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Endocrinologia

ADA 2026: o que mudou no diabetes e por quê

Sensor contínuo de glicose aderido à pele

Thiago Longo MoraesAlexei Peter dos SantosThiago Longo Moraes e Alexei Peter dos Santos

Publicado em Atualizado em

Sumário
  1. Por que a ADA trocou a glicada pelo órgão
  2. Coração: SGLT2, GLP-1 e o novo lugar da tirzepatida
  3. Rim: proteger desde a albuminúria
  4. Fígado: FIB-4 primeiro e cautela com o tamanho do problema
  5. Sensor contínuo desde o diagnóstico
  6. Tipo 1 antes dos sintomas: estadiamento por autoanticorpos
  7. Hiperglicemia causada por remédios: corticoide e oncologia
  8. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  9. Perguntas frequentes
  10. Take-home messages
  11. Referências

Uma mulher de 58 anos com diabetes tipo 2 há seis anos volta à consulta com hemoglobina glicada um pouco acima da meta. Ela teve uma internação por insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada no último inverno, tem índice de massa corporal de 34, taxa de filtração glomerular estimada de 48 e albumina na urina aumentada. Usa metformina e uma sulfonilureia. A pergunta antiga seria quanto falta para a glicada chegar à meta. A pergunta da ADA 2026 é outra: quais órgãos estão em risco, e qual remédio protege cada um deles?

Os Standards of Care in Diabetes 2026, publicados como suplemento da Diabetes Care em dezembro de 2025, consolidam uma virada que vinha sendo construída há alguns anos (ADA, Summary of Revisions, 2026). O remédio passa a ser escolhido pela doença cardíaca, renal e hepática, independentemente da glicada. O sensor contínuo de glicose entra desde o diagnóstico para quem usa insulina. O diabetes tipo 1 ganhou estadiamento por autoanticorpos, com fluxo claro de encaminhamento. E a hiperglicemia causada por corticoide e por remédios contra o câncer ganhou recomendações próprias.

Este texto é uma leitura das mudanças pelo raciocínio clínico, e evita virar um resumo de cada seção. O objetivo é ajudar quem atende diabetes em qualquer país a entender por que a diretriz mudou, e como isso altera a primeira decisão diante de uma pessoa de carne e osso.

Principais pontos

  • A escolha do remédio para diabetes tipo 2 parte do órgão em risco: insuficiência cardíaca, doença renal crônica e esteatose hepática com fibrose (ADA, seção 9, 2026).
  • Inibidor de SGLT2 em insuficiência cardíaca e na doença renal é indicado independentemente da glicada (ADA, seção 9, 2026).
  • O sensor contínuo deve ser oferecido no início do diabetes para quem usa insulina (ADA, seção 7, 2026).
  • O tipo 1 pré-sintomático é estadiado por autoanticorpos, com encaminhamento para estadiamento metabólico (ADA, seção 2, 2026).
  • Corticoide, inibidores de checkpoint imunológico e inibidores de PI3Kα e de mTOR ganharam rastreio e tratamento específicos.
  • O rastreio de fibrose hepática começa pelo FIB-4, mas a frequência de fibrose avançada no diabetes pode estar superestimada.

Sumário

Por que a ADA trocou a glicada pelo órgão

Durante décadas, a lógica do tratamento do diabetes tipo 2 era escalonada pela glicose. Começava-se com metformina, e cada nova classe entrava quando a glicada ficava acima da meta. Essa lógica fazia sentido quando todos os remédios disponíveis tinham, basicamente, o mesmo efeito: baixar a glicose.

O cenário mudou com os grandes ensaios de desfechos cardiovasculares e renais. Os inibidores de SGLT2 reduziram internação por insuficiência cardíaca e progressão da doença renal, e os agonistas do receptor de GLP-1 reduziram eventos cardiovasculares, com benefícios que se mostraram em grande parte independentes da glicose alcançada. A ADA 2026 leva essa evidência ao centro do algoritmo: para quem tem diabetes tipo 2 e insuficiência cardíaca, o inibidor de SGLT2 é indicado para redução de risco cardiovascular e renal independentemente da glicada (ADA, seção 9, 2026).

Meta glicêmica continua importando

A mudança de eixo convive com metas de glicose. A ADA mantém a glicada abaixo de 7 como meta adequada para muitos adultos fora da gestação, sem hipoglicemia relevante, com recomendação de nível A (ADA, Summary of Revisions, 2026). Para quem usa sensor contínuo, a meta paralela é tempo no alvo acima de 70 em cada 100 horas, com tempo abaixo do alvo baixo (ADA, Summary of Revisions, 2026). A glicada e as métricas do sensor podem ser usadas juntas ou separadas para avaliar o controle.

Combinação logo no início

Outro ponto que reforça a ruptura com o escalonamento lento é a terapia combinada inicial. A ADA recomenda considerar combinação desde o começo para encurtar o tempo até a meta (ADA, seção 9, 2026). Na prática, a paciente do caso já teria indicação de mudar o esquema mesmo se a glicada já estivesse na meta, porque os órgãos em risco pedem remédios com proteção comprovada.

Coração: SGLT2, GLP-1 e o novo lugar da tirzepatida

A seção de doença cardiovascular da ADA 2026 recomenda inibidor de SGLT2 para pessoas com diabetes e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada ou reduzida, para reduzir piora da insuficiência cardíaca e morte cardiovascular (ADA, seção 10, 2026). A recomendação tem nível A e vale para as duas faixas de fração de ejeção.

A novidade mais visível está na insuficiência cardíaca com fração preservada e obesidade. Para adultos com diabetes tipo 2, obesidade e insuficiência cardíaca com fração preservada sintomática, a ADA recomenda o agonista duplo de GIP e GLP-1 para reduzir eventos de insuficiência cardíaca e melhorar sintomas, e o agonista de GLP-1 como alternativa para sintomas, capacidade física e qualidade de vida (ADA, seção 9, 2026). Quem quer revisar a relação entre tirzepatida, obesidade e outras complicações pode ler o texto sobre tirzepatida na apneia do sono.

Pré-insuficiência cardíaca

A ADA também chama atenção para o estágio B, a pré-insuficiência cardíaca. Pessoas com diabetes e alteração estrutural ou funcional assintomática, ou peptídeo natriurético elevado, devem receber inibidor da enzima conversora de angiotensina ou bloqueador do receptor de angiotensina e betabloqueador quando houver fração de ejeção reduzida ou infarto prévio (ADA, seção 10, 2026). Essa linguagem conversa com os estágios A a D usados pelas sociedades de cardiologia americanas e, a partir de 2026, também pela europeia.

Metformina na insuficiência cardíaca

A metformina continua permitida em pessoas com insuficiência cardíaca estável, desde que a taxa de filtração glomerular estimada fique acima de 30, e deve ser evitada em internados instáveis (ADA, seção 10, 2026). Essa frase importa para o raciocínio: a metformina perdeu o posto de primeiro passo obrigatório, mas segue útil e segura dentro desses limites.

Rim: proteger desde a albuminúria

A doença renal crônica é a segunda grande razão para escolher o remédio pelo órgão. A ADA 2026 recomenda inibidor de SGLT2 para pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, iniciado com taxa de filtração de 20 ou mais e mantido até a diálise ou o transplante, para reduzir progressão renal e eventos cardiovasculares (ADA, seção 11, 2026). O agonista de GLP-1 com benefício demonstrado também tem recomendação de nível A para reduzir progressão renal, eventos cardiovasculares e morte (ADA, seção 11, 2026).

Na seção de farmacologia, a ADA explica a escolha prática: em quem tem taxa de filtração entre 20 e 60 e albuminúria, qualquer das duas classes pode ser usada (ADA, seção 9, 2026). Quando a filtração cai abaixo de 30, o agonista de GLP-1 passa a ser preferido para controle glicêmico, porque tem menor risco de hipoglicemia e pode ser usado inclusive em diálise (ADA, seção 9, 2026).

A terceira peça: antagonista mineralocorticoide não esteroidal

Além das duas classes de remédios para diabetes, a ADA recomenda antagonista mineralocorticoide não esteroidal com eficácia comprovada em pessoas com diabetes tipo 2, doença renal crônica e albuminúria, para reduzir eventos cardiovasculares e progressão renal (ADA, seção 10, 2026). A finerenona é o exemplo atual dessa classe, e o seguimento do potássio faz parte do uso seguro.

Pressão arterial

A meta de pressão arterial abaixo de 130 por 80, quando segura, está registrada na seção renal para reduzir mortalidade cardiovascular e progressão da doença renal (ADA, seção 11, 2026). No caso da paciente, isso significa olhar para a pressão com o mesmo peso dado à glicada.

Fígado: FIB-4 primeiro e cautela com o tamanho do problema

A doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica, conhecida pela sigla MASLD, ganhou destaque na seção de comorbidades. A ADA recomenda rastrear fibrose em adultos com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes, especialmente com obesidade ou risco cardiometabólico, usando o FIB-4, mesmo com enzimas hepáticas normais (ADA, seção 4, 2026). Quando o FIB-4 é de 1,3 ou mais, a próxima etapa é elastografia ou o teste sanguíneo ELF, e o resultado de risco alto leva ao hepatologista (ADA, seção 4, 2026).

No tratamento, a ADA recomenda agonista de GLP-1 ou agonista duplo de GIP e GLP-1 para adultos com diabetes tipo 2, MASLD e sobrepeso ou obesidade, pelo efeito metabólico e cardiovascular (ADA, seção 9, 2026). Na esteato-hepatite com fibrose comprovada por biópsia, ou com risco alto por testes não invasivos, o agonista de GLP-1 é preferido, e pioglitazona ou o agonista duplo são alternativas (ADA, seção 9, 2026). Para fibrose F2 a F3, o agonista do receptor beta do hormônio tireoidiano entra com encaminhamento ao hepatologista (ADA, seção 4, 2026). O texto sobre resmetirom e semaglutida na esteato-hepatite com fibrose detalha os ensaios por trás dessas escolhas.

O contraponto: quanto de fibrose avançada existe de fato

Uma revisão publicada na Diabetologia em 2026 questiona a base numérica do rastreio universal. Segundo o autor, a reanálise dos estudos de prevalência sugere que a fibrose avançada no diabetes tipo 2 foi substancialmente superestimada e pode ficar abaixo de 5 a 10 em cada 100 pessoas (Qadri, 2026). A mesma revisão estima que os testes não invasivos atuais podem encaminhar de 30 a 50 em cada 100 pacientes para teste de segunda linha e 15 em cada 100 para avaliação especializada (Qadri, 2026).

O argumento é útil para o raciocínio. Um FIB-4 alterado eleva a probabilidade de fibrose, mas o resultado depende muito da probabilidade antes do teste. Em populações com prevalência baixa, muitos resultados positivos serão falsos, e o encaminhamento em massa pode sobrecarregar os serviços de hepatologia. Quem quer revisar o conceito pode ler o texto sobre probabilidade pré-teste.

Tabela: o órgão em risco e a classe preferida

Órgão ou situação Classe preferida Recomendação da ADA 2026
Insuficiência cardíaca, qualquer fração de ejeção Inibidor de SGLT2 Independente da glicada, nível A (ADA, seção 9, 2026)
Fração preservada sintomática com obesidade Agonista duplo de GIP e GLP-1 ou agonista de GLP-1 Reduzir eventos e sintomas (ADA, seção 9, 2026)
Doença renal com filtração de 20 a 60 ou albuminúria Inibidor de SGLT2 ou agonista de GLP-1 Proteção renal e cardiovascular (ADA, seção 11, 2026)
Filtração abaixo de 30 ou diálise Agonista de GLP-1 Preferido para glicose (ADA, seção 9, 2026)
Doença renal com albuminúria Antagonista mineralocorticoide não esteroidal Somado ao esquema, nível A (ADA, seção 10, 2026)
Esteato-hepatite com fibrose Agonista de GLP-1; pioglitazona ou agonista duplo como alternativa Preferência de nível A (ADA, seção 9, 2026)
Obesidade Semaglutida ou tirzepatida Mantidas após atingir a meta de peso (ADA, Summary of Revisions, 2026)

A tabela resume a lógica, e a decisão real depende de pressão arterial, função renal, potássio, risco de hipoglicemia, acesso e preferência da pessoa. Ela também mostra por que a paciente do caso teria três motivos para um inibidor de SGLT2 e dois para um agonista de GLP-1 ou duplo, antes mesmo de olhar a glicada.

Duas recomendações ajudam a simplificar. A ADA desaconselha associar inibidor de DPP-4 a um agonista de GLP-1, porque o benefício glicêmico adicional é pequeno (ADA, seção 9, 2026). E, para quem precisa de terapia injetável, a terapia baseada em GLP-1 é preferida à insulina, salvo em hiperglicemia grave ou catabolismo (ADA, seção 9, 2026). A sulfonilureia da paciente, que aumenta o risco de hipoglicemia, é uma candidata natural à retirada quando as novas classes entram.

Sensor contínuo desde o diagnóstico

A seção de tecnologia da ADA 2026 recomenda oferecer sensor contínuo de glicose no início do diabetes, inclusive no diagnóstico, para quem usa insulina, com nível A (ADA, seção 7, 2026). A recomendação se estende a quem usa remédio oral que pode causar hipoglicemia, como sulfonilureia, e a qualquer pessoa em que o sensor ajude a decisão terapêutica (ADA, seção 7, 2026).

Parte inferior de um sensor contínuo de glicose com o filamento que entra na pele
Parte inferior de um sensor contínuo de glicose, com o filamento que fica sob a pele. Crédito: VMzB, CC0 (dedicação ao domínio público), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Bomba e sistema automatizado sem barreira laboratorial

A ADA recomenda oferecer sistema automatizado de liberação de insulina a todas as pessoas com diabetes tipo 1 ou tipo 2 que usam insulina e conseguem usá-lo com segurança, com nível A (ADA, seção 9, 2026). Ela também retira exigências de peptídeo C ou de autoanticorpos antes de indicar bomba de insulina ou sistema automatizado (ADA, seção 7, 2026). A mensagem é que a tecnologia deve seguir a necessidade clínica, e a burocracia laboratorial costumava atrasar o acesso.

No hospital

A seção hospitalar recomenda que a pessoa possa manter seu sensor pessoal durante a internação, quando houver protocolo institucional (ADA, Summary of Revisions, 2026). Recomenda ainda evitar a insulina apenas de correção, a antiga escala móvel, como esquema único (ADA, Summary of Revisions, 2026). Para quem quer revisar o erro mais comum nesse ambiente, há o texto sobre hipoglicemia por insulina no hospital. Situações de risco específico, como a de quem trabalha em cabine de avião, aparecem no texto sobre hipoglicemia em piloto tratado com insulina.

Tipo 1 antes dos sintomas: estadiamento por autoanticorpos

O diabetes tipo 1 começa anos antes da hiperglicemia. A ADA 2026 descreve os autoanticorpos contra insulina, contra a descarboxilase do ácido glutâmico, contra o antígeno de ilhota 2 e contra o transportador de zinco 8 como marcadores do processo (ADA, seção 2, 2026). A presença de dois ou mais define o estágio 1 com glicose normal, o estágio 2 com disglicemia e o estágio 3 com doença clínica.

A recomendação prática é em degraus. Quem tem um autoanticorpo positivo deve ser avaliado para estágio 3, e quem tem múltiplos autoanticorpos deve ser encaminhado a um centro com experiência em estadiamento metabólico e em terapias que retardam a doença (ADA, seção 2, 2026). Um único autoanticorpo contra o antígeno de ilhota 2 deve ser acompanhado como se fossem múltiplos, e o teste deve ser repetido em intervalos que vão de 6 meses a 3 anos conforme a idade e o risco (ADA, seção 2, 2026).

Recipiente com lancetas descartáveis para coleta de sangue capilar
Lancetas descartáveis usadas na coleta de sangue capilar para glicemia. Crédito: BrokenSphere, CC BY-SA 3.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Por que rastrear

A justificativa mais forte é a cetoacidose. Um consenso internacional de 2026 resume que crianças com tipo 1 pré-sintomático que recebem educação básica e acompanhamento têm menos cetoacidose no início clínico da doença do que as não rastreadas (Sims et al., 2026). O mesmo texto lembra que a cetoacidose no diagnóstico se associa a pior controle glicêmico a longo prazo e a sofrimento psicológico na família (Sims et al., 2026). O teplizumabe, aprovado para retardar o estágio 3 em quem está no estágio 2 a partir dos 8 anos, adiou o início clínico em mediana de 24,9 a 32,5 meses nos estudos citados pelo consenso (Sims et al., 2026). O texto sobre teplizumabe no estágio 2 aprofunda essa parte.

O sensor como ferramenta de estadiamento

A ADA aceita métricas do sensor contínuo como opção no acompanhamento de quem tem autoanticorpos, junto da glicada a cada 6 meses e da curva glicêmica anual (ADA, Summary of Revisions, 2026). Um estudo alemão com 126 crianças e adolescentes analisados mostrou que desvio-padrão, coeficiente de variação e tempo acima de 140 mg/dL diferiam entre controles, estágio 1 e estágio 2 (Weiss et al., 2026). Com o corte pelo percentil 97,5 dos controles, o sensor marcou como de alto risco 10 dos 25 participantes no estágio 2 e 6 dos 8 que evoluíram para diabetes clínico em um ano (Weiss et al., 2026). Os autores também observaram que os valores mudam de um aparelho para outro, o que exige cortes próprios para cada sistema (Weiss et al., 2026).

Hiperglicemia causada por remédios: corticoide e oncologia

A seção de diagnóstico ganhou recomendações para hiperglicemia causada por remédios, uma situação comum em enfermarias e ambulatórios de oncologia. Para quem usa glicocorticoide por tempo prolongado, a ADA recomenda medir a glicose pós-prandial ou casual, porque a glicemia de jejum pode subestimar o problema (ADA, seção 2, 2026). O tratamento deve acompanhar o esquema do corticoide, com mais insulina nos horários de maior efeito e redução quando o corticoide é retirado (ADA, seção 9, 2026).

Metformina para prevenir

Uma metanálise de 2026 reuniu 4 estudos com 187 pessoas sem diabetes que receberam glicocorticoide e encontrou glicemia de jejum menor com metformina, com diferença média de 0,60 mmol/L (Murtaza et al., 2026). Os autores consideram o resultado promissor, mas limitado pelo pequeno número de estudos. A ADA ainda trata essa prevenção com cautela e concentra a recomendação de metformina preventiva nos inibidores de PI3Kα.

Inibidores de checkpoint imunológico

O diabetes autoimune causado por inibidores de checkpoint é raro, mas grave. A ADA recomenda vigiar a glicose durante o tratamento e, diante de hiperglicemia, avaliar rapidamente a necessidade de insulina pelo risco de cetoacidose (ADA, seção 9, 2026). Uma revisão de 43 relatos publicados com pembrolizumabe mostrou início em mediana de 15 semanas e cetoacidose em 36 pessoas, ou 83,7 em cada 100 (Guo et al., 2026). O peptídeo C estava baixo em 30 de 34 pacientes, enquanto autoanticorpos de ilhota apareceram em só 15 de 39, e 32 de 33 seguiram dependentes de insulina (Guo et al., 2026). O dado mostra que um autoanticorpo negativo deixa o diagnóstico em pé.

Inibidores de PI3Kα e de mTOR

Os inibidores de PI3Kα, como alpelisibe e inavolisibe, e de mTOR, como everolimo, causam hiperglicemia por resistência à insulina. A ADA recomenda glicose semanal nas duas primeiras semanas de PI3Kα, depois a cada 4 semanas, e glicada a cada 3 meses (ADA, seção 2, 2026). A metformina é a primeira linha para essa hiperglicemia, e a insulina fica para os casos graves, porque a própria insulina pode reativar a via que o remédio oncológico quer bloquear (ADA, seção 9, 2026).

Uma revisão de especialistas em câncer de mama publicada em 2026 descreve que a glicemia de jejum costuma atingir o pico nas duas primeiras semanas de alpelisibe (Jhaveri et al., 2026). Os autores citam o estudo METALLICA, em que a metformina profilática reduziu a hiperglicemia, e registram que 31,9 em cada 100 pacientes que precisaram de remédio para hiperglicemia em um estudo de PIK3CA mutado acabaram usando insulina (Jhaveri et al., 2026). A ADA transformou essa experiência em recomendação de metformina para prevenir a hiperglicemia nesse contexto (ADA, Summary of Revisions, 2026).

Como aplicar ao caso da paciente

De volta à mulher de 58 anos. Ela tem insuficiência cardíaca com fração preservada, obesidade, doença renal crônica com albuminúria e glicada pouco acima da meta. Pela ADA 2026, o primeiro movimento é acrescentar inibidor de SGLT2, indicado pelo coração e pelo rim independentemente da glicada (ADA, seção 9, 2026). O segundo é considerar agonista duplo de GIP e GLP-1 ou agonista de GLP-1, pela insuficiência cardíaca com fração preservada sintomática e pela obesidade (ADA, seção 9, 2026).

Com a albuminúria persistente, o antagonista mineralocorticoide não esteroidal entra como terceira peça, com seguimento do potássio (ADA, seção 10, 2026). A metformina pode continuar, já que a filtração está acima de 30 e a insuficiência cardíaca está estável (ADA, seção 10, 2026). A sulfonilureia é candidata à retirada, e o FIB-4 deve ser calculado para estimar o risco de fibrose hepática (ADA, seção 4, 2026).

O raciocínio por trás

O que muda é a ordem das perguntas. Primeiro se pergunta que órgão está em risco, depois que classe protege esse órgão, e só então quanto falta para a meta glicêmica. Esse raciocínio também ajuda no diagnóstico diferencial, porque obriga a procurar ativamente insuficiência cardíaca, albuminúria e fibrose em quem chega para tratar glicose.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Buscar o código certo na CID-10 completa esse treino.

Perguntas frequentes

A metformina deixou de ser o primeiro remédio no diabetes tipo 2?

Ela continua útil, segura e amplamente usada, mas perdeu o posto de primeiro passo obrigatório. Na presença de insuficiência cardíaca, doença renal crônica ou esteatose com fibrose, a ADA 2026 indica as classes com proteção de órgão independentemente da glicada (ADA, seção 9, 2026).

Preciso esperar a glicada subir para usar inibidor de SGLT2?

A recomendação para insuficiência cardíaca e doença renal crônica vale independentemente da glicada (ADA, seção 9, 2026). O objetivo é proteger coração e rim.

Quem deve receber sensor contínuo de glicose?

Pela ADA 2026, quem usa insulina deve receber oferta do sensor desde o início do diabetes, e quem usa remédio oral que causa hipoglicemia também pode se beneficiar (ADA, seção 7, 2026).

O que fazer com uma criança que tem um autoanticorpo positivo?

Avaliar se já existe diabetes no estágio 3 e repetir o teste conforme idade e risco (ADA, seção 2, 2026). Com múltiplos autoanticorpos, o encaminhamento é para estadiamento metabólico em centro especializado.

Como tratar hiperglicemia em quem usa alpelisibe?

A metformina é a primeira linha, e a insulina fica para os casos graves (ADA, seção 9, 2026). A vigilância da glicose precisa ser mais intensa nas duas primeiras semanas, quando costuma ocorrer o pico (Jhaveri et al., 2026).

Todo adulto com diabetes tipo 2 deve fazer FIB-4?

A ADA recomenda o FIB-4 como rastreio em adultos com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes, principalmente com obesidade ou risco cardiometabólico (ADA, seção 4, 2026). Uma revisão recente alerta para o excesso de encaminhamentos quando a prevalência de fibrose avançada é baixa (Qadri, 2026).

Take-home messages

  • A ADA 2026 escolhe o remédio para diabetes tipo 2 pelo órgão em risco, independentemente da glicada.
  • Inibidor de SGLT2 é indicado em insuficiência cardíaca de qualquer fração e na doença renal crônica a partir de filtração de 20.
  • Na fração preservada sintomática com obesidade, entram o agonista duplo de GIP e GLP-1 ou o agonista de GLP-1.
  • Na doença renal com albuminúria, o antagonista mineralocorticoide não esteroidal completa a proteção.
  • O FIB-4 é o primeiro passo para a fibrose hepática, interpretado à luz da prevalência.
  • O sensor contínuo deve ser oferecido desde o diagnóstico para quem usa insulina.
  • O tipo 1 é estadiado por autoanticorpos, e o rastreio reduz a cetoacidose no início clínico.
  • Corticoide, inibidores de checkpoint e inibidores de PI3Kα e de mTOR pedem vigilância de glicose e tratamento específico.

Quer treinar o raciocínio diante de uma pessoa com diabetes e várias doenças ao mesmo tempo? Jogue o caso do dia no NEXO.

Referências

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  6. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 10. Cardiovascular Disease and Risk Management: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). PMID 41358899. DOI 10.2337/dc26-s010.
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