Sulbactam-durlobactam e cefepima-taniborbactam

Placa de antibiograma com discos de antibiótico sobre ágar em laboratório de microbiologia
Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. Acinetobacter resistente a carbapenêmicos: o problema
  3. Sulbactam-durlobactam: como age e o que o ATTACK mostrou
  4. Situação regulatória: FDA e outras agências
  5. Dose, função renal e preparo
  6. Cefepima-taniborbactam: o que se sabe
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Checklist final
  10. Referências

Um homem de 61 anos está na UTI há 10 dias, em ventilação mecânica depois de uma cirurgia abdominal. Ele volta a ter febre, a secreção traqueal fica purulenta e surge um infiltrado novo na radiografia de tórax. O aspirado traqueal cresce Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos. A depuração de creatinina estimada pela fórmula de Cockcroft-Gault é de 70 mL/min. Ele não tem alergia conhecida. A equipe da UTI pergunta se o sulbactam-durlobactam é uma opção e alguém lembra de outro remédio novo, a cefepima-taniborbactam. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para estudantes e profissionais de saúde. O sulbactam-durlobactam (nome comercial Xacduro) foi desenvolvido especificamente contra o complexo Acinetobacter baumannii-calcoaceticus. A cefepima-taniborbactam é uma combinação ainda em investigação, com espectro voltado a enterobactérias e Pseudomonas aeruginosa resistentes. Os dois remédios são diferentes em alvo, evidência e situação regulatória. O texto não substitui o antibiograma, a comissão de controle de infecção nem o protocolo da sua instituição. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: decidir com pistas que chegam em sequência.

Principais pontos

  • A FDA aprovou o Xacduro em 23 de maio de 2023 para pneumonia hospitalar e pneumonia associada à ventilação causadas por isolados sensíveis do complexo A. baumannii-calcoaceticus, em pacientes de 18 anos ou mais.
  • A dose é de 1 g de sulbactam e 1 g de durlobactam a cada 6 horas, em infusão de 3 horas, com depuração de creatinina de 45 a 129 mL/min, por 7 a 14 dias.
  • No estudo de fase 3, a mortalidade em 28 dias foi de 19,0 por cento com sulbactam-durlobactam e de 32,3 por cento com colistina.
  • O durlobactam não inibe as metalo-betalactamases da classe B, e o Xacduro não é ativo contra isolados que as produzem.
  • A cefepima-taniborbactam recebeu carta de resposta completa da FDA em fevereiro de 2024 e, até outubro de 2026, não constava entre as novas aprovações da FDA; segue sem aprovação nos Estados Unidos.
  • A diretriz brasileira recomenda combinar dois antimicrobianos com atividade in vitro contra A. baumannii resistente a carbapenêmicos.

Por que este é um cenário de raciocínio

A pneumonia associada à ventilação por Acinetobacter resistente é um dos problemas mais difíceis da UTI. As opções tradicionais, como polimixinas, têm toxicidade renal e resultados ruins (Shields e colaboradores, 2023). A chegada de remédios novos levanta perguntas práticas: quando usar, em que dose, com que outro antibiótico e o que fazer quando a função renal muda.

O cenário é bom para treino porque junta microbiologia, farmacologia e decisão clínica. É preciso diferenciar colonização de infecção, ler o antibiograma, conhecer o espectro de cada combinação e ajustar a dose pela depuração de creatinina. O post sobre diagnóstico diferencial ajuda a pensar em outras causas de febre na UTI, e o post sobre sepse na triagem de enfermagem lembra o valor do tempo até o antibiótico.

O que a cena ensina

A cena treina seis hábitos. O primeiro é decidir se o isolado representa infecção ou colonização. O segundo é confirmar a sensibilidade do isolado. O terceiro é conhecer a indicação aprovada. O quarto é calcular a dose pela depuração de creatinina. O quinto é pensar em cobertura para outros germes. O sexto é acompanhar efeitos adversos e reavaliar a duração.

O que não está em jogo

O texto não discute todas as opções contra Acinetobacter nem o manejo completo da pneumonia na UTI. A escolha final depende do antibiograma, da disponibilidade e da equipe de infectologia. O post sobre tomada de decisão clínica ajuda a pensar na sequência de exames.

Acinetobacter resistente a carbapenêmicos: o problema

O A. baumannii resistente a carbapenêmicos traz internações longas, mais mortes, mais admissões na UTI e mais readmissões (Boutzoukas e Doi, 2025). Numa revisão, a mortalidade associada chegou a 70 por cento, contra 25 por cento com cepas sensíveis (Boutzoukas e Doi, 2025). Os clones internacionais 1 e 2 predominam no mundo, mas a América Latina tem epidemiologia própria, com os clones 4 e 5 frequentes (Boutzoukas e Doi, 2025).

O cenário no Brasil

A diretriz da Sociedade Brasileira de Infectologia cita o relatório da Anvisa de 2023: o Acinetobacter spp. foi o quarto germe mais isolado nas infecções de corrente sanguínea ligadas a cateter central em UTIs de adultos, com 2428 isolados, e teve a maior taxa de resistência a carbapenêmicos, de 78,8 por cento (Zavascki e colaboradores, 2025). Num estudo em 14 hospitais brasileiros, o A. baumannii resistente a carbapenêmicos representou 9,8 por cento dos isolados de infecção de corrente sanguínea (Zavascki e colaboradores, 2025).

Por que é tão difícil tratar

Todas as cepas de A. baumannii têm uma betalactamase AmpC cromossômica, e muitas adquirem outras enzimas (Kubin e colaboradores, 2025). Numa série citada em revisão, a maioria dos isolados resistentes tinha um gene de carbapenemase adquirido (Kubin e colaboradores, 2025). Os mecanismos de resistência incluem betalactamases, alteração das proteínas ligadoras de penicilina (PBPs), bombas de efluxo e perda de porinas (bula americana do Xacduro, 5/2023). Por isso, poucos antibióticos mantêm atividade, e vários deles são tóxicos.

Infecção ou colonização

Diferenciar infecção de colonização é um dos maiores desafios com esse germe (Shields e colaboradores, 2023). Em pacientes ventilados, o Acinetobacter pode estar na secreção sem causar pneumonia. No paciente da cena, febre nova, secreção purulenta e infiltrado novo apoiam pneumonia. O post sobre incerteza diagnóstica ajuda a decidir quando os dados são incompletos.

Imagem de microscopia eletrônica colorida com bactérias em forma de bastão vermelhas e uma célula de defesa azul
Bactérias gram-negativas multirresistentes (Klebsiella pneumoniae, em vermelho) diante de um neutrófilo (em azul), em microscopia eletrônica de varredura colorida. Enterobactérias resistentes são o alvo principal da cefepima-taniborbactam. Foto: NIAID, Wikimedia Commons, Domínio público.

Sulbactam-durlobactam: como age e o que o ATTACK mostrou

O sulbactam é um betalactâmico com atividade própria contra Acinetobacter, porque inibe as proteínas ligadoras de penicilina PBP1 e PBP3, necessárias para formar a parede da bactéria (McLeod e colaboradores, 2024). O problema é que muitas betalactamases atuais degradam o sulbactam (McLeod e colaboradores, 2024). O durlobactam é um inibidor de betalactamase do tipo diazabicicloctano, sem anel betalactâmico, que protege o sulbactam de várias serino-betalactamases (bula americana do Xacduro, 5/2023). O durlobactam sozinho não tem atividade contra esses isolados (bula americana do Xacduro, 5/2023).

Espectro e limites

O Xacduro mostrou atividade in vitro contra isolados que produzem enzimas das classes A, C e D de Ambler, incluindo a KPC e as enzimas do tipo OXA (bula americana do Xacduro, 5/2023). Ele não é ativo contra isolados que produzem metalo-betalactamases da classe B nem contra os que têm alteração do sítio alvo do sulbactam nas PBPs (bula americana do Xacduro, 5/2023). Em séries de laboratório, mais de 96 por cento dos isolados resistentes a carbapenêmicos e a colistina foram sensíveis ao sulbactam-durlobactam (Pogue e colaboradores, 2025). A produção da metalo-betalactamase NDM-1 é um dos mecanismos de resistência descritos (Pogue e colaboradores, 2025). Mutações perto do sítio ativo da PBP3 também foram encontradas em mutantes resistentes (McLeod e colaboradores, 2024).

O estudo ATTACK

No estudo de fase 3, 177 adultos com infecção pelo complexo A. baumannii-calcoaceticus foram randomizados para sulbactam-durlobactam (91) ou colistina (86) (bula americana do Xacduro, 5/2023). Os dois grupos receberam também imipenem-cilastatina 1 g a cada 6 horas, para cobrir outros germes da pneumonia hospitalar (bula americana do Xacduro, 5/2023). Na população principal, com infecção confirmada por isolado resistente a carbapenêmicos, a mortalidade em 28 dias foi de 12 em 63 pacientes (19,0 por cento) com sulbactam-durlobactam e de 20 em 62 (32,3 por cento) com colistina, e o remédio foi considerado não inferior (bula americana do Xacduro, 5/2023). A cura clínica foi de 61,9 por cento com sulbactam-durlobactam e de 40,3 por cento com colistina (bula americana do Xacduro, 5/2023).

Na população analisada, 75 por cento estavam em ventilação mecânica, 53 por cento tinham pneumonia associada à ventilação e a idade média foi de 63 anos (bula americana do Xacduro, 5/2023). Uma revisão destaca a menor taxa de lesão renal aguda pelos critérios RIFLE com sulbactam-durlobactam, de 13 contra 38 por cento (Pogue e colaboradores, 2025). Os autores lembram que o estudo foi pequeno e que faltam outros ensaios clínicos (Pogue e colaboradores, 2025).

O que dizem as diretrizes

Uma revisão relata que a orientação mais recente da IDSA recomenda o sulbactam-durlobactam como opção preferida onde ele estiver disponível (Iovleva e colaboradores, 2025). A IDSA e a ESCMID recomendam pelo menos dois agentes com atividade in vitro nas infecções graves por A. baumannii resistente a carbapenêmicos (Iovleva e colaboradores, 2025). A diretriz brasileira também recomenda a combinação de dois antimicrobianos com atividade in vitro (Zavascki e colaboradores, 2025). Para o sulbactam em ampicilina-sulbactam, uma revisão considera preferível usar doses otimizadas de pelo menos 6 g por dia de sulbactam, em combinação (Shields e colaboradores, 2023).

Situação regulatória: FDA e outras agências

Estados Unidos. A FDA aprovou o Xacduro em 23 de maio de 2023, pela NDA 216974, como nova entidade molecular e nova combinação, com revisão prioritária (Drugs@FDA, NDA 216974). A indicação é para pacientes de 18 anos ou mais com pneumonia bacteriana hospitalar ou associada à ventilação causada por isolados sensíveis do complexo A. baumannii-calcoaceticus (bula americana do Xacduro, 5/2023). O Xacduro não é indicado para pneumonia causada por outros germes (bula americana do Xacduro, 5/2023).

Cefepima-taniborbactam. Num comunicado de 23 de fevereiro de 2024, a Venatorx e a Melinta informaram que a FDA emitiu carta de resposta completa sobre o pedido de registro da cefepima-taniborbactam para infecção urinária complicada, incluindo pielonefrite (comunicado da Venatorx e da Melinta, 2024). A carta não apontou problemas de segurança ou eficácia clínica e não pediu novos estudos clínicos; a FDA pediu dados adicionais de química, fabricação e controle (comunicado da Venatorx e da Melinta, 2024). No mesmo comunicado, a combinação é descrita como em investigação, com designações QIDP e Fast Track da FDA (comunicado da Venatorx e da Melinta, 2024). Não encontramos comunicado posterior da Venatorx ou da Melinta. No relatório semestral publicado em 19 de agosto de 2026, a Everest Medicines, parceira da Venatorx na Ásia, ainda lista a combinação na sua carteira de desenvolvimento, em fase anterior ao pedido de registro nos seus territórios, sem indicar aprovação nos Estados Unidos (relatório semestral da Everest Medicines, 19/08/2026). A lista de novas aprovações da FDA de 2026, atualizada em 20 de outubro de 2026, não inclui a taniborbactam (lista de novas aprovações da FDA em 2026). Cuidado para não confundir: a cefepima-zidebactam, outra combinação com cefepima, aparece nessa lista, mas é um produto diferente (lista de novas aprovações da FDA em 2026).

Outros países. Este texto descreve apenas a situação nos Estados Unidos, conferida em fontes primárias. A indicação e o acesso em outros países dependem da agência local, e vale conferir o registro e a disponibilidade antes de usar.

Contraindicação e alertas

A bula americana lista uma contraindicação e alguns alertas principais (bula americana do Xacduro, 5/2023):

  • Contraindicação: história de hipersensibilidade grave ao sulbactam, ao durlobactam ou a outros betalactâmicos.
  • Reações de hipersensibilidade graves e às vezes fatais podem ocorrer; houve um caso de choque anafilático no estudo.
  • Diarreia associada a Clostridioides difficile deve ser investigada se houver diarreia.
  • O uso concomitante de inibidores do transportador OAT1, como a probenecida, não é recomendado.

Dose, função renal e preparo

A dose recomendada é de 1 g de sulbactam e 1 g de durlobactam a cada 6 horas, em infusão intravenosa de 3 horas, em adultos com depuração de creatinina de 45 a 129 mL/min (bula americana do Xacduro, 5/2023). A duração recomendada é de 7 a 14 dias, guiada pela evolução clínica (bula americana do Xacduro, 5/2023). A tabela resume os ajustes pela função renal.

Depuração de creatinina (mL/min)Frequência de 1 g de sulbactam e 1 g de durlobactamFonte
130 ou maisA cada 4 horas(bula americana do Xacduro, 5/2023)
45 a 129A cada 6 horas(bula americana do Xacduro, 5/2023)
30 a 44A cada 8 horas(bula americana do Xacduro, 5/2023)
15 a 29A cada 12 horas(bula americana do Xacduro, 5/2023)
Menos de 15, ao iniciarA cada 12 horas nas 3 primeiras doses, depois a cada 24 horas(bula americana do Xacduro, 5/2023)
Queda para menos de 15 durante o usoA cada 24 horas(bula americana do Xacduro, 5/2023)

A depuração de creatinina é estimada pela fórmula de Cockcroft-Gault (bula americana do Xacduro, 5/2023). Em hemodiálise intermitente, a dose deve ser dada depois do fim da sessão (bula americana do Xacduro, 5/2023). Em pacientes com função renal oscilante, a bula pede monitorar a depuração e ajustar a dose (bula americana do Xacduro, 5/2023).

Aplicando ao paciente

Com depuração de 70 mL/min, o paciente da cena receberia 1 g de cada componente a cada 6 horas, em 3 horas. Se a depuração caísse para 35 mL/min, o intervalo passaria a 8 horas. Se ele desenvolvesse depuração aumentada, de 130 ou mais, o intervalo cairia para 4 horas. Na UTI, a função renal muda rápido, e vale recalcular a depuração todos os dias. O post sobre pausa diagnóstica lembra de conferir a dose antes de cada mudança.

Preparo e kit

O Xacduro vem num kit com um frasco de 1 g de sulbactam e dois frascos de 0,5 g de durlobactam (bula americana do Xacduro, 5/2023). A diluição deve ocorrer até 1 hora depois da reconstituição (bula americana do Xacduro, 5/2023). Os frascos são guardados em geladeira, entre 2 e 8 °C, e não devem ser congelados (bula americana do Xacduro, 5/2023). A farmácia precisa preparar cada dose com antecedência, porque a infusão dura 3 horas e se repete a cada 6 horas. O post sobre raciocínio clínico interprofissional mostra por que farmácia e enfermagem fazem parte dessa decisão.

Efeitos adversos

No estudo de fase 3, efeitos adversos graves ocorreram em 40 por cento com sulbactam-durlobactam e em 49 por cento com colistina (bula americana do Xacduro, 5/2023). A suspensão por efeito adverso ocorreu em 11 e 16 por cento (bula americana do Xacduro, 5/2023). Os efeitos mais comuns, acima de 10 por cento, foram alteração de exames do fígado, diarreia, anemia e potássio baixo (bula americana do Xacduro, 5/2023). A lista abaixo compara efeitos selecionados.

  • Alteração de exames do fígado: 19 por cento com sulbactam-durlobactam e 21 por cento com colistina.
  • Diarreia: 17 e 11 por cento.
  • Anemia: 13 e 14 por cento.
  • Potássio baixo: 12 e 11 por cento.
  • Lesão renal aguda: 6 e 36 por cento.

Fonte da lista: (bula americana do Xacduro, 5/2023). Para o paciente da cena, vale pedir provas de função hepática, hemograma, potássio e creatinina durante o tratamento.

Idosos

No estudo de fase 3, 54 por cento dos pacientes tratados com Xacduro tinham 65 anos ou mais (bula americana do Xacduro, 5/2023). Como o remédio é eliminado principalmente pelos rins, a bula orienta ajustar a dose dos idosos pela função renal (bula americana do Xacduro, 5/2023).

Imagem de microscopia eletrônica em preto e branco com bactérias em forma de bastão sobre uma superfície
Bactérias Pseudomonas aeruginosa em microscopia eletrônica de varredura. A cefepima-taniborbactam está em estudo contra cepas multirresistentes desse germe. Foto: Janice Haney Carr, CDC, Wikimedia Commons, Domínio público.

Cefepima-taniborbactam: o que se sabe

A taniborbactam é um inibidor de betalactamase com atividade potente contra enzimas das classes A, B, C e D de Ambler (Rodvold e colaboradores, 2025). Isso inclui metalo-betalactamases, que o durlobactam não cobre. Combinada com a cefepima, uma cefalosporina de quarta geração, ela está em estudo para infecções por germes gram-negativos multirresistentes (Rodvold e colaboradores, 2025). O comunicado das empresas cita como alvos principais as enterobactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido, as enterobactérias resistentes a carbapenêmicos e a P. aeruginosa multirresistente (comunicado da Venatorx e da Melinta, 2024).

O estudo CERTAIN-1

O CERTAIN-1 foi um estudo de fase 3, randomizado e duplo-cego, em adultos com infecção urinária complicada (Moeck e colaboradores, 2024). A cefepima-taniborbactam foi superior ao meropeném no desfecho composto de sucesso microbiológico e clínico na visita de teste de cura (Moeck e colaboradores, 2024). Na análise por perfil de resistência, os pacientes com germes portadores de serino-carbapenemases, como KPC-3 e OXA-48, tiveram sucesso composto em 5 de 6 e sucesso clínico em todos; os 3 pacientes com metalo-betalactamases tiveram sucesso composto (Moeck e colaboradores, 2024). São números pequenos, que mostram atividade, mas não permitem conclusões firmes sobre esses subgrupos.

Farmacocinética nos rins e no pulmão

A cefepima e a taniborbactam são eliminadas sobretudo pela urina, e a função renal afeta as duas da mesma forma (Dowell e colaboradores, 2022). Com TFGe de 30 a 59, a depuração das duas caiu 63 por cento; abaixo de 30, caiu 78 por cento para a cefepima e 81 por cento para a taniborbactam (Dowell e colaboradores, 2022). Num estudo em voluntários sadios, com 2 g de cefepima e 0,5 g de taniborbactam em infusão de 4 horas a cada 8 horas, os dois componentes chegaram ao líquido de revestimento epitelial do pulmão (Rodvold e colaboradores, 2025). A razão entre o líquido pulmonar e o plasma livre variou de 0,197 a 0,373 para a cefepima e de 0,153 a 0,253 para a taniborbactam (Rodvold e colaboradores, 2025). Esse regime é de pesquisa e não é uma dose aprovada.

Por que ela não serve ao paciente da cena

Até a consulta de 24 de outubro de 2026, a cefepima-taniborbactam não tinha aprovação da FDA (lista de novas aprovações da FDA em 2026). A Everest ainda a apresentava como produto em desenvolvimento em agosto de 2026 (relatório semestral da Everest Medicines, 19/08/2026). Antes de qualquer uso, confira a situação atual na FDA. Além disso, o estudo principal foi em infecção urinária, e não em pneumonia por Acinetobacter (Moeck e colaboradores, 2024). Para o paciente da cena, a opção com indicação aprovada nos Estados Unidos é o sulbactam-durlobactam, se o isolado for sensível (bula americana do Xacduro, 5/2023). Saber diferenciar os dois remédios evita confusão na passagem de plantão.

O que a comparação ensina

Os dois remédios ilustram a mesma ideia: um inibidor de betalactamase novo protege um betalactâmico antigo. O alvo de cada um, porém, é diferente. O durlobactam protege o sulbactam contra enzimas das classes A, C e D no Acinetobacter (bula americana do Xacduro, 5/2023). A taniborbactam protege a cefepima também contra metalo-betalactamases, com foco em enterobactérias e Pseudomonas (Rodvold e colaboradores, 2025). Pedir o mecanismo de resistência ao laboratório, quando disponível, ajuda a escolher.

Quando o paciente piora

Se o paciente da cena piorar apesar do tratamento, vale repetir culturas, rever a sensibilidade e procurar outros focos. Se surgir diarreia, é preciso investigar C. difficile (bula americana do Xacduro, 5/2023). Se surgir exantema ou hipotensão logo depois da infusão, pensar em hipersensibilidade (bula americana do Xacduro, 5/2023). O post sobre deterioração clínica na enfermaria mostra como escalar quando os sinais vitais mudam.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, cada caso começa com poucas pistas e você decide o que perguntar, o que pedir e quando fechar o raciocínio. A pneumonia por Acinetobacter resistente é um bom exercício porque um antibiograma, uma depuração de creatinina ou uma enzima de resistência mudam a conduta. O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos explica por que esse formato fixa o conhecimento, e o post sobre simulação de atendimento mostra como treinar a passagem de plantão.

Três exercícios com casos

Mude a função renal. Diga a frequência da dose se a depuração caísse para 20 mL/min.

Mude a enzima. Diga o que esperar do Xacduro se o isolado produzisse NDM.

Mude o germe. Diga por que o Xacduro não serve se o germe fosse Klebsiella pneumoniae resistente.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

O Xacduro serve para qualquer gram-negativo resistente?

Não. A indicação é só para pneumonia hospitalar ou associada à ventilação por isolados sensíveis do complexo A. baumannii-calcoaceticus (bula americana do Xacduro, 5/2023).

Qual é a dose habitual?

1 g de sulbactam e 1 g de durlobactam a cada 6 horas, em 3 horas, com depuração de 45 a 129 mL/min (bula americana do Xacduro, 5/2023).

Precisa de outro antibiótico junto?

No estudo, os pacientes receberam também imipenem-cilastatina para outros germes (bula americana do Xacduro, 5/2023). As diretrizes citadas recomendam dois agentes ativos nas infecções graves (Iovleva e colaboradores, 2025).

A cefepima-taniborbactam já pode ser usada?

Em fevereiro de 2024, a FDA emitiu carta de resposta completa (comunicado da Venatorx e da Melinta, 2024). Até 20 de outubro de 2026, a combinação não constava entre as novas aprovações da FDA (lista de novas aprovações da FDA em 2026), e a Everest a listava em agosto de 2026 como produto em desenvolvimento (relatório semestral da Everest Medicines, 19/08/2026). Confira a situação atual antes de usar.

Por quanto tempo tratar?

De 7 a 14 dias, guiado pela evolução clínica (bula americana do Xacduro, 5/2023).

Checklist final

  • Diferenciei infecção de colonização com dados clínicos e de imagem.
  • Confirmei o isolado e a sensibilidade ao sulbactam-durlobactam.
  • Perguntei sobre metalo-betalactamases, que tiram a atividade do Xacduro.
  • Calculei a depuração de creatinina por Cockcroft-Gault e escolhi o intervalo.
  • Programei infusões de 3 horas e o preparo com a farmácia.
  • Pensei na cobertura de outros germes e no segundo agente ativo.
  • Pedi função hepática, hemograma, potássio e creatinina durante o tratamento.
  • Revisei a duração de 7 a 14 dias.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Boutzoukas A, Doi Y. The global epidemiology of carbapenem-resistant Acinetobacter baumannii. JAC Antimicrob Resist. 2025. PMID 40735512.
  2. Dowell JA, Marbury TC, Smith WB, et al. Safety and Pharmacokinetics of Taniborbactam (VNRX-5133) with Cefepime in Subjects with Various Degrees of Renal Impairment. Antimicrob Agents Chemother. 2022. PMID 35920662.
  3. Entasis Therapeutics. XACDURO® (sulbactam for injection; durlobactam for injection), co-packaged for intravenous use. Prescribing Information. Revisada em 5/2023. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
  4. Iovleva A, Fowler VG Jr, Doi Y. Treatment Approaches for Carbapenem-Resistant Acinetobacter baumannii Infections. Drugs. 2025. PMID 39607595.
  5. Kubin CJ, Garzia C, Uhlemann A-C. Acinetobacter baumannii treatment strategies: a review of therapeutic challenges and considerations. Antimicrob Agents Chemother. 2025. PMID 40631987.
  6. McLeod SM, O'Donnell JP, Narayanan N, et al. Sulbactam-durlobactam: a β-lactam/β-lactamase inhibitor combination targeting Acinetobacter baumannii. Future Microbiol. 2024. PMID 38426849.
  7. Moeck G, Gasink LB, Mendes RE, et al. Patient outcomes by baseline pathogen resistance phenotype and genotype in CERTAIN-1, a Phase 3 study of cefepime-taniborbactam versus meropenem in adults with complicated urinary tract infection. Antimicrob Agents Chemother. 2024. PMID 38780262.
  8. Pogue JM, Harrington J, Wangchinda W, et al. New Perspectives on Antimicrobial Agents: Sulbactam-durlobactam. Antimicrob Agents Chemother. 2025. PMID 40844462.
  9. Rodvold KA, Gotfried MH, Sabato P, et al. Plasma and intrapulmonary pharmacokinetics of cefepime and taniborbactam in healthy adult participants. Antimicrob Agents Chemother. 2025. PMID 40476839.
  10. Shields RK, Paterson DL, Tamma PD. Navigating Available Treatment Options for Carbapenem-Resistant Acinetobacter baumannii-calcoaceticus Complex Infections. Clin Infect Dis. 2023. PMID 37125467.
  11. U.S. Food and Drug Administration. Drugs@FDA: FDA-Approved Drugs. NDA 216974, Xacduro. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
  12. Venatorx Pharmaceuticals, Melinta Therapeutics. Venatorx and Melinta Provide Update on Status of U.S. New Drug Application for Cefepime-Taniborbactam. Business Wire. 23/02/2024. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
  13. Everest Medicines Limited. INTERIM RESULTS ANNOUNCEMENT FOR THE SIX MONTHS ENDED 30 JUNE 2026. HKEXnews. 19/08/2026. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
  14. U.S. Food and Drug Administration. Novel Drug Approvals for 2026. Atualizada em 20/10/2026. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
  15. Zavascki AP, Chebabo A, Cunha CA, et al. Guideline for antimicrobial treatment of multidrug-resistant Gram-negative infections: practice recommendations of the Brazilian Society of Infectious Diseases. Braz J Infect Dis. 2025. PMID 41130038.

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