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Ansiedade no paciente com câncer: reativa ou orgânica?

Cadeiras estofadas azuis vazias, encostadas na parede de um corredor de hospital

Alexei Peter dos SantosThiago Longo MoraesCaroline Wilhelmsen MartinsAlexei Peter dos Santos, Thiago Longo Moraes e Caroline Wilhelmsen Martins

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Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. Ansiedade esperada, transtorno e rastreio
  3. Causas orgânicas que imitam ansiedade
  4. Medicamentos que produzem ansiedade
  5. Sintomas físicos que se confundem com ansiedade
  6. Montando o raciocínio passo a passo
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Take-home messages
  10. Referências

Uma mulher em tratamento de câncer de mama chega ao ambulatório dizendo que não consegue mais dormir. Sente o coração acelerado, as mãos tremem e há dias em que acorda com a sensação de que algo terrível vai acontecer. A família diz que ela está "muito nervosa com a doença", e a explicação parece óbvia. Ela recebeu um diagnóstico difícil, está no meio da quimioterapia e tem medo do futuro.

A explicação pode estar certa. Mas, antes de aceitar que a ansiedade é só uma reação ao câncer, o clínico precisa fazer uma pergunta que muda a conduta: existe alguma causa orgânica ou medicamentosa produzindo esses sintomas? Na oncologia, essa pergunta tem muitas respostas possíveis. Corticoides, distúrbios hormonais, metabólicos e neurológicos, efeitos de outros remédios e sintomas físicos mal controlados podem se apresentar como ansiedade.

Este texto organiza esse raciocínio. Ele discute o que é esperado depois do diagnóstico, como rastrear sem rotular, quais causas orgânicas imitam ansiedade, quais medicamentos a provocam e como separar a ansiedade de sintomas como falta de ar e dor.

Principais pontos

  • Entre 12 e 25 em cada 100 pessoas com câncer têm sintomas de ansiedade em questionários (Grassi, 2023).
  • Corticoides podem causar insônia, ansiedade e irritabilidade, em geral nas primeiras semanas (Seymour, 2025).
  • Tireoidite por imunoterapia, hipoglicemia, hipercalcemia e tumores secretores podem imitar ansiedade.
  • A acatisia por antieméticos costuma ser confundida com agitação ansiosa (Vanegas-Arroyave, 2024).
  • Instrumentos curtos como o GAD-2 e o GAD-7 ajudam a rastrear, mas não fazem o diagnóstico da causa.
  • Rotular como reativa antes de investigar pode atrasar um diagnóstico tratável.

Sumário

Por que este é um cenário de raciocínio

A ansiedade é um dos sintomas mais comuns na oncologia e um dos mais fáceis de explicar. Quase todo mundo entende por que alguém com câncer ficaria ansioso, e essa compreensão, que é humana e necessária, cria um risco para o raciocínio clínico. Quando a explicação psicológica parece suficiente, a investigação para.

Esse fechamento precoce é um dos erros mais conhecidos no diagnóstico. O clínico encontra uma explicação plausível, sente que entendeu o problema e deixa de procurar alternativas. Na pessoa com câncer, as alternativas são muitas, e algumas são graves: distúrbios metabólicos, efeitos de remédios, inflamação do sistema nervoso e alterações hormonais causadas pelo próprio tratamento.

Um relato de feocromocitoma mostra até onde esse erro pode ir. A paciente passou 13 anos em tratamento psiquiátrico para ansiedade antes de o tumor secretor de catecolaminas ser identificado (Alguire, 2018). A história é rara, mas ensina uma regra geral: um sintoma que parece psicológico pode ter uma causa física, e a causa física só aparece quando é procurada.

A ansiedade reativa e a orgânica também podem coexistir. A mesma pessoa pode estar com medo do diagnóstico e, ao mesmo tempo, com tireoidite ou com hipoglicemia. Por isso, o objetivo não é escolher entre uma explicação e outra, e sim garantir que nenhuma causa tratável fique de fora.

O raciocínio pode ser organizado em três perguntas. A primeira é o que se espera depois do diagnóstico, e o que já configura um transtorno. A segunda é se existe uma causa orgânica ou medicamentosa que explique os sintomas. A terceira é se outro sintoma físico, como falta de ar ou dor, está sendo descrito como ansiedade. As seções seguintes percorrem essas perguntas na ordem em que costumam aparecer no consultório.

A ordem importa porque cada pergunta muda o que vem depois. Quem responde só à primeira tende a tratar o medo e a reavaliar semanas mais tarde. Quem passa pelas três, mesmo de forma rápida, consegue pedir na mesma consulta os poucos exames que separam o esperado do tratável.

Ansiedade esperada, transtorno e rastreio

Sentir medo depois de um diagnóstico de câncer é esperado. A diretriz europeia sobre ansiedade e depressão em adultos com câncer descreve que entre 12 e 25 em cada 100 pacientes têm sintomas de ansiedade em questionários de rastreio (Grassi, 2023). Os transtornos de ansiedade definidos por entrevista são menos frequentes, perto de 10 em cada 100 numa metanálise com 10 071 pacientes (Grassi, 2023).

A diferença entre os dois números é importante. Muitos pacientes têm sintomas que oscilam, aparecem perto de exames ou de consultas de resultado e melhoram com informação, apoio e tempo. Um grupo menor desenvolve um quadro persistente, que interfere no sono, no trabalho, nas relações e na capacidade de seguir o tratamento.

A diretriz recomenda rastrear ansiedade e depressão em momentos-chave do cuidado, como o diagnóstico, o tratamento, o fim do tratamento e a recidiva (Grassi, 2023). A mesma diretriz lembra que o rastreio é só o primeiro passo, e que quem pontua deve receber uma avaliação mais formal (Grassi, 2023). Essa avaliação inclui a busca por causas orgânicas.

Instrumentos curtos

O GAD-7 é um dos questionários mais usados. Um estudo avaliou o instrumento em 718 pessoas com 70 anos ou mais e câncer avançado e encontrou boas propriedades psicométricas nessa população (Saracino, 2024). A versão com dois itens, o GAD-2, teve área sob a curva entre 0,93 e 0,96 em relação ao GAD-7 completo (Saracino, 2024).

O rastreio em dois passos usa uma escala curta de sintomas primeiro e o questionário completo só para quem pontua. Um estudo com 172 pacientes oncológicos testou essa estratégia com dados de vida real, usando o GAD-7 como segundo passo para ansiedade (Gascon, 2024). Nessa amostra, 39 dos 172 pacientes tiveram diagnóstico de transtorno de ansiedade na entrevista (Gascon, 2024).

Os instrumentos medem a intensidade dos sintomas, mas não dizem de onde eles vêm. Um GAD-7 alto numa pessoa com tireoidite por imunoterapia continua alto, e o tratamento certo é o da tireoide. O questionário abre a conversa; a história, o exame e alguns exames laboratoriais completam o raciocínio.

Quando a ansiedade pede outra explicação

Alguns sinais sugerem que a explicação reativa pode não ser suficiente:

  • início súbito, sem relação clara com um evento da doença;
  • sintomas físicos intensos, como taquicardia, tremor e sudorese, desproporcionais ao medo relatado;
  • início logo depois de um remédio novo ou de uma mudança no tratamento;
  • confusão, sonolência, alteração da memória ou do comportamento;
  • crises em jejum ou que melhoram depois de comer;
  • ausência de história prévia de ansiedade e pouca resposta às medidas habituais.

Cada um desses sinais, isolado, fica longe de provar uma causa orgânica, mas aumenta a chance de que ela exista. Quando aparecem, o próximo passo é revisar a lista de medicamentos e pedir exames dirigidos.

Causas orgânicas que imitam ansiedade

Várias condições comuns na oncologia produzem sintomas que o paciente descreve como nervosismo, aperto no peito ou medo sem motivo. Elas variam conforme o tumor e o tratamento, mas algumas merecem ser lembradas em quase todos os casos.

Tireoidite por imunoterapia

Os inibidores de checkpoint imunológico podem inflamar a tireoide. A revisão sobre eventos adversos da tireoide descreve que a tireoidite costuma aparecer nos primeiros 3 meses de tratamento, muitas vezes com uma fase inicial de tireotoxicose (Muir, 2022). Nessa fase, palpitações, tremor, insônia e sensação de inquietação são frequentes e podem ser lidos como ansiedade.

A fase de excesso hormonal costuma ser transitória, e mais de 40 em cada 100 pacientes com tireoidite evoluem para hipotireoidismo (Muir, 2022). A revisão lembra que a maioria dos casos é assintomática e descoberta pela monitorização da função tireoidiana, recomendada no início e repetida a cada 6 semanas depois do começo do tratamento (Muir, 2022). Quando há sintomas, porém, a dosagem de TSH e T4 livre é um exame simples que merece ser pedido diante de ansiedade nova em quem recebe imunoterapia. O texto sobre o que observar durante a imunoterapia discute outros eventos imunomediados.

Hipoglicemia

A hipoglicemia produz sintomas adrenérgicos que se parecem muito com uma crise de ansiedade: sudorese, tremor, palpitações e fome. Na oncologia, ela pode ser causada por tumores que produzem fatores semelhantes à insulina, situação descrita na revisão sobre hipoglicemia paraneoplásica (Karamanolis, 2024). A revisão lembra a tríade de Whipple: sintomas compatíveis, glicose baixa medida no momento e melhora com a correção (Karamanolis, 2024).

A revisão descreve tumores de origem epitelial, vascular e mesenquimal associados a esse quadro, com mesoteliomas e fibrossarcomas entre os mesenquimais mais citados (Karamanolis, 2024). Em quem tem um tumor volumoso e episódios de mal-estar sem explicação, a glicemia merece ser lembrada.

Crises que aparecem em jejum, de madrugada ou depois de exercício são uma pista. Medir a glicemia durante o episódio é a forma mais direta de confirmar ou afastar a hipótese. O texto sobre como a hipoglicemia se apresenta descreve os sintomas em detalhe.

Hipercalcemia

A hipercalcemia é uma das complicações metabólicas mais comuns do câncer. A revisão sobre hipercalcemia maligna inclui ansiedade entre as manifestações neurológicas, ao lado de depressão, fadiga, letargia, fraqueza e confusão, mais marcadas nos níveis moderados e graves (Feldenzer, 2018). Quando a ansiedade vem junto com sede, náuseas e constipação, o cálcio passa a ser um exame obrigatório.

A dosagem de cálcio, corrigido pela albumina ou ionizado, é rápida e muda a conduta. Pessoas com metástases ósseas, mieloma ou tumores que produzem substâncias semelhantes ao paratormônio estão entre as de maior risco (Feldenzer, 2018).

Tumores secretores

O feocromocitoma e o paraganglioma produzem catecolaminas e podem causar crises de palpitação, sudorese, cefaleia e sensação de pânico. O relato de 13 anos de ansiedade tratada como transtorno psiquiátrico mostra como esse quadro pode passar despercebido (Alguire, 2018). A investigação começa pelas metanefrinas, como discute o texto sobre o que o nódulo adrenal pode produzir.

Encefalite límbica e tumores cerebrais

A encefalite límbica, que pode ser paraneoplásica, se manifesta com ansiedade, alterações de humor, crises convulsivas e perda de memória recente. A revisão sobre distúrbios neuropsiquiátricos por encefalite límbica descreve os critérios de Graus para o diagnóstico, que combinam o quadro clínico com ressonância, eletroencefalograma e líquor (Kao, 2020).

A mesma revisão descreve que o quadro costuma começar de forma aguda ou subaguda, com déficit de memória e confusão como núcleo, e que sintomas psiquiátricos como ansiedade, depressão ou psicose podem aparecer junto com alterações de comportamento e do sono (Kao, 2020). Ansiedade nova com esquecimento recente, crise convulsiva ou mudança de comportamento é motivo para pensar nessa hipótese.

Os tumores cerebrais também alteram o humor diretamente. Na revisão sobre depressão e ansiedade em pessoas com glioma, a ansiedade aparece em 24 a 48 em cada 100 pacientes, conforme o estudo (van der Meer, 2023). Nesses casos, a localização do tumor, o edema e as crises epilépticas entram na explicação, ao lado da reação ao diagnóstico.

Bolsa de infusão com líquido vermelho pendurada num suporte de soro, com o equipo descendo
Bolsa de quimioterapia com líquido vermelho no suporte de soro de uma sala de infusão. Crédito: Retired electrician, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Medicamentos que produzem ansiedade

A revisão da lista de remédios é um dos passos mais produtivos diante de ansiedade nova no paciente oncológico. Vários medicamentos usados de rotina podem causar ou piorar os sintomas, e a relação temporal costuma ser a principal pista.

Corticoides

Os corticoides estão entre os medicamentos mais usados na oncologia, como antieméticos, para edema cerebral, dor e apetite. Uma série de 10 anos identificou 297 pacientes com transtornos mentais induzidos por corticoide, o equivalente a 11 em cada 100 de 2626 encaminhamentos ao serviço de psiquiatria oncológica (Seymour, 2025). A dexametasona foi o corticoide mais envolvido, e o início dos sintomas teve mediana de 14 dias (Seymour, 2025).

Insônia, ansiedade e irritabilidade foram os sintomas mais comuns na série, que também descreveu quadros de humor e psicose (Seymour, 2025). Os autores descrevem um espectro que vai de mudanças leves do humor e do sono até ideação suicida e psicose franca, e o câncer de mama foi o tumor mais frequente entre as mulheres da série (Seymour, 2025). Na maioria dos pacientes, a equipe iniciou algum psicotrópico, o que mostra que o quadro raramente se resolve só com tranquilização (Seymour, 2025). Perguntar quando o corticoide começou, se o esquema mudou e se a pessoa toma o remédio à noite ajuda a ligar o sintoma à causa.

A retirada do corticoide também pode produzir sintomas. Fadiga, mal-estar, dores e alteração do humor podem aparecer quando o remédio é reduzido, e algumas pessoas descrevem esse período como uma fase de nervosismo. A história da medicação, com datas, é tão importante quanto a lista atual.

Acatisia

A acatisia é uma inquietação motora com vontade intensa de se mexer, que leva a pessoa a andar de um lado para o outro e a não conseguir ficar sentada. A atualização sobre distúrbios do movimento induzidos por medicamentos descreve a acatisia como efeito de agentes que bloqueiam a dopamina, incluindo antieméticos como a metoclopramida (Vanegas-Arroyave, 2024).

O paciente costuma descrever a acatisia como ansiedade, e a equipe pode interpretar a agitação como piora emocional. A revisão também aponta que anticolinérgicos não são recomendados para tratar a acatisia, o que reforça a importância de reconhecer o quadro e rever o remédio causador (Vanegas-Arroyave, 2024).

Anticonvulsivantes

Em pessoas com tumores cerebrais, os anticonvulsivantes podem alterar o humor. A revisão sobre glioma relata que, num estudo com levetiracetam, 69 de 429 pacientes suspenderam o remédio por efeitos adversos, e 7 deles por depressão (van der Meer, 2023). Irritabilidade e ansiedade também aparecem entre os efeitos descritos.

Outros remédios para lembrar

A lista pode ser revista com algumas perguntas simples:

  • algum corticoide foi iniciado, aumentado ou reduzido recentemente;
  • algum antiemético bloqueador de dopamina foi introduzido;
  • a imunoterapia começou nos últimos meses;
  • há anticonvulsivante, broncodilatador ou estimulante em uso;
  • algum remédio para dormir ou para ansiedade foi suspenso de repente;
  • o paciente usa álcool, nicotina ou outras substâncias e mudou o consumo.
Corredor de ambulatório de oncologia com piso de cerâmica e fileira de cadeiras de espera vazias
Corredor de espera de um ambulatório de imuno-oncologia, com as cadeiras vazias. Crédito: Avner, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Sintomas físicos que se confundem com ansiedade

Algumas queixas físicas são descritas pelo paciente com palavras emocionais. Falta de ar, dor mal controlada, náusea e insônia podem gerar medo e inquietação, e o tratamento certo é o do sintoma de base.

Dispneia

A falta de ar e a ansiedade se alimentam mutuamente. A pessoa que sente falta de ar fica com medo, e o medo piora a sensação de falta de ar. Uma metanálise sobre benzodiazepínicos para dispneia em pacientes com câncer comparou midazolam com morfina e encontrou risco relativo de 0,95, sem diferença clara entre os dois (Yasuda, 2023).

Os autores concluíram que o benzodiazepínico sozinho não melhorou a dispneia de forma significativa em relação aos opioides e que a combinação pode ajudar em casos selecionados (Yasuda, 2023). Para o raciocínio, a lição é outra: quando a ansiedade aparece junto com falta de ar, a causa da dispneia, como derrame pleural, anemia, embolia ou progressão do tumor, precisa ser procurada antes de tratar só o medo.

Dor e outros sintomas

A dor mal controlada causa insônia, irritabilidade e sensação de ameaça constante. A náusea persistente, a constipação e a retenção urinária também podem se manifestar como inquietação, sobretudo em idosos e em quem tem dificuldade de se comunicar. Em pessoas internadas, a agitação pode ser um sinal de delirium, e o texto sobre como procurar a causa do delirium mostra a investigação.

Quando a ansiedade é a resposta certa

Depois de afastar as causas orgânicas, a ansiedade reativa merece cuidado próprio. Informação clara, tempo para perguntas, apoio psicológico e, quando indicado, tratamento farmacológico fazem parte do cuidado oncológico. A diretriz europeia descreve a psicoterapia, a terapia cognitivo-comportamental e as terapias baseadas em atenção plena como tratamentos eficazes (Grassi, 2023).

A ansiedade também afeta o raciocínio do próprio paciente sobre a doença, o que o texto sobre como a ansiedade afeta o raciocínio discute em outro contexto.

Antebraço sobre lençol claro com cateter venoso periférico azul fixado por fita e equipo transparente
Acesso venoso periférico preso por fita, como na infusão ambulatorial. Crédito: Wilfredor, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Montando o raciocínio passo a passo

Voltando à paciente da abertura, o raciocínio começa por perguntas sobre o tempo e o tratamento. Quando os sintomas começaram? O que mudou na medicação nas semanas anteriores? Ela recebe corticoide junto com a quimioterapia? Usa antiemético? Começou imunoterapia? As crises têm relação com jejum ou com o horário?

O exame físico procura sinais que a queixa emocional esconde: taquicardia persistente, tremor fino, bócio, perda de peso, inquietação motora, desidratação e alterações neurológicas. Os exames iniciais costumam ser simples, e a lista deve ser adaptada ao tumor e ao tratamento.

A diretriz europeia só aceita o diagnóstico de transtorno de ansiedade quando o quadro não se explica por medicamento ou doença clínica (Grassi, 2023). A tabela resume as principais pistas, sem uma ordem fixa: a história decide por onde começar, e cada linha traz a fonte do primeiro passo.

Pista Hipótese Primeiro passo
Início semanas depois de corticoide Efeito do corticoide Revisar esquema e horário (Seymour, 2025)
Inquietação motora depois de antiemético Acatisia Rever o bloqueador de dopamina (Vanegas-Arroyave, 2024)
Palpitação e tremor com imunoterapia Tireoidite TSH e T4 livre (Muir, 2022)
Crises em jejum, sudorese e fome Hipoglicemia Glicemia durante o episódio (Karamanolis, 2024)
Confusão, sede e constipação Hipercalcemia Cálcio corrigido ou ionizado (Feldenzer, 2018)
Crises de palpitação e cefaleia Tumor secretor Metanefrinas (Alguire, 2018)
Alteração de memória ou crises Encefalite ou lesão cerebral Imagem e avaliação neurológica (Kao, 2020)
Falta de ar com medo Dispneia com causa própria Procurar a causa da dispneia (Yasuda, 2023)

Se a paciente começou dexametasona com a quimioterapia e os sintomas surgiram duas semanas depois, o corticoide passa a ser a principal hipótese, como sugere a mediana descrita na série de casos (Seymour, 2025). Se ela recebe imunoterapia, a dosagem de TSH entra antes de qualquer rótulo. Se os exames forem normais e a história apontar para medo do diagnóstico, a ansiedade reativa passa a ser a explicação mais provável, agora com base em uma investigação e não em uma suposição.

O diagnóstico de ansiedade reativa é legítimo e frequente. A diferença é que ele deve ser uma conclusão, e não um ponto de partida. O texto sobre o que é ansiedade ajuda a revisar os conceitos básicos.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Treinar o diagnóstico diferencial com pistas e buscar o código certo na CID-10 completam esse treino.

Perguntas frequentes

Ansiedade é comum em quem tem câncer?

Sim. Entre 12 e 25 em cada 100 pacientes têm sintomas de ansiedade em questionários de rastreio, e cerca de 10 em cada 100 têm um transtorno de ansiedade (Grassi, 2023).

Corticoide pode causar ansiedade?

Pode. Numa série de 297 pacientes com transtornos mentais induzidos por corticoide, insônia, ansiedade e irritabilidade foram os sintomas mais comuns, com início em mediana de 14 dias (Seymour, 2025).

Que exames ajudam a afastar uma causa orgânica?

Dependem do contexto. TSH e T4 livre em quem recebe imunoterapia, glicemia durante as crises, cálcio e, quando há suspeita de tumor secretor, metanefrinas (Muir, 2022).

O que é acatisia?

É uma inquietação motora com vontade de se mexer, causada por remédios que bloqueiam a dopamina, como alguns antieméticos, e muitas vezes confundida com ansiedade (Vanegas-Arroyave, 2024).

O GAD-7 serve para pacientes oncológicos idosos?

Serve. Em 718 pessoas com 70 anos ou mais e câncer avançado, o instrumento teve boas propriedades psicométricas (Saracino, 2024).

Benzodiazepínico resolve a falta de ar ansiosa?

Os dados mostram que, sozinho, ele não melhorou a dispneia de forma significativa em relação aos opioides, e a combinação pode ajudar em casos selecionados (Yasuda, 2023).

Take-home messages

  • A ansiedade é comum no câncer, mas a explicação reativa deve ser uma conclusão, e não um ponto de partida.
  • Corticoides, antieméticos e anticonvulsivantes estão entre os medicamentos que mais produzem sintomas ansiosos.
  • Tireoidite por imunoterapia, hipoglicemia, hipercalcemia e tumores secretores podem se apresentar como ansiedade.
  • Questionários curtos rastreiam bem, mas a causa depende da história, do exame e de exames dirigidos.
  • Falta de ar e dor podem ser descritas como ansiedade e pedem tratamento da causa.
  • A ansiedade reativa e a orgânica podem coexistir na mesma pessoa.

Quer treinar o diagnóstico diferencial de sintomas que parecem emocionais? Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

  1. Alguire C, Chbat J, Forest I, et al. Unusual presentation of pheochromocytoma: thirteen years of anxiety requiring psychiatric treatment. Endocrinol Diabetes Metab Case Rep. 2018. PMID 29644077. DOI 10.1530/EDM-17-0176.
  2. Feldenzer KL, Sarno J. Hypercalcemia of Malignancy. J Adv Pract Oncol. 2018. PMID 31086686.
  3. Gascon B, Elman J, Macedo A, et al. Two-Step Screening for Depression and Anxiety in Patients with Cancer: A Retrospective Validation Study Using Real-World Data. Curr Oncol. 2024. PMID 39590112. DOI 10.3390/curroncol31110481.
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  8. Saracino RM, Kehoe LA, Sohn MB, et al. Psychometric Properties of the Generalized Anxiety Disorder Scale (GAD-7) in Older Adults With Advanced Cancer. Psychooncology. 2024. PMID 39482282. DOI 10.1002/pon.70012.
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  12. Yasuda S, Sugano K, Matsuda Y, et al. Systematic review and meta-analysis of the efficacy of benzodiazepines for dyspnea in patients with cancer. Jpn J Clin Oncol. 2023. PMID 36636762. DOI 10.1093/jjco/hyac206.

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