Enfortumabe e pembrolizumabe no câncer urotelial avançado

Mãos fixando um acesso venoso no antebraço de paciente para infusão
Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. O carcinoma urotelial avançado e a nectina-4
  3. Como age o enfortumabe vedotina
  4. Situação regulatória: FDA e EMA
  5. O que mostraram os estudos
  6. Da seleção ao acompanhamento
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Checklist final
  10. Referências

Um homem de 68 anos chega à consulta de oncologia com carcinoma urotelial da bexiga com metástases em linfonodos e nos pulmões. Ele não recebeu tratamento sistêmico para a doença avançada. Tem diabetes tipo 2 há doze anos, usa metformina, e a última hemoglobina glicada foi de 7,4 por cento. A depuração de creatinina estimada é de 52 mL/min, e ele relata dormência leve nos dedos dos pés, sem limitar a marcha. Está ativo, cuida da casa e caminha todos os dias. A filha pergunta se existe algo melhor que a quimioterapia que o pai do vizinho fez há alguns anos. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para estudantes e profissionais de saúde. Ele trata do enfortumabe vedotina com pembrolizumabe, a combinação que passou a ser a primeira linha do carcinoma urotelial localmente avançado ou metastático. O texto explica o alvo, os estudos, a situação na FDA e na EMA, a dose da bula americana e a vigilância de pele, glicemia, nervos, pulmões, olhos e eventos imunes. Ele não substitui o protocolo da sua instituição nem a bula local. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: decidir com pistas que chegam em sequência.

Principais pontos

  • O enfortumabe vedotina (nome comercial Padcev) é um conjugado de anticorpo contra a nectina-4 com o agente antimicrotúbulo MMAE.
  • No estudo EV-302, a combinação com pembrolizumabe levou a mediana de sobrevida global a 31,5 meses, contra 16,1 meses com quimioterapia com platina.
  • A dose americana é de 1,25 mg/kg, até 125 mg, nos dias 1 e 8 de ciclos de 21 dias, antes do pembrolizumabe.
  • A bula americana traz advertência em tarja preta sobre reações graves de pele, incluindo síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica.
  • Hiperglicemia, neuropatia periférica, pneumonite, toxicidade ocular e eventos imunes pedem vigilância desde o primeiro ciclo.
  • As datas regulatórias deste texto foram conferidas na FDA e na EMA em 24 de outubro de 2026.

Por que este é um cenário de raciocínio

Durante décadas, a primeira linha do carcinoma urotelial metastático foi a quimioterapia com platina. O artigo do estudo CheckMate 901 lembra que a quimioterapia com cisplatina dá resposta em mais de 40 por cento dos pacientes, com mediana de sobrevida global de cerca de 15 meses, mas respostas duradouras são incomuns (van der Heijden e colaboradores, 2023). O mesmo artigo lembra que a manutenção com avelumabe é padrão para quem não progride durante ou logo depois da quimioterapia (van der Heijden e colaboradores, 2023). A chegada do enfortumabe vedotina com pembrolizumabe mudou essa ordem, e isso exige que o clínico reveja hábitos antigos.

O cenário é bom para treino porque a decisão tem três camadas. A primeira é escolher o esquema certo para a doença. A segunda é ler o paciente: diabetes, função renal e uma neuropatia leve que já existe. A terceira é montar um plano de vigilância que encontre cedo a toxicidade de pele, glicemia e nervos. O post sobre sinais, sintomas e história ajuda a registrar a dormência dos pés antes de começar, e o post sobre tomada de decisão clínica lembra que cada exame pedido precisa mudar uma decisão.

O que a cena ensina

A cena treina seis hábitos. O primeiro é definir se o paciente é elegível ou não para cisplatina. O segundo é medir a hemoglobina glicada e combinar o controle da glicemia. O terceiro é graduar a neuropatia de base. O quarto é examinar a pele e os olhos antes do primeiro ciclo. O quinto é explicar à família quais sintomas exigem contato no mesmo dia. O sexto é saber que a combinação junta a toxicidade de um conjugado de anticorpo com a de um inibidor de ponto de controle imune.

O que não está em jogo

O texto não discute o tratamento da doença localizada, a cirurgia, a radioterapia nem as terapias de segunda linha em detalhe. Também não compara preços nem acesso. O post sobre incerteza diagnóstica ajuda a explicar à família o que a mediana de sobrevida significa e o que ela não promete para um paciente em particular.

Elegível ou não para cisplatina

A bula americana define inelegibilidade para cisplatina por pelo menos um destes critérios: depuração de creatinina abaixo de 60 mL/min, estado funcional ECOG 2 ou pior, perda auditiva de grau 2 ou mais, insuficiência cardíaca classe III ou IV da NYHA ou neuropatia periférica de grau 2 ou mais (bula americana do Padcev, 07/2026). O homem da cena tem depuração de 52 mL/min e, portanto, seria inelegível para cisplatina. Na primeira linha, porém, a combinação está indicada para o carcinoma urotelial localmente avançado ou metastático com ou sem elegibilidade para cisplatina (bula americana do Padcev, 07/2026).

O carcinoma urotelial avançado e a nectina-4

Uma doença de pessoas mais velhas

No EV-302, a mediana de idade foi de 69 anos, 46 por cento dos pacientes eram inelegíveis para cisplatina, 72 por cento tinham metástases viscerais e 22 por cento tinham metástases no fígado (bula americana do Padcev, 07/2026). É um perfil parecido com o do homem da cena. No estudo EV-301, de segunda linha, a mediana de idade foi de 68 anos e 77,3 por cento eram homens (Powles e colaboradores, 2021). Uma coorte japonesa de vida real com a combinação em primeira linha teve mediana de idade de 75 anos (Hara e colaboradores, 2026).

O que é a nectina-4

A nectina-4 é uma proteína de adesão celular. Uma revisão de 2025 resume que, no câncer de bexiga, 83 por cento dos pacientes têm alguma expressão, 60 por cento têm expressão moderada a alta e 31 por cento têm expressão alta (Nikanjam e colaboradores, 2025). A mesma revisão lembra que a proteína pode estar na membrana ou no citoplasma (Nikanjam e colaboradores, 2025). Isso importa porque o conjugado precisa se ligar à proteína da superfície para entrar na célula.

Quando a expressão muda

Um estudo alemão avaliou 137 tumores primários com metástases correspondentes e encontrou nectina-4 negativa em 19,7 por cento dos tumores primários (Klümper e colaboradores, 2023). Nas metástases, a proporção negativa foi de 39,4 por cento (Klümper e colaboradores, 2023). Os autores propõem biópsia da metástase para avaliar a nectina-4 de membrana antes do enfortumabe vedotina e pedem estudos estratificados por biomarcador (Klümper e colaboradores, 2023). Hoje, a bula americana não traz exigência de teste de nectina-4 entre as condições de uso (bula americana do Padcev, 07/2026). O post sobre diagnóstico diferencial ajuda a lembrar que uma resposta ruim pode ter várias explicações, inclusive a biologia do alvo.

Imagem de microscopia de tecido rosado com feixes de músculo e pequenos ninhos de células tumorais entre eles
Carcinoma urotelial invadindo o músculo detrusor da bexiga em microscopia óptica. A doença que invade o músculo pode evoluir para metástases. Foto: Mikael Häggström, M.D., Wikimedia Commons, CC0.

Como age o enfortumabe vedotina

A bula descreve o enfortumabe vedotina como um conjugado de um anticorpo humano contra a nectina-4, uma proteína de adesão da superfície das células, com o MMAE, um inibidor de microtúbulo (bula americana do Padcev, 07/2026). A EMA resume que o anticorpo se liga a essa proteína para entrar na célula do câncer, e que dentro dela o MMAE desmonta o esqueleto interno da célula e causa sua morte (EMA, página do Padcev). O pembrolizumabe é um anticorpo que bloqueia o receptor PD-1 e impede que o tumor desligue células do sistema imune (EMA, página do Keytruda). Na combinação, um agente mata células diretamente e o outro solta o freio do sistema imune.

Por que a toxicidade é tão típica

Uma revisão sobre a toxicidade dos conjugados aprovados lembra que os agentes que lesam o DNA têm mais toxicidade no sangue e no fígado, enquanto os inibidores de microtúbulo, como as auristatinas, dão mais neuropatia periférica e toxicidade ocular (Ballestín e colaboradores, 2025). O MMAE é uma auristatina. A nectina-4 também existe nos queratinócitos da epiderme e nos anexos da pele, o que ajuda a entender por que as reações cutâneas são tão frequentes (Lacouture e colaboradores, 2022). Uma revisão sobre eventos de pele lembra que eles surgem em geral no primeiro ciclo, como pápulas vermelhas, descamativas e com coceira, principalmente em dobras, regiões de flexão e extremidades (Lacouture e colaboradores, 2022).

O que vem do pembrolizumabe

Uma revisão sobre o manejo de eventos adversos da combinação lembra que os dois agentes contribuem para reações de pele, pneumonite e diarreia, o que torna a atribuição mais difícil (Brower e colaboradores, 2024). Por isso, a vigilância precisa considerar também os eventos imunes do pembrolizumabe. A mesma revisão lembra, por exemplo, que fadiga pode vir de insuficiência adrenal, hipofisite ou hipotireoidismo, e não só do conjugado (Brower e colaboradores, 2024). O post sobre raciocínio clínico interprofissional mostra como oncologia, enfermagem, farmácia e endocrinologia podem dividir essa vigilância.

Situação regulatória: FDA e EMA

FDA

Segundo o Drugs@FDA, o Padcev, BLA 761137, foi aprovado nos Estados Unidos em 18 de dezembro de 2019, com aprovação acelerada (Drugs@FDA, BLA 761137). Em 3 de abril de 2023, o suplemento 18 trouxe a aprovação acelerada da combinação com pembrolizumabe para quem não podia receber cisplatina (Drugs@FDA, BLA 761137). Em 15 de dezembro de 2023, os suplementos 24 e 25 foram aprovados, um classificado como nova população de pacientes e o outro ligado à aprovação acelerada anterior (Drugs@FDA, BLA 761137). Desde então, a bula indica a combinação para todos os adultos com carcinoma urotelial localmente avançado ou metastático (bula americana do Padcev, 07/2026). Em 21 de novembro de 2025, a FDA aprovou o uso da combinação antes e depois da cistectomia no câncer de bexiga que invade o músculo, para quem não pode receber cisplatina (carta da FDA de 21/11/2025). Em 10 de julho de 2026, o suplemento 37 ampliou esse uso para adultos com câncer de bexiga que invade o músculo, com pembrolizumabe ou pembrolizumabe com berahialuronidase alfa (carta da FDA de 10/07/2026). A bula consultada é a revisão de 07/2026 (bula americana do Padcev, 07/2026).

O Keytruda, BLA 125514, foi aprovado nos Estados Unidos em 4 de setembro de 2014 (Drugs@FDA, BLA 125514). O registro tem muitos suplementos, e o mais recente listado na consulta é de 16 de outubro de 2026 (Drugs@FDA, BLA 125514).

EMA

Na União Europeia, o Padcev recebeu parecer favorável em 24 de fevereiro de 2022 e autorização em 13 de abril de 2022 (EMA, página do Padcev). A página da EMA lista três usos: monoterapia depois de platina e de inibidor de PD-1 ou PD-L1, primeira linha com pembrolizumabe na doença irressecável ou metastática, e uso antes e depois da cirurgia com pembrolizumabe no câncer que invade o músculo, quando a cisplatina não serve (EMA, página do Padcev). A página foi atualizada em 22 de julho de 2026 (EMA, página do Padcev).

O Keytruda recebeu parecer favorável em 20 de maio de 2015 e autorização em 17 de julho de 2015, e a página lista o carcinoma urotelial entre as indicações (EMA, página do Keytruda). A página foi atualizada em 3 de setembro de 2026 (EMA, página do Keytruda).

A tabela resume as datas.

MedicamentoAgênciaEventoDataFonte
PadcevFDAAprovação acelerada inicial, BLA 76113718/12/2019(Drugs@FDA, BLA 761137)
PadcevFDACombinação com pembrolizumabe para todos os adultos com doença avançada, suplemento 2415/12/2023(Drugs@FDA, BLA 761137)
PadcevFDACâncer que invade o músculo, inelegíveis para cisplatina, suplemento 3221/11/2025(carta da FDA de 21/11/2025)
PadcevFDACâncer que invade o músculo, todos os adultos, suplemento 3710/07/2026(carta da FDA de 10/07/2026)
PadcevEMAAutorização na União Europeia13/04/2022(EMA, página do Padcev)
KeytrudaFDAAprovação inicial, BLA 12551404/09/2014(Drugs@FDA, BLA 125514)
KeytrudaEMAAutorização na União Europeia17/07/2015(EMA, página do Keytruda)

O que mostraram os estudos

EV-301, a prova em segunda linha

O EV-301 randomizou 608 pacientes já tratados com platina e inibidor de ponto de controle para enfortumabe vedotina ou quimioterapia escolhida pelo investigador (Powles e colaboradores, 2021). A mediana de sobrevida global foi de 12,88 meses com enfortumabe vedotina e de 8,97 meses com quimioterapia (Powles e colaboradores, 2021). A sobrevida estimada em 12 meses foi de 51,5 por cento contra 39,2 por cento (Powles e colaboradores, 2021).

EV-103, coorte K

A coorte K do estudo EV-103 randomizou 151 pacientes sem tratamento prévio e inelegíveis para cisplatina para a combinação ou para enfortumabe vedotina sozinho (O'Donnell e colaboradores, 2023). A resposta objetiva confirmada com a combinação foi de 64,5 por cento, e 65,4 por cento dos que responderam mantinham a resposta em 12 meses (O'Donnell e colaboradores, 2023). Esses dados abriram caminho para o estudo de fase 3.

EV-302, a mudança de primeira linha

O EV-302 foi um estudo aberto que randomizou 886 pacientes sem tratamento prévio: 442 para a combinação e 444 para gencitabina com cisplatina ou carboplatina (bula americana do Padcev, 07/2026). A gencitabina foi de 1000 mg/m² nos dias 1 e 8, com cisplatina de 70 mg/m² ou carboplatina com AUC de 4,5 a 5, por até seis ciclos (bula americana do Padcev, 07/2026). O estudo excluiu metástases ativas no sistema nervoso central, neuropatia de grau 2 ou mais e hemoglobina glicada de 8 por cento ou mais, ou de 7 por cento ou mais com sintomas de diabetes (bula americana do Padcev, 07/2026).

A mediana de sobrevida global foi de 31,5 meses com a combinação e de 16,1 meses com quimioterapia, com razão de risco de 0,47 (bula americana do Padcev, 07/2026). A mediana de sobrevida livre de progressão foi de 12,5 contra 6,3 meses, com razão de risco de 0,45 (bula americana do Padcev, 07/2026). A resposta objetiva confirmada foi de 67,7 por cento contra 44,4 por cento, e a resposta completa foi de 29,1 por cento contra 12,5 por cento (bula americana do Padcev, 07/2026). A bula diz que os resultados foram consistentes em todos os subgrupos estratificados (bula americana do Padcev, 07/2026).

Outras opções de primeira linha

No CheckMate 901, com 608 pacientes elegíveis para cisplatina, nivolumabe com gencitabina e cisplatina levou a mediana de sobrevida global a 21,7 meses, contra 18,9 meses com quimioterapia, com razão de risco de 0,78 (van der Heijden e colaboradores, 2023). No JAVELIN Bladder 100, com 700 pacientes sem progressão depois da quimioterapia com platina, a manutenção com avelumabe levou a mediana de sobrevida global a 23,8 meses, contra 15,0 meses, com razão de risco de 0,76 (Powles e colaboradores, 2023). Uma metanálise de 11 estudos com 2128 pacientes concluiu que a combinação teve as maiores taxas de resposta na primeira linha (Yajima e colaboradores, 2025).

A tabela resume os estudos principais.

EstudoPopulaçãoParticipantesResultado principalFonte
EV-301Doença avançada já tratada608Sobrevida global de 12,88 contra 8,97 meses(Powles e colaboradores, 2021)
EV-103, coorte KPrimeira linha, inelegíveis para cisplatina151Resposta objetiva de 64,5 por cento com a combinação(O'Donnell e colaboradores, 2023)
EV-302Primeira linha, com ou sem elegibilidade para cisplatina886Sobrevida global de 31,5 contra 16,1 meses, razão de risco de 0,47(bula americana do Padcev, 07/2026)
CheckMate 901Primeira linha, elegíveis para cisplatina608Sobrevida global de 21,7 contra 18,9 meses(van der Heijden e colaboradores, 2023)
JAVELIN Bladder 100Manutenção depois de platina700Sobrevida global de 23,8 contra 15,0 meses(Powles e colaboradores, 2023)

Como ler esses números

Comparar medianas entre estudos diferentes é perigoso, porque as populações, os critérios de entrada e o tempo de seguimento mudam. O EV-302 comparou a combinação com a quimioterapia em um mesmo estudo, e é por isso que ele pesa tanto. O estudo foi aberto, e quem tinha diabetes mal controlado ou neuropatia moderada não entrou (bula americana do Padcev, 07/2026). Para pacientes assim, a evidência é indireta, e a decisão deve ser compartilhada. Uma série de seis pacientes com doença localmente avançada ou oligometastática mostrou resposta completa depois de mediana de seis ciclos, seguida de cistectomia com resposta patológica completa em todos (Jang e colaboradores, 2025). É uma série pequena e não muda a conduta, mas mostra por que algumas equipes já discutem cura em casos selecionados (Jang e colaboradores, 2025).

Da seleção ao acompanhamento

Antes de começar

  • Confirmar o diagnóstico, a extensão da doença e o estado funcional.
  • Medir hemoglobina glicada e glicemia, lembrando que o EV-302 excluiu hemoglobina glicada de 8 por cento ou mais.
  • Graduar a neuropatia de base e registrar o exame dos pés.
  • Examinar a pele e perguntar sobre reações graves de pele anteriores.
  • Perguntar sobre sintomas dos olhos e orientar sobre lágrimas artificiais.
  • Pedir exames de base da tireoide, do fígado e dos rins para comparar depois.

Dose

A bula americana indica enfortumabe vedotina de 1,25 mg/kg, até 125 mg em quem pesa 100 kg ou mais, por via venosa em 30 minutos nos dias 1 e 8 de ciclos de 21 dias, até progressão ou toxicidade inaceitável (bula americana do Padcev, 07/2026). No mesmo dia, o enfortumabe vedotina vem antes do pembrolizumabe (bula americana do Padcev, 07/2026). No EV-302, o pembrolizumabe foi de 200 mg por via venosa no dia 1 de cada ciclo de 21 dias, por até dois anos (bula americana do Padcev, 07/2026). A bula não lista contraindicações (bula americana do Padcev, 07/2026).

Pele

Com a combinação na doença avançada, 70 por cento de 564 pacientes tiveram reação de pele, e 17 por cento tiveram reação de grau 3 ou 4 (bula americana do Padcev, 07/2026). Houve uma morte por dermatite bolhosa, 0,2 por cento (bula americana do Padcev, 07/2026). A mediana de início das reações graves foi de 1,7 mês, e 6 por cento suspenderam o enfortumabe vedotina por causa da pele (bula americana do Padcev, 07/2026). Diante de suspeita de síndrome de Stevens-Johnson ou necrólise epidérmica tóxica, a bula manda suspender na hora e considerar avaliação especializada; se confirmada, a suspensão é definitiva (bula americana do Padcev, 07/2026). Reações de grau 4 ou de grau 3 recorrentes também levam à suspensão definitiva (bula americana do Padcev, 07/2026).

Na experiência de manejo descrita em uma revisão, reações leves foram tratadas com corticoide tópico e anti-histamínico oral, e as de grau 3 levaram a interrupção ou atraso da dose até melhorar (Lacouture e colaboradores, 2022). Uma coorte japonesa usou dexametasona de rotina como pré-medicação, mas não tinha grupo de comparação, e os autores dizem que não é possível concluir sobre efeito na eficácia ou na toxicidade (Hara e colaboradores, 2026). Os estudos principais não permitiam corticoide sistêmico de prevenção (Hara e colaboradores, 2026).

Glicemia

A bula descreve hiperglicemia e cetoacidose diabética, inclusive fatais, em pacientes com e sem diabetes (bula americana do Padcev, 07/2026). A mediana de início foi de meio mês, e o risco subiu com índice de massa corporal maior e hemoglobina glicada basal maior (bula americana do Padcev, 07/2026). Se a glicemia passar de 250 mg/dL, o enfortumabe vedotina deve ser suspenso até voltar a 250 mg/dL ou menos (bula americana do Padcev, 07/2026). Uma revisão sobre manejo orienta repetir a glicemia sem jejum antes de cada dose (Brower e colaboradores, 2024). Para o homem da cena, com hemoglobina glicada de 7,4 por cento, o plano inclui glicemia capilar em casa nas primeiras semanas e um contato direto com a equipe se os valores subirem.

Nervos

Com a combinação na doença avançada, a neuropatia periférica apareceu em 67 por cento, e a mediana de início da neuropatia de grau 2 ou mais foi de seis meses (bula americana do Padcev, 07/2026). Uma revisão de manejo lista, para a combinação, erupção cutânea em 68 por cento, neuropatia periférica em 67 por cento e fadiga em 51 por cento (Brower e colaboradores, 2024). Nos eventos de grau 3 ou 4, a mesma revisão cita erupção em 15 por cento, neuropatia em 8 por cento e fadiga em 6 por cento (Brower e colaboradores, 2024). No homem da cena, a dormência de grau 1 precisa ser registrada antes do primeiro ciclo para que a piora seja reconhecida.

Pulmões, olhos e outros riscos

Com a combinação na doença avançada, 10 por cento tiveram pneumonite ou doença pulmonar intersticial, 4 por cento de grau 3 ou 4, com duas mortes, 0,4 por cento (bula americana do Padcev, 07/2026). A frequência foi maior com a combinação que com o enfortumabe vedotina sozinho (bula americana do Padcev, 07/2026). Tosse nova ou falta de ar pedem avaliação rápida. A bula descreve também doenças da superfície do olho em 40 por cento dos pacientes com monoterapia, com olho seco em 30 por cento, e sugere considerar lágrimas artificiais (bula americana do Padcev, 07/2026). Há risco de dano ao tecido em caso de extravasamento da infusão, e a bula pede contracepção por dois meses depois da última dose nas mulheres e por quatro meses nos homens com parceira que possa engravidar (bula americana do Padcev, 07/2026).

Imagem de microscopia de tecido roxo e rosado com camadas de células grandes de núcleos irregulares
Carcinoma urotelial de alto grau em microscopia óptica. É nesse tipo de tumor que a nectina-4 costuma estar presente na superfície das células. Foto: Mikael Häggström, M.D., Wikimedia Commons, CC0.

O que a farmacovigilância acrescenta

Uma análise de 892 notificações no VigiBase e 1698 no FAERS com a combinação encontrou, no FAERS, erupção cutânea, neuropatia periférica, diarreia, coceira e fadiga entre os eventos mais notificados, além de doença pulmonar intersticial (Li e colaboradores, 2026). No VigiBase, a síndrome de Stevens-Johnson e a hiperglicemia apareceram entre os dez eventos mais notificados (Li e colaboradores, 2026). Os autores dizem que o padrão concorda com a bula e que notificações espontâneas não provam causa (Li e colaboradores, 2026).

Acompanhamento

O seguimento inclui pele, glicemia e sintomas de nervos em todas as consultas, função da tireoide e do fígado periodicamente e exames de imagem para avaliar resposta. O post sobre pausa diagnóstica ajuda a parar antes de atribuir todo sintoma novo ao tratamento, porque infecção, progressão e outras doenças continuam possíveis.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, cada caso começa com poucas pistas e você decide o que perguntar, o que pedir e quando fechar o raciocínio. Câncer urotelial com diabetes é um bom exercício porque uma glicemia, uma bolha na pele ou uma tosse nova mudam a conduta. O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos explica por que esse formato fixa o conhecimento.

Três exercícios com casos

Mude a glicemia. Diga o que fazer se, no dia 8 do primeiro ciclo, a glicemia viesse em 310 mg/dL, sem cetose.

Mude a pele. Diga o que fazer se surgissem bolhas e lesões na boca na terceira semana.

Mude os nervos. Diga o que muda se a dormência subisse até os tornozelos e ele começasse a tropeçar.

O post sobre simulação de atendimento ajuda a treinar a conversa com a família sobre expectativas e sinais de alerta.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

A combinação substitui a quimioterapia com platina?

No EV-302, a combinação teve sobrevida global maior que a quimioterapia com platina na primeira linha (bula americana do Padcev, 07/2026). A escolha continua individual.

Qual é a dose?

Enfortumabe vedotina de 1,25 mg/kg, até 125 mg, nos dias 1 e 8 de ciclos de 21 dias, antes do pembrolizumabe (bula americana do Padcev, 07/2026).

Quem tem diabetes pode usar?

Sim, com vigilância. O EV-302 excluiu hemoglobina glicada de 8 por cento ou mais, e a bula manda suspender se a glicemia passar de 250 mg/dL (bula americana do Padcev, 07/2026).

É preciso testar a nectina-4?

A bula americana não traz exigência de teste de nectina-4 entre as condições de uso (bula americana do Padcev, 07/2026). Um estudo mostrou perda de expressão nas metástases e propõe pesquisa com biópsia (Klümper e colaboradores, 2023).

Qual é o sinal de alerta mais urgente?

Bolhas, descamação ou lesões na boca e nos olhos, que podem indicar síndrome de Stevens-Johnson ou necrólise epidérmica tóxica (bula americana do Padcev, 07/2026).

Checklist final

  • Defini a elegibilidade para cisplatina.
  • Medi a hemoglobina glicada antes de começar.
  • Graduei a neuropatia de base.
  • Examinei pele e olhos.
  • Conferi a dose e a ordem das infusões.
  • Combinei glicemia antes de cada dose.
  • Orientei sobre bolhas, tosse e dormência.
  • Pedi exames de base de tireoide, fígado e rins.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. Astellas Pharma US. PADCEV® (enfortumab vedotin-ejfv) for injection, for intravenous use. Prescribing Information. Revisada em 07/2026. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
  2. Ballestín P, López de Sá A, Díaz-Tejeiro C, et al. Understanding the Toxicity Profile of Approved ADCs. Pharmaceutics. 2025. PMID 40006625.
  3. Brower B, McCoy A, Ahmad H, et al. Managing potential adverse events during treatment with enfortumab vedotin + pembrolizumab in patients with advanced urothelial cancer. Front Oncol. 2024. PMID 38711854.
  4. European Medicines Agency. Keytruda | European Medicines Agency (EMA). Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
  5. European Medicines Agency. Padcev | European Medicines Agency (EMA). Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
  6. Hara T, Wakita N, Tobe T, et al. Real-World Safety and Early Effectiveness of First-Line Enfortumab Vedotin Plus Pembrolizumab with Routine Dexamethasone Premedication in Advanced Urothelial Carcinoma. Cancers (Basel). 2026. PMID 41827674.
  7. Jang A, Tripathi N, Lanka SM, et al. Advanced urothelial carcinoma treated with enfortumab vedotin and pembrolizumab: a path to cure? Oncologist. 2025. PMID 40828887.
  8. Klümper N, Ralser DJ, Ellinger J, et al. Membranous NECTIN-4 Expression Frequently Decreases during Metastatic Spread of Urothelial Carcinoma and Is Associated with Enfortumab Vedotin Resistance. Clin Cancer Res. 2023. PMID 36534531.
  9. Lacouture ME, Patel AB, Rosenberg JE, et al. Management of Dermatologic Events Associated With the Nectin-4-directed Antibody-Drug Conjugate Enfortumab Vedotin. Oncologist. 2022. PMID 35274723.
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Enfortumabe e pembrolizumabe no câncer urotelial avançado