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Medicina do EsporteCardiologia

Exercício como prescrição: a recomendação da OMS na prática

Halteres azuis, corda de pular e bola de exercício sobre fundo amarelo
Sumário
  1. Por que tratar o exercício como prescrição
  2. O que a OMS recomenda para adultos
  3. Quanto benefício vem de quanto movimento
  4. Como perguntar e registrar: a atividade física como sinal vital
  5. Como montar a prescrição com o modelo FITT
  6. Ajustes para quem tem doença crônica
  7. Erros de raciocínio que atrapalham a prescrição
  8. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  9. Perguntas frequentes
  10. Take-home messages
  11. Referências

Uma mulher de 58 anos volta à consulta para mostrar exames. Tem hipertensão controlada com um comprimido, glicemia de jejum no limite e dor no joelho quando sobe escada. A receita sai com o anti-hipertensivo renovado e um pedido de retorno em seis meses. No fim da consulta, quase na porta, alguém diz: "e faça uma caminhada". Ela concorda, sorri e vai embora sem saber quanto, como, quando nem por onde começar.

A cena é comum e mostra o problema. A atividade física tem uma das bases de evidência mais sólidas da medicina para reduzir mortalidade, doença cardiovascular, diabetes e sintomas de depressão. Mesmo assim, costuma entrar na consulta como conselho genérico, sem registro, sem meta e sem acompanhamento, ao contrário do comprimido, que tem nome, horário e data de reavaliação.

Este texto trata o exercício como aquilo que as diretrizes dizem que ele é: uma intervenção com indicação, forma de aplicação e ajuste. Veremos o que a Organização Mundial da Saúde recomenda, como perguntar e registrar, como montar uma prescrição simples e como adaptá-la para quem tem doença crônica.

Principais pontos

  • A OMS recomenda de 150 a 300 minutos semanais de atividade moderada, ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, mais fortalecimento muscular em dois ou mais dias (Bull, 2020).
  • O benefício começa bem abaixo da meta: cerca de um terço dela já se associa a menor mortalidade (Kraus, 2019).
  • Duas perguntas na triagem bastam para registrar a atividade física como sinal vital (Golightly, 2017).
  • O aconselhamento sobre atividade física ainda é feito de forma irregular na atenção primária (Hall, 2022).
  • O modelo FITT (frequência, intensidade, tempo e tipo) organiza a prescrição (Pelliccia, 2021).
  • Diabetes, câncer e envelhecimento pedem ajustes próprios, descritos em consensos internacionais.

Sumário

Por que tratar o exercício como prescrição

A palavra prescrição muda a conversa. Um conselho termina quando o paciente sai da sala, e uma prescrição tem objetivo, forma de execução e momento de revisão. O consenso internacional para idosos diz isso de modo explícito: a prescrição de exercício deve partir do desfecho pretendido e ser individualizada, ajustada e controlada como qualquer outro tratamento médico (Izquierdo, 2021).

Os mesmos autores lembram que o exercício age sobre vários sistemas ao mesmo tempo. Um remédio costuma ter um alvo; o treino de força melhora músculo, equilíbrio, glicemia e humor na mesma sessão. Em algumas situações, o exercício é alternativa ao fármaco, como na depressão, e em outras ocupa um espaço onde quase não há tratamento medicamentoso eficaz, como na sarcopenia (Izquierdo, 2021).

O tamanho do problema justifica a atenção. A revisão que embasou as diretrizes americanas estimou que cerca de 80 em cada 100 adultos e adolescentes dos Estados Unidos são insuficientemente ativos (Piercy, 2018). Quem está no grupo menos ativo é justamente quem mais ganha com pequenos aumentos.

Há também uma razão de raciocínio clínico. A inatividade é um fator de risco que raramente aparece na lista de problemas, embora pese tanto quanto outros que sempre aparecem. Quando ela fica fora do registro, fica também fora da probabilidade pré-teste que o médico estima para doença cardiovascular, diabetes ou quedas. A lógica de estimar a probabilidade antes do exame vale para o estilo de vida tanto quanto para os sintomas.

O que a OMS recomenda para adultos

A diretriz de 2020 da Organização Mundial da Saúde atualizou as recomendações de 2010 e foi construída a partir de revisões sistemáticas atualizadas por um grupo de especialistas (Bull, 2020). Para adultos de 18 a 64 anos, inclusive os que têm doença crônica ou deficiência, a recomendação central é a seguinte.

  • De 150 a 300 minutos por semana de atividade aeróbica moderada, ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, ou uma combinação equivalente.
  • Fortalecimento muscular de intensidade moderada ou maior, envolvendo os grandes grupos musculares, em dois ou mais dias da semana.
  • Redução do tempo sentado, trocando-o por atividade de qualquer intensidade, inclusive leve.

A diretriz associa a atividade física a menor mortalidade geral e cardiovascular, menos hipertensão e diabetes tipo 2 incidentes, menos cânceres de alguns sítios, menos sintomas de ansiedade e depressão e melhor cognição e sono (Bull, 2020). Acima de 300 minutos semanais de atividade moderada há benefício adicional, desde que não haja contraindicação para quem tem doença crônica.

Duas mensagens da diretriz merecem destaque na consulta. A primeira: alguma atividade é melhor do que nenhuma. A segunda: mais atividade é melhor para a saúde. O sedentarismo ganhou recomendação própria, embora a evidência ainda não permita definir um limite de horas sentado (Bull, 2020).

As diretrizes americanas de 2018 chegaram a números praticamente iguais para adultos e acrescentam que idosos devem fazer atividade multicomponente, com treino de equilíbrio além do aeróbico e do fortalecimento (Piercy, 2018). Gestantes e puérperas devem acumular pelo menos 150 minutos semanais de atividade moderada.

Para quem pratica, moderada é a intensidade em que a pessoa consegue conversar, mas não cantar. Vigorosa é aquela em que só se consegue dizer poucas palavras sem pausar para respirar. Essa régua, chamada teste da fala, aparece também na diretriz europeia de cardiologia do esporte (Pelliccia, 2021).

Quanto benefício vem de quanto movimento

A revisão guarda-chuva que embasou as diretrizes americanas resumiu a forma da relação entre atividade e desfecho (Kraus, 2019). Os pontos principais são claros.

  • A associação com melhores desfechos começa com quantidades muito modestas, cerca de um terço da meta.
  • Qualquer atividade moderada a vigorosa é melhor do que nenhuma.
  • Cumprir a meta reduz a mortalidade e o risco cardiovascular a cerca de três quartos do benefício máximo obtido com atividade física.
  • Ir além da meta reduz o risco ainda mais, mas cada ganho adicional exige mais atividade.
  • Até três a cinco vezes a meta, os estudos não mostraram excesso de risco.

Esses achados valem para caminhada, corrida e bicicleta quando a atividade é medida em gasto energético (Kraus, 2019). Para a consulta, a tradução é direta: a curva é íngreme no começo. A pessoa sedentária que passa a caminhar alguns dias por semana faz o movimento de maior retorno de toda a curva.

A metanálise com acelerômetro reforçou esse desenho com dados objetivos. Reuniu dados individuais de 36.383 pessoas, com idade média de 62,6 anos e seguimento mediano de 5,8 anos (Ekelund, 2019). Comparado ao quarto menos ativo, o risco de morte nos quartos seguintes de atividade total teve razões de risco de 0,48, 0,34 e 0,27 (Ekelund, 2019).

O mesmo estudo mostrou que a atividade leve também conta. As razões de risco para atividade leve foram de 0,60, 0,44 e 0,38 nos quartos sucessivos (Ekelund, 2019). No sentido oposto, o quarto mais sentado teve razão de risco de 2,63 em relação ao menos sentado (Ekelund, 2019). São dados observacionais, sujeitos a causalidade reversa, porque quem já está doente se move menos. Mesmo assim, apontam na mesma direção que os ensaios sobre fatores de risco.

Pergunta clínica O que a evidência mostra Fonte
Quanto fazer por semana? 150 a 300 min moderada ou 75 a 150 min vigorosa Bull, 2020
Fortalecimento entra? Dois ou mais dias por semana, grandes grupos musculares Bull, 2020
Abaixo da meta adianta? Benefício começa com cerca de um terço da meta Kraus, 2019
Atividade leve conta? Menor mortalidade em todos os quartos de atividade leve Ekelund, 2019
Tempo sentado importa? Quarto mais sentado com risco maior de morte Ekelund, 2019
Idoso precisa de algo a mais? Equilíbrio junto com aeróbico e força Piercy, 2018
Diabetes tipo 2 muda algo? Pausas no tempo sentado e atenção à hipoglicemia Kanaley, 2022
Sobrevivente de câncer? Aeróbico moderado três vezes por semana, 30 min, 8 a 12 semanas Campbell, 2019

O fortalecimento muscular, a metade esquecida

Quando a recomendação vira "faça uma caminhada", o fortalecimento desaparece. As diretrizes da OMS e as americanas pedem treino de força em dois ou mais dias por semana para todas as faixas etárias (Bull, 2020; Piercy, 2018).

Uma metanálise de estudos observacionais com mais de 1,2 milhão de participantes avaliou o treino de força e o câncer (Nascimento, 2021). Fazer fortalecimento duas ou mais vezes por semana, comparado a menos de duas, associou-se a menor mortalidade total por câncer, com razão de risco de 0,81 (Nascimento, 2021). A combinação de força e aeróbico, comparada a nenhuma atividade, teve razão de risco de 0,72 para mortalidade por câncer (Nascimento, 2021).

Para o idoso, o fortalecimento é quase um pré-requisito. O consenso internacional recomenda que, quando a pessoa não sustenta bem o próprio peso, a prioridade inicial seja força, potência e equilíbrio, antes da marcha e de outras atividades aeróbicas com carga (Izquierdo, 2021). Em idosos frágeis, programas multicomponentes de três a cinco meses parecem os mais eficazes para recuperar função.

Halteres coloridos de vários tamanhos lado a lado numa prateleira de academia
Halteres leves bastam para começar o fortalecimento dos grandes grupos musculares. Crédito: Ser Amantio di Nicolao, CC BY-SA 4.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Na prática, o fortalecimento pode usar o peso do corpo, faixas elásticas, halteres ou garrafas com água. Levantar e sentar da cadeira, subir degraus e empurrar a parede são exercícios que cabem na sala de casa. O ponto clínico é incluir a força na orientação por escrito, com frequência definida, para que ela não dependa da memória do paciente.

Como perguntar e registrar: a atividade física como sinal vital

Prescrever exige saber de onde se parte. A ideia de registrar a atividade física como sinal vital surgiu para que a inatividade apareça no prontuário com a mesma regularidade da pressão arterial (Golightly, 2017).

O instrumento mais estudado, o Exercise Vital Sign, usa duas perguntas: em média, quantos dias por semana a pessoa faz exercício moderado a intenso, como caminhada rápida, e quantos minutos por dia nesse nível. O produto das respostas dá os minutos semanais. A revisão sistemática encontrou cinco instrumentos breves desse tipo (Golightly, 2017).

As limitações precisam ser conhecidas. Comparado ao acelerômetro, o Exercise Vital Sign teve correlação fraca, de 0,27, sensibilidade de 27 a 59 em cada 100 e especificidade de 74 a 89 em cada 100 (Golightly, 2017). Em termos de teste diagnóstico, ele é melhor para confirmar a inatividade do que para afastá-la: quem relata pouca atividade quase sempre é pouco ativo, e parte de quem relata muita atividade superestima o próprio movimento.

Estetoscópio sobre uma mesa de madeira escura
A pergunta sobre atividade física pode entrar na triagem junto com a pressão e o peso. Crédito: Tama998, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Um estudo recente em um hospital universitário americano comparou 7.261 pacientes rastreados com o Exercise Vital Sign a 33.445 não rastreados em consultas de rotina (Chapman, 2025). Os pacientes ativos tiveram menor risco de 19 condições ligadas à inatividade, entre elas obesidade, depressão, hipertensão, diabetes e doença valvar. Os autores concluíram que pacientes inativos devem receber ou ser encaminhados a aconselhamento comportamental baseado em evidência.

Na conversa, perguntar sobre o deslocamento, o trabalho e o lazer ajuda a calibrar a resposta. Quem vai a pé ao trabalho todos os dias pode já cumprir parte da meta sem chamar isso de exercício. Quem diz "faço academia" pode ir uma vez por semana. Registrar o número de minutos, e não um "sim" ou "não", permite comparar na consulta seguinte.

Por que o aconselhamento ainda falha

Uma revisão sistemática de métodos mistos reuniu 66 estudos sobre intervenções breves de atividade física na atenção primária (Hall, 2022). A frequência de rastreio variou de 2,4 a 100 em cada 100 consultas, e a de aconselhamento, de 0,6 a 100 em cada 100 (Hall, 2022). Em outras palavras, a prática depende muito do serviço e do profissional.

O aconselhamento foi dado com mais frequência a pacientes com índice de massa corporal mais alto, menos atividade ou mais comorbidades (Hall, 2022). Isso parece razoável, mas significa que pessoas com peso normal e inativas, um grupo de risco real, recebem menos orientação. É um viés de representatividade em ação: a imagem do paciente sedentário é a de alguém com obesidade, e quem foge da imagem passa sem pergunta.

As barreiras relatadas foram falta de tempo, falta de treinamento e falta de diretrizes práticas, apesar das recomendações da OMS e do NICE (Hall, 2022). Poucos estudos avaliaram a receptividade dos pacientes, o que deixa uma lacuna sobre o melhor momento para tocar no assunto.

A solução proposta pelos autores é sistêmica: mudanças no fluxo de atendimento e programas de treinamento. O registro como sinal vital resolve parte do problema, porque transforma uma pergunta opcional em etapa da triagem. A outra parte depende do médico saber o que fazer com a resposta, que é o tema das próximas seções.

Como montar a prescrição com o modelo FITT

A diretriz europeia de cardiologia do esporte descreve a prescrição de exercício pelo conceito FITT: frequência, intensidade, tempo e tipo (Pelliccia, 2021). É um formato simples, que cabe numa receita e permite revisão.

  • Frequência: quantos dias por semana. Para o aeróbico, a meta é distribuir a atividade na maior parte dos dias; para a força, dois ou mais dias não consecutivos.
  • Intensidade: pode ser medida pela frequência cardíaca, pela percepção de esforço na escala de Borg ou pelo teste da fala. Na escala de Borg, que vai de 6 a 20, a faixa de 12 a 14 corresponde a esforço moderado (Pelliccia, 2021).
  • Tempo: minutos por sessão. Sessões curtas somam; a meta semanal pode ser alcançada em blocos.
  • Tipo: caminhada, bicicleta, natação, dança, treino de força, equilíbrio. O melhor tipo é o que a pessoa consegue manter.

A paciente da cena inicial poderia sair com algo assim: caminhada em ritmo de conversa possível, mas sem cantar, 20 minutos, cinco dias por semana, de preferência depois do jantar; levantar e sentar da cadeira e subir degraus segurando o corrimão, duas vezes por semana; reavaliação em três meses com o número de minutos registrado. A dor no joelho entra como ajuste do tipo, com bicicleta ou água como alternativas se a caminhada piorar o sintoma.

A progressão também deve estar escrita. Começar abaixo da meta é aceitável e até desejável para quem está parado, porque a curva de benefício é mais íngreme no início (Kraus, 2019). Aumentar primeiro o tempo e depois a intensidade é uma regra prática que reduz lesões e desistências.

Quanto à liberação, a OMS afirma que a avaliação médica antes do exercício geralmente é desnecessária para pessoas sem contraindicação que vão começar atividade leve ou moderada, que não ultrapasse a exigência de uma caminhada rápida ou da vida diária (Bull, 2020). Pedir teste ergométrico para todo sedentário que quer caminhar cria uma barreira sem benefício demonstrado e pode iniciar uma cascata de cuidado. A avaliação faz sentido em quem tem sintomas, doença cardiovascular conhecida ou planeja atividade vigorosa, e o próprio teste de esforço tem limites, como mostra a discussão sobre por que o teste de esforço sozinho engana.

Ajustes para quem tem doença crônica

A recomendação da OMS vale para quem tem doença crônica, mas os consensos específicos acrescentam detalhes que mudam a conversa.

Diabetes tipo 2

O consenso do American College of Sports Medicine afirma que as diretrizes gerais se aplicam a quase todas as pessoas com diabetes tipo 2, com algumas modificações (Kanaley, 2022). Interromper o tempo sentado com pausas de caminhada leve ou exercícios simples de resistência, de 3 minutos a cada 30 minutos, reduziu glicose, insulina e triglicerídeos depois das refeições.

A principal preocupação de segurança é a hipoglicemia, que fica restrita sobretudo a quem usa insulina ou secretagogos, como sulfonilureias e meglitinidas (Kanaley, 2022). Quem controla a glicemia só com mudança de estilo de vida tem risco mínimo. Sessões longas e intensas aumentam o risco de hipoglicemia tardia em usuários de insulina, um ponto que se conecta ao raciocínio sobre como definir e classificar a hipoglicemia.

Sobreviventes de câncer

A mesa-redonda internacional de 2018 manteve a conclusão de que o exercício é em geral seguro para sobreviventes de câncer e que todos devem evitar a inatividade (Campbell, 2019). A prescrição que melhora de forma mais consistente ansiedade, sintomas depressivos, fadiga, função física e qualidade de vida é aeróbico moderado pelo menos três vezes por semana, por pelo menos 30 minutos, durante pelo menos 8 a 12 semanas.

O treino combinado de aeróbico e resistência, duas vezes por semana, também reduziu ansiedade e sintomas depressivos (Campbell, 2019). Para outros desfechos, como neuropatia periférica e cognição, a evidência ainda é incerta. A adesão ao tratamento oncológico de longo prazo tem paralelos com a adesão ao exercício, como discutido em adesão como desfecho clínico.

Idosos

O consenso internacional para idosos recomenda programas multicomponentes, com força, potência, equilíbrio e aeróbico (Izquierdo, 2021). Para muitos idosos com doenças associadas, o equilíbrio precisa vir antes da retomada da marcha. Exemplos citados incluem tai chi, caminhar com um pé à frente do outro, ficar num pé só e subir degraus devagar.

Os autores lembram que o treino de equilíbrio traz o risco de queda durante a própria sessão, o que pede supervisão no início (Izquierdo, 2021). O exercício também é discutido como ferramenta para retirar medicamentos potencialmente inapropriados, porque melhora condições que costumam levar a mais prescrições.

Doença cardiovascular

A diretriz europeia detalha a prescrição para doença coronariana, insuficiência cardíaca, arritmias e outras condições (Pelliccia, 2021). Na fibrilação atrial, a frequência cardíaca deixa de ser uma boa régua, e a intensidade passa a ser monitorada pela potência ou pela escala de Borg. Em pacientes com perda de massa muscular, o programa começa com resistência. Para essas situações, a avaliação cardiológica antes de intensificar o treino é parte da prescrição. Sinais como síncope durante o esforço mudam o caminho, e o raciocínio se aproxima do usado para sinais que apontam para causa cardíaca.

Erros de raciocínio que atrapalham a prescrição

Alguns vieses aparecem com frequência quando o tema é atividade física.

O primeiro é o fechamento prematuro sobre a resposta do paciente. "Sou ativo" encerra a pergunta, embora a sensibilidade do autorrelato seja baixa (Golightly, 2017). Perguntar dias e minutos leva segundos e evita que a inatividade fique escondida.

O segundo é o tudo ou nada. O médico que só considera válida a meta de 150 minutos tende a desistir do paciente que não consegue alcançá-la. A curva de benefício mostra o contrário: o maior ganho está nos primeiros minutos (Kraus, 2019). Tratar cada passo como avanço é coerente com a evidência.

O terceiro é a medicalização da largada. Exigir exames antes de qualquer caminhada transforma uma recomendação simples num processo, e o paciente pode desistir na fila. O raciocínio da prevenção quaternária ajuda a separar quem precisa de avaliação de quem precisa apenas começar.

O quarto é o viés de representatividade já citado: aconselhar sobretudo pessoas com obesidade ou muitas doenças (Hall, 2022). O magro sedentário e o jovem com trabalho sentado também estão no grupo de risco.

O quinto é esquecer de revisar. Uma prescrição sem retorno marcado deixa de ser prescrição. Usar o tempo como ferramenta, com data e critério de reavaliação, segue a mesma lógica da espera vigilante com rede de segurança.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Ler cada pista como um teste e conhecer como o código da CID-10 é montado completam esse treino.

Perguntas frequentes

Quanto exercício a OMS recomenda para adultos?

De 150 a 300 minutos por semana de atividade aeróbica moderada, ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, mais fortalecimento muscular em dois ou mais dias (Bull, 2020).

Fazer menos do que a meta traz benefício?

Traz. A associação com menor mortalidade começa com cerca de um terço da meta, e qualquer atividade moderada a vigorosa é melhor do que nenhuma (Kraus, 2019).

Preciso de exame antes de começar a caminhar?

Para quem não tem contraindicação e vai começar atividade leve ou moderada, a OMS considera a avaliação médica prévia geralmente desnecessária (Bull, 2020). Sintomas, doença cardíaca conhecida ou a intenção de fazer atividade vigorosa mudam essa conta.

Como medir a intensidade sem aparelho?

Pelo teste da fala ou pela escala de Borg. Esforço moderado permite conversar sem cantar e corresponde a 12 a 14 na escala de 6 a 20 (Pelliccia, 2021).

Quem tem diabetes tipo 2 precisa de cuidados especiais?

Quem usa insulina ou secretagogos tem risco de hipoglicemia relacionada ao exercício. Pausas curtas no tempo sentado ajudam a reduzir a glicose depois das refeições (Kanaley, 2022).

O fortalecimento muscular é obrigatório?

É parte da recomendação para todas as idades, em dois ou mais dias por semana (Bull, 2020). No idoso frágil, força e equilíbrio costumam vir antes da caminhada (Izquierdo, 2021).

Take-home messages

  • O exercício funciona melhor na consulta quando tem frequência, intensidade, tempo, tipo e data de revisão.
  • A meta da OMS é de 150 a 300 minutos semanais de atividade moderada, ou de 75 a 150 de vigorosa, mais força em dois ou mais dias.
  • O maior ganho está na saída do sedentarismo, bem abaixo da meta.
  • Duas perguntas na triagem registram a atividade física como sinal vital, com sensibilidade limitada.
  • O aconselhamento ainda é irregular e tende a esquecer o paciente inativo de peso normal.
  • Diabetes, câncer, envelhecimento e doença cardiovascular pedem ajustes descritos em consensos próprios.
  • Para atividade leve a moderada sem contraindicação, a avaliação prévia geralmente é desnecessária.

Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

  1. Bull FC, Al-Ansari SS, Biddle S, et al. World Health Organization 2020 guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Br J Sports Med. 2020. PMID 33239350. DOI 10.1136/bjsports-2020-102955.
  2. Piercy KL, Troiano RP, Ballard RM, et al. The Physical Activity Guidelines for Americans. JAMA. 2018. PMID 30418471. DOI 10.1001/jama.2018.14854.
  3. Kraus WE, Powell KE, Haskell WL, et al. Physical Activity, All-Cause and Cardiovascular Mortality, and Cardiovascular Disease. Med Sci Sports Exerc. 2019. PMID 31095084. DOI 10.1249/MSS.0000000000001939.
  4. Ekelund U, Tarp J, Steene-Johannessen J, et al. Dose-response associations between accelerometry measured physical activity and sedentary time and all cause mortality: systematic review and harmonised meta-analysis. BMJ. 2019. PMID 31434697. DOI 10.1136/bmj.l4570.
  5. Golightly YM, Allen KD, Ambrose KR, et al. Physical Activity as a Vital Sign: A Systematic Review. Prev Chronic Dis. 2017. PMID 29191260. DOI 10.5888/pcd14.170030.
  6. Hall LH, Thorneloe R, Rodriguez-Lopez R, et al. Delivering brief physical activity interventions in primary care: a systematic review. Br J Gen Pract. 2022. PMID 34782318. DOI 10.3399/BJGP.2021.0312.
  7. Chapman CG, Schroeder MC, Marcussen B, et al. Identifying Patients at Risk for Cardiometabolic and Chronic Diseases by Using the Exercise Vital Sign to Screen for Physical Inactivity. Prev Chronic Dis. 2025. PMID 39745943. DOI 10.5888/pcd22.240149.
  8. Kanaley JA, Colberg SR, Corcoran MH, et al. Exercise/Physical Activity in Individuals with Type 2 Diabetes: A Consensus Statement from the American College of Sports Medicine. Med Sci Sports Exerc. 2022. PMID 35029593. DOI 10.1249/MSS.0000000000002800.
  9. Campbell KL, Winters-Stone KM, Wiskemann J, et al. Exercise Guidelines for Cancer Survivors: Consensus Statement from International Multidisciplinary Roundtable. Med Sci Sports Exerc. 2019. PMID 31626055. DOI 10.1249/MSS.0000000000002116.
  10. Izquierdo M, Merchant RA, Morley JE, et al. International Exercise Recommendations in Older Adults (ICFSR): Expert Consensus Guidelines. J Nutr Health Aging. 2021. PMID 34409961. DOI 10.1007/s12603-021-1665-8.
  11. Nascimento W, Ferrari G, Martins CB, et al. Muscle-strengthening activities and cancer incidence and mortality: a systematic review and meta-analysis of observational studies. Int J Behav Nutr Phys Act. 2021. PMID 34051796. DOI 10.1186/s12966-021-01142-7.
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