EndocrinologiaRaciocínio clínico

Hiponatremia: raciocínio por osmolalidade e volume

Cristais brancos de sal grosso vistos de perto, iluminados de lado contra um fundo escuro
Sumário
  1. Por que a hiponatremia merece raciocínio cuidadoso
  2. Passo 1: a hiponatremia é hipotônica?
  3. Passo 2: o rim está diluindo a urina?
  4. Passo 3: volume e sódio urinário
  5. A síndrome da secreção inapropriada do hormônio antidiurético
  6. Montando o raciocínio passo a passo
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Take-home messages
  10. Referências

Uma mulher de 79 anos é internada depois de uma queda em casa, com fratura de colo do fêmur. Os exames de admissão mostram sódio de 126 mmol/L. Ela usa um diurético tiazídico para pressão alta e um antidepressivo há alguns meses. A filha conta que a mãe anda "mais lenta" e desequilibrada nas últimas semanas, e que comia pouco porque perdeu o apetite.

A hiponatremia é o distúrbio eletrolítico mais comum da prática clínica, e também um dos mais mal investigados. O número baixo no exame chama atenção, mas a causa costuma ficar sem nome no prontuário. Sem causa, não há plano, e o paciente recebe alta com o mesmo sódio baixo com que entrou.

O raciocínio diagnóstico da hiponatremia é um dos melhores exemplos de algoritmo bem construído na medicina interna. Ele se apoia em três perguntas em sequência: a hiponatremia é mesmo hipotônica, o rim está diluindo a urina e como está o volume do paciente. Este texto percorre esse caminho passo a passo, sem entrar em correção ou tratamento.

Principais pontos

  • A primeira pergunta é se a hiponatremia é hipotônica, e a osmolalidade plasmática responde.
  • A osmolalidade urinária mostra se o rim está conseguindo diluir a urina.
  • O sódio urinário e a avaliação do volume separam as principais causas.
  • A síndrome da secreção inapropriada do hormônio antidiurético é um diagnóstico de exclusão, com critérios próprios.
  • Em idosos, a causa costuma ser multifatorial, e medicamentos aparecem com frequência.

Por que a hiponatremia merece raciocínio cuidadoso

A hiponatremia é definida por sódio sérico baixo. Uma revisão sobre a síndrome da secreção inapropriada do hormônio antidiurético usa o limite de menos de 135 mEq/L e lembra que esse é o distúrbio eletrolítico mais comum da prática clínica (Mentrasti e colaboradores, 2020). Os limites exatos variam um pouco entre fontes, mas o conceito é o mesmo.

O sódio baixo não é um achado inocente. Uma metanálise reuniu 81 estudos com 850 222 pacientes, dos quais 17,4 a cada 100 tinham hiponatremia, e mostrou risco relativo de morte de 2,60 em quem tinha sódio baixo (Corona e colaboradores, 2013). Os autores concluíram que mesmo uma redução moderada do sódio se associa a maior risco de morte em várias condições clínicas comuns.

Crônica não quer dizer benigna

A hiponatremia leve e crônica costuma ser tolerada como se não tivesse consequência. Uma revisão sobre hiponatremia e cérebro mostra que a forma crônica se associa a alterações neurológicas sutis, como déficit de atenção, quedas e desequilíbrio da marcha, com risco de queda especialmente marcado em idosos (Gankam Kengne e Decaux, 2018).

Outra revisão chama atenção para o mesmo ponto: a hiponatremia crônica causa distúrbios de marcha e déficits de atenção, mas os médicos muitas vezes a toleram como se fosse benigna (Hoorn e colaboradores, 2009). A paciente do caso, que caiu e fraturou o fêmur, ilustra bem essa ligação.

O problema: hiponatremia mal investigada

O ponto fraco do manejo da hiponatremia costuma estar no diagnóstico, não no tratamento. A revisão de Hoorn e colaboradores afirma que estudos recentes mostram exames diagnósticos insuficientes e manejo inadequado (Hoorn e colaboradores, 2009).

O que mostram os prontuários

Um estudo multicêntrico britânico revisou os prontuários dos primeiros 100 pacientes internados com sódio de 128 mmol/L ou menos em três hospitais (Tzoulis e colaboradores, 2014). Só 23 dos 100 pacientes tinham osmolalidade e sódio pareados no sangue e na urina, e 31 a cada 100 tiveram avaliação da reserva adrenal. A causa da hiponatremia não foi registrada em 58 a cada 100 episódios.

O mesmo estudo mostrou mortalidade hospitalar de 16 a cada 100 e permanência média de 17,5 dias, e 53 dos 84 pacientes que tiveram alta ainda estavam com sódio baixo (Tzoulis e colaboradores, 2014). Sem os exames iniciais, o raciocínio não tem por onde começar.

Esse dado conversa com as lições das sessões de morbimortalidade: muitas vezes, o erro não é de conhecimento, mas de processo, como deixar de colher o exame certo na hora certa.

As diretrizes concordam no caminho

Uma revisão sistemática encontrou dez documentos de orientação sobre hiponatremia, cinco diretrizes e cinco consensos, de qualidade variável (Nagler e colaboradores, 2014). Sete deles traziam recomendações de diagnóstico, e todos usavam a mesma lógica: osmolalidade sérica para confirmar a hiponatremia hipotônica e, depois, volume, sódio urinário e osmolalidade urinária para classificar.

Os documentos divergiam, porém, nos pontos de corte, nos exames adicionais e no momento de iniciar a investigação (Nagler e colaboradores, 2014). O caminho é o mesmo, mas os números podem mudar de uma diretriz para outra, e é preciso saber qual está sendo usada.

Passo 1: a hiponatremia é hipotônica?

O sódio é o principal determinante da osmolalidade plasmática, mas não o único. Antes de procurar a causa, é preciso confirmar que a água está realmente em excesso em relação ao soluto.

Hiponatremia com osmolalidade normal ou alta

O algoritmo britânico de Grant e colaboradores orienta conferir a osmolalidade plasmática e considerar causas de hiponatremia hipertônica, como hiperglicemia ou infusão de manitol, quando ela está acima de 275 mOsm/kg (Grant e colaboradores, 2015). Nesses casos, uma substância osmoticamente ativa puxa água das células para o plasma e dilui o sódio.

Uma revisão sobre o paciente crítico lembra que a hiperglicemia é a situação mais frequente dessa hiponatremia dilucional e que o sódio cai cerca de 2,4 mEq/L para cada 100 mg/dL de aumento da glicose (Overgaard-Steensen e colaboradores, 2013). A mesma revisão cita a pseudo-hiponatremia, um erro de medida incomum em pacientes com hiperlipidemia ou hiperproteinemia.

Por que esse passo vem primeiro

Pular o primeiro passo leva a erros graves. O paciente diabético descompensado com sódio baixo não tem excesso de água para tratar, tem glicose alta para explicar. O raciocínio de probabilidade pré-teste ajuda aqui: em quem tem hiperglicemia, a hipótese de hiponatremia dilucional sobe muito antes de qualquer outro exame.

Placa de Petri de vidro cheia de cristais brancos de cloreto de sódio sobre fundo claro
Cloreto de sódio em placa de Petri. O sódio é o principal determinante da osmolalidade plasmática, mas não o único, e por isso o primeiro passo é confirmar a hipotonicidade. Crédito: Roi.Frvr, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Passo 2: o rim está diluindo a urina?

Confirmada a hiponatremia hipotônica, a pergunta seguinte é sobre o rim. Diante de um plasma diluído, o rim normal deveria produzir urina muito diluída para eliminar o excesso de água.

Osmolalidade urinária baixa

No algoritmo britânico, osmolalidade urinária menor que 100 mOsm/kg aponta para polidipsia primária ou para a chamada potomania do bebedor de cerveja, uma dieta pobre em soluto que reduz a capacidade de eliminar água livre (Grant e colaboradores, 2015). Nessas situações, o rim faz o que deve, mas a entrada de água supera a capacidade de excreção.

A revisão de Mentrasti e colaboradores descreve o mesmo raciocínio: urina com menos de 100 mOsm/kg indica diluição máxima, em geral por ingestão excessiva de água ou cerveja com pouca ingestão de soluto (Mentrasti e colaboradores, 2020). A dieta pobre em proteína, comum em idosos que comem pouco, entra nesse grupo e lembra a síndrome do "chá com torradas" descrita na revisão de Filippatos e colaboradores sobre idosos (Filippatos e colaboradores, 2017).

Osmolalidade urinária acima de 100

Quando a osmolalidade urinária está acima de 100 mOsm/kg, o rim não está diluindo a urina como deveria, e o hormônio antidiurético costuma estar em ação. A revisão de Mentrasti e colaboradores lembra que, nesse cenário, hipotireoidismo, deficiência de glicocorticoide e, principalmente, a síndrome da secreção inapropriada do hormônio antidiurético precisam ser considerados (Mentrasti e colaboradores, 2020).

Passo 3: volume e sódio urinário

A partir daqui, o raciocínio se divide conforme o volume extracelular do paciente e o sódio urinário. É o passo mais difícil, porque a avaliação clínica do volume é imprecisa.

Os três grupos clássicos

A classificação tradicional separa o paciente hipovolêmico, o euvolêmico e o hipervolêmico. No algoritmo britânico, o paciente hipervolêmico tem sinais como edema, pressão venosa jugular elevada, insuficiência ventricular esquerda ou ascite, e o foco é a doença de base, como insuficiência cardíaca ou cirrose (Grant e colaboradores, 2015).

No paciente euvolêmico com osmolalidade plasmática abaixo de 275 mOsm/kg e urinária acima de 100 mOsm/kg, o algoritmo orienta medir o sódio urinário (Grant e colaboradores, 2015). A síndrome da secreção inapropriada é o diagnóstico provável se o sódio urinário for maior que 20 mmol/L, e um valor menor que 20 mmol/L deve levar a reavaliar o volume, porque costuma refletir depleção do volume intravascular.

Passo Pergunta Achado Hipóteses principais
1 A hiponatremia é hipotônica? Osmolalidade plasmática acima de 275 mOsm/kg Hiperglicemia, manitol
2 O rim dilui a urina? Osmolalidade urinária abaixo de 100 mOsm/kg Polidipsia primária, dieta pobre em soluto
3 Como está o volume? Edema, ascite, jugular elevada Insuficiência cardíaca, cirrose
3 Qual o sódio urinário no euvolêmico? Sódio urinário acima de 20 mmol/L Secreção inapropriada do hormônio antidiurético, após excluir outras causas
3 Qual o sódio urinário no euvolêmico? Sódio urinário abaixo de 20 mmol/L Reavaliar volume, depleção intravascular

Fonte da tabela: Grant e colaboradores, 2015.

O volume engana

A avaliação do volume é o elo mais fraco do algoritmo. Uma revisão sobre o paciente crítico afirma que as classificações tradicionais por volume são notoriamente difíceis de usar na prática e que vários mecanismos combinados são comuns (Overgaard-Steensen e colaboradores, 2013). O mesmo paciente pode ter perda de volume e excesso de hormônio antidiurético ao mesmo tempo.

O estudo com idosos internados por fratura mostrou isso na prática: 73 a cada 100 episódios de hiponatremia tinham causa multifatorial (Cumming e colaboradores, 2014). Reconhecer essa sobreposição é parte do raciocínio diante da incerteza diagnóstica.

A síndrome da secreção inapropriada do hormônio antidiurético

A síndrome da secreção inapropriada do hormônio antidiurético, conhecida pela sigla SIADH, é a causa mais lembrada de hiponatremia euvolêmica. Uma revisão sobre inflamação e hiponatremia a descreve como a causa mais comum de hiponatremia euvolêmica (Park e colaboradores, 2013).

Um diagnóstico de exclusão

A revisão de Mentrasti e colaboradores lembra que a SIADH continua sendo um diagnóstico de exclusão, com critérios descritos originalmente por Bartter e Schwartz (Mentrasti e colaboradores, 2020). Os critérios essenciais incluem osmolalidade sérica efetiva menor que 275 mOsm/kg, osmolalidade urinária maior que 100 mOsm/kg, euvolemia clínica, sódio urinário maior que 30 mmol/L com ingestão normal de sal e água, função adrenal, tireoidiana, hipofisária e renal normais e ausência de uso recente de diuréticos.

Entre os critérios auxiliares, a mesma revisão lista ácido úrico sérico menor que 4 mg/dL, ureia sérica menor que 21,6 mg/dL e falha em corrigir a hiponatremia com soro fisiológico (Mentrasti e colaboradores, 2020). Note que o ponto de corte do sódio urinário é de 30 mmol/L nessa revisão e de 20 mmol/L no algoritmo britânico, um exemplo da divergência entre documentos apontada por Nagler e colaboradores.

Não esquecer adrenal e tireoide

Excluir deficiência de glicocorticoide e hipotireoidismo é obrigatório antes de fechar o diagnóstico de SIADH. A revisão sobre idosos insiste nesse ponto e afirma que é preciso atenção especial para excluir endocrinopatias antes de diagnosticar a SIADH nessa população (Filippatos e colaboradores, 2017). No estudo britânico, só 31 a cada 100 pacientes tiveram a reserva adrenal avaliada (Tzoulis e colaboradores, 2014).

Procurar a causa da SIADH

A SIADH não é o fim do raciocínio, é o começo de outro. Ela pode ter origem em tumores, doenças pulmonares, doenças do sistema nervoso, dor, náusea, medicamentos e inflamação. A revisão de Park e colaboradores mostra que citocinas inflamatórias, como interleucina 6 e interleucina 1 beta, participam da liberação de hormônio antidiurético e da hiponatremia em doenças inflamatórias (Park e colaboradores, 2013).

Câmara de gotejamento transparente de um equipo de soro, com tampa branca e conector verde, pendurada diante de uma parede clara
Câmara de gotejamento de equipo. Na avaliação da hiponatremia, a história de líquidos recebidos e a lista de medicamentos fazem parte da investigação. Crédito: Harmid, Domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Um imitador: a perda cerebral de sal

Em pacientes com doenças do sistema nervoso central, um diagnóstico diferencial merece atenção especial. A revisão de Mentrasti e colaboradores descreve a perda cerebral de sal como causa de hiponatremia descrita sobretudo após hemorragia subaracnóidea por aneurisma, mas também após trauma craniano, infecções, tumores cerebrais e cirurgias de hipófise (Mentrasti e colaboradores, 2020).

O mecanismo ainda não está claro, e os autores lembram que distinguir essa condição da SIADH é importante e difícil, porque as condutas são opostas. Para o raciocínio, a pista central está no volume: na perda cerebral de sal, o paciente perde sódio e volume pela urina, enquanto na SIADH o volume está preservado. Mais uma vez, a avaliação do volume, com todas as suas limitações, decide o rumo.

Inflamação como gatilho

A revisão de Park e colaboradores lista várias doenças inflamatórias associadas à hiponatremia, como pneumonia, tuberculose, meningite, encefalite, infecção pelo HIV e malária (Park e colaboradores, 2013). Os autores descrevem que o sódio sérico se correlaciona de forma inversa com a porcentagem de neutrófilos e com a proteína C reativa, e que as interleucinas 6 e 1 beta estão mais altas em pacientes com hiponatremia.

Na prática, isso significa que a hiponatremia de um paciente com pneumonia não é um achado isolado: ela faz parte do quadro inflamatório e deve entrar no raciocínio sobre a gravidade e a evolução da doença de base.

Medicamentos: a causa que está na receita

A lista de medicamentos é parte obrigatória da investigação. Uma revisão sobre hiponatremia induzida por fármacos aponta psicotrópicos, quimioterápicos e diuréticos tiazídicos como as principais causas na prática atual (Kim, 2022).

Mecanismos diferentes, mesmo resultado

A mesma revisão explica que alguns fármacos aumentam a liberação do hormônio antidiurético, enquanto outros, como antipsicóticos, antidepressivos, anticonvulsivantes e tiazídicos, parecem agir por mecanismos dentro do rim, com o hormônio suprimido (Kim, 2022). Para o raciocínio diagnóstico, o efeito é parecido: urina inadequadamente concentrada em um paciente sem outra explicação.

O caso particular dos idosos

A revisão de Filippatos e colaboradores afirma que, em idosos, a hiponatremia é causada principalmente por medicamentos, com destaque para tiazídicos e antidepressivos, pela SIADH ou por endocrinopatias, e que a causa é multifatorial em uma proporção importante dos pacientes (Filippatos e colaboradores, 2017).

Um estudo prospectivo escocês com idosos internados por fratura de fragilidade ilustra esse cenário. Dos 212 pacientes elegíveis, 127 foram incluídos, e a prevalência de hiponatremia na admissão foi de 13,4 a cada 100, com outros 12,6 a cada 100 desenvolvendo hiponatremia durante a internação (Cumming e colaboradores, 2014). A forma hipovolêmica predominou, em 70 a cada 100 episódios.

Os fatores possivelmente causais mais comuns foram diuréticos tiazídicos, em 76 a cada 100 episódios, desidratação, em 70 a cada 100, inibidores de bomba de prótons, em 70 a cada 100, SIADH, em 27 a cada 100, e mirtazapina, em 15 a cada 100 (Cumming e colaboradores, 2014). Os autores concluíram que a SIADH não foi a causa mais comum nesse grupo, ao contrário do que se costuma supor.

Esse resultado é um bom antídoto contra o viés de disponibilidade e outros atalhos: a causa que vem primeiro à cabeça nem sempre é a mais provável na população atendida.

Montando o raciocínio passo a passo

O algoritmo da hiponatremia pode ser resumido em uma sequência que cabe num cartão de bolso.

  1. Confirmar a hiponatremia e checar glicose: a osmolalidade plasmática é baixa?
  2. Se a osmolalidade plasmática não é baixa, pensar em hiperglicemia, manitol ou erro de medida.
  3. Medir a osmolalidade urinária: abaixo de 100 mOsm/kg sugere ingestão excessiva de água ou pouca ingestão de soluto.
  4. Avaliar o volume clinicamente, sabendo que essa avaliação é imprecisa.
  5. Medir o sódio urinário e interpretar à luz do volume e do uso de diuréticos.
  6. No euvolêmico, excluir hipotireoidismo e deficiência de glicocorticoide antes de diagnosticar SIADH.
  7. Revisar todos os medicamentos e procurar a causa de base da SIADH.

Os exames que precisam ser colhidos juntos

O raciocínio depende de exames colhidos ao mesmo tempo: sódio, glicose e osmolalidade no sangue, osmolalidade e sódio na urina. O estudo britânico mostrou que só 23 dos 100 pacientes tinham essas medidas pareadas (Tzoulis e colaboradores, 2014). Registrar os resultados e a hipótese no prontuário evita que a investigação recomece do zero a cada plantão.

Voltando à paciente do caso

A paciente de 79 anos tem sódio de 126 mmol/L, usa um tiazídico e um antidepressivo, come pouco e caiu. O primeiro passo é confirmar que a hiponatremia é hipotônica, com glicose e osmolalidade plasmática. Depois, a osmolalidade urinária mostra se o rim está diluindo a urina, e o sódio urinário, interpretado com cuidado porque ela usa diurético, ajuda a separar perda de volume de SIADH.

Na prática, é provável que a causa seja multifatorial, como no estudo com idosos com fratura, em que tiazídicos e desidratação foram os fatores mais comuns (Cumming e colaboradores, 2014). A ingestão pobre em soluto também pode contribuir. Antes de rotular SIADH, é preciso avaliar a função tireoidiana e a reserva adrenal (Filippatos e colaboradores, 2017).

Três tubos de ensaio com líquidos amarelo, verde e laranja em uma estante de madeira
Tubos de ensaio. Sódio, glicose e osmolalidade no sangue, com osmolalidade e sódio na urina, precisam ser colhidos ao mesmo tempo para o raciocínio funcionar. Crédito: B.Lachner, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Treinar a tomada de decisão clínica e buscar o código certo na CID-10 completam esse treino.

Perguntas frequentes

Por que medir a osmolalidade plasmática se o sódio já está baixo?

Porque nem toda hiponatremia é hipotônica. Na hiperglicemia, por exemplo, o sódio cai pela entrada de água nas células para o plasma, e a osmolalidade não está baixa (Overgaard-Steensen e colaboradores, 2013). O algoritmo começa por essa pergunta para não tratar como excesso de água o que é excesso de glicose (Grant e colaboradores, 2015).

O sódio urinário funciona em quem usa diurético?

Funciona mal. O diurético aumenta o sódio urinário mesmo quando o paciente está com volume baixo, e a ausência de uso recente de diuréticos é um dos critérios essenciais para diagnosticar SIADH (Mentrasti e colaboradores, 2020). Nesses pacientes, o resultado precisa ser interpretado com o contexto.

A SIADH é a causa mais comum de hiponatremia?

Depende da população. Ela é a causa mais comum de hiponatremia euvolêmica (Park e colaboradores, 2013), mas em idosos internados por fratura a SIADH ficou atrás de tiazídicos, desidratação e inibidores de bomba de prótons (Cumming e colaboradores, 2014).

Hiponatremia leve precisa ser investigada?

Precisa. Mesmo a hiponatremia moderada se associa a maior risco de morte (Corona e colaboradores, 2013), e a forma crônica se liga a quedas e alterações de marcha (Gankam Kengne e Decaux, 2018). A investigação da causa é o primeiro passo para decidir o que fazer.

Qual o papel da avaliação clínica do volume?

Ela é necessária, mas imprecisa. Uma revisão sobre o paciente crítico afirma que as classificações por volume são difíceis de aplicar na prática e que vários mecanismos coexistem com frequência (Overgaard-Steensen e colaboradores, 2013). Por isso, o volume deve ser interpretado junto com os exames de sangue e urina.

Take-home messages

  • A hiponatremia é comum, se associa a maior mortalidade e costuma ser mal investigada.
  • A osmolalidade plasmática confirma se a hiponatremia é hipotônica.
  • A osmolalidade urinária mostra se o rim está diluindo a urina.
  • Volume e sódio urinário separam as causas, mas a avaliação do volume é imprecisa.
  • A SIADH é um diagnóstico de exclusão, que exige afastar hipotireoidismo e deficiência de glicocorticoide.
  • Em idosos, medicamentos e causas múltiplas são a regra, não a exceção.

Referências

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  2. Cumming K, Hoyle GE, Hutchison JD, et al. Prevalence, incidence and etiology of hyponatremia in elderly patients with fragility fractures. PLoS One. 2014. PMID 24505459.
  3. Filippatos TD, Makri A, Elisaf MS, et al. Hyponatremia in the elderly: challenges and solutions. Clin Interv Aging. 2017. PMID 29180859.
  4. Gankam Kengne F, Decaux G. Hyponatremia and the Brain. Kidney Int Rep. 2018. PMID 29340311.
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  8. Mentrasti G, Scortichini L, Torniai M, et al. Syndrome of Inappropriate Antidiuretic Hormone Secretion (SIADH): Optimal Management. Ther Clin Risk Manag. 2020. PMID 32801723.
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  10. Overgaard-Steensen C, Ring T. Clinical review: practical approach to hyponatraemia and hypernatraemia in critically ill patients. Crit Care. 2013. PMID 23672688.
  11. Park SJ, Shin JI. Inflammation and hyponatremia: an underrecognized condition? Korean J Pediatr. 2013. PMID 24416046.
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