Resmetirom e semaglutida na MASH: fibrose, dose e FDA

Sumário
Um homem de 56 anos tem diabetes tipo 2 há nove anos, pesa 104 kg e mede 1,75 m. Usa metformina, atorvastatina 20 mg por dia e clopidogrel desde que colocou um stent coronariano há dois anos. Num exame de rotina, as transaminases estavam um pouco acima do normal e a ultrassonografia mostrou fígado gorduroso. O índice FIB-4 deu um valor intermediário, e a elastografia hepática sugeriu fibrose entre F2 e F3, sem sinais de cirrose. Ele bebe pouco, cerca de uma cerveja por semana. Ele pergunta se existe remédio para o fígado. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.
O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.
Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para estudantes e profissionais de saúde. Ele trata de dois remédios aprovados nos Estados Unidos para esteato-hepatite associada à disfunção metabólica, a MASH, com fibrose moderada a avançada: o resmetirom e a semaglutida 2,4 mg. O texto explica como estimar a fibrose, a indicação, a dose, as interações, o que os estudos mostraram e onde estão os limites da evidência. Ele não substitui o protocolo da sua instituição nem a bula local. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: decidir com pistas que chegam em sequência.
Principais pontos
- O resmetirom (nome comercial Rezdiffra) é um agonista do receptor beta do hormônio tireoidiano, indicado nos Estados Unidos, junto com dieta e exercício, para adultos com MASH sem cirrose e fibrose F2 a F3.
- A dose do resmetirom depende do peso: 80 mg uma vez ao dia abaixo de 100 kg e 100 mg uma vez ao dia a partir de 100 kg; com clopidogrel, a dose cai para 60 mg ou 80 mg.
- A semaglutida injetável (nome comercial Wegovy) ganhou a mesma indicação nos Estados Unidos em agosto de 2025, com manutenção de 2,4 mg por semana depois de um escalonamento de 16 semanas.
- As duas aprovações americanas são aceleradas, baseadas em melhora na biópsia, e dependem de estudos de desfechos clínicos ainda em andamento.
- Na União Europeia, o Rezdiffra recebeu autorização condicional em 18 de agosto de 2025.
- As datas regulatórias deste texto foram conferidas na FDA e na EMA em 24 de outubro de 2026.
Por que este é um cenário de raciocínio
A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, a MASLD, tornou-se a doença crônica do fígado mais comum no mundo (Reinson e colaboradores, 2026). A maioria das pessoas com fígado gorduroso nunca terá cirrose, mas uma parte desenvolve inflamação, lesão das células e fibrose. É a fibrose que mais pesa no prognóstico. Durante anos, a resposta para quem perguntava por um remédio era só mudar o estilo de vida. Agora existem duas opções aprovadas nos Estados Unidos, e a pergunta passou a ser outra: quem deve receber qual, e como acompanhar.
O cenário é bom para treino porque obriga a juntar várias pistas. É preciso entender o diabetes, o peso, o álcool, as estatinas, o antiagregante, o resultado do FIB-4 e da elastografia e o que o paciente espera. O post sobre sinais, sintomas e história ajuda a organizar essa coleta, e o post sobre tomada de decisão clínica lembra que escolher entre dois remédios é uma decisão com troca de riscos.
O que a cena ensina
A cena treina seis hábitos. O primeiro é confirmar que a causa é metabólica, e não álcool ou outra doença do fígado. O segundo é estimar a fibrose por etapas, sem pular para a biópsia. O terceiro é excluir cirrose descompensada, que muda a conduta. O quarto é revisar os remédios em uso, porque um deles interfere na dose do resmetirom. O quinto é escolher entre resmetirom e semaglutida pensando no paciente inteiro. O sexto é combinar como e quando reavaliar.
O que não está em jogo
O texto não discute cirrose descompensada, transplante, crianças nem as dezenas de remédios ainda em pesquisa. Também não compara preços. O post sobre incerteza diagnóstica ajuda a explicar ao paciente o que ainda não se sabe sobre remédios aprovados por desfechos intermediários.
Da esteatose à fibrose: o que é MASH
Em 2023, a nomenclatura mudou. O termo doença hepática gordurosa não alcoólica foi substituído por doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, e a esteato-hepatite não alcoólica, a NASH, passou a se chamar MASH (Kanwal e colaboradores, 2024). A definição de MASLD exclui quem bebe mais de 20 g de álcool por dia, no caso das mulheres, ou mais de 30 g por dia, no caso dos homens (Kanwal e colaboradores, 2024). Quem tem fator de risco cardiometabólico e consumo entre 20 e 50 g por dia nas mulheres ou entre 30 e 60 g por dia nos homens entra numa categoria intermediária, chamada MetALD (Kanwal e colaboradores, 2024). Para o paciente da cena, com uma cerveja por semana, o quadro é de MASLD.
Esteatose, inflamação e balonização
Na biópsia, a MASH se define pela presença de gordura nas células do fígado junto com lesão celular, a chamada balonização, e inflamação (Harrison e colaboradores, 2023). A gordura sozinha é a esteatose; quando há balonização e inflamação, fala-se em esteato-hepatite. Com o tempo, a inflamação estimula a deposição de colágeno, que forma a fibrose. A fibrose é graduada de F0, sem fibrose, a F4, que é a cirrose; F2 é a fibrose moderada e F3, a fibrose avançada (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024).
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Por que a fibrose importa
A guia de prática clínica da AASLD lembra que a descompensação hepática se associou a maior mortalidade por todas as causas, com razão de risco de 6,8 depois de ajuste para vários fatores (Rinella e colaboradores, 2023). A revisão do BMJ Medicine acrescenta que a MASLD aumenta o risco de eventos cardiovasculares, doença renal crônica e alguns cânceres fora do fígado (Reinson e colaboradores, 2026). Em outras palavras, o paciente da cena tem dois problemas a tratar: o fígado e o coração. Isso pesa na escolha do remédio.
O primeiro tratamento continua sendo o peso
A diretriz europeia de 2024 recomenda perda de peso com dieta e mudança de comportamento para melhorar a lesão do fígado (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024). Em adultos com sobrepeso, a meta é uma redução sustentada de pelo menos 5 por cento do peso para reduzir a gordura do fígado, de 7 a 10 por cento para melhorar a inflamação e de pelo menos 10 por cento para melhorar a fibrose (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024). Uma revisão sobre agonistas de incretinas reforça que a base do tratamento é atividade física, exercício aeróbico e de resistência, perda de peso e dieta mediterrânea (Singh e colaboradores, 2024). Os dois remédios deste texto são indicados junto com dieta e exercício, e não no lugar deles (bula americana do Rezdiffra, 7/2026) (bula americana do Wegovy, 2/2026).
Como estimar a fibrose sem biópsia
A biópsia ainda é o padrão de referência nos estudos, mas é invasiva e pouco prática para a rotina. As diretrizes propõem uma avaliação em etapas com testes não invasivos (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024) (Rinella e colaboradores, 2023).
Primeira etapa: o FIB-4
A diretriz europeia recomenda começar com um escore sanguíneo estabelecido e não patenteado, como o índice FIB-4 (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024). Ele usa idade, AST, ALT e plaquetas. A guia da AASLD usa um FIB-4 abaixo de 1,3 para identificar quem tem baixa probabilidade de fibrose avançada (Rinella e colaboradores, 2023). A mesma guia recomenda reavaliar com o FIB-4 a cada um ou dois anos quem tem dois ou mais fatores de risco metabólico, principalmente pré-diabetes ou diabetes tipo 2 (Rinella e colaboradores, 2023). Ela também lembra que o desempenho dos testes pode ser menos confiável em pessoas com diabetes (Rinella e colaboradores, 2023).
Segunda etapa: elastografia ou teste sanguíneo especializado
Quando o FIB-4 não exclui fibrose, a etapa seguinte é medir a rigidez do fígado por elastografia transitória ou por ressonância, ou usar um teste sanguíneo como o ELF (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024). A guia da AASLD descreve o ELF como um painel de três marcadores ligados à renovação da matriz do fígado: ácido hialurônico, inibidor tecidual de metaloproteinase 1 e peptídeo pró-colágeno III N-terminal (Rinella e colaboradores, 2023). A revisão do BMJ Medicine resume que a diretriz europeia recomenda encaminhar ao hepatologista quando a rigidez medida por elastografia transitória é de 8,0 kPa ou mais, ou quando o FIB-4 é de 2,67 ou mais (Reinson e colaboradores, 2026).
O que os testes não fazem
Os valores preditivos dos testes dependem do ponto de corte escolhido e da frequência de fibrose na população testada (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024). Um resultado intermediário pede repetição, outro teste ou, às vezes, biópsia. Para o paciente da cena, a elastografia sugere F2 a F3, sem sinais de cirrose, o que corresponde à faixa das duas indicações americanas (bula americana do Rezdiffra, 7/2026) (bula americana do Wegovy, 2/2026). Ainda assim, vale conferir as plaquetas, a albumina, a bilirrubina e o histórico de descompensação, porque a cirrose muda a conduta. O post sobre diagnóstico diferencial ajuda a lembrar de outras causas de transaminases alteradas, como hepatites virais, doença autoimune, ferro e remédios.
- Confirmar que o consumo de álcool está abaixo dos limites da definição de MASLD.
- Calcular o FIB-4 com idade, AST, ALT e plaquetas.
- Se o FIB-4 não excluir fibrose, fazer elastografia ou um teste sanguíneo especializado.
- Excluir outras causas de doença do fígado.
- Procurar sinais de cirrose e de descompensação.
- Encaminhar ao hepatologista quando os testes sugerirem fibrose avançada.
Fontes da lista: (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024) (Rinella e colaboradores, 2023) (Reinson e colaboradores, 2026).
Situação regulatória: FDA e EMA
Resmetirom nos Estados Unidos. A FDA aprovou o Rezdiffra em 14 de março de 2024, pela NDA 217785, como nova entidade molecular, com revisão prioritária (Drugs@FDA, NDA 217785). O Drugs@FDA lista mudanças de bula aprovadas em 19 de dezembro de 2025 e em 24 de julho de 2026 (Drugs@FDA, NDA 217785). A bula consultada foi revisada em julho de 2026 (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). A indicação é o tratamento de adultos com MASH sem cirrose e com fibrose moderada a avançada, compatível com os estágios F2 a F3, junto com dieta e exercício (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). A aprovação é acelerada, baseada em melhora da MASH e da fibrose, e a manutenção pode depender da confirmação do benefício clínico em estudos confirmatórios (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). A bula pede evitar o uso em pacientes com cirrose descompensada (bula americana do Rezdiffra, 7/2026).
Semaglutida nos Estados Unidos. O Wegovy injetável já era aprovado para controle de peso e redução de risco cardiovascular. Em 15 de agosto de 2025, a FDA aprovou um suplemento de eficácia, pela NDA 215256, com a nova indicação para MASH (Drugs@FDA, NDA 215256). A bula mais recente listada é de 25 de fevereiro de 2026 (Drugs@FDA, NDA 215256). A indicação é o tratamento de adultos com MASH sem cirrose e com fibrose moderada a avançada, compatível com os estágios F2 a F3, também por aprovação acelerada (bula americana do Wegovy, 2/2026).
União Europeia. Segundo a página da EMA, o comitê de medicamentos de uso humano emitiu parecer favorável ao Rezdiffra em 19 de junho de 2025, e a autorização de comercialização foi emitida em 18 de agosto de 2025 (página do Rezdiffra na EMA). A página informa que se trata de uma autorização condicional, válida em toda a União Europeia (página do Rezdiffra na EMA). A página do Wegovy na EMA mostra autorização desde 6 de janeiro de 2022 (página do Wegovy na EMA). Em 24 de outubro de 2026, o resumo dessa página não descrevia uso em MASH, e por isso este texto não afirma que essa indicação exista na Europa.
Outros países. Este texto não descreve o registro em outros países. A disponibilidade depende da agência local.
O que mostraram os estudos
Resmetirom: o estudo de biópsia
O estudo de registro com biópsia, chamado Trial 1 na bula, incluiu 888 adultos com MASH e fibrose F2 ou F3 na análise do mês 12: 294 com placebo, 298 com 80 mg e 296 com 100 mg (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). A mediana de idade foi de 58 anos, a mediana do índice de massa corporal foi de 35 kg/m², e 68 por cento tinham diabetes tipo 2 (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). Cada biópsia foi lida por dois patologistas, e a bula mostra os resultados de cada um (bula americana do Rezdiffra, 7/2026).
A resolução da MASH sem piora da fibrose ocorreu em 13 e 9 por cento com placebo, em 27 e 26 por cento com 80 mg e em 36 e 24 por cento com 100 mg, segundo os patologistas A e B (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). A melhora da fibrose em pelo menos um estágio sem piora da MASH ocorreu em 15 e 13 por cento com placebo, em 23 e 23 por cento com 80 mg e em 28 e 24 por cento com 100 mg (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). Ou seja, cerca de um em cada quatro pacientes melhorou a fibrose com o remédio, contra pouco mais de um em cada oito com placebo.
Resmetirom: o estudo de segurança
Um segundo estudo de fase 3, o MAESTRO-NAFLD-1, avaliou a segurança por 52 semanas em adultos com doença presumida por testes não invasivos (Harrison e colaboradores, 2023). Foram randomizados 1143 pacientes, 972 deles nos três braços duplo-cegos (Harrison e colaboradores, 2023). Diarreia leve ou moderada ocorreu em 23,5 a 31,2 por cento com resmetirom contra 13,8 por cento com placebo, e náusea em 11,9 a 18,2 por cento contra 7,9 por cento (Harrison e colaboradores, 2023). A diarreia foi mais comum nas primeiras 12 semanas e durou em mediana de 15 a 20 dias (Harrison e colaboradores, 2023). O remédio também reduziu lipídios aterogênicos na semana 24 (Harrison e colaboradores, 2023). Uma metanálise confirmou que a diarreia foi mais frequente nas primeiras 12 semanas, sem diferença significativa depois disso (Suvarna e colaboradores, 2024).
Semaglutida: o estudo de biópsia
Na análise da semana 72 do estudo de registro, chamado Study 9 na bula, foram incluídos 800 adultos com MASH e fibrose F2 ou F3: 266 com placebo e 534 com semaglutida (bula americana do Wegovy, 2/2026). A mediana de idade foi de 57 anos e 56 por cento tinham diabetes tipo 2 (bula americana do Wegovy, 2/2026). A resolução da esteato-hepatite sem piora da fibrose ocorreu em 34 por cento com placebo e 63 por cento com semaglutida, uma diferença de 29 pontos (bula americana do Wegovy, 2/2026). A melhora da fibrose sem piora da esteato-hepatite ocorreu em 22 contra 37 por cento, uma diferença de 14 pontos (bula americana do Wegovy, 2/2026). Os dois desfechos juntos ocorreram em 16 contra 33 por cento (bula americana do Wegovy, 2/2026). A perda de peso foi de 10,5 por cento com semaglutida e 2 por cento com placebo (bula americana do Wegovy, 2/2026).
A tabela resume os dois estudos de biópsia, segundo as bulas americanas. Os estudos têm desenhos, tempos e populações diferentes, e por isso os números não devem ser comparados diretamente.
| Remédio e estudo | Tempo | Pacientes | Resolução da MASH sem piora da fibrose | Melhora da fibrose sem piora da MASH | Fonte |
|---|---|---|---|---|---|
| Resmetirom 80 mg, Trial 1 | 12 meses | 298 | 27 e 26 por cento (placebo 13 e 9) | 23 e 23 por cento (placebo 15 e 13) | (bula americana do Rezdiffra, 7/2026) |
| Resmetirom 100 mg, Trial 1 | 12 meses | 296 | 36 e 24 por cento (placebo 13 e 9) | 28 e 24 por cento (placebo 15 e 13) | (bula americana do Rezdiffra, 7/2026) |
| Semaglutida 2,4 mg, Study 9 | 72 semanas | 534 | 63 por cento (placebo 34) | 37 por cento (placebo 22) | (bula americana do Wegovy, 2/2026) |
Semaglutida na cirrose
Antes do estudo de fase 3, um estudo de fase 2 testou a semaglutida 2,4 mg por semana em 71 pacientes com cirrose compensada por MASH (Loomba e colaboradores, 2023). Depois de 48 semanas, não houve diferença significativa na melhora da fibrose sem piora da esteato-hepatite: 11 por cento com semaglutida contra 29 por cento com placebo (Loomba e colaboradores, 2023). Também não houve diferença significativa na resolução da esteato-hepatite (Loomba e colaboradores, 2023). Uma revisão de 2025 resume que, nessa população, houve melhora metabólica, mas nenhuma melhora da fibrose na biópsia ou na imagem (Newsome e Loomba, 2025). Isso ajuda a explicar por que as duas indicações americanas excluem a cirrose.
Como os remédios se comparam na pesquisa
Uma metanálise em rede comparou 26 intervenções em estudos de MASH com biópsia (Souza e colaboradores, 2025). Para a melhora da fibrose sem piora da MASH, vários remédios ficaram acima do placebo, entre eles resmetirom, tirzepatida e survodutida, com intervalos de credibilidade amplos (Souza e colaboradores, 2025). O pegozafermina ficou no topo da classificação para esse desfecho (Souza e colaboradores, 2025). Uma revisão sobre agonistas de incretinas lembra que tirzepatida e outros agonistas duplos também mostraram resultados promissores na biópsia (Singh e colaboradores, 2024). Nenhum desses dados é comparação direta entre resmetirom e semaglutida, e esses outros remédios não têm a indicação americana para MASH descrita neste texto.
Como ler esses números
Os dois remédios foram aprovados por desfechos de biópsia, e não por redução de cirrose, transplante ou morte (bula americana do Rezdiffra, 7/2026) (bula americana do Wegovy, 2/2026). Os estudos que vão medir esses desfechos continuam. Também vale notar que a leitura da biópsia varia entre patologistas, como mostra a diferença entre os patologistas A e B no estudo do resmetirom (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). Para o paciente da cena, a mensagem honesta é que o remédio aumenta a chance de melhora no fígado, mas não garante, e que o benefício em longo prazo ainda está sendo medido. O post sobre pausa diagnóstica lembra de parar antes de transformar uma melhora na biópsia numa promessa.
Da escolha do remédio ao acompanhamento
Antes de prescrever, quatro perguntas mudam a conduta: há cirrose, quanto o paciente pesa, quais remédios ele usa e o que mais ele precisa tratar.
A dose do resmetirom
A bula americana pede 80 mg uma vez ao dia para quem pesa menos de 100 kg e 100 mg uma vez ao dia para quem pesa 100 kg ou mais (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). O comprimido pode ser tomado com ou sem comida e deve ser engolido inteiro (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). Com inibidores fortes do CYP2C8, como o gemfibrozila, o uso não é recomendado (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). Com inibidores moderados do CYP2C8, como o clopidogrel, a dose cai para 60 mg uma vez ao dia abaixo de 100 kg ou para 80 mg uma vez ao dia a partir de 100 kg (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). A bula não lista contraindicações (bula americana do Rezdiffra, 7/2026).
Estatinas e outras interações
O resmetirom aumenta a exposição a algumas estatinas. A bula pede limitar a rosuvastatina e a sinvastatina a 20 mg por dia e a pravastatina e a atorvastatina a 40 mg por dia (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). O resmetirom também é um inibidor fraco do CYP2C8 (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). A diretriz europeia lembra que as estatinas podem e devem ser usadas segundo o risco cardiovascular, inclusive em doença crônica do fígado (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024).
Fígado e vesícula
A bula descreve um caso de hepatite autoimune induzida por remédio, com ALT 58 vezes, AST 66 vezes e bilirrubina 15 vezes acima do limite superior do normal, que resolveu depois da suspensão (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). Por isso, pede acompanhar os testes do fígado e ficar atento a sintomas de lesão hepática (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). Colelitíase, colecistite e pancreatite por cálculo biliar foram mais frequentes que com placebo, e o tratamento deve ser interrompido num evento agudo de vesícula (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). O uso deve ser evitado na insuficiência hepática Child-Pugh B ou C (bula americana do Rezdiffra, 7/2026).
A dose da semaglutida
Para MASH, a bula do Wegovy injetável pede escalonamento a cada 4 semanas: 0,25 mg, 0,5 mg, 1 mg e 1,7 mg por semana nas semanas 1 a 16, e depois 2,4 mg por semana como manutenção (bula americana do Wegovy, 2/2026). Se 2,4 mg não for tolerado, a dose pode ser reduzida para 1,7 mg, com nova tentativa de 2,4 mg depois (bula americana do Wegovy, 2/2026). O remédio é contraindicado em pessoas com história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou com neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (bula americana do Wegovy, 2/2026). Os eventos adversos mais comuns são gastrointestinais, como náusea, diarreia, vômitos e prisão de ventre (bula americana do Wegovy, 2/2026).

Aplicando ao paciente
O paciente pesa 104 kg e usa clopidogrel, um inibidor moderado do CYP2C8. Se a escolha for o resmetirom, a dose seria 80 mg uma vez ao dia, e não 100 mg (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). A atorvastatina de 20 mg está dentro do limite da bula (bula americana do Rezdiffra, 7/2026). Se a escolha for a semaglutida, o paciente ganha também o efeito sobre o peso e o diabetes, e a bula do Wegovy inclui redução de risco cardiovascular em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso (bula americana do Wegovy, 2/2026). A decisão depende da tolerância, do acesso, do que o paciente já usa para o diabetes e do que ele prefere. O post sobre raciocínio clínico interprofissional mostra como hepatologia, endocrinologia, cardiologia, farmácia e nutrição montam esse plano juntas.
Acompanhamento
O plano inclui testes do fígado no início e durante o tratamento, atenção a dor abdominal e a sinais de vesícula, revisão das interações a cada novo remédio e reavaliação da fibrose com os mesmos testes não invasivos ao longo do tempo (bula americana do Rezdiffra, 7/2026) (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024). O paciente também segue com o programa de perda de peso e de exercício, que continua sendo a base do tratamento (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024).
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, cada caso começa com poucas pistas e você decide o que perguntar, o que pedir e quando fechar o raciocínio. A MASH é um bom exercício porque o álcool, o FIB-4, o peso e um antiagregante mudam a conduta. O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos explica por que esse formato fixa o conhecimento.
Três exercícios com casos
Mude o peso. Diga qual seria a dose do resmetirom se o paciente pesasse 92 kg e continuasse com clopidogrel.
Mude o fígado. Diga o que fazer se a elastografia e os exames sugerissem cirrose com ascite.
Mude o álcool. Diga como classificar o quadro se ele bebesse quatro cervejas por dia.
O post sobre simulação de atendimento ajuda a treinar a conversa sobre expectativas e metas de peso.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
O resmetirom serve para quem tem cirrose?
A indicação americana é para MASH sem cirrose, com fibrose F2 a F3, e a bula pede evitar o uso na cirrose descompensada (bula americana do Rezdiffra, 7/2026).
Qual é a dose do resmetirom?
80 mg por dia abaixo de 100 kg e 100 mg por dia a partir de 100 kg, com redução se houver um inibidor moderado do CYP2C8, como o clopidogrel (bula americana do Rezdiffra, 7/2026).
A semaglutida para MASH é a mesma do controle de peso?
É o Wegovy injetável, com a mesma dose de manutenção de 2,4 mg por semana depois do escalonamento (bula americana do Wegovy, 2/2026).
Preciso de biópsia para começar?
As diretrizes propõem uma avaliação em etapas com FIB-4 e elastografia ou outro teste não invasivo; a biópsia fica para casos selecionados (diretriz EASL-EASD-EASO, 2024) (Rinella e colaboradores, 2023).
O resmetirom está aprovado na Europa?
Sim. Segundo a EMA, recebeu autorização condicional em 18 de agosto de 2025 (página do Rezdiffra na EMA).
Checklist final
- Confirmei que o consumo de álcool é compatível com MASLD.
- Excluí outras causas de doença do fígado.
- Estimei a fibrose em etapas, com FIB-4 e elastografia.
- Excluí cirrose e descompensação.
- Conferi o peso para definir a dose do resmetirom.
- Revisei inibidores do CYP2C8 e a dose da estatina.
- Considerei a semaglutida pensando também no peso, no diabetes e no coração.
- Combinei testes do fígado, atenção à vesícula e reavaliação da fibrose.
Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.
Referências
- European Association for the Study of the Liver, European Association for the Study of Diabetes, European Association for the Study of Obesity. EASL-EASD-EASO Clinical Practice Guidelines on the management of metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease (MASLD): Executive Summary. Diabetologia. 2024. PMID 38869512.
- European Medicines Agency. Rezdiffra | European Medicines Agency (EMA). Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
- European Medicines Agency. Wegovy | European Medicines Agency (EMA). Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
- Harrison SA, Taub R, Neff GW, et al. Resmetirom for nonalcoholic fatty liver disease: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase 3 trial. Nat Med. 2023. PMID 37845512.
- Kanwal F, Neuschwander-Tetri BA, Loomba R, et al. Metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease: Update and impact of new nomenclature on the American Association for the Study of Liver Diseases practice guidance on nonalcoholic fatty liver disease. Hepatology. 2024. PMID 38445559.
- Loomba R, Abdelmalek MF, Armstrong MJ, et al. Semaglutide 2·4 mg once weekly in patients with non-alcoholic steatohepatitis-related cirrhosis: a randomised, placebo-controlled phase 2 trial. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2023. PMID 36934740.
- Madrigal Pharmaceuticals. REZDIFFRA® (resmetirom) tablets, for oral use. Prescribing Information. Revisada em 7/2026. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
- Newsome PN, Loomba R. Therapeutic horizons in metabolic dysfunction-associated steatohepatitis. J Clin Invest. 2025. PMID 40590228.
- Novo Nordisk. WEGOVY (semaglutide) injection, for subcutaneous use. Prescribing Information. Revisada em 2/2026. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
- Reinson T, Bilson J, Childs C, et al. Metabolic dysfunction associated steatotic liver disease: mechanisms, diagnosis, and management in adults. BMJ Med. 2026. PMID 41947908.
- Rinella ME, Neuschwander-Tetri BA, Siddiqui MS, et al. AASLD Practice Guidance on the clinical assessment and management of nonalcoholic fatty liver disease. Hepatology. 2023. PMID 36727674.
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