Traço falciforme, hipóxia de cabine e infarto esplênico

Hemácias rosadas ao microscópio, várias em forma de foice e alongadas, sobre fundo claro
Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. Traço falciforme não é doença falciforme
  3. Fisiopatologia: por que o baço
  4. Como o quadro se apresenta
  5. O diagnóstico diferencial
  6. Exames: o que pedir e quando
  7. Conduta
  8. Gatilhos além da altitude
  9. Complicações e o que acompanhar
  10. O contraste com a doença falciforme
  11. Raciocínio: o que fica do caso
  12. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  13. Perguntas frequentes
  14. Checklist final
  15. Referências

Um homem de 30 anos, sem doença conhecida, viaja num voo comercial de várias horas. Na segunda metade da viagem, sente uma dor forte no lado esquerdo, sob as costelas, que irradia para o ombro, e começa a vomitar. Ele conta ao médico que se oferece para ajudar que teve uma dor parecida, mais fraca, depois de uma viagem a uma cidade de montanha no ano anterior, e que na época disseram que era gastrite. Ele nunca fez exame de hemoglobina. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico. A pergunta que destrava o caso é simples e raramente feita: alguém da família tem doença falciforme, ou ele já ouviu falar que tem traço? O texto não é resumo de regras de companhias aéreas. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: uma condição considerada benigna pode ser a explicação de um quadro grave quando o ambiente muda.

Principais pontos

  • O traço falciforme não é doença falciforme, mas pode causar infarto esplênico em hipóxia.
  • A dor no hipocôndrio esquerdo durante voo ou subida à montanha é a pista central.
  • Há relato de infarto esplênico ligado a voo internacional, mas o papel da cabine não está estabelecido.
  • A TC feita cedo pode parecer quase normal, e o infarto pode aparecer dias depois.
  • A eletroforese de hemoglobina confirma o traço.
  • A maioria dos relatos teve conduta conservadora, com oxigênio, líquidos e analgesia.

Por que este é um cenário de raciocínio

O caso junta um sintoma comum, um ambiente que muda a fisiologia e uma condição que quase ninguém associa a doença aguda. Dor abdominal com vômitos num voo costuma levar a hipóteses digestivas, como gastrite, pancreatite ou cólica biliar. A localização no hipocôndrio esquerdo, a irradiação para o ombro e a repetição depois de uma viagem à montanha apontam para outro órgão: o baço.

Um relato canadense de 2026 descreve um homem de 33 anos, sem história médica relevante, que teve dor abdominal súbita e intensa durante um voo internacional e chegou à emergência 24 horas depois com dor no quadrante superior esquerdo (Chadelat e colaboradores, 2026). A TC sem contraste pareceu normal, e só a fase com contraste mostrou o infarto do baço. A eletroforese revelou traço falciforme, que ele não sabia ter, e a mãe e a irmã também tinham o traço.

O que a cena ensina

O passageiro traz uma história que se repete em dois ambientes com menos oxigênio. A repetição é a pista. O post sobre sinais, sintomas e história mostra como um episódio antigo, mal explicado, pode ser a chave do episódio atual.

Traço falciforme não é doença falciforme

A distinção é essencial e protege o paciente de dois erros. O relatório do painel de especialistas do instituto americano do coração, pulmão e sangue afirma que o traço falciforme, ou HbAS, não é uma forma de doença falciforme, e que as pessoas com traço não têm as crises vaso-oclusivas típicas da doença (NHLBI, Expert Panel Report, 2014). O mesmo relatório descreve o perfil laboratorial do traço com HbS até cerca de 40 e HbA acima de 60 em cada 100 da hemoglobina.

Uma revisão de hematologistas do instituto americano lembra que quem tem traço costuma ser assintomático e tem expectativa de vida parecida com a de quem não tem (Xu e Thein, 2019). Os autores citam o infarto esplênico documentado em relatos de caso, muitas vezes, mas nem sempre, em homens expostos à altitude, e advertem que, sem estudo genético detalhado, não dá para concluir que o traço sozinho explicou cada caso. O raciocínio precisa sustentar as duas ideias ao mesmo tempo.

A armadilha do "traço não dá doença"

A frase é verdadeira para a vida cotidiana e falsa para o ambiente com pouco oxigênio. Num estudo de registros de saúde no Colorado, com 1460 adultos com traço e 7300 controles, o traço se associou fortemente ao infarto esplênico, com razão de chances de 55,9 (Stafford e colaboradores, 2025). O post sobre heurísticas no raciocínio clínico mostra como regras simples ajudam no dia a dia e falham justamente nas exceções.

Fisiopatologia: por que o baço

A hemoglobina S tende a se polimerizar quando perde oxigênio. No traço, a quantidade de HbS é menor que a de HbA, e em condições normais a falcização é pouco relevante. Em hipóxia, desidratação, frio ou exercício intenso, a proporção de hemácias que falcizam pode crescer. O baço é o órgão mais vulnerável porque o sangue passa devagar por ele, num ambiente com pouco oxigênio e mais ácido, o que favorece a falcização e a obstrução.

A série de Goodman reuniu 25 pacientes com síndrome esplênica associada à altitude em pessoas com traço, todos do sexo masculino. Nos 17 com eletroforese, a HbA era maior que a HbS, e a HbS ficou entre 37 e 45 em cada 100, um perfil de traço e não de doença (Goodman e colaboradores, 2014). Os autores citam a maior rigidez das hemácias e a maior viscosidade do sangue no traço como possível predisposição, agravada pela queda da pressão de oxigênio na altitude.

E a cabine do avião?

A cabine pressurizada não está ao nível do mar, mas a ligação entre cabine e infarto esplênico no traço vem de relatos de caso, e não de estudos que meçam esse risco. Os autores do relato canadense citam a hipóxia e a desidratação em altitudes acima de 3000 metros e em viagens de avião como contribuintes (Chadelat e colaboradores, 2026). Para dimensionar o risco, vale olhar a altitude em que a síndrome aparece em terra. Na série de Goodman, os 22 visitantes que moravam ao nível do mar adoeceram com exposições de pico entre cerca de 2300 e 2900 metros, altitudes de estação de esqui e não de expedição, e todos os 20 com dado disponível tiveram dor nas primeiras 24 horas após chegar ao ponto mais alto (Goodman e colaboradores, 2014).

O relato de Prohl aponta outros contribuintes. O paciente tinha apneia do sono grave não tratada, que piora a hipóxia durante o sono em altitude, e hiperglicemia, que favorece desidratação (Prohl e Vaidya, 2025). O post sobre ligar mecanismo e sintoma mostra como somar fatores pequenos para explicar um evento grande.

Esfregaço de sangue periférico corado, com muitas hemácias em forma de foice e alongadas entre hemácias arredondadas
Esfregaço de sangue de uma pessoa com doença falciforme homozigótica, com hemácias em foice. No traço, a falcização em lâmina costuma ser bem menor, e a eletroforese é o exame que define o diagnóstico. Crédito: Joan-Lluis Vives-Corrons e Elena Krishnevskaya, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Como o quadro se apresenta

O sintoma principal é a dor no quadrante superior esquerdo, muitas vezes com náuseas, vômitos e às vezes dor no ombro esquerdo. O relato de Prohl descreve um homem que, depois de subir a uma cidade de montanha, teve dor abdominal e falta de ar, com saturação de 92 em ar ambiente, taquicardia e pressão alta no primeiro atendimento (Prohl e Vaidya, 2025). Uma radiografia mostrou pequeno derrame pleural à esquerda, e ele saiu com antibiótico para pneumonia, sem repetir a imagem do abdome.

A raridade também atrasa o diagnóstico. Um relato de Hiroshima descreve um homem de 24 anos com dor no flanco esquerdo depois de subir o monte Fuji. Numa revisão de 13 relatos publicados no Japão, 12 ocorreram no monte Fuji e todos envolveram estrangeiros (Haratake e colaboradores, 2026). Os autores lembram que o gene da HbS é raro no Japão e que a familiaridade com o traço ainda é limitada.

A pista que repete

O passageiro do caso teve um episódio parecido depois da viagem à montanha. Na série de Goodman, a conduta conservadora com transferência para uma altitude menor costumou ter boa evolução (Goodman e colaboradores, 2014). Um padrão de dor que aparece em altitude e some ao descer é um dado que vale ouro na anamnese, e quase nunca é perguntado.

Um relato americano mostra a mesma cena com outra hemoglobina, a HbSE. Uma mulher de 55 anos teve dor no quadrante superior esquerdo durante uma caminhada a cerca de 3350 metros nos Alpes suíços, e a dor piorou no voo de volta (Pajak e colaboradores, 2020). A TC mostrou infarto de mais da metade do baço.

O diagnóstico diferencial

A dor forte no hipocôndrio esquerdo com vômitos tem várias explicações, e o raciocínio precisa passar por elas. As hipóteses que a cena exige considerar são:

  • Infarto esplênico por traço falciforme em hipóxia.
  • Infarto esplênico tromboembólico, de origem cardíaca ou por trombofilia.
  • Pancreatite aguda.
  • Cólica renal à esquerda.
  • Isquemia mesentérica.
  • Pneumonia de base esquerda ou derrame pleural com dor referida.
  • Crise vaso-oclusiva em doença falciforme não diagnosticada.

A pneumonia merece atenção especial porque já foi o diagnóstico errado em relatos publicados. Um derrame pleural pequeno à esquerda pode ser reação ao infarto do baço, e não infecção do pulmão (Prohl e Vaidya, 2025). A crise vaso-oclusiva entra no diferencial para lembrar que, se a eletroforese mostrar doença falciforme e não traço, a conduta muda.

Fechar cedo demais

O médico de bordo e o primeiro hospital tendem a parar na primeira explicação comum. O post sobre pausa diagnóstica ajuda a criar o hábito de revisar a história antes de concluir. Uma pergunta sobre altitude, viagem e família muda a lista inteira.

Exames: o que pedir e quando

A eletroforese de hemoglobina confirma o traço. No relato canadense, a HbS era de 39,2 e a HbA de 48 em cada 100 (Chadelat e colaboradores, 2026). No relato de Prohl, a triagem para falcização foi positiva e a eletroforese definiu o perfil (Prohl e Vaidya, 2025). O relatório americano descreve o perfil AS, com HbS até cerca de 40 e HbA acima de 60 em cada 100, o que ajuda a separar traço de doença (NHLBI, Expert Panel Report, 2014).

Um perfil de traço nem sempre encerra a investigação. A revisão de Xu e Thein descreve uma menina de 19 meses, identificada como portadora de traço na triagem neonatal, que teve crise com sequestro esplênico durante um voo e precisou de esplenectomia. O sequenciamento mostrou uma segunda mutação no mesmo gene da HbS (Xu e Thein, 2019). Quando o quadro é mais grave que o esperado para o traço, vale discutir o caso com a hematologia.

A TC com contraste é o exame de imagem mais usado. O relato de Prohl ensina, porém, um cuidado importante: a TC feita 12 horas depois do início foi lida como realce heterogêneo leve, sem doença aguda, e só em retrospecto se viu uma grande área sem realce na fase venosa portal (Prohl e Vaidya, 2025). A TC repetida 10 dias depois mostrou um infarto grande e claro.

A forma do infarto conta a causa

O mesmo relato descreve que o infarto pelo traço tinha forma diferente da cunha típica do infarto tromboembólico, que é a causa mais comum de infarto esplênico em geral (Prohl e Vaidya, 2025). No relato do monte Fuji, porém, a área sem realce tinha forma de cunha (Haratake e colaboradores, 2026), e por isso a forma ajuda, mas não separa sozinha as causas. O post sobre probabilidade pré-teste explica por que uma imagem normal muda pouco quando a história é muito sugestiva.

Achado O que sugere Fonte
Dor no hipocôndrio esquerdo em voo ou altitude Infarto esplênico, sobretudo com traço Goodman e colaboradores, 2014
Dor nas primeiras 24 horas após subir Altitude moderada já basta Goodman e colaboradores, 2014
HbA maior que HbS, HbS entre 37 e 45 em cada 100 Perfil de traço, não de doença Goodman e colaboradores, 2014
TC das primeiras horas quase normal Infarto pode aparecer dias depois Prohl e Vaidya, 2025
Derrame pleural pequeno à esquerda Pode ser reação ao infarto, e não pneumonia Prohl e Vaidya, 2025
Perfil AS na eletroforese Traço, e não doença falciforme NHLBI, 2014

Conduta

A conduta descrita nos relatos é de suporte. No atendimento final do relato de Prohl, o paciente recebeu oxigênio suplementar, líquidos intravenosos, antieméticos e analgesia com opioide, e teve alta 36 horas depois do início dos sintomas (Prohl e Vaidya, 2025). As fontes lidas não trazem doses de opioide para esse cenário, e por isso o texto não as traz.

Na série de Goodman, 20 de 25 pacientes tiveram conduta conservadora, com descida para altitude menor, hidratação intravenosa, oxigênio, analgesia e antieméticos, e 5 fizeram esplenectomia, uma delas por ruptura e outra por hemorragia (Goodman e colaboradores, 2014). Um painel italiano de especialistas descreve o infarto esplênico no traço como uma condição que muito raramente exige esplenectomia e que costuma ter recuperação completa com repouso, hidratação, oxigênio, analgesia e transporte rápido para altitude menor (Pinto e colaboradores, 2023).

A bordo e depois do pouso

A bordo, o que dá para fazer é oxigênio, hidratação oral se tolerada, analgesia disponível no kit e contato com a equipe médica de solo. Depois do pouso, a internação permite hidratação venosa, analgesia adequada, imagem e eletroforese. Os autores do relato canadense lembram que o tratamento é de suporte, com líquidos e analgesia, e que anticoagulante não está indicado, porque o evento é vaso-oclusivo. O paciente recebeu enoxaparina por 5 dias, suspensa quando chegou a eletroforese (Chadelat e colaboradores, 2026). No relato da HbSE, a anticoagulação foi seguida de transformação hemorrágica do infarto, e os autores pedem que ela fique restrita a eventos tromboembólicos confirmados (Pajak e colaboradores, 2020).

Voltar a voar

As fontes lidas não definem quando a pessoa pode voltar a voar depois de um infarto esplênico, e a decisão continua sendo individual. O painel italiano observa que o infarto esplênico não aparece em pessoas com traço que nasceram ou vivem há muitos anos em grande altitude, o que sugere efeito protetor da aclimatação (Pinto e colaboradores, 2023).

Para o futuro, Prohl lista precauções que fazem sentido para quem tem traço: hidratação adequada, evitar exercício intenso e prolongado no calor, aclimatação à altitude, atenção ao risco de trombose na imobilidade longa e procurar atendimento logo diante de dor abdominal aguda ou sangue na urina (Prohl e Vaidya, 2025).

Ilustração anatômica clássica do baço visto pela face visceral, com o hilo, a veia esplênica e as superfícies de contato com estômago, rim e cólon
Baço visto pela face visceral, em ilustração do Gray. A circulação lenta e pouco oxigenada do órgão explica por que é ele que infarta no traço falciforme em hipóxia. Crédito: Henry Vandyke Carter, domínio público, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Gatilhos além da altitude

A hipóxia é o gatilho mais lembrado, mas não age sozinha. Na série de Goodman, só 3 dos 22 visitantes tiveram a dor durante o esqui, e os demais não relacionaram o início ao exercício. Os autores apontam a desidratação por ingestão insuficiente de água na altitude como possível fator somado à hipóxia (Goodman e colaboradores, 2014). Exercício intenso e frio aparecem em outros relatos como fatores que somam efeito à baixa pressão de oxigênio.

Num estudo colombiano com 51 pacientes com traço, 27 tinham tido complicações, quase todos militares da ativa. As complicações do baço foram as principais, e a mudança de altitude foi o fator associado mais frequente (Vargas-Hernández e colaboradores, 2023). No relato de Prohl, a apneia do sono e a hiperglicemia acrescentaram hipóxia noturna e perda de líquido (Prohl e Vaidya, 2025). Num voo longo, o passageiro do caso pode ter bebido pouca água, dormido mal e ficado horas sentado, o que soma desidratação à hipóxia leve da cabine.

Quem tem traço e não sabe

Muitas pessoas com traço nunca fizeram eletroforese. No estudo do Colorado, em 33 dos 41 pacientes de infarto esplênico o traço foi diagnosticado no mesmo atendimento (Stafford e colaboradores, 2025). O painel italiano estima que mais de trezentos milhões de pessoas no mundo tenham traço falciforme (Pinto e colaboradores, 2023), o que faz do traço uma condição frequente e não uma raridade de livro. Num serviço de emergência movimentado, isso significa que pessoas com traço passam pelo atendimento todos os dias, quase sempre por motivos que nada têm a ver com ele. A pergunta só faz diferença quando o quadro e o ambiente combinam, como no caso deste passageiro.

Para a anamnese, isso significa que a pergunta precisa ser feita de outra forma. Em vez de perguntar "você tem anemia falciforme?", vale perguntar se alguém da família tem a doença, se a pessoa já fez teste do pezinho ou exame de hemoglobina e se já teve dor abdominal em altitude, em voo ou depois de exercício intenso. O post sobre vieses implícitos no diagnóstico discute como pressupostos sobre quem tem determinada condição podem atrasar a pergunta certa.

Complicações e o que acompanhar

A maioria dos infartos esplênicos pelo traço evolui bem, mas algumas complicações pedem atenção. No estudo colombiano, 18,5 em cada 100 dos pacientes sintomáticos precisaram de esplenectomia (Vargas-Hernández e colaboradores, 2023). O painel italiano lembra que, nos casos mais graves, o baço pode romper e exigir cirurgia de urgência, e sugere, depois de um infarto documentado, tratar a pessoa como quem tem hipoesplenismo funcional, com o esquema completo de vacinas (Pinto e colaboradores, 2023).

Na série de Goodman, 5 de 25 pacientes fizeram esplenectomia, o que mostra que a evolução nem sempre é benigna (Goodman e colaboradores, 2014). As fontes lidas não definem critérios para indicar a cirurgia, e por isso o texto não os traz.

Sinais que mudam a conduta

  • Dor que piora apesar da analgesia.
  • Queda da hemoglobina ou instabilidade hemodinâmica, que sugerem sangramento.
  • Febre persistente, que pede reavaliação da imagem.
  • Dor que volta em nova exposição à altitude.

Esses sinais pedem nova avaliação e, muitas vezes, nova imagem. O post sobre raciocínio prognóstico mostra como pensar no que vem depois do diagnóstico, e não só no diagnóstico em si.

O contraste com a doença falciforme

Se a eletroforese mostrar doença falciforme, e não traço, o raciocínio muda. Na crise vaso-oclusiva, o relatório americano pede início da analgesia em até 30 minutos da triagem ou em até 60 minutos do registro, opioide parenteral na dor intensa e oxigênio quando a saturação estiver abaixo de 95 (NHLBI, Expert Panel Report, 2014).

Na prevenção de longo prazo, o mesmo relatório recomenda hidroxiureia em adultos com indicação, com dose inicial de 15 mg/kg/dia, reduzida para 5 a 10 mg/kg/dia na doença renal crônica (NHLBI, Expert Panel Report, 2014). Essa dose é da doença falciforme e não se aplica ao traço.

Viagem aérea na doença falciforme

Para quem tem doença falciforme, o voo também é um tema de atendimento. As orientações sobre oxigênio no voo variam. Numa pesquisa com profissionais da América do Norte, a minoria recomendava oxigênio suplementar, e a maioria orientava hidratação, analgésicos na bagagem e roupa quente (Padda e colaboradores, 2020).

Raciocínio: o que fica do caso

O cenário ensina a não descartar uma condição por ser considerada benigna. O traço falciforme não é doença, mas o ambiente pode fazer dele a causa de um evento grave. O post sobre taxa básica no diagnóstico lembra que a frequência do traço varia muito entre populações, e essa variação muda a probabilidade antes de qualquer exame.

A segunda lição é sobre o tempo da imagem. Uma TC das primeiras horas quase normal não encerra o caso quando a história é forte. A terceira é sobre a repetição: dois episódios em ambientes com pouco oxigênio são um padrão, e não coincidência. O post sobre diagnóstico diferencial com pistas mostra como manter a hipótese viva até o exame certo confirmar.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas. Você propõe um diagnóstico buscando o código na CID-10 e recebe um retorno de proximidade em cinco níveis, que mostra se o palpite ficou no código exato, na mesma categoria, no mesmo grupo, no mesmo capítulo ou em outro capítulo. Esse formato combina com o tema deste texto: um palpite pode estar no órgão certo e na causa errada. O post sobre CID-10 mostra como achar o código certo.

Para usar o caso do dia como treino, experimente três hábitos. Antes do primeiro palpite, pergunte que ambiente a pessoa acabou de deixar. A cada pista, veja se ela repete um episódio antigo. Depois do resultado, anote se você descartou uma hipótese por achá-la benigna.

Três exercícios com casos

Procure o ambiente. Para cada caso, escreva onde a pessoa estava nas horas anteriores e como isso muda a fisiologia.

Ligue episódios. Pergunte se houve um quadro parecido antes e em que condição.

Questione a regra. Escreva uma regra simples que você usou e uma situação em que ela falharia.

O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos mostra como casos ajudam a fixar esse hábito.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

O traço falciforme pode causar infarto do baço?

Sim. A série de Goodman reuniu 25 pacientes com síndrome esplênica associada à altitude em pessoas com traço, com dor no hipocôndrio esquerdo em todos (Goodman e colaboradores, 2014).

Isso pode acontecer em voo comercial pressurizado?

Há relato de infarto esplênico associado a voo internacional em pessoa com traço (Chadelat e colaboradores, 2026), mas o risco da cabine não está medido.

A eletroforese de hemoglobina confirma o traço?

Sim. O perfil AS mostra HbS até cerca de 40 e HbA acima de 60 em cada 100 (NHLBI, Expert Panel Report, 2014).

Vale repetir a imagem se a primeira TC parece normal?

Sim. Num relato, o infarto só ficou claro na TC repetida 10 dias depois (Prohl e Vaidya, 2025).

A maioria melhora com tratamento conservador?

Sim. O infarto esplênico no traço muito raramente exige esplenectomia e costuma ter recuperação completa com conduta de suporte (Pinto e colaboradores, 2023).

Checklist final

  • Perguntei por viagem aérea, altitude e exercício nas horas anteriores.
  • Perguntei por episódios parecidos em outros ambientes.
  • Perguntei por doença falciforme ou traço na família.
  • Considerei infarto esplênico em dor no hipocôndrio esquerdo.
  • Mantive pancreatite, cólica renal e isquemia no diferencial.
  • Desconfiei de pneumonia quando havia só um derrame pequeno à esquerda.
  • Pedi eletroforese de hemoglobina.
  • Pedi TC com contraste e pensei em repetir se a primeira fosse quase normal.
  • Ofereci oxigênio, hidratação e analgesia.
  • Orientei hidratação, aclimatação e procura rápida por atendimento no futuro.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Chadelat A, Tassart M, Bachmeyer C. International flight-associated splenic infarction in a 33-year-old man with sickle cell trait. CMAJ. 2026. PMID 42259533.
  2. Goodman J, Hassell K, Irwin D, et al. The splenic syndrome in individuals with sickle cell trait. High Alt Med Biol. 2014. PMID 25361178.
  3. Haratake D, Miyamori D, Ikeda K, et al. Splenic Infarction Associated with Sickle Cell Trait: A Diagnosis Based on a Characteristic History of Climbing Mt. Fuji, with a Brief Literature Review. Intern Med. 2026. PMID 40803848.
  4. National Heart, Lung, and Blood Institute. Evidence-Based Management of Sickle Cell Disease: Expert Panel Report. 2014. Relatório do painel.
  5. Padda A, Corriveau-Bourque C, Belletrutti M, et al. Supplemental oxygen therapy recommendations in patients with sickle cell disease during air travel: A cross-sectional survey of North American health care providers. Paediatr Child Health. 2020. PMID 33390748.
  6. Pajak A, Li JC, Liu A, et al. Hemoglobin SE Disease Presenting as a High-Altitude Massive Splenic Infarction Complicated by Hemorrhagic Conversion and Splenectomy. Cureus. 2020. PMID 33052282.
  7. Pinto VM, De Franceschi L, Gianesin B, et al. Management of the Sickle Cell Trait: An Opinion by Expert Panel Members. J Clin Med. 2023. PMID 37240547.
  8. Prohl EG, Vaidya NK. Splenic Infarction in a Patient With Sickle Cell Trait Following High-Altitude Exposure. Cureus. 2025. PMID 39949449.
  9. Stafford KA, Osataphan S, Patell R, Key NS. Adverse clinical outcomes associated with sickle cell trait at high altitude. Haematologica. 2025. PMID 39363860.
  10. Vargas-Hernández DA, Uscategui-Ruiz AC, Prada-Rueda AJ, et al. Sickle Cell Trait, Clinical Manifestations and Outcomes: A Cross-Sectional Study in Colombia. Mediterr J Hematol Infect Dis. 2023. PMID 36908870.
  11. Xu JZ, Thein SL. The carrier state for sickle cell disease is not completely harmless. Haematologica. 2019. PMID 31097635.

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