EndocrinologiaRaciocínio clínico

Nódulo de tireoide: TI-RADS e quem precisa de punção

Painel de controle de um aparelho de ultrassom, com teclado, botões de ajuste e trackball, e o transdutor apoiado ao lado
Sumário
  1. Um achado que quase todo mundo pode ter
  2. O que o ultrassom procura
  3. O que é o TI-RADS
  4. Quem precisa de punção
  5. Os limites do sistema
  6. Montando o raciocínio passo a passo
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Take-home messages
  10. Referências

Um homem de 48 anos faz um ultrassom de carótidas para avaliar risco cardiovascular. O exame das artérias é normal, mas o radiologista anota um achado extra: "nódulo sólido isoecoico de 14 mm no lobo direito da tireoide". O paciente procura o clínico com o laudo na mão e uma pergunta direta: "Preciso fazer biópsia?".

O nódulo de tireoide é um dos achados mais comuns da medicina. Ele aparece em exames de pescoço feitos por qualquer motivo, e a imensa maioria é benigna. Ao mesmo tempo, a decisão de puncionar ou não define se o paciente entra numa sequência de citologia, repetição, cirurgia e seguimento que pode durar anos.

Os sistemas TI-RADS foram criados para dar ordem a essa decisão. Eles transformam as características do nódulo no ultrassom em uma categoria de risco e associam cada categoria a um tamanho mínimo para a punção. Este texto mostra como ler o laudo, o que os estudos mostram sobre o risco real e como evitar tanto o câncer perdido quanto a punção desnecessária.

Principais pontos

  • Nódulos de tireoide são muito comuns, e o câncer é a minoria entre eles.
  • O ultrassom é o exame central, e o TI-RADS traduz suas características em risco.
  • A indicação de punção combina a categoria de risco com o tamanho do nódulo.
  • Características isoladas, como microcalcificações, têm valor, mas nenhuma decide sozinha.
  • Usar o TI-RADS reduz punções desnecessárias sem abandonar a busca por câncer clinicamente relevante.

Um achado que quase todo mundo pode ter

A frequência do nódulo de tireoide depende de como se procura. A revisão da Sociedade Coreana de Radiologia da Tireoide cita prevalência de 2 a 6 a cada 100 pessoas na palpação, de 19 a 68 a cada 100 no ultrassom e de 8 a 65 a cada 100 em autópsias (Shin e colaboradores, 2016). A diretriz da Associação Europeia de Tireoide de 2023 afirma que até 60 a cada 100 adultos na população geral têm um ou mais nódulos (Durante e colaboradores, 2023).

A mesma diretriz europeia lembra que a frequência de câncer em populações não selecionadas de nódulos costuma ficar entre 1 e 5 a cada 100, variando conforme os critérios de seleção e a inclusão ou não dos microcarcinomas papilíferos (Durante e colaboradores, 2023). A conta é simples: muitos nódulos, poucos cânceres, e a maior parte dos cânceres encontrados é pequena e indolente.

O peso dos exames de imagem

Um estudo canadense lembra que o nódulo de tireoide pode estar presente em até 76 a cada 100 adultos, com prevalência estimada de 68 a cada 100 no ultrassom, 25 a cada 100 na tomografia e 18 a cada 100 na ressonância (Abou Shaar e colaboradores, 2022). Cada exame de pescoço, tórax ou coluna cervical é uma chance de achar um nódulo que nunca daria sintomas.

O que os números de câncer escondem

Os números de malignidade variam muito entre fontes, e entender por quê é parte do raciocínio. A revisão coreana cita taxa de malignidade de cerca de 5 a 15 a cada 100 entre nódulos detectados por palpação ou ultrassom (Shin e colaboradores, 2016). Esses dados, porém, vêm em boa parte de centros especializados, que recebem pacientes já selecionados.

Uma coorte de atenção primária e secundária

Uma coorte alemã acompanhou 17 592 pacientes com nódulo maior que 1 cm, avaliados em um centro de atenção primária e secundária, com seguimento de até 23 anos (Grussendorf e colaboradores, 2022). Os autores lembram que o risco de malignidade costuma ser estimado entre 7 e 15 a cada 100 nos dados de centros especializados usados pelas diretrizes.

O resultado foi muito diferente. A malignidade foi confirmada em 189 pacientes, ou 1,1 a cada 100, excluindo microcarcinomas papilíferos achados por acaso (Grussendorf e colaboradores, 2022). Dos 189 diagnósticos, 155 foram diagnosticados no primeiro ano, 25 entre o segundo e o quinto ano, 9 entre o sexto e o décimo ano e nenhum entre os 1165 pacientes seguidos por mais de 10 anos.

Esse estudo ilustra bem a taxa básica no diagnóstico. O mesmo nódulo, visto num ambulatório geral ou num centro de referência, carrega probabilidades de câncer diferentes, porque a população que chega a cada lugar é diferente.

O que o ultrassom procura

O ultrassom descreve o nódulo por um conjunto de características: composição, ecogenicidade, forma, margens e focos ecogênicos. Algumas delas se associam fortemente a malignidade.

A força de cada característica

Uma metanálise reuniu 52 estudos observacionais com 12 786 nódulos e mostrou que todas as características avaliadas se associaram a malignidade em nódulos não selecionados (Remonti e colaboradores, 2015). Microcalcificações, margens irregulares e forma mais alta do que larga tiveram especificidades altas, de 87,8, 83,1 e 96,6 a cada 100, com razões de verossimilhança positivas de 3,26, 2,99 e 8,07, respectivamente.

Os autores concluíram que as características isoladas não bastam para diagnosticar câncer de tireoide e que a combinação delas é o caminho (Remonti e colaboradores, 2015). Esse é o princípio por trás de todos os sistemas TI-RADS.

Calcificações merecem cuidado

A diretriz coreana de 2021 dedica atenção especial aos nódulos totalmente calcificados. Segundo o texto, o risco de malignidade desses nódulos, quando têm 1 cm ou mais, fica entre 18,4 e 23,3 a cada 100 (Ha e colaboradores, 2021). Calcificação não é sinônimo de benignidade, e o laudo que descreve "nódulo calcificado" não encerra a conversa.

Interpretar essas características exige o mesmo cuidado de interpretar sinais, sintomas e história: cada achado muda a probabilidade, mas o diagnóstico nasce do conjunto.

Microscópio óptico antigo de corpo preto e metal, visto de lado, com objetivas e platina, diante de um fundo de madeira escura
Microscópio óptico. O material da punção aspirativa por agulha fina vai para lâmina e é lido ao microscópio, e é a citologia que confirma ou afasta o que o ultrassom sugeriu. Crédito: Acagastya, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Quando o nódulo aparece em outro exame

Muitos nódulos não chegam pelo ultrassom de tireoide, mas por uma tomografia de tórax, uma ressonância de coluna ou um PET feito por outro motivo. O raciocínio, nesses casos, começa por uma pergunta simples: o exame que achou o nódulo é bom para caracterizá-lo?

Na maioria das vezes, a resposta é não. A diretriz europeia recomenda limitar o uso da tomografia e da ressonância no estudo de nódulos de tireoide à avaliação de extensão local ou de crescimento retroesternal do bócio (Durante e colaboradores, 2023). O nódulo visto na tomografia deve ser caracterizado no ultrassom, e é o ultrassom que define a categoria de risco e a necessidade de punção.

O ultrassom como porta de entrada

Essa recomendação tem uma consequência prática. Pedir ressonância ou nova tomografia para "ver melhor" um nódulo de tireoide raramente acrescenta informação útil e pode atrasar o exame certo. A revisão coreana descreve o ultrassom como a base da detecção, da estratificação de risco e da orientação da punção (Shin e colaboradores, 2016).

O que perguntar ao paciente

Algumas informações da história mudam a probabilidade antes de qualquer imagem. Exposição a radiação no pescoço na infância, história familiar de câncer de tireoide, crescimento rápido do nódulo, rouquidão nova e dificuldade para engolir são dados que o laudo não traz. No estudo colombiano, a concordância entre ultrassom e citologia tendeu a ser maior em pacientes com crescimento acelerado do nódulo, fixação a estruturas vizinhas, paralisia de pregas vocais e história de radioterapia de cabeça e pescoço (Vargas-Uricoechea e colaboradores, 2017).

Esses achados não entram no cálculo do TI-RADS, mas entram no raciocínio. Um nódulo de baixo risco no ultrassom em um paciente com rouquidão nova e linfonodo palpável merece outra conversa. O sistema organiza a decisão, mas não dispensa a tomada de decisão clínica à beira do leito.

O que é o TI-RADS

TI-RADS é a sigla de Thyroid Imaging Reporting and Data System. O nome não se refere a um único sistema, mas a uma família de classificações criadas por sociedades diferentes, todas com a mesma ideia: padronizar o vocabulário do laudo e associar cada padrão de nódulo a um risco de câncer.

A diretriz europeia lembra que esses escores foram propostos para melhorar a reprodutibilidade entre examinadores, quantificar o risco de malignidade, unificar os laudos e padronizar as recomendações de conduta (Durante e colaboradores, 2023). Os sistemas podem se basear em padrões, quando o nódulo é avaliado como um todo, ou em pontos, quando cada característica soma uma pontuação.

Os principais sistemas

O TI-RADS francês é um sistema de cinco níveis com vocabulário e laudo padronizados (Russ e colaboradores, 2016). Nele, a categoria 5 indica nódulo muito provavelmente maligno, com risco acima de 95 a cada 100, e a categoria 4C indica risco alto, entre 50 e 95 a cada 100. O sistema europeu, o EU-TIRADS, o americano ACR TI-RADS e o coreano K-TIRADS seguem lógica parecida, com diferenças nos critérios e nos cortes.

A diretriz coreana de 2021 revisou seus critérios de punção com o objetivo explícito de reduzir punções desnecessárias de nódulos benignos sem perder sensibilidade para câncer em nódulos pequenos, de 1 a 2 cm (Ha e colaboradores, 2021).

O EU-TIRADS na prática

A diretriz europeia de 2023 resume as categorias e os riscos estimados de malignidade em uma tabela simples (Durante e colaboradores, 2023).

Categoria EU-TIRADS Características no ultrassom Risco estimado de malignidade Punção indicada
EU-TIRADS 2, benigno Cisto puro ou nódulo inteiramente espongiforme 0 a cada 100 Não, salvo se houver tratamento programado
EU-TIRADS 3, baixo risco Iso ou hiperecoico, sem sinal de alta suspeita 2 a 4 a cada 100 Se maior que 20 mm
EU-TIRADS 4, risco intermediário Levemente hipoecoico, sem sinal de alta suspeita 6 a 17 a cada 100 Se maior que 15 mm
EU-TIRADS 5, alto risco Forma ou margens irregulares, microcalcificações ou hipoecogenicidade marcada 26 a 87 a cada 100 Se maior que 10 mm

Fonte da tabela: Durante e colaboradores, 2023.

A mesma diretriz recomenda punção independentemente da categoria quando há linfonodos patológicos no pescoço (Durante e colaboradores, 2023). O tamanho mínimo nunca é o único critério.

Quem precisa de punção

A punção aspirativa com agulha fina é o exame que dá o diagnóstico citológico. Ela é segura, mas não é inócua: gera resultados indeterminados, repetições e, às vezes, cirurgias que não eram necessárias.

Risco e tamanho andam juntos

Os sistemas TI-RADS combinam o risco com o tamanho. Na diretriz europeia, os cortes são de mais de 10 mm para o EU-TIRADS 5, mais de 15 mm para o EU-TIRADS 4 e mais de 20 mm para o EU-TIRADS 3 (Durante e colaboradores, 2023). A lógica é que nódulos de baixo risco só justificam punção quando são grandes, enquanto nódulos suspeitos merecem punção mais cedo.

O impacto de adotar o sistema

Um hospital comunitário canadense comparou as punções feitas antes e depois da adoção do ACR TI-RADS (Abou Shaar e colaboradores, 2022). Dos 57 nódulos puncionados no ano anterior, 30, ou 52,6 a cada 100, teriam sido apenas acompanhados se o ACR TI-RADS já estivesse em uso. Os autores concluíram que o sistema reduz significativamente o número de punções desnecessárias.

Esse dado conversa com o problema do sobrediagnóstico. Cada punção a menos em nódulo de baixo risco é uma chance a menos de achar um microcarcinoma que nunca faria mal ao paciente.

O nódulo que não será puncionado

A diretriz europeia também orienta o seguimento dos nódulos assintomáticos que não vão para punção (Durante e colaboradores, 2023). No EU-TIRADS 2, nódulos de 5 a 10 mm não precisam de avaliação adicional, e os maiores que 10 mm podem ser reavaliados em 3 a 5 anos. No EU-TIRADS 3 menor que 20 mm, nódulos de 5 a 10 mm também dispensam avaliação adicional, e os de 10 a 20 mm podem ser reavaliados em 3 a 5 anos.

A diretriz coreana propõe seguimento mais próximo para as categorias de maior risco que não foram puncionadas, com ultrassom a cada 6 meses por 1 a 2 anos nos nódulos K-TIRADS 5 e, depois, anual se não houver crescimento (Ha e colaboradores, 2021).

Quando o TSH muda o caminho

Antes da punção, a função tireoidiana entra no raciocínio. A diretriz europeia recomenda cintilografia quando o TSH está abaixo do normal, para identificar nódulos funcionantes e evitar punções (Durante e colaboradores, 2023). O nódulo hiperfuncionante raramente é maligno, e puncioná-lo costuma gerar citologia confusa.

O TI-RADS e a citologia conversam

O TI-RADS não substitui a citologia, mas os dois exames se complementam. Estudos que comparam o ultrassom com a classificação citológica de Bethesda mostram até onde vai essa concordância.

Concordância entre ultrassom e citologia

Um estudo colombiano com 180 pacientes comparou as categorias TI-RADS com as categorias de Bethesda e encontrou concordância observada de 87,2 a cada 100, com kappa ponderado de 0,69 (Vargas-Uricoechea e colaboradores, 2017). A concordância foi maior entre as categorias benignas dos dois sistemas.

Quando a citologia é indeterminada

O resultado citológico indeterminado é um dos momentos mais difíceis da investigação. Um estudo com 140 nódulos de citologia indeterminada operados mostrou que 74, ou 52,9 a cada 100, eram benignos na histologia (Barbosa e colaboradores, 2019). Nesse grupo, a malignidade aumentou conforme a categoria de suspeita no ultrassom, e a combinação de Bethesda III com as categorias de menor risco teve sensibilidade de 95,3 a cada 100.

Os autores concluíram que o ACR TI-RADS e os padrões da Associação Americana de Tireoide ajudam a manejar nódulos com citologia indeterminada (Barbosa e colaboradores, 2019). A diretriz europeia acrescenta que testes moleculares podem ser considerados nessa situação, quando disponíveis (Durante e colaboradores, 2023).

Pilhas de compressas de gaze brancas dobradas
Compressas de gaze. A punção aspirativa por agulha fina é um procedimento simples, mas só vale a pena quando o resultado pode mudar a conduta. Crédito: آرمین, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Os limites do sistema

O TI-RADS é uma ferramenta, e toda ferramenta tem limites. Conhecê-los evita a confiança cega no número do laudo.

Variação entre examinadores

Um estudo italiano pediu a dois avaliadores que classificassem 1055 imagens de nódulos de 265 pacientes por cinco sistemas diferentes (Grani e colaboradores, 2018). A concordância entre eles na primeira série, medida pelo alfa de Krippendorff, ficou entre 0,47 e 0,61, conforme o sistema. Já a concordância sobre a indicação de punção foi maior, com kappa entre 0,61 e 0,82.

O mesmo estudo mostrou que a concordância melhorou na segunda série, depois de uma leitura conjunta para alinhar as definições (Grani e colaboradores, 2018). O treino importa. Laudos de examinadores diferentes podem divergir nos detalhes, mesmo quando concordam na conduta.

O risco de sobrediagnóstico em escala

O aumento do câncer de tireoide no mundo é tema de debate. Uma revisão sobre epidemiologia aponta que boa parte do aumento parece aparente, ligada à detecção de cânceres pequenos em fase pré-clínica, embora um aumento real também seja possível (Pellegriti e colaboradores, 2013).

Um estudo populacional suíço mostrou que, entre 1998 e 2012, a incidência padronizada de câncer de tireoide subiu de 5,9 para 11,7 por 100 000 mulheres e de 2,7 para 3,9 por 100 000 homens (Jegerlehner e colaboradores, 2017). O aumento ficou restrito ao subtipo papilífero, o mais indolente, a mortalidade caiu levemente e a taxa de tireoidectomia aumentou de três a quatro vezes. É o retrato do diagnóstico demais e do tratamento demais.

Montando o raciocínio passo a passo

A decisão sobre o nódulo de tireoide pode ser organizada em uma sequência curta, útil no consultório e na discussão de casos.

  1. Ler o laudo e identificar a categoria TI-RADS, o sistema usado e o tamanho do nódulo.
  2. Checar o TSH: se estiver baixo, considerar cintilografia antes de pensar em punção.
  3. Procurar sinais que mudam o risco: linfonodos suspeitos, crescimento rápido, rouquidão, história de radiação no pescoço.
  4. Aplicar o corte de tamanho da categoria para decidir a punção.
  5. Para o nódulo que não será puncionado, definir o seguimento conforme a categoria.
  6. Explicar ao paciente o raciocínio, inclusive a escolha de não puncionar.

Voltando ao paciente do caso

O paciente de 48 anos tem um nódulo sólido isoecoico de 14 mm. Sem outras características suspeitas descritas, esse padrão se aproxima do EU-TIRADS 3, cujo risco estimado é de 2 a 4 a cada 100 e cujo corte para punção é de mais de 20 mm (Durante e colaboradores, 2023). Pela diretriz europeia, o nódulo não precisaria de punção agora, e o seguimento poderia ser feito com nova avaliação em 3 a 5 anos.

Antes de fechar o raciocínio, vale pedir TSH, palpar o pescoço, perguntar sobre radiação e história familiar e conferir se o laudo descreve os linfonodos. Se nada disso mudar o quadro, a resposta à pergunta do paciente é que a biópsia não está indicada neste momento, e explicar por quê ajuda a lidar com a incerteza diagnóstica.

Onde o raciocínio costuma falhar

A falha mais frequente é puncionar pelo tamanho sem olhar a categoria, ou pela ansiedade sem olhar o risco. A outra falha é a oposta: tranquilizar o paciente sem conferir se o laudo descreveu as características que importam. Registrar a categoria, o tamanho e o plano no prontuário ajuda a organizar o raciocínio clínico e dá continuidade ao seguimento.

Duas luvas descartáveis de plástico transparente abertas sobre uma superfície escura
Luvas descartáveis. Puncionar só pelo tamanho, sem olhar a categoria do nódulo, é uma das falhas mais frequentes na prática. Crédito: Corn cheese, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Treinar a probabilidade pré-teste e buscar o código certo na CID-10 completam esse treino.

Perguntas frequentes

Todo nódulo de tireoide precisa de punção?

Não precisa. A indicação depende da categoria de risco no ultrassom e do tamanho, e muitos nódulos de baixo risco só são puncionados quando passam de um tamanho mínimo, como os mais de 20 mm do EU-TIRADS 3 (Durante e colaboradores, 2023). Nódulos puramente císticos ou espongiformes, em geral, não precisam de punção.

Qual sistema TI-RADS é o melhor?

Nenhum se impôs sobre os outros. Os sistemas têm reprodutibilidade parecida entre examinadores, e a concordância sobre a indicação de punção é maior que a concordância sobre características isoladas (Grani e colaboradores, 2018). O mais importante é que o laudo diga qual sistema foi usado.

Um nódulo grande é mais perigoso?

O tamanho, sozinho, não define o risco. As características no ultrassom pesam mais, e por isso o corte de punção muda conforme a categoria (Durante e colaboradores, 2023). Nódulos grandes podem causar sintomas compressivos, o que é outra discussão.

O que significa citologia indeterminada?

É o resultado em que a citologia não consegue classificar o nódulo como benigno ou maligno. Num estudo com nódulos indeterminados operados, mais da metade era benigna, e a categoria do ultrassom ajudou a separar os de menor risco (Barbosa e colaboradores, 2019).

Achar mais nódulos significa salvar mais vidas?

Não necessariamente. O estudo suíço mostrou aumento da incidência de câncer papilífero e de tireoidectomias, com mortalidade levemente menor no período, um padrão compatível com sobrediagnóstico (Jegerlehner e colaboradores, 2017). Procurar câncer onde o risco é baixo pode causar mais dano do que benefício.

Take-home messages

  • Nódulos de tireoide são muito comuns, e o câncer é a minoria entre eles.
  • O risco de câncer depende da população atendida e é menor em ambulatórios gerais do que em centros de referência.
  • O TI-RADS combina características do ultrassom em categorias de risco ligadas a cortes de tamanho para punção.
  • TSH baixo pede cintilografia antes de pensar em punção.
  • Adotar o TI-RADS reduz punções desnecessárias.
  • Explicar ao paciente por que não puncionar é parte do raciocínio.

Referências

  1. Abou Shaar B, Meteb M, Awad El-Karim G, et al. Reducing the Number of Unnecessary Thyroid Nodule Biopsies With the American College of Radiology (ACR) Thyroid Imaging Reporting and Data System (TI-RADS). Cureus. 2022. PMID 35425684.
  2. Barbosa TLM, Junior COM, Graf H, et al. ACR TI-RADS and ATA US scores are helpful for the management of thyroid nodules with indeterminate cytology. BMC Endocr Disord. 2019. PMID 31664992.
  3. Durante C, Hegedüs L, Czarniecka A, et al. 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for thyroid nodule management. Eur Thyroid J. 2023. PMID 37358008.
  4. Grani G, Lamartina L, Cantisani V, et al. Interobserver agreement of various thyroid imaging reporting and data systems. Endocr Connect. 2018. PMID 29196301.
  5. Grussendorf M, Ruschenburg I, Brabant G. Malignancy rates in thyroid nodules: a long-term cohort study of 17,592 patients. Eur Thyroid J. 2022. PMID 35635802.
  6. Ha EJ, Chung SR, Na DG, et al. 2021 Korean Thyroid Imaging Reporting and Data System and Imaging-Based Management of Thyroid Nodules: Korean Society of Thyroid Radiology Consensus Statement and Recommendations. Korean J Radiol. 2021. PMID 34719893.
  7. Jegerlehner S, Bulliard JL, Aujesky D, et al. Overdiagnosis and overtreatment of thyroid cancer: A population-based temporal trend study. PLoS One. 2017. PMID 28614405.
  8. Pellegriti G, Frasca F, Regalbuto C, et al. Worldwide increasing incidence of thyroid cancer: update on epidemiology and risk factors. J Cancer Epidemiol. 2013. PMID 23737785.
  9. Remonti LR, Kramer CK, Leitão CB, et al. Thyroid ultrasound features and risk of carcinoma: a systematic review and meta-analysis of observational studies. Thyroid. 2015. PMID 25747526.
  10. Russ G. Risk stratification of thyroid nodules on ultrasonography with the French TI-RADS: description and reflections. Ultrasonography. 2016. PMID 26324117.
  11. Shin JH, Baek JH, Chung J, et al. Ultrasonography Diagnosis and Imaging-Based Management of Thyroid Nodules: Revised Korean Society of Thyroid Radiology Consensus Statement and Recommendations. Korean J Radiol. 2016. PMID 27134526.
  12. Vargas-Uricoechea H, Meza-Cabrera I, Herrera-Chaparro J. Concordance between the TIRADS ultrasound criteria and the BETHESDA cytology criteria on the nontoxic thyroid nodule. Thyroid Res. 2017. PMID 28184253.

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