Hanseníase: mancha sem sensibilidade, diagnóstico e reações

Microscopia de tecido com bacilos álcool-ácido resistentes corados em vermelho pela técnica de Ziehl-Neelsen
Sumário
  1. Por que a mancha sem sensibilidade é um cenário de raciocínio
  2. Os três sinais cardinais
  3. Como testar a sensibilidade e palpar nervos
  4. Baciloscopia e biópsia: quando ajudam
  5. Paucibacilar ou multibacilar
  6. O tratamento com poliquimioterapia
  7. Reações hansênicas: tipo 1 e tipo 2
  8. Corticoide, nervo e acompanhamento
  9. Contatos, profilaxia e estigma
  10. Fora da zona endêmica: o atraso no diagnóstico
  11. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  12. Perguntas frequentes
  13. Checklist final
  14. Referências

Numa unidade básica de saúde, uma mulher de trinta e poucos anos vem por causa de uma mancha clara no antebraço que apareceu há alguns meses. Diz que não coça nem dói, e que já usou duas pomadas para micose sem melhora. Conta também que, de vez em quando, sente formigamento na mão do mesmo lado e que se queimou no fogão sem perceber. A primeira reação de quem atende pode ser pensar em mais uma micose de pele e trocar a pomada. A cena é fictícia e foi escrita para ensino. Este texto usa esse quadro como cenário de raciocínio clínico: por que uma mancha sem sensibilidade muda tudo, como testar a sensibilidade e palpar nervos, como classificar e tratar a hanseníase e como reconhecer as reações que podem aparecer antes, durante ou depois do tratamento.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

O texto não é um protocolo de tratamento. Esquemas, doses, notificação e acompanhamento seguem diretrizes nacionais e o treinamento de cada serviço. O interesse aqui é o raciocínio: por que um exame simples, feito com um pedaço de algodão, pode decidir o diagnóstico e por que a piora durante o tratamento nem sempre significa falha. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o movimento: uma pista que parece pequena pode mudar a hipótese inteira.

Principais pontos

  • O diagnóstico da hanseníase é clínico e se apoia em pelo menos um de três sinais cardinais.
  • O sinal mais útil na prática é a perda definida de sensibilidade numa mancha clara ou avermelhada.
  • A classificação em paucibacilar ou multibacilar orienta a duração do tratamento com três fármacos.
  • As reações tipo 1 e tipo 2 são inflamatórias, podem lesar nervos e pedem tratamento rápido, sem suspender a poliquimioterapia.
  • O exame dos contatos e a profilaxia com dose única de rifampicina ajudam a interromper a transmissão.

Por que a mancha sem sensibilidade é um cenário de raciocínio

A hanseníase é uma infecção crônica causada principalmente pelo Mycobacterium leprae, que afeta a pele e os nervos periféricos. É curável, mas o atraso no diagnóstico permite que o dano neural avance e deixe incapacidades. Maymone e colaboradores revisaram os aspectos clínicos e as técnicas diagnósticas e lembraram que a doença tem um espectro amplo de apresentações, o que facilita confusões com outras doenças de pele (Maymone e colaboradores, 2020).

A diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2018 sobre diagnóstico, tratamento e prevenção da hanseníase é a referência usada neste texto (Organização Mundial da Saúde, 2018). Ela reforça um ponto central: o diagnóstico pode ser feito com exame clínico, com ou sem exames laboratoriais.

O que a cena ensina

A cena tem três pistas. A primeira é a mancha que não coça e não responde a antifúngicos, o que já deveria levantar dúvidas sobre micose. A segunda é o formigamento na mão do mesmo lado, que sugere envolvimento de nervo. A terceira é a queimadura sem dor, sinal de perda de sensibilidade. Separadas, cada pista parece pequena. Juntas, apontam para uma doença que afeta pele e nervo ao mesmo tempo.

O post sobre diagnóstico diferencial mostra como pistas pequenas mudam a ordem das hipóteses.

Os três sinais cardinais

A diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2018 define o diagnóstico pela presença de pelo menos um de três sinais cardinais (Organização Mundial da Saúde, 2018):

  • perda definida de sensibilidade numa mancha clara ou avermelhada da pele;
  • nervo periférico espessado, com perda de sensibilidade ou fraqueza nos músculos que ele inerva;
  • bacilos álcool-ácido resistentes no esfregaço de raspado da pele.

O primeiro sinal é o mais acessível. Uma mancha hipocrômica ou eritematosa com sensibilidade claramente diminuída é muito sugestiva, especialmente em quem vive ou viveu em área onde a doença é comum. O segundo sinal pede treino de palpação. O terceiro depende de laboratório, que nem sempre está disponível.

Mancha, sim, mas qual mancha

Muitas doenças causam manchas claras: pitiríase versicolor, pitiríase alba, vitiligo, eczemas e cicatrizes. O que diferencia a hanseníase é a perda de sensibilidade dentro da lesão. Por isso, diante de qualquer mancha clara de evolução lenta, testar a sensibilidade é um gesto que vale a pena.

Um espectro, não uma doença única

A apresentação depende da resposta imune de cada pessoa. Num extremo, a forma tuberculoide tem poucas lesões bem delimitadas, com perda de sensibilidade marcada e poucos bacilos. No outro, a forma lepromatosa tem muitas lesões, às vezes discretas e simétricas, com muitos bacilos e envolvimento difuso de nervos. Entre os dois ficam as formas borderline, mais instáveis e mais sujeitas a reações. A forma indeterminada, inicial, pode ser apenas uma mancha clara com alteração leve de sensibilidade.

Esse espectro explica por que a hanseníase engana. Uma lesão única e bem delimitada pode lembrar micose ou eczema. Lesões múltiplas e infiltradas podem lembrar outras doenças granulomatosas ou linfomas de pele. Nas formas lepromatosas, a perda de sensibilidade nas lesões pode ser menos evidente, e o espessamento de nervos ganha peso.

Corte histológico de pele com pequenos grupos de bacilos corados em vermelho junto a fibras musculares
Biópsia de pele de hanseníase indeterminada, com pequenos grupos de bacilos álcool-ácido resistentes corados em vermelho. Nas formas com poucos bacilos, encontrá-los exige atenção, e o diagnóstico continua sendo principalmente clínico. Crédito: SB Lucas, Wellcome Collection, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Como testar a sensibilidade e palpar nervos

O teste de sensibilidade é simples, mas precisa de método. Explique o que vai fazer, mostre o estímulo numa área normal e peça que a pessoa feche os olhos. Toque a lesão e a pele normal em ordem variada, com uma ponta de algodão, e peça que ela aponte onde sentiu. Compare sempre com a pele ao redor e com o lado oposto.

Sensibilidade térmica e dolorosa costumam ser perdidas antes da tátil. Quando há recursos, monofilamentos de diferentes calibres ajudam a graduar a perda, sobretudo nas mãos e nos pés. Um teste negativo numa lesão pequena da face pode ser menos confiável, porque a face tem sensibilidade muito rica.

Palpar os nervos que importam

Os nervos mais examinados são o ulnar no cotovelo, o mediano no punho, o radial superficial, o fibular comum atrás da cabeça da fíbula, o tibial posterior atrás do maléolo medial e o auricular magno no pescoço. Compare os dois lados, observando espessamento, dor à palpação e consistência. Teste também a força de músculos das mãos, dos pés e do fechamento das pálpebras.

Na cena, o formigamento na mão sugere palpar o nervo ulnar e o mediano e testar a força dos dedos. O registro desses achados no início do tratamento é importante, porque permite perceber depois qualquer piora. O post sobre sinais, sintomas e história mostra como o exame dirigido completa o que a pessoa relata.

Olhos, mãos e pés

O exame não termina na pele e nos nervos. Vale observar o fechamento completo das pálpebras, a sensibilidade da córnea quando houver treino para isso e a presença de olho vermelho ou ressecado. Nas mãos e nos pés, procure calosidades, feridas, garras nos dedos e áreas de pele seca, sinais de que nervos sensitivos e autonômicos já foram atingidos. A revisão de Gupta e colaboradores lembra que o dano neural é a principal fonte de incapacidade na hanseníase (Gupta e colaboradores, 2026).

Esses achados mudam a conversa com a pessoa. Quem perdeu sensibilidade nos pés precisa examiná-los todos os dias, usar calçados adequados e procurar o serviço diante de qualquer ferida. Quem tem dificuldade para fechar os olhos precisa de proteção ocular. O exame inicial completo é a base dessa rotina de autocuidado e permite comparar a função neural em cada retorno.

Baciloscopia e biópsia: quando ajudam

O raspado intradérmico corado pelo método de Ziehl-Neelsen procura bacilos álcool-ácido resistentes. Quando positivo, confirma o diagnóstico e classifica o caso como multibacilar. Quando negativo, não descarta a doença, porque muitas formas têm poucos bacilos. A diretriz lembra que o diagnóstico continua sendo clínico, com ou sem baciloscopia e biópsia (Organização Mundial da Saúde, 2018).

A biópsia ajuda em casos duvidosos, como lesões sem perda clara de sensibilidade ou quadros que imitam outras doenças. O exame histológico pode mostrar granulomas ao redor de nervos e anexos da pele, além de bacilos.

O que a diretriz não recomenda

A diretriz não recomenda testes para infecção latente em contatos. Isso significa que, na prática, o exame clínico cuidadoso dos contatos continua sendo a principal ferramenta para encontrar casos novos. O post sobre probabilidade pré-teste explica por que um exame negativo pesa diferente conforme a suspeita inicial.

Corte histológico de pele com linfócitos ao redor de glândulas sudoríparas, corado em rosa e roxo
Biópsia de pele de hanseníase indeterminada, com linfócitos ao redor de glândulas sudoríparas. O infiltrado em torno de anexos e nervos ajuda a explicar a perda de sensibilidade e de suor nas lesões. Crédito: SB Lucas, Wellcome Collection, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Paucibacilar ou multibacilar

A classificação operacional da diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2018 usa critérios simples, pensados para serviços sem laboratório (Organização Mundial da Saúde, 2018). Ela decide a duração do tratamento.

Classificação Critérios Tratamento indicado na diretriz
Paucibacilar Uma a cinco lesões de pele, sem nervo acometido e com baciloscopia negativa Rifampicina, dapsona e clofazimina por seis meses
Multibacilar Mais de cinco lesões, ou envolvimento de nervo, ou baciloscopia positiva Rifampicina, dapsona e clofazimina por doze meses
Resistência à rifampicina Confirmada por exame específico Esquema alternativo de vinte e quatro meses, em serviço de referência

Na dúvida, multibacilar

Quando a classificação é incerta, o caso costuma ser tratado como multibacilar, porque o risco de tratar pouco é maior que o de tratar por mais tempo. Na cena, o formigamento na mão sugere envolvimento neural, o que já colocaria a paciente no grupo multibacilar, mesmo com uma única mancha.

O tratamento com poliquimioterapia

A diretriz de 2018 recomenda os mesmos três fármacos para as duas formas: rifampicina, dapsona e clofazimina. A diferença está na duração, seis meses para a forma paucibacilar e doze para a multibacilar (Organização Mundial da Saúde, 2018). As doses seguem o protocolo nacional e variam conforme idade e peso.

Explicar o tratamento é parte do cuidado. A clofazimina pode escurecer a pele, o que preocupa muitos pacientes e pode levar ao abandono se não for explicado antes. A dapsona exige atenção a anemia e a reações de hipersensibilidade. A rifampicina muda a cor da urina. Saber o que esperar ajuda a pessoa a seguir o tratamento até o fim.

Seguir até o fim

Doze meses é bastante tempo, e a adesão pode cair ao longo do tratamento, principalmente quando as manchas melhoram ou quando surgem efeitos que a pessoa não esperava. Combinar retornos regulares, revisar as dúvidas a cada consulta e lembrar que as lesões de pele podem demorar a sumir mesmo com a infecção curada ajuda a evitar o abandono. A melhora visual não é o marcador do fim do tratamento: o que define a alta é completar o esquema indicado.

Curar a infecção e proteger o nervo

O tratamento elimina o bacilo, mas o cuidado não termina aí. Nervos lesados podem não se recuperar, e a pessoa precisa aprender a proteger mãos, pés e olhos. Exames periódicos da função neural, orientação sobre autocuidado e calçados adequados fazem parte do acompanhamento. O post sobre raciocínio prognóstico discute como pensar no que vem depois do diagnóstico.

Reações hansênicas: tipo 1 e tipo 2

As reações são episódios inflamatórios agudos causados pela resposta imune ao bacilo. Podem aparecer antes do diagnóstico, durante o tratamento ou depois da alta. Gupta e colaboradores revisaram os tipos, os mecanismos e o manejo (Gupta e colaboradores, 2026).

A reação tipo 1, também chamada reação reversa, aparece sobretudo nas formas borderline. As lesões antigas ficam mais vermelhas, inchadas e às vezes dolorosas, e pode haver neurite, com dor no trajeto do nervo e perda de força ou sensibilidade. Costuma surgir nos primeiros meses de tratamento. Walker e Lockwood destacaram que a reação tipo 1 é uma causa importante de perda da função neural, que pode levar a incapacidade e deformidade, e que não há consenso sobre a dose ou a duração ideais do corticoide (Walker e Lockwood, 2008).

A reação tipo 2, ou eritema nodoso hansênico, aparece nas formas lepromatosa e borderline lepromatosa. Surgem nódulos novos, dolorosos, com febre, mal-estar e às vezes inflamação de olhos, articulações, testículos ou nervos. A revisão de Gupta e colaboradores lembra que ela precisa ser distinguida do eritema nodoso de outras causas, e descreve também o fenômeno de Lúcio, uma forma rara e grave.

Piora não é falha do tratamento

Uma armadilha comum é interpretar a reação como falha da poliquimioterapia ou como alergia aos remédios. A revisão reforça que a poliquimioterapia deve ser iniciada ou mantida durante a reação (Gupta e colaboradores, 2026). Croskerry descreveu como interpretações apressadas levam a erros de diagnóstico (Croskerry, 2003). Na hanseníase, suspender o tratamento por engano pode prolongar a doença e não resolve a inflamação.

Quando a reação é o primeiro sinal

A revisão de Gupta e colaboradores lembra que, em muitos pacientes, a reação é a primeira manifestação da hanseníase (Gupta e colaboradores, 2026). Uma pessoa pode chegar com nódulos dolorosos e febre, ou com lesões de pele que incharam de repente e dor forte num nervo, sem diagnóstico prévio. Nesses casos, reconhecer a reação abre caminho para o diagnóstico da doença de base. Os autores reforçam que identificar e tratar cedo é o que evita deformidades e incapacidades.

Corticoide, nervo e acompanhamento

Os corticoides são a base do tratamento das reações tipo 1 graves e da neurite. A revisão de Gupta e colaboradores cita o esquema da Organização Mundial da Saúde com prednisolona em doses decrescentes ao longo de várias semanas, e lembra a importância de repouso e imobilização do membro afetado durante a neurite. As doses seguem o protocolo nacional.

As evidências sobre o benefício a longo prazo são limitadas. Uma revisão Cochrane de Van Veen e colaboradores não encontrou diferença significativa na melhora da função neural depois de doze meses entre prednisolona e placebo, em ensaios com perda sensitiva leve recente ou com comprometimento neural de alguns meses a dois anos (Van Veen e colaboradores, 2016). Isso reforça a importância de reconhecer as reações cedo e de acompanhar de perto a função neural.

Atenção aos efeitos adversos

O uso prolongado de corticoide tem riscos. Lun e colaboradores revisaram os efeitos adversos em pessoas com hanseníase e encontraram alterações metabólicas como as mais frequentes, seguidas por infecções, que responderam pela maior parte das mortes associadas ao corticoide, com destaque para a tuberculose (Lun e colaboradores, 2026). Pesquisar tuberculose, parasitoses e diabetes antes e durante o uso faz parte do cuidado.

Para a reação tipo 2, a talidomida é uma opção em alguns países, mas não deve ser usada em mulheres em idade fértil por causa do risco para o feto, como lembra a revisão de Gupta e colaboradores. A clofazimina também pode ajudar em reações recorrentes.

Contatos, profilaxia e estigma

Pessoas que convivem com quem tem hanseníase têm risco maior de adoecer. O exame dos contatos encontra casos cedo, quando ainda não há incapacidade. A diretriz de 2018 recomenda dose única de rifampicina para contatos a partir de dois anos de idade, depois de excluir hanseníase e tuberculose, e apenas com o consentimento do paciente para revelar o diagnóstico (Organização Mundial da Saúde, 2018). A mesma diretriz lembra que a vacina BCG ao nascer tem efeito protetor.

O ensaio COLEP, de Moet e colaboradores, mostrou que a dose única de rifampicina reduziu em pouco mais da metade a ocorrência de hanseníase entre contatos próximos nos dois primeiros anos (Moet e colaboradores, 2008). O programa LPEP, de Richardus e colaboradores, mostrou que a estratégia é segura e viável em serviços de rotina de vários países (Richardus e colaboradores, 2021).

Como examinar um contato

O exame de um contato segue o mesmo roteiro do caso índice: inspeção de toda a pele em boa luz, teste de sensibilidade de qualquer mancha suspeita, palpação dos nervos e teste de força. Perguntar sobre dormência, formigamento, feridas sem dor e fraqueza nas mãos completa a avaliação. Quando nada é encontrado, a orientação sobre sinais de alerta e o convite para voltar se algo aparecer fazem parte do cuidado, porque a doença pode surgir anos depois. A diretriz também lembra que a profilaxia só deve ser implantada onde os contatos possam ser examinados e acompanhados de forma adequada.

O consentimento protege contra o estigma

A hanseníase ainda carrega estigma em muitos lugares. Por isso, a diretriz condiciona a abordagem dos contatos ao consentimento de quem está doente. Conversar sobre quem será informado, como e quando, é parte do raciocínio clínico tanto quanto escolher o esquema de tratamento. O post sobre empatia e raciocínio clínico discute como a escuta ajuda nessas conversas.

Fora da zona endêmica: o atraso no diagnóstico

Em lugares onde a hanseníase é rara, o diagnóstico costuma ser mais difícil. Lockwood e colaboradores descreveram os pacientes atendidos num centro nacional de referência em Londres ao longo de mais de duas décadas. A maioria adquiriu a infecção antes de migrar, os sintomas apareceram em média alguns anos depois da chegada e houve casos em que o diagnóstico levou até vinte anos. Os dermatologistas foram os especialistas que mais fizeram o diagnóstico. Os autores concluem que a hanseníase não é uma doença de viajantes, e sim de quem viveu em área endêmica, e que os clínicos precisam reconhecer seus sinais (Lockwood e colaboradores, 2022).

O período de incubação longo explica parte do problema. A doença pode aparecer anos depois de a pessoa deixar a área endêmica, e a pergunta sobre onde ela viveu nem sempre é feita. Uma história de migração, uma mancha que não melhora e uma queixa neurológica vaga formam uma combinação que merece atenção em qualquer lugar.

A taxa básica muda a suspeita

A frequência da doença no lugar de origem muda a probabilidade antes do exame. O post sobre taxa básica no diagnóstico mostra como esse dado altera o raciocínio, e o post sobre a pausa diagnóstica sugere um momento para perguntar o que pode estar faltando antes de trocar a pomada mais uma vez.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas. Você propõe um diagnóstico buscando o código na CID-10 e recebe um retorno de proximidade em cinco níveis, que mostra se o palpite ficou no código exato, na mesma categoria, no mesmo grupo, no mesmo capítulo ou em outro capítulo. Esse formato conversa com o tema deste texto: uma pista neurológica pode mudar o capítulo de uma lesão de pele.

Para usar o caso do dia como treino, experimente três hábitos. Antes de cada palpite, pergunte se a lesão de pele tem relação com algum nervo. Quando o quadro piorar durante um tratamento, pergunte se é falha ou reação. Depois do resultado, anote qual pista teria antecipado o diagnóstico.

Três exercícios com casos

Teste a sensibilidade mentalmente. Diante de uma mancha, pergunte o que mudaria se ela não tivesse sensibilidade.

Pergunte de onde a pessoa vem. Liste as doenças cuja suspeita muda com a história de migração.

Separe piora de falha. Em casos com piora durante o tratamento, liste as explicações inflamatórias antes de concluir que o remédio falhou.

O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos mostra como casos ajudam a fixar padrões que raramente aparecem na prática diária.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

O diagnóstico de hanseníase pode ser só clínico?

Sim. A diretriz da Organização Mundial da Saúde aceita o diagnóstico com base nos sinais cardinais, com ou sem baciloscopia e biópsia.

Qual é o sinal mais útil na prática?

A perda definida de sensibilidade numa mancha clara ou avermelhada, testada com método e comparada à pele normal.

A hanseníase tem cura?

Sim. A poliquimioterapia com três fármacos cura a infecção, em seis meses na forma paucibacilar e em doze na multibacilar.

A poliquimioterapia continua durante uma reação?

Sim. A recomendação é iniciar ou manter o tratamento e tratar a reação ao mesmo tempo.

Os contatos podem receber profilaxia?

Sim. A diretriz recomenda dose única de rifampicina para contatos a partir de dois anos, depois de excluir hanseníase e tuberculose e com consentimento do paciente.

A doença pode aparecer anos depois de sair da área endêmica?

Sim. O período de incubação é longo, por isso a história de onde a pessoa viveu é sempre importante.

Checklist final

  • Testei a sensibilidade da mancha e comparei com a pele normal.
  • Palpei os principais nervos e testei força de mãos, pés e pálpebras.
  • Perguntei onde a pessoa nasceu e viveu.
  • Classifiquei como paucibacilar ou multibacilar e, na dúvida, como multibacilar.
  • Expliquei os efeitos esperados dos três fármacos.
  • Orientei sobre sinais de reação e a necessidade de voltar logo.
  • Registrei a função neural no início e em cada retorno.
  • Conversei sobre os contatos com consentimento do paciente.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Croskerry P. The importance of cognitive errors in diagnosis and strategies to minimize them. Acad Med. 2003. PMID 12915363.
  2. Gupta B, Singh M, Goldust M, et al. Reactions in leprosy: updated insights into pathophysiology, clinical spectrum, and therapeutic approaches. A narrative review. Health Sci Rep. 2026. PMID 42157916.
  3. Lockwood DN, McIntosh A, Armstrong M, et al. Diagnosing and treating leprosy in a non-endemic setting in a national centre, London, United Kingdom 1995-2018. PLoS Negl Trop Dis. 2022. PMID 36264976.
  4. Lun AI, de Barros B, Walker SL. A systematic review of adverse effects associated with systemic corticosteroids in the management of leprosy. PLoS Negl Trop Dis. 2026. PMID 41886473.
  5. Maymone MBC, Laughter M, Venkatesh S, et al. Leprosy: clinical aspects and diagnostic techniques. J Am Acad Dermatol. 2020. PMID 32229279.
  6. Moet FJ, Pahan D, Oskam L, Richardus JH. Effectiveness of single dose rifampicin in preventing leprosy in close contacts of patients with newly diagnosed leprosy: cluster randomised controlled trial. BMJ. 2008. PMID 18332051.
  7. Organização Mundial da Saúde. Guidelines for the diagnosis, treatment and prevention of leprosy. 2018. Documento.
  8. Richardus JH, Tiwari A, Barth-Jaeggi T, et al. Leprosy post-exposure prophylaxis with single-dose rifampicin (LPEP): an international feasibility programme. Lancet Glob Health. 2021. PMID 33129378.
  9. Van Veen NH, Nicholls PG, Smith WC, Richardus JH. Corticosteroids for treating nerve damage in leprosy. Cochrane Database Syst Rev. 2016. PMID 27210895.
  10. Walker SL, Lockwood DN. Leprosy type 1 (reversal) reactions and their management. Lepr Rev. 2008. PMID 19274984.

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