medidas adicionais (Organização Mundial da Saúde, 2023). O post sobre tomada de decisão clínica discute por que decidir cedo, com critérios claros, costuma ser melhor que esperar por certeza.

O que o ensaio não responde

Como todo ensaio, o E-MOTIVE tem limites. Foi feito em partos vaginais, em hospitais com algum nível de estrutura, e com apoio de implementação que nem todo serviço terá. Também não separa o efeito de cada componente, porque o objetivo era justamente testar o conjunto. Ainda assim, o resultado é coerente com o que se sabia sobre o tempo: tratar cedo, e com várias medidas ao mesmo tempo, faz diferença quando o sangramento está ativo. Serviços em outros contextos podem adaptar o modelo, mantendo os dois princípios centrais: medir e agir em conjunto.

Os componentes do pacote

Cada componente do pacote responde a uma causa possível ou a uma consequência do sangramento. A ordem abaixo é didática; na prática, várias pessoas fazem várias coisas ao mesmo tempo.

Massagem uterina. A atonia é a causa mais comum de hemorragia pós-parto. Massagear o fundo uterino ajuda o útero a contrair enquanto os fármacos começam a agir.

Uterotônico. A ocitocina continua sendo o fármaco de primeira linha mais estudado. A revisão em rede de Parry Smith e colaboradores sobre o tratamento de primeira linha concluiu que a ocitocina provavelmente é mais eficaz que o misoprostol, com menos efeitos adversos, e que acrescentar misoprostol à ocitocina faz pouca ou nenhuma diferença (Parry Smith e colaboradores, 2020).

Ácido tranexâmico. É um antifibrinolítico que entra no pacote desde o início, discutido na seção seguinte.

Fluidos intravenosos. Acesso venoso calibroso e reposição de volume ajudam a manter a perfusão enquanto se controla o sangramento. Coleta de sangue para tipagem e exames costuma ser feita no mesmo momento.

Exame. Revisar útero, placenta e trato genital procura causas que os fármacos não resolvem, como lacerações, restos placentários ou alterações de coagulação. O raciocínio clássico das causas, resumido em tônus, trauma, tecido e trombina, ajuda a não esquecer nenhuma delas.

Escalonamento. Se o sangramento continua, a equipe chama ajuda experiente, considera outros uterotônicos, tamponamento com balão, procedimentos cirúrgicos, transfusão e transferência. O pacote não é o fim do tratamento; é o começo organizado.

Quem faz o quê

Num sangramento ativo, a pergunta "quem vai fazer isso?" custa tempo. Equipes que treinam com papéis definidos, como quem massageia, quem prepara os fármacos, quem cuida do acesso e quem registra, tendem a agir mais rápido. O post sobre raciocínio clínico interprofissional mostra como a decisão compartilhada depende de linguagem comum entre profissões.

Ácido tranexâmico: o relógio importa

O ensaio WOMAN randomizou mulheres com hemorragia pós-parto para receber ácido tranexâmico ou placebo, além do tratamento habitual (WOMAN Trial Collaborators, 2017). O ácido tranexâmico reduziu a morte por sangramento, com benefício mais claro quando dado nas três primeiras horas depois do parto. Não reduziu a necessidade de histerectomia e não aumentou os eventos tromboembólicos.

O achado sobre o tempo é o que mais interessa ao raciocínio. Um fármaco cujo benefício diminui com o atraso não pode ficar reservado para quando "nada mais funcionou". Ele precisa entrar cedo, junto com as outras medidas. Por isso, a recomendação da Organização Mundial da Saúde de 2023 inclui o ácido tranexâmico no pacote inicial, e não num degrau posterior (Organização Mundial da Saúde, 2023).

Um erro de raciocínio comum

Há uma tentação de guardar o fármaco "mais forte" para depois, como se usá-lo cedo fosse exagero. Esse raciocínio faz sentido para intervenções com riscos altos, mas não para uma medida segura cujo benefício depende do relógio. O post sobre incerteza diagnóstica discute como pesar o custo de agir cedo contra o custo de esperar.

Prevenção: o que acontece antes do sangramento

O melhor tratamento da hemorragia pós-parto começa antes dela. O uso de um uterotônico profilático logo depois do nascimento é uma das medidas mais eficazes de prevenção. O ensaio CHAMPION, de Widmer e colaboradores, mostrou que a carbetocina termoestável não foi inferior à ocitocina na prevenção de perda de meio litro ou mais (Widmer e colaboradores, 2018). O detalhe importa em lugares onde manter a ocitocina refrigerada é difícil, porque um fármaco degradado não protege ninguém.

A revisão Cochrane em rede de Gallos e colaboradores sobre a prevenção comparou vários uterotônicos e encontrou que combinações como ergometrina com ocitocina e misoprostol com ocitocina podem ser mais eficazes que a ocitocina isolada, mas com mais efeitos adversos, enquanto a carbetocina teve perfil de efeitos adversos semelhante ao da ocitocina (Gallos e colaboradores, 2025). A escolha depende do contexto, dos recursos e das contraindicações de cada mulher.

Fatores de risco não bastam

Gravidez múltipla, trabalho de parto prolongado, hemorragia em parto anterior e anemia aumentam o risco. Mas muitas hemorragias acontecem em mulheres sem nenhum fator de risco conhecido, como a da cena. Por isso, a prevenção e a medição são universais. Classificar alguém como "baixo risco" não deve reduzir a vigilância. O post sobre taxa básica no diagnóstico mostra como a frequência de uma condição na população deve pesar mais do que a impressão sobre um caso individual.

Bolsa de sangue pendurada num suporte ao lado de um leito hospitalar, com equipo e conexões
Bolsa de sangue em transfusão num leito hospitalar. Quando o pacote inicial não controla a hemorragia, a transfusão faz parte do escalonamento, e a demora para obtê-la é um dos atrasos que mais pesam no desfecho. Crédito: 26RIJNA2020, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Os atrasos e como a equipe os reduz

A revisão de Coomarasamy e colaboradores organiza o problema em atrasos sucessivos, e cada um deles tem um antídoto prático (Coomarasamy e colaboradores, 2026). O atraso em reconhecer diminui com a medição objetiva. O atraso em agir diminui com o pacote e com papéis definidos. O atraso em escalonar diminui com critérios claros de quando chamar ajuda. O atraso em transfundir diminui com fluxos combinados com o banco de sangue.

A recomendação da Organização Mundial da Saúde de 2023 também descreve estratégias de implementação: auditoria e retorno de dados para a equipe, profissionais de referência que lideram a mudança em cada serviço e um carrinho de hemorragia pós-parto sempre reabastecido (Organização Mundial da Saúde, 2023). Nenhuma delas é sofisticada. Todas tratam o problema como um processo da equipe, e não como uma falha de quem estava de plantão.

Aprender com os casos que deram errado

Quando uma hemorragia termina em histerectomia ou morte, é fácil olhar para trás e dizer que "estava óbvio". O post sobre viés retrospectivo e viés de resultado explica por que esse julgamento é injusto e pouco útil. Sessões estruturadas de revisão, como as descritas no post sobre sessões de morbimortalidade, funcionam melhor quando perguntam quanto tempo levou cada etapa e o que teria encurtado esse tempo.

Fechamento precoce e a falsa tranquilidade

Croskerry descreveu o fechamento precoce como a tendência de aceitar um diagnóstico antes de ele ser verificado (Croskerry, 2003). Na hemorragia pós-parto, o fechamento precoce costuma ter a forma de "parto tranquilo, tudo bem". A primeira impressão é boa, e cada nova pista é lida à luz dela: a pressão normal confirma, o cansaço é esperado, o forro molhado é "um pouco mais que o normal".

A medição objetiva funciona como uma interrupção desse processo. Ela não depende de ninguém mudar de opinião; ela mostra um número que obriga a reconsiderar. O post sobre pausa diagnóstica descreve outra forma de interromper o fechamento precoce: perguntar, de propósito, o que mais poderia estar acontecendo.

Calibrar a confiança

Profissionais experientes costumam confiar muito na própria estimativa visual, e é compreensível: viram muitos partos. Mas experiência não corrige um erro sistemático do olho humano. O post sobre calibração da confiança mostra como comparar a impressão com o resultado medido é a forma mais rápida de ajustar a própria confiança.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas. Você propõe um diagnóstico buscando o código na CID-10 e recebe um retorno de proximidade em cinco níveis, que mostra se o palpite ficou no código exato, na mesma categoria, no mesmo grupo, no mesmo capítulo ou em outro capítulo. Esse formato conversa com o tema deste texto: uma pista que parece trivial pode mudar a urgência e o rumo do caso.

Para usar o caso do dia como treino, experimente três hábitos. Antes de cada palpite, pergunte qual pista poderia ser medida em vez de estimada. Quando o quadro parecer tranquilo, pergunte o que faria você mudar de ideia. Depois do resultado, anote em que momento um número teria antecipado a decisão.

Três exercícios com casos

Troque impressão por número. Diante de uma pista vaga, como "sangrou bastante", pergunte qual medida tornaria essa pista objetiva.

Pense em pacote. Em casos de emergência, liste as ações que podem começar juntas, em vez de esperar uma por uma.

Conte os atrasos. Ao revisar um caso, marque cada ponto em que a equipe esperou e pergunte o que encurtaria essa espera.

O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos mostra como casos ajudam a fixar padrões que exigem resposta rápida.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

A estimativa visual costuma subestimar a perda de sangue?

Sim. Os estudos mostram que o erro cresce quanto maior a perda, e a revisão Cochrane de 2025 estimou que a estimativa visual deixa passar cerca de metade dos diagnósticos.

A medição objetiva deve ser feita em todos os partos?

Sim. A recomendação da Organização Mundial da Saúde de 2023 pede medição objetiva de rotina, e não só quando há suspeita de sangramento excessivo.

O pacote de tratamento deve começar de uma vez?

Sim. Massagem uterina, uterotônico, ácido tranexâmico, fluidos intravenosos e exame começam juntos, e o escalonamento vem se o sangramento continuar.

O ácido tranexâmico funciona melhor quando dado cedo?

Sim. No ensaio WOMAN, o benefício sobre a morte por sangramento foi mais claro nas três primeiras horas depois do parto.

Mulheres sem fatores de risco também podem ter hemorragia pós-parto?

Sim. Muitas hemorragias acontecem sem fator de risco conhecido, por isso prevenção e medição valem para todos os partos.

Treinar a equipe ajuda a reduzir atrasos?

Sim. Papéis definidos, carrinho reabastecido, auditoria e retorno de dados são estratégias de implementação descritas pela Organização Mundial da Saúde.

Checklist final

  • Coloquei o coletor graduado logo depois do nascimento.
  • Registrei a perda medida, e não apenas a impressão.
  • Observei pressão, frequência cardíaca e sinais de alerta junto com o volume.
  • Acionei o pacote ao atingir o limiar combinado.
  • Iniciei massagem, uterotônico, ácido tranexâmico, fluidos e exame ao mesmo tempo.
  • Revisei tônus, trauma, tecido e trombina.
  • Defini quem faz o quê e chamei ajuda cedo.
  • Escalonei quando o sangramento não parou.
  • Revisei o caso depois, contando quanto tempo levou cada etapa.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Coomarasamy A, Devall AJ, Bell S, et al. Diagnosis and treatment of postpartum haemorrhage: a race against time. Lancet. 2026. PMID 42285120.
  2. Croskerry P. The importance of cognitive errors in diagnosis and strategies to minimize them. Acad Med. 2003. PMID 12915363.
  3. Diaz V, Abalos E, Carroli G. Methods for blood loss estimation after vaginal birth. Cochrane Database Syst Rev. 2018. PMID 30211952.
  4. Gallos I, Devall A, Martin J, et al. Randomized trial of early detection and treatment of postpartum hemorrhage. N Engl J Med. 2023. PMID 37158447.
  5. Gallos ID, Yunas I, Devall AJ, et al. Uterotonic agents for preventing postpartum haemorrhage: a network meta-analysis. Cochrane Database Syst Rev. 2025. PMID 40237648.
  6. Natrella M, Di Naro E, Loverro M, et al. The more you lose the more you miss: accuracy of postpartum blood loss visual estimation. A systematic review of the literature. J Matern Fetal Neonatal Med. 2018. PMID 28002983.
  7. Organização Mundial da Saúde. WHO recommendations on the assessment of postpartum blood loss and use of a treatment bundle for postpartum haemorrhage. 2023. Documento.
  8. Parry Smith WR, Papadopoulou A, Thomas E, et al. Uterotonic agents for first-line treatment of postpartum haemorrhage: a network meta-analysis. Cochrane Database Syst Rev. 2020. PMID 33232518.
  9. Widmer M, Piaggio G, Nguyen TMH, et al. Heat-stable carbetocin versus oxytocin to prevent hemorrhage after vaginal birth. N Engl J Med. 2018. PMID 29949473.
  10. WOMAN Trial Collaborators. Effect of early tranexamic acid administration on mortality, hysterectomy, and other morbidities in women with post-partum haemorrhage (WOMAN): an international, randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2017. PMID 28456509.
  11. Yunas I, Gallos ID, Devall AJ, et al. Tests for diagnosis of postpartum haemorrhage at vaginal birth. Cochrane Database Syst Rev. 2025. PMID 39821088.

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